domingo, 12 de julho de 2020

Seleta Piauiense - Menezes y Morais

Fonte: Google


seres exalam amor

Menezes y Morais (1951)

de concreto  a alma  o passa  a vulva  a fala

o arco-íris se esvai em gotas de colírio e de mormaço
na ternura de outra ilha

seres exalamar

a alegria geral completa personal bank do teu
pasto

tem cárie na virtualidade do sorriso?

o amor-massa palhaço dá o tom do qu´eu digo
e melodiza o qu´eu faço

a vida é enigma do homem?
o homem é inimigo da raça?

a morte é troféu da vida
ou a vida é a mais valia da praça?    

Fonte: site Antonio Miranda

sábado, 11 de julho de 2020

PARNAÍBA REVISITADA

Autor: Jairo Leocádio

PARNAÍBA REVISITADA


Elmar Carvalho

 

Pelos labirintos

de antigas ruas perdidas

caminho sem destino

e mergulho no temporal

das cavernas inescrutáveis

do deus Cronos

e o que se chama passado

intacto resgato

num pequeno pedaço de um

velho azulejo desbotado.   

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Um trem pra ver Moreninha




Um trem pra ver Moreninha

Pádua Marques
Romancista, cronista e contista

Naquela hora da manhã o largo da estação da Estrada de Ferro Central do Piauí, no Macacal, já não cabia uma cabeça de prego que fosse, tanta era a quantidade de gente pronta a embarcar nos vagões pra ir até o Campo de Aviação do Catanduvas, lá em cima, ver de perto o avião que o Aero Clube de Parnaíba havia ganhado e que iria fazer seu primeiro voo. Era gente que não acabava mais, feito Domingos Clarindo, vendedor de pirulitos de açúcar queimado.

Domingos Clarindo aproveitou também pra trazer naquele passeio os cinco meninos menores, Domingos Filho, Raimundo, Genésia, Pedro e Socorro, tirando eles de dentro daquela casa pequena nos Campos e pra mostrar o movimento dos aviões. A toda hora corria um boato entre aquela multidão sobre a hora da partida do trem e enquanto isso, era chegando mais gente, chegando mais gente. Gente vinda de Ilha Grande, Buriti dos Lopes, Piracuruca, Bom Princípio, Cocal, Amarração, tudo enfim e quanto era canto.

Vendedores de laranjas, café, bolo de tora e de goma, bananas, refrescos, roletes de cana, bolos de milho, toda sorte de coisa pra comer e beber naquele dia de sol quente e limpo na Parnaíba de 1942, três anos depois de ter rebentado uma guerra na Europa e que começava a causar dor de cabeça nos homens da Casa Inglesa, Marc Jacob e do Moraes, essa gente que havia formado fortuna com a cera de carnaúba. Já não havia muito movimento no porto Salgado e o porto de Tutoia causava era pena.

Mães e pais com seus filhos vestidos com as roupas de domingo, aquelas roupas de ir à missa, estavam esperando o trem dar sinal de que iria sair. Alberto de Moraes Correia estava rindo à toa com o feito. Tudo aquilo era o resultado de uma campanha imensa da Rádio Educadora, de Edison Cunha, Elias Magalhães, Benedito Jonas Correia e Fonseca Mendes. Haviam conseguido com a Companha Nacional de Aviação Civil, três aviões, o Moreninha, Alfredo Gomes e Rangel Pestana.

 Alberto de Moraes Correia, um dos diretores do Aero Clube de Parnaíba, estava cheio de rapapés pra Souto Maior, um dos maiores pilotos brasileiros da época e que trazia o Moreninha, o primeiro dos três aviões. Mas era muita gente indo e vindo procurando uma brecha nos vagões, rezando. Vicente e a mulher, dona Ana, vieram da arenosa Guarita prontos pra embarcar rumo do Campo de Aviação do Catanduvas.

Deixaram os meninos menores com a avó dona Inácia, mas levaram o maior, Vicentinho, de uns oito anos e que já não dava trabalho em meio de gente. Vicente, assim como tantos outros homens de sua idade, que pouco sabia assinar o nome, ia tomar pé de algum serviço. Via longe aquele negócio de avião e estrada de ferro. Vai que mais lá pra frente precisasse de gente pra trabalhar limpando avião, varrer e juntar o cisco nas oficinas, essas coisas?  O filho até ali não tinha feito vergonha ao casal. Olhava tudo e a todos admirado, mas encabulado.

Na hora do embarque no vagão, Vicente, a mulher, o menino e os outros foram empurrados pra dentro feito gado indo pra o matadouro naquele atropelo de dar medo. O menino quis, mas engoliu o choro com medo de levar um puxão de orelhas da mãe. Aguentou firme os coques que levou na cabeça, de uns moleques de ponta de rua, dois vendedores de tapioca, mas ficou ali com os olhos fitos em tudo. Empurrões, gritos, insultos, nome feio, mas em pouco tempo e todo mundo acomodado, o apito da máquina dava sinal de que eles estavam indo no rumo do Campo de Aviação do Catanduvas.

Depois veio a mata rala do Macacal e aquela gente olhando pra esquerda e depois pra direita, boca aberta com as carnaubeiras dentro dos alagados, algum passarinho voando assustado e deixando o ninho nalgum galho de pé de sabiá por causa do barulho e da fumaça do trem. De repente vem de cima sentido de que mais gente já estava lá ou que caminhando preferiu ir a pé. Um casal aqui, dois ou três colegas mais na frente, seis rapazes ou mais caminhando rente aos trilhos, cantando e contando lorota pra matar o tempo.

E aquele terror de sol não tirou aquela gente de dentro de pouco tempo estar descendo com a mesma violência com que havia subido em Parnaíba, agora na frente do campo, aquele lugar distante, sem um pé de pau pra se ficar embaixo e apenas as grandes oficinas onde estava o Moreninha, o prefeito Mirócles Veras, o pessoal do Aero Clube, soldados e a banda de música. Dali mais um pouco Souto Maior faria a exibição com o Moreninha e o povo iria bater palmas, dar gritos, chorar. Coisa de fazer até menino se mijar de medo.

Souto Maior estava ali pra impressionar o povo junto com aqueles maiorais da Parnaíba e não causou vergonha. Com o macacão de piloto e depois de levar o Moreninha pra pista e tendo todo o tempo Alberto de Moraes Correia e outros rapazes ricos do lado. Veio de lá um sujeito e deu um movimento numa das hélices e quase que no mesmo momento, questão de segundos, ela se pôs a girar fazendo muito barulho. O Moreninha corre um pouco na pista de piçarra se sustentou no ar e ganhou altura, pouco mais de trezentos metros. Depois daquilo tudo, daquele dia de admiração com tudo que havia visto, agora era voltar pra casa e contar pra quem não viu.   

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Ivermectina e a covid-19

Fonte: Google


DIÁRIO
[Ivermectina e a covid-19]

Elmar Carvalho

09/07/2020

            Minha mulher soube que uns seus parentes teriam tomado um medicamento como uma prevenção para minorar os efeitos de uma eventual contaminação pelo novo coronavírus. O remédio não era cloroquina e nem hidroxicloroquina.

Estes dois eu não tomaria, porque as informações mais consistentes dizem que eles não têm nenhum efeito no combate à covid-19 e teriam efeitos colaterais graves, inclusive podendo causar arritmia cardíaca. Considerando a equação custos versus benefícios, não os tomaria, porque os custos seriam altos e o benefício igual a zero.

O medicamento que os parentes da Fátima tomaram se chama ivermectina, na versão genérica e na modalidade comprimido. Conversei com um médico, meu parente e amigo, que aprovou o seu uso, inclusive levando em conta que ele não tem efeito colateral.

Soube que esse medicamento foi usado em larga escala em alguns países africanos, contra algumas doenças como verminose e elefantíase; e que, por causa disso, a covid-19 não se alastrou nesses países, como muitos entendidos temiam. Não posso garantir ao leitor que não possa haver eventual “fake news”.

Outro dia, ao transcrever uma informação, devidamente entre aspas (“ ”), um leitor anônimo, em comentário na publicação virtual, postou uns irônicos ou mesmo sarcásticos kkkkk. Para que isso não ocorra novamente, repito, confiram o que eu disse acima, para que tenham certeza de que eu não esteja involuntariamente divulgando uma informação inverídica. Em todo caso só o tomem após consulta médica.

Consta na bula que ivermectina “é indicada para o tratamento de várias condições causadas por vermes ou parasitas”. Acrescenta que estudos demonstram que a ivermectina funciona no tratamento das seguintes infecções (cujos parasitas foram nomeados na bula): estrongiloidíase, oncocercose, filariose (elefantíase), ascaridíase (lombriga), escabiose (sarna) e pediculose (piolho).

Os antigos, quando nos perguntavam se estávamos “bons e gordos”, em seus cumprimentos, é porque assim desejavam estivéssemos. Contudo, nos dias atuais, em que o padrão de beleza é uma magreza quase anoréxica, isso seria uma blasfêmia e heresia. Portanto, já não faz sentido o ditado que diz que “o que não mata, engorda”. Não sei se o nosso remédio engorda, mas sei que não mata, já que não tem efeitos colaterais. Engordar ou não engordar, não é esta a questão.

A questão é: tomar ou não tomar a ivermectina? Tomei-a. Tomei-a  pelos seguintes motivos, considerando os custos/benefícios: o custo é zero, já que não há que se falar em efeitos colaterais, porquanto inexistentes. Os benefícios para mim são inúmeros, uma vez que não tomo medicamento contra vermes e parasitas há muito tempo.

E, considerando-se verdadeiras as evidências observadas e constatadas, é um tratamento eficaz na prevenção contra o novo coronavírus ou a famigerada covid-19, que nos tornou reclusos, mesmo em plena liberdade.

Que a pandemia sirva ao menos para isto: tornar os humanos efetivamente humanos e melhores, e que passemos a seguir a regra de ouro pregada por Jesus Cristo: “Todas as coisas, portanto, que quereis que os homens vos façam, vós também tendes de fazer do mesmo modo a eles.” — Mateus 7:12.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Doca Nunes e as memórias de Wanda


Wanda Nunes, autora do livro


DIÁRIO
[Doca Nunes e as memórias de Wanda]

Elmar Carvalho

07/07/2020

            No começo deste ano, antes da pandemia, numa de nossas reuniões da APL, o confrade Homero Castelo Branco me entregou o livro “Os Doca Nunes – passado e presente – uma genealogia inacabada”, editado pela Nova Aliança (2020), com orelha e apresentação de Hilma e Homero Castelo Branco, distinto casal amigo, parentes da autora. Por motivo de tempo e outros percalços, tardei em atender o pedido de Homero, para lhe tecer breve comentário, o que ora o faço.

            A autora foi enfática ao esclarecer que não escrevera um biografia (ou autobiografia), mas, sim, memórias. De modo que no livro estão as recordações de sua vivência e convivência e das pessoas e coisas que lhe são mais caras.

            Sua prosa, em certas passagens, ganha matizes e tonalidades de verdadeira prosa poética, com frases rítmicas, bem construídas, repassadas de emoção, beleza e vivacidade. Fala do amplo solar paterno, de muitos quartos e compartimentos, do quintal, do jardim interno em que sua mãe cultivava belas e odoríferas flores. Quintal e jardim amplos, em que o girassol não precisava gritar asfixiado, como no belo poema memorialístico de Ferreira Gullar.

            Recorda seus afazeres e entretenimentos, como elaborar seus trabalhos de crochê, com linhas coloridas, em que esquecia os problemas e se sentia transportar para uma dimensão mais prazerosa. Fala das cantigas e das brincadeiras de roda, e de um tempo em que as famílias e os amigos costumavam conversar nas calçadas, na frente de suas casas, sem medo e sem pressa, e sem o cativeiro dos “brinquedos” eletrônicos de hoje.

            Por vezes, suas memórias ganham contorno e tessitura de uma natureza morta, em que os objetos, as frutas, o bule de café, o abafador, os objetos de flandres ganham o colorido de uma bela pintura das coisas e dos tempos de outrora, em que a vida parecia escorrer sem pressa, com mansidão, sem a urgência e premência dos dias de agora, em que as pessoas parecem não ter tempo sequer para pensar e ficar quietas no seu canto.

            E nessa toada saudosista lembra as noites de antigamente, as noites de plenilúnio, violões e serenatas, a luz mortiça dos lampiões, as vozes dos seresteiros, que quebravam o silêncio das frias madrugadas, com suas melodias românticas, cujas letras eram um belo poema de amor.

De suas linhas memorialísticas evolam belas canções, que me fazem evocar os seresteiros, “com seus violões, embriagados de sonho e de cachaça”, que “dedilham canções às bem-amadas, arquejantes de amor por entre arminhos”. São metáforas e impressões impregnadas de ardente emoção, de saudosas lembranças que insistem em não morrer. Memórias vivas e pulsantes, refertas de emoção e beleza.

Na evocação de seu passado, de sua infância, de sua adolescência e juventude, recorda os versos de poetas de sua predileção, entre os quais o lírico e ingênuo Casimiro de Abreu, na singeleza de seus versos mais expressivos, sobretudo os do poema “Meus oito anos”. Parece que vemos os vultos de seus pais, de seus irmãos, de seus parentes e amigos, em amigável e benfazeja convivência, tecida em respeito e mútua compreensão, mas em que se seguia a regra de ouro do Evangelho e do bem-viver.

E como um estribilho insistente, permanece em sua memória o rangido e o ringido da rede de seu pai, em perene vai e vem, como o cricrilo insistente de um grilo, ringindo e rangendo no gancho enferrujado do armador. Mas também em suas páginas encontramos a beleza das aves e os seus gorjeios maviosos. Não há dramas nem tragédias, mas, sim, a beleza das pequenas coisas, dos pequenos gestos de afeto, das palavras de acolhimento, das amizades verdadeiras, que se consolidam e se fortalecem no decorrer dos anos. Seus relatos são sempre permeados por emoções e poesia, e por reflexões e experiência de vida.

A autora faz belas e poéticas descrições da natureza e do rico patrimônio arquitetônico de Oeiras, quando se refere aos seus vetustos sobrados, aos seus casarões solarengos, aos becos estreitos e sinuosos, aos históricos edifícios públicos, de onde ecoam lendas, estórias e histórias, e quando se reporta a suas praças, jardins e logradouros. Neste ponto não consigo refrear a tentação de transcrever este pequeno trecho de meu poema Noturno de Oeiras:

Nos campanários de antigas igrejas
algum falecido sineiro repica
os sinos para si mesmo.

Uma sonata se evola
de piano que já não existe.
E persiste por pura teimosia.

Ao longo do livro encontramos trechos que são na verdade verdadeiras crônicas, algumas evocativas, memorialísticas. Outros contam muito da história familiar, dos relacionamentos, das viagens, dos encontros e desencontros. Uma parte do livro contém as filosofias de vida e os ditados escritos por Doca Nunes, o pai da autora; outra é um minidicionário da “linguagem popular oeirense” e há ainda registros de mezinhas e simpatias, que são uma contribuição para um melhor conhecimento da cultura da velha capital.

Enriquece-o uma espécie de álbum, recheado de fotografias e ilustrações coloridas e em preto-e-branco, em que aparecem o brasão da família Nunes, personalidades históricas, familiares, amigos, partituras, igrejas, logradouros, solares, etc., e a beleza espinhenta de um cacto se recortando contra a beleza luminosa de um deslumbrante pôr de sol oeirense.

A obra é ainda um rico e fértil manancial para a genealogia propriamente dita e para a história oeirense, porque refere a descendência da família Nunes, no tocante a seu tronco familiar, a partir do patriarca Pedro Pereira Nunes. Faz a contextualização histórica de quando essa tradicional família se fixou no Piauí. Presta um grande serviço à historiografia porque traça a síntese biográfica dos parentes que mais se destacaram em diferentes ramos da atividade humana.

Dessa forma, além dos Nunes que se destacaram na política, entre os quais seis governadores, levanta importantes dados da biografia do primeiro médico do Piauí, o cirurgião-mor José Luiz da Silva, nascido em Ceceira Grande do Milharado de São Miguel, filho de Antônio Luiz da Silva e Paula da Silva,  que chegou em plagas oeirenses em 1803. Casou-se com Ana Maria Ferreira, em primeira núpcias, e com Raimunda Ferreira do Nascimento, originando numerosa descendência, que se entrelaçaram com as mais proeminentes famílias de nossa primeira capital.

Sobre essa ilustre figura histórica, diz a autora: “O escocês George Gardner (1836 – 1849), médico e botânico, percorreu o Piauí durante o período de cinco anos no qual realizou estudos e pesquisa por várias regiões do Brasil (1836 – 1841). Palmilhando nosso território, incluiu-o num trabalho de pesquisa que está consolidado em sua obra Viagem ao Interior do Brasil. // Esteve em várias cidades do Piauí, notadamente em Oeiras, onde passou quatro meses (1839).”  

Em seu livro, Gardner, além de fazer várias observações sobre aspectos de Oeiras, aduz que teve a oportunidade de fazer várias cirurgias, entre as quais catarata e litotomia. Relata que Oeiras poderia gabar-se de ter dois médicos residentes e uma farmácia.

Sobre o cirurgião-mor fez lisonjeiras referências, considerando-o cavalheiro inteligente e amável”, de quem teria recebido muitas gentilezas. Acrescentou que José Luiz residia na cidade há 36 anos, e que era pai de numerosa prole. Sobre o outro esculápio afirma que era bem instruído e de índole amável, e que fora assassinado na rua, poucos meses após sua partida.   

É um belo livro de memórias, permeado de poemas e prosa poética, de crônicas afetivas, familiares, evocativas, e que, além disso, ainda presta um relevante serviço à genealogia e à historiografia piauiense.   

terça-feira, 7 de julho de 2020

CARTA ABERTA DO DES. VALÉRIO CHAVES

Prof. Dr. Francisco Soares Santos Filho e Zózimo Tavares, presidentes do CEE e da APL, ladeados por membros dessas duas instituições

Prezado colega Elmar,


Bom Dia.

            Foi com muito entusiasmo que li e reli o texto que o amigo me enviou, via WhatsApp, em 26.06.20, falando sobre a iniciativa da Academia Piauiense de Letras de colocar em prática o ensino da Literatura Piauiense como matéria curricular obrigatória nas escolas públicas e privadas do nosso Estado. Realmente, nossa literatura e nossos valores intelectuais precisam ser mais divulgados e valorizados, a exemplo do que já vem fazendo a APL através não só da promoção de eventos culturais, como também patrocinando a publicação de obras de autores do presente e do passado. Com efeito, divulgar e promover a literatura piauiense é colocá-la no seu devido lugar na constelação das letras nacionais nos seus variados aspectos. É ao mesmo tempo, despertar nos estudantes interesse em conhecer os valores literários do Piauí que, ultimamente têm tido menos presença nas questões do ENEM e das universidades, quando da formulação das provas. Aliás, a Constituição Federal prescreve em seu art. 13 que o acesso ao universo da literatura como veículo de elevação mental de um povo é direito fundamental de todos os cidadãos brasileiros. De fato, a Academia de Letras do Piauí, como instrumento descobridor da arte de pensar, deixando para cada civilização o seu legado intelectual, está de parabéns por essa iniciativa porque está cumprindo no seu verdadeiro papel de cérebro e sentinela avançada da intelectualidade do povo piauiense. Mesmo diante das dificuldades do momento em que os veículos e as políticas culturais estão parados, onde os escritores estão sobrevivendo mais das redes sociais e do livro eletrônico, vale a pena persistir nesse desiderato sobre o estudo da literatura piauiense nas escolas, pois como afirma o amigo no seu excelente texto: a nossa literatura se tornará mais conhecida e nossos escritores serão lidos por novos leitores. 

Abraços. 

Des. Valério Chaves
(julho/2020)   

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Em tempos de pandemia: consulta e tratamento




DIÁRIO
[Em tempos de pandemia: consulta e tratamento]

Elmar Carvalho

06/07/2020

            Já em plena covid-19, minha bursite e tendinopatia voltaram a me atacar com mais intensidade. O ombro direito me doía mais; parecia ter sido escacholado. Apesar de destro, passei a usar mais o braço esquerdo. Sem dúvida o que havia sido usado mais vezes, e, talvez, com mais intensidade, havia sofrido maior desgaste.

            Por causa disso, embora faça parte de quatro grupos de risco, não tive outra solução: marquei consulta na clínica Ortomed. No dia e na hora marcados lá compareci. Foram adotados, claro, todos os procedimentos apropriados, como higienização e distanciamento. Fui atendido pelo médico Vitor Alves da Silva, que me atendeu dentro da praxe recomendada para os tempos que vivemos.

Fez os exames clínicos e me ouviu. Me recomendou fizesse os exames de raio-x e de ultrassonografia, este executado por ele próprio.  Após o recebimento dos laudos, fez a consulta/retorno por telefonema audiovisual. Desejou que eu fizesse algumas sessões de fisioterapia, mas lhe observei que eu pertencia a quatro grupos de risco, pelo que ele entendeu que esse não era um momento conveniente para que eu fizesse esse tipo de tratamento.

Disse os medicamentos que me havia prescrito e o modo de usá-los, assim também com referência à compressa que me recomendou, antes da aplicação de uma pomada. Fui buscar a receita na clínica, para poder comprar os medicamentos, que já estou usando. Devo dizer que estou sentindo melhoras. Quando fui pesquisado sobre o atendimento, por WhatsApp, dei nota 10.

Assim, no tocante à saúde (ou à falta dela) já estou atualizado com relação ao chamado “novo normal”, que não sei por quanto tempo vai durar, para que possamos voltar ao velho normal ou normal normal. Sim, porque se é um normal novo, não é o normal que conhecíamos, claro está.

domingo, 5 de julho de 2020

PoeMitos da Parnaíba no You Tube


Elmar e Gervásio vistos por Gervásio Castro




DIÁRIO
[PoeMitos da Parnaíba no You Tube]

Elmar Carvalho

05/07/2020

Quando ingressei na extinta Sunab, lotado na Delegacia do Piauí, era meu chefe imediato Walter e Silva Mendes, titular da Seção de Fiscalização. Nas primeiras conversas lhe disse que meu pai havia sido seu amigo, no início da adolescência. Ele me confirmou a veracidade da informação. Natural de Luzilândia, havia cursado até o quarto ou quinto ano do curso de Medicina, mas lhe faltando vocação abandonara a ciência de Hipócrates.

No decorrer de nossa amizade particular e coleguismo profissional, e sabendo que eu era poeta, me prestou dois bons serviços. Disse que estudara em Parnaíba, no Colégio São Luiz Gonzaga, e me falou de algumas pessoas ilustres que conhecera, algumas das quais ainda vivas. E, sobretudo, se reportou a figuras populares e ditas folclóricas da cidade. Me relatou alguns fatos anedóticos e pitorescos de que eram protagonistas algumas dessas personagens.

Instigou-me, então, a escrever poemas sobre essas pessoas. Depois de pensar muito a respeito dessa provocação, encontrei, por assim dizer, a fôrma e a forma para cometer esses textos, a que dei o título geral de PoeMitos da Parnaíba. Fui, aos poucos, publicando-os no jornal Inovação, de que fazia parte. Em cada número, mais ou menos mensal, saíam dois ou três poemas, com ilustrações do notável mago Flamarion Mesquita.

Escrevi-os até que me senti esgotado. O último da série foi o “temporão” Cego Bento. Mas o último mesmo que passei a considerar foi o que escrevi no começo do ano passado (2019), a pretexto de ilustrar uma crônica memorialística e historiográfica sobre o célebre e mitômano professor Amstein, nebulosa, lendária e quase misteriosa figura que surgiu na velha e bela urbe, quase por encantamento. De sua vida anterior a Parnaíba, onde morreu em 30/07/1948, pouco se conhecia. Através da professora e historiadora Juliana Lacet fiquei sabendo que ele era filho de um cônsul suíço no Recife, fora casado com Catarina Moura e tivera duas filhas e um filho.   

Publiquei os PoeMitos da Parnaíba em versão completa, exceto Amstein, claro, nas três edições de meu livro Rosa dos Ventos Gerais. Todos estão na internet. Em 2009, a minhas expensas, os reuni em livro, em linda edição ilustrada pelo genial chargista parnaibano Gervásio Castro, que tem ainda um desvanecedor prefácio do escritor e pós-doutor Cunha e Silva Filho, do qual julgo oportuno transcrever o seguinte trecho:

“No entanto, não contente ainda com a sua inquietação intelectual, o poeta Elmar Carvalho, juntando-se a outro artista piauiense, o chargista Gervásio Castro, natural de Parnaíba, mas radicado no Rio de Janeiro, resolveu, de comum acordo, dar uma dimensão pictográfica aos ‘PoeMitos da Parnaíba’. Seus personagens, outrora figuras de carne e osso, conhecidos tipos ou figuras populares de Parnaíba, se transformaram em excelentes charges pelas mãos criativas e reveladoras dos melhores atributos dos grandes chargistas. 

As 25 figuras ou tipos populares, recriadas poeticamente por Elmar - e se diga a bem da verdade -, com o mesmo cuidado que o poeta destinou aos chamados poemas sérios, com os seus processos de composição centrados no trabalho da linguagem lírica e com os recursos de criatividade já conhecidos dos seus principais exegetas, saltaram do espaço poético para o desenho ilustrado, adquirindo ainda mais vida e complementando as descrições físicas, morais e psicológicas pelas quais ficaram conhecidos na crônica social da cidade de Parnaíba.”

Só eu sei quanto me custou escrever os PoeMitos. Muitas pessoas me “cobravam” escrever outros poemas, numa série quase infindável. Davam-me sugestões, contavam histórias e estórias e indicavam nomes. Uma dessas pessoas chegou a me dizer que eu fora “cruel” com uma dessas personalidades.

Respondi-lhe: “O meu ‘mito’ não é o mesmo seu; o meu é pobre, quase anônimo, sem parentes e  sem biografia”. Na verdade é muito difícil se reduzir a vida de um homem a umas poucas linhas, e fazer isso com certa arte, alguma graça, espírito, jocosidade ou pungência, com pitadas de poesia e caricatura, é muito mais difícil ainda. Por isso, com certo alívio bati o martelo, e dou por definitivamente encerrado o meu ciclo de mitos parnaibanos.

Foram publicados na internet, como disse, e podem ser encontrados em diferentes sítios. O Gervásio Castro lhe preparou um PPS, que divulguei através de e-mail. Depois, minha filha tentou postá-lo no You Tube, mas não teve êxito, por causa de sua formatação. Contudo, recentemente, seu namorado Filipe Macedo conseguiu convertê-lo para um formato atualizado, que essa plataforma aceitou. Assim, os PoeMitos podem, agora, ser assistidos em quaisquer dispositivos eletrônicos, que possam acessar o You Tube.

Mas Walter Mendes me prestou um outro grande e bom serviço. Instigou-me a escrever A Zona Planetária, o mítico e poético conjunto de lupanares, em que cada cabaré ostentava em seu frontispício o nome e a pintura de cada um dos planetas do sistema solar.
E foi assim que nasceu esse meu longo épico moderno, em que mesclei a sociologia dos prostíbulos, a astronomia planetária e os caprichos humanos e desumanos dos deuses greco-romanos. Mas aí já é uma outra história, que não cabe nesta nota.     

sábado, 4 de julho de 2020

POEMITOS DA PARNAÍBA - Elmar Carvalho


COVID-19 - AVISO IMPORTANTE

Fonte: Google/UOL

COVID-19 - AVISO IMPORTANTE

Recebi de um amigo, por WhatsApp, o seguinte aviso e recomendação, que repasso:


"Água sanitária nos esgotos.

Por favor, adicione 1 colher de sopa de água sanitária em cada ralo das suas privadas, lavatórios, banheiras, chuveiros, lava-louças , etc ...

As autoridades holandesas descobriram que o vírus está crescendo e se multiplicando no sistema de águas residuais. Eles descobriram que mesmo as pessoas que estavam confinadas em suas casas pegaram o vírus e decidiram testar a água do sistema de águas residuais e encontraram o vírus Covid-19 ativo nos esgotos.

Peça a todos que você conhece para fazer o mesmo.

Todos os desinfetantes fortes e corrosivos podem desempenhar o mesmo papel, mas a água sanitária concentrada é a melhor opção.

Espalhe!"   

Asfalto na selva (*)

Fonte: Instituto Socioambiental/Google


Asfalto na selva (*)

Márcio Santilli, sócio fundador do ISA

Em uma crônica especial, o sócio fundador do ISA Márcio Santilli conta um pouco sobre o Programa Waimiri-Atroari, uma das mais importantes iniciativas indigenistas do país, e o indigenista Porfírio Carvalho

Foi numa manhã de setembro de 1995 que eu tomei posse no cargo de presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), numa breve cerimônia realizada no Ministério da Justiça. Ao final, o ministro Nelson Jobim pediu que eu subisse até o seu gabinete após os cumprimentos de praxe.

Logo que eu entrei no gabinete, ele me disse: "Há um grupo de índios que ocupou a BR-174, na fronteira entre o Amazonas e Roraima, e expulsou de lá o batalhão de engenharia do Exército, que se preparava para iniciar a pavimentação do trecho em que a rodovia atravessa uma terra Indígena. Vá até lá, se for preciso, e retire esses índios do leito da estrada". Com efeito, os índios Waimiri-Atroari haviam empatado a obra. Imprensa e a classe política regional faziam um auê danado, acusando os índios de quererem impedir a redenção de Roraima, pois a pavimentação da rodovia retiraria o estado do seu isolamento histórico em relação ao resto do país.

Expliquei ao ministro que os índios Waimiri-Atroari são um aguerrido povo guerreiro que sofreu um impacto genocida com a abertura daquela estrada, ainda nos tempos de ditadura, e que não era sem motivo que os militares tinham optado pela retirada, E que, portanto, ele não deveria esperar que eu, ou de qualquer outro mortal, fosse retirar os índios à força.

O ministro argumentou que a faixa de domínio ao longo da rodovia havia sido desafetada da condição de terra indígena pelo decreto presidencial que havia homologado a sua demarcação e que, portanto, eles estavam ocupando uma área sobre a qual não detinham direitos legais, não podendo o governo tolerar tal ilegalidade. Informei-o, então, que, embora desafetado, o trecho da estrada que atravessa a terra indígena era extenso - 125 km - e que independentemente da sua condição jurídica, a sua pavimentação representaria, sim, impactos adicionais sobre a terra indígena, sendo melhor que o governo se dispusesse a discutir com os índios as condições reais da área em vez de querer lhes impor, simplesmente, a formalidade da lei. Disse-lhe, ainda, que eu desconhecia as condições atuais do conflito e que voltaria a conversar com ele assim que tivesse tempo para me informar devidamente.

O primeiro telefonema que eu dei como presidente da Funai foi para o Porfírio Carvalho, um indigenista historicamente formado no órgão, mas que já vinha prestando serviços como consultor à Eletronorte há alguns anos, mediando as relações entre a empresa e os grupos indígenas afetados por empreendimentos hidrelétricos na região amazônica. Carvalho foi o principal protagonista da construção do PWA - Programa Waimiri-Atroari - como resultado de um convênio entre a Funai e a Eletronorte para proteger as terras e melhorar as condições de vida dos índios, abaladas pela implantação de vários projetos de desenvolvimento, como a implantação da BR-174, da Hidrelétrica de Balbina e da Mina do Pitinga, onde a mineradora Paranapanema explora cassiterita, empreendimentos que incidem em áreas de ocupação tradicional que foram excluídas dos limites demarcados como terra indígena.

Carvalho me explicou que a ocupação da estrada pelos índios já vinha rolando há alguns dias e que os militares haviam concordado em se retirar e evitar qualquer ato de força que pudesse agravar a animosidade entre índios e trabalhadores, aguardando negociações para resolver pacificamente o conflito. O comando do batalhão de engenharia havia percebido uma intenção meio malandra do DNIT, que havia licitado entre empreiteiras privadas os demais trechos da obra e reservado ao Exército apenas o trecho em que havia conflito com os índios.

Carvalho também informou que os Waimiri-Atroari estavam dispostos a aceitar a pavimentação caso o governo se dispusesse a bancar a implantação e funcionamento, por 10 anos, de um novo plano de fiscalização e vigilância daquele trecho da estrada. O PWA já realizava a sua fiscalização, mas necessitaria de recursos adicionais para ampliar a sua estrutura diante do previsível aumento do tráfego, do risco de acidentes e do atropelamento de animais em consequência da pavimentação.

Com essas informações, retornei ao ministro Jobim e defendi a posição dos índios, mostrando que a providência de ampliar a fiscalização da área bem poderia ser solicitada pelos usuários da estrada: "Imagine, ministro, o senhor fazendo uma viagem com a família e o seu carro quebra em algum ponto remoto da fronteira Amazonas-Roraima. Não lhe seria confortável saber que há uma estrutura de monitoramento permanente do trecho para lhe garantir socorro em um tempo razoável?" Ele disse, então, que estava convencido da pertinência da reivindicação dos índios, mas que eu teria de convencer o governo como um todo: "Ao Ministério dos Transportes compete a execução da obra; ao Planejamento, a disponibilização dos recursos; ao Meio Ambiente, o licenciamento ambiental; a nós (Justiça) compete apenas a desobstrução da via".

Ocorreu-me, então, fazer do limão uma limonada: um caso exemplar de consulta aos índios para se implantar um empreendimento de infraestrutura com impactos potenciais sobre o seu território. Sugeri ao ministro organizarmos uma visita de Estado ao território indígena para uma conversa direta com os Waimiri-Atroari sobre a obra e a sua condicionante. Eu lideraria uma delegação com representantes dos quatro ministérios envolvidos, à qual ele sugeriu incorporar representantes dos governos do Amazonas e de Roraima. O ministro se dispôs a indicar o seu representante e a solicitar formalmente a designação dos representantes dos demais ministérios e governos. No geral, foram indicadas pessoas com considerável grau de hierarquia funcional nos respectivos órgãos.

Informei ao PWA e aos índios que o governo estava pronto para conversar com eles sobre a pavimentação da estrada e sobre a proposta do plano de fiscalização, deixando-lhes bem claro que não havia qualquer decisão de governo sobre a reivindicação dos índios, mas havia uma disposição de negociar em alto nível e na própria terra indígena caso eles também concordassem. Eles perguntaram - e eu expliquei - quais pessoas e com que mandato iriam e, então, consentiram em nos receber dizendo que também formariam uma comissão de alto nível. Datas foram acordadas.

A reunião das partes aconteceu no Posto Indígena Nawa - Núcleo de Apoio aos Waimiri-Atroari - situado no seu próprio território e à beira da estrada, distante uns 200 Km de Manaus. Fomos vendo, pelo caminho, a situação das obras de pavimentação da estrada, não faltando comentários politicamente incorretos sobre a interrupção das obras pelos índios e sobre a proposta deles de fiscalização do trecho. O representante do Ministério do Planejamento - um jovem de inteligência brilhante e altamente graduado - revelava grande ansiedade em se encontrar com índios, o que faria pela primeira vez. Ao mesmo tempo, ironizava a reivindicação deles, dizendo que "não existe antecipação de orçamento por 10 anos".

Chegando ao limite da terra indígena, os representantes federais ficaram impressionados com o trabalho do PWA. Havia um prédio de apoio, veículos e pessoal operando a cancela que controla a entrada de veículos. Os transeuntes recebiam instruções verbais sobre a condição legal da área em que estariam entrando e sobre como deveriam proceder em caso de emergência. Também recebiam sacos de lixo e a informação de que não se pode jogá-lo na estrada, além de uma cartilha sobre os Waimiri-Atroari e o seu território. Seguimos, então, até o posto indígena, onde ficamos hospedados até a manhã seguinte, data da reunião com os índios.
Os visitantes impressionaram-se com a estrutura simples, porém impecável, do Posto Nawa. O alojamento era rústico, de madeira, coberto com telhas venezuelanas com isolamento térmico que oferecem conforto no forte calor, ventilação, limpeza e alimentação caseira saudável. Embora situado à beira da estrada, o local é bonito, florido, agradável e todo o trecho da estrada é florestado, de modo que animais e gentes transitam. À noite, o tráfego da estrada é interrompido e impera a sinfonia da selva.

No jantar, o representante do Ministério do Planejamento sentou-se ao meu lado na mesa e me perguntou muitas coisas sobre os índios, a terra e a estrada. Perguntou, também, sobre o PWA, se dizendo bem impressionado com o seu zelo pela cancela e pelo posto, e eu lhe informei que o PWA desenvolve ações de vários tipos de apoio aos índios em todas as aldeias, além da fiscalização da estrada em outros pontos, assim como da vicinal que leva à Mina do Pitinga e dos acessos fluviais à área através da represa de Balbina e que também passou a fazer, mediante convênio com o Ibama, a fiscalização da Reserva Biológica do Uatumã, contígua à terra indígena, que conserva importantes espécies endêmicas das cabeceiras do Rio Uatumã e que, do ponto de vista dos índios, funciona como colchão protetor para uma parte do limite da sua terra.

Depois, ele passou a falar da reivindicação dos índios, mas já sem a ironia tecnocrática que o havia embalado durante a viagem e com nítida preocupação quanto à impossibilidade - por ele alegada - de antecipar recursos orçamentários para despesas de anos futuros. Quanto a isso, eu apenas lhe disse que ele teria a oportunidade de explicar essa impossibilidade diretamente aos índios na reunião da manhã seguinte. Apesar do silêncio, só entrecortado por sons de sapos, insetos e aves noturnas, o cara nem dormiu…

O dia seguinte amanheceu radiante e, quando acordamos, a delegação dos índios já estava presente. Era composta por jovens líderes de várias aldeias, uma geração que se viu obrigada a assumir precocemente o comando do seu povo após a dizimação da geração dos seus país pela guerra do contato. Eles estavam lindos: pintados, paramentados e... armados!

A conversa aconteceu numa espécie de quiosque, redondo, coberto de palha, que fica no jardim aos fundos do alojamento do posto. Havia uma longa mesa de madeira dividindo o quiosque ao meio, com um semicírculo de cadeiras de um lado e, do outro, um alongado banco de madeira. Antes que a reunião começasse, enquanto as pessoas se apresentavam e conversavam do lado de fora, dois índios entraram no quiosque e, com gestos casados, fincaram duas lanças cruzadas sobre a mesa de madeira, que vibraram vigorosamente por alguns segundos, completando o cenário.

Carvalho abriu a conversa dizendo que o assunto era a pavimentação da estrada e a proposta de plano de vigilância, passando, a seguir, à apresentação de cada um dos representantes indígenas presentes. Passou-me a palavra para apresentar cada um dos visitantes e dar boas vindas a todos em nome da Funai. O representante do Ministério dos Transportes explicou sobre o que seria a obra e as condições da sua execução, sem a permanência na área de operários durante a noite e também trazendo de fora os insumos necessários, como cascalho, terra, asfalto, etc. Carvalho expôs detalhes do plano de fiscalização. O representante do Meio Ambiente informou que o licenciamento da obra não havia considerado a ampliação da estrutura de fiscalização do trecho em terra indígena, mas que estava bem impressionado com a integridade ambiental da área e que estava convencido da pertinência da reivindicação dos índios, o que aproximaria a condição objetiva daquele trecho da estrada à de uma estrada-parque. O representante da Justiça limitou-se a dizer que ali estava como testemunha, para relatar ao seu ministro o andamento da negociação e seus resultados. O de Roraima relatou a preocupação da população do estado com o impasse e ressaltou a importância da obra. Já o representante do Amazonas foi além, relatou telefonema recebido naquela manhã do próprio governador, Amazonino Mendes, colocando o estado à disposição para qualquer operação que ajudasse a viabilizar um acordo para o prosseguimento da obra.

Só que todos estes estavam em posição cômoda para embromar ou concordar com a reivindicação dos índios, pois não lhes caberia pagar a conta do plano de fiscalização, de pouco mais de R$ 4 milhões em valores da época, que nem era tão salgada se considerados os 10 anos de execução. A fala verdadeiramente esperada era a do representante do Planejamento, o dono do cofre.

Antes, porém, eu usei novamente da palavra para pedir um esclarecimento aos índios. Carvalho e eu sabíamos que na língua dos Waimiri-Atroari inexiste o número 10. Existe um, dois e... muitos. Perguntei a eles, então, porque queriam o dinheiro adiantado para os próximos 10 anos, e não 3 ou 20. A pergunta produziu irritação e os índios começaram a falar agitadamente entre eles, na própria língua, até que um deles respondeu em português, em alto e bom som:

- Porque nós não confiamos em vocês!

Por óbvio, o dono do cofre ficou por último. Assim que lhe passei a palavra, ele jogou a toalha e nem falou em "impossibilidade". Também se disse bem impressionado com tudo o que viu e ouviu, que estava convencido da necessidade do plano de fiscalização e que os recursos seriam, ali, melhor geridos do que através de qualquer órgão público. Finalizou dizendo que, no seu retorno a Brasília, providenciaria a solução técnica adequada para que os recursos necessários à sua implantação e à sua operação nos próximos 10 anos chegassem rapidamente às mãos do PWA, de modo que a obra fosse, da mesma forma, retomada e concluída. Depois eu soube que o dinheiro passou pelo governo do Amazonas, mas chegou, com presteza, ao seu destino. Ignoro qualquer mutreta que tenha sido feita com o dinheiro neste caminho. Concluída a sua fala, vivamente emocionada, eu retomei a palavra: "Carvalho, por favor, lavre a ata da reunião!"

Fica difícil descrever a cena da lavratura da ata. Não havia, então, celulares, computadores ou coisas do gênero. Nem mesmo uma máquina de escrever elétrica. Carvalho tirou de uma caixa uma velha máquina Olivetti manual, objeto este que eu imagino que os escribas atuais não imaginam. Além disso, faltava-lhe a letra "n", de modo que o texto que ia sendo produzido ficava truncado por espaços nos lugares dos enes. Além da via original da ata, iam sendo produzidas outras sete cópias em papel carbono. Todos os presentes assinaram as oito vias da ata: os índios com as suas impressões digitais e eu e o Carvalho como testemunhas. A primeira via ficou comigo, para que eu a levasse oficialmente ao governo, por meio do ministro da Justiça, de modo que o seu representante ficou com a última via, quase apagada, apenas a título de registro. O PWA se incumbiu de guardar e conservar a primeira cópia, dos índios.

Assim, chegaram a um acordo os Waimiri-Atroari e os governos, em pouco mais de uma hora de negociação. A natureza da reivindicação indígena, dado o apoio efetivo do PWA, simplificou tudo, pois não se tratava de exigir que o governo fizesse isto ou aquilo, mas que liberasse os recursos para que eles próprios fizessem o que cabia fazer, de forma autônoma e por longo tempo. Seis anos depois, voltei à terra dos Waimiri-Atroari para consultá-los sobre a inclusão do seu território num projeto de corredor ecológico. O plano de fiscalização estava sendo plenamente executado - como vem sendo até hoje - e havia se desdobrado em vários outros projetos, com outras fontes de recursos. Pude conhecer até os resultados do monitoramento do impacto da estrada sobre a fauna durante aqueles anos.

O PWA é o mais bem sucedido programa oficial de ação indigenista que conheço. Melhor, inclusive, que o seu irmão, o Programa Parakanã, também resultante de um convênio entre a Eletronorte e a Funai. Há quem critique o PWA por manter os índios em isolamento supostamente excessivo, distanciando-os de outros potenciais apoiadores e do próprio movimento indígena. Mas, mais importante que tudo, é registrar que, antes dele, os Waimiri-Atroari haviam sido reduzidos a 374 pessoas, em 1987, em consequência do desastroso contato. Trinta anos depois, eles são agora 1.935 indivíduos, vivendo em território demarcado em expressiva extensão e que permanece ambientalmente íntegro, distribuídos em dezenas de aldeias e, por toda a área, falando sua língua e praticando todas as suas atividades tradicionais e culturais, com saúde e se reproduzindo física e culturalmente.

Certamente cabe aos Waimiri-Atroari, com o seu heroísmo, disposição de luta e persistência, grandes méritos no sucesso do PWA. Muitas pessoas, indigenistas e profissionais de várias especialidades, também contribuíram decisivamente para isso. Mas todos os envolvidos serão unânimes em reconhecer o mérito principal de Porfírio Carvalho, a quem agradeço.  

(*) Fonte do texto e da fotografia: Instituto Socioambiental

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Paulo de Athayde Couto recita A praça cheia de Graça



No link abaixo o poeta Paulo de Athayde Couto recita o poema "A praça cheia de Graça", de sua autoria.

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Fragmentos de “Velas Náufragas”

Foto: Jairo Leocádio


Fragmentos de “Velas Náufragas”

Diego Mendes Sousa

Retenho a alma da minha cidade encantada
e o coração
de seus viventes na armadura
de um farol que busca amplidões

no choque entre as pedras
mansas e bravas

que se desprendem do azul oceânico
de um céu vazio

As águas refeitas são nuvens
de presságios que se iluminam
na sede de um ser doído,
cansado de guerra
contra si mesmo

E toda palavra reside
em seu globo de luz

assim como todo homem que nasce
no litoral vive do seu
sopro de mar, da sua raiz
de fundos longínquos
parada no etéreo

Lumar! Lumar!

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Verdes mares bravios





DIÁRIO
[Verdes mares bravios]

Elmar Carvalho

1º/07/2020

            O meu mar era o pequenino e mimoso Açude Grande, com as suas pequeninas ondas, com as suas águas de chumbo ou plúmbeas, como diziam os poetas.

            Parecia um imenso caleidoscópio, em certas horas do dia, conforme a posição com que os raios solares incidiam em suas águas, e lhe provocavam os reflexos e cintilações de brilhos de vidrilhos.

Sonhava arranjar uma namorada muito bonita para com ela passear e namorar em sua margem; e assistir a um belo pôr de sol. Em vez da namorada muito bonita, que não arranjei, jogava bola num campinho de areia, que na época existia, a dar saltos ornamentais de gato maracajá, em minha posição de goleiro afoito. Depois ia tomar banho em suas águas tépidas, sem medo de poluição, que então não parecia existir.

O açude era o meu imenso mar-oceano.

O mar mesmo eu só conhecia na prosa poética de Iracema, a linda índia de Alencar, de longos e escorridos cabelos negros, mais negros que a asa da graúna: “verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”...

As carnaúbas, com sua beleza esbelta, com suas palmas farfalhando ao vento, com seus quebros e requebros de moça faceira e dengosa, ornavam a orla sinuosa do açude.

O movimento do mar eu só conhecia através da tela panorâmica e technicolor do velho Cine Nazaré, do senhor Zacarias, em filmes de pirata, com sua perna de pau, caolho, braço de gancho, a carregar no ombro o indefectível papagaio, tal como no rótulo do Ron Montilla, ou em filmes épicos de heróis ou deuses da velha Grécia, com suas ilhas paradisíacas.

Uma vez eu quase fui conhecer o mar, quando eu tinha em torno de oito anos. Meu pai, comigo a seu lado, saiu cedo para a estação ferroviária. Iria, em companhia de seus colegas do DCT (Departamento de Correios e Telégrafos) Vicente Ibiapina e Gerson Marques ou Brito (ou os dois, já não tenho nítida lembrança), conhecer Parnaíba e o mar.

Também já não lembro se a locomotiva era uma maria fumaça ou se era uma a diesel. Mas o certo é que ainda conheci de perto uma maria fumaça, com certo receio de suas negras engrenagens, recobertas de fuligem, e suas entranhas quentes, fumegantes, com seus chiados resfolegantes. Mas não conheci; fiquei em Piripiri, hóspede de uns parentes, já não recordo se por parte de meu pai ou de mamãe. Na segunda-feira, com meu pai e seus amigos, voltei à origem.

Contudo, posso dizer que conhecia o mar através dos versos marulhantes de Vicente de Carvalho, com justiça chamado o poeta do mar: “Mar, belo mar selvagem / Das nossas praias solitárias!”... No livro “100 anos de Poesia”, volume I, fiquei sabendo que um poeta, em comentário maldoso (e talvez eivado de inveja) teria dito que ele perdera um dos braços, em acidente, para não se aplaudir a si mesmo. E na Wikipedia, em acesso de hoje, colhi a informação de que um de seus livros, de 1916, se chama “O gol do Romário”. Acaso seria esse Romário um craque da época? Algum bisonho leitor poderia imaginar que o nosso poeta também seria profeta.

Só fui conhecer o mar quando tinha 16 anos, numa “excursão” comemorativa da conclusão do curso ginasial, em que eu e meus colegas de colação de grau do antigo Ginásio Estadual fomos conhecer os verdes mares bravios de Fortaleza. Era como se fosse o pequenino açude grande visto através de uma poderosa lente de aumento. Era um açudão de grandes e verdes ondas, onde tive a audácia de “pegar jacaré”, na temeridade audaciosa de meus verdes anos.

Três anos depois o revi, quando minha família foi morar em Parnaíba, em junho de 1975. Havia o mar bravio de Pedra do Sal, e o manso mar de Atalaia ou Amarração.

Foi nessa época que um amigo me contou que um turista, extasiado ou enlouquecido com a beleza da praia e das ondas, gritava sem pudor: “Que coisa mais linda, meu Deus!”, e corria como louco para se jogar nas águas salgadas e revoltas.

Achei exagerado tanto êxtase, e fiquei a imaginar de que seria capaz esse turista quando viesse a contemplar uma bela e exuberante mulher nuinha, pela primeira vez. Talvez ficasse alumbrado, como o poeta Manuel Bandeira: “Um dia eu vi uma moça nuinha no banho / Fiquei parado o coração batendo/ Ela se riu / Foi o meu primeiro alumbramento”.

Talvez agora o entenda. A sua exclamação de júbilo acaso seria a sua maneira de completar e arrematar o clímax de seu gozo estético, ante a beleza e sedução do mar.

O mar foi para mim quase uma epifania, um deslumbramento, e já o cantei tantas vezes, em versos ondulantes, carregados de salsugens e maresias, extraídos dos búzios e do vento, e que por aí estão, nas páginas de meus livros e nos mares virtuais da internet.