sexta-feira, 13 de maio de 2011

"O POETA É UM FINGIDOR?"

Fernando Pessoa

Homero

DANIEL C. B. CIARLINI

A resposta é simples: Não! Desde a sua mais remota origem, embebida na Grécia Antiga, nunca o foi, e se hoje o é, não se deve a uma tradição grandiosa, que é tão arcaica e bela quanto a origem da música, mas de uma corruptela ou má interpretação que contraria os famosos versos de Pessoa, em “autopsicografia”: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente [...]”. A leitura atenta desses versos, e a interpretação sintáxica da estrofe, são capazes de constatar que a sentença inicial faz uso do recurso de alta repercussão estrófica, para, em seguida, ser anulada pelas sextilhas que se lhe seguem em voz contrária, antítese versal. O resultado, pois, é de um trecho caracterizado por uma antinomia lógica que propõe, no campo do raciocínio, a dialética em seu sentido puro, investida de um jogo de opostos que desvencilha a proposição de verdadeira para falsa e de falsa para verdadeira, num movimento contínuo que, ao final, compreende a resolução impressa pelo português: O poeta, como fingidor, desdiz-se ao “fingir que é dor a dor que deveras sente”.


Sabedor dos estudos concernentes à filosofia, o autor de “Mensagem” empreendeu contribuição incitativa aos estudos de Petrus, Hispanus e Paulus Venetus, que se debruçaram, na Idade Média, em volta da estrutura lógica da conhecida, e observada desde a Antiguidade, Antinomia Cretense: “Um cretense diz: ‘Todos os cretenses são mentirosos’”.      

Vejamos o que nos traz até aqui: O fingimento poético, hoje tão falado e denunciado por uma série de escritores, críticos e entusiastas das letras é, na realidade, uma grande ilusão, tanto no aspecto criativo quanto sentimental. Na esfera dos sentimentos, que é a mais comum no ambiente da poesia, fica impossível produzir algo sem o conhecimento de causa – o poeta só exprime o que a vida lhe consentiu, eis uma regra fundamental, óbvia... E diferente do que muitos julgam, o poeta não nasce poeta, ele se faz, a vida o faz, os experimentos, os tormentos, as desilusões; dizer que o poeta nasce feito é, não quiçá, uma idealização romântica do século XIX, hoje obsoleta e desprestigiada... Sendo esta arte um ofício antigo, não bastavam os fatos da vida para que o poeta fosse poeta, nem tampouco que elencasse ideias concretas e palavras aleatoriamente, como bem o faz uma certa corrente de seguidores da vanguarda, antes disso era necessário obedecer e atuar dentro de uma regra, sempre, em sequência, aperfeiçoando-a, como fora durante toda antiguidade clássica, problemática esta contrária ao que muitos pensam, e nunca vencida pelo tempo: “[...] os problemas da literatura hoje discutidos por todos possuem uma relação de continuidade objetiva com as questões estéticas colocadas em sua época pelos gregos e pelos renascentistas [...]”, afirmou, corroborando com o nosso pensamento, uma das mais celebradas personalidades da teoria e crítica literárias do século XX, o húngaro György Lukács. O motivo da obediência à regra traz no mais remoto âmago da questão, a sensibilização da forma que, como tal, “determina o que a coisa é e como ela vai desenvolver-se”, afirmou o filósofo Carlos Roberto Cirne-Lima, portanto, “As formas existem desde sempre, pois são elas as forças ordenadoras da ordem do cosmos. Antes do cosmos existir, portanto, elas já existem”, concluiu.

Se o poeta não finge, o leitor muito menos, afinal, não se sente o que se expressa em arte, mas o que já está impresso no próprio interior, na elementar carga emotiva que cada ser possui; esta, sim, é a verdadeira poesia, “A poesia está em nós”, já dizia Massaud Moisés, e por “está em nós” é que “a imagem poética não está sujeita a um impulso. Não é o eco de um passado. É antes o inverso: com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa de ecos e já não vemos em que profundezas esses ecos vão repercutir e morrer”, na concepção de Gaston Bachelard. O leitor, ou observador, não sente os sentimentos do artista, o que ocorre é que através da arte ele os contempla para, então, sentir os seus – o grau de sensibilidade é ditado pela intensidade das experiências: “[...] la poesía no comunica lo que se siente, sino la contemplación de lo que se siente”, nos reforça o crítico espanhol Carlos Bousoño.

No berço da poesia a concepção de arte tinha um sentido bastante diferente do que entendemos hoje. A começar, todo artista era, de fato, e verdadeiramente, um artífice, no sentido profissional da palavra, em favor de uma realidade em um dado momento – tecelão das letras. E esta importância não era vã: A poesia exercia um papel fundamental na sociedade grega de tal maneira que através dela os cidadãos colhiam os prazeres, as crenças e os conhecimentos do mundo, papel este bem desempenhado quando se avalia que sua manifestação antecede, e serve de alicerce, tanto à filosofia quanto ao círculo, hoje frondoso, das ciências.

A poesia era mais que um repositório de razão e ensino, através de seu néctar os gregos sintetizavam a seriedade, a honestidade e as ponderações de vida. Expressar, portanto, o que exatamente se sentia era mais que uma descrição, era um subsídio para o estudo do próprio comportamento humano e sua respectiva moral. Dito isto, percebemos que para alcançar seus ideais, a poesia revestia-se de objetivos, e estes se preocupavam, naturalmente, com a verdade, um dos aspectos sociais, além da própria cultura, que unificou, neste sentido, tantas cidades-estado politicamente distintas.

O poeta, assim sendo, se forma e o é quando transcende as barreiras da parca visão e se faz, por sua própria natureza, crítico da sociedade que o assiste, quando não atemporal. Ele sente as dores do mundo e vislumbra os acontecimentos do amanhã, sempre carregado de um espírito denunciador, nostálgico, e, não quiçá, absurdo, como diria Camus, pois é nele, e só nele, que o poeta, o prosador, o artista..., enfim, consegue contemplar o novo, desfazendo-se da mesmice; a receita é clara e denunciadora: Para entender o mundo e a arte (ler “poesia” como sinônima), que é uma fagulha transgredida do pensamento, se é necessário ter “Ouvidos novos para uma música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até hoje permaneceram mudas”, já dizia Nietzsche; que o diga Rimbaud: “[...] é preciso ser vidente, se fazer vidente [...] O Poeta se faz vidente por meio de um longo e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências”, estas são umas das poucas características que traduzem o “ser poeta” vidente na acepção rimbaudiana do vocábulo, de cujo limite está descrever ao invés de desvendar soluções aos fatos do futuro, “o poeta não é obrigado a colocar nas mãos do leitor a solução histórica futura dos conflitos que ele descreve”, sabiamente pontuou, encerrando esta sentença, o filósofo e crítico literário marxista Frederich Engels.

Retomando o quesito anterior, que põe em discussão a confiabilidade historicista da poesia, podemos citar um clássico exemplo: Troia, descrita há três milênios na épica “Ilíada” de Homero, até o final do século XIX era tida como cidade mitológica, crença essa vencida quando escavações dirigidas pelo alemão Heinrich Schiliemann comprovaram a sua existência e a de diversos outros sítios arqueológicos micênicos no litoral da antiga Ásia Menor, hoje Turquia, confirmando, em defesa do antigo poeta, a veracidade das narrativas. Este fato, por si, demonstra, mais uma vez, na poesia, seu registro e caráter autênticos...

Como se pode ver, a poesia, além de preocupada com os fatos, crenças, sentimentos e sociedade, não excluía, de igual maneira, as abstrações: O artista era livre para sonhar e tecer fios de uma para-realidade compreendida através dos mitos que foram, durante muitos séculos, os elementos antecessores da ciência. E é neste ponto que, para conhecimento de sociedades antigas, ela difere da própria história, tendo o filósofo Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.), assim, se expressado: “[...] uma descreve o que aconteceu, outra o que poderia ter acontecido. Por conseguinte, a poesia é algo de mais filosófico e sério que a história; pois a poesia fala-nos daquilo que é universal e a história daquilo que é particular”. A poesia, neste caso, não só está adiante de uma narrativa neutra e amorfa, mas traduz, através dos elementos de vivência, princípios, tendências e conhecimento universal, a verdade a partir de um prisma lógico e, ao mesmo tempo, artístico, por isso mais humano, mais real, em verdade ao sentido filosófico, como o apontado pela ideia aristotélica, e diferente a uma verdade contemporânea, ligada, apenas, a particularidades e nada mais. A história já sabedora disto, hoje, revela-se com uma nova tendência, não excluindo, pois, em seus estudos, a literatura como peça fundamental para a montagem da maquete do entendimento historiográfico.

Se o poeta agora, depois de tantos anos, décadas, séculos, milênios..., se tornou um fingidor, não foi por falta de opção, mas de apuramento...
Parnaíba, 13 de janeiro de 2011.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Alphonsus de Guimaraens e sua mulher Zenaide

Raimundo Correia


11 de maio

DOIS GRANDES POETAS E JUÍZES

Elmar Carvalho

Neste final de semana recebi, por e-mail, do médico e literato Gisleno Feitosa, nascido no Ceará, porém mais piauiense que muitos de nós, simpática quadra em que ele me enquadrava como poeta e juiz. Os versos me fizeram lembrar que dois dos maiores poetas brasileiros eram também juízes. Foram eles Raimundo Correia e Alphonsus de Guimaraens. O primeiro era, juntamente com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, integrante da chamada trindade do parnasianismo brasileiro. Compôs magistrais versos e sonetos, que são indefectivelmente incluídos em todas as antologias de nossa literatura. Conta Josué Montello, na nota final de seu Diário do Entardecer, com que encerra a sua bela e monumental obra diarística, após afirmar que seu conterrâneo foi “homem de bem, juiz exemplar, companheiro perfeito”, que Raimundo Correia encontrou “a chave de ouro para seus poemas e para a própria vida: saiu deste mundo cantando, com a cabeça apoiada no regaço da companheira”. Portanto, teve o grande poeta parnasiano uma bela morte, uma verdadeira morte poética e musical. Li, salvo engano, em alguma parte, que ele ao comprar um presente para sua filha teve inúmeras dúvidas e hesitações quanto à escolha da cor, e que, mesmo após haver tomado a decisão, ainda seguiu para casa a remoer-se de dúvida. Talvez isso seja indicativo de que tenha sido um magistrado íntegro, reflexivo e excessivamente escrupuloso em suas decisões judiciais.

Alphonsus de Guimaraens, como sabemos, foi juiz municipal na episcopal Mariana. Foi cognominado o solitário de Mariana. Dinheiro pouco e prole numerosa. Entre seus filhos, se destacou Alphonsus de Guimaraens Filho, alto poeta de nossa modernidade, já falecido. Amargou a morte precoce de sua prima Constança, por quem nutriu intenso amor juvenil, que repercutiu, como o sino de um de seus mais conhecidos poemas, para o resto de sua vida. Ainda ecoam nas montanhas de Minas os versos elegíacos: “Hão de chorar por ela os cinamomos, / Murchando as flores ao tombar do dia”. Dele se disse que seus versos eram música em surdina. Sinto minha alma inebriada por muitos de seus poemas, que me encantaram na adolescência e na juventude, e que ainda hoje me enternecem com a sua sutil e melancólica melodia, que se infiltra em meu espírito, quase como um agradável veneno que me entorpece e deleita ao mesmo tempo. Ele e o sofrido cisne negro – Cruz e Sousa – são considerados pelos críticos e pelos doutos como os dois maiores simbolistas da poesia nacional. Há quem ache que o segundo poderia estar entre os maiores do mundo nessa escola literária.

No meu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, em virtude de ocupar a cadeira nº 10, que foi também foi ocupada por Celso Pinheiro, tive o ensejo de dizer: “A exemplo do Parnasianismo Brasileiro, a Escola Simbolista deveria também ter a sua trindade, em que a estrela de primeira grandeza e de fulgor extraordinário – Celso Pinheiro – brilharia ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. O poeta, ironicamente, em sua pobreza de metais, era chamado de milionário do verso, pela facilidade com que urdia os mais belos poemas e sonetos, nos quais eram vazados o seu delicado pessimismo e o seu suave lirismo, através de melodiosas palavras e de inusitadas e por vezes extravagantes imagens e metáforas”. Agora, acrescentaria: e se não fosse Celso, que fosse o nosso vate supremo, Da Costa e Silva, que, além dos poemas de matrizes parnasianas e também modernistas, em alguns poucos textos, compôs notáveis poemas de feição nitidamente simbolista, como reconhecem abalizados críticos. Por coincidência ou não, já que este mundo é composto de mistérios e enigmas perturbadores, os dois poetas piauienses faleceram no mesmo dia: 29 de junho de 1950. Finalizando, acrescento que o Piauí teve um juiz que foi também um grande poeta: Júlio Antônio Martins Vieira, autor de Canto da Terra Mártire.



Meritíssimo Juiz,
Caro poeta Elmar.
A voz do povo é que diz:
Juiz também sabe amar”!

Gisleno Feitosa

terça-feira, 10 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

10 de março

AS HISTÓRIAS DO CACHEADO

Elmar Carvalho

Estive no bar do Cacheado. Ao lhe perguntar o nome, disse chamar-se Francisco Barbosa. Aduziu que ninguém o conhecia por esse nome, mas apenas pelo apelido, que já declinei. Vendo-lhe os escassos e lisos cabelos, perguntei-lhe a razão da alcunha. Respondeu-me que quando mais moço ostentara vasta e ondulada cabeleira. Estava ele a eviscerar pacientemente uns pequenos mandis, carros-de-boi, bicos-de-pato e outros peixes miúdos, que depois enfiava numa embira de carnaúba. Em seguida, juntava as pontas da fibra vegetal e as atava, formando uma espécie de grande e belo colar, que me lembrou adereços indígenas.

Seu estabelecimento é simples e rústico. Trata-se de uma latada ou galpão, com um compartimento fechado, ao fundo, onde são guardados os produtos e equipamentos. Contudo, vê-se uma bela vegetação ao seu redor, porquanto não existem muros, nem cercas e nem paredes. Disse não admitir os “malas” em seu comércio. Revelou-me não vender bebida para jovens tatuados e com pírcingues, que para ele são tipos suspeitos e sem bom comportamento. Contou-me que, certa feita, ao se recusar a vender cerveja para alguns desses rapazes, em torno de sete ou nove, foi cercado por eles. Pôs a mão no cós da calça, simulando estar acariciando o cabo de uma peixeira, e se manteve firme na negativa. Os moços desistiram de insistir na compra da bebida, e foram embora. Perguntei-lhe se não temia alguma vingança. Retrucou que formiga conhece a folha que rói.

Falou que nasceu em outras plagas, mas que há muitas décadas viera morar em Campo Maior, quando seu pai ali fixou residência. Seu pai era um tipo boêmio, um tanto aventureiro, e que, além de sua mãe, tinha uma outra mulher. Não era alto, contudo era forte, um tanto entroncado. Não caçava conversa, mas não fugia de uma justa peleia, como dizem os gaúchos. Em certa ocasião, lutou contra nove homens, todos armados de facas. Bom no jogo de pernas, verdadeiro capoeirista naqueles idos, conseguiu vencer a luta desigual. Com destreza no uso das pernas, jogava o adversário contra a arma que ele próprio empunhava. Acabou, desse modo, fazendo com que quatro contendores estripassem a si mesmos. No final da peleja, tendo que segurar com as mãos as próprias vísceras, foi levado a um hospital ou posto de saúde da cidadezinha maranhense onde então morava, e o certo é que escapou. Não contente com esse feito extraordinário, ainda veio a matar um prefeito maranhense, além de mais alguns desafetos.

Creio que por causa dessas brigas e para se livrar de possível vingança, foi morar na terra dos carnaubais. Tinha, na época, aproximadamente 40 e poucos anos de idade. Percebeu que pessoas estranhas, talvez a mando da família do prefeito, passaram a rondá-lo. Teve certeza de que seria morto traiçoeiramente por esses pistoleiros de aluguel. Orgulhoso, destemido e não querendo ser morto à traição, em alguma tocaia, preferiu seguir para a pequena cidade do Maranhão onde matara o alcaide. E lá, com as próprias mãos, matou-se. Só para não dar o gosto de ser abatido covardemente pelos capangas, a soldo da família em busca de vindita.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

POR UM MUNDO MELHOR


CUNHA E SILVA FILHO

Às vezes, sinto cansaço deste mundo que nos cerca agora em sua dimensão globalizada, oscilando entre a alta tecnologia cada vez mais sofisticada e o individualismo atingindo níveis estratosféricos sob a bandeira perversa do egocentrismo.
Tenho a impressão de que ninguém mais quer saber um do outro, do outro mesmo, sem a conotação antropológica ou sociológica do “outro” no sentido de minorias ou de diferente em vários níveis discriminatórios: nacionalidades, condição social, cor da pele, nível econômico, nível social, ideologia, religião, inteligência etc.
A sociedade global, sobretudo a que teve acesso à riqueza e tecnologia avançada, atravessa uma delicada fase de desencontros entre os indivíduos, todos procurando distanciar-se uns dos outros, todos se recolhendo em seus nichos de subjetividades, indiferentes aos reais interesses do bem-estar material e espiritual dos amigos à moda antiga ou que ainda talvez perdurem nos rincões mais ínvios do país. Não só amigos, mas conhecidos que se cruzam e dão seus “bons dias” no sentido humano da palavra mas não os “bons dias” que correm e que não passam de significantes, ou seja, não alcançam o signo verbal tão necessário à interatividade social. Este segundo tipo de cumprimento dispenso, já que não passa de formalidade vazia semanticamente.
Quero os “bons dias” nascidos da sinceridade, da vontade de querer bem, de desejar a nossa felicidade, um “bom dia” pontuado de instantes de alegrias, um dia produtivo do ponto de vista de transmissão de energia, votos de bem-aventurança para quem é cumprimentado e para quem cumprimenta. Só vale o “bom dia” se o sentimento de reciprocidade prevalece como a vontade transitiva entre dois seres. Abaixo os “bons dias” formais, automáticos, mecânicos, reificados que mal abrem a boca, e mais parecem um sussurro de mau humor.
Não, não é isso que almejo para os mortais, para esses “esqueletos ambulantes” de que nos fala Borges. Não, quero sim os “bons dias” de quem me trata bem, de quem me saúda com o coração, de quem me vê como um ser que tem carne e alma, sentimento e razão, fraqueza e carência, coragem e franqueza e principalmente de quem “ama o teu próximo com a ti mesmo” - este belo e tão raramente seguido mandamento cristão – uma das chaves sem dúvida para um mundo melhor. Não me queiram julgar como ingênuo. Então, a paz seria ingenuidade, a alegria, uma utopia, a amizade, um despropósito, a união,, um sonho absurdo?
Estou ciente de que a complexidade dos problemas de hoje em escala planetária pode até nos deixar mais distantes uns dos outros, as relações sociais menos afetivas, o convívio no trabalho menos pessoal e feito na base da competição ou de outros objetivos inconfessáveis. Também não estou alheio de que com tudo isso endurecemos ou perdemos na corrida contra os oportunistas cuja mais alta meta é a sua própria construção pessoal, o conforto e a prática do hedonismo mais rasteiro, mais ególatra, mais superficial.

Não se pode desconhecer que o mundo não anda nada bem no que respeita ao contato social pautado mais nos interesses de natureza financeira, na valorização do indivíduo pelos ganhos do capital no sentido mais neoliberal que possa ter.
Se o marxismo está um tanto sumido, o capitalismo se desqualifica ante os grandes desacertos da economia global. Seja exemplo o que, desde 1998, tem ocorrido no sistema bancário mundial por conta de um recessão que tem abalado as economias de países ricos, criando uma tensão dilacerante entre o que seria mais conveniente aos países capitalistas, uma economia mais controlada pelo Estado ou uma Estado desregulador. Nem os ganhadores do Nobel têm conseguido equacionar novos e melhores caminhos para reequilibrar as economias de países europeus e da antes todo-poderosa economia norte-americana, agora em situação deficitária.
Já sabemos que culpados existem e quem são eles. Nada menos do que financistas irresponsáveis que só pensam naquilo que se chama “privatizar os lucros e socializar os prejuízos”, i.e. a corda só quebra no lado mais fraco – os pobres, o povo. Quem faz o mal fica impune e o prejuízo financeiro fica por conta do Estado perdulário. Os bancos, por sua vez, para honrarem seus compromissos com os credores, ainda por cima são socorridos pelo FMI. Há muito tempo ninguém imaginaria que os EUA seriam palco de manifestações ou passeatas de gente desconte com a situação econômica e social do seu povo, do cidadão americano comum?
Não é difícil compreender por que as estruturas econômicas de tantos países aliadas a conquistas realizadas nos campos da ciência e da tecnologia podem provocar tantos descaminhos, seja na relação entre as nações e seus modos de governo – o caso das atuais justas revoltas de cidadãos árabes lutando pela liberdade e por melhoria de suas condições de vidas, e governos ditatoriais que os repelem pelos massacres covardes de compatriotas -, seja no relacionamento interpessoal de povos, como no Brasil de agora, que se afastam cada vez mais de um tão ansiado encontro de uma pessoa com outra, encontro de paz, de amizade sincera e de bem-estar tão aguardado por um mundo melhor.

sábado, 7 de maio de 2011

PARNAÍBA E SUA EXISTÊNCIA


VICENTE DE PAULA ARAÚJO SILVA

Aos quatorze dias de agosto deste ano 2009, as comemorações dos 165 anos de elevação da Villa de São João da Parnahiba, à condição política de cidade da Parnaíba,  iniciaram-se com uma missa na igreja matriz de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça. Entre os presentes que a assistiam e participavam,  estavam as importantes figuras do Exmo. Sr. Governador do Estado, o Exmo. Sr. Prefeito Municipal  e o Revdo. Sr. Bispo Diocesano .

      Coincidentemente, naquele ato religioso, esses três expoentes da sociedade atual, estavam caracterizando os elementos humanos responsáveis pela existência da Parnaíba, por ocasião do início da sua povoação. Assim, José Wellington Barroso Dias, representava o  vaqueiro mestiço, curraleiro de gado;  José Hamilton Furtado Castelo Branco, identificava o colonizador, empreendedor econômico; enquanto, o Rev. Exmo. Dom Alfredo Sháffer, pontificava como o padre que aqui construiu o primeiro templo católico, ainda hoje existente, ali na atual Rua Duque de Caxias, nas proximidades da Rua Grande, hoje denominada Av. Presidente Vargas.
            
         Entretanto, neste mês, deveríamos festejar também, 247 anos da criação da Vila de São    João da Parnaíba  e  30 anos da memorável noite, quando foram queimados os tapumes da Praça da Graça,  que escondiam  a grande vergonha de sua destruição equivocada  pelo gestor municipal na época.

           Os homens e a terra  se entrelaçam há milhões de anos,  e ao longo desse tempo têm deixado as suas memórias registradas, marcando a sua história. Assim, os parnaibanos,  estão a cada dia pesquisando e encontrando as trilhas que percorreram os homens que fizeram  esta terra a Princesa do Igaraçu.
           
        Hoje, sabe-se, que a partir de 1699, a coroa portuguesa passou a buscar meios de ocupação ordenada na região próxima a foz do rio Parnaíba, quando Leonardo de Sá e outros desbravadores solicitaram terras às margens do Parnaíba. Naquela época, o vale do rio Longá, na bacia do Baixo Parnaíba, já estava ocupado por vaqueiros vindos da Bahia e Pernambuco. Dentre esses desbravadores, salientaram-se  Bernardo Carvalho de Aguiar, fundador  de São Miguel dos Tapuios, Campo Maior e a Vila Velha da Parnahiba,  hoje município de São Bernardo (Ma);  Francisco Lopes, fundador de Buriti dos Lopes;  e Pedro Barbosa Leal, fundador da Vila Nova da Parnahiba, surgida  dos  primeiros fogos (moradias) existentes às margens do Igará, braço do rio Parnaíba.
            
        A organização e comando econômico  da vila, em 1711,  no Porto Salgado, que a partir de 14/08/1844, passou  a ser a  cidade da Parnaíba, coube ao pernambucano João Gomes do Rego Barros,  preposto do proprietário, o rico sertanista baiano  Pedro Barbosa Leal,  residente na Bahia, que fez prosperar a feitoria  da salga de carne e curtição prévia da courama bovina, até 1725, quando recebeu a doação de terras no Delta do Parnaíba, passando a residir na localidade Testa Branca, atualmente a comunidade Chafariz.
           
         Os fatos mais antigos e importantes na história da existência da Parnaíba, estão às vistas dos olhos, através dos documentos existentes no livro Registro de Provisões nº 81,de 1688 a 1732, encontrados no Arquivo Público do Estado do Maranhão, como também, no  marco histórico da  fundação da Vila Nova da Parnahba, a igrejinha de Nossa Senhora  do Monserrathe, solicitada a sua construção por João Gomes do Rego Barros, Capitão Mor e procurador do senhor donatário da vila, Pedro Barbosa Leal.
         
      Essas relíquias,  documental e  arquitetônica, comprovam a  autorização  e a  construção  da igreja, pelo Vigário Geral, Governador do Bispado em São Luís,   Pe. Ignácio Martins Barreiros, em 11 de  junho de 1711,  sendo nomeado como pároco e construtor,  o Padre  João da Conceição.
         
         Diante o exposto, todos os parnaibanos natos e adotados, em respeito às memórias  marcantes  dos homens que ao longo dos tempos fizeram a nossa  história, devem estar  aliados na tomada  de medidas que possam dignificar as comemorações dos 300 ANOS DE PARNAÍBA, em  2011, promovendo assim, a legitimidade do início glorioso de nossa cidade. 

Phb, 15/08/2009 -  Da série : ESTÓRIAS A RESPEITO DA HISTÓRIA DA PARNAÍBA

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ODEON BATISTA E AS CACIMBAS DO CEARÁ

Odeon Babista - GM-GOB/PI

ELMAR CARVALHO

Desde muito tempo admirava o entusiasmo contagiante como o saudoso mestre Odeon Batista se referia à maçonaria, a sublime instituição, como ele gostava de proclamar. Nos seus discursos maçônicos, notava-se a força e a vibração de sua alma, quando ele se referia ao Grande Arquiteto do Universo, sobretudo exaltando a suma bondade divina. Odeon transmitia paz e generosidade. Diria que ele era um maçom nato, pois tinha de forma espontânea e natural as qualidades de um verdadeiro mestre maçom. Fiz algumas viagens em sua companhia, integrando sua comitiva, quando ele foi o Grão Mestre do GOEPI.


Certa feita participei de um evento em Piripiri, em que se fizeram presentes algumas lojas das cidades vizinhas, entre as quais a do Oriente de Piracuruca. Nessa sessão, foi lido um trabalho escrito pelo irmão Israel Correia, da Fraternidade Parnaibana, em que era analisado, com muita proficiência e profundidade, o meu poema Mística I, calcado na simbologia maçônica, porém escrito antes de eu ingressar na excelsa ordem. Na oportunidade foi entregue à loja piripiriense um quadro com um banner ilustrado, contendo esse texto.

O Grão Mestre Odeon, com o entusiasmo e vibração de sempre, teceu elucidativos comentários sobre o texto do Israel e sobre o poema. Acrescentou, com a sua costumeira lhaneza, que lhe era sempre agradável absorver o que ele chamou de minha sabedoria. No auge do seu entusiasmo, em flagrante exagero, terminou dizendo que eu era semelhante a uma cacimba, sempre a minar sabedoria.

Logo depois, usou da palavra o irmão Gilberto Escórcio, douto advogado, venerável da loja de Piracuruca. Esse irmão disse que me conhecia, e que já tivera oportunidade de exercer sua profissão na Comarca de Capitão de Campos, da qual eu era titular na época. Contudo, em brilhante e brincalhona ironia, disse que estava admirado de o eminente Odeon haver me comparado a uma cacimba, pois ele considerava que eu seria pelo menos um oceano.

Quando me foi permitida a palavra, esclareci que o Grão Mestre estava certo, pois eu, na minha simplicidade, na minha humildade, não passava mesmo de uma cacimba rasa e seca das terras esturricadas do Ceará, enquanto ele, Gilberto, em seu brilhantismo e erudição, era um poço jorrante das quebradas do Gurguéia. As gargalhados e os sorrisos transformaram as verrinas e catilinárias, um verdadeiro “fogo amigo”, em agradável episódio anedótico e deram o toque de bom humor à solenidade.

Com a palavra novamente, o mestre Odeon explicou a razão de sua metáfora, aparentemente despropositada, em se tratando de “elogio”, e disse que fizera a analogia porque em sua terra natal, o Ceará, as cacimbas eram muito importantes, porquanto ficavam minando um fio d'água perene. Em sua simbologia, eu estaria sempre a “minar sabedoria”, o que bem sei não ser verdade, uma vez que a verdade verdadeira está com o velho Sócrates, quando disse que uma coisa sabia, e isto é que nada sabia. Quando nos encontrávamos, de forma sempre bem humorada, recordávamos essa passagem anedótica e engraçada.

Tempos depois fiquei chocado com a notícia de sua morte, tão precoce quanto surpreendente, no seu pago natal. Morrera ao cair de ponta cabeça num cacimbão, o que me fez recordar a cacimba de sua metáfora, decerto evocativa da nostalgia da paisagem de sua infância e juventude, em que certamente perpassava o fantasma da inclemência das secas, mitigadas apenas por essas fontes, escavadas muitas vezes nos leitos exauridos dos rios e riachos.

As cacimbas do Ceará ainda continuam a ressoar e a escoar em minha saudade, e me trazem a lembrança vívida de um homem bom, de um bom amigo, de um maçom de fato e de direito, que trazia a centelha divina incrustada em seu coração e em sua palavra de fé, esperança, entusiasmo e bondade.

De um homem alto e forte, que tinha a alma suave e sem jaça de um menino.

MÍSTICA


Elmar Carvalho

I

Arrebatado por um carro de fogo
eu próprio em fogo transformado
os céus galguei
as fúrias todas como louco aplaquei
e a escada cintilante de Jacó
passo a passo subi.
Devassei as vísceras mecânicas
da baleia do profeta
e a gênese do primeiro
átomo desvendei.
Penetrei o caos primacial
e o primeiro vagido
da vida escutei.
E Deus estava lá
por trás de tudo:
logo após em regressão
a explosão do átomo primordial.

II

Meu anjo da guarda
em sete anjos transmudado
minha guarda de honra revistava
e com sua espada de fogo
ou raio laser
franqueava-me a entrada
da gruta dos leões
enquanto Daniel dormia
à minha sombra.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

ELMAR CARVALHO


XXXI

No fundo negro
o pão na cesta era um convite
irresistível à fome que rondava.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Foto meramente ilustrativa


Foto meramente ilustrativa

4 de maio

AS NORMALISTAS E O MALANDRO

Elmar Carvalho


Do meu posto de observação, eu via o bando de estudantes passar, não sei se a caminho da escola, ou se desta retornando, pela indefinição do horário. Mas as moças não estavam vestidas de azul e branco, como as normalistas da bela música de Benedito Lacerda e David Nasser, magistralmente imortalizada pelo inesquecível Nelson Gonçalves, com sua vibrante e melodiosa voz grave, que, saída das cônicas e metálicas bocas das amplificadoras de outrora, encantou gerações de românticos, seresteiros, saudosistas e outras faunas similares. Não sei se eram normalistas. Creio que não. Sei que a farda não era alviceleste, mas branca e verde, talvez em virtude do modismo ambientalista. Certamente, em decorrência da idade, carregavam ilusão e esperança, esta simbolizada pela cor do uniforme.

Contudo, me fizeram retornar ao país de minha adolescência, quando, da esquina em que me postava, eu via as normalistas passarem, a caminho do Patronato, no qual funcionava a escola, no alto de suave colina, onde eram realizados festejos e quermesses. A colina já não existe. Foi sufocada por um monstrengo de tijolo e argamassa. De algumas admirei a beleza e a graça de menina e moça, à distância, um tanto recolhido em minha mal dissimulada timidez. De outras, colhi a graça e a beleza, nos contidos e não tão contidos namoros de então, quando não existia, no sentido deturpado de hoje, a palavra fico. Fico era mesmo do verbo ficar, ou, no máximo, o episódio em que Pedro I se recusou a voltar para Portugal.

Perto de onde eu me encontrava, notei a presença de um velho fauno boêmio, que arrastava as asas para uma vendedora ambulante, sentada à sua banca. O seu sotaque, com um chiado excessivo nos esses, mormente nos plurais, era o de um carioca, pelo menos de um falsificado carioca “paraguaio”, querendo impressionar a moça, já não tão moça assim, com a sua gíria, gingado e chilreio. Escutei quando o velho fauno disse que trabalhava porque precisava, mas que voltava porque a amava, em manjado repertório de cantadas, que seriam românticas, acaso não fossem cômicas pelo desgaste do uso exaustivo, repetitivo. Quando um seu conhecido ia passando, o quase decrépito boêmio perguntou, carregando no chiado e no carioquês:
- E aí, elas te deram os corpos?
O outro não perdeu o rebolado e, igualmente malandro e bem humorado, retrucou:
- Não, os corpos eram delas!
E forçou o chiado, arremedando o (talvez) falso carioca.
Já as estudantes haviam deixado de passar, carregando com elas o simulacro de um outro tempo, que ainda remanesce na memória de uns poucos.

terça-feira, 3 de maio de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



3 de maio

DETRAN – ESPAÇO DA CIDADANIA?

Elmar Carvalho


Esclareço, inicialmente, que não irei tecer comentários e nem emitir juízo de valores, na parte relativa ao relato dos fatos. Também procurarei ser objetivo, e evitarei quaisquer enfeites retóricos e de adjetivações. Deixarei que o leitor faça a sua própria avaliação. Limitar-me-ei a narrar os fatos tais como aconteceram. Em virtude do estresse da vida atribulada e corrida de hoje, terminei esquecendo de renovar o emplacamento de meu carro no mês de abril, já que a sua placa tem terminação 4. Por essa razão, precisando viajar para a cidade onde trabalho, fui logo de manhã, nesta segunda-feira, dia 2 de maio, renovar o seu licenciamento.


Precisamente às 10:39 horas, no Espaço Cidadania, situado no antigo hortomercado Domingos Monteiro, e não mais no shopping Teresina, para onde me dirigira, recebi a senha DET169, categoria de atendimento normal, sendo que havia outras categorias. Mais tarde fui pagar as taxas constantes do boleto que recebi. Para não ter nova preocupação burocrática, resolvi pagar o valor total, sem parcelamento. Com as taxas pagas e as fotocópias dos documentos exigidos, voltei ao local de atendimento, e fiquei a observar a placa eletrônica indicativa das chamadas. Note o leitor que, só na parte relativa à prioridade normal, existiam 168 pessoas à minha frente. Não se nota o tamanho da fila porque a pessoa fica sentada em cadeiras dispostas em várias fileiras. Portanto, o “cidadão” fica na ilusão de que não está numa fila, cuja lentidão só se percebe pelo escoar dos minutos e das horas.

Finalmente, por volta das 13:20 minutos chegou a vez de minha senha. Não era sem tempo. Afinal, eu já estava na fila fazia 2 horas e 41 minutos. Exultante, fui ao guichê indicado. Qual não foi a minha surpresa quando a servidora disse, denotando certo mau-humor, que não poderia atender-me, uma vez que teria que comprovar no sistema que eu havia pago as taxas, embora eu estivesse a lhe exibir o comprovante fornecido pelo Banco do Brasil, agência do shopping Teresina, e lhe dissesse que ela poderia ficar com o comprovante original; eu ficaria com a fotocópia. Ela, então, com a sua letra, escreveu na minha senha a palavra retorno, e recomentou-me voltar 30 ou 40 minutos após. Tomei a deliberação de voltar duas horas depois, para não correr o risco de receber a mesma desculpa anterior. Consequentemente, retornei às 15:30 horas, aproximadamente.

Para minha surpresa, recebi a informação, nada auspiciosa, diga-se de passagem, de que o sistema continuava “fora do ar”. Ora, bolas, quem, então, ficou fora do ar fui eu. Pedi que o responsável pelo posto do DETRAN do Espaço Cidadania me desse uma declaração sobre a circunstância de que eu tentara renovar o emplacamento de meu carro, e que o “sistema” (nada sistemático) da repartição falhara. A servidora, para minha perplexidade, disse que eu deveria me dirigir à direção geral do DETRAN para receber tal declaração. Sentindo-me um perfeito cidadão, para não dizer pária ou idiota, virei as costas e fui embora. Se eu fosse um “fela”, teria ido à direção geral, do outro lado da cidade, onde sequer sei se seria atendido. Mas como não sou, não fui.

Fiz este relato da maneira mais objetiva e precisa possível. Deixo que o leitor tire suas próprias conclusões. Não irei dizer que sofri verdadeira tortura, física e psicológica. Não irei dizer que no local de espera fazia muito calor e que suei à beça ou a cântaros. Se existiam aparelhos de ar condicionado funcionando, eles não davam conta da missão de refrigerar o Espaço Cidadania. Também não irei dizer que achei o serviço péssimo e o atendimento pior ainda. Não, não irei. Muito menos irei dizer que o tal espaço mandou a cidadania para o espaço sideral, e deveria chamar-se, antes, da anticidadania, ou inimigo do cidadão, como disse um rapaz em alto e bom som, evidentemente morto de satisfeito com o serviço que lhe estava sendo prestado. Quero apenas dizer que não me senti um cidadão no Espaço Cidadania.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

SEPARAÇÃO (UM MOMENTO PARA REFLETIR)


ALCIONE PESSOA LIMA

Se um sonho é sempre algo mais
E uma vida se desfaz em sua busca,
Quem será capaz de destruí-lo se recomeçar for preciso?
Um novo horizonte, com quem vai caminhar...
Coisas que o amor, só o amor responderá.

O novo é sempre o novo...
O começo, sempre é o início, mesmo disfarçado de reinício.
Pode ser um sol diferente, um luar mais brilhante.
Pode ter frente aos olhos o melhor diamante...
Mas, sempre o tempo dirá que é necessário lapidá-lo.

Somos seres humanos e o erro nos acompanha,
e sonhamos e queremos e desejamos aquilo que não nos foi dado
ou que nos foi tirado...
Seria a perfeição imaginada? Seria sim a dúvida...sempre a dúvida...
ou o medo...ou um desesperado gesto a extravasar as frustrações!

Seria um sentimento reprimido? O que seria, então?
Mas, quem responderá? O coração?Coitado!
Está sufocado pela dor da despedida e radiante esperando a hora da partida...
Já estende a mão. Já sente a pulsação de um outro ser que o chama...
E lhe abre os braços...e o imagina....e não dorme...É a completude da vida!
E sente um sorriso em contraste com um choro...
Um rosto que surge e outro que se apaga...
E se confundem na imaginação...

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


A TRAGÉDIA DA GALINHA MAROCA

Elmar Carvalho

Com diferença de dois ou três dias, começaram a chocar seus ovos a galinha Maroca e a pata Bilu. Como esta estivesse chocando apenas seis ovos, Josefa, a dona da casa, resolveu completar a ninhada, uns nove ou dez dias depois, com quatro ovos de galinha, de modo que os patinhos e os pintos pudessem eclodir dos ovos ao mesmo tempo. Com efeito, o cálculo da mulher foi preciso; os pintos e os patinhos rebentaram a casca quase ao mesmo tempo. Bilu aceitou os filhotes de galinha do mesmo modo como aceitou os seus próprios; com o mesmo zelo, com o mesmo cuidado, com a mesma atenção.

Era bonito de se ver, no terreiro da casa de taipa, por sobre o tapete de capim e babugens, a galinha rodeada de seus doze filhotes e a pata arrastando atrás de si os seis patinhos e os quatro pintinhos, em perfeita integração filial e materna. Por esse tempo, João, um filho de Josefa e de Doca, que estava trabalhando no corte de cana em São Paulo, veio passar as férias com os pais. Trouxe a namorada e um amigo. A moça, natural de São Paulo, ficou extasiada ao ver os pintos e os patinhos, catando milho ou ciscando no terreiro, posto que nunca tivera contato com a vida campestre, embora seu namorado fosse um trabalhador rural, uma vez que o conhecera na cidade, onde ele passava os fins de semana, em companhia de seus colegas.

Um dia a pata Bilu viu a cancela aberta, e resolveu, seguida de seus filhotes, aventurar-se por lugares mais distantes. A sensação de liberdade a fazia mais lépida e mais leda. Com muita alegria avistou a lagoa. Logo seu instinto de animal e de mãe, lhe fez sentir o desejo de ensinar os filhotes a nadar. Assim, aproximou-se da margem da lagoa. Lentamente, entrou na água, incentivando-os a fazerem o mesmo. Um dos patinhos, o mais afoito, começou a entrar na água; sentiu que podia flutuar, e cheio de regozijo descobriu que sabia nadar. E nadou, para cá e para lá, a voltear e em linha reta.

Não demorou muito, os outros patinhos, um a um, foram imitando a mãe e o irmão pioneiro. Por último, entraram os pintinhos, e aí aconteceu a desgraça. Os quatro descobriram, da pior maneira possível, que não eram patos e que não sabiam nadar. Terminaram por morrer afogados. Bilu, quando descobriu o que acontecera, esforçou-se em retirar os pintos da água, segurando-os pelo bico ou os empurrando com a titela e as patas. Quando os colocou fora da lagoa, sacudia-os, como se desejasse reanimá-los, mas em vão. Vendo que o seu esforço era inútil, e temerosa de que o mesmo pudesse acontecer aos seus outros filhotes, tratou de retornar para casa, onde eles teriam maior segurança.

Horas mais tarde, João e seu amigo, que foram tomar banho na lagoa, retornaram com a notícia de que encontraram os quatro pintinhos mortos. Então, Josefa verificou que a pata Bilu estava acompanhada somente dos seis pequeninos patos. Pode imaginar o que havia acontecido. Poucos dias depois, por motivo de doença, três patinhos vieram a morrer, de modo que Bilu agora só se fazia acompanhar de três filhotes. Foi então que o filho de Josefa, incentivado por seu amigo e pela namorada, programou uma comemoração para o domingo, uma vez que na quarta-feira teriam que retornar a São Paulo, tomando um ônibus na cidade mais próxima. Convenceu Josefa a matar a pata, para servir de tira-gosto. A princípio a mulher foi contra, com pena da pata e dos filhotes, mas os dois rapazes insistiram, sob o argumento de que era a festa de despedida e de que os três patinhos restantes seriam acolhidos pela galinha. Josefa disse que se Maroca aceitasse os patinhos, mataria a mãe deles. Os rapazes, mais do que depressa, esconderam a Bilu, e colocaram os patinhos no meio dos pintos. No começo houve certa rejeição, mas logo os patinhos já se sentiam à vontade e acompanhavam Maroca, como se ela fosse mãe deles. Dessa forma, mataram e comeram a pata. Os visitantes foram embora e a casa retornou à normalidade rotineira e sossegada da zona rural, em que nada de extraordinário acontece.

Poucos dias após a morte de Bilu, em que ela se transformou em delicioso repasto, quando tudo seguia a bitola da rotina mais rotineira, Maroca encontrou a cancela aberta, e decidiu seguir pelo caminho em que via bichos e homens passarem. De longe avistou a água da lagoa, reverberando aos raios daquela manhã calma e agradável, em que uma aragem fria agitava levemente as ervas e as folhas. Viu que a beira da lagoa era mais verdejante. Seguiu para lá, procurando apressar os filhotes e os três patinhos, que considerava seus filhos. Procurou um lugar em que havia uma pequena barranca, e que lhe pareceu mais agradável, por ter pastagem mais verde e mais tenra, e por ter a sombra de uma ingazeira. Quando menos esperava, um dos patinhos saltou na água, pulando da barranca em que se encontrava. Era o mesmo patinho que primeiro nadara, acompanhando sua mãe, a pata Bilu. Maroca, se pensava, não pensou duas vezes; mãe extremosa, com o seu instinto de mãe superando o da conservação, achando que o patinho corria risco de vida ao cair na água, que sabia traiçoeira e perigosa, saltou atrás.

Josefa, ao sentir falta da galinha, foi procurá-la. Lembrando-se do que acontecera com a pata Bilu, com a consequente morte dos pintinhos, seguiu apressada para a lagoa. Sem muita dificuldade, encontrou três patinhos nadando esplendidamente na lagoa, e a galinha e seus pintinhos mortos por afogamento. Josefa, ante a tragédia da Maroca e de seus filhotes, ficou a ruminar que, assim como pau é pau e pedra é pedra, galinha é galinha e pato é pato; que o que Deus faz é bem feito. E que ela, ao interferir nas regras da natureza, provocara a morte daqueles seres inocentes. Fez uma cova debaixo da ingazeira, e nela colocou Maroca e seus filhotes. Mesmo achando pudesse ser uma heresia, com uma faca fez uma cruz no tronco da árvore. Com os olhos úmidos, pôs no regaço os três patinhos, e seguiu para casa.


COMENTÁRIO

Elmar Carvalho:

Você está mesmo me surpreendendo. Parece uma máquina de contar histórias. A imagnação está fértil. A diversidade de situações se acumula e vamos tendo, ante os nosso olhos, relatos que saltam da imaginação para a vida ou vice-versa (só você tem a chave desses mistérios!). Por isso, o parabenizo e faço votos que, sem também cair no estresse do cansaço da escrita pois esta cansa mesmo a nossa cabeça e exige esforço intelectual de organização das ideias em alguma forma/fôrma (Massaud Moisés) literária que seja ao mesmo tempo conhecimento e experiência da vida e arte transformada em objeto, que é a crônica ou outro gênero de ficção, poesia, texto teatral etc.
A história, ou melhor, o conto, "Tragédia da galinha Maroca" bem ilustra o que venho tentando insinuar sobre o seu processo de criação literária.
Os grandes actantes do relato não é Josefa, nem seu filho, nem os outros personagens que compõem o texto. Os grandes personagens, elevados mesmo à condição de humanos, são Maroca, Bilu, os patinhos e os pintinhos. Neles se concentra o núcleo da trama. Sem eles, a história não anda nem cumpre seus papéis.
Há algo de alegoria sobrepairando a trama.
Desta se tira ilações que se transferem para a conduta dos chamados seres humanos. Os erros dos humanos existem e podem causar muitos males, até tragédias. No entanto, há algo que o próprio texto flagra: é arriscado que as ações e decisões humanas sejam tomadas para satisfazer uma vontade que não se compatibiliza com a lógica dos mortais. Não adianta forçarmos a barra.
Por outro lado, o texto descortina um outro aspecto na relação entre pessoas e aves (galinhas e patos), que, embora sejam animais diferentes, têm suas limitações que, na ordem da naureza, não executam as mesmas ações, nem têm as mesmas habilidades físicas. Não se respeitando a ordem natural das coisas, causam-se tragédias. O sentimento das aves em questão, da galinha Maroca e da pata Bilu, embora digno de nossa admiração, se equipara no conto aos bons sentimentos maternais.
Josefa se faz uma ação má, ao mesmo tempo se redime pensando que os patinhos e pintinhos se integrariam em tudo, inclusive na habilidade de nadar. Ao fim do relato, o sentido trágico dos destinos de Maroca e de Bilu se iluminam aos olhos pesarosos de Josefa. A tragédia se consuma toda vez que se instala o caos entre a ordem normal entre os mortais e suas ações contraditórias, impensadas ou más, não importa que atinjam animais desprotegidos.

Cunha e Silva Filho 


domingo, 1 de maio de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

CHARGE E TEXTO: JOÃO DE DEUS NETTO


GISLENO FEITOSA

Gisleno Feitosa nasceu a 21/11/1949, em Iguatu-CE. Médico com pós-graduação em Ginecologia; membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Academia de Medicina do Piauí, Academia de Letras do Vale do Longá e Sociedade Brasileira de Escritores Médicos. Cronista, Contista, Poeta. Obra publicada: “Vide Bula para Viver Melhor”. Co-autor de “Florilégio Poético”, livro editado pela Sociedade Gaúcha de Médicos Poetas.


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