sexta-feira, 5 de julho de 2024

A CADELA, A ELEFANTA E O BURRO

 

Fonte: Google

A CADELA, A ELEFANTA E O BURRO


Elmar Carvalho

 

Nesta sexta-feira, 13, deste corrente mês, cujo dia seria dupla ou triplamente aziago, por ser sexta-feira, por ser dia 13, e por ser agosto, que os supersticiosos consideram mês agourento, enquanto esperava ser atendido pelo barbeiro e irmão maçônico Chagas Vieira, fiquei folheando um jornal de uma denominação religiosa.

 

Nele, li uma matéria sobre prótese em animais. Um dos casos se referia a uma cadela que, por causa de uma hérnia de disco, acabou perdendo o movimento das patas traseiras. Sua dona não a abandonou e não aceitou sacrificá-la. Envidou esforços, com considerável gasto de dinheiro e tempo, em tratamentos, que não surtiram o desejado efeito. Mas a guardiã da cadela conseguiu fosse feito um engenhoso aparato que lhe dava sustentação, e permitia que ela, com as patas dianteiras, se locomovesse, e até mesmo corresse, nos momentos em que se encontrava mais alegre e eufórica.

 

O outro caso abordado era o de uma elefanta, que tivera uma das patas dianteiras mutilada, por causa da explosão de uma mina terrestre, espalhadas por causa dessas guerras fratricidas e completamente insanas, como são todas ou quase todas as guerras. Cientistas conseguiram desenvolver uma prótese, semelhante às usadas pelos seres humanos, que lhe permitiram voltar a andar. O caso aconteceu quando a elefanta tinha apenas sete meses.

 

O fato é que os animais vêm sofrendo muito por causa das ações humanas, como desmatamentos, queimadas, caçadas, acidentes provocados pelo trânsito nas estradas, etc. Felizmente, além dos insensíveis, egoístas e perversos, que cometem verdadeiras atrocidades contra os nossos irmãos menores, existem os que são legítimos anjos da guarda dos animais, e lhes dispensam todo cuidado, carinho e amor, às vezes até com sacrifício pessoal.

 

Ao sair da barbearia, fui fazer minha caminhada. Quando retornava, vi um homem fazendo o burro que puxava sua carroça correr, ao girar o chicote. Suponho que o animal temia ser açoitado, e por isso seguia a galopar. Ora, depois de um dia inteiro de trabalho, em prol do sustento do carroceiro e de sua família, evidentemente já cansado das cargas que deve ter conduzido, ainda tinha que fazer um esforço enorme com a corrida, para que o seu dono se desse ao luxo de voltar mais rapidamente para casa.  

13 de agosto de 2010

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Encontrando Leonardo

Fonte: Google

 

Encontrando Leonardo

 

Paulo Silva (*)

 

      Para Diderot Marvignier   

 

   Antigamente, quando as férias escolares de fim de ano, no meu tempo de menino, aconteciam nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, passei todas elas na casa do velho Paraizo, para onde meu bisavô paterno se mudou em 1864. Já morando em Fortaleza, para onde minha família tinha se mudado, passei lá todas as minhas férias, a partir dos seis anos de idade. Viajava no ônibus da Viação Horizonte acompanhado de algum adulto que me deixava e voltava no dia seguinte.

   Tinha chegado no meu Paraiso terreno. Aquela casa de tantas gerações e tantas estórias era um universo de informações e aconchego. Naquele tempo, começo da década de sessenta, era habitada apenas por quatro mulheres de idade muito avançada.

   Adelina tinha origem africana e hábitos também. Pude observá-la com mais atenção nessa minha primeira e emocionante temporada sozinho com elas. Todos da família adoravam a temporada de julho na Pedra do Sal, praia. Dezembro era quando começavam as chuvas na Ilha. Surgiam os insetos que atraíam rãs e sapos, que atraíam cobras. Era preciso conhecer e saber com   o que estava se lidando. Foi lá o aprendizado pragmático que carreguei pelo resto da vida, até aqui.

   Ela tinha 101 anos. Usava tamancos de madeira que revelavam com som alto seu caminhar firme, mas arrastado. Fumava cachimbo com fumo de rolo que picava com uma faquinha que amolava sempre em uma pedra do pátio. Usava um grande bastão de bambu, maior do que ela, para se equilibrar, mas era também uma arma contra cachorros e vacas paridas. Cantava coisas que eu não entendia, pois não era português. Perguntei à nossa querida cozinheira Maria Area se ela estava caducando, que me respondeu que era porque falava a língua dos índios. Talvez não quisesse me dizer que era a língua dos escravos 

   Nessa época do ano, a partir de cinco da tarde, as nuvens de muriçocas saíam das moitas de jiquirí da beira do rio em direção à varanda da casa, que ficava insuportável. Todos os dias, um pouco antes, Adelina ia sozinha com um grande chifre cheio de bosta seca de boi e ficava fazendo fumaça com aquilo. A única maneira de se livrar das picadas. Contra as cobras, espalhava pedaços de couro de guaxinim na calçada da varanda.

   Viveu até os 108 anos. Em um desses anos que ia de férias para lá, apareceu uma impinge na minha barriga. Ela pediu para alguém pegar umas folhas de fedegoso. Macerou e passou na minha barriga. Uma semana depois, nenhum resquício do fungo.

   Fui aguçando minha curiosidade para aprender de tudo e me libertar de preconceitos.

   Maria Area era a mais nova das quatro, devia ter 78 anos, a cozinheira da casa. Minha queridíssima dona Maria. Adorava todas as comidas que fazia, principalmente porque montava o cardápio do dia baseado no que eu queria comer. O que me encantava nela era a generosidade dela com meus amigos, parceiros dos banhos de rio, das guerras de baladeira, de torear vacas paridas. Quando convocado para o almoço às onze em ponto, não queria deixar meus amigos sem ter o que comer voltando para suas casas. Ela já havia triplicado a comida e tudo que se comia dentro de casa eles comiam também. Criança, não tinha cacife para ir comer com eles. Aprendi com ela algumas receitas que repito até hoje.

   Inácia tinha 82 anos. Nossa querida Dadá. Era a governanta da casa. Dentre as várias funções que exercia, a mais importante era a de ter dado continuidade ao Terço diário às 18 horas na sala principal da casa, o que lhe conferia autoridade sobre todos os membros da família. Esse gesto religioso tinha sido iniciado por Evangelina Rosa durante a Segunda Guerra Mundial, pedindo proteção para os dois netos ingleses em situação de perigo na África e na Índia. Continuou acontecendo até que a última moradora da casa antiga   tivesse morrido. Ela própria.

   Era o único momento do dia que eu perdia a alegria. O lusco-fusco da hora já criava um clima melancólico. Vários adultos com terço na mão repetindo a oração como uma cantilena triste em busca de salvação de suas almas e de perdão dos seus pecados. Os retratos dos antepassados já falecidos na parede daquela sala sobre os quais eu ouvira relatos de como havia sido suas vidas. Para completar, era exatamente nessa hora que uma fanhosa "radiadora", levantada no outro lado do rio no bairro da Coroa, começava outra cantilena. Poste de madeira e alto-falante pequeno para o volume que colocavam, distorcendo o som sempre com a mesma abertura: "Mulher tu deixaste a moradia pra viver de boemia, foi viver num cabaré. E eu pra não morrer de tristeza..." Era tétrico.

   Maria Clara tinha 86 anos e era a dona da casa, posto que era filha do Capitão Claro. Era a única de toda a família a chamar a Dadá de Inácia, mas em nenhum momento tirava a autoridade dela na gestão da casa. Dadá a tratava por dona Iaiá.

   A vida da casa começava cedo. Às quatro da manhã, a bezerrada mugindo anunciava a movimentação dos funcionários da cocheira para a primeira tirada do leite. A cocheira para duzentas vacas de leite ficava a cerca de trinta metros da cozinha antiga. Era como se estivesse dentro de casa. Pulava da rede, colocava minha primeira calça comprida jeans e botas, o que me fazia sentir um cowboy do cinema. Com minha caneca saborizada de açúcar e canela, tomava o morno leite direto da vaca para a caneca.

   Com o dia amanhecendo, a melhor parte. Acompanhar um dos cocheiros conduzindo as vacas para o ótimo pasto da Sorocaba e na volta o galope livre disparado no meu pequeno rosilho, que corria de volta à cocheira. Daí pra frente, futebol, banho de rio, pescaria, guerra de baladeira e tudo que era possível inventar até as 10 horas. O almoço era religiosamente servido às 11 horas.

   Por ser o único entre as quatro, tive o privilégio de ter acesso ao escritório do meu avô onde ficava sua biblioteca. Maria Clara, irmã dele, me confiava a chave mediante promessa de não estragar nada. Costumava pegar quatro a cinco livros e ir me deitar na varanda da frente lendo até as 16 horas. Ganhava o mundo e as estrelas através dos livros. Foi quando tomei conhecimento do genial Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco.

   Durante os vários anos que continuei indo até a adolescência, pude ler muitas coisas. As que não gostava, mas lia. As que gostava e separava para ler de novo no ano seguinte. E as que não entendia, como os sermões de Antônio Vieira, mas lia.

   Certa vez me interessei pela escrivaninha dele onde havia coisas pessoais como sentenças, crônicas que não publicou, o rascunho da primeira liga de futebol organizada e com regras do país, a Liga Parnaibana de Futebol, criada por ele. Também dois envelopes grandes, um deles endereçado ao primo e cunhado Antônio Tavares, de São Luis do Maranhão. Dentro tinha uma das obras escritas por nome Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, A Criação Universal. Ao abri-lo, encontrei um manuscrito em letras esculturais feito em caneta tinteiro pelo meu avô. Tratava-se do termo de proclamação da independência do Piauí, datado de 24 de janeiro de 1823, quando Leonardo retomou a cidade de Piracuruca da tropa deixada por Fidié. Vasado nesses termos:

"Queridos irmãos brasileiros que habitais a rica Província do Maranhão e especialmente os moradores das fronteiras desta até agora infeliz Província do Piauí, acho que malignas e espessas nuvens ofuscam as luzes do vosso entendimento. Pois vós sois brasileiros e recusais a obedecer ao Sr. D. Pedro, Imperador Constitucional do Brasil e seu Perpétuo Defensor?

   Não sois europeus e seguis o seu partido com perigo evidente da vossa vida e com perda de vossa honra. Ah! Onde está o brio, o patriotismo brasileiro! Onde a honra e onde o dever? O meu coração se vê dilacerado pelo pungente punhal da mais intensa dor... Irmãos, irmãos! Quereis ter o desonre de que a força exija de vós e por violência obtenha o que dever, a Honra e o patriotismo em vão, até agora, vos têm tão instante cordial e docemente requerido e rogado! Que lástima! Que afronta! Que vergonha! Persuadido! A dor me embarga as vozes do sentimento, apenas respiro, quereis que a vossa adesão à nossa santa e comum causa seja obra da força! Sereis satisfeitos. Ei-la: ela se apresenta. Um pé de exército de quatro a seis mil homens já deve ter feito em Oeiras o que cedo vereis em vós. Outro de dois a três mil vai fazer o mesmo em Campo Maior. Um corpo de observação de quinhentos a setecentos homens se acha na Barra da Amarração para conter o inimigo, a quem inquieta com contínuas correrias pela costa. Todos estes trazem todos os petrechos de guerra e várias peças de campanha, que tornam formidáveis as suas forças. Além desses corpos, um batalhão ligeiro de índios e brancos de mais de seiscentas praças, destinado a cortar as relações do inimigo com o sul da província, a impedir a reunião de novas tropas, já se fez senhor de Piracuruca, e do seu grosso Presídio apavorando-se do seu numerosíssimo avante ali plantou o seu quartel comandante pela voluntária reunião dos povos circunvizinhos no curto espaço de três dias tem visto crescer ao duplo dos seus soldados. Obtida a possível reunião dessas forças mencionadas, seguros da vitória, marchamos alegres a desalojar o nosso tirano déspota do seu último e mal seguro asilo.

   Ele não ignora a sua fraqueza; a deserção atual de suas tropas aumenta o temor. Consequente a esse conhecimento, o seu pesar se patenteia em três cartas escritas aos seus amigos de Campo Maior e Oeiras e com um ofício dirigido às autoridades de Caxias, pedindo socorro: todos esses papéis nos vieram às mãos por terem nossos soldados tomado ao correio. Concluída essa expedição, o que esperamos em brevíssimos dias, a não termos mais o que fazer, exultando de gosto, por sermos os instrumentos de liberdade de nossos irmãos, cantando alegres hinos ao Senhor dos Exércitos, entre os vivas e aclamações, ufanos entraríamos em nosso país natal, cheios de uma nobre e generosa vaidade. Esses são os nossos desejos; mas se os nossos fascinados irmãos do Maranhão, persistirem teimosos em fazer a facção política do grande Império Brasilico, rebeldes aos decretos do nosso Augusto e Amado Imperador, acaso devemos consenti-lo? Não e mil vezes não, primeiro derramaremos a última gota do nosso sangue. Ah! Queridos e enganados irmãos, que é o que temeis? E o que é o que esperais? Temeis as forças do miserável Portugal, esgotadas com as contínuas levas de soldados pelo sul do Brasil, onde todos têm sido sacrificados à Deusa da Liberdade Brasiliense, esmagando suas cabeças com a mesma vara de ferro com que pretendiam subjugarmos. Este magnânimo e liberal exemplo nos tem dado aqueles nossos intrépidos irmãos de dezesseis províncias, desde além Prata até os limites ocidentais do Ceará, proclamam a liberdade e prestam gostosa obediência a D. Pedro. Não temeis essas forças muito superiores às vossas e existentes no vosso próprio continente e, confiantes, temeis as de Portugal tão remotas e apoucadas? Que estranha mania! Passando em silêncio os poderosos socorros que nos prestam várias nações do continente europeu e americano, vamos analisar o que é que esperais: oferece-vos, grandes vantagens à dependência servil de Portugal, com tudo e por tudo; e não encontrareis nenhuma no comércio franco e liberal com todas as Nações? Torno a dizer: que estranha mania! Irmãos! Com que os exarais um procedimento tão alheio do senso comum e honra brasileira? Porventura vos decides sobre a vossa futura felicidade pelo que ledes nas lodosas páginas do “Conciliador”? Ignorais que o seu redator é europeu e, por isso, nos oculta o conhecimento dos fatos que fazem o nosso bem e aprovam o direito inalienável e decidida razão com que proclamamos a nossa independência? Ele nos chama de facciosos, perjuros, incendiários. Ele nos faz estólidos e iludidos agentes do velho despotismo. Ele afirma que o partido europeu é atualmente no Brasil quase universal. Que mentira! Que blasfêmia política! Proclamamos a constituição a par da independência; elegemos Deputados das Cortes Brasileiras e estes se estão reunindo, o nosso Imperador aclamou-se constitucional. Continuamos a conservar e eleger governos provisórios: todas as questões se decidem pela maioria de votos: Eis aqui o nosso provável será disso, que o padre Tesinho chama despotismo? A que pois chamará ele Constituição? Quanto aos exemplos de consciência que este senhor conta que tais e outros iguais nos metem, não é mais que um pretexto próprio só para enganar gentes rudes que ignoram qualquer contrato que contém condições ou são expressas ou ocultas, faltando esta, não tem valor aquele. Isto vemos no mesmo que a respeito de Adão, e vê-se nos casamentos e outros contratos de qualquer natureza que sejam.

   Que vos falta, pois, queridos irmãos? Que vos impede os passos? Que vos prende a língua? Ah! Gritai, gritai comigo:

 Viva a nossa santa religião!

 Viva a futura Constituição Brasileira!

 Viva o Sr. D. Pedro I, Imperador Constitucional do Brasil e seu Perpétuo Defensor!

 Viva a nossa santa Independência!

Vivam todos os brasileiros honrados, briosos e intrépidos!

Do vosso patrício Secretário e Ajudante da expedição de Piracuruca, no quartel da mesma a 24 de janeiro de 1823. Leonardo de Carvalho Castelo Branco

   Por tudo que está escrito nesse manifesto, é possível entender porque a Coroa Portuguesa o considerava uma perigosa ameaça. O homem mais “perigoso” agindo em território do Piauí, sendo decretada sua imediata prisão. Só não havia como. Leonardo, à frente de sua tropa do outro lado do rio, jamais se deixaria prender.

   Esse manifesto complexo e abrangente traz à baila muitas revelações. A de que a situação era crítica e perigosa para os que ousavam desafiar a Coroa Portuguesa, tanto que foi preso e condenado à forca. Demonstra a confiança de poder enfrentar a artilharia pesada de Fidié, pois a retirada estratégica para comprar armas e munição no Ceará permitiria equilibrar as forças   para derrotar as tropas do Governador das Armas, com a missão de garantir a Província do Maranhão e a do Grão Pará para a Coroa Portuguesa. O Piauí iria junto, pois era parte do Maranhão, desde o decreto do Marques de Pombal em 1772.

   Leonardo era um gênio na expressão máxima da palavra. Um líder nato e formidável estrategista, guerreiro por excelência e instinto. O manifesto revela ainda sua paixão pela causa da independência e fidelidade absoluta a D. Pedro I, o que sugere que ele não tinha conhecimento do que foi, de fato, o movimento na câmara de vereadores de Parnaíba. O 19 de outubro ia muito além do apoio à causa da independência.

   Grande conhecedor de mecânica, física, astronomia, atento observador dos fenômenos naturais, Leonardo tinha a intuição e curiosidade espacial e a lógica empírica dos gênios como Nikola Tesla, Newton, Santos Dumont ou Alexandre de Gusmão. Foi o primeiro cientista brasileiro a descrever as abelhas nativas sem ferrão. Desenvolveu e construiu vários inventos úteis para o cotidiano da época, como um grande pilão com reduções até a manivela para triturar grande quantidade de milho ou descascar arroz. Construiu uma canoa de madeira com palhetas na popa movida a pedal, que atingia grande velocidade. E entre vários outros inventos, o mundialmente tentado moto contínuo, jamais conseguido até hoje pela impossibilidade termodinâmica. Mas acreditava poder resolver esse desafio, que seria a maior revolução tecnológica do planeta. Reclamava de perseguição política por nunca ter podido experimentar com equipamentos necessários para as tentativas nos diversos modelos, embora tivesse tido algum apoio de Dom Pedro II. À luz da tecnologia atual, o máximo que se conseguiu foram as baterias de longa vida à base de lítio carregadas por energia solar.

    Leonardo Castelo Branco era um visionário cem anos à frente de seu tempo, cuja mente carregava uma usina de ideias e o coração um combatente revolucionário, destemido, carismático, entusiasmado e comprometido.

   Garantida a integridade do território brasileiro pelos acontecimentos no Piauí e rendição de Fidié no cerco ao Morro do Alecrim, no Maranhão, o Imperador Dom Pedro I indicou Simplício Dias como primeiro presidente da província do Piauí, considerando a importância de seu domínio do comércio e navegação com a Europa. No entanto, ele declinou, escondendo o verdadeiro motivo de sua recusa.

    Por influência de parentes importantes no Maranhão, foi indicado então Manuel de Souza Martins.

 Grato, manteve-se fiel à causa da Independência e a Dom Pedro.

   Somente em agosto de 1824, o brado do 19 de outubro em Parnaíba se revela na totalidade. A luta intestina da Maçonaria na construção do Estado Nacional.

    João Cândido de Deus e Silva e Simplício Dias anunciam adesão à Confederação do Equador e deixam evidente a luta entre monarquistas e republicanos.

   Luta de vida e morte, onde muitos foram julgados e fuzilados. Só então a mente privilegiada de Leonardo foi informada da motivação da causa e imediatamente já fez pulsar o coração do carismático líder guerreiro, declarando-se defensor da República.

   Conhecedor de sua capacidade de liderança, Manuel de Sousa Martins decreta sua imediata prisão.

  Levado para a cadeia em Oeiras, sofreu várias humilhações durante um ano, até ser mandado para julgamento em São Luís e, quem sabe, ter o mesmo destino dos líderes de Pernambuco e Ceará, fuzilados em praça pública.

   A interferência do Dr. João Cândido de Deus e Silva e a confraria de Coimbra, funcionando como universidade desde 1290, e os contemporâneos de Gonçalves Ledo, denominado na Maçonaria como "Diderot", o livraria da condenação, da cadeia e do possível fuzilamento.

O esfacelamento do movimento em Pernambuco e no Ceará, levou ao arrefecimento de   Leonardo, que se recolheu com a   família em sua fazenda, ate morrer algum tempo depois. Encerraria ali a   luta da maior personalidade de toda a história do Piauí.

   Estava em construção um livro que jamais foi escrito por nenhum historiador e lhe dava o reconhecimento na dimensão que um gênio com tantas habilidades e criações deveria ter. O grande historiador Diderot Marvignier o escrevia há anos. Tinha método, organização cuidadosa e preocupação em chegar às fontes primárias e aos documentos. Nessa empreitada, ajudei-o no que pude. No que encontrei em sebos de Fortaleza, Brasília, Lisboa e Porto, além de opiniões e comentários de historiadores portugueses meus amigos.

   Pelo que conhecia de Diderot por mais de cinquenta anos, dali sairia uma obra-prima. Séria, consistente, verdadeira. Ele sentia ojeriza aos que assacavam ofensas aos heróis da Pátria, se auto-intitulando historiadores, cuja preguiça e limitações intelectuais não lhes permitiam ir além do que escrever sandices ao sabor de suas frustrações pessoais e trejeitos patológicos. E desprezo pelos que queriam mudar as verdades históricas para atender a caprichos e vaidades regionais, sem provar com documentos e fontes primárias.

   Entre todos os hinos oficiais, é o da independência o que mais gosto. Quando ouço o trecho “Ou Ficar a Pátria livre, ou Morrer pelo Brasil,” é de Leonardo que me lembro. E todas as vezes que ler ou ouvir o nome Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, será do meu querido amigo Diderot Marvignier de quem me lembrarei eternamente.

(*) Constituinte de 1988.

domingo, 30 de junho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - V

Fonte: Google


CROMOS DE CAMPO MAIOR


Elmar Carvalho


           V

 

O Monumento aos Heróis da Batalha do Jenipapo

recorte de concreto contra a seda azul do céu

em pleno e plano tabuleiro dos grandes campos

                                                           de Campo Maior

não obstante bonito é apenas um símbolo da

coragem dos filhos da Terra dos Carnaubais

            e de outras terras

porque ela já fora indelevelmente

(de)marcada a ferro e fogo

em nossa memória e na

p’alma de leque das carnaubeiras e na

p’alma de nossa mão e de nossa alma.

sábado, 29 de junho de 2024

AMAR AMARANTE SEMPRE

Elmar visto por Gervásio Castro

 


sexta-feira, 28 de junho de 2024

Sonhos de um Velho Escritor Abandonado

Fonte: Google



Sonhos de um Velho Escritor Abandonado

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Ao entrar na grande sala do abrigo, um raio de sol tocava os corpos franzinos ao meu redor, como que lutando para trazer vitalidade. Senti os aromas baralhados de remédios, alfazema comum, xixi, vômito, detergentes caseiros e mingau, que dominavam o ar – num pacto de cheiros como os roncos, lapsos, sussurros, gemidos e gritos abafados.

Não foi nada fácil parar e ouvir com a pressa dos jovens de hoje. Sempre no ritmo do Instagram, e sendo o dono do único smartphone de última geração no local. Senti-me uma criatura superior e desfocada pela rapidez das telas. “Ah, uma “evolução darwinista” tão perfeita”.

Para mim, os anseios dos velhinhos pareciam quase banais: levantar e andar sem sentir dores; saborear mesmo a insossa comida; receber uma visita. Um aperto de mãos. Um abraço. Respirar sem resmungar...

Notei um de trajes simples pisar sem pressa, os lábios em movimento, como quem discursa consigo. “Devia estar delirando ou falando com algum morto, como todos fazem”, refleti como um jovenzinho da nova geração.

No início, julguei-os egoístas, teimosos e ranzinzas. Mas, ao voltar à razão, percebi que o peso era da repulsa familiar, das vidas quebradas pelas decisões alheias, consumidas em (des) enganos.

Prometi a mim mesmo não seguir com os julgamentos, mas a tentativa foi como remar ao lado de Caronte, entre o sentir sincero e o fingimento vulgar. Meu desprezo por um deles, Seu Hermínio, intenso, transparecia enquanto ele, aos seus noventa e sete anos, enrugado e pacato, recitava sem parar o bendito Salmo Vinte e Três em cada conversa ... Com o tempo, passei a não gostar dele.

Olhei para ele novamente e vi uma luz regando seu ombro e seu pomo- de-adão; no fundo, havia calma e vitalidade. Seu Hermínio apertou meu braço. Eu alarguei as passadas e ele, acelerando, riu. De repente, disse: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam! ”

Esse salmo, sua prece e norte irritava meu peito. “Será o Seu Hermínio um realista esperançoso? “ – Me perguntei, ao me confrontar com a agonia de ter alguém tão dócil perto da ideia do Vale da Sombra da Morte.

Que tolice a minha repreender alguém que apenas exercia sua forte fé! Afinal, conviver ao lado de alguém que dorme e acorda no Vale pode ser perturbador, até para o mais crente na eternidade.

E então, acordei. Outro sonho bizarro se foi. Recebi minha medicação diária e, ao voltar a mim, notei as cadeiras cobertas com fitas azuis, vermelhas e amarelas. Uma vez mais, senti o cheiro dos avós abandonados.

Sorri bastante sozinho – o riso ainda vive neste velho, um sinal da evolução da espécie – ao lembrar do meu delírio juvenil enquanto visitava meus colegas de abrigo. Anotei mais esse no meu caderno amarelado e retomei minha rotina de velho escritor abandonado.

Ah, esses moços com seus julgamentos evoluídos...

(*) contista e cronista.   

domingo, 23 de junho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - IV

Fonte: Google


CROMOS DE CAMPO MAIOR


Elmar Carvalho


           IV

 

O rio Surubim cheio de

outros peixes e de surubim

não se parece nem com

peixe nem com cobra prateados:

no inverno é uma corrente de água viva.

É nele que as lavadeiras ganham a vida,

que os afoitos perdem a vida,

que os meninos pobres brincam de ser

apenas meninos – nem ricos, nem pobres.

Rio Surubim

onde os pe(s)cadores pe(s)cam

peixes e sereias de coxas grossas

            e sem escamas

na doçura de suas margens

na maciez de suas moitas mornas.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Poeta Elmar Carvalho lança documentário em homenagem a Amarante

 


Poeta Elmar Carvalho lança documentário em homenagem a Amarante

 

Amarante, a charmosa cidade do Médio Parnaíba do piauiense, ganha os holofotes em um novo documentário do renomado poeta Elmar Carvalho. O artista — que também é contista, cronista, romancista, memorialista, diarista, juiz de direito aposentado e membro da Academia Piauiense de Letras — traz à tona memórias e homenagens que destacam a rica cultura e história da cidade, além de figuras ilustres que marcaram sua trajetória.

A obra foi apresentada durante a Jornada Cultural em Amarante realizada na Casa de Cultura, Odilon Nunes, no domingo (16), uma iniciativa da Academia Piauiense de Letras, com o apoio da Academia de Letras do Médio Parnaíba (ALMP) e da Academia de Letras, Artes e Cultura de Amarante (ALEAMA). A programação do projeto, segundo a APL, visa aproximar a comunidade dos intelectuais e escritores piauienses com promoção de literatura e artes na região.

 

Relembrando Amarante com poesia

No documentário que tem duração de aproximadamente 20 minutos e 40 segundos, Elmar Carvalho compartilha suas gratas recordações de Amarante. Ele pinta com palavras poéticas os aspectos que mais o comovem. Elmar evoca ainda os belos versos de Da Costa e Silva, um poeta que sempre o tocou profundamente, especialmente ao descrever a igreja branca, as casas na paisagem verde, os mugidos dos bois e os engenhos locais. A conexão de Elmar com Da Costa e Silva é tão intensa que ele liderou uma campanha, ainda que sem sucesso, para trazer os restos mortais do poeta de volta à sua terra natal.

 

Uma viagem no tempo

Em tão somente 20 minutos e 40 segundos, os espectadores são levados a uma viagem no tempo, com Elmar narrando sua primeira visita a Amarante nos anos 80. Na época, o escritor trabalhava como fiscal da extinta SUNAB. Ele revive a “cidade azul dos poetas”, cercada pelos rios Mulato, Canindé e Parnaíba, e detalha sua estadia em uma antiga pousada durante uma noite fria e chuvosa, cheia de lembranças assombradas.

 


Homenagens a amigos e colegas

O documentário também presta tributo a amigos e colegas que compartilham o amor de Elmar por Amarante. Ele destaca sua amizade com Cunha e Silva Filho, renomado professor universitário e crítico literário, com quem mantém uma relação de admiração mútua e colaboração literária. Durante sua gestão na União Brasileira de Escritores do Piauí, Elmar promoveu encontros culturais em Amarante, reforçando ainda mais os laços culturais com a cidade.

 

A beleza e cultura de Amarante

O documentário não só reflete a beleza e a cultura de Amarante, mas também a paixão de Elmar por sua terra e seus conterrâneos. É uma ode à cidade e aos poetas que a celebraram em seus versos, como Da Costa e Silva, Clóvis Moura, Carvalho Neto, Marcelino Barroso e Virgílio Queiroz. Com uma narrativa rica e detalhada, a produção promete emocionar e encantar os espectadores, oferecendo um olhar profundo e nostálgico sobre uma das joias do Piauí.

 

Mergulhe na essência de Amarante

Prepare-se para mergulhar na história e na cultura de Amarante através dos olhos do poeta que, com talento e sensibilidade, captura a essência de uma cidade quase paradisíaca, rodeada por rios e repleta de histórias a serem contadas. O documentário é uma celebração poética e visual de uma terra que inspira e encanta, revelando as camadas de uma cidade rica em tradições e memórias.

Através do documentário, Elmar Carvalho não só nos oferece um vislumbre de Amarante, mas também nos convida a refletir sobre a importância de preservar e celebrar nossas raízes culturais. É um testemunho do poder da poesia e da memória em manter vivas as histórias de lugares e pessoas que moldam nossa identidade.

Fonte: Portal Somos Notícia.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

AMAR AMARANTE SEMPRE

 


DISCURSO DO DES. ARNALDO BOSON (*)

Fonte: Google

  

DISCURSO DO DES. ARNALDO BOSON (*)

 

 Arnaldo Boson Paes é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 22ª Região.

 

Senhoras e Senhores,

Início estas palavras compartilhando a imensa alegria que sinto ao receber a generosa e gratificante Cidadania Parnaibana, que me acalma a alma e me torna irmanado com todos aqui presentes.

É tão grande a minha identificação com esta terra, com esta gente, com estas tradições, que, antes mesmo de passar a ser parnaibano por decreto legislativo, confesso que eu já o era pelo coração.

Esta é a cidade que aprendi a amar, desde meados de 1985, quando aqui estive, pela primeira vez, para participar de evento acadêmico no campus da então Universidade Federal do Piauí.

Minha admiração pela invicta e gloriosa Parnaíba se intensificou entre 1990 e 1993, quando aqui atuei como magistrado e passei a conviver fraternalmente com figuras ilustres e anônimas da sociedade local.

Retornei em centenas de ocasiões, a lazer ou a trabalho, nesta última condição como presidente e corregedor do Tribunal do Trabalho, ao longo de seis anos de mandato.

A cada dia nesta terra, crescia meu encantamento com as histórias, as tradições, as imagens, os cheiros, os sabores, os sentimentos e as emoções que brotam desta altiva e centenária cidade.

Prezadas e Prezados,

Em Parnaíba, somos magnetizados por lindas paisagens naturais e humanas, que tocam o coração e fazem deste o lugar ideal para se viver, sonhar e amar.

Joia encravada no Atlântico, a cidade assume seu espírito de metrópole. Por seu pioneirismo na adesão à Independência do Brasil, Parnaíba foi agraciada por Dom Pedro I com o título de “A Metrópole das Províncias do Norte”.  Hoje articula amplas redes de influência sobre a planície litorânea.

Cortada por rios, encoberta pelo céu azul, acariciada pela brisa fresca do mar e emoldurada por coqueirais infinitos, cajueiros imensos e dunas de areia dourada, seu cenário é paradisíaco, imensa aquarela pintada por mãos divinas.

Para os que a amam, pouco importam os limites geográficos entre os municípios: do mar aos rios, dos portos às dunas, do Delta às praias, do casario colonial às cidades adjacentes, tudo é Parnaíba.

São paisagens que enchem os olhos e nos convidam a adotá-las como companhias permanentes.

Cito a Pedra do Sal, onde

A natureza ao pôr-do-sol parece

Grandiosa catedral, em cujo seio

O oceano verde reza a sua prece.

 

(Poema Pedra do Sal, de EDISON CUNHA)

Cito, na mesma praia, o soberbo farol,

Vigilante na noite temerosa,

Grave missão cumprindo, silenciosa,

A pupila crepita e o espaço sonda...

 

E, pelo mar em fora, aos seus acenos,

Deslizam barcos, rápidos, serenos

Baloiçando, tranquilos, dentro na onda!...

 

(Poema O Farol, de EDISON CUNHA)

Cito o esplêndido ritual da revoada dos guarás. No labirinto de ilhas, ao por do sol, lindas aves de plumagem vermelha vão chegando aos bandos, em festa, em bela coreografia, decorando a floresta. Ao final do balé, pousam nos galhos das árvores e aninham-se em suas casas noturnas.

Cito ainda o Delta do Parnaíba, o Rio Parnaíba, o Rio Igaraçu, a Lagoa do Bebedouro, a Lagoa do Portinho e o Porto das Barcas, por onde ventos, remos e lemes moviam e continuam a mover barcos rumo ao progresso.

Na confluência de tantas belezas naturais, mulheres e homens, trabalhando de sol a sol, de lua a lua, vão tecendo o espírito empreendedor e cosmopolita do lugar e de sua gente. 

Parnaíba, no seu começo, era muito mais ligada à Europa do que a Oeiras ou a Teresina. Ergueu-se radiosa, soberana e elegante. Dos seus tempos áureos, permanecem os armazéns do cais, o casario colonial, as ruas alongadas, as praças arborizadas, as igrejas altas e bonitas, os palacetes modernos.

Monumentos e personalidades continuam vivos na memória afetiva da cidade, como testemunhos de seu passado glorioso e inspiração para novos ciclos de prosperidade, como pilares de um futuro promissor, descortinando horizontes.

Cito o velho solar dos Dias da Silva, a Casa Inglesa, os sobrados da Alfândega e do Arsenal de Marinha, o palacete da União Caixeiral, a Catedral da Divina Graça, a Igreja do Rosário, o prédio da Santa Casa de Misericórdia, as praças da Graça e de Santo Antônio, o colégio Nossa Senhora das Graças e o ginásio São Luiz Gonzaga.

A brisa que sopra sobre a Parnaíba secular, me traz à memória figuras históricas que deram projeção à terra, tornando-a excelsa e formosa. Entre tantos, sobressaem DOMINGOS DIAS DA SILVA, SIMPLÍCIO DIAS e JAMES FREDERICK CLARK.

Parnaibanos ilustres, de passado mais recente, contribuíram para o seu florescimento: EVANDRO LINS E SILVA, JOÃO PAULO DOS REIS VELLOSO, CHAGAS RODRIGUES, ALBERTO SILVA e MÃO SANTA.

Evoco, sobretudo, a memória de marinheiros, pescadores, canoeiros, vareiros, estivadores, barqueiros, vaqueiros, lavradores, prostitutas, trabalhadores em geral, gente simples e gente humilde, gente sem eira nem beira, cujo trabalho fez a riqueza de poucos e a pobreza de muitos.

Entre esses heróis anônimos, está MANDU LADINO: ao longo do tempo, seus algozes tentaram varrer seu nome da história gloriosa da terra que viria a ser Parnaíba, sede de tantos atos de bravura em busca da justiça. Esta, tantas vezes negada por aqueles que se julgavam senhores do destino de uma maioria entregue à própria sorte.

Robusto e astuto, MANDU LADINO comandou legiões de guerreiros com o intuito de conquistar para o seu povo o direito de existir. Tombou em combate, golpeado por caçadores de índios, ao tentar atravessar a nado o Rio Iguaraçu, em frente à então vila de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnahyba.

Durante longo tempo, a saga desse herói ficou esquecida sob camadas de lodo impostas por seus opressores. Contudo, a sua bravura rompeu essas barreiras insidiosas, e hoje seus feitos heroicos ecoam por todos os rincões, a mostrar que nada é impossível quando se tem coragem e determinação.

Queridas e Queridos,

A história de um lugar e de seu povo é em boa parte a história contada por seus literatos: historiadores, romancistas, contistas, cronistas, poetas. O universo cultural, a atmosfera poética local, gerou escritores e obras de grande valor literário.

OVÍDIO SARAIVA DE CARVALHO E SILVA escreveu Poemas, marco inicial da Literatura Piauiense. LUÍZA AMÉLIA DE QUEIROZ, autora de As Parnaibanas, é a primeira poeta do Piauí. HUMBERTO DE CAMPOS evocou Parnaíba para perenizar seu cajueiro no célebre conto Um amigo de infância. RENATO CASTELO BRANCO produziu vasta obra literária ambientada em Parnaíba, a exemplo dos romances O Rio Mágico e Teodoro Bianca.

ASSIS BRASIL, um dos mais fecundos romancistas brasileiros, publicou mais de uma centena de livros, com destaque para os romances da Tetralogia Piauiense, em especial Beira Rio Beira Vida, marcado por forte denúncia social. Ambientado no bairro Tucuns, hoje São José, às margens do Rio Igaraçu, o romance ganhou o prêmio Walmap de 1965.

A poesia parnaibana é extensa e virtuosa. Sobressaem, entre antigos e novos poetas, JONAS DA SILVA, ALARICO JOSÉ DA CUNHA, EDISON CUNHA, R. PETIT, JEANETE DE MORAES SOUSA, ALCENOR CANDEIRA FILHO, ELMAR CARVALHO, V. DE ARAÚJO, ISRAEL CORREIA, DIEGO MENDES SOUSA e PÁDUA SANTOS.

Estimadas e Estimados,

Parnaíba não se releva apenas no seu passado de glórias. Há também um presente de prosperidade e um futuro radioso que se avizinha, cenário que se abre para uma realidade venturosa.

Para as glórias da Luz e da Prosperidade, como prenuncia a poesia Parnaíba, de JESUS MARTINS DE CARVALHO, a cidade já vive um novo ciclo de desenvolvimento.

A cidade experimenta uma explosão imobiliária, expande seu perímetro urbano, multiplica seus condomínios residenciais de alto padrão e bairros sofisticados vão se somando aos mais antigos e aos mais populares.

O seu mosaico econômico ganha amplitude e diversidade ao reunir variados polos de desenvolvimento, como são exemplos os polos comercial, de serviços, de turismo, do agronegócio, universitário e tecnológico.

Com a estruturação da ZPE - Zona de Processamento de Exportações e do Distrito Irrigado dos Tabuleiros Litorâneos, Parnaíba habilita-se para se integrar às cadeias globais de valor, com potencial para atrair novos negócios e conquistar novos mercados.

O Piauí passa por grandes transformações em sua matriz econômica e energética, sob a liderança do governador RAFAEL FONTELES. O Estado lança-se ao mundo para atrair investimentos e estruturar na planície litorânea um HUB de produção de energias renováveis, à base de hidrogênio verde, destinadas à exportação.

Parnaíba está no centro destas transformações. Com a conclusão das obras do Porto de Luís Correia e de seu sistema intermodal, que vai conectar ferrovias, hidrovias e rodovias, a região sediará dois dos maiores projetos de produção de hidrogênio verde do mundo, com investimentos estimados em U$ 200 bilhões.

Amigas e Amigos,

As cidades são como as pessoas, com o tempo mudam de fisionomia. Na paisagem social e urbanística de nosso tempo, a nossa gloriosa Parnaíba, hoje, são várias Parnaíbas, que convivem em um mesmo espaço geográfico.

A Parnaíba das mansões de luxo e a dos casebres. A Parnaíba rica e a dos bolsões de pobreza. A Parnaíba pacífica e a tomada pelas facções. A Parnaíba das oportunidades, com milhares de universitários, e a Parnaíba que busca um lugar ao sol no mercado de trabalho. A Parnaíba moderna e a Parnaíba antiga.

A qual destas Parnaíbas pertencemos? De qual destas Parnaíbas somos cidadãos? Pertencemos a todas essas Parnaíbas. Somos cidadãos de todas elas. Por todas elas temos grandes responsabilidades sociais, políticas e culturais.

Senhoras e Senhores,

Neste instante, abre-se para mim uma janela do tempo. Rememoro os momentos de vivência profissional e afetiva que construí no território parnaibano.

No exercício da magistratura, convivi com autoridades locais, empresários, trabalhadores, líderes de classe, advogados e servidores públicos. Com espírito cooperativo e trato cordial, com eles criei laços afetivos que os conservo até hoje.

Cito o juiz classista JOSÉ WILSON FERREIRA, com quem mantenho longa amizade. Frequentava sua casa na Rua Duque de Caxias, hospedava-me no seu sítio às margens da Lagoa do Portinho e por meio dele conheci e me tornei amigo de muitos parnaibanos. Aprendi com JOSÉ WILSON que amigo é para sempre.

Esta homenagem enche meu coração de graça e afeto. Duas razões mais recentes, porém, reforçam meus vínculos com esta terra. Ambas conectadas por laços de família.

Pesquisei recentemente sobre MONSENHOR BOSON, meu tio-trisavô, a quem dediquei uma biografia. Aqui estive escarafunchando arquivos para reconstituir a época, a vida e a obra do parente. Após 40 anos dedicados à Igreja e à educação, ele escolheu Parnaíba para continuar sua obra sacerdotal e educacional.

Aqui viveu por 16 anos, entre 1929 e 1945. Aqui instalou e foi capelão da Capela da Santa Casa de Misericórdia. Aqui foi inspetor federal de ensino e contribuiu na gestão do Ginásio Parnaibano, na criação de colégios, no aperfeiçoamento da educação local e na formação da juventude.

Aqui vive um parente querido, o parnaibano ANTÔNIO DE PÁDUA RIBEIRO DOS SANTOS, ex-promotor de justiça e defensor público aposentado, neto do maestro JOSÉ BOSON RIBEIRO, que imortalizou o bombardino da saudade. PÁDUA é um legítimo Boson, mas, na curta e sinuosa travessia do Buriti dos Lopes a Parnaíba, seus antepassados deixaram para trás o sobrenome da família.

O honroso título de Cidadão Parnaibano que agora recebo é filho da bondade do parente PÁDUA SANTOS. Como vice-prefeito e vereador desta cidade, ele foi tecendo uma teia de amizades. Como poeta, contista e cronista, ele conserva um coração sensível e uma alma generosa.  Ao parente, fica a minha gratidão e a minha amizade.

Prezadas e Prezados,

É hora de agradecer e finalizar.

Então, ao ser-me concedido o honroso título de Cidadão Parnaibano, pela Augusta Câmara Municipal, expresso meus agradecimentos à terra e à gente parnaibana, na pessoa do vereador DANIEL JACKSON, por todos os seus ilustres pares.

Agradeço aos conselheiros OLAVO REBELO DE CARVALHO FILHO e JAYLSON FABIANH LOPES CAMPELO pela alegria e honra desta acolhida conjunta, fruto da conspiração do acaso e de nossas amizades.

Agradeço aos ilustres convidados que me honram com a sua presença fraterna, em especial aos que vieram de Teresina para celebrar comigo este momento especial.

Agradeço aos meus diletos amigos e queridos familiares e a todos estendo a homenagem que recebo da Câmara Municipal de Parnaíba, na certeza de que eles também se sentem homenageados comigo, nesta noite memorável.

Para concluir, evoco trechos do poema O centenário de Parnaíba, de ALARICO JOSÉ DA CUNHA, que nos conclama a cultivar as tradições e a acreditar no futuro luminoso desta terra e de sua gente:

A invicta Parnaíba, erguendo-se radiosa,

Excelsa, soberana, elegante e formosa,

[...]

Ó Parnaíba invulgar! És tu que tens a dita

De ser, neste nordeste, a mais cosmopolita,

A mais empreendedora, a mais hospitaleira;

[...]

Bendita, gloriosa, altiva e centenária!

Sagrada pelo povo, que em preces te bendiz

Assegurando-te a Paz de um século mais feliz.

 

Muito obrigado!

(*) Pronunciado pelo Des. Arnaldo Boson, por ocasião do recebimento do Título de Cidadão Parnaibano, que lhe foi outorgado pela Câmara Municipal de Parnaíba, no dia 14/06/2024.   

domingo, 16 de junho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - III

Fonte: Google


CROMOS DE CAMPO MAIOR 


Elmar Carvalho


           III

 

A catedral de

Santo Antônio do Surubim

é bonita e imponente.

Sua torre faz

cócegas nas nuvens:

dir-se-ia uma espada de

Santo Antônio a brincar

com as nuvens e com as estrelas

ou uma escada em demanda do céu.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

DOIDO POR CARROS



DOIDO POR CARROS  


Elmar Carvalho                    

 

Sempre o vejo, perto do semáforo do cruzamento das avenidas Petrônio Portella e Duque de Caxias. Vem de longe ou vai para longe, a descer ou a subir a ladeira do Parque da Cidade. Caminha puxando o seu minúsculo carro de brinquedo. Mas não é nenhuma criança. Deve ter mais de trinta anos. É o que o vulgo convencionou chamar de doidinho.

 

Todos os dias fica, pontualmente, no semáforo, como se estivesse a cumprir uma jornada de trabalho, a passar sua esfarrapada flanela nos carros, que esperam a abertura do sinal verde. É como se fosse um ritual; contorna o veículo a lhe esfregar o velho trapo vermelho. Parece estar cumprindo uma obrigação. Não espera receber moedas, pois nunca as solicita. Se algum motorista lhe oferta alguma, não lhe dá a mínima importância, e a guarda displicentemente no bolso, quase como se estivesse a fazer um favor a quem a deu.

 

Soube que uma pessoa bondosa lhe deu um carrinho novo de presente. Parece não ter dado importância ao mimo, uma vez que continuou a puxar o seu diminuto e velho brinquedo. Talvez tenha ficado com pena de deixá-lo esquecido, no canto, como se costumava dizer antigamente, por causa de um novo amor.

 

Poucos dias atrás, o vi a puxar por um cordão um de seus velhos carrinhos. Era um caminhão, com duas desproporcionalmente grandes rodas dianteiras, sem nenhuma na parte de trás, que lhe faziam empinar a frente, como um avião sem asas e sem voo. Vi quando ele fez o brinquedo dar o chamado “cavalo de pau”, a rodopiar sobre si mesmo.

 

Admirei-me dessa sua atitude, pois ele é muito circunspecto, e até mesmo a usar um brinquedo não gosta de brincadeira, e não sorri. Aparenta viver hermeticamente fechado em seu mundo de silêncio e demência, porquanto não liga a mínima para os passageiros, mas apenas cumpre religiosamente a sua autoimposta tarefa de “abanar” os carros com a sua escassa tira de flanela. Tudo indica que vive num mundo só dele.

 

Em sua mansa loucura, nunca o vi furioso ou revoltado, mas apenas a cumprir, como um autômato, o mister que impôs a si mesmo. Mas me contaram que outro dia ele se revoltou contra uma ambulância. Ficou bastante agitado, e em lugar de seus afagos flanelísticos, quis espancar o carro.

 

Embora sem nenhuma vocação detetivesca a la Sherlock Holmes, e sem o adjutório do bom e elementar caro Watson, deduzi que, numa de suas crises, pois até os chamados sãos têm as suas, alguma ambulância deve tê-lo levado para longe de seu rebanho de carros, para confiná-lo em algum hospício, onde lhe devem ter aplicado alguma dolorosa injeção medicamentosa, ou onde lhe podem ter ministrado alguma dosagem/voltagem de choque elétrico, que, segundo ouvi um psiquiatra dizer, ainda tem a sua eficácia, não se tornando, ainda, de todo obsoleto e banido do mundo da medicina.

 

Oxalá, tenha sido excluído das práticas de tortura, que não mais deveriam existir; que, aliás, nunca deveriam ter existido.

11 de agosto de 2010

domingo, 9 de junho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - II

Fonte: Google


CROMOS DE CAMPO MAIOR


Elmar Carvalho


           II

 

Serra Grande

de Campo Maior.

De longe parece

uma dobra do céu.

Nela eu menino fui

buscar uma pedra azul.

Ledo engano, triste decepção:

minha serra era da cor da terra.

Dizem que nela vagam os

fantasmas de uns padres que em

suas entranhas enterraram ouro.

É por isso que nas noites negras em

suas encostas acendem-se fogueiras:

é meu povo pobre procurando

o (tes)ouro vigiado pelos

fantasmas dos padres.   

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Invisíveis

Fonte: Google


Invisíveis

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Casa grande, família à maneira colonial, lá seguia a patroa Leopoldina, com uma pequena escanchada no pescoço e outra prestes a nascer. Chegava e ia direto encontrar Isaura, minha amiga educada e econômica nas palavras, sempre em seu porão.

Na infância, enquanto descobríamos o mundo da cozinha e da despensa, acompanhados de cafunés, afagos e beijos, Isaura já vivia em esgotamento. Mesmo com as juntas ainda jovens, lavava e enxaguava muitas roupas por dia. Agora, anos depois, Isaura estava avoada, ofegante, e puída — a velha ampulheta lembrava seu cansaço.

Carteira assinada? Folgas? Nem pensar. E diziam que jamais foi bulida nesta vida do Nosso Senhor. Sobrevivia num quase-certo regime monástico, sem documentos e praticamente inexistente para o mundo real.

“Leopoldina, alivia o trabalho da velha criada, o mundo já foi muito exigente com ela. Há outras bem mais preparadas para isso,” dizia o Dr. Bustamante, seu rico marido e cúmplice, tentando soar compreensivo. Homem prático e direto, com uma dramaturgia oportunista. Sua voz era baixa e mansa, como querendo disfarçar a invisibilidade imposta a Isaura.

Observei Dr. Bustamante pegar uma pilha de roupas e começar a lavar como minha mãe fazia e como vovó ainda faz, aos seus oitenta anos. Meus pensamentos dúbios surgiram; era difícil não ver hipocrisia. Enquanto isso, Dona Leopoldina, alheia à cena, começou a olhar os anúncios da internet, como sempre fazia, consentindo silenciosamente a hipocrisia.

Voltei para casa refletindo como, na invisibilidade, uma certa ordem parecia ser trazida ao curso natural das coisas.

Na última visita, corri para ter com a amiga de infância. Olhei ao redor, mas só vi uma estranha. Ela aparentava ser contemporânea e autônoma, sem noção das penúrias da serva anterior. Seus direitos trabalhistas estavam estampados no rosto — que ironia! Será que Isaura havia sido trocada por alguém mais visível?

Descobri então que Isaura tinha sido despedida sem aviso. Ao ver o seu porão vazio, padeci de um sentimento de culpa. Porque não defendi Isaura, que sempre esteve visível para mim, mas parecia invisível para o resto mundo?

E, assim, inspirado por Graciliano Ramos sobre a arte das lavadeiras “Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja, torcem o pano, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes”, através da escrita, prometi tornar visíveis os invisíveis.

(*) cronista e contista.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

UMA NOITE GURGUEANA

Fonte: Google



                               

Uma noite gurgueana


Elmar Carvalho

 

Na sexta-feira ocorreu a solenidade de posse de Jesualdo Cavalcanti Barros, que passou a ocupar uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras. Foi uma verdadeira noite gurgueana. Estavam presentes vários de seus parentes e amigos, além de muitos de seus conterrâneos. O presidente do sodalício, Reginaldo Miranda, é também das ribas gurgueanas, mais precisamente de Bertolínia.

 

Durante quase quatro anos, semanalmente,  eu passava por essa cidade, quando era alta madrugada, a bordo de um velho e empoeirado ônibus da Princesa do Sul, quando ia para a longínqua Comarca de Ribeiro Gonçalves. Reginaldo em sua breve, porém entusiasmada palavra, exaltou a cultura dessa região e enalteceu os seus principais representantes. O novel acadêmico, que escreveu o notável livro Memória dos Confins, falou sobre os primórdios históricos dessa plaga dos cerrados piauienses.

 

No seu entendimento, a colonização do Piauí começou por lá, usando como fundamento o fato de que as primeiras sesmarias estavam ali encravadas, bem como a circunstância de que parte dessa região se limita com a Bahia, e consequentemente era o local mais próximo da famosa Casa da Torre, de onde teriam saído os primeiros desbravadores de nosso território.

 

Falou dos homens ilustres do Gurgueia, sobretudo aqueles que pontificaram na cultura e ocuparam cadeira de nossa academia. Elogiou, com muita ênfase o seu antecessor, João Gabriel Baptista, em suas várias atividades, mormente como administrador público competente e probo, como professor talhado para o mister e como historiador e geógrafo de nosso estado, que muito contribuiu com seus livros para a elucidação de fatos e aspectos dessas duas matérias, trazendo novidades, e não repisando fatos já sabidos e já escritos.

 

O escritor Oton Lustosa, que lhe fez a saudação, fez o seu justo elogio, lhe louvando as qualidades de homem público e de historiador. Também enalteceu a história dos confins gurgueanos, exaltando seus filhos ilustres, mormente os que palmilharam os caminhos da arte e da literatura.

 

Foram dois excelentes discursos, que bem merecem ser recolhidos em livro. Não posso deixar de dizer, sob pena de esta nota ficar incompleta, que o coquetel foi farto, variado e delicioso.  

10 de agosto de 2010

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Açude Grande de Campo Maior

 



Texto: Francisco Carlos Araújo ( Chico Acoram)
Foto: Gilson Leonardo de Sousa   

domingo, 2 de junho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - I

Fonte: Google

 

Cromos de Campo Maior


Elmar Carvalho

 

           I

 

Açude Grande

apenas no nome, mas pequeno

na paisagem ampla dos descampados.

Tuas águas cinzentas

azularam-se em minha saudade.

Tuas águas barrentas

são tingidas de azul pelo

azul do céu que se espelha

em tuas águas de chumbo.

Em ti os pobres lavam

coisas e se lavam,

apesar das placas, dos guardas

e da postura municipal.