sábado, 28 de dezembro de 2019

Amor e sofrimento em Adail Coelho Maia

Fonte da foto e do texto: Portal Entretextos



Amor e sofrimento em Adail Coelho Maia

(*)Dílson Lages Monteiro

         Entre dezenas de obras referenciais da literatura piauiense republicadas nos últimos anos pela Academia Piauiense de Letras, sob atenção entusiasmada  de seu presidente Nelson Nery Costa, figura “O Lira do Sertão (Sonetos)” de Adail Coelho Maia, poeta nascido em São João do Piauí em 1907 e falecido nessa cidade em 1962. A obra foi editada pela primeira vez postumamente em 1978 e teve boa recepção, embora a circulação dos textos sofresse das limitações da edição modesta de então e de outras imposições do sistema literário. Quais traços do plano da expressão e do conteúdo imprimiram valor estético aos textos a ponto de justificar a reedição?

“Quero morrer de amor, meu Deus, quero morrer”. Bastariam esses versos para se afirmar que Adail Coelho Maia (1907-1962), “O Cisne de São João do Piauí”, no dizer de Pe. José Deusdará Rocha, traduz a essência própria do sentir dos poetas românticos. Para eles, amor e sofrimento se confundem na materialização de um conflito em que o desencanto da incorrespondência amorosa e do amor inatingível marca a inutilidade da existência.

            Esses traços temáticos, característicos, por exemplo, da poesia ultrarromântica de Álvares de Azevedo, o qual incorpora com maior exatidão, segundo Antônio Carlos Secchin, a “figura do poeta-sofredor, imerso em devaneios e desilusões” (2018:71), são retomados, ainda, a seu modo, pelos simbolistas. Aos românticos, só há lugar no mundo para o sonho e para a ilusão, carregados de sofrimento e dor (leia-se tristeza e divagações), a ponto de o amor e a morte habitarem entre os temas da predileção romântica dessa corrente de vates. Aos simbolistas, o amor também é fonte para a evasão, entretanto, ela se manifesta pelo sono, pelo sonho, pela viagem ou pela morte. Amar é movimento de sensações, agitação, vibração. A dor, de igual maneira, integra a subjetividade do poeta simbolista, revelando-se como modo de libertação do pensamento, que encontra o refúgio nas sensações e no transcendental, em sua atmosfera lúgubre, de vapor e névoa.

            Analisando a aproximação entre românticos e simbolistas, esclarece Massaud Moisés, em seu Dicionário de Termos Literários:

“ A introversão romântica sondava de preferência as camadas superficiais do "eu", de caráter sentimental ou emocional. Os simbolistas voltam-se para o seu mundo interior em busca dos estratos mais recônditos: ultrapassam o nível do consciente, mergulham no inconsciente e atingem o "eu profundo", a zona pré-lógica ou pré-verbal do psiquismo humano, dimensão do caos e da alogicidade que se faz representar pelos sonhos, devaneios, visões, alucinações, lapsos de linguagem etc.” (2002:421).

            Para Alfredo Bosi,

            “Ambos os movimentos exprimem o desgosto das soluções racionalistas e mecânicas e             nestas reconhecem o correlato da burguesia industrial em ascensão, ambos recusam a limitar a arte a objeto, à técnica de produzi-lo a seu aspecto palpável; ambos, enfim, esperam ir além do empírico e tocar, com a sonda da poesia, um fundo comum que susteria os fenômenos, chame-se Natureza, Absoluto, Deus ou Nada” (1987:295).

            Traçando o perfil pessoal e literário do poeta e interligando as duas figuras, o cronista São-joanense Gilvanni de Amorim assim descreve o conterrâneo:

“Adail é lembrado pelos seus contemporâneos mais pelo temperamento divertido, bem-humorado, do que pelas suas poesias, que traduzem dor, tristeza e sofrimento. Por que esse paradoxo? Porque o poeta escrevia sóbrio, diferente do homem alegre que se mostrava no dia a dia? Incompreendido como artista, não tinha interlocutores para dialogar consigo no meio em que vivia, e extravasou sua alma complexa, conflitante, numa lírica repleta de agonia” (2005:120).

            É a atmosfera de sofrência por amor que perpassa quase todo o volume de 61 poemas, sendo 60 sonetos e um “soneto duplo” intitulado “A desgraçada”. O verso que abre, por exemplo, esta apreciação crítica se reverbera em outros de teor e significados congêneres. Neles, a evasão ultrarromântica se desenha como única saída para a angústia do sofrimento amoroso; morrer de amor, metonimicamente, é condição inescapável do sentimento:

            “Não me mates, por Deus, assim entre as escolhas

                Eu preciso morrer, porém, como um devoto,

                Vendo as luzes do céu, no brilho dos teus olhos”

                (“Desconfiança”, p.53)



                “Quero sofrer e sinto-me feliz

                Quero morrer a consciência diz

                A minha vida te pertence é tua”.

                (Sofrer, p. 56)

  
            Lembra Domício Proença Filho:

                “Os escritos românticos revelam no artista uma capacidade de criar mundos imaginários e de acreditar na realidade deles. Do choque do eu com o mundo, o escritor romântico evade-se na aspiração por esse outro mundo distinto, situado no passado ou no futuro e onde ele não encontra as dificuldades que enfrenta na realidade imediatamente circundante” ( 2002: p.216).

            Assim, nos poemas do são-joanense, esse choque expresso na forma de sofrimento conduz a voz lírica, continuamente, a ver-se como um condenado, preso ao passado, sempre triste e solitário, como forma de vivência da paixão. Nessa paixão intensa e sufocante que o aprisiona, reconhece:

            “Agora, que fazer se tudo está perdido!

                Se até meu coração eu sinto está partido

                E a minha alma somente a maldizer meu fado



                Sofrer resignado o meu passado triste

                Perdi o amor bem sei e no meu peito existe

                A sombra torturante deste meu passado.”

                (O Passado, p.19)
  

            Encontra-se em Adail Coelho Maia um poeta sincrético, que, para traduzir a subjetividade do sentimento,  agregou à cosmovisão romântica traços simbolistas. Em seus versos, não raro, o sofrimento por amor se apresenta como cárcere, como o foi para Cruz e Sousa, embora poucas vezes, adquira o tom de transcendência, incorpora léxico próprio do simbolismo, escolhas vocabulares em que figuram “noites vaporosas”, “arquejos”, que o levam a viver “eternamente encarcerado”, como se lê no poema “Cárcere” (p.32). Em sua melancolia, expõe o eu lírico acentuado niilismo, buscando, em alguns momentos, em elementos etéreos, a fuga para o sofrer, a renúncia à razão:

            “Ontem tudo era sonho e tudo me sorria,

                Tinha n’álma o esplendor de um astro matutino,

                A vida para mim somente parecia

                Um céu desfeito em luz, um céu puro e divino

                (...)

                Eis pois o que me resta em todo esse tormento

                Um pobre coração partido em mil pedaços,

                Dispersos no retiro atroz do esquecimento.

                (E tudo se acabou, p.37)



            Entre os momentos elevados de “Sonetos”, notabilizam-se  poemas em que, por meio de pássaros representativos do semiárido ( o vim-vim, a cauam e o cardeal), diluem em seu canto e na natureza o próprio sentir da voz poética e estabelecem relações antinomiais comuns ao romantismo. Referenda-se o que escreve Vitor Manuel de Aguiar e Silva ao analisar a estilística desse movimento:

“O romantismo não se aprende numa definição ou numa fórmula. A sua natureza é intrinsecamente contraditória, aparece constituída por atitudes e comportamentos antitéticos (...) a verdade é dialética, pois, tal como a beleza, resulta da síntese de      elementos heterogêneos antinômicos, alimenta-se de polaridades e tensões contínuas” (2007: 557).

            Assim é que, o vim-vim, símbolo de alegria, também, convertido em repulsa, contrapõe-se ao cauam triste, metáfora para as dores que guarda no peito, ainda que paradoxais, canto que apraz o eu lírico. De igual modo, o cardeal, que faz lembrar “os mistérios da dor deste rosário” e, dessa maneira, eles, os cantos inconfundíveis dos pássaros, promovem e sustentam a inquietude do sentir, validando a premissa, segundo a qual, “o romantismo valorizou as forças instintivas e arracionais, glorificou o homem natural, o seu primitivismo(...)” (2007: 558) e construiu uma arte que “demonstra muitas vezes uma forte capacidade descritiva da natureza física (2007: 558)”.


            Aos que, por ignorância ou pelas motivações da nova ordem contemporânea, que sufocou ou amorteceu a cultura do recato nas relações amorosas, servem as palavras de Vitor Manuel de Aguiar e Silva para esclarecer por que, ao integrar romantismo e simbolismo em sua poética, Adail Coelho Maia, situa-se entre os poetas que merecem dos leitores atenção:

“Se meditarmos nesta riqueza polimorfa do romantismo, nas forças desencontradas que nele atuam, na multiplicidade de orientações e soluções que ele virtualmente oferece, compreendemos as razões por que o romantismo tem dinamizado e fecundado todos            os grandes movimentos artísticos que se têm sucedido ao longo dos séculos XIX e XX, desde o realismo até o simbolismo, ao decadentismo, ao surrealismo e ao                 existencialismo” (2007: 558).

(*)Dílson Lages Monteiro é professor e literato. Ocupa a cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras.

  
Referências:

AMORIM, Gilvanni Carvalho de. Relatos da Aldeia. Teresina: Edições Pulsar, 2015.

SECCHIN, Antônio Carlos. Percursos da Poesia Brasileira: Do século XVIII ao XXI. Belo Horizonte: Autêntica Editora/ Editora UFMG, 2018

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1997.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Técnicos da Literatura. São Paulo: Cultrix, 2002.

MAIA, Adail Coelho Maia. “O Lira do Sertão”. São Paulo: 1ª. Edição, 1978.

SILVA, Vitor Manuel de Aguiar e. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina, 2007.

PROENÇA FILHO, Domício. Literatura e Estilos de Época. São Paulo: Ática, 1994.  c

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Nomes e prenomes exóticos, eis a questão

James Dean. Fonte: Google



Nomes e prenomes exóticos, eis a questão

Elmar Carvalho

Fui informado pela chefia do Cartório Eleitoral de que fora criada uma duplicidade de filiação por causa de um caso curioso. Duplicidade é quando um eleitor é filiado a dois partidos, o que não é permitido por lei. Em alguns casos, trata-se de pessoas diferentes, mas homônimas, mas logo se descobre a verdade através da filiação ou da data de nascimento. Porém, no caso que me foi informado, os pais tinham o mesmo nome e os dois filiados tinham nascido no mesmo dia.

Os sobrenomes eram os mesmos e os prenomes eram praticamente iguais. Eram Luiz e Luís. A mãe, no auge da empolgação materna e no afã de homenagear o santo que lhe teria feito uma espécie de milagre, batizou os gêmeos com o mesmo nome, homófonos e homógrafos, com a única diferença da troca de um z por um s. É claro que o problema será resolvido, mas foi criada uma situação embaraçosa, que poderá acarretar algum constrangimento aos envolvidos.

Contudo, tenho ouvido falar de situações mais graves, cujos nomes servem de zombaria e escárnio aos seus possuidores. Nomes como Flávio Cavalcante Rei da Televisão, Osama Bin Laden, Lady Diana devem provocar risos, ou até mesmo chacotas. Muitas vezes os pais sequer sabem pronunciar corretamente o nome do filho, quanto mais escrevê-lo. Antes de pensarem na satisfação que o exotismo e bizarrice desses nomes lhes causam, deveriam pensar nos problemas e traumas que eles poderão provocar em seu filho.

Numa das cidades em que trabalhei, ouvia falar em certo Jamim. Pensei que se tratasse, evidentemente, de Jaminho, cujo pai se chamasse James. Somente por ocasião de uma audiência, em que esse Jamim era parte, foi que descobri que ele de   fato se chamava James Dean, sendo ele naturalmente uma homenagem ao ator norte-americano. Acredito que o bisonho pai do menino Osama sequer soubesse ao certo quem era o verdadeiro Osama e a razão de sua triste e trágica celebridade.

Soube que em certa cidade do Piauí, uma mãe, por causa de uma promessa ao santo de sua devoção, deu o nome Raimunda Cândida da Conceição a cinco filhas. Criou uma verdadeira dinastia de Raimundas: a primeira, a segunda, a terceira... Não satisfeita com tantas Raimundas, batizou quatro filhos com o nome de Raimundo. Drummond, obviamente para rimar com mundo, disse que se se chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Haja tantas Raimundas e Raimundos!

Não sei por que razão, mas as pessoas de nome Raimundo parecem não gostar muito desse nome, e geralmente são chamadas de Rai ou Ray, Mundico, Mundoca, Mundinho ou simplesmente R. E as Raimundas, por causa da rima com certa parte protuberante e posterior do corpo, também são um tanto ariscas com esse nome próprio (ou impróprio?).

Todavia, há os que assimilam bem os seus nomes esquisitos e até os ostentam com glória e orgulho, como o João Bosta da anedota, que foi consultar o juiz a respeito de mudar o seu nome. O magistrado disse que a mudança, em seu caso, não só era permitida como até recomendável, e lhe perguntou sobre que nome gostaria de ter, ao que o consulente respondeu que gostaria de se chamar Pedro Bosta. Sua implicância, portanto, não era com o Bosta, mas com o João, talvez por causa da estória do João Besta.

Contudo, deixo a advertência aos pais: cuidado com o nome que irão dar a seus filhos. Lembrem-se de que quem irá usá-lo é o rebento, e é este que sofrerá as consequências de seu exotismo e excentricidade, através de risos, mofas, escárnios e zombarias. Consequentemente, é o filho que poderá amargar constrangimentos e mesmo traumas por causa de um nome próprio impróprio.  


7 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

É Natal

Fonte: Google


É Natal

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e contista

Não há quem não sinta a alma se elevar e o espírito ganhar um sentido mais reflexivo nesse momento do ano tão importante para os cristãos, quando comemoramos o nascimento de Cristo. O Toque dos sinos, as músicas e os cânticos alusivas ao período nos trazem recordações que nos transportam até os longínquos dias da nossa meninice. Eu, por exemplo, já tive a oportunidade de relatar essa autêntica viagem ao passado lá no meu interiorzinho em que não tínhamos panetone, chocolates, uvas passas ou perus de pesando dez quilos ou mais (ou o Chester, Blesser, e até mesmo o pernil já pronto para ir ao forno). Lá, quem podia engordava o seu próprio peru, sacrificava o pobrezinho e o enchia com farofa com seus próprios miúdos para o levar ao forno da padaria.

Na minha casa comemorávamos diferente. Acorríamos à Igreja Cristã Evangélica para nos juntarmos à grande família cristã que festejava o verdadeiro sentido natalino entoando cânticos e assistindo belas performances teatrais em que o verdadeiro homenageado era incensado e louvado. Tudo sob as luzes brilhantes de uma bela árvore natalina feita a partir de um frondoso galho de pitombeira. Nada de sacrificar o peruzinho de basta plumagem e cabeça avermelhada, porém. Ou entornar litros e mais litros de vinho.

Aliás, o galináceo em seu estado selvagem era originário das regiões geladas da América do Norte, e atribuem a ele esse nome por se achar em Portugal durante o século XVI que o bípede emplumado ali consumido provinha do País sul americano. Mas a ave tal como a conhecemos hoje, foi domesticada no México, e virou um dos símbolos do natal.

Mas nem todos comemoram da mesma forma o período que para nós é tão importante. Os Islamitas árabes em sua quase totalidade), consideram Jesus apenas um dos cinco profetas que vieram para divulgar a palavra de Deus aos homens. E, apesar de respeitarem a data, não a comemoram como os cristãos.  Os Budistas também não comemoram o evento. Apenas respeitam a tradição, mas consideram Jesus apenas um ser de sabedoria elevada. Para os Judeus, conterrâneos de Cristo, até reconhecem a sua existência, mas não o cobrem da mesma santidade que nós. Lá, eles comemoram o Hanukah, a festa das luzes, e relembram as vitórias contra a opressão e a perseguição. Para os Hindus é tempo de festejar as luzes e adorar a energia divina.  Para os Xintoístas japoneses o 25 de dezembro é apenas uma festividade comercial, e, finalmente, para os Taoistas chineses, não tem qualquer significado divino. Louvemos nós ao Senhor Jesus Cristo pelo seu aniversário de nascimento!

FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO A TODAS AS NAÇÕES DA TERRA!   

Fonte do texto: Blog Folhas Avulsas

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

DALILÍADA

Fonte: Google


DALILÍADA

(poema épico inspirado na vida e na obra de Dalí)

Elmar Carvalho


           XIII

A deusa
da janela via o mar
mas eu só via as partes glúteas da deusa
que da janela via o mar.

           XIV

A vela dilacerada do veleiro esvaído
naquela pintura esvaída
era um sinal já perdido
da esperança perdida.
(Impressionismo é uma mancha diluída
 na desbotada tela da memória.)

           XV

Meu pai me olha circunspecto
do retrato que não pintei;
me olha austero
do que jamais pintarei.
(Os retratos têm pupilas,
os bustos não.)
Mas quanta bondade
nas pupilas de seu busto
que jamais esculpirão.

           XVI

Ao pé das rochas duras, quadradas,
a mulher sentada,
de carne macia, delicada,
com suas curvas e coleios,
envolta na grande solidão
de um céu duro, quadrado,
sem nuvens e da cor de chumbo,
bela e humildemente contrastava.  

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Cabeça de cera



Cabeça de cera

Pádua Marques
Romancista, contista e cronista

Pompílio se agachou e se pôs a coçar os pés que ardiam como em brasas depois de ter passado por cima de um formigueiro naquela vastidão de carnaubeiras na parte mais deserta da Ilha Grande de Santa Isabel. Um sol de rachar os miolos. E suando muito não tirou dele a ambição de olhar pra aquelas palmeiras naquele meio de dia e pensar que, se tudo desse certo conforme prometido a Gastão Carneiro, haveria de em pouco ter dado um salto e tanto na vida. Não havia nascido pra viver e um dia morrer pobre.

A mulher Nonata havia ficado em casa com os três filhos. Rosinha, a mais velha, menina de uns doze anos e já furando os bicos dos peitos, Teresa, a do meio, de dez anos e o mais novo, Gerônimo, de sete pra oito anos. Este, desde que nasceu que se tinha por muito doente. Coisa de pele. Umas feridas que davam pra coçar e tomando o corpo, só livrando mesmo a cabeça. Em tudo quanto foi médico na Parnaíba ele foi consultado, mas nenhum deu resposta do que se tratava a doença. O alívio era os três banhos por dia com raspa de casca de cajueiro, dados pela avó, dona Maria Tilim, metida a ler mãos pra adivinhar a sorte.

Havia quem dissesse que aquelas coceiras de Gerônimo eram coisa de sua mãe ter sangue ruim e que o menino tinha tudo pra depois de grande virar lobisomem. Nonata sofria muito pela pobreza, a doença do filho e com o que diziam sobre quando crescesse. Se crescesse. O marido Pompílio não era de reclamar da vida, mas era ambicioso e inquieto. Tinha na cabeça que um dia ainda haveria de sair daquele padecer com a família e até dar, se possível, escola pra os filhos que viviam correndo pra cima e pra baixo entre a casa de taipa dentro do carnaubal e a casa da outra avó, Mariana, a dona Véia, viúva de Raimundo Pereira, o Mundico da Arraia. 

Tudo gente vinda do Maranhão e muito pobre. Nos tempos de cheia das lagoas se danavam a pescar de rede ou de tarrafas e o pouco conseguido levavam pra Parnaíba, onde iria ser vendido nas ruas próximas da igreja de Nossa Senhora da Graça. Na época de trabalhar na derrubada da palha de carnaúba, até que entrava algum vintém, que ia logo pagar o fornecimento pela compra de querosene, açúcar, azeite, uma louça, algum metro de pano pra roupa de Nonata e das crianças. E nisso seu Gastão Carneiro corria a mão na caneta ou do lápis na gaveta pra saldar no caderno o que vendia fiado pra Pompílio, filho de Mariana, a dona Véia, dos Morros.

Gastão Carneiro era dono de um dos armazéns onde se vendia de um tudo na rua Grande, onde estava todo o movimento de comércio na Parnaíba naquele início de século XX. Magro, rosto fino e bigode mais ainda, idade de uns cinquenta anos mais pra cima, rapaz velho, vivia sempre com os olhos voltados pra beira do rio pondo sentido em quem vinha subindo o barranco. Bem que podia ser gente rica, vindo da Tutoia ou até mesmo de São Luiz em algum vapor, em ponto de fazer grandes compras ou fechar sociedade. Mas se contentava em dia de movimento fraco a mexer nas prateleiras anotando e alterando os preços das mercadorias.

Tinha por único empregado, o Damião, um negro lá de seus quarenta anos, sempre pronto a obedecer aos mandos do patrão ao menor sinal. Quando não havia freguês se punha a fazer contas de somar, diminuir, multiplicar e dividir num papel de embrulho no final do balcão. Foi indicação do pai, Afonso Carneiro, quando lhe passou o destino e o futuro do estabelecimento. Que pegasse um negro que fosse esperto, o ensinasse a ler e a contar e que sendo bem de feição e obediente, sem vício de bebida e de engraçamento com mulheres da vida dos Tucuns ou da Coroa, colocasse no armazém pra lhe ajudar. De certo que depois de desarnado e com pouco de tempo e paciência podia passar pra o balcão.

Negociava com pó de carnaúba e entre seus fregueses estava o inglês Wallace Groover, homem de uns quarenta e poucos anos, cabelos acobreados e já ficando brancos, dentes amarelos, roupas encardidas, suado e sempre fumando um cachimbo feito de sabugo de milho. Metido a jogar galanteios e pilhérias pras mulheres. Por esses e outros hábitos não era bem quisto pelas famílias de comerciantes da rua Grande, oficiais da justiça, padres e outras autoridades. Mas Mister Groover ou seu Groover, como era mais conhecido pelo pessoal da rua e do porto Salgado, se sabia que era tido e havido nas casas de gente rica e negociantes de pó de cera de carnaúba, os ingleses e franceses.

No final da tarde, já o sol se ponto por trás dos carnaubais da Ilha Grande de Santa Isabel, vinha ele se sentar, saído da pensão Bauss, de Eponina Bauss, em alguma porta de armazém a convite de seu dono e naquele estado se punha a se pabular da vida de inglês e vez por outra até criticava os costumes da gente do Brasil e da Parnaíba. Um ou outro ia puxando a conversa. E nesse tempo em que o porto ia se acomodando e ganhando o silêncio e a escuridão da noite, Groover voltava pra pensão ou quando estava mais afoito pela bebida de conhaque, se danava no rumo dos Tucuns à procura de mulheres da vida.

Chegavam notícias vindas da Tutoia de que a cera de carnaúba estava ganhando preço na Europa e nos Estados Unidos da América. E Groover foi um dos que mais bateu palmas na rua Grande com esta notícia. Consultou Gastão Carneiro sobre como estava a produção de pó de cera na Parnaíba e quem poderia fornecer este produto sem o risco de agiotagem. Pagamento em libras esterlinas, a moeda mais alta em todo o mundo, se gabava. Falou e falou muito e bonito. Disse até que falaria em breve com o cônsul inglês sobre a possibilidade de sua majestade o rei da Inglaterra, terra onde dizia que o sol nunca se põe, comprar um pedaço da Ilha Grande de Santa Isabel!

Os embarcadiços, negros estivadores, vagabundos, bêbados e até os faltos de juízo de toda sorte vieram ouvir o inglês com aquela gabolice toda. Batiam palmas, davam gargalhadas, contavam piadas indecentes, tentavam falar alguma palavra da língua inglesa, dançavam uns com os outros. Groover agora rasgava elogios ao Brasil, sua gente, as mulheres, principalmente as negras, a aguardente, as frutas. E aquela conversa tomava o rumo direto da noite e das casas baixas e imundas do Cheira Mijo e da Coroa.
                                               
Lá no meio daquela imensa mata de carnaubeiras, Pompílio estava com a mão na cabeça e era assunto de seu ofício. Era de como iria dizer pra mulher Nonata que o dinheiro apurado com a venda da palha naquele ano mal dava pra tapar uns buracos na dívida com Gastão Carneiro, tão logo pendesse pra Parnaíba naquele meado de agosto. Olhava os imensos campos cobertos de mata-pasto e salsa subindo as dunas no rumo da Pedra do Sal, os alagados cheios de peixes ruins, os ninhos de xexéus e de periquitos tomando as carnaubeiras.

Carnaúba já não tinha mais valor de venda. Imaginava vender tudo, pouco mais de duas léguas. Tudo pra tirar umas poucas arrobas de pó de cera, o cansaço dele e dos animais puxando a carga, o pagamento de algum ajudante, a canoa no Igaraçu. Depois ter que aguentar conversa de Gastão Carneiro e de outros. Mas foi o que recebeu de Deus e presente de Deus ninguém renega. Recebeu aquela ponta de carnaubeiras do seu pai, Mundico Arraia, marido de Mariana, a dona Véia. Foi dada como herança pra iniciar a vida depois de se juntar com Nonata.

Pó de cera era tudo o que dava aquele tipo de negócio. Tinha tempo que dava dinheiro, no que dava pra apagar alguma dívida na praça da Parnaíba. A vida era assim, ordinária e sem muita graça pra pobre e ainda mais sem instrução. Soubesse ler e contar talvez ninguém lhe passasse a perna.  Chegava com a carga de pó de cera e o comerciante ficava conversando com o comprador naquela língua que ele Pompílio não tinha entendimento. O mundo era assim. Uns sabiam falar, comer na mesa, fazer discurso, se vestirem bem e melhor. Ele não. Era só pra passar vergonha porque não sabia de nada. Tinha mal o nome.

E aqueles campos todos cobertos de carnaubeiras. Que custavam tanto e tantos anos pra dar palha em condições de corte. Iam cobrindo até a beira do rio, tomando os alagados, ainda eram de onde tirava alguma coisa pra sua família ter em casa. Queria uma roupa boa, um calçado, uma faca com bainha de couro cravejado de pedras, daquelas que um dia viu e se admirou num armazém na rua Grande. Vestido pras filhas e pra Nonata e algum agrado pra Gerônimo. Esse filho que lhe causava desgosto por causa da doença que doutor nenhum na Parnaíba disse o que era.

Mas bem que podia vender. Não tudo, mas umas braças de terra e com o dinheiro apurado ir pra São Luiz, no Maranhão, correr atrás de saber que diabo era aquilo no menino. Coisa mais feia. Chegou em casa e foi direto pra camarinha. Largou a pensar e lembrou que ainda havia pó de cera, mais de dez arrobas. Foi e fez o cálculo. Dava pra tirar algum vintém. No outro dia iria de cretado na Parnaíba negociar com Gastão Carneiro aquela mercadoria. Nem tratou com a mulher. Era coisa que não queria criar encrenca dentro de casa.

Gastão Carneiro estava naquela manhã interessado em receber uns negociantes de São Luiz que vieram até Parnaíba oferecer sociedade num negócio de máquinas de costura. Pompílio chegou e tratou de chamar Damião a um canto. Ofereceu o negócio da carga de pó de cera de carnaúba. O ajudante de balcão foi tratar com seu patrão e logo mais veio dizer que a pessoa mais acertada era Wallace Groover, um inglês que morava na pensão de Eponina Bauss. Era ficar esperando até à tarde quando ele viesse ter no porto com alguns donos de armazéns. Era mais que certo. Damião falou e falou bem do inglês, assim como o conhecesse. E tanto falou que acabou impressionando Pompílio. Voltou pra Ilha Grande de Santa Isabel pronto pra organizar a carga e dentro de mais uns dois dias voltasse pra fechar negócio.

Aquele terror de sol queimando o couro da cabeça, o suor escorrendo pelo queixo de barba mal feita, fez Pompílio juntar os quatro jumentos com a carga de pó de carnaúba e atravessar a região mais deserta de Ilha Grande de Santa Isabel no rumo do porto Salgado. Damião, o negro do armazém não jurou que o inglês Groover vinha toda tarde conversar com Gastão Carneiro? E essa era a vez de chegar com a carga de pó de cera de carnaúba e oferecer negócio. Quem sabe que daquele primeiro negócio não viessem outras encomendas!

Pensava alto. Na mulher mais bem cuidada, nas meninas estudando numa escola boa na Parnaíba, um colégio de freiras, talvez. A troca da mobília de casa, uns animais pra ajudar na cata da palha, uma tarrafa nova pra o tempo da pescaria.  Pensava até de falar da doença de Gerônimo. E assim foi chegando entre veredas e várzeas no porto Salgado. Descarregou os jumentos e contratou com o pouco dinheiro que ainda tinha o serviço de uma canoa grande. Os sacos foram sendo empilhados e Pompílio junto dentro de pouco tempo estava atracando no porto Salgado.

Nem descarregou o pó de cera de carnaúba. Subiu correndo o barranco e foi dar na porta de Gastão Carneiro. Pelo que havia falado o negro Damião, o inglês Groover estava metendo a cara pra mais um final de tarde de conversa. Era a hora de a onça beber água! Ia chegar oferecendo o pó de cera e a um preço convidativo. Não tinha como dar errado. Ficou pensando as palavras com que iria se dirigir ao inglês. Damião o viu de longe e fingiu que não o conhecia. Pompílio fez um aceno. Fez outro. Nada. O negro estava se fazendo de dono do armazém, só podia ser!

O futuro caixeiro do Armazém Carneiro veio dizer meio sem jeito que ficou sabendo pela manhã, logo no abrir as portas, que Groover havia ido embora da Parnaíba assim duma hora pra outra saindo pela Tutoia em canoa até alugada. Anoiteceu e não amanheceu! E pelo que se ficou sabendo, tudo por causa de ter mexido com mulher alheia, mulher de um dono de curtume, homem muito rico e influente. Na volta pra os Morros da Mariana, quando a canoa alcançou o meio do rio Igaraçu, Pompílio puxou a faca da cintura e foi furando um a um todos os sacos. O pó da cera de carnaúba foi se espalhando na água e sumindo na correnteza.

- Bem que haviam me avisado que não confiasse em gente do estrangeiro!   

domingo, 22 de dezembro de 2019

Carro-de-boi

Fonte: Google



Carro-de-boi 

Hermes Vieira (1911 - 2000

Carro véio de boi, purque tu geme
E lamenta siguindo o teu camim?
É purque tu vai indo assim puxado,
Conduzindo esse fardo tão pesado,
Qui tu geme e lamenta tanto assim?

Carro véio de boi, neste momento,
Cuma tu qui lamenta, geme e chora,
Cunduzindo outros fardo bem pesado
Pur camins turtuoso, imbaraçado,
Tombém muitos vão indo mundo afora

Eu bem sei qui tu sofre, sem tê curpa,
Uma dô pur'o peso qui condúiz,
Mais, ti alembra qui o Fio de Maria,
Padecendo tombém tanta agunia,
Sem tê curpa, arrastou pesada crúiz.

E eu tombém,cuma tu,meu carro véio,
Arrastando e sofrendo ím meu camim,
Vou levando mil saca de amargura
Pra butá no paió da sipurtura,
Cedo ou tarde, onde ispero isto tê fim.

E  purisso, tem carma e vai siguindo
Teu camim, padecendo conformado:
Foi sofrendo, cum carma, qui Jesuis,
Adispois de cravado numa crúiz,
Pur'o mundo vem sendo festejado.   

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Um canto para uma imaginada Índia




Um canto para uma imaginada Índia

Dílson Lages Monteiro
Da Academia Piauiense de Letras

Independente da razão que leva à leitura de uma obra literária (apelo afetivo-temático, imposição circunstancial, entretenimento etc.), somos instantaneamente capturados a nos encontrarmos nas páginas do livro de algum modo. Alberto Manguel constatou, por isso, que os livros são espelhos de cada leitor: refletem sua identidade; subvertem os significados do autor. Convidados a apresentar “Um Canto para uma Imaginada Índia”, de Rita de Cássia Amorim Andrade, pusemo-nos a perguntar o que de significativo (ou que pelo menos imaginássemos significativo) poderíamos examinar para chegar à essência do livro em forma e conteúdo. Folheando-o, vimos de saída que era um texto épico, um gênero menos cultivado que os demais e, por essa razão, acreditamos oportuno vasculhar a função do gênero para atingir a individualidade da obra e, dessa maneira, dar à apresentação do texto uma natureza pedagógica, refletindo nossa identidade de professor e alcançando os sentidos originais pretendidos pela escritora.

Chamamos “poesia épica, ou poesia heroica, ou ainda simplesmente épica (como substantivo)”, “um texto poético, predominantemente narrativo, dedicado a fenômenos históricos, lendários ou míticos considerados representativos duma cultura”, define Carlos Ceia em seu Dicionário de Termos Literários esse que é um dos gêneros literários cuja leitura demanda “estratégia discursiva que converte eventos documentáveis em ‘feitos’”. Gera-se, assim, “a imagem dum tempo heroico particular, definido como o glorioso passado da nação e como um modelo de emulação para tempos vindouros”.

Rita de Cássia Amorim Andrade, escritora já senhora das palavras, autora de romances como “Pedra do Sal, um pescador e seus amores”, “Karen: corpo e alma”, “O hortigranjeiro e a médica”, traz agora aos leitores obra com o matiz épico. “Um canto para uma imaginada Índia” é uma busca de definir e entender uma cultura, a multiforme cultura indiana, a partir de seus heróis, a partir do que a torna grandiosa; entretanto, de um modo inusitado: pela intermediação dos diálogos favorecidos pela moderna tecnologia.

Pela natureza do gênero, a obra é texto que requer, dadas as especificidades formais e temáticas que caracterizam texto épico, um modo particular de leitura, sem a percepção da qual o leitor menos habituado a textos com as particularidades que o gênero agrupa  tende ao afastamento. Trata-se de leitura exigente, muito embora a oralidade verta-se em traço recorrente, como também o é na obra de Rita de Cássia. Por que essa leitura costuma ser, para muitos, exigente? A leitura pede que consideremos, de imediato, a influência dos aspectos formais na construção dos efeitos de sentidos, ainda mais por ser a obra constituída de poemas narrativos longos.

Diz Cristina Ramalho, em estudo de orientação sobre estratégias de leitura de textos épicos, que, se comparado a outros gêneros literários, é “visivelmente reduzido o número de manifestações do gênero épico que circulam na historiografia literária universal”. Segundo ela, “embora a produção épica seja numericamente expressiva, seu trânsito pelas culturas é restrito”. Apesar disso, na tradição literária universal, figuram obras épicas de notável reconhecimento como A Ilíada e A Odisseia, de Homero; O paraíso perdido, de Milton; A divina comédia, de Dante Alighiere; Decamerão, de Giovanni Boccaccio; A Eneida, de Virgílio; Os Lusíadas, de Camões; Mensagem, de Fernando Pessoa. Na literatura brasileira, grandes obras épicas alcançaram sucesso entre leitores: Prosopopeia, de Bento Teixeira; Uraguai, de Basílio da Gama; Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa; Caramuru, de Santa Rita Durão; O caçador de esmeraldas, de Olavo Bilac; Pau Brasil, de Oswald de Andrade; Cobra Norato, de Raul Bopp; Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima; Romanceiro da inconfidência, de Cecília Meireles.

Na literatura piauiense, essa manifestação é excessiva na tradição da cultura popular por meio dos folhetos de cordel, os quais exaltam figuras mitológicas do sertão nordestino. Entre nós, na literatura de feição erudita, Hinderburgo Dobal Teixeira cultivou a épica. Na expressão do crítico M. Paulo Nunes, procurou Dobal “retratar em sua poesia ‘os trabalhos e os dias’ de nossa gente, inclusive em seus momentos mais dolorosos e sofridos, como ocorre com o seu poema épico ‘El Matador’, focalizando um episódio bárbaro de nossa colonização: o massacre da raça indígena, dizimada pelo colonizador. Ou ainda quando retrata, na figura de Leonardo das Dores Castelo Branco, em seu poema épico ‘Leonardo’, de tão grande beleza, a saga de nossas lutas na guerra da Independência”.

Embora seja numerosa a produção épica, conforme resumidamente explicitado, a explicação para a restrita circulação do gênero, conforme Cristina Ramalho, seria um modo de ler ultrapassado: “(...) há uma precariedade em termos de recepção ao texto épico, decorrente do congelamento da imagem de um leitor ideal preso, portanto, a processos de leitura épica orientados por visões teóricas anacrônicas”. Esse modo de ler desconsideraria as transformações pela quais o gênero épico passou e as possibilidades de recepção crítica a produções contemporâneas. Como, então, ler “Um canto para uma imaginada Índia?”

Para Adorno, “As epopeias desejam relatar algo digno de ser relatado, algo que não se equipara a todo o resto, algo inconfundível e que merece ser transmitido em seu próprio nome”. Na épica de Rita de Cássia, organizada em 10 cantos, com variações em sua estrutura formal clássica, o legado histórico do indiano, a superioridade de uma natureza única e das cidades de patrimônio imaterial secular, o talento reconhecido de grandes literatos, o anonimato de gente exótica, exaltada pela celebração da visibilidade da Era Digital, imprimem no leitor, por meio do contato com amigos distantes e ao mesmo tempo tão próximos pela força do compartilhamento de informações e afetos, o encontro e o reencontro com o maravilhoso. A autora acende representação que lembra Italo Calvino em suas Cidades Invisíveis, porque cada cidade traz marcas sui generis impressas na paisagem, impressas nos habitantes, mas marcas que servem também para todas as cidades e, ainda, concomitantemente, para uma única cidade.

Por todo o poema, há, intencionalmente elaboradas, descrições em excesso, a fim de apontar características que denotem ou conotem o notável valor da cultura da Índia. A arquitetura é um dos elementos mais focalizados, tal qual a vocação para o trabalho e para a espiritualidade. Sobre o primeiro aspecto, por exemplo, assim procede ao descrever a cidade industrial de Kanpur, no canto III, destacando a antinomia entre a efervescência comercial do lugar e a paz refletida nas relíquias arquitetônicas de um templo de estilo gótico:

“Enfim Kanpur, a estridente cidade industrial/ Lotada de pessoas andantes e ágeis,/Pisando leve nos seus silêncios atentos. (...) Enquanto o meu olhar tímido vagueia/ Por entre um povo rico de viver,/Quando o relógio do meu tempo/ desperto pelos vapores suspensos no ar/ invadem as minha narinas/ num incessante arfar, procuro um jardim/onde posso respirar tranquilamente. (...)A nave da igreja está vazia e silenciosa./Ao lado da casa de Deus um cercado gótico/ protege um anjo esculpido,/com braços cruzados em sinal de paz. (...)A Índia é um país de deuses próprios/ Mas dizem que Jesus Cristo andou/ De cá para lá nesse solo tão antigo!/ Assim também sou eu, de igrejas e de templos/ para conhecer melhor a natureza espiritual.” (pags. 100 e 106)

Ao longo de todos os cantos, ao registrar particularidades de tipos e lugares, o narrador dissolve-se na paisagem sócio-humana observada, arrastando consigo o olhar do leitor curioso, como nos versos do parágrafo anterior, como nestes versos finais ao  visitar VARANASI, a cidade sagrada: “O sol se põe/E podemos visualizar em redor dos Barcos/O vulto de pessoas nas águas/Curando suas dores (p.112)

Em todo o poema narrativo de “Um canto para uma imaginada Índia”, geografia e história dialogam com heróis indianos, a partir da invocação feita metonimicamente com a função de um prefácio. Nela, o narrador, que se vai deixando a conhecer como um narrador moderno que incorpora a figura de um internauta, focaliza a fusão entre o provinciano e o moderno, como condição para abstrair a essência da Índia. Sob esse aspecto, todo o poema evoca o ufanismo, traço composicional do gênero, que tornam cirúrgicas as anotações de Cristina Ramalho a respeito do gênero: “É por sua capacidade de tocar o simbólico da ação heroica e as verdades morais que estão na estrutura de uma sociedade ou cultura, que o poeta e a poetisa épicos se fazem porta-vozes de um epos amalgamado na sociedade ou cultura retratada”.

Nessa perspectiva, o que há de inventividade no texto de Rita de Cássia Amorim Andrade? Ainda que se possa tentar estabelecer um liame entre essa escritura e o momento histórico atual, assinalado pelo escapismo das soluções políticas fáceis ou  pela polêmica dos antagonismos políticos, aos quais  a literatura também se relaciona, consciente ou inconscientemente, a voz de seu narrador imprime substância à capacidade da globalização de pôr o homem em todos os espaços e ao mesmo tempo no espaço pequeno da sala, do quarto ou mesmo da tela do celular.

O narrador de “Um Canto para uma Imaginada Índia” é este narrador de todos os dias. Por isso, a cadeia da referenciação se tece mediada por inúmeros contatos que a voz enunciadora apresenta como amigos de redes sociais, tão reais e tão virtuais, subvertendo, pela situação de diálogo e oralidade, a narrativa histórica, que passa a segundo plano.  Esse narrador mora no Whatsapp, no Facebook e no Instagram. Assim se confundem narrador e leitor.  Esse narrador, também leitor, paradoxalmente, vive estórias que nunca serão as suas estórias, porque imediatamente apagadas pela rapidez do acontecimento novo e fragmentadas sem que sequer houvesse tempo para se processá-las. Mas seu narrador, anunciando-se como um viajante moderno, não mais em naus físicas que levam a outros continentes em turbulentas viagens de semanas e meses, é o da metalinguagem e o da intertextualidade. Cada referência histórica do poema épico de Rita de Cássia está no google, esperando por leitores que, lendo a Índia, em suas cidades e personagens, lerão o Brasil e seus lugarejos, e descobrirão também o que nos faz tão tropicais quanto qualquer lugar onde a esperança do futuro está na alma do povo.

Para finalizar, reproduzimos as palavras finais da autora: “Aqui a palavra morre/ E derrama os seus rubros glóbulos/ Por sobre o papel de uma memória/ do que não vivi”. 

Fonte do texto e da foto: Portal Entretextos

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Em Regeneração, ao pôr do sol

Fonte: Google

Em Regeneração, ao pôr do sol

Elmar Carvalho

Ontem, ao sair do trabalho, de tardezinha, estava um tanto melancólico. Por isso mesmo, resolvi dar uma volta de carro até o início da Chapada Grande, seguindo pela estrada que vai de Regeneração para Oeiras. O entardecer, na zona rural, em que se percebe com mais intensidade o cair da noite, sempre me entristece um pouco. Acho o amanhecer sempre mais alegre; até o cantar das aves me parece mais festivo, com a luz surgindo e fazendo tudo ressurgir.

O cair das trevas é quase como se fosse um aniquilamento de tudo, com as coisas e a paisagem desaparecendo na escuridão. É como se fosse a antecipação ou o ensaio da morte. Dizem que o sono é uma pequena morte, mas o sono nunca me causou tristeza. Ao contrário, a falta dele é que causa uma certa ansiedade e até mesmo graves problemas psicológicos nas pessoas que têm dificuldade em dormir. Isso porque sentimos vontade e mesmo necessidade de dormir.

Bandeira, num de seus poemas, fala que quando fora dormir, em certa noite de São João, havia conversa, risos, luzes, mas quando acordou, alta madrugada, já nada disso havia, porquanto estavam todos dormindo, dormindo profundamente. Há o dormir mais profundo, o dormir da noite eterna, o dormir da morte, de que jamais se acorda.

Suponho que essa nostalgia ao entardecer é um sentimento atávico, ancestral, entranhado na alma e numa espécie de memória genética, se é que assim me posso exprimir, que aparentemente surge sem razão e para o qual não se encontra fácil e instantânea justificativa. Contudo, creio que o tombar da noite, nos lugares em que não existe luz elétrica, lembra o caos primordial em que nada existia, mas do qual tudo surgiu.

Um caos primordial às avessas, que tudo vai destruindo, que tudo vai reduzindo a nada, porque as coisas vão desaparecendo de nossa vista, como se deixassem de existir de fato, e não apenas para a nossa percepção visual. Embora tenhamos fé numa outra vida, a morte nos entristece pela saudade que sentimos da pessoa que não mais veremos. A separação pela distância nos deixa triste, mas acalentamos a esperança de que sempre poderemos rever a pessoa amada.

Talvez fiquemos tristes ao crepúsculo porque é como se as coisas morressem ao desaparecer nas trevas, e a noite se nos afigurasse como uma espécie de antecipação da morte; da morte de nós mesmos, e da morte do mundo que perderemos com a nossa morte. Mas, parafraseando a letra viniciana, chega de tristeza, chega de saudade.   

6 de abril de 2010  

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

DALILÍADA

Fonte: Google


DALILÍADA

(poema épico inspirado na vida e na obra de Dalí)

Elmar Carvalho


           IX

A tela estava intacta
porque o pintor pintava
o nada de sua vida vazia
onde o oceano jazia no abismo
de uma órbita que sequer existia.

           X

O retrato circunspecto
escuta os acordes do violoncelo
de um outro quadro em que
o artista toca para uma
janela vazia.

           XI

Dalí da tela se enxerga
a pintar o auto-retrato
que pensativo lhe espia.

           XII

Na paisagem de pedra dura
a carne tenra de Vênus
atiça as setas agudas de Cupido.