segunda-feira, 6 de julho de 2015

DUELO DE VOVÔS HISTÓRICOS


DUELO DE VOVÔS HISTÓRICOS

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Fim de vida x Pé na cova - No próximo dia 25, sábado, a partir das 16h, no Society Clube de Amarante, no bairro Limoeiro, será realizado um novo encontro de confraternização envolvendo jogadores amarantinos e de outras localidades que marcaram história no futebol de Amarante e por esse Brasil a fora.

A principal atração serão os times FIM DE VIDA e PÉ NA COVA, duas tradicionais referências do futebol da terceira idade de Amarante-Piauí. Fim de Vida Esporte Clube, surgiu na década de 90, numa idealização de Virgílio Queiroz, durante um Encontro Cultural. O primeiro jogo foi contra o time formado por servidores da Fundação Cultural do Piauí, onde os visitantes perderam pelo placar de 3 X 0.

Posteriormente, Fim de Vida tornou a vencer a mesma agremiação. Desta feita por 3 X 2. Depois o clube ficou sem participar durante alguns anos. A sua última apresentação se deu em 1998 quando a equipe perdeu para os jogadores de Teresina Ressacados Eternos (time do Dr. Newton Nunes), pelo placar de 5 X 2.

Bebeto Soares criou o Pé Na Cova Esporte Clube para ser o eterno rival do Fim de Vida. “Orlando Curtidor”, reverenciado também como “Zagueiro Muralha”, ao lado do seu irmão Antônio Soares (Tota), organizaram em 2013 e 2014, uma comemoração dos grandes nomes do futebol de Amarante do século passado, com jogadores beirando os 80 anos, no Clube Society Amarantino.

O confronto contou com o apoio do SAMU de Amarante, de funerárias, de farmácias, Clínica e Laboratórios e teve a animação da banda Rasga Mortalha, Charanga Sepultura e do Grupo de Samba “Unidos Pela Saudade”. As torcidas organizadas “Findevidestes e As Penacovedestes”, com garotas de 50 anos, um show à parte.


Os jogos acontecem no 3º sábado de julho. Vale salientar que minutos antes da competição, os jogadores consumiram muitas bananas conduzidas pela jumenta Vanusa, num oferecimento do popular amarantino Riba da Banana Comprida. Depois, churrasco e muita cachaça.

Lançamento de Címbalos e aniversário do Café Literário


domingo, 5 de julho de 2015

Dílson Lages eleito para a Academia Piauiense de Letras

Em pé, da esquerda para a direita: Homero Castelo Branco, Humberto Guimarães, Fonseca Neto, Reginaldo Miranda, Oton Lustosa, Francisco Miguel de Moura, Paulo Nunes, Dílson Lages, Magno Pires, Nildomar da Silveira Soares e Elmar Carvalho.
Agachados: Herculano Moraes e Nelson Nery Costa

Dílson Lages Monteiro cultiva gêneros literários diversos e publicou doze livros, passeando entre a prosa e a poesia, além de produzir livros didáticos. Para o professor de Teoria Literária da Universidade de Brasília, Ricardo Araújo, “A poesia de Dílson Lages tenta recuperar através do sentidos “O sabor das imagens”, propondo novas associações de imagens e ampliando o horizonte de possibilidades metafóricas". Ainda, segundo Araújo, "Lages cria novas metáforas buscando ilações inusitadas e auscultando os diversos sons provenientes destes seres peculiares que integram a personalidade humana de cada um de nós".

O processo de criação de imagens na poesia de Dílson é também destacado pelo escritor Francisco Miguel de Moura. Na mais recente edição de Literatura Piauiense, editado em junho de 2015, Moura enfatiza que esse é o traço estilístico que personifica a poética de Dílson. “Sua dicção poética tem matriz na imagem com sobreposição de metáforas, no uso da metonímia e outros tropos”, diz, enfatizando que o poeta “vai reinventando recursos além da retórica tradicional, ao lado de criações linguísticas da modernidade”.

Rogel Samuel, romancista, críticos literário e professor aposentado da Pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escreveu que a poesia de Dílson, principalmente no livro Os olhos de silêncio, é uma poesia “Zen”. Diz o escritor que “ é a poesia mínima, reduzida ao mínimo, no minimalismo característico do pós-moderno”.

A atuação de Dílson Lages  na literatura vem se estabelecendo nos últimos anos pela exploração da prosa de ficção  em narrativas curtas e longas.  O morro da casa-grande (1997, duas edições), novela, e O rato da roupa de ouro (2014), conto infantil, foram recebidos com louvor por leitores e críticos literários. Adotados em escolas no Piauí e fora dele, esses livros consolidaram um novo escritor em formação. Naquele, o prosador uniu memória, ficção e poesia, para contar a destruição do patrimônio cultural de sua cidade-berço; neste, resignificando elementos do conto infantil clássico,  aproveitou para, por meio do lúdico, envolver as crianças em virtudes universais como a bondade e o altruísmo.

Conforme o crítico literário  Manoel Hygino do Santos, da Academia Mineira de Letras, em artigo publicado no jornal Hoje em Dia (Belo Horizonte-MG), “O morro da casa-grande trata-se de um trabalho interessante, a que não faltam vocábulos praticamente não usados no Sudeste e no Sul, expressões bem próprias do interior piauiense. Mas um texto agradável, com uma narrativa que faz sentido e tem propósitos claros, entre os quais o de proteger tanto quanto possível o legado das velhas gerações”.

Analisando a linguagem empregada por Dílson Lages na novela "O morro da casa-grande", o escritor e crítico literário Cunha e Silva Filho, Pós-doutor em Literatura pela UFRJ, ressalta que a "ideia propiciada pela leitura da sua narrativa teria aquela mesma sensação da leitura de um texto poético". O crítico acrescenta que, "Há um dado que muito conta a favor desse escritor: é que, ao lado da linguagem que, por vezes, tangencia a poetização do seu tecido literário, ao mesmo tempo existe um cuidado especial com a linguagem, com a sintaxe do discurso narrativo, e isso é bem visível no espaço do enunciado, no qual as imagens poéticas e o lirismo potencialmente forte se casam perfeitamente, numa harmonia de um discurso que traz um sabor - diria - clássico".

Dissecando temática e estruturalmente a novela, Cunha e Silva Filho esclarece que “o leitmotif da narrativa não deixa de ser a derrubada da igreja na sua imbricação com a imagem fantasmagórica do morro da Casa-Grande. Dessas duas circunstâncias podemos depreender toda a motivação  do núcleo  do relato. A Igreja da Matriz  de Barras reforça esse elemento temático-nuclear com  a chancela histórica de ilustrações inseridas no corpo do texto , assim como de outras ilustrações e paisagens alusivas ao meio rural, a um antepassado histórico, ao rio Marataoã, a ruas de Barras, a outros logradouros da cidade e, finalmente,  a ilustrações representativas daquela igreja. Esses dados da realidade no campo e  na cidade, por assim  dizer, quebram a chamada ilusão ficcional, predispondo o leitor a uma volta ao mundo empírico e a ver a ficção como  uma mera construção imaginativa, mas não desligada dos seus liames histórico-culturais.”

Para a escritora e doutora em Estudos Literários pela UFG, Rosidelma Fraga, “O projeto de escritura histórica é seco, medido e racional, mas a forma como a narrativa é contada, sem dúvida, é de um lirismo derramado”. Ela salienta que ‘a ênfase do narrador para a antiga cidade de Barras do Marataoã é tão delineada que o rio de mesmo nome parece adquirir vida humana em forma de lirismo puro: “O Marataoã parece que saiu do lugar – repetia a balconista, com o leque nas mãos. O leque dançando, dançando, ao som seco e abafado do vento. O leque atritando o ar em coreografias” (MONTEIRO, 2012, p.13).’

Entre os que escreveram sobre o conto infantil O rato da roupa de ouro, ricamente ilustrado por Ângela Rêgo, está o crítico literário de O Globo José Castello. Em extensa resenha, Castello desnuda os mecanismos de criação empregados por Dílson Lages,  para levar o tema da política e do poder aos pequenos. Para o crítico, “A história de Dílson Lages Monteiro conduz seus pequenos leitores a uma confrontação precoce (e divertida) com a fragilidade dos valores humanos. Mostra-lhes que eles são móveis, que eles são instáveis, que eles são transitórios — que eles são, enfim, o que define o próprio humano”.

O Portal Entretextos, que agrega colaboradores e entusiastas da literatura, é criação de Dílson Lages. Fundado em 2002, o Portal é referência em literatura. Em artigo intitulado “O uso de blogs e chats no ensino de literatura”, publicado na revista Letras Hoje, da PUC-RS, o professor da universidade Estadual de Maringá (UEL), Dr. Marciano Lopes e Silva, recomenda Entretextos como uma das páginas literárias em Língua Portuguesa com conteúdo relevante para utilização em aulas de literatura (http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/viewFile/7528/5398).

Textos do Portal Entretextos são utilizados atualmente em atividades do projeto didático A didatiteca virtual de ensino em português, elaborado pelo Departamento de Português do Centro de Ensino de Línguas Estrangeiras da Universidade do México (CELE – UNAM)



OBRAS PUBLICADAS:

a)Mais Hum (poemas – 1995);

b)Cabeceiras: a marcha das mudanças (estudo historiográfico – 1995) – coautoria;

c)Colmeia de concreto (poemas – 1997);

d)Os olhos do silêncio (poemas – 1999);

e)A metáfora em textos  argumentativos (ensaio – 2001)- duas edições

f)O sabor dos sentidos (poemas – 2001);

g)Entretextos (artigos e entrevistas – 2007);

h)Texto argumentativo – teoria e prática (didático – 2007) – adotado em diversas escolas como livro-base para alunos de terceiro ano do Ensino Médio;

i)Adiante dos olhos suspensos (poemas – 2009);

j) O morro da casa-grande  (romance – 2011) – duas edições. Obra adotada como leitura obrigatória  em várias escolas, inclusive fora do Piauí.

l)O rato da roupa de ouro (infantil – 2012) – livro adotado por diversas escolas do Piauí e fora do Estado.

m)Ares e lares de amores tantos (poemas – 2014).



OBRAS INÉDITAS:

Infantis –  Meus olhinhos de brinquedo  (no prelo) , A formiguinha espiã, A ovelha que voava,  O gato da pele de gente e Bem-ti-vi, bem tem vê;

Infanto-juvenil – O menino da alma de pássaro (em fase de reescrituras);

           Novela – Capoeira de Espinhos     

Fonte: Portal Entretextos

sábado, 4 de julho de 2015

Panegírico ao poeta Leonardo Castello-Branco

Panegírico
a Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco



Tenho a grata satisfação de convidá-lo para a solenidade de homenagem ao poeta, cientista e revolucionário piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, pela passagem dos 132 nos da sua morte, com a seguinte programação:

Dia: 12.07.2015 (Domingo):
Ás 07 h - Réquiem para Leonardo – Intenções da missa no domingo do 
                senhor, na Igreja Matriz de N. S. da Boa Esperança;
Às 09 h - Palestra sobre a vida e obra de Leonardo;
              - Apresentação da 2ª edição de “O Santíssimo Milagre” e sua         
                 autoria;
              - Exposição de trabalhos do homenageado;
Às 11 h - Fundação do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico       
               “Leonardo Castelo Branco”.
Local: Clube Recreativo Princesa do Longá – Esperantina – PI.

Valdemir Miranda de Castro – cel. 86-99952-0051 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

DA EFERVESCÊNCIA À QUIETUDE


DA EFERVESCÊNCIA À QUIETUDE

Jacob Fortes

Quando as cidades (metrópoles ou ruralizadas) despertam e põem-se de pé ouve-se, em agitada exultação, o rebuliçar do povaréu nas feiras; destacadamente as vozes, gritadas ou cantadas, dos pregões: vendedores e camelôs em euforia soltam a voz em gorjeios estentóreos. Com seus bordões afinados e compridos proclamam, num vozear festivo, as suas mercadorias, quinquilharias e bugigangas: ora empoleiradas, ora estendidas sobre o chão poento. Do palpável ao impalpável, há de tudo: o alimento; o produto; o serviço, inclusive o de cerzir sob uma tenda; o escambo, deste por aquele; panaceias para todos os males, realçando a medicina hipocrática; a salvação da alma, pelo ocultismo ou práticas mágico-religiosas; o amuleto, contra acontecimentos funestos e malefícios de qualquer natureza; o grito chamativo; um assobio; a contravenção, (mocozeada num repartimento secreto) exprimindo o esperançar dos que se entregam a um bom palpite na bicharada; o tatuador, zebrando corpos com suas agulhas; a melodia solitária, sem ovação, de uma flauta ou uma sanfona. Enfim, nesse picadeiro de existências ensanduichadas e sofridas, mas exultante de vida, (onde à alegria, labutam pessoas sem as distinções inventadas pelo homem), assiste-se a cenas de todos os matizes e vê-se de tudo; do reles ao magnífico, do trivial ao bizarro: sapato para galinha, bainha para foice e, obviamente, os parasitas que não trabalham: carteiristas, malandros e vadios. Também, em meio a essa bulha, os resíduos humanos, de mãos súplices, no ofício da mendicância (retalhinhos das chagas sociais de um país tão exuberante feito um automóvel galhardo, mas em estado de enguiço, apeado do vigor, exposto ao vexaminoso flagrante de pôr-se a reboque por lhe haverem despojado as partes valiosas. Ensoberbecido e afeito ao raro privilégio dos menus à La carte, o país instou-se a migrar para o cardápio dos comuns: lata de almoço debaixo do braço. “O que é que você troxe na marmita, Dito? — Troxe ovo frito e torresmo a milanesa”).


Mas a página efervescente das feiras esmaeceu, apequenou-se. O destino, agenciador de venturas e desgraças, encarregou-se de aplacar o fervor desses ababelados locais de mercancia popular. O que era exaltação e arrebatamento quedou-se: virou acalmia melancólica. Enquanto houver uma feira triste haverá uma pátria mal aviada.   

quinta-feira, 2 de julho de 2015

HOMENAGEM AO JUIZ BERNARDO LUCAS MATEUS



2 de julho   Diário Incontínuo

HOMENAGEM AO JUIZ BERNARDO LUCAS MATEUS

Elmar Carvalho

No dia 7 de maio, à tarde, segui para Parnaíba. No dia seguinte, às 19:30 horas, seria lançado meu livro Confissões de um juiz, que teria apresentação do poeta e escritor Alcenor Candeira Filho. Alguns poemas de minha autoria seriam interpretados pela atriz Carmem Carvalho. A solenidade aconteceria no auditório SESC/Avenida Presidente Vargas, como efetivamente aconteceu, na forma programada.

Pretendia prestar uma homenagem pessoal ao impoluto magistrado Bernardo Lucas Mateus, que relevantes serviços prestou à Justiça, ao exercer seu cargo com dignidade em diversas Comarcas do Estado do Piauí. Por essa razão, ao chegar à cidade de Buriti dos Lopes, resolvi visitá-lo. Minha mulher pediu que fôssemos antes à casa do senhor Bezinho Val. Dediquei-lhe um exemplar, e autografei outros, que deixei a seu cuidado, entre os quais os destinados ao advogado Bernildo Val, seu filho e prefeito do município, ao juiz de Direito Marcos Cavalcante e à biblioteca pública municipal.

O senhor Bezinho Val pediu-nos para nos acompanhar na visita que faríamos ao Dr. Bernardo Lucas Mateus, o que muito nos gratificou. Em seus mais de oitenta anos de idade, acho que quase 85, demonstrou muita agilidade e vigor ao entrar ou sair da picape. O anfitrião nos recebeu com a sua natural fidalguia. Mantivemos rápida palestra, embora ele estivesse deitado em uma cama, a tomar soro ou medicamento intravenoso, sob os cuidados de uma enfermeira.

Vários filhos, entre os quais o Luquinha, netos, parentes e amigos se encontravam na casa. Senti que ele não poderia comparecer ao lançamento de meu livro, de forma que lhe autografei um exemplar, e me despedi. Pouco mais de um mês depois, recebi, através do Canindé Correia, a notícia de seu falecimento, e dias após o Paulo César Lima me pediu, através de telefonema, para que eu escrevesse um texto, que ele leria na missa de sétimo dia; o escrito integraria um folder a ser distribuído no final do ato religioso.

Nesse texto, uma espécie de crônica, eu dizia não saber se o saudoso magistrado teria conseguido ler o meu livro, em virtude de seu grave estado de saúde, mas que desejava tivesse isso acontecido. Um ou dois dias depois, quando o Paulo voltou a me telefonar sobre o meu depoimento, falei também com o Luquinha. Este, emocionado, já tendo lido o meu texto, me revelou que seu pai, certa madrugada, acordara e perguntara pelo meu livro, que lhe foi entregue.

Acomodou-se em sua cadeira preferida, e leu algumas páginas. Ao deitar-se para dormir, guardou cuidadosamente o volume de minhas Confissões entre as dobras de seu pijama. Esse ato de carinho e apreço me vale mais do que muitos elogios e certas “homenagens”. Segue, abaixo, o meu depoimento sobre o nobre magistrado, lido na missa de sétimo dia, celebrada na matriz de Nossa Senhora dos Remédios, no dia 22, às 19 horas:

“Atendendo pedido do amigo Paulo César Lima, meu conhecido desde o final dos anos 1970, desejo prestar esta singela homenagem a meu colega de judicatura Dr. Bernardo Lucas Mateus, que engrandeceu e dignificou a magistratura piauiense.

Em sua simplicidade e modéstia, nunca se preocupou em ser glorificado pela toga que vestiu, mas, ao contrário, honrou e dignificou as suas vestes talares. Despido de vaidade e ostentações, não se preocupou com a ritualística forense e eventuais honrarias de seu cargo, mas, sim, em agir com Justiça e equidade, sem apego a formalismos desnecessários, que apenas contribuem para entravar a marcha processual.

Em sua carreira, foi juiz em várias Comarcas, desde esta, a sua querida Buriti dos Lopes, até a longínqua Corrente, no extremo sul de nosso estado, nas ribas do Corrente e do Gurguéia. Por vários anos, foi titular do Poder Judiciário em Barras, município de rica tradição cultural e de portentosa história, que importantes intelectuais e governadores legou ao Piauí e ao Brasil, em cujo rincão nasceram muitos de meus ancestrais.

O Dr. Bernardo Lucas Mateus sempre foi respeitado em sua cidade natal e nas Comarcas onde exerceu suas funções de julgador. Embora não fosse um ermitão, por causa de seu temperamento e talvez também em virtude de seu cargo era discreto e de postura algo reservada, o que mais contribuía para o enaltecimento de sua figura de julgador probo e justo, sempre correto em suas decisões interlocutórias e sentenças.

Fez por merecer o respeito e o acatamento de seus conterrâneos, de seus jurisdicionados e de seus pares. Magistrado emblemático, nunca se ouviu falar de fatos, atos, feitos e malfeitos, que pudessem macular a sua biografia, a sua imagem de magistrado imparcial. Ao contrário, as referências a sua pessoa, tanto como cidadão como na qualidade de juiz, eram sempre as melhores possíveis, e as suas qualidades, de que não fazia alarde em sua modéstia, eram sempre reconhecidas.

Ao aposentar-se, retornou ao seu torrão natal, à sua nunca esquecida cidade de Buriti dos Lopes. Recolheu-se à sua velha morada solarenga, uma verdadeira quinta, banhada por um córrego e ornada por exuberantes e frondosas árvores, a ler os seus livros e a fazer as suas meditações. De maneira discreta, sem que uma das mãos soubesse o que fazia a outra, sem propaganda e finalidades espúrias, praticou a caridade, fez o bem aos seus semelhantes, em obras que não preciso aqui declinar.

Embora não o conhecesse há longo tempo, exceto de nome, algumas vezes o visitei em sua residência. Sempre me acolheu com lhaneza e alegria. Encetávamos rápida conversa, em que lhe pude perceber o interesse cultural. Notei que ele tinha considerável conhecimento da geografia e, sobretudo, da história do Piauí. Repassei-lhe alguns livros de minha autoria.

No dia 7 de maio, ao cair da noite, em companhia de minha mulher Fátima e do Sr. Bezinho Val, o visitei pela última vez. Não obstante muito fragilizado pela doença, nos recebeu com muita alegria. Meu objetivo era convidá-lo para a solenidade de lançamento de meu livro Confissões de um juiz, em que lhe desejava prestar singela homenagem pessoal por sua judicatura digna e honrada, mercê de suas virtudes pessoais, que se refletiram em sua conduta magistratural.

Deitado em seu leito, sob os cuidados de uma enfermeira, sabia que ele não poderia comparecer ao evento, que aconteceria na noite do dia seguinte. Autografei-lhe um exemplar, que lhe entreguei. Não sei se ele conseguiu lê-lo, ao menos algumas páginas. Tenho certeza de que o faria, se a saúde lhe permitisse.

Dessa última visita, ficou-me a imagem, que para sempre conservarei, de um homem bom, cordato, que aceitava com resignação o sofrimento de sua doença, sem queixas e sem mágoas. Não aparentava ter medo de que o termo de seus dias parecia estar próximo. Deu-me a impressão de que aceitava mansamente a cortina de sua vida estivesse a se fechar.

Consta na Bíblia que o rei babilônico Belsazar, no festim em que ele conspurcou os vasos sagrados do Senhor, viu estampar-se na parede do palácio real este letreiro: “Mene, mene, tequel, ufarsim.” Devidamente interpretada pelo profeta Daniel, a frase foi traduzida, e significa: “Pesado foste na balança, e foste achado em falta.”


Certamente Bernardo Lucas Mateus, que na sua condição de magistrado usou a balança da justiça humana com todo cuidado e cautela, tendo em mente a advertência de Jesus Cristo – “a medida que usarem, também será usada para medir vocês” – ao transpor os umbrais de uma das moradas do Senhor, encontrará escrita na parede, em letras capitulares e cintilantes: ‘Pesado foste na balança, e foste achado digno de entrares. Sejas bem-vindo.’”  

terça-feira, 30 de junho de 2015

ANOS 60


ANOS 60

Antonio Reinaldo Soares Filho

Nos encantos dos tempos dourados
 Vivemos os anos sessenta deslumbrados.
A inocência partilhando das emoções.
O respeito ordenando o arrebatamento,
E a esperança vislumbrando a certeza.
A mocidade se preparando para o porvir,
Medos, a insegurança reprimida, sonhos...
No ar sopravam ventos carregados de magia
Misturavam-se ingenuidade, encantamento, alegria,
E o sol brilhava intensamente nas manhãs de domingo.
A cidade pequena com pouca iluminação pública,
Namoros escondidos por trás do cine, do parque infantil, beco do círculo...
Pelas telas dos filmes semanais,
Pelas ondas dos rádios e jornais,
Nos eram mostrados os acontecidos pelos nossos ídolos.
Oeiras, pontos de encontros da juventude, O Café Oeiras, Passeio Leônidas Melo, o Oeiras Clube.
As mocinhas a saborear sorvetes inesquecíveis
Com o frescor dos seus primeiros anos,
Lindas, perfumadas, botões em fl or a desabrochar.
A rapaziada mostrando-se senhores,
Marcavam espaços pela fragrância da brilhantina.
Uma camisa ban-lon, uma calça foroeste,
Uma cuba libre na mão, à espera do flerte.
Os balaústres da muralha do amor,
Estação derradeira de sonhos realizados.
Aquarelas de um tempo
As inesquecíveis tertúlias dançantes.
Bailavam-se com rostos colados, delirando, Velhos sambas canções e boleros latinos.
O twist e o rock encantando com Diana e Oh! Carol...
A bossa nova refi nada e a jovem guarda idolatrada.
Serenatas em noites enluaradas
 O violão dedilhando poesias românticas
Declarações subjetivas de paixões embriagadoras.
 Compartilhávamos felizes os sonhos da primavera,
Uma necessidade incontida de viver intensamente.
Tempos maravilhosos, eternizados pelas lembranças.
Foi assim a Oeiras de minha adolescência.  

domingo, 28 de junho de 2015

Seleta Piauiense - Rodrigo M. Leite


do dia que nunca vi Cecília

Rodrigo M. Leite (1989)

quando pensei em Cecília
a primeira vez
ela
ainda não existia
andava eu por aí, carregado
da necessária tristeza
ziguezagueando fogo nas calçadas
cidade desmoronando terraços vizinhos
quando pensei em Cecília primeira vez
só a palavra Cecília enfurecia
o seu nome ecoando na quentura
Cecília, Cecília... (mulheres!)
inaugurou este poema     

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Na mesma situação do Velho Lima


Na mesma situação do Velho Lima
           
Cunha e Silva Filho


         Não sei se o leitor mais velho se lembra do personagem  de um conto  de Artur Azevedo (1865-1908), o Lima, funcionário  público do  final do  Segundo Império, que, tendo adoecido gravemente,   embora   não tenha procurado  a ajuda médica, permaneceu em casa durante nove dias, ou seja, a partir da véspera da Proclamação da República  brasileira, acontecida em 15 de novembro de  1889.
       Lima morava no Engenho  de Dentro, subúrbio da ex-Central do Brasil. O tom do conto é inteiramente farsesco e construído  com  extrema  habilidade narrativa.
      Restabeleceu-se   com  simples  “remédios  caseiros,” graças aos cuidados de uma  gorda   mulata que há vinte anos  lhe servia  não só como  cozinheira, mas também  na cama.  No dia 23 do citado mês, Lima   saiu de casa, pegara o trem e fora  trabalhar na sua repartição no Centro do Rio de Janeiro. 
     Para resumir,  Lima não tinha  o costume de ler jornais, nem tampouco aquela  com quem morava.  A República tinha sido proclamada  e, portanto,  derrubado o Império. E o velho Lima  ignorava a radical mudança  do regime  de governo do país.
    Durante a viagem, encontrou-se com  o comendador  Vidal, cumprimentando este pelo  título. Ao responder a saudação, o velho Lima estranhou que Vidal o  tivesse chamado de “cidadão.” 
   A grande  força  caricaturesca do conto  é esse diálogo com o Vidal  e  a permanência  desse estado de quiproquó  que se estabeleceu entre ele o  Vidal.  Lima  passou a  achar    pelo avesso  tudo que lhe respondia o companheiro de viagem de trem.
    Esta situação  equívoca chega a um  ponto em que  o velho Lima  passa a ver nos outros    um comportamento   de loucos. Enquanto  tudo se invertia, Lima  se mantinha convicto  de que ainda  vivia  sob o regime  imperial.   
   Ninguém o conseguia demovê-lo dessa  posição até o desenlace  da narrativa, cuja derradeira cena hilariante fora  a entrada na seção em que  dava expediente. Perguntou ao continuo por que haviam    retirado da parede o retrato de Dom  Pedro II. O contínuo, de forma  desrespeitosa  e  num “tom  lentamente “desdenhoso,”  lhe respondeu:
 “— Ora, cidadão,  que fazia ali a figura de Pedro Banana?”(grifo meu)
“—Pedro Banana! Repetiu  raivoso o velho Lima.” E, sentando-se, pensou com tristeza:
“—Não dou  três  anos para  que isto seja República!
  Pelo visto,  o velho Lima  acertara, mas a um alto  custo de três  anos  de risos e mofas por sua alienação.
     Pois, leitor,  foi assim que, hoje,  lendo  manchetes de O Globo, constato,  após algumas semanas  mergulhado num  projeto de um livro  de memórias, que o país anda   de ponta cabeça. O que vejo: violência descomunal  no Rio de Janeiro e em outras  partes do país,    arrocho do  governo  federal  contra o povo, situação caótica da Universidade  Estadual do Rio de Janeiro,  crescimento do desemprego,   aumento de juros   decretados pelo  governo federal,  ausência do  Ministro da Fazenda para anunciar  os  escorchantes   cortes   em setores  vitais  ao desenvolvimento do país,  educação,  saúde,  transporte, excetuado  a menina dos  ovos de ouro do  PT,  a bolsa-família  - maior  curral eleitoral  petista e, o que é pior,  em ações  tomadas pelo governo, no setor da economia,  que recairão  sobre os costados  do brasileiro.
    Me  pergunto: ainda não se tocaram  as nossas   autoridades que todos  esses  graves  problemas  que estamos atravessando  foram  provocados  pelo  desgoverno petista que nos enganou a todos,  ocultando,  por razões meramente  eleitoreiras a fim de se manter no  poder, que, nos bastidores  do Palácio do Planalto  estavam prestes a explodir  todas  essa bombas  atiradas contra  o  Estado  Brasileiro,  com dois  sucessivos epicentros   de  corrupção  deslavada, o escândalo do  Mensalão e o  da Petrobrás além de outros  que poderão surgir durante  mais  investigações da  Operação  Lava-Jato? 
    Já avaliaram  todos  os bilhões de reais que deveriam  estar  no Erário Público e que  foram  sugados  para os bolsos  de políticos  da situação e de dirigentes  de estatais e empresários    corruptos em conluio com  políticos de partidos  da base de sustentação do governo?
     E o povo nada faz. E a Justiça   até quando   fará  justiça  colocando na cadeia  ladrões da  República? O povo  é como  o brasileiro  que não lê jornais, como  o personagem Velho Lima de Artur  Azevedo, como a sua  serviçal e amásia.
     As raízes da nossa passividade  vêm de longe,  desde a Escravidão, pelo menos. Não imitemos  o velho Lima, estejamos  atentos aos fatos  atuais, lendo, ouvindo, falando,  escrevendo, agindo como cidadãos a quem  a Presidente  Dilma deve satisfações de seus atos   e de seus  erros. Não somos  escravos,  objeto comprado  pelos  poderosos do passado. Queremos liberdade, mudanças  da lei  da maioridade  penal e outros  pleitos  necessários  ao bem-estar  da sociedade.
   Não permitamos que o país  se torne uma tragédia  social, com a morte de inocentes em “cidades esfaqueadas” para usar um título de uma crônica  de Arnaldo Bloch. Por falar em crônicas,  a página de Opinião de O Globo de hoje, dia 23 de maio,  estampa dois artigos sobre a violência, um do cronista Zuenir  Ventura, de resto,  para ser mais  exato, uma  crônica  magnífica,   “Há sangue em cada notícia,” e um artigo,  “A violência do teste de virgindade,”  escrito a quatro mãos, de  Maria Laura Canineu e Phelim Kine. 

  O país precisa  despertar os velhos Limas  para  a realidade trágico-grotesca  que nos angustiam  atualmente por todos os lados.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

MESTRE CHICO E A LITERATURA DO PIAUÍ

Membros do Jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos, vendo-se, da esquerda para a direita, no 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Danilo Melo, Francisco (Neco) Carvalho, Diderot Mavignier, Franzé Ribeiro, Sólima Genuína, Bernardo Silva, Reginaldo Costa e Paulo Martins; 3º plano: Jonas Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho e Flamarion Mesquita. Percebe-se, nesta fotografia, a felicidade dos retratados com esse reencontro, posto que vários moravam em outros estados e municípios. Hoje, a maioria já não reside em Parnaíba. Os literatos desse grupo são todos da Geração Marginal ou 70.

25 de junho   Diário Incontínuo

MESTRE CHICO E A LITERATURA DO PIAUÍ

Parte II

Elmar Carvalho

Ao longo de muitos anos pude constatar que o poeta Francisco Miguel de Moura foi um grande pesquisador, tanto da história de nossa literatura como também de teoria e novos recursos da linguagem literária. Percebi que ele tinha a mente aberta às mais diferentes propostas e soluções. Sem ser propriamente um cerebralista, nos moldes de um João Cabral de Melo Neto, escravo do trabalho e da “transpiração”, buscou sempre as inventividades e as coisas boas da chamada vanguarda.

Nesse aspecto, poderia dizer que, em muitos textos e em algumas de suas fases, foi um experimentalista, na busca incessante da renovação do seu fazer literário, tanto na prosa como na poesia. Creio que talvez ele tenha sido o primeiro (ou pelo menos um dos pioneiros) a utilizar os postulados do concretismo no Piauí, mormente com a prática do verbi-voco-visual. Nesses textos fez uso de um discurso contido, mas com a observância da sonoridade das palavras e da visualidade ou disposição das palavras na página em branco, por vezes formando uma espécie de carmen figuratum. Mas sem descurar do conteúdo, de que sempre foi cioso.

Fora a sua contribuição pessoal, escrevendo os seus textos e publicando os seus livros, foi também um notável editor, que teve o desprendimento de publicar contos, crônicas e poemas alheios. Foi o primeiro a publicar uma antologia de contos, na qual reuniu os mais importantes ficcionistas da época, que depois se firmaram em nossa literatura de todos os tempos. Essa obra coletiva foi intitulada Piauí: terra, história e literatura (1980), em cujo texto introdutório o seu organizador (FMM) esclarece:

“A aparição dessa primeira antologia ou seleção da história curta, no Piauí, mostra o quê? Até então ninguém tinha pensado nisto, ou, se pretendeu realizar, não pôde transpor os obstáculos. Mostra que – tento responder – a literatura em prosa existe, entre nós, como em poesia. Sendo pioneira, é por esta reunião que, no futuro, se aquilatará documentariamente o esforço de duas gerações. E suas pequenas mas válidas conquistas. Aqui temos uma ideia do enfoque do homem piauiense, através da ficção miúda.”

Publicou, durante sete anos (1977-1984), a revista Cirandinha, num total de dez números. Esse importante periódico literário acolheu diversos autores piauienses, divulgando-lhes os poemas, os contos, as crônicas e outros textos. Cirandinha também publicou entrevistas e depoimentos de intelectuais do Piauí e do Brasil, como Celso Barros Coelho e Ferreira Gullar. Eu mesmo tive a satisfação de ter sido colaborador de um dos seus números, tendo um de meus poemas sido estampado numa de suas páginas, quando eu ainda era um bisonho poeta interiorano.

Publicou ainda, sob a forma de encartes, importantes obras de nossa literatura, como a novela Amarga Solidão, de O. G. Rego de Carvalho, e a peça teatral Reino do Mar sem Fim, de Francisco Pereira da Silva, campomaiorense, um dos maiores teatrólogos brasileiros. Além disso, a revista publicava notícias literárias e tinha uma postura combativa contra a ditadura militar, de maneira especial contra as eleições indiretas e a censura.

Nos anos 1990, Chico Miguel, na qualidade de presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, continuou em sua vocação de editor. Como se estivesse involuntariamente lhe seguindo as pegadas, durante quase cinco anos fui o editor e presidente do Conselho Editorial dessa Fundação. Tive a oportunidade de contribuir para a publicação de importantes livros, entre os quais a primeira edição de Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo, de Teresinha Queiroz, A poesia piauiense no século XX (FCMC/Imago), antologia organizada por Assis Brasil, e o monumental Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí, que consumiu 30 anos de pesquisa de seu autor Cláudio Bastos. Durante meu período, a importante revista literária e cultural Cadernos de Teresina foi publicada de forma regular. A cada quatro meses, essa revista e vários livros eram lançados em verdadeira festa literária. Esforcei-me para que Cadernos de Teresina tivesse uma boa programação visual e para que os livros tivessem bonita capa e fossem bem editados.


Como todos reconhecem, Chico Miguel, em sendo talvez o último polígrafo do Piauí, é também um importante crítico literário, graças a seus estudos acadêmicos e esforço pessoal contínuo. Já deu provas disso através de vários textos e livros, sobretudo da obra em que analisou e interpretou a romancística de O. G. Rego de Carvalho. Coroou esse mister literário quando publicou a primeira edição de Literatura do Piauí.

Agora, como uma enorme contribuição à literatura piauiense, a editora da Universidade Federal do Piauí (EDUFPI) lhe publica a segunda edição, revista e aumentada. A obra traz um volume de informações muito grande. Enfoca os grandes autores do passado e os que estão se firmando no presente. Em sua reconhecida franqueza e sinceridade, não faz concessões às amizades pessoais.

Em sua didática organizacional, optou por dividir a nossa literatura em gerações, de acordo com os critérios adotados, e devidamente explicitados nos textos que antecedem cada grupo, nos quais são feitos o histórico e análise de cada geração. São estudados, sobretudo, os literatos, em sentido estrito, mas também são incluídos os principais historiadores, dramaturgos e críticos literários.

Podemos dividir didática ou esquematicamente o livro nas seguintes partes: Teoria, Gerações Históricas, Modernidade, Atualidade, A Crítica e Antologia da Crítica. No segmento Gerações Históricas incluiu três gerações e mais o modernismo, neste abrigando os poetas que tangenciaram o modernismo, ou que o praticaram de forma esporádica ou tímida, ou apenas circunstancialmente. Essa escola, como FMM reconhece, só chegou ao Piauí tardiamente. Considera José Newton de Freitas como sendo o verdadeiro introdutor do verso moderno em nosso estado.

Em “Modernidade”, após concluir na parte teórica, com o crítico Wilson Martins, que depois do Modernismo não mais existem escolas literárias, mas apenas movimentos, incluiu três gerações: a Meridiano (da qual foram referidos M. Paulo Nunes, Afonso Ligório Pires de Carvalho, O. G. Rego de Carvalho, A. Tito Filho, Fontes Ibiapina, Assis Brasil, Álvaro Pacheco e H. Dobal), a do CLIP (da qual foram principais representantes Francisco Miguel de Moura, Hardi Filho, Herculano Moraes e Magalhães da Costa) e a Marginal (também conhecida como Geração 70 ou do Mimeógrafo). Estuda os principais membros dessas gerações. Informa que a última geração surgiu pioneiramente no interior do estado, e não na capital; que, “tanto em Picos quanto em Parnaíba, duas publicações eram feitas em mimeógrafo: Voz do Campus e o Linguinha”.

Pertenço à Geração Marginal ou 70, e estou na companhia, entre outros, dos seguintes literatos: Alcenor Candeira Filho, Paulo Machado, Cineas Santos, Durvalino Couto Filho, Nelson Nunes, João Pinto, José Ribamar Garcia, Rubervam Du Nascimento, Menezes y Moraes, Oton Lustosa e William Melo Soares. Entre os mais jovens, foram citados Dílson Lages Monteiro e Lara Larissa. Ainda, pertencentes a essa geração, foram mencionados os teatrólogos Aci Campelo, Wellington Sampaio e Afonso Lima. Por fim, foi referida a Geração do Milênio, da qual foram citados os escritores e poetas Ana Miranda, Adrião Neto, Beth Rego, Carlos Alberto Gramoza, Chico Castro, Carvalho Neto, Climério Ferreira, etc. Uma curiosidade: o poeta Rubervam Du Nascimento foi mencionado como sendo também violinista, faceta que lhe desconhecia.

Os verbetes são mais ou menos longos, conforme o merecimento atribuído aos autores. Não foram arrolados apenas dados biográficos e obras, mas foram emitidos comentários críticos, ainda que eventualmente sucintos. Os principais literatos foram contemplados com até três textos de sua autoria, de modo que Literatura do Piauí é ainda uma cuidadosa seleta. Seguindo o seu pioneirismo, FMM achou por bem incluir na parte final da obra uma “antologia da crítica”, na qual foram coligidos artigos e ensaios de diferentes autores. Evidentemente, conforme suas preferências, gosto pessoal e idiossincrasias, o leitor poderá entender que determinado literato deveria ser excluído, e que outro deveria ser citado. Mas isso sói acontecer em qualquer listagem de “maiores” ou “melhores”, sobretudo em campo tão subjetivo como é a arte literária.


Em suas quase quatrocentas páginas de análises, comentários críticos, história e informações diversas, Literatura do Piauí é uma monumental obra, que prova, definitivamente, de uma vez por todas, que a literatura piauiense existe, e que não cabe mais nenhuma dúvida quanto a isto.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Barras do Marataoan: O Retorno




Barras do Marataoan: O Retorno        

Chico Acoram Araújo

           Alguns dias atrás fui a minha cidade natal, Barras do Marataoan. Há muito tempo por lá não ia. A cidade cresceu, inchou; não se desenvolveu.  O comportamento das pessoas mudou. As crianças e jovens não diferem nem pouco dos que moram nas grandes cidades. Perderam a simplicidade interiorana; a violência é marcante. Tudo mudado. Aliás, ultimamente, perdi o encanto em visitar meu torrão. Há quase dois anos não andava por minha saudosa Barras. A última vez estive lá por conta do velório e sepultamento de uma estimada parente. Cabe aqui salientar que o objetivo dessa viagem de agora era apenas para conduzir minha tia de volta à Teresina, conforme tínhamos acertado semana antecedente a sua ida àquela cidade. A viagem fora marcada para o domingo seguinte.
                Acordei cedo no domingo, sem muita vontade; comumente, nesse sagrado dia, levanto-me um pouco mais tarde. Uma preguiça perpétua me abate. Nada, porém, que um bom  banho não possa dissipar.
O dia amanheceu ensolarado; o céu com um azul brilhante, brisa calma e aconchegante. Dia bom para uma viagem, pensei. Despedi-me da esposa, e parti.
                Em pouco tempo já estava na BR-343 rumo à Barras – terra dos governadores, dos poetas e dos escritores; e paraíso das águas. Alguns minutos depois, tomei a PI-113, conhecida como Rodovia do Babaçu, acesso da rota turística chamada de Caminho das Águas. Sozinho no meu carro, absorto em um torvelinho de pensamentos passados, lembrei–me de um certo  janeiro, lá pelo ano de 1961.  Tinha apenas oito anos de idade quando meu pai decidiu morar em Teresina em busca de melhores condições de vida para sua família. Fiquei maravilhado com minha primeira viagem, sobretudo pelo fato de ir em cima de um caminhão, embora apertado entre as velhas tralhas que estavam em cima da carroceria. Naquela época, o percurso entre as duas cidades durava cerca de quatro ou cinco horas. O chão da estrada era de piçarra, o que levantava uma grande poeira avermelhada com o atrito dos pneus do veículo.  Hoje, com a estrada asfaltada, o tempo de viagem é de apenas hora e meia, aproximadamente. Mas, essa história já contei aqui mesmo nesse espaço, em crônica anterior.
                Como todo mundo gosta de contar a história da sua terra querida, peço licença para falar sobre a minha também. A história registra que Barras surgiu a partir de uma fazenda de gado conhecida como Buritizinho, que se tornou povoado alguns anos depois. Nessa localidade construiu-se, em meados do século XVIII, uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, atualmente padroeira da cidade.  Barras do Marataoan, como era antes conhecida (em alusão ao rio que serpenteia e banha a cidade), foi elevada à categoria de cidade pelo Decreto nº 1, de 28/12/1889. A cidade está localizada no centro de seis barras de rios e riachos, daí o nome adotado, Barras. Localiza-se na microrregião do Baixo Parnaíba Piauiense, com uma área de 1.719,798 km², e possui densa vegetação entremeada por babaçu, mas também extensos campos cobertos por gramíneas. Sua população atual beira os 44.850 habitantes; e  barrense é o nome gentílico do habitante do município.
                Barras é conhecida como terra dos governadores e dos poetas. Segundo Elmar Carvalho, notório magistrado e escritor piauiense, o primeiro aposto se devia não só ao fato de Barras ter tido vários de seus filhos na governança do Estado do Piauí, mas também na chefia do Executivo de Pernambuco e amazonas. Ele cita como governadores do Piauí: Gregório Taumaturgo de Azevedo (26/12/1889 a 04/06/1890), primeiro governador republicano do Piauí; Coriolano de Carvalho e Silva (11/12/1892 a 04/07/1896); Raimundo Artur de Vasconcelos (01/07/1896 a 1900); Matias Olímpio de Melo (1924 a 1928); e Leônidas de Castro Melo (03/05/1935 a 09/11/1945), que governou o Estado por mais de dez anos. O emérito Escritor elenca ainda os barrenses Gregório Taumaturgo de Azevedo e Fileto Pires Ferreira como governantes do Estado do Amazonas, enquanto Segismundo Antônio Gonçalves governou o Estado de Pernambuco. O poeta declara ainda que Barras poderia ser chamada, igualmente, de terra dos intelectuais, uma vez que forneceu ao Estado nomeados escritores e poetas.
                Quanto ao epíteto de terras dos poetas, o ilustre Elmar Carvalho destaca entre os intelectuais, poetas e escritores às margens do Marataoan, os seguintes barrenses: David Moreira Caldas, o “Profeta da República”, por ter previsto, em 1873, a Proclamação da República do Brasil no ano de 1989 (ele faleceu 10 anos antes da Proclamação, e em condições precárias, pois a igreja católica lhe negou o sepultamento de cristão, por suas convicções políticas e religiosas. Foi enterrado fora do cemitério, nas cercanias da cidade de Teresina); Celso Pinheiro, o mais importante poeta simbolista do Piauí; José de Arimathéa Tito Filho, que presidiu a Academia Piauiense de Letras durante 23 anos; João Pinheiro, autor da mais notável obra sobre a história literária do Piauí; Matias Olímpio de Melo, Presidente da Academia Piauiense de Letras por dois mandatos. Elmar cita ainda os escritores, Fenelon Castelo Branco, José Pires Lima Rebelo e Wilson Carvalho Gonçalves, sendo este último o autor de uma das mais notáveis obras de divulgação da História do Piauí. Afirma ainda que são considerados barrenses os poetas Leonardo de Carvalho Castelo Branco, Hermínio de Carvalho Castelo Branco e Teodoro de Carvalho Castelo Branco, haja vista que as localidades onde nasceram pertenceram ao município de Barras. Seria injusto não mencionar o barrense Lucílio de Albuquerque, que foi pintor, desenhista e professor brasileiro, de notoriedade internacional. Em 1906, esse ilustre piauiense recebeu o Prêmio de Viagem da ENBA, com a tela Anchieta escrevendo o poema à Virgem.
                Elmar Carvalho, em sua pesquisa, afirma categoricamente que Barras, além de ser a Terra dos Governadores, é também celeiro de marechais e senadores. Entre os primeiros, enumera: Firmino Pires Ferreira, que lutou na Guerra do Paraguai, e Gregório Taumaturgo de Azevedo, que chefiou a comissão de limites entre o Brasil e Bolívia, e fundou a cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, e a Cruz Vermelha Brasileira. Quanto aos senadores, Elmar Carvalho aponta os barrenses Firmino Pires Ferreira, Raimundo Artur de Vasconcelos, Joaquim Pires Ferreira, Matias Olímpio de Melo e Leônidas de Castro Melo, salientando que todos estes foram também deputados federais.
                Aqui cabe um adendo. O emérito magistrado e escritor Elmar Carvalho é barrense de sangue, pois como ele próprio declarou, assim como seu pai, vários dos seus ancestrais paternos são filhos de Barras. Portanto, esse preclaro poeta e escritor é, também, um ilustre barrense, embora tenha nascido na vizinha cidade de Campo Maior.
                Feito a publicidade da minha terra natal, volto novamente meus pensamentos para a Rodovia do Babaçu. Depois que passei por José de Freitas e Cabeceiras, recordo-me de ter visto, durante aquela viagem da mudança de minha família para a Capital, uma revoada de periquitos que sobrevoavam as matas, um nambu correndo no mato, um carcará pousado em uma árvore, um preá atravessando a estrada, uma palmeira lascada por um raio. Lembro-me também, nas margens da rodovia, bois pé duro pastando, algumas casas cobertas de palhas de palmeira, bem como algumas roças cheias de legumes. Esse fantástico cenário bucólico agora não o estou vendo. Tudo mudou; é passado. Meus pensamentos divagavam errantes, em lembranças atuais e remotas. Parece que a solidão provoca no ser humano a capacidade de lembrar fatos e coisas que ocorreram no passado distante, e que, às vezes, a gente nem imaginava a existência deles. Lembre-se que eu estava sozinho e Deus no meu automóvel.
                Chegando à cidade de Barras, um pouco antes, vi a casa grande da antiga fazenda conhecida como “Cantinho”. Nessa localidade, quando criança, tomava de vez por outra uma garapa extraída da cana-de-açúcar, e comia também rapadura quentinha. Observei que aquela vivenda agora estava reformada, mas guardava as características antigas; e que não existe mais a casa de moagem.
                Do “Cantinho” para cidade é pulo; apenas cinco minutos. Enfim, cheguei à Terra dos Governadores e dos Poetas. Porém, antes de entrar na cidade, existe à esquerda da rodovia, em uma curva e um pouco antes da ponte que atravessa o rio Marataoan, um morro que impede a visão panorâmica da cidade. Esse pequeno acidente geográfico está no lugar errado, ou foi a estrada que foi construída no lugar indevido?
                Chegando ao meu destino, fui direto para casa da minha tia que morava do outro lado da cidade, no Bairro Boa Vista. Antes de entrar na rua que dar acesso à residência da referida tia, observei, à direita, algumas pequenas casas e bares que ficavam ao lado de uma grota que escoa água e esgoto. Nesse local, quando o bairro não era ainda muito povoado, existia um perene riacho conhecido como “Riachinho”. Hoje, não existe mais esse córrego em que tantas vezes, quando criança, banhei em suas águas cristalinas.  Por conta desse fato, transcrevo, a seguir, um trecho de poema que escrevi muito tempo atrás:

Onde está meu córrego de nome Riachinho?
Meu pequeno rio de saudades – água preciosa servida em um dourado pucarinho!
Riacho já não mais existe. E a minha Boa Vista
Há muito deixou de ser uma bela vista.

No final do mesmo poema, eu faço um protesto ecológico que diz assim:

Lá se vão mais de meio século de rota,
Época que não volta mais; e eu longe do canto dos pássaros, pela manhã.
Hoje, meu Riachinho é apenas uma grande grota,
Que desemboca no meu rio de saudades, o Marataoan.

                Sigo na minha viagem sentimental e, momento depois, eu chegava em casa da minha tia, que acima já me referi. Esta e a outra tia, que viera do Rio Janeiro visitar parentes, já me esperavam, conforme o combinado na semana anterior, em Teresina. Desde a minha chegada até a hora do almoço houve uma longa e demorada conversa entre os parentes que se encontravam na casa. Lembrávamos acontecimentos do arco da velha; assuntos de toda natureza. Vez por outra, ouviam-se belas gargalhadas. Uma confraternização familiar, enfim. Isso durou até a hora do almoço. O cardápio era costela frita de leitão novo, baião de dois, com o feijão colhido na roça no dia anterior, acompanhado de uma galinha caipira ao molho. Iguarias como estas não existem melhor. Após a ceia, fui cochilar um pouco em uma macia rede branca feita de tecido “sol-a-sol”.  Afinal, ninguém é de ferro!
                Quando o sol baixou, e o calor deu uma trégua, partirmos de volta para Teresina, eu e minha tia; felizes.         

Fonte: blog Folhas Avulsas

terça-feira, 23 de junho de 2015

A ética por um fio


A ética por um fio

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Como você reagiria a tentadora e ilícita proposta, em dinheiro, suficiente para tirar sua escola da liseira? Apreensão por não fechar a folha de pagamento dos funcionários, tributos atrasados?

Dezembro. Apenas metade das mensalidades arrecardadas em caixa. Cobrança dos professores, constrangimentos, explicações pífias. Do céu maná não desce; mais fácil a solução vir do inferno, na hora certa. Prefeito amigo, derrotado nas eleições, visita-me com a seguinte proposta: “Professor, liquido a folha de seus professores, se, em troca, me fornecer um papel timbrado da escola, em branco, assinado e carimbado, comprovando que a prefeitura pagou bolsas de estudo a jovens do município, como se estudassem em seu colégio”. Senti-me em deserto árido, faminto e desolado, acuado por espírito satânico a oferecer-me pão e fortuna se o adorasse no alto do templo.  Otário se resistisse a generosa dádiva, em tão oportuna hora, enquanto outros por aí, agraciados e prósperos, zombam da virtude.

Brasil do jeitinho diabólico de encarar ética como virtude dos tolos e medíocres, que nunca alcançam sucesso sem recorrer a malandragens.

Ética, filosofia do caráter e dos assuntos morais, que rege a sociedade. Em sentido prático e menos filosófico, exige-se ética nas relações profissionais, examinando-se, por exemplo, a conduta de políticos, gestores, médicos, empresários, religiosos.

Ética não pode ser confundida com a lei, embora que, em certos momentos, a lei tenha como bases princípios éticos. Há leis que afrontam a ética, como a que defende altos salários a certas categorias profissionais, em detrimento dos menos aquinhoados. Ou a lei que permite casamento gay, se a denominação é dada a casal, e não a um par. Ética das condutas sadias do espírito, como a solidariedade para com a infância, idosos e expurgados socialmente.

Ética e moral assemelham-se, porém não se igualam. Moral se fundamenta em princípios e mandamentos culturais, religiosos. A ética abrange condutas com regras humanas nos campos da sociologia, psicologia, educação, esportes e negócios.

A prosperidade é uma bênção, erguida sob freios da ética, moral, leis justas e cidadania. Países que adotaram esses princípios, com rigor, libertaram-se mais cedo da miséria provocada por terremotos, guerras e ditaduras corruptas.

O prefeito retirou-se da minha sala, depois de ouvir lições que, talvez, nunca tenha aprendido. Porque a dele em me oferecer levou zero. Não precisei comer fruto proibido. No final de dezembro, graças aos bons anjos que deviam mensalidades atrasadas, assistiram-me com pão generoso, para satisfações dos professores. Porque – diz a canção do rei – “tudo fácil valor nunca traz”.