terça-feira, 17 de dezembro de 2019

PEQUENO TRATADO SOBRE O DESVALOR CIENTÍFICO DA VIDA HUMANA



PEQUENO TRATADO SOBRE O DESVALOR CIENTÍFICO DA VIDA HUMANA

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                Havia tempo que não lia tamanha e tão depressiva bobagem, como a publicada sob forma de pérola de erudição e sabedoria, pelo midiático Yuval Harari, professor israelense de história e autor de best-sellers atuais, replicada por revista semanal brasileira: “Até onde sabemos, de um ponto de vista científico, a vida humana não tem sentido algum”.

                Segundo George Steiner, nonagenário crítico literário francês, professor universitário em Cambridge e Genebra, em um de seus livros, mesmo o poema, o conto, a crônica, qualquer parágrafo escrito, grosso modo, nada mais é que um somatório de fonemas, letras, vocábulos, não inusitados, nem inéditos, ainda que derivados de neologismos; eis que os grafemas e as palavras que lhes serviram de matéria-prima já existiam antes da arrumação ou composição daqueles.

                E ainda deduz: não pode querer a física, mecânica quântica que o seja, a matemática, a filosofia, além de outras ciências, atualmente, meterem-se a falar, por exemplo, em erros, falhas, cometidos por Aristóteles, Platão, Kepler, Anaximandro. Os físicos, matemáticos, filósofos de hoje beberam de fontes preexistentes, não equivocadas nem portadoras de erros ou falhas, simplesmente, porque não haviam como ser comparadas com outras, eram o que estava à disposição deles, para lhes servirem; felizmente, graças a elas, a esforços, estudos, pesquisas, experiências, complementares, pôde-se chegar a novas conclusões, teses, talvez, paradigmas; no futuro, quem sabe, venha-se a descobrir estarem eivadas de tantos ou mais erros, defeitos ou equívocos, do que as que lhes serviram de ponto de partida.

                Outra observação, digamos preliminar, à pretensa conclusão a que gostaria de chegar. O mundo e o tempo, na visão de Carlo Rovelli, físico teórico italiano, estudioso da mecânica quântica, é uma sucessão de eventos, quânticos e/ou não, de coisas, objetos, entes, seres. Na condição de estudioso da física tomada como ciência exata, é provável que pouco haja a se reparar nele; quando se imiscui ou migra, todavia, para a metafísica, a primeira das filosofias - é assim que a tomam, porque assim ela o é -, como tem feito, quando leva a público ou torna conhecidas experiências empíricas feitas a partir de conhecimento teórico, mormente, sobre a mecânica quântica, equipara-se a um bom filósofo.

                Poderia, sendo, também, hipócrita, tachar como conhecimento, do ponto de vista científico, talvez, superficial, raso, experimental, shakespeariano – já que há mais mistérios entre a terra e céu do que nossa vã filosofia possa  supor -, sem, no entanto, querer desmerecer ou desvalorizar ditas ciências, os, até agora, obtidos por meio de experiências, observações e, mesmo, estudos profundos, em cosmologia, astronomia, astrofísica, para ficar só com essas, dado o ilimitável campo de estudo, e da incomensurável quantidade de matéria a observar, manipular, segregar, em laboratórios limitados que, portanto, não lhes garantiriam chegar a qualquer tipo de plena certeza, até porque as mais avançadas tecnologias disponíveis somente lhes permitem ir ou atingir limites imagináveis.

                Como tomar sem sentido, sob qualquer ponto de vista, o que incluiria o científico, a vida humana? Não bastasse o fato de, irresponsavelmente, desvalorizar ciências como a biologia, a antropologia, ramos de conhecimento como a moral, a ética, atributos existenciais como a fé, a religião, a inteligência, seria a negação de conclusões, confirmações de verdades científicas irrefutáveis: não houvesse o ser humano - do qual nem precisaria dar exemplos de nomes e de vidas que a engrandeceram ou a tornaram conhecidas - não existiria ciência, ou seja, só por esse motivo, a vida humana faz e tem sentido.

A menos que a ciência de que fala o professor israelense fosse algo do que, até agora, não tratamos, no que não cremos, porque acreditamos que ele sabe muito bem o que ela é, a tal ponto que a nega, ao negar valor científico à vida humana. Foi e continua sendo esta, enquanto mantenedora da inteligência do homem, a responsável pelo conhecimento acumulado e estocado no mundo das coisas, da razão e das ideias, ao longo do “irrelevante tempo” do físico italiano. Esse cabedal de estudos, pesquisas e práticas sobre tudo o que o discernimento humano possa descortinar, a partir de princípios certos e, permanentemente atualizáveis, é a ciência, que para poder circular de modo contínuo, precisa da vida humana prolongada, protegida e, valorizada.  

                Negar, filosoficamente, em uma dialética deletéria, tergiversando, criando querelas e discussões subliminares, é fácil; e fútil se, notadamente, contra fatos reais, impõe imaginários, fáticos apenas para quem acha que nada é o que parece ser. Afirmar que a vida humana, cientificamente falando, não tem sentido, é o mesmo que estar, não apenas duvidando, mas declarando que a ciência é uma quimera, uma tolice a que alguns se dedicam por não encontrarem algo mais útil a fazer. O que se faz quando se pensa não estar fazendo ciência, geralmente, é ciência. Se queriam, os aqui citados, colocar à mesa para discussões sob ponto de vista científico, elementos que não refutariam, que estivessem certos de que, de fato, são irrefutáveis.                

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Jogando Conversa Afora entrevista João Batista Rios, magistrado e diácono


Piauienses Notáveis

 

Piauienses Notáveis

Fonseca Neto
Da Academia Piauense de Letras

Direto ao ponto: este volume 137 da Coleção Centenário é um repertório de novidades capturadas direto de fontes primárias para a lavra historiográfica. A chamada América Portuguesa, em particular a regionalidade centrada no Piauí, ganham uma contribuição efetiva para dela se ter medidas mais fundamentadas de sua formação social-histórica. 

Obra do companheiro acadêmico Reginaldo Miranda da Silva traz, no título, bem clara, que se trata de um livro com escrita biográfica. Uma contribuição valiosa à historiografia com objeto e temática piauienses, mas estudo que agrega proveitos bem fundados à história da lusitanidade expandida.

O autor inscreve logo de saída uma distinção: figuras notáveis. Isto é, os vultos selecionados e que trazidos para compor o volume são previamente avaliados como “notáveis”, numa escalação valorativa que tem a ver com distinção, alguém com trajetória fora do comum. Mas o autor também avisa em conteúdo pretextual – fácil de conferir – que a força de seu contributo escrevente não se encontra em lampejos elogiosos que eventualmente repontem de cada peça biográfica. Mas na sistemática locução com as fontes formais que seleciona e insere, com o referido valor de novidade historiográfica. E não é pequena a emoção que aflora no pesquisador diante dos apanhados que o garimpo arquival nos oferta, com valor de novidade. Idem, quando é o caso, outros mananciais de fontes.   

No plano do texto biográfico como espécie no gênero da escrita da História – para alguns algo problemático, porque tenderia a aulicizar ou heroicizar seletivamente indivíduos em si –, há uma interessante discussão no próprio campo historiográfico sobre os seus termos, todos, porém, lembrando que a escrita da História orientada para capturar a pessoa em si, nunca opera por completo a separação dela do seu contexto. Somos fios que costuram o tecido social em concreção, que tem dimensões na materialidade e na abstração constituintes das formas de manifestação cultural; enfim, da experiência, da História.

A biografia experimenta nestas últimas décadas um período de certa revivescência, porque, parece, nunca lhe faltar leitores. Tem apelo quando atiça a curiosidade humana ávida de saber mais do outro, da intimidade alheia, das artes desconhecidas normalmente sonegadas por alguém ao conhecer social amplo. Mas o fantasioso, a tendência hagio-panegirista, a babação, ou que seja a detração, têm cada vez mais pouca chance, notando-se uma exigência por esforços biográficos que apresentem a vida de alguém tal uma construção inseparável da que é, pelo comum dos viventes, elaborada na vida social. Sim, a biografia é luz sobre o singular da existência, singular que não obrigatoriamente seja sinônimo e expressão de superioridade, condição dominante.


A propósito, sigo a observação de Mary del Priore, em texto recente, no que atribui o presente e qualificado interesse sobre biografia, a um relativo afastamento da “explicação histórica” interessado “pelas estruturas, para centrar suas análises sobre os indivíduos, suas paixões, constrangimentos e representações que pesavam sobre suas condutas”. “O indivíduo e suas ações [situando-se] em sua relação com o ambiente social ou psicológico, sua educação, experiência profissional, pertença étnica ou religiosa etc. O historiador [devendo] focar naquilo que os condiciona a fim de fazer reviver um mundo perdido e longínquo”. “A biografia não era mais a de um indivíduo isolado, mas é a história de uma época vista através de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos. Ele ou eles não eram mais apresentados como heróis, na encruzilhada de fatos, mas como uma espécie de receptáculo de correntes de pensamento e de movimentos que a narrativa de suas vidas tornava mais palpáveis, deixando mais tangível a significação histórica geral de uma vida individual”.

O que Miranda nos traz neste volume é algo mais ajustado nessa forma de abordagem. Como ele próprio aponta em seus prolegômenos – já assinalei – não quer marcar seu trabalho como fabricante de heróis ou o mero avivamento elogioso de figuras do passado. Ele quer avançar nessa prática escritural. Até porque não é inexpressivo o quanto de tinta já se gastou para enlevar algumas figuras assim tidas, algo que a historiografia local cuidou em vários títulos. E o que diferencia a presente contribuição?

A seleção de biografáveis que determina o repertório aqui apresentado, deu-se na perspectiva alcançável pelo autor em direção ao chamado período “colonial”, chegando ao Oitocentos, objeto do interesse crescente dele, mormente em face dos acervos recentemente disponibilizados ao grande público-mundo, de arquivos portugueses, notadamente as milhares de folhas manuscritas sobre o Piauí existentes em Portugal, e não só, profusos estão na Europa e nos arquivos do próprio Brasil. Até na Índia, África.

Conhecedor bastante dos textos canonizados sobre a formação do Piauí, Miranda sabe de suas incompletudes explicativas decorrentes, na exata medida, da falta de referentes em fontes formais já exploradas. É habilidoso no manejo de fundos, notadamente os que são constituídos pela vigorosa burocracia papelizada lusitana, consistente em milhares de petições processadas em fartas autuações, tratando praticamente de todos os assuntos correntes na vida social do Reino -  aprendeu a enfrentar a leitura paleográfica no exercício cotidiano dela. Velho reino e reinados por eles tidos, e por muitos dito, tal um Império sem fronteiras debaixo do sol que nunca se punha. Lembro que Miranda é advogado e sabe qual é a estrutura formal da engenharia e dinâmica de um processo nas diversas esferas do Estado português. Registre-se que a burocracia de governo do Portugal-Brasil setecentista, por exemplo, tem muito a ver com as formalidades de hoje em dia.

Este Piauienses Notáveis vem preencher algumas e relevantes lacunas sobre o conhecimento que o Piauí tem de si, relacionado aos dois primeiros séculos de sua formação histórica. Miranda remove camadas de esquecimento sobre pessoas e fatos que pareciam inexistentes, sobretudo porque passaram em branco por ícones da nossa historiografia, a exemplo de Odilon Nunes, Pereira de Alencastre, e Pereira da Costa, outros. Passaram em branco, explico, não por opção desses pródromos fecundos da historiografia piauizeira, mas pela circunstância de suas oficinas historiografantes não alcançarem a distante Lisboa e Évora, por exemplo, além do Rio de Janeiro, ou mesmo a Bahia e São Luís, sedes reinóis e eclesiásticas, cabeças e corações do Poder ordenador que vincula parte substantiva dos documentos instituintes do Piauí.

Explicada a incorporação geral do vale do Punaré nas estruturas colonizadoras mercantis, na agregação cultural-histórica dos sertões do Piauí à dinâmica da América portuguesa, muito se deixou a dizer sobre a devastação que elidiu os grupos humanos aqui viventes antes do entradismo bandeirista e da tomada do espaço físico pela dominação colonial. Sobretudo o que diz respeito ao primeiro século de implantação do aparato da ordem fundando-se na titulação da terra, agora repartida entre régulos de longe, toscos e gananciosos, vivendo na franja rala do europeísmo expandido para além do Além Mar, isto é, para a profundeza dos sertões do continente pós-Atlântico.

Este livro é mais que um conjunto de registros biográficos. É revelador de informações muito relevantes para se entender a história do Brasil a partir de acontecimentos dados no Piauí. Veja-se a centralidade que tem aqui os episódios que enredam a fundação da Mocha, este lugar que muito cedo se fez capital irradiadora do domínio colonial dos adentrados sertões. Os nexos e conexos que orientaram, passando pela futura Oeiras do Piauí, a penetração colonial a partir dos litorais norte-leste e das imensidões semiáridas em direção aos goiazes e maciço central da América portuguesa. E assim, também, nessa expansão para dentro, o até agora quase desconhecido papel estratégico dos sertões de cima onde nasce o complexo Gurgueia-Parnaíba. Sertões quase sem fim.

A historiografia é tecido que muitos costuram, pintam e bordam. E até recortam. Aqui os pontos, repontos e pespontos do autor reforçam a tessitura de registros que exprimem muito mais que as narrativas reiteradas. Contudo, no meu sentir, sem exasperação contra narrativa, adicionando copiosos aportes documentais no sentido puro do termo. No Piauí, alcançamos elaborar um qualificado repertório interpretativo sobre questões colocadas pelo século vinte, sem, no entanto, alcançar estudos mais consistentemente elaborados com fontes refinadas. A distância física com os arquivos metropolitanos, em Lisboa e arredores portugueses e europeus, significou um empecilho aos pesquisadores. Ironia: agora que as fontes documentais estão sob nossos olhos, no conforto de núcleos de pesquisa locais e de nossas próprias casas, há como que um desinteresse quase que generalizado sobre os temas atinentes à formação social piauiense em temporalidade mais recuada, repita-se, tempo cujas interpretações apresentam mais incompletudes.  

Aqui não é ocasião de se ler o texto como se fora substituindo, por antecipação, o leitor. Este deve ter a satisfação degustativa de suas próprias descobertas. No entanto, acrescento que entre as novidades aqui trazidas, tem-se um quadro primoroso de exatos 100 anos de história bem documentada sobre a atuação dos Ouvidores gerais do reino em terras piauienses, de 1723 a 1823. Cobre, em boa medida, a lacuna deixada inclusive pelo autor de Sua Excelência, o Egrégio, belo título de livro que ensaia sobre o gestar e fixar a judicação e magistratura no Pindorama piauiense. É a base do que mais tarde se chamará de Poder Judiciário, numa dinâmica muito mais rica que hoje, pois numa estrutura social-política em que as esferas pública e privada, tal se tem hoje, ainda não estavam devidamente configuradas. Conhecer a vida dos Ouvidores, 17 ao todo, quinze deles naturais da sede do Reino e formados em Coimbra, permite vislumbrar, por exemplo, como era viver na Mocha, Oeiras depois, no primeiro século de sua existência.

O livro é uma abalizada fonte para o deslinde da estrutura familiar, o que resulta em conferir a seu autor o galardão que o inclui entre os mais dedicados investigadores da história das famílias piauienses, em chave de estudos histórico-genealógicos. Já em 2018 publicou Memória dos Ancestrais, parentes e contraparentes: uma genealogia do sertão, com muito valor de originalidade documental e revisionismo a respeito das estruturas parentais colonialistas do Piauí.

Saúdo Reginaldo Miranda por esta contribuição e sou sabedor que há muitos bons temas que ele está lapidando à luz de boa documentação, pois depois que aprendeu a quebrar a dormência de códices e de milhares de avulsos dos arquivos locais e internacionais..., depois que tomou gosto por amanhar os fundos em que se guardam e conservam o mais relevante dos sobreditos acervos, de sua lavra sabemos que sairá contribuições valiosas. Inclusive mais volumes deste Piauienses Notáveis. Claro que Esperança Garcia e Lourenço Barbosa, e mais mulheres, indispensáveis, estão a caminho destas páginas cuidadosas e benvindas.

A Coleção Centenário, já um projeto altamente exitoso de republicação de títulos raros sobre o Piauí, agrega este título novo, de primeira mão e edição, que engradece dita Coleção e o próprio silogeu acadêmico piauiense. Coleção, aliás, idealizada e iniciada por Reginaldo Miranda, quando as celebrações dos 100 anos da APL eram ainda apenas um projeto, e ele exercendo a Presidência. Coleção que a presidência Nelson Nery Costa elevou ao patamar de mais impactante projeto editorial que se fez no Piauí, dos mais do Brasil.

Piauienses Notáveis é um livro com 80 textos biográficos. É uma seleção cujas determinantes foram a disponibilidade documental alcançada e não a mera subjetivação nas escolhas de seu autor, entre milhões de piauienses biografáveis. São biografados do sexo masculino unicamente – sinal da espécie de sociedade daquele tempo – avultando as figuras de Ouvidores, letrados, régulos da burocracia militar e político-administrativa, do entradismo apresador dos aborígines, e padres; também uma oportuna textuação sobre a vida de Mandu Ladino, e de Bruenque, agora contemplando esses homens para além da idealização e de certa ficção costumeiras.

Aqui o leitor – e não é livro só para especialista – verá histórias de vida, lavradas com honestidade intelectual, que abrem, contudo, oportunas pistas para se entender ainda melhor a formação histórica do Piauí como labor coletivo, luta e suor de sofredores, denodo e grandeza revelados agentes sociais de outro tempo. Também aqui as muitas quedas do Piauí, o intrincado, em linhas vivas, incandescentes, dos nós que atam esta terra social aos rudimentos e condicionalidades próprios do viver na periferia da latino-portugalidade.

Acadêmico Miranda, sejam ainda mais felizes as folgas de sua profícua advocacia, dedicadas a essas incursões benfazejas nas garras do mnemônico casal Cronos e Clio.   

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

QUATRO POETAS DO PIAUÍ – Poemas – Parte 3 (final)

Fonte: Google


NA NOITE

Elmar Carvalho

Na noite
um sapo coaxa.
Uma puta triste
acha graça. Acha graça.
Um galo
às desoras desfere um canto
fora de hora. E chora.
Um cão ladra por nada:
nenhuma cadela no cio.
O silêncio
grita como louco
na concha acústica
dos labirintos dos ouvidos moucos
por onde um Teseu lasso caminha
em busca do Minotauro – perdido
sem o fio de Ariadne –
conduzido por outro fio
que parte / se parte e
se reparte entre o ser
e o não ser.
E os gritos de Teseu
arrancam ecos
que já ecos de si mesmos
se repetem se repetem
até a mais completa
absoluta exaustão.

CANÇÃO MELANCÓLICA

Clóvis Moura

Nasci coberto de luas.
Minha mãe silenciou:
vai ser poeta das ruas,
e o vaticínio acertou.
Por isto nas praças públicas
meu verso se faz fumaça,
ama o silêncio, a penumbra
que os cadáveres fabricam
ou o riso emurchecido
dos vagabundos notívagos.
Dentro da noite navego
no meu barco sem comando
enquanto o mundo transita
em um mar feito de gritos.
Solto nuvens sonolentas
com o meu verso de fumaça:
que importa se ele naufraga
se sou poeta que passa?
A Santa me olha solene:
será Saudade ou tristeza?
Fico perdido na dúvida
e me duplico: incerteza.

Por isto é que sou poeta
pois a mãe sentenciou:
não caminho em linha reta
e fujo do que já sou.

INVERNO

H. Dobal

Debaixo de chuva os campos anoitecem
preparando a sua ressurreição.
Amanhece com o dia a vida nova
na sangria dos açudes,
nas veias abertas dos riachos.

Chuva cantando nas folhas
água correndo,
água nova cantando no chão.
De novo o resplendor da vida restaurado
num concerto geral
que pássaro nenhum, nenhum instrumento,
nenhuma garganta de homem ou mulher
jamais pode alcançar.

NEL MEZZO DEL CAMIN...

Da Costa e Silva

Passou de leve a Esperança
Pelo meu coração...
Encantou-me no azul do meu sonho de criança:
Ardeu como uma estrela... E era um pobre balão!

Passou de leve a Alegria
Pelo meu coração...
O Amor, dentro em meu ser, como um jardim, floria...
Como é triste, meu Deus, esta recordação!

Passou de leve a Ventura
Pelo meu coração...
Como foi que passou, se a busco com loucura,
Sentindo-me infeliz por desejá-la em vão?   

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS E SUA OBRA MONUMENTAL

Membros da Academia Piauiense de Letras, vendo-se, na primeira fila, da esquerda para a direita: Homero Castelo Branco, Celso Barros Coelho, Antônio Fonseca Neto, Nerina Castelo Branco, Fides Angélica, Valdeci Cavalcante, Oton Lustosa, Nildomar da Silveira Soares, Francisco Miguel de Moura e Hugo Napoleão; na segunda fila, no mesmo sentido: Felipe Mendes, Cid de Castro Dias, Dílson Lages Monteiro,Humberto Guimarães, Elmar Carvalho, Plínio Macedo, Reginaldo Miranda, Itamar Abreu Costa e Nelson Nery Costa. Fonte: Blog do Professor Gallas.
Fonte: Google



A ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS E SUA OBRA MONUMENTAL

José Pedro Araújo
Romancista, contista e cronista

Tenho a impressão (e quase a certeza), de quando os imortais Jônatas Batista, Celso Pinheiro, Lucídio Freitas, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas (Baurélio Mangabeira), Édison Cunha, Fenelon Castelo Branco, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e João Pinheiro, posicionaram-se para a foto histórica, memorável, aí pelos idos de 1917, mais do que sentimento de vaidade por pertencerem à nata da inteligência piauiense, traziam na mente uma pergunta comum a todos eles e repleta de preocupações: o que fariam dali para a frente, logo que encerrassem-se as festividades de fundação do sodalício que criavam naquele instante? Depois que as notícias e as entrevistas para os jornais da época sumissem das mentes de seus concidadãos?

Se pensaram assim, estavam repletos de razão, afinal, como fazer diferente em uma terra em que mais da metade dos seus moradores não sabia rasurar o primeiro nome de batismo. Um estado em que as gráficas existentes mal davam conta de imprimir os blocos de notas fiscais do tesouro estadual e os poucos periódicos encarregados de socializar as notícias que iam pelo estado, pelo Brasil e pelo mundo? Como publicar algo em um estado com tantas deficiências assim? Como arrumar recursos para essas publicações?

As preocupações faziam sentido, mas a determinação daqueles homens era tão grande que nunca esmoreceram no que pese todas as dificuldades que teriam pela frente. E hoje, tenho também a impressão, ficariam eles felizes se pudessem observar o tamanho da obra encetada pela sua Academia ao completar o seu primeiro centenário de existência.

A Academia Piauiense de Letras, com sigla APL, órgão máximo das letras no Estado do Piauí (de acordo com a sua própria definição), tem trabalhado intensa e incessantemente para cumprir a sua missão de levar cultura aos mais distantes rincões do nosso território, quiçá do Brasil.

Em 1981, quando para Teresina retornei, uma das primeiras coisas que fiz foi ir à procura da APL para me inteirar de como poderia adquirir alguns livros publicados por ela. Já estava eu inteiramente contaminado pela necessidade de conduzir sempre um bom livro em minhas mãos a cada passo que dava. E fiquei surpreso e, ao mesmo tempo, animado com o que ouvi.  Seria possível, sim, informou-me a distinta senhora que me atendeu naquela tarde. Seria possível não somente adquiri alguns livros a preços módicos, mas, ao mesmo tempo, poderia ficar recendo trimestralmente as publicações da academia, e por um preço que me pareceu muito convidativo. E de fato o era. O valor cobrado era tão insignificante que não pensei duas vezes em me inscrever como assinante daquela casa de cultura.

Somente algum tempo depois, tomei conhecimento de que aquela senhora tão educada e convincente, era a própria esposa do presidente da casa. Tratava-se da senhora Delci Maria Tito. Era com esse nome que ela assinava os recibos relativos ao valor que deveria pagar sempre que seu enviado me procurava para entregar os três exemplares daquela remessa, e também para receber o pagamento pela assinatura. Não restam dúvidas de que as brochuras tinham um formato muito simples, quase artesanal. Agora mesmo tenho em minhas mãos três desses livros que guardo com o maior carinho em estantes da minha humilde biblioteca. Entre estes, “Curral de Serras”, romance que muito me encantou pela sua prosa regionalista e que explorava o linguajar do povo do sertão piauiense (“O senhor se sai com cada uma... E adota certas manias, que cobram dificuldade de uma pessoa entender. O fato é que fico desinquieta em noite de lua cheia, reparando o p’ra-lá-p’ra-cá das caminhadas de vosmecê, medindo e desmedindo o tamanho do chão do terreiro”).  Li de um só fôlego, tamanha foi a empatia com o livro, cuja capa singela, mas ao mesmo tempo muito bonita, era da autoria da própria Delci Tito, como pude constatar. Aquela admirável senhora era a secretária da academia, fazia um trabalho monumental para comercializar a sua produção literária, e ainda encontrava tempo para produzir as gravuras para as capas de alguns livros.

O segundo livro é a segunda edição do “Canto da Terra Mártires”, de Martins Vieira. Um soco no estômago que me levou às alturas com poemas como A Fome (Ó provação – a fome!... Ó caos tormentoso zumbido e doudejar de entranhas!... Timpanoso, o ventre constipado, o fígado disforme e aquela sonolência incrível que não dorme?).  Poema que atinge todos os nossos sentidos vitais com suas palavras de fogo, ardentes, fazendo-nos culpados até mesmo pelos erros que não cometemos, o que dirá das nossas próprias idiossincrasias.

Por fim, “Um Manicaca – Documento de uma época”, livro de autoria do eterno presidente da agremiação, Arimatéia Tito Filho, com capa também de Delci Tito. Livrinho interessante que mergulha de cabeça na obra de autoria de Abdias Neves; história ambientada em Teresina, e que retrata usos e costumes do final do século XIX, bem como os efeitos devastadores da chamada Grande Seca iniciada em 1877. No pequeno livro, A. Tito Filho se propõe a descrever a Teresina daquela época, seus usos e costumes, como já informamos, mas também os termos, as gírias mais em voga naquele tempo, além, é claro, de fazer uma descrição completa dos serviços públicos oferecidos à coletividade, como acontece quando trata, logo no primeiro capítulo sobre O Acendedor de Lampiões – “A primeira iluminação pública de Teresina verificou-se em 1867. Limitada à praça da Constituição (hoje Deodoro), onde se achavam o Palácio do Governo, a igreja matriz de N.S. do Amparo, e outros edifícios públicos. Sete combustores de querosene sobre colunas de madeira... O serviço tinha um arrematante, e competia a este contratar o acendedor dos lampiões, que, diariamente, realizava o trabalho, servindo-se de escada”). Todos os verbetes descritos por A. Tito Filho foram extraídos do romance de A. Neves.

Os três livros aqui descritos tinham ainda algo em comum: a responsabilidade de suas impressões era da COMEPI, a gráfica e editora do Estado, cuja qualidade, para os padrões de hoje, eram por demais sofríveis, apesar de já possuirmos gráficas e editoras no país que produziam com extrema qualidade.  A gráfica do estado não fazia colagens, mas sim grampeamento das páginas, e hoje esses grampos estão enferrujados oxidam e apodrecem as páginas dos livros editados.  Entretanto, com toda essa dificuldade, a APL produzia já seus livros, em pequenas tiragens, é bem verdade, e fazia a distribuição aos seus poucos leitores.

Antes desse período ao qual me refiro (início dos anos 80), na primeira metade da década de 70, o governo Alberto Silva, tendo como ideólogo do projeto A. Tito Filho (me parece), andou patrocinando a publicação de umas poucas dezenas de livros. E para isso formalizou contrato com a Editora Artenova, de propriedade do empresário piauiense, cuja sede ficava no Rio de Janeiro, Álvaro Pacheco. Foram relançadas obras da maior importância para a história e a literatura piauiense como, por exemplo, “Cronologia Histórica do Estado do Piauí, de F. A. Pereira da Costa; Roteiro do Piauí, de Carlos Eugênio Porto, e Introdução à Revolução de 1964, de Carlos Castelo Branco. Cito apenas esses três, entre duas dezenas de livros publicados, pelo menos. A qualidade da impressão e do papel já era bem melhor, contudo, o problema da colagem persistiu. Tive que mandar reencadernar todos os exemplares que possuo.

Para não me estender muito no texto, afirmo que anos depois apareceu o grande incentivador da cultura piauiense, poeta e principal cronista da terra ainda a respirar pelas ruas da cidade que tanto ama, professor Cinéas Santos e sua trupe. Criaram a editora Corisco. Com a força das suas ideias revolucionárias e a fé de um beato do saber, resgatou e publicou inúmeras obras que já haviam caído no esquecimento, além de outras de autores novos que começavam a despontar no horizonte das letras. Foi um feito grandioso, sem dúvidas. Já trabalhava com edições de excepcional qualidade. Pelo que sei, ainda está na faina com a sua Oficina da Palavra, e continua responsável por algumas publicações que dignificam a cultura da terra.

Mais recentemente tivemos a academia outra vez na vanguarda das publicações, trazendo ao sol excelentes edições em parceria com a Fundac e o Detran. Já fazia uso de ótima qualidade de impressão, além do costumeiro conteúdo, presidia a Casa, o piracuruquense Manfredi Cerqueira. A Fundação Monsenhor Chaves, por sua vez, também editou excelentes páginas da literatura piauiense, em especial expondo ao público coletâneas de autores consagrados como Odilon Nunes e Monsenhor Chaves, em edições volumosas e de ótimo acabamento.

Por fim, a própria Universidade Federal do Piauí, através da sua editora própria, tem nos presenteado com obras valiosíssimas de autores da terra que são um achado para quem sai à procura de livros que falam sobre a história, os costumes e o modo de vida dos piauienses de todos os quadrantes do nosso território. Melhoramos extraordinariamente nesse quesito. Hoje, podemos dizer que o parque gráfico que temos, mas, sobretudo as instituições voltadas para a cultura de um modo geral, têm feito um papel grandioso no campo das letras e das artes, se consideramos o que vai pelo país.

Contudo, é a Academia Piauiense de Letras, aquela que tem feito um trabalho ciclópico nesse campo. Não vejo ninguém nesse instante laborando nessa seara com tanto afinco e destemor. Obras há muito tempo longe dos catálogos foram ressuscitadas em edições primorosas e postas à disposição dos leitores em quantidades impressionantes. Esse trabalho que assombra até mesmo quem nos observa lá do sul-sudeste rico deste país, e ficam extasiados pela magnitude do seu tamanho, mas, em especial, pela qualidade literária e editorial dos livros lançados às centenas, deve ficar se perguntando como que de um estado tão pobre em recursos financeiro nasceu obra tão gigantesca. Afinal, são aproximadamente duas centenas de livros lançado desde 2012 quando o protejo do centenário da academia foi deflagrado. Coleção Centenário e Coleção Século XXI trazendo o que há de mais significativo já publicado no Estado. Começando o projeto na gestão do acadêmico Reginaldo Miranda, ganhou este musculatura com Nelson Nery e sua diretoria composta pelos arrojados Herculano Moraes, recentemente falecido, Zózimo Tavares, Elmar Carvalho, Humberto Guimarães, Wilson Brandão, e pela comissão editorial composta pelo já citado Reginaldo Miranda, Fonseca Neto e Divaneide Carvalho. Foram produzidos livros à mãos cheias.

Não há, de fato, explicação para tanto arrojo, para tanta dedicação, a não ser pela força de vontade e dedicação dos membros da APL. É como se esses homens se reunissem, aos sábados, não para tomar chá, mas para construir pontes sobre o mar de dificuldades que nos cerca. E acredito que seja isso mesmo. Afinal, não temos o hábito de tomar chá por estas brenhas mesmo. Aqui, nos reunimos para achar soluções para as nossas enormes carências e pô-las em prática em marcha acelerada. Somos um estado pequeno, talvez um dos mais pobres do país, mas não somos Lilliputianos. O exemplo acima prova que não. 

Pelo que parece, só temos concorrentes nesse campo na Edusp, editora da USP, cuja parceria com a Editora Itatiaia, lançou a Coleção Reconquista do Brasil; e na Editora do Senado Federal. Duas instituições que trabalham com dinheiro público nos seus orçamentos. Não consegui saber se alguma Academia de Letras de algum dos estados deste Brasil rivaliza com a nossa APL. No próximo dia 30.12, já serão 102 anos de um trabalho que muito nos orgulha!   

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Obra Reunida, de Pe. Cláudio Melo




No sábado, dia 07/12/2019, foi lançada a Obra Reunida, da autoria do Padre Cláudio Melo (Campo Maior, 1932 – Teresina, 1998), sacerdote católico, professor universitário (UFPI) e notável historiador do Piauí, talvez o mais importante do período colonial. É quase a sua obra completa, pois ficaram de fora do monumental volume único, de mais de 850 páginas, apenas um ou dois livros e vários artigos esparsos, muitos dos quais tive a satisfação de lhe solicitar e publicar na revista Cadernos de Teresina, quando fui o presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, órgão da Prefeitura Municipal de Teresina. O livro faz parte da Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras, onde pode ser adquirido. Tive a subida honra de lhe fazer breve apresentação na solenidade de lançamento. Segue abaixo o prefácio que lhe fiz.


PE. CLÁUDIO MELO EM TRÊS TEMPOS


Elmar Carvalho

1

Guardo com zelo e ciúme o pequeno e precioso livro Bernardo de Carvalho, da autoria do padre Cláudio Melo, meu conterrâneo, editado pela Universidade Federal do Piauí em 1988. É uma brochura simples, humilde, desguarnecida de enfeites e ilustrações, em que se percebem imperfeições tipográficas ao longo de suas 61 páginas. Na folha de rosto, em letra miúda, mas bem legível, vê-se a seguinte dedicatória, sem data: “Ao Elmar, com a estima do Pe. Cláudio”.

            Em 1993 assumi a presidência do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, órgão da Prefeitura de Teresina, que homenageia o ilustre historiador e nosso também conterrâneo Joaquim Raimundo Ferreira Chaves. Desde então passei a solicitar matérias historiográficas ao Pe. Cláudio Melo. Disso tiro a conclusão de que travei amizade com ele a partir do final dos anos 80 ou começo dos 90. Na segunda edição de meu opúsculo Cromos de Campo Maior, encontra-se desvanecedora apresentação de sua lavra, datada de 7 de setembro de 1995.

            Recordo que quando ele me entregou o livro Bernardo de Carvalho, advertiu-me para que eu não o deixasse de ler e observou que o grande e último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão, fundador de cidades e igrejas, era a mais ilustre figura do Piauí colonial. Em seu livro constatei que ele fora “uma das mais gloriosas figuras de nossa História e o verdadeiro criador da unidade piauiense”, classificando-o como “herói das Conquistas e consolidador do Piauí”. Por conseguinte, lançou as bases administrativas e militares do que viria a ser a capitania, a província e o estado do Piauí.

            Sem dúvida nas suas inovadoras e percucientes pesquisas, o padre Cláudio contribuiu para tirar do injusto esquecimento o velho e heroico marechal de campo. Contudo, tempos depois, verifiquei que o próprio livro do ilustre historiador já estava caindo no olvido, em virtude de sua edição acanhada e de reduzida tiragem, a que não se seguiu nenhuma reedição. Por esse motivo e também por causa da iconoclastia e menoscabo que se cometeram contra o grande Bernardo, fundamentado nessa obra pioneira e nas de outros historiadores, publiquei em 2012 o livro Bernardo de Carvalho – o fundador de Bitorocara.

            Ao surgir uma obra que contrariava a tese de padre Cláudio, afirmando que a Fazenda Bitorocara, que dera origem a Campo Maior, não ficava situada no entorno dessa cidade, na confluência dos rios Surubim e Longá, reeditei o meu livro, em edição revista, melhorada e aumentada, pois tive acesso a novas obras e documentação. Foi uma bela edição da Editora da Universidade Federal do Piauí - EDUFPI, com a chancela da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, em que tive o apoio das professoras Sílvia Melo e Jacqueline Dourado, na profícua gestão do reitor Arimatéia Dantas.

Acresci-lhe dois novos capítulos, um dos quais específico sobre a localização da velha fazenda de Bernardo, em que julgo haver demonstrado de forma peremptória e cabal, reforçando os argumentos de Cláudio Melo, que ela ficava mesmo nos arredores de onde hoje se ergue a imponente catedral de Santo Antônio do Surubim, cuja primeira igreja fora erguida por Bernardo, a pedido de seu parente, o padre Tomé de Carvalho.     

2

A presente obra foi idealizada e organizada por Teresinha Queiroz, e contou com o apoio do conterrâneo Raimundo Nonato Monteiro de Santana, que conseguiu ajuda financeira da Prefeitura de Campo Maior para a sua digitação, na gestão de João Félix de Andrade Filho. Teresinha, além da notável obra de sua autoria, mormente no campo da história social, tem se empenhado em resgatar importantes obras de há muito esgotadas, entre as quais a de Clodoaldo Freitas, R. N. Monteiro de Santana e mais recentemente as coligidas neste tomo.

Não sendo possível, no momento, a publicação da obra completa de Pe. Cláudio Melo, por diferentes motivos, foi concebido o vertente volume único de seus mais significativos trabalhos, quais sejam: O mártir dos Tacarijus, O povoamento do Piauí, O último berço dos Tacarijus, Os construtores de nossa história, Os jesuítas no Piauí, Os primórdios de nossa história, Arquidiocese de Teresina, A Diocese de Parnaíba – 50 anos de história, A prioridade do norte no povoamento do Piauí, As sesmarias da Casa da Torre no Piauí, Bernardo de Carvalho, Caxias no tempo das Aldeias Altas e Fé e civilização. Foram mantidos os prefácios e apresentações de todos os originais.   

Desde que ingressei na Academia Piauiense de Letras, no ano de 2008, passei a reivindicar sua publicação. Na gestão do confrade Reginaldo Miranda e contando com a sua total anuência, tentei uma parceria com o Banco do Nordeste do Brasil, tendo feito algumas gestões nesse sentido, mas a excessiva exigência burocrática para a elaboração do projeto terminou inviabilizando esse objetivo.

O presidente Nelson Nery Costa, dando continuidade à Coleção Centenário, iniciada por Reginaldo Miranda, com vista à comemoração dos cem anos de nosso Sodalício, incluiu a vertente Obra Reunida de Pe. Cláudio Melo nessa importantíssima coleção de obras-primas da Literatura Piauiense. Como eu viesse “cobrando” com certa insistência a sua publicação, encarregou-me de lhe fazer a revisão.

Temi tão melindroso conquanto honroso encargo. Por isso, adotei alguns critérios para esse mister. Em transcrições, sobretudo de documentos, optei por não fazer a atualização ortográfica de vocábulos, exceto nos que já estão consagrados e dicionarizados. Contudo, mantive, como não poderia deixar de ser, as atualizações feitas pelo próprio autor, bem como não lhes substituí as palavras em desuso.

Na medida do possível, cotejei o material digitado com os originais que me foram entregues, para evitar erros de nomes de pessoas, de localidades e de datas. Todavia, julgo compreensível que alguma coisa possa ter fugido a esse cuidado.

Por outra parte, não foi possível localizar os originais de duas ou três obras, de modo que lhes fiz apenas uma revisão gramatical do material digitado, só lhes revendo o conteúdo em um ou dois casos de evidente equívoco historiográfico.

Deixo claro, portanto, que numa obra dessa dimensão e complexidade é quase impossível uma perfeita revisão, que talvez possa ser alcançada numa próxima edição, tendo esta como parâmetro.

3

Despojado de vaidade, embora tenha elaborado a biografia de ilustres personalidades da História do Piauí, Cláudio Melo nunca escreveu a sua própria, nem mesmo de forma sintética, nem tampouco, do meu conhecimento, concebeu obra autobiográfica, memorialística ou confessional.

Também desprovido de egoísmo, socializava as suas pesquisas, permitindo que outros historiadores utilizassem as suas anotações e registros, fruto do sacrifício de seu demorado labor em acervos sem conforto e muitas vezes remotos, de difícil acesso a piauienses. Estimulava os estudantes e pesquisadores a escreverem novas obras, inclusive contraditando-o, se fosse o caso, ou indo além do que ele alcançara desvendar. Todavia, sempre propugnava pela verdade, pelo apego ao conjunto de documentos, e não a meras ilações ou suposições, sem fundamento em fontes idôneas e aceitáveis.

Nasceu na cidade de Campo Maior, em 2 de março de 1932. Além de sacerdote e historiador, foi professor da Universidade Federal do Piauí. Doutor em Sociologia pela universidade romana de São Tomás de Aquino. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura e do Conselho do Projeto Petrônio Portela. Exerceu a chefia do Patrimônio Artístico e Cultural do Piauí. Pertenceu à Academia Piauiense de Letras. Fora outras obras e artigos publicados em diversos periódicos (que dariam um belo volume), publicou os livros aqui enfeixados. Exerceu seu mister sacerdotal nos municípios de São Miguel do Tapuio, Campo Maior, São Pedro do Piauí e Teresina. Sobre os dois primeiros, escreveu importantes obras historiográficas, desde os seus primórdios.

Pe. Cláudio Melo é um historiador que prezava, sobretudo, a verdade e o contexto da época em que os fatos aconteceram, para não cometer injustiças e insolências com a figura histórica, ante eventuais anacronismos. Também não admitia certos modismos metodológicos e injustas iconoclastias. Assim, se insurgiu com altivez contra certos anacronismos, quando alguns afoitos “historiadores” detrataram e defenestraram importantes figuras históricas, sem levarem em conta a realidade, as leis, os costumes, as crenças, as crendices e as superstições da época em que essas pessoas viveram.

Em busca da verdade histórica sacrificou sua saúde, seu tempo e cabedais. Segundo se sabe, mergulhou em desgastantes consultas a documentos, numa época em que eles não eram disponibilizados na internet. Por conseguinte, os consultou em diferentes e longínquos arquivos e acervos, entre os quais os de Portugal, Belém – PA e São Luís do Maranhão, fora os existentes em diferentes cidades do Piauí, tanto públicos, como eclesiásticos e particulares.

De inteligência arguta, sua capacidade argumentativa era invejável. Contudo, suas conclusões não eram tiradas de meras suposições e hipóteses, mas do cotejo de vários documentos. Como suas pesquisas, leituras e releituras se prolongaram por vários anos, desenvolvia e aperfeiçoava suas teses e ilações em obras posteriores, daí a enorme importância dessa Obra Reunida, porquanto o leitor e pesquisador poderá observar o conjunto e o progresso do seu importante trabalho historiográfico.

Tornou-se, com o avançar de suas pesquisas e obras, um dos mais importantes historiadores de nosso estado, quiçá o mais ilustre de nossos primórdios e de nossa historiografia colonial. Lançou luzes sobre muitos fatos desconhecidos ou obscuros, sobre muitos dos quais pairavam dúvidas e controvérsias, trazendo novos esclarecimentos e reinterpretações, mas, como disse, fundamentado em documentos, cuja localização indicava, transcrevendo-os em muitos trechos de sua vasta obra ou em seus anexos. Por via de consequência, muitos intelectuais que lhe torceram o nariz, no início de sua brilhante jornada historiográfica, passaram a lhe acatar as teses e tiveram que se curvar ante os seus incontrastáveis argumentos.

O ilustre historiador não se preocupou em fazer um trabalho de mera divulgação (que também é importante), mas em trazer à luz da história fatos desconhecidos ou não perfeitamente desvendados de nosso passado mais remoto. Porfiou em esclarecer dúvidas, em desfazer equívocos e interpretações controvertidas. Portanto, foi à procura de documentos esconsos, ainda não manejados por nossos pesquisadores, que jaziam esquecidos em empoeirados e quase inacessíveis arquivos e acervos.

Com a publicação desta magnífica obra é feita justiça ao ilustre historiador Pe. Cláudio Melo, cujos livros se encontravam esgotados há mais de duas décadas. Tirou-se do esquecimento um dos maiores pesquisadores de nosso estado, ele que tirou do olvido os mais notáveis feitos e personalidades históricas do Piauí colonial.

Por conseguinte, a Coleção Centenário, nesta profícua gestão do presidente Nelson Nery Costa, atingiu um de seus muitos pontos áureos e culminantes.    

domingo, 8 de dezembro de 2019

DALILÍADA




DALILÍADA

(poema épico inspirado na vida e na obra de Dalí)

Elmar Carvalho


           V

A decomposição compõe
esculturas nas órbitas
vazias das caveiras
e um balé antropofágico se inicia
no verme que esculpe as duras
arquiteturas das ossadas.

           VI

As circunvoluções cerebrais
rompem os crânios
que depois se recompõem
em espiraladas evoluções.

           VII

Um velho crepuscular
se apóia em decrépitas ruínas
que no velho buscam amparo
e anteparo contra as borrascas do tempo.

           VIII

A sala onde uma velha
cose o tempo com suas meadas
é uma janela que se abre
em outra janela onde
veleiros navegam. . .
A velha navega no tempo
pelos fios nevados da meada.   

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

QUATRO POETAS DO PIAUÍ – Poemas – Parte 2

Fonte: Google



SACRIFÍCIO

Elmar Carvalho

Abrir meu ventre
como uma rosa de carne
e de suas vísceras multicores
pétalas dispostas em arabesco
projetar uma poesia
feita de flores e de fezes.
Cortar meu corpo
e retalhar minha alma
e fazer uma poesia
de matéria e de espírito
e morrer na última palavra
do último verso por nascer.
Drenar
minhas veias e
com seu sangue
regar um poema canibal
que não fale de morte.
E escrever a obra-prima
com o sangue da alma.

OUTONAL

Clóvis Moura

Depois da primavera o caos no mundo
e uma nuvem deitada nos meus braços,
criança abandonada que regressa
até o tempo de voltar criança.
Depois da primavera um lance apenas
de resto para viver um pouco tarde:
as tardes que perdemos são memória
e as mãos acordam para um abraço calmo.
Depois da primavera uma esperança
de tudo ser tranquilo e repousante,
ser como aquilo que sonhei um instante.
E depois deste outono a vaga espera,
um sabor de passado sem memória
ou só memória, após a primavera.

TÚMULOS

H. Dobal

Trovões distantes trazem
de um horizonte escondido uma tarde de chuva.

A chuva transforma a tarde
nas trevas da noite.

A noite traz de novo os amores perdidos,
uma ambição abandonada
o tremor das almas transidas no túmulo dos corpos.

PARA ILUDIR O CORAÇÃO

Da Costa e Silva

Como me enleva e quanto me impressiona
Conservar sempre nítido comigo
O teu perfil judaico de Madona
Na iluminura de um missal antigo!

A saudade, que nunca me abandona,
(Oh! sombra de minh'alma, eu te bendigo!),
Ficando a tua imagem se fez dona
Do pensamento em que te dei abrigo...

Para iludir o coração que pena,
No espelho móvel da memória trago
Teu vulto amado, na expressão serena...

E iluminas meu ser, num sonho vago,
Como estrela a abrir-se em luz serena
Sobre a quietude límpida de um lago...     

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

FALANDO SÉRIO? PARECE BRINCADEIRA

Fonte: Google


FALANDO SÉRIO? PARECE BRINCADEIRA

Antônio Francisco Sousa -  Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)
 
                Falando sério? Admito que tive dificuldade para iniciar esta arenga. Pensei em entrar de chapa, não só comentando fato que li – apesar de tanta informação séria, ainda há, em determinados veículos de comunicação, espaço para reiterar a divulgação de mesmices –, mas sugerindo, não àquele ator americano de diversos filmes de super-heróis que, segundo ele, em vez de ficar brincando com os filhos, passou, certo dia, tratando à base de “aloe vera” as queimaduras de sol que lhe sapecaram a região; porém, à cidadã americana que, de acordo com a reportagem, seria uma “influencer” que aconselhava as pessoas a experimentarem o bronzeamento na região perineal – “perineum sunning”, no original; alertava a moça que, apesar do desconforto da posição – nu, de costas, com as pernas entreabertas em “v”, segurando, com as mãos, os pés elevados em um ângulo de mais ou menos noventa graus em relação aos costados –, é possível, sim, obter benefícios dos raios solares e, portanto, em nome da saúde, valeria a pena. A partir de este ponto, ou melhor, da exposição ao sol, nessa estranha posição, é que eu entro, de fato, na sugestão que pretendia dar-lhe: - que viesse a Teresina e se expusesse, de frente, a nosso inclemente sol por uns dez minutos, tempo suficiente para deixá-la bronzeada, ou melhor, esturricada, da testa até o solado dos pés.

                Conselho de amigo que daria aos paroquianos ou coirmãos nordestinos, que viram na sugestão da “influencer” algo aproveitável, viável ou a ser comprovado: expor-se ao nosso sol, totalmente despido, como demonstrou a moça, sem, pelo menos, as costas estarem apoiadas em objeto de temperatura amena, senão fria, seria um ato tresloucado: é possível que, ao levantar-se, parte do couro dos costados ficasse grudada na quente peça que servira de apoio.

                Outro assunto, coincidentemente, discutido em dois dos jornais lidos – inclusive no que publicou o assunto acima comentado –, foi o posicionamento de parlamentar mafrensino em relação à reforma previdenciária: quanto à emenda proposta pela equipe econômica do governo e que seria aprovada no congresso nacional, acatada pela maioria dos votantes nas duas Casas, dito cidadão mostrara-se ferrenho adversário, da gênese às votações finais. Aprovada em âmbito nacional, chegado o momento de os governos estaduais se manifestarem, enviando projeto de emenda constitucional às assembleias legislativas, propondo adequação ou submissão ao que ficara decidido em caráter nacional, aí veio a surpresa: não é que tal parlamentar, então, se mostraria favorabilíssimo à rápida adequação? Alguém poderia considerar essa mudança de posicionamento como um enorme, baita ato de incoerência; outro poderia achar que não, que o político apenas chegara à constatação de que, contra fatos, não há argumento. Tudo bem: fica o dito pelo não dito ou, contradito, e prossigamos.

                Um terceiro assunto me deixou a dúvida de por que não começar por ele este quiproquó:  a concessão de título de cidadania estadual a parlamentar federal paulista, cujo único ponto em comum com o estado, provavelmente, seja o fato de pertencer o proponente mafrensino e o homenageado ao mesmo partido político. Por essas e outras é que, vez em quando, além de tal tipo de galanteria ser dada a cidadão que não sabe, sequer onde fica, no mapa, o estado, dão-na, também, a indivíduo que, depois se descobre, não passa de escroque, farsante, bandoleiro. Em seguida, quando Inês já é morta, não raro, irritam-se seus proponentes e tentam anular a honraria. Como diria um querido amigo: assim, fica difícil!

                Por fim, não comecei por este assunto porque me decepcionei ante o mero fato de dele haver tomado conhecimento: policiais, civis e militares, bandidos, apanhados em operação – roubo de cargas, tráfico, pistolagem - feita pela Polícia Civil. Como falaria aquele narrador esportivo: vocês estão de brincadeira! A simples hipótese de, caso expulsos de suas corporações, não sendo apurados crimes suficientes para mantê-los em cárceres privados por muito tempo, tivessem que ser libertados, já me enerva. Com essa gente livre - uns até disseram, antes da operação, que já estavam com saudade de matar alguém –, quem não corre risco? Vai que ativem a milícia que, um deles declarou, não se criou antes por pura covardia?