segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Barras de minha adolescência

 

Antiga Igreja de N. S. da Conceição, já demolida
Ilha dos Amores



DIÁRIO

[Barras de minha adolescência]

Elmar Carvalho

18/01/2021

Algumas décadas atrás, no apogeu de minha maturidade, fui convidado pelo Dr. Wilson Carvalho Gonçalves, grande historiador piauiense, amigo de meu pai e meu, para lhe fazer a apresentação de um livro de sua autoria, na solenidade de lançamento. Emocionado por esse convite, escrevi o poema Barras das sete barras, que recitei na ocasião.

Tempos depois, fui instigado pelo professor Dílson Lages Monteiro para escrever um texto sobre meu parente Salomão de Sá Furtado. Já havia escrito sobre ele, em textos avulsos, inclusive no discurso com que recebi o Dílson, quando de sua posse na Academia Piauiense de Letras.

Em dias mais recentes, por ocasião de uma live, em que os participantes liam e comentavam textos sobre Barras, tive a ousadia de sugerir umas hipóteses sobre a origem do nome de Ilha dos Amores, localizada nessa cidade, no meio do rio Marataoã, que orna e enlaça essa antiga e histórica urbe. O Dílson, então, me sugeriu escrevesse sobre essa minha “tese”.

Além disso, participei de várias lives, patrocinadas por ele, com que o ilustre poeta e escritor comemorou os 179/180 anos da data em que Barras foi elevada à categoria de vila. Aproveito o ensejo para sugerir que a Prefeitura e a Câmara Municipal promovam um plebiscito, para que os barrenses decidam sobre a conveniência de a cidade e o município voltarem a ter o nome nunca esquecido e tão apropriado de Barras do Marataoã.

Resolvi, em consequência, neste final de semana, escrever sobre as suas duas sugestões, agregando tudo a certas lembranças de minha infância, e, sobretudo, adolescência.  O resultado desse amálgama segue abaixo, como parte integrante deste Diário.

Quando comuniquei, por WhatsApp, ao escritor e poeta Chico Acoram Araújo que havia perpetrado essa crônica memorialística, ele me perguntou se poderia incluí-la no seu livro, em fase de editoração, “A cidade, o menino e o rio”. Respondi-lhe que não só podia, mas que isso era motivo de honra e desvanecimento para mim. Eis o texto:

 

Barras de minha adolescência

 

Crônica memorialística dedicada ao professor Dílson Lages Monteiro, parente, amigo e confrade da APL, que me solicitou escrevesse sobre Salomão de Sá Furtado e sobre a Ilha dos Amores.

 

1

Na minha infância, morando em Campo Maior, fui algumas vezes a Barras, no período de minhas férias escolares. Viajava num ônibus de cabine de madeira, chamado horário ou misto (este quando tinha a cabine dos passageiros e a carroceria para cargas). A estrada era de piçarra, cheia de catabilos ou costelas de vaca. Quando chegava no início da ladeira curva, eu avistava algumas nesgas da cidade, e logo depois a linda barragem e a ponte sobre o rio Marataoã.

Na agência, uns parentes me recebiam e me levavam para a localidade Ameixas, zona rural, a poucos quilômetros da cidade, onde ficaria hospedado com uns parentes de meu pai, dona Noca e o senhor João Cardoso. Não havia luz elétrica nesse local. Situava-se, salvo engano, onde fora a data Luiz de Sousa, perto de onde ficava a gleba de meu falecido avô João de Deus, onde corria, no meio da chapada, entre carrascos e buritis, um olho d’água perene, que ainda hoje existe.

Acostumado com as luzes, com os carros e o movimento da cidade, com os seus ruídos, músicas e brincadeiras, logo eu ficava muito triste e saudoso de meus pais. O canto grave de uma rolinha fogo-apagou, quase um cantochão, por razões misteriosas, me enchia a alma de tristeza e melancolia, sobretudo ao pôr-do-sol. Quando começava a anoitecer, era como uma prefiguração da morte, suponho; era como se tudo se fosse finando, se aniquilando... Eu chorava e pedia para voltar. Logo retornava a Campo Maior.

Adolescente, fui algumas vezes a Barras. Ficava hospedado na cidade, na casa de um primo de meu pai, Salomão de Sá Furtado, cuja casa ficava perto da de outro parente, Domingos Lucas. Bem perto de onde fora outrora o antigo cemitério da cidade, completamente demolido; sequer guardaram as cruzes e as lápides, muitos menos, claro, os ossos dos defuntos. Muitos haviam sido personalidades ilustres de Barras, e mesmo da História do Piauí. Em cima do velho campo-santo foram construídos residências e outros prédios, como se ele jamais tivesse existido.

Salomão, que fora vereador ou vice-prefeito de Barras, era um exímio telegrafista, mais precisamente um morsista, numa época em que o telégrafo era o meio mais importante e mais rápido de comunicação. Ele não precisava decifrar os enigmáticos sinais impressos numa fita de morse, compostos de traços e pontos, em diferentes combinações; com a sua afinada audição, ele decifrava e anotava o que o aparelho estava dizendo, em sua quase música/batuque, provocada pelo tamborilar nervoso da noz do dedo sobre a tecla única do morse. Tinha uma pequena biblioteca, o que era uma raridade na época.

Entre outros livros, possuía a coleção completa (ou quase) de Sherlock Holmes, da autoria de Conan Doyle, e vários outros sobre a história da Segunda Guerra Mundial, fora outros volumes. Para a realidade da época e da pequena urbe, possuía certa erudição. Tinha excelente redação e uma linda caligrafia, com letras desenhadas, como uma quase obra de arte. Poderia ser considerado um missivista. Meu pai lhe tinha muita admiração e estima, e sei que era verdadeira a recíproca.

No livro Vultos da História de Barras, de Wilson Carvalho Gonçalves, que foi amigo de meu pai, e posteriormente meu, consta que ele era filho de Joana Batista Oliveira Sá e Elpídio Furtado de Carvalho, este irmão de minha avó Joana Lina (ambos filhos de Isabel Lina e Miguel Furtado do Rego). Eram seus irmãos Constâncio de Sá Furtado (Beleza), Joaquim, Miguel, Luís, Alexandrina (Xandoca), José Lucas, Antônio e Francisca (Chiquita).

Ao lhe enviar o primeiro livro de que fui coautor, a coletânea mimeografada Galopando, ele me remeteu uma muito bem-feita carta, em que dizia antever que eu seria um grande ou importante poeta do Piauí. Não tivesse tido a generosidade de acrescentar o qualificativo, bem poderia ter sido também um profeta.

 

2

Em plena adolescência, aos 16 ou 17 anos, cheio de vigor, alegria e entusiasmo pela vida e pela poesia, fui passar uns dias na velha urbe das várias barras, acompanhado pelos amigos Zé Wilson e Zé Moura, um dos grandes craques do futebol campomaiorense e piauiense, que jogou no Caiçara e no Comercial, ambos também adolescentes. Nos hospedamos na casa de Salomão.

Perto da residência de nosso anfitrião, a uma distância de apenas três quarteirões, havia a mais afamada churrascaria da época, a Beira-Rio, pertencente a Antônio Moraes, mais conhecido como Antônio do Nena. Como seu nome não deixa dúvida, ficava à margem do belo Marataoã. Quase todo dia, perto das onze horas, nós íamos para lá. Pedíamos uma meiota de pinga (300 ml) em uma garrafa de Coca-Cola. Deixávamos o frasco meio mergulhado na água, e íamos tomar banho e deitar conversa fora.

Algumas vezes vinham umas garotas, bonitas é certo, mas que a nossa idade as fazia ainda mais bonitas, conversar conosco. Era uma leve paquera, que não chegou a ser namoro. Creio fossem naturais de Barras, mas estudavam em Teresina. De dentro d’água, eu lhes via os olhos, risonhos, cintilantes, a refletirem a luminosidade das ondulações do Marataoã. Gostaria que a vida lhes tenha sido leve e feliz. Muitas décadas depois, no apogeu de minha maturidade, no poema Barras das sete barras, eu recordei essa quadra idílica, ingênua e bucólica:

 

Terra de uns olhos fluidos,

feitos de mágoas, magia e garridice,

embebidos na ciganice das águas.

 

Buscávamos namoradas em diferentes locais da cidade, inclusive no Bairro Boa Vista, onde existia um clube social, e no do entorno da barragem, cujas margens, na época, formavam uma densa e verdejante floresta. Perto há o memorial de Alda, “a que morreu virgem, / na vertigem de um sonho / que num átimo se fez e desfez”, posto que faleceu no dia de suas núpcias, em acidente rodoviário, ao cair do cavalo e ser colhida por um ônibus, no retorno ao povoado em que morava. Ao invés de um préstito festivo, seguiu um cortejo fúnebre.

 

Na velha barragem tomávamos banho, e bebericávamos um pouco. Numa dessas excursões exploratórias, em companhia de um filho do senhor Chico Caixeiro, então residente em Teresina, fomos dar com os costados num salão de macumba, situado no final da Rua Grande, por trás de uma serraria.

 

Quando entabulávamos, no terreiro da “tenda”, uma animada conversa / início de paquera com duas ou três filhas sanguíneas da mãe-de-santo, e o atabaque atacava ritmado e frenético, a macumbeira apareceu com um cabo de vassoura, mais parecendo uma bruxa, e nos “cortou o barato”; nos expulsou, sob a alegação de que estávamos perturbando e desrespeitando o culto do terecô.

 

3

Nessa época a praça da Matriz era bem cuidada, muito limpa, muito linda. As copas dos arbustos e das árvores eram podadas em formas geométricas, simulando cubos, globos ou cones. Os jardins eram cheios de plantas ornamentais, e refertos de lindas flores.

 

Não sei se é efetivamente memória minha ou falsa memória, através das memórias e conversas de meus pais, mas me recordo ainda do Cristo Redentor, de braços abertos, no cimo do frontispício da colonial igreja de Nossa Senhora da Conceição, lamentavelmente demolida no início da década de 1960, como o fora antes o cemitério, como se desejassem passar uma borracha ou esponja no passado, nas memórias de um tempo mais glorioso, e talvez mais feliz. E relembro uma missa noturna, com a igreja muito iluminada por suntuosos lustres ou lampadários, de indescritível beleza, e o cheiro de incenso, provindo de turíbulos, agitados ao longe.

 

Perto da igreja passava o Marataoã, que em suas curvas caprichosas quase transforma a cidade numa ilha. Da margem esquerda do rio se descortinava a Ilha dos Amores. Eu a achava muito linda. Essa beleza para mim se tornava mais acentuada por causa de seu poético nome. Minha imaginação fervilhava, buscando a origem dessa denominação.

 

Sem dúvida, o epônimo me remetia aos Lusíadas de Luís Vaz de Camões, e eu imaginava a nossa pequena e bucólica Ilha dos Amores barrense povoada por pululantes e invisíveis ninfas e sátiros. Supunha que amores proibidos, interditos, ali podiam ter se realizado, sobretudo numa época em que as moças interioranas ainda se resguardavam virgens para o casamento.

 

Minha fértil imaginação levantava a hipótese de que nessa ilha alguns amantes, em amores e ardores adulterinos, ali se acasalavam. Para ali se dirigiam a nado ou em canoas, e se amavam, acobertados pelas árvores ou pela escuridão da noite. E desses amores interditos, proibidos, malditos, benditos provinha o seu lindo, idílico, lírico e épico nome: Ilha dos Amores.

 

Vontade tive de ir até essa ilha de meu encantamento e de minha adolescência, mas me faltou coragem para ir a nado, e me faltou a oportunidade de uma canoa e um bom canoeiro. O poeta, compositor e exímio violonista Francis Monte relatou que na sua juventude, em companhia de outros colegas, nadava até a ilha e desta continuava a nado para a outra margem, para a outra margem que sempre nos parece a mais bela, para furtar cajus dos “quintais abertos em pródiga dádiva”. Que pródiga dádiva que nada! Após a rápida colheita, voltavam às pressas, com medo de um tiro ardente de sal, desfechado por sorrateira espingarda.

 

Soube que nos anos 70, o senhor José de Deus Carcará instalou uma churrascaria na ilha. Para torná-la mais acessível, construiu uma passarela ou pinguela com talos de buriti. Mas não tive oportunidade de ir a Barras nessa época, de modo que também perdi a chance de visitar a ilha através dessa frágil, flexível e talvez bamboleante ponte.

 

Não tendo podido ir até essa encantadora Ilha dos Amores, de nome tão apropriado, creio, quanto mais que bonito, fui até ela através de meus versos:

 

Terra dos Governadores,

                                    do desgoverno das dores

das ciliciadas paixões

deliciadas na Ilha dos Amores.

 

Ó Barras de minha adolescência, de meus devaneios, divagações, de minhas ingênuas ilusões, de minha saudade e da saudade de meu pai, dos meus ancestrais, de tudo que já tive e que não tenho mais, a ti todas as louvações e os oito últimos versos de meu poema citado e recitado:

 

Barras de risos e de ais

                                    de sempre e de jamais.

Barras das sete barras

Barras dos sete punhais

                                   de rios que se tecem pavios

e desvarios de réquiens

e exaltações, lembranças

e exalações ...

domingo, 17 de janeiro de 2021

Seleta Piauiense - Dílson Lages Monteiro

 

Fonte: Google/Área de Mulher

SOMBRA DE EROS

Dílson Lages Monteiro (1973)

                             Para aldairis

 

A tua alma brilha

nas paredes do meu quarto

no silêncio da noite escura.

 

E os raios de teu riso

oferecem ao ar

os riscos de tuas cores:

 

O vermelho paira na pele

e o calor róseo

de preto e branco

veste a luz.

 

Ofusco-me com o rumor

de tua presença

e a alma de teu sorriso ilha

brilha na lembrança

livre de impedimentos.   

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Leituras Compartilhadas de Esperança em Poesia


 

Adeus, inércia!

Da esquerda para a direita: Patrícia Mendes, Valdeci Cavalcante, Jomário Ferreira dos Santos, Fábio Novo, Carlos Rubem e Olavo Filho





Adeus, inércia!


Carlos Rubem 

Promotor de Justiça inativo e escritor


Qualquer pessoa que venha tomar conhecimento das linhas arquitetônicas do prédio em que abrigou a antiga Fábrica de Laticínios dos Campos, inaugurada em 1897, então possessão de Oeiras, que deu origem ao município de Campinas do Piauí, fica embasbacado com a sua beleza estética. Imaginem o impacto civilizatório que este empreendimento fabril causou aos oi moradores dos Sertões de Dentro do Piauí naquela época!



Tal construção está em ruinaria há muito tempo, embora tenha sido acautelada por tombamento em nível estadual e federal. Os cidadãos campinenses e muitas outras vozes clamam para sejam tomadas providências urgentes visando a restauração daquele monumento que muito representa a nossa identidade sertaneja.

Algumas tentativas visando aquele desiderato já foram esboçadas, mas todas fracassaram em face de diversas razões que não cabem aqui elencar.



Confio muito no propósito do SESC/PI que pretende fazer vultoso investimento para transformá-lo no Centro Cultural Dr. Antônio Sampaio, o idealizador daquele cometimento, que tinha como escopo, inclusive, o aproveitamento da mão de obra dos negros nacionais pós Abolição da Escravatura (1888). Vai atender, principalmente, a juventude daquela esquecida região tão ávida e carente de ensino profissionalizante. 



Neste sentido, realizou-se hoje (14.01.2021), na Secretaria de Cultura do Piauí - SECULT, uma profícua reunião entre o Secretário Fábio Novo; o Dr. Valdeci Cavalcante, representando o SESC/PI, o prefeito daquela cidade, Dr. Jomário, dos arquitetos Olavo Pereira, Edmo Campos, Patrícia Mendes, o Agente Técnico José Alexandre e o garatujador destas anotações.

Já houve muitos desencontros na consecução deste elevado objetivo. Falta de real comprometimento, zelo público.

Garanto que, com a pegada segura e resoluta do Dr. Valdeci à frente do SESC/PI, a coisa vai se deslanchar, tomar outro impulso. Afinal, conservar é transformar.

Adeus, inércia!   

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

DOURADO E O TANGOLOMANGO DO MACACO




DOURADO E O TANGOLOMANGO DO MACACO

Elmar Carvalho 

Minha mulher, ao selecionar umas fotografias de um álbum antigo, para digitalizá-las, encontrou uma em que o saudoso Dourado aparece, numa casa da Várzea do Simão, onde nasceram ela, Fátima, e seus irmãos. Preparava um churrasco, já que vivia desse biscate e também de pescaria.

 

Conheci-o por ocasião de um festival, acontecido na década de 70, no auditório do SESI, na avenida Presidente Vargas, em que o jornalista B. Silva foi um dos vencedores. Ele era engraçado, já a partir de seu próprio biótipo; baixinho, gordo, atarracado, de gargalhada longa, espichada, levemente aguda e com certa musicalidade. Tinha senso de humor.

 

Nessa ocasião, após o término do evento, seguimos pela avenida, em direção ao centro. Dourado cantarolou uma música em que falava de um macaco tangolomango a dançar tango. Disse ser a composição de sua autoria. De fato, ele parecia ter pendores artísticos, sobretudo voltados para a música e para a encenação.

 

Seu reduto predileto era o bar de Dom Augusto, comandante do Recanto da Saudade, situado na Munguba City, nas imediações da Vala da Quarenta, onde outrora aconteceram os famosos Bailes Azuis e outros bailes da zona meretrícia que ali existira, que sobrevivem ainda nas páginas do romance Beira Rio Beira Vida, de Assis Brasil, e no livro Vareiros do Parnaíba e Outras Histórias, do jornalista Sousa Lima, que cheguei a conhecer.

 

Nesses livros continuam quase vivos os porcos d' água e as meretrizes de antigamente, que fervilhavam no cais do Igaraçu. Várias pessoas ilustres de Parnaíba, como advogados, médicos, funcionários públicos e comerciantes, frequentavam o bar do Augusto e tinham amizade e consideração ao Dourado, que muitas vezes lhes acompanhava às pescarias e lhes preparava o churrasco das “bebecomemorações”.

 

Em alguns carnavais, ele, dando mostra de sua capacidade teatral, caracterizava-se como determinada personalidade nacional. Certa feita, encarnou P. C. Farias, tristemente célebre, pelas razões que todos conhecem. Parecia o próprio P. C., com o mesmo corte de cabelo, o mesmo tipo de óculos e uma pasta modelo 007, certamente vazia de dinheiro.

 

Mas Dourado não era apenas um homem bem-humorado, um tipo histriônico e boêmio, no bom sentido da palavra; era também uma pessoa boa, agradável e sensível. Vivia, ao que me parece, sozinho, num pequeno quarto do bairro da Quarenta, posto que seus irmãos moravam fora do Piauí. Certa vez, ao me falar de sua infância, de seus pais, de seus irmãos, no bar do Augusto, já levemente tocado pelo álcool, começou a chorar convulsivamente, numa viva demonstração de que não era e de que jamais fora um bobo da corte.

 

Era um ser humano completo, com alegrias e tristezas, qualidades e defeitos. Mas, para mim, as suas tristezas eram quase invisíveis; e os seus defeitos, irrelevantes.

2 de julho de 2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

FLAGRANTES FOTOGRÁFICOS AMAZÔNICOS

 








Fotos tiradas por João Miguel de Souza Carvalho, meu filho, na região de Eirunepé, município do Amazonas, onde atualmente ele exerce suas funções militares.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

RUA BOA VISTA

Fonte: Google/Rede Piauí de Notícias


RUA BOA VISTA 


(Crônica de Pádua Santos)


“Se essa rua, se essa rua fosse minha

Eu mandava, eu mandava ladrilhar

Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes

Para o meu, para o meu amor passar…”.


                Começo esta crônica, como observa o leitor, citando quatro versos da canção “Se essa rua fosse minha” - conhecida cantiga popular que muitos já tentaram figurar como donos de sua autoria. E a citação vem para que se observe sua primeira palavra: exatamente o “Se”, empregado como conjunção condicional.

                                Com esta infantil canção, quis deixar dito o seu autor, um desconhecido que a teria composto no século XIX em homenagem à Princesa Isabel, que para poder ladrilhar a rua com pedrinhas de brilhante para o seu amor passar, seria preciso que a rua fosse sua. E não era, nunca foi e nunca deverá ser. Ninguém é dono de rua alguma porque estas são bens de uso comum do povo, Art.99, inc.I,CC/2002,  pertencem a todos e a ninguém em particular.

                A Câmara Municipal de nossa cidade, no final da legislatura passada, não prestando atenção para o ensinamento desta melodia que ultimamente voou por todo o país nas asas da “Galinha Pintadinha”; tampouco para o parágrafo 2º do artigo 49 da Lei Orgânica do Município de Parnaíba, artigo este modificado por Emenda de minha autoria quando vereador, determinando que para qualquer mudança neste sentido ter-se-á de ouvir os moradores da rua, votou a lei de nº 3.529, denominando de Rua Oderman Bittencourt da Silva a atual Rua Boa Vista, localizada no Bairro São Benedito. Agiu como se a via fosse de sua propriedade.

                Os moradores da citada e graciosa senda, dentre eles o autor desta crônica, não conformados com esta mudança feita ao arrepio da lei, procuraram os senhores vereadores e conseguiram a aprovação da lei de nº 3.585, de 23 de dezembro de 2020, que revoga a anteriormente citada e volta o nome de Boa Vista ao lugar de onde jamais deveria ter saído.

                Depois da votação da nova lei reparadora, com aprovação por unanimidade, foram os interessados até o gabinete do Prefeito Mão Santa pedir a imediata sanção para que pudessem entrar o ano de 2021 morando em uma alameda que tivesse o nome verdadeiro, bonito e preferido por todos. Receberam de sua excelência o imediato apoio e o agradecimento pelo empenho, uma vez que como mandatário reeleito havia sido induzido em erro ao sancionar uma norma que, além de ferir a Lei Orgânica Municipal, havia criado uma severa antipatia nos moradores daquela aprazível via.

                Assim, logo após a sanção, prometeu o ilustre Prefeito o breve asfaltamento da dita rua, objeto deste entrevero criado pelo legislativo parnaibano, ficando também a esperança de que os nobres vereadores que nos representarão neste quadriênio agora iniciado, procurarão se abster desta erronia de mexer nos nomes das vias públicas da cidade, até porque cada vez que isso venha a acontecer, além da averbação que forçosamente haverá de ser feita, virão também outras mudanças em contratos sociais, notas fiscais e tudo mais que possa ser exigido legalmente sobre o endereço, além da necessidade de comunicação aos bancos, Correios e serviços de água e energia elétrica, o que se constitui num absurdo e numa total falta de bom senso, além de demonstração de imenso despreparo para legislar.

                Bom início de ano, senhores edis parnaibanos! Continuemos sempre com a BOA VISTA em favor da nossa bela e simpática Parnaíba de Nossa Senhora das Graças.     

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A orelha de Acoram

 

Fonte: Google/BBC

DIÁRIO

[A orelha de Acoram]

Elmar Carvalho

11/01/2021


Conforme expliquei no registro anterior, o Chico Acoram Araújo me pediu fizesse um poema sobre Licurgo de Paiva, meu patrono na Academia Piauiense de Letras; lhe apresentei fundamentadas escusas para não aceitar a missão, mas ante sua amável insistência terminei cometendo o poema acima transcrito.

Mas logo após, o Acoram disse que ficaria honrado se eu fizesse a orelha de seu importante livro "O menino, o rio e a cidade". Sem relutância aceitei o honroso ofício. O texto segue abaixo, mas antes tenho a satisfação de informar o leitor que o Chico é um servidor público exemplar pela sua dedicação e pelo tempo de serviço prestado, pois acaba de completar 45 anos de efetivo exercício, sendo 30 no INCRA e 15 na Advocacia Geral da União, na condição de cedido, fora 3 na iniciativa privada.

Mas não pude deixar de lhe advertir que o otium cum dignitate, nos dias de hoje, é uma dádiva e um privilégio de poucos. A aposentadoria bem usufruída é importante para uma vida mais digna e mais feliz e para o exercício da criatividade em outros setores, sobretudo das artes. Eis a orelha, que espero não seja troncha, nem de abano:

 

ORELHA DO LIVRO DE ACORAM

Ao me pedir Chico Acoram para que eu lhe fizesse a orelha de seu livro, fiquei um tanto apreensivo, porque esse espaço deve necessariamente ser diminuto, e eu temi não ter a devida capacidade de síntese. Por outro lado, receei fazer uma orelha troncha, como a de Van Gogh, que em ato impulsivo e tresloucado se automutilou.

Mas, depois, pensei comigo mesmo, que o texto não precisaria ser uma “orelha de anjo”, muito certinha, muito perfeita, muito cheia de detalhes e arremates minimalistas, pelo que decidi fazê-la humana, demasiado humana, com imperfeições, chistes e emoções.

O próprio autor nos revela, em sua apresentação, que começou a escrever textos literários já sexagenário, por estímulo inicial do escritor e historiador José Pedro Araújo, e depois por instigação do poeta e advogado da União Dr. Francisco de Almeida e deste rabiscador.

Embora temporão (mas nunca extemporâneo), ao produzir belas crônicas e excelentes artigos e ensaios historiográficos, já começou por cima, sobrevoando um planalto, como um condor andino, enquanto muitos, que começaram precocemente, nunca saíram da planície e da várzea, onde mourejam em dura labuta.

Na apresentação, o autor conta um fato pitoresco, em que eu teria sido protagonista. Farei uma síntese desse episódio, e lhe darei a minha justificativa.

No velório de meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, acontecido em 06/11/2017, já que ele morrera ao pôr-do-sol do dia anterior, eu, ao conversar com ele e com os escritores Fonseca Neto e José Pedro Araújo, o estimulara a publicar um livro, posto que ele já teria material suficiente, em termos de quantidade e qualidade.

Ele me respondeu que não o faria, uma vez que ainda não havia sido picado pela mosca azul. Incontinenti, eu teria retrucado: – Mas você, Acoram, jamais será picado pela mosca azul; sabe por quê? Porque o amigo é a própria mosca azul.

Com isso não estava eu querendo dizer que ele fosse um vaidoso. Muito pelo contrário. A mosca azul não é vaidosa, ela apenas inocula nos outros o veneno da vaidade, que não mata, mas muitas vezes cega a consciência, fazendo com que a vítima descambe para a ostentação e falta de senso crítico e do ridículo.

Eis que agora, passados mais de três anos do fato anedótico relatado, o Acoram, barrense, último cacique da tribo dos Marataoãs, nos aparece com este excelente livro, em que coligiu suas belas e emocionantes crônicas evocativas, memorialísticas, e seus instigantes e elucidativos artigos e ensaios historiográficos, que muito contribuirão para o enriquecimento da História de Barras e do Piauí.   

sábado, 9 de janeiro de 2021

COROA: ZONA PORTUÁRIA E BOÊMIA

Foto meramente ilustrativa   Fonte: Google



COROA: ZONA PORTUÁRIA E BOÊMIA


Ivanildo di Deus Souto

Professor, poeta e escritor

 

Este artigo é parte integrante do ensaio “Luzilândia: cidade latino-americana produto do projeto colonizador do Império Ultramarino Português”.

O ensaio é resultado de anos de pesquisa, bibliográfica e principalmente de campo, quando o autor decidiu escrever sobre o processo de construção do tecido histórico da sua cidade natal, situada no norte do Piauí e na ribeira do Parnaíba. Um processo imbricamente relacionado ao modu operandu colonizador das principais cidades piauienses: depois do genocídio das nações indígenas, a concessão de sesmarias e a instalação de fazendas-criatórios de gado bovino, principalmente.

Não se trata de uma apologia à personalidades tidas, pela ótica historiográfica acrítica e conservadora, como “vultos históricos”, mas, sim, apologético àqueles agentes populares que, no cotidiano, no “Chão da História”, lapidaram e contribuíram materialmente, com suas vidas, seus ofícios e suas labutas à feitura do tecido histórico local propriamente dito.

No caso específico, este artigo trata sociologicamente da construção do primeiro bairro da cidade, também nas margens do rio Parnaíba: a COROA, da sua gente simples, do seu modu vivendu, de fatos marcantes e de aspectos sócio-econômico-culturais.

É dedicado, “in memorian”, à dona Babá (possuidora de um dos cabarés, à época); à sua filha, professora de Matemática,  Maria Madalena Pereira da Silva (que foi professora e, anos mais adiante, colega de trabalho magisterial do autor); à dona Luizinha Florindo, lavradora e tia do autor (ela criava um urubu-rei apelidado de “Copinha”, encanto e atração da molecada à época; e a José Henrique Braga , o Bragão (neto de Bobô Clareano e ativista cultural luzilandense).

À leitura, então.

Luzilândia, 31 de dezembro de 2020

O autor

 

COROA: ZONA PORTUÁRIA E BOÊMIA


A partir da última década do século XIX a navegação a vapor contribuiu substancialmente para que Porto Alegre se tornasse num dos entrepostos ribeirinhos-comerciais mais importantes do Piauí, como também propulsionou a formação do primeiro bairro e ao surgimento da primeira zona de prostíbulos da vila: a Coroa.

As inúmeras embarcações a vapor que transitavam pelo rio, ora a juzante da vila, rumo à Coroa de São Remígio, à Barra do Longá e à Parnaíba; ora a montante, no sentido de Repartição ( Saco/Matias Olímpio e Brejo ), de Porto dos Marruás, de Miguel Alves, de União, de Teresina, de Palmeirais,  Amarante e de Floriano, traziam pessoas que aportavam na povoação muitas vezes para ficar.

Esses novos moradores eram atraídos pelas notícias de crescimento da recém emancipada vila, fato ocorrido em março de 1890. Entre profissionais de diferentes áreas, aventureiros e prostitutas que aportavam em Porto Alegre, muitos estavam imbuídos de espírito empreendedor e montavam seus negócios e prostíbulos. E, como em inúmeras cidades brasileiras a zona ribeirinha e portuária era o local propício ao surgimento de cabarés, a Coroa firmou-se como a primeira zona de meretrício da vila.

Algumas décadas mais tarde a quitanda de Bobô Clareano (Clareano Braga), por ficar defronte ao porto onde as maiores embarcações ancoravam (Rua do Porto), tornou-se no “point comercial” do bairro. Bobô Clareano vendia gêneros alimentícios e produtos diversos. Também servia refeições, lanches e bebidas, uma espécie de quitanda-restaurante. Para não fugir à regra da zona de meretrício, mantinha um cabaré nos fundos do comércio. Devido ao fluxo constante do vai-e-vem de embarcações, de passageiros e de boêmios, a movimentação no espaço era intensa. (1)

Neste ínterim, a Coroa já dispunha de vários prostíbulos, que eram construções pequenas e rústicas feitas de paredes de taipa (talos da palmeira babaçu ou varas e barro), piso de chão batido e cobertura de palha, principalmente palha de babaçu. Tornaram-se famosos os cabarés da Nonatona, da Joanona, da Babá e da Maria Viúva; as quitandas do Antonio Leitoa e do Alípio Moreira; os bares do " Véi da Coroa" e do Raimundo Zeferino; a bodega do Chico Sales (pai) e do Babau Sales (filho), que vendia pinga e panelada; a barbearia do Venceslau Barbeiro, pai do Juvenal Barrigudo (“que era meio abilobado e tocava berimbau pra ganhar algum   trocado”); Augusto   Severo (tirador de côco, embolador), Manoel Egídio (vendedor de canoadas de areia); Luizinha Florindo (que criava um urubu rei, apelidado de “Copinha”); João dos Santos (lavrador, pescador e feitor de caixões para defuntos); Manoel Soares, o “Manel Goiaba” (lavrador e pescador) e sua esposa Maria  Nonata dos Santos, a “Maria Goiaba” (doméstica); dentre outros,  eram moradores de destaque no bairro. (2)

0 bar do Raimundo Zeferino situava-se no " portal de entrada" do bairro (antes, pertencia a outro dono), bem no ponto da encruzilhada onde a rua do lado esquerdo (Travessa Antônio Pires) dava acesso à quitanda do Bobô Clareano e ao porto; e a rua do lado direito (Ruas Antônio Pires, Projetada e Geraldo Pinto), dava acesso à outra parte do bairro e à estrada do antigo povoado Suruega. O formato da confluência das ruas lembra o símbolo da raiz quadrada.

Nos arredores do bairro, na antiga Rua do Padeiro (rua Antônio Carvalho) floresceram as quitandas do Bilozinho (violeiro), Zé Agápito, João Clementino e João Santana e o Bar do Chaga Dona; evidentemente, também, a padaria do Valdimiro Carvalho, que deu nome à rua.

Entre o início dos anos de 1950 até meados dos anos de 1980, com o advento da radiola (vitrola) e a facilidade de pagamento oferecida pelas lojas de eletrodomésticos que foram se instalando na cidade, tanto os cabarés como os bares da Coroa que adquiriram o aparelho tocavam, diuturnamente e em volume alto, músicas de cantores famosos nacionais, como Odair José, Waldick Soriano, Paulo Sérgio, Zé Ribeiro, Carlos Gonzaga, Fernando Mendes, José Roberto, Jerry Adriany, Diana, Roberto Carlos e tantos outros.

 A Coroa era considerada zona de baixo meretrício “.  Seus cabarés eram rústicos, como já se foi dito; suas prostitutas (“as raparigas”, como eram comumente conhecidas) e os seus clientes eram pessoas de baixa renda. Dadas às suas paupérrimas condições sócio- econômicas e de trabalho, elas integravam um grupo de alta vulnerabilidade e, portanto, susceptíveis a todos os percalços da profissão, principalmente quando se utilizavam do seu principal instrumento de trabalho: a relação sexual.

Geralmente desprovidas de quaisquer recursos de proteção, mantinham relações naturalmente e contraíam várias doenças sexualmente transmissíveis, como candidíase, gonorreia, sífilis e outras. Também, sob esse prisma, contagiavam seus clientes. Assim é que, numa tentativa de evitar tais doenças, ao término de toda relação mantida elas lavavam o pênis do cliente com água e sabão ou sabonete, dispostos a bacia e o sabão ou o sabonete numa pequena mesa ou cadeira e acompanhados de uma pequena toalha para enxugar. Detalhe importante: o “ritual” era corriqueiro e as prostitutas não o consideravam como humilhação, embora  repugnável e anti-feminista.

Um outro aspecto advindo das suas condições de vulnerabilidade refere-se ao comportamento delas. Era frequente a briga entre elas, sobretudo quando estavam embriagadas e disputavam clientes; cicatrizes no rosto, braços e pernas eram vistas comumente, provocadas pelos cortes de pequenos instrumentos, como facas. canivetes e lâminas de barbear, facilmente escondidos nas suas roupas. Também, brigavam com os clientes, aqueles que lhes tratavam com grosserias ou que lhes negavam o pagamento pelo coito.

Em Histórias de Évora (Carvalho, 2017), o protagonista do enredo, Marcos Azevedo, narra os riscos da profissão:  “... a prostituição tinha os seus riscos e mazelas... gravidez indesejada, doenças venéreas, abusos de homens grosseiros ou embriagados, logro na hora do pagamento dos honorários e brigas com outras raparigas e homens por causa de ciúmes e outras rixas, que afloravam durante as bebedeiras.” (3)

Destaque-se, ainda, um outro aspecto da situação de vulnerabilidade e decorrente da posição geográfico- ribeirinha da Coroa e que afetava diretamente a vida de todos os seus moradores: o fenômeno das enchentes do rio Parnaíba. As enchentes alagavam todo o bairro e, quando eram muito pujantes, as casas ficavam submersas ou apenas com o telhado na superfície; em consequência, eram total ou parcialmente destruídas. Assim, desabrigados, os coroenses eram forçados a se alojarem em escolas, armazéns e outros espaços desprovidos de infra-estrutura mínima que lhes possibilitasse condições dignas de hospedagem e, até mesmo, de sobrevivência.

 

O INCÊNDIO

 

No dia 29 de dezembro de 1969, por volta das 16 horas (“Hora da Viração”, fenômeno típico da região que acontecia às tardes, por volta das 15h30, quando os ventos começavam a soprar), iniciou-se um incêndio num dos casebres de taipa e palha típicos do bairro, consequência das péssimas condições sócio-econômicas dos seus moradores: a grande maioria eram, além das prostitutas, lavradores, pescadores, estivadores, lavadeiras e domésticas. (4).

 

Maria de Fátima Carvalho, filha de Manel e Maria Goiaba, moradora do bairro à época e que vivenciou o fato, diz que “o incêndio começou na casa de dona Capucha, já idosa, que, ao cozer sua comida, esqueceu um pano de prato em cima da panela posta num fogareiro de barro. O pano pegou fogo e logo alcançou o teto de palhas”. (5).

 

Como ventava muito, o incêndio tomou proporções alarmantes e rapidamente consumiu cinquenta e dois casebres e só foi contido por volta das 21h00 na antiga Rua do Cruzeiro (Travessa Barão do Rio Branco), no alto do Morro do Zé Cambéba (artesão, feitor de selas para cavalos e outros artefatos de couro). (6). Nesta rua foram queimadas as casas de dona Selvina (viúva); de Teresinha Lisboa (lavandeira e já viúva de Zé Cambéba); de Chico Biana (funileiro e trompetista da Banda Municipal) e da sua esposa Maria Pequena (empregada doméstica); de Antônio Plácido (o Antônio Lino, pedreiro) e da sua esposa, Francisca Copada (professora). (Essa casa queimou parcialmente); e a padaria do Anísio Padeiro e da sua esposa Maria do Socorro (que ficava do outro lado da rua e paralelamente ao Luzilândia Hotel, de Dulce Nascimento e do seu esposo Raimundo Vitória). A casa de Albertino Florindo (policial militar) e da sua esposa Santília Pereira Monteiro (doméstica) foi derrubada para que o fogo não chegasse aos armazéns da empresa de Raimundo Marques e Durvalino Castelo Branco, que ficavam ao seu lado esquerdo. Nos armazéns haviam muitos produtos inflamáveis, como latas de querosene e de gasolina, cera de carnaúba, algodão e amêndoas de coco babaçu. Desesperados, os moradores da Rua do Cruzeiro levaram seus móveis e pertences para o patamar da igreja de Santa Luzia. “Foi um alvoroço danado”. (7).

 

No incêndio, de dimensões catastróficas, morreu o pai da prostituta Nonatona, “seu” Antonio Jonas, que era paraplégico das pernas, estava sozinho em casa e não pode ser socorrido pelos vizinhos devido à rapidez da propagação das chamas. No ano seguinte, 1970, a prefeitura municipal promoveu a reconstrução dos casebres dando-lhes cobertura de telhas. O prefeito de então era o agropecuarista Mariano Fortes de Sales. (8).

 

Em 1999, parte da área ligada ao bairro, nas proximidades do igarapé do Bernardo Patinha (a àrea é paralela à pista de acesso à ponte sobre o rio Parnaíba , que liga Luzilândia ao povoado Porto Formoso, em São Bernardo, no Maranhão),  e que pertencia ao DNOCS -Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), foi ocupada por diversas famílias sem-teto e culminou com o surgimento do bairro Cajueirão.

 

Nos dias atuais (2020) ainda existem alguns cabarés na Coroa, a “zona do baixo meretrício luzilandense”, como o Cabaré da Izalene Goiaba. Bobô Clareano, seu morador e quitandeiro mais famoso, é nome da escola de ensino fundamental do bairro: a Unidade Escolar Clareano Braga, da rede municipal de ensino.

 

Bobô Clareano só foi homenageado por reivindicação dos moradores do bairro após a luta coordenada pelo líder comunitário de então, Carlos Alberto Cuia, quando também as ruas do bairro foram contempladas com os nomes dos seus moradores mais ilustres. Este evento aconteceu em setembro de 2000, quando a escola foi reformada na administração do prefeito Vicente Sabóia de Meneses Neto.  O educandário foi construído em 1995, na gestão do prefeito Francisco Marques sobrinho (Chico Marques) e tinha o nome de “Valmércia Marques”, ex-primeira dama do município. (9).

 

NOTAS:

1.            Carta de Valdecírio Teles Veras ao autor, postada de Santo andré (SP) e datada de junho de 1999 ; e entrevista com Bobô Teixeira, em agosto de 2009;

2.            Entrevista citada com Bobô Teixeira e com Maria de Fátima Carvalho, em agosto de 2009;

3.            CARVALHO, Elmar. Histórias de Évora. Teresina, Academia Piauiense de Letras, 2017;

4.            Entrevista citada com Maria de Fátima Carvalho;

5.            Idem, ibidem;

6.            Entrevista com Zé Pereira de Barros (Zé Pequeno), em agosto de 2009;

7.            Entrevista com Santília Pereira Monteiro, em Agosto de 2009;

8.            Entrevista citada com Maria de Fátima Carvalho;

9.            Informação obtida nas placas de inauguração e de reforma da escola.

 

SOBRE O AUTOR 

Ivanildo di Deus Souto é professor da rede pública estadual de Ensino do Piauí, lotado no Centro Educacional de Tempo Integral Zacarias de Góes (Liceu Piauiense), em Teresina; pesquisador da História Latino-Americana Brasileira; escritor e autor de artigos publicados em jornais regionais e nacionais e militante politico da causa da soberania e da autodeterminação do povo latino-americano-brasileiro.   

domingo, 3 de janeiro de 2021

Seleta Piauiense - Danilo Melo

 

Fonte: Google/Anglo Bauru

Edifício

 

Danilo Melo (1965)

 

No sexagésimo andar

Atrás da aurora boreal

Por trás do eclipse astral.

 

Fortes aromas madrigais

E aromas de finos lábios

Metralhando grosserias.

 

Ando na corda bamba

Acordado equilibrista

Dessecando quadrinhos exóticos

E épicos helênicos demagógicos.

 

Ando por todo canto

Perfazendo o personagem que se

Dispõe sorridente

Deste edifício de sombras.

 

Fonte: A poesia parnaibana, 2001   

sábado, 2 de janeiro de 2021

DR. FRANCISCO DE SOUSA MARTINS: O Herói e o Misantropo

 

Fazenda Boa Esperança e Colégio Interno do Pe. Marcos de A. Costa

DR. FRANCISCO DE SOUSA MARTINS: O Herói e o Misantropo


José Pedro Araújo

Historiador, contista, cronista e romancista

 

Poucas personalidades na história do Piauí tiveram uma vida tão curta e ao mesmo tempo tão intensa quanto o Dr. Francisco de Sousa Martins. Nascido em uma família rica e com amplo domínio sobre o estado do Piauí por uma larga faixa de anos, foi o biografado uma mente luminosa e brilhante em meio a tantos outros que se destacaram na sua poderosa família. Entretanto, o seu ocaso foi tristemente melancólico e prematuro.  Sem a pretensão de ser confundido com um biógrafo do citado homem público, discorro a seguir sobre a vida do eminente piauiense, político de estofo, na mais alta acepção da palavra, que honrou com o seu trabalho e a sua inteligência, a terra em abriu os olhos pela primeira vez para contemplar o azul celeste do céu do seu sertão agreste.

 

Nascido em Jaicós, em 06 de janeiro de 1805, na fazenda Canabrava, rica propriedade pertencente à família, era filho do coronel Joaquim de Sousa Martins e de dona Teresa de Jesus Maria. Também era sobrinho do poderoso Visconde da Parnaíba, potentado que comandaria o Piauí com mão de ferro por quase vinte anos. Uma prática comum, naqueles tempos, era que as grandes e poderosas famílias escolhiam um dos filhos para seguir a vida de clérigo, e foi justamente o menino Francisco o escolhido para investir na vida monástica. E com este propósito, foi enviado ainda criança para a escola mais famosa da época, bem perto de casa, na Fazenda Boa Esperança, pertencente ao Padre Marcos de Araújo Costa, um parente muito próximo e chegado. O colégio em que passaria a maior parte da sua infância e adolescência, era referência na qualidade de ensino em toda a região nordestina, e até com excelente reputação em todo o território nacional. Lá o menino Francisco se prepararia para ingressar na carreira apostólica, como já estava programado e decidido.

 

Por esse tempo, seu pai, que além de fazendeiro abastado, dono de muitas terras e de um numeroso rebanho bovino, era também o comandante militar da província então sob o domínio do seu poderoso irmão, o Visconde da Parnaíba. E comandou as forças de segurança locais, inclusive, durante a guerra pela independência do país.

 

Com uma mente aguçada, e sequiosa de conhecimentos, logo o menino se destacou dos demais alunos, aproveitando-se do fato de possuir o colégio uma das melhores e mais completas bibliotecas da região, quiçá do país. Sobre a biblioteca famosa, aliás, até mesmo o biólogo inglês George Gardner, em passagem pela região, surpreendeu-se e teceu grandes elogios à sua qualidade e posse de importantes publicações a respeito de variados assuntos. Surpreso por encontrar semelhante bibliógrafo em pleno sertão nordestino, destacou o viajante sobre o que vira: “Ele próprio (Padre Marcos) é um erudito possuidor de vasta biblioteca de clássicos e filósofos; de botânica e história natural possui suficiente conhecimento para que estes assuntos lhe tornem agradável distração. Entre os seus livros encontrei quase todas as obras de Lineu, as de Brotero, e uma de Vandelli, muito rara, sobre as plantas de Portugal e do Brasil, obra que ele acabou por me oferecer de presente”.

 

Foi nesse ambiente de cultura elevada, que o jovem Francisco Martins passou a sua infância e adolescência, aproveitando-se do largo conhecimento e erudição do tio e da sua vasta coleção bibliográfica. Isso acabaria por formatar o seu caráter e a sua alta ilustração. Não é difícil de imaginar que, para um jovem retraído e averso às brincadeiras comuns aos da sua idade, a biblioteca seria o seu refúgio natural. É esta uma dedução lógica para se formar a personalidade de um jovem que se tornou um adulto retraído e circunspeto. Um misantropo, nas palavras dele próprio. 

 

Alguns anos depois, contudo, a situação política da Província mudaria de figura, ocasião em que seu pai oficializa o rompimento de relações com o irmão, tendo sido apeado da condição de comandante militar por conta disso. Por essa época, tendo completado vinte anos de idade, o jovem Francisco foi levado pelo pai ao Rio de Janeiro para continuar seus estudos. Como atesta o insigne historiador piauiense, Monsenhor Chaves, o coronel Joaquim de Sousa Martins aproveitaria a viagem ao Rio de Janeiro na qual apresentaria queixas do irmão para o Imperador Pedro II, para conduzir o filho até a capital do império. Seu propósito inicial, com relação ao filho, seria que ele recebesse as ordens sacras e desse início à sua carreira apostólica. Contudo, sua pouca idade não permitiu que assim acontecesse. E talvez precisasse complementar seus estudos antes de ser ordenado padre.

 

O certo, é que, ao invés da sua ordenação, o jovem Francisco Martins teve que ingressar no Seminário São José para concluir seus estudos teológicos. Não passaria muito tempo naquele seminário, contudo. Talvez tenha abandonado os estudos de religião um ano, ou menos que isso, depois de tê-lo iniciado. É o que depreendemos ao nos depararmos com informações de Clóvis Bevilácqua, importante jurisconsulto brasileiro, além de escritor respeitado, quando ele afirma em seu livro “História da Faculdade de Direito do Recife”, que Francisco ainda cursaria o primeiro ano da Escola Militar, mostrando que havia mudado de opinião e não pensava em levar uma vida de clérigo, como era a vontade dos seus familiares. E como seu pai, seguiria a carreira militar.

 

Entretanto, mesmo essa ideia, durou pouco. Pouco depois, o jovem piauiense mudaria outra vez de planos e seguiria para Portugal, para ingressar na faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Esse fato aconteceu após dois anos de sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1828. Foi uma virada brusca no planejamento inicial da sua carreira profissional.

 

Nesse ponto da sua vida, há uma discrepância entre o que afirma o historiador piauiense, o meticuloso Monsenhor Chaves, e o que registra o jurisconsulto e acadêmico Bevilácqua. Enquanto o primeiro afirma que o estudante piauiense travou conhecimento com alguns internos portugueses no seminário e lá decidiu abandonar a carreira religiosa e seguir diretamente para Portugal, o segundo diz que ele abandonou o Colégio Militar, e não o Seminário, e embarcou para Coimbra com o propósito de se tornar advogado.

 

O certo é que ele cursou os dois primeiros anos do curso jurídico, mas foi mais uma vez forçado a mudar de planos em função da disputa sangrenta havida entre os irmãos D. Pedro I e D. Miguel pelo domínio da coroa portuguesa. A história registra que tal disputa envolveu toda a sociedade portuguesa em apaixonado e exacerbado conflito interno. Os reflexos dessa briga familiar pela sucessão de D. João VI, pai dos dois desafiantes, chegou até Coimbra, tendo a Universidade fechado suas portas por algum tempo e por ordem superior.

 

É provável que os estudantes brasileiros tenham cerrado fileiras junto aos partidários de Pedro I, Ex-imperador do Brasil, e contra os partidários de D. Miguel, que já possuía o comando do país em suas mãos. Os estudantes brasileiros, por esta razão, passaram a ser perseguidos e, por conta do fechamento da Universidade, foram obrigados a retornar ao país de origem. Francisco de Sousa Martins estava entre estes.

 

Menos mal que, justamente nesse período, inaugurava-se a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco, a primeira no país, e o piauiense se matriculou ali, para fazer parte da primeira turma. O escritor piauiense Jesualdo Cavalcante Barros afirma, em seu livro “Sertões de Bacharéis”, baseando-se em levantamento realizado por Clóvis Bevilácqua, que dentre os 3.930 bacharéis formados no período de 1832/1898 naquele estabelecimento de ensino superior, somente constavam 108 piauienses. Dr. Francisco de Sousa Martins foi um desses. Formou-se logo na primeira turma. Já estava com vinte e sete anos.

 

Corria o ano de 1832, quando o jovem piauiense colou grau, finalmente, e nessa ocasião o seu pai e o Visconde já haviam superado suas desavenças e voltaram a marchar juntos no comando político da província piauiense. O advogado recém formado retornou para a terra natal e instalou seu escritório de advocacia em Oeiras, capital da província, onde passou a advogar. Entretanto, logo no ano seguinte, 1933, aproveitando o prestígio da família, foi nomeado Juiz de Direito da Capital. E no ano seguinte, eleito Deputado Geral para representar o Piauí no Rio de Janeiro, capital do império. Tornou-se um dos grandes oradores do parlamento, e ocupou lugar de destaque entre seus pares quando a discussão se dava no campo das finanças. Clóvis Bevilácqua - outra vez ele -, afirma que tal prestígio fez com que o piauiense fosse convidado a ocupar o cargo de Ministro da Fazenda, tendo, mais de uma vez, declinado do convite.

 

Eleito Deputado Geral em cinco legislaturas, a maioria delas pelo Piauí, mas também pelo vizinho estado do Ceará, o Dr. Francisco Martins deixou a tribuna para ocupar a presidência em duas províncias diferentes; a da Bahia, e a do Ceará. Na da Bahia, em 1834, chegou em um período conturbado, quando os escravos baianos deflagraram uma sangrenta revolução contra seus senhores, movimento de sedição que ficou conhecido com a Revolta dos Malês.

 

O historiador e acadêmico, Reginaldo Miranda, um dos biógrafos do insigne político piauiense, destaca que a revolta partiu dos “negros muçulmanos que tentavam tomar o governo da província e proclamar um reinado. Para isso planejaram assaltar o Palácio do Governo, o Quartel Militar, o Forte de São Pedro e o Quartel de Infantaria de Linha, dominando, assim, a cidade de Salvador, para matar todos os brancos cristãos e coroar a escrava Sabrina, que a tinham como princesa em sua terra. A maioria dos negros revoltados era formada por ex-escravos libertos, africanos, islâmicos da etnia nagô, que exerciam atividades livres em Salvador, daí serem chamados “negros de ganho” (alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros)”.

 

Nesse período, a província estava desfalcada de suas forças bélicas, enviadas que haviam sido para o Rio Grande do Sul, onde ocorria naquele instante a Revolução Farroupilha. O Presidente Francisco de Sousa Martins demonstrou ser dotado de elevada coragem e profundos conhecimentos em estratégia militar, combatendo mais de 40.000 insurretos que se aproveitavam do momento de desmilitarização e espalharam o pânico e a morte nas cidades baianas. Especialmente na capital da província e na região do recôncavo baiano. Deste modo, organizando a pequena força que possuía na sede administrativa, lutou sem temor contra os sitiantes que atacaram o palácio do governo naquela madrugada. De armas em punho, venceu-os, mesmo com força militar muito inferior em número, e conseguiu restituir a paz à província conflagrada. Mostrou o político piauiense toda a sua bravura e competência, ganhando fama e respeito pela vitória alcançada de arma em punho.

 

Em 1838 foi novamente nomeado para a Presidência de uma província, a do Ceará, deixando o parlamento mais uma vez. O Ceará atravessava uma crise política sem precedentes, ocasião em que o Padre e Senador José Martiniano de Alencar, pai do escritor José de Alencar, militava na oposição mais uma vez. É que o partido Liberal, do qual era o senador um dos líderes de maior expressão, havia perdido a Regência para o partido Conservador mais uma vez. Martiniano de Alencar era um chefe político com grande poder sobre aquela Província, que chegou a presidir em outra época, e defendia essa liderança com mão de ferro. A princípio, ele ainda tentou se aproximar do indicado Presidente da Província, Dr. Francisco de Sousa Martins, mas não obteve existo nesse seu intento, passando então a fazer-lhe dura oposição.

 

Acontecia naquele momento eleições para o preenchimento de uma vaga de senador pelo estado, e o candidato apoiado pelo novo Presidente do Ceará, o piauiense Martins, era um “estranho” à região, um baiano indicado pelo Regente Araújo Lima, que com o gesto declarou guerra aberta ao senador e líder político cearense. O candidato indicado para concorrer ao cargo vago não foi aceito pelo senador Martiniano de Alencar. Este, demonstrando toda a sua insatisfação e repulsa, apoiou outro nome para a vaga aberta para o senado, alguém saído das suas próprias fileiras políticas. Tendo, após isto, o senador cearense, como represália, a apoiar a decretação da maioridade do Imperador D. Pedro II, proposta esta que era do partido Conservador quando se achava na oposição, e encampada agora pelos Liberais. Martiniano de Alencar, anos depois, em 1842, fundou a Sociedade dos Patriotas Invisíveis, uma organização política secreta que tinha como principal objetivo a decretação da maioridade do Imperador e o fim do período das regências. Essa campanha espalhou-se pelo país, tendo se apresentado muito forte, principalmente, nas Províncias de São Paulo e Minas Gerais. A campanha ganhou corações e mentes no país e acabou por finalizar o período dos governos regenciais. Passando, então, o jovem imperador, Pedro II, a governar, de fato, o seu império.

 

Também acontecia naquele momento a Revolta da Balaiada que assolou o Maranhão e o Piauí, um movimento sangrento e que causou enorme mortandade na região. Movimento de crescente ascensão, a revolta dos balaios chegou até ao território cearense naquele momento. O Dr. Francisco de Sousa Martins organizou a defesa da Província, e atacou duramente os balaios, cujos chefes foram acusados de contarem com o apoio do grupo político chefiado pelo Senador Martiniano de Alencar. Os revoltosos foram vencidos e escorraçados da província cearense com alguma dificuldade. Não foi um período fácil para o político piauiense, a sua estadia no Ceará.

 

Homem culto, quase sempre moderado nas suas ações, passou o piauiense a ser atacado duramente pela imprensa partidária do Senador Alencar. Periódicos, como o jornal “O Despertador”, o acusava severamente de perseguir seus adversários com ameaças de prisão e recrutamento militar, e com promessas de enviá-los para servir à Guarda Nacional na Província do Maranhão para combater os Balaios.

 

E se o período do Dr. Francisco Martins frente ao governo cearense foi curto, os ataques à sua pessoa foram demorados. O periódico “Pedro 2º”, também um jornal conservador, e simpático ao grupo político de Martiniano de Alencar, dez anos após o término do mandato do piauiense, ainda o acusava duramente de ter praticado malefícios ao povo cearense durante o período em que esteve como chefe maior do executivo naquela província. Entretanto, havia também quem o defendesse. Nesse mesmo período, o jornal “O Cearense” tomava suas dores e o defendia e qualificava como um grande administrador e um democrata de escol que muito fez pelo Ceará no pouco tempo que que esteve no comando político estadual.

 

Terminado o seu curto mandato, que durou poucos meses, posto ter ocupado o cargo de Presidente da Província do Ceará de 03 de fevereiro a 09 de setembro de 1940, retornou o piauiense ao Rio de Janeiro para o reocupar o seu mandato de Deputado Geral. E depois, retomou o seu cargo de juiz.

 

Para concorrer a mais um mandato de deputado geral, desta vez pelo Ceará, Francisco Martins teve as suas pretensões obstadas. Possivelmente ainda uma vindita do poderoso senador Martiniano de Alencar. Deste modo, o seu pedido de licença do cargo de juiz de Direito de Niterói, não foi autorizado, segundo o jornal oposicionista Sentinela da Monarquia, do Rio de Janeiro. Na sua edição de 19/06/1844, o jornal afirmava: “sabe-se também que foi excluído o Sr. Sousa Martins da lista de deputados que o ministério decretou para o Ceará”.  Fazia ele parte de uma relação de pessoas que aquele jornal denominou de “Os Proscritos”.

 

Contudo, demonstrando toda a sua capacidade de sobrevivência política, é certo que Sousa Martins concorreu pela sua província natal. E foi eleito, pela Província do Piauí, para a 6ª legislatura, no período de 1845-1847. Por esse tempo as relações de Francisco de Sousa Martins com o tio, o Visconde da Parnaíba, andavam bem estremecidas. Afirma-se, que o deputado, usando um nome falso, um pseudônimo, escrevia no jornal Diário do Rio de Janeiro atacando duramente o então presidente da Província do Piauí, e seu tio.

 

  No parlamento, o piauiense Sousa Martins foi um dos mais respeitados oradores, tanto pela sua alta formação, quanto pela capacidade que possuía de tribuno combativo e frio, deixando seus desafetos em embaraçosas situações em diversas ocasiões. Por sua vez, a capacidade de discorrer sobre temas econômicos fez dele um candidato em potencial para ocupar o cargo de ministro da fazenda, posto que ele nunca aceitou ocupar.

 

O médico e biólogo inglês, George Gardner, já aqui citado, nos dá notícia de um encontro com o parlamentar piauiense quando de sua estadia na Fazenda Boa Esperança, do padre e educador Marcos de Araújo Costa, em Jaicós, em março de 1839. Isso aconteceu um pouco antes de Francisco de Sousa Martins ocupar o cargo de Presidente da Província do Ceará. Gardner faz essa referência no seu livro “Viagens no Brasil”. O livro é uma espécie de Diário de sua viagem pelo interior do país catalogando minerais e plantas nativas. Enquanto descansava de suas fadigas na fazenda do renomado religioso e educador, o cientista se encontrou com o político que seguia de Oeiras para o Rio de Janeiro, juntamente com seu irmão, o Major Clementino de Sousa Martins.

 

A última fase da vida do Dr. Francisco de Sousa Martins no Rio de Janeiro, foi marcada pelo seu casamento com uma jovem daquele estado. São poucas as informações sobre esse seu período da sua vida. E o pouco que sabemos, são informações parcas coletadas aqui e ali pelos seus biógrafos mais conhecidos, como o jornalista Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, por João Pinheiro, e por Joaquim Chaves, além do acadêmico contemporâneo, Reginaldo Miranda. Pouca coisa, contudo, para um homem de vida tão intensamente vivida durante os primeiros quarenta e dois anos de vida. De fato, temos a certeza de que casou já quarentão, e que este casamento não lhe gerou herdeiros.

 

Sabemos, por exemplo, que esse casamento não cobriu de felicidade o ilustre piauiense, pois coincidiu com o período em que teve fim a sua ativa vida parlamentar e recaiu sobre ele sofridas e duradouras enfermidades. Francisco Martins passou a padecer de doenças do corpo e do espírito, o que o levou a ser acusado até mesmo por antigos aliados de falta de lucidez. Os últimos cargos por ele ocupados foram o de Juiz dos Feitos da Fazenda Pública e o de chefe de polícia do Rio de Janeiro. Mas então, ele já padecia de graves enfermidades que aos poucos foram lhe minando o entusiasmo e a alegria de viver. O Decreto nº 435, de 05 de julho de 1847 lhe concedeu licença pelo período de dois anos do cargo de Juiz dos Feitos da Fazenda da Corte. Ainda em 1947 partiu para a Europa em busca de ajuda médica, tendo chegado a Paris em um período de grande conflagração revolucionária. A esposa, também, não o acompanhou quando viajou a tratamento de saúde, e muito menos quando retornou definitivamente ao Piauí e se internou na sua Fazenda e por descansou definitivamente desta vida. Talvez um indicativo de que já estivessem separados. Abreviando a sua estadia na cidade de Paris, por conta da convulsão social lá instalada, foi para Lisboa, onde demorou-se algum tempo.

 

A situação de dificuldades pelas quais vinha passando, conhecemos, pela primeira vez, através de suas próprias palavras quando o indigitado se encontrava na capital portuguesa. O acadêmico Reginaldo Miranda publicou um alentado estudo sobre o citado Dr. Francisco de Sousa Martins no blog do Poeta Elmar Carvalho, em que nos traz importantes informações sobre o estado de saúde física e mental do nosso biografado, informações publicadas por ele em correspondência enviada ao jornal “Diário de Pernambuco”, no qual ele confessa, amargurado:

 

“É inútil aqui mencionar tudo quanto tenho sofrido nos últimos três anos; posso, porém, dizer em geral, que durante esse espaço de tempo, um só dia não tenho vivido com humor contente e espírito livre e satisfeito. Aos males físicos que diariamente me oprimem, acrescem noites contínuas de completas vigílias e anuviadas com as mais lúgubres e funestas meditações; a sociedade humana tem-se-me tornado um flagelo, e a minha vida converteu-se em uma agreste e selvática misantropia. A única satisfação que ainda experimento é a que me confere a solitária leitura de meus livros; estes são hoje os meus únicos amigos, os companheiros dos meus momentos de infortúnio, os consoladores das minhas tristezas, o único conforto que neste vale de lágrimas da vida humana não pode ser roubado ao infeliz, ainda que desamparado de toda  natureza”.

 

‘Mas, esse mesmo derradeiro refrigério de uma existência amargurada, em grande parte me tem sido impedido e contrariado pelos sofrimentos de meus olhos; pois que, ainda que agora possa ler e escrever, contudo isto não o posso fazer sem grande fadiga, cansaço da vista e exaltação do cérebro, o que acarreta penáveis incômodos nas mal dormidas noites. Ainda isto mesmo, só agora, depois que estou em Portugal, me tem sido permitido, porque antes quase que nenhuma leitura me era possível por mais de meia hora”.

 

Já sem a confiança devida na sua recuperação, resolve voltar para casa, embalado pelas saudades dos seus sertões de dentro, e define desse modo o que sentia naquele instante, assim anotou Monsenhor Chaves:

 

“Sim, é lá que o meu corpo deve descansar; ao menos repousaria a fronte no túmulo dos meus pais, depois de ainda uma vez respirado o ar livre dos meus sertões”. Não acreditava mais no restabelecimento da sua saúde; era o fim da sua luta em busca da cura para os seus males entre os médicos europeus. E só lhe restava voltar para casa.

 

A Coleção de Leis do Império do Brasil, traz no seu bojo o Decreto nº 804, de 23 de setembro de 1854, que confere ao Dr. Francisco de Sousa Martins a sua aposentadoria do cargo de Juiz de Direito e com o seu ordenado “inteiro de hum conto e seiscentos mil reis”, afirmava o texto aprovado.

 

No seu retorno para casa, foi o insigne piauiense bem recebido e festejado com honras de estadista pelos seus conterrâneos em Oeiras. Depois, recolheu-se à fazenda Canabrava, pertencente a sua família, local onde também nasceu, para viver os seus últimos dias de vida. Faleceu em 05 de julho de 1857, com apenas 52 anos de idade.

 

O Monsenhor Chaves escreve que o ilustre piauiense ainda tentou o suicídio em uma ocasião no ano de 1857, mesmo ano da sua morte.

 

Uma das atividades pouco difundidas do grande piauiense, é a sua condição de escritor e tradutor.  Apenas dois dos seus trabalhos literários foram publicados, ou chegaram ao conhecimento do público, como o seu “Progresso do jornalismo no Brasil”, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB, tomo VIII, p. 262 a 275). O restante da sua obra continua desconhecida ou foi publicada sem a identificação do seu criador em jornais ou revistas.

 

Quando da sua morte, foi “encontrado entre seus pertences na fazenda Canabrava, uma tradução por ele feita, e que ficou inédita, de “Viagens em redor do meu quarto”, de Xavier de Maistre, entre outras, e escritos sobre finanças”, nos informa Reginaldo Miranda.

 

Por sua vez, o historiador F. A. Pereira da Costa, no seu livro “Cronologia Histórica do Estado do Piauí”, afirma que o ilustre Francisco de Sousa Martins, como membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi homenageado postumamente pelo seu confrade e renomado escritor, Joaquim Manoel de Macedo. Discurso esse publicado no Suplemento do Ano Biográfico do IGHB, no qual, entre outros elogios extremados sobre a vida e obra do extinto piauiense, declara ter sido ele uma “inteligência ilustrada por sérios e profundos estudos, caráter nobre e severo, e de probidade experimentada, Francisco de Sousa Martins foi muito menos do que devia e podia ter sido”.

 

PS. O título que emoldura o texto foi tomado por empréstimo de um poema do Chico Acoram sobre o notável piauiense.