domingo, 11 de maio de 2025

(IN)DEFINIÇÃO

Fonte: Google

 

(IN)DEFINIÇÃO


Elmar Carvalho

 

Eu sou aquele

que vacila absorto

nos umbrais que permeiam

e medeiam o que foi

e o que poderia ter sido.

Sou aquele

que oscila perplexo

entre o sono e a vigília

e inventa sonhos nunca sonhados

e pesadelos jamais inventados.

Eu sou aquele

que ateia fogo

e dança sobre as brasas

e sobre as cinzas do caos

e sonha em não ser

o ser que é

e não é.

sábado, 10 de maio de 2025

quinta-feira, 8 de maio de 2025

DANÇA E NAMORO EM TERREIRO DE MACUMBA

 

Fonte: Google

DANÇA E NAMORO EM TERREIRO DE MACUMBA


Elmar Carvalho

 

Contou-me o amigo e colega Edison Rogério, faz alguns dias, que rapazola, ainda adolescente, vinha de uma festa, alta madrugada, quando ouviu o bater longínquo de tambores. Tomara umas boas talagadas de pinga, em companhia de uns colegas, e se dirigia para sua residência, em Pedreiras – MA. Levemente tocado pelo álcool, o baticum dos tambores lhe caíram fundo na alma, quase como um chamado irresistível, que lhe despertou o imaginário e a curiosidade, talvez por força de alguma memória atávica longínqua, ou seja lá o que tenha sido.

 

O fato é que o colega, com a audição e os demais sentidos aguçados, se dirigiu para o lugar distante de onde vinha o batuque. Descobriu que as batidas vinham de dentro de um terreiro ou salão de umbanda ou macumba. O nosso bravo Rogério adentrou o salão da dança ritualística; envolvido pelo som dos tambores, inebriado pela magia da dança e do incenso, e talvez pelos requebros de alguma cabocla que dançava, oxalá já cavalgada por algum espírito lascivo, entrou na dança.

 

Tomou mais algumas doses da branquinha, e enfeitiçado pelo ritmo dos tambores, pelos giros e rodopios da dança e – quem sabe? – por algum espírito brincalhão e festeiro, Edison Rogério dançou como um mestre consumado, como um verdadeiro virtuose das danças ritualísticas, a ponto de impressionar o macumbeiro dono do salão. No dia seguinte, ao acordar, por volta das onze horas, foi abordado por seu pai, que lhe indagou sobre o que andara fazendo. Ele não se lembrava de tudo em detalhes, e tinha vagas lembranças de sua performance extraordinária no salão de dança umbandística.

 

Seu pai, então, lhe contou que fora procurado bem cedo pelo macumbeiro, que lhe dissera nunca ter visto ninguém dançar tão bem como seu filho, e por isso tinha vindo lhe pedir para que o rapaz fizesse parte de seus seguidores. Edison Rogério nunca mais pôs os pés naquele terreiro de tambores e dança tão encantados; tudo fora apenas aventura e brincadeira de um adolescente, a desbravar a magia da vida e do mundo. Certamente o terecô perdeu um virtuose da dança ritualística, enfeitiçada, mas a magistratura piauiense ganhou um bom juiz.

 

Essa história do Edison Rogério me fez recordar os meus tempos de adolescente. Estava passando uns dias de férias em Barras, terra natal de meu pai, em companhia do Zé Moura, que foi um dos grandes atletas do futebol piauiense. Todas as noites atacávamos em diferentes pontos da cidade, em busca de alguma garota, para um namoro rápido e descompromissado. E quase toda noite conseguíamos uma menina diferente, para uns amassos, como na época se dizia. Certa vez, atraídos pelo bater de tambores, fomos sair em um salão de macumba ou umbanda, que ficava próximo à curva da estrada que seguia para a barragem.

 

Vimos o interior do salão e o caboclo que tocava os tambores, em ritmo frenético, com tanta garra e energia, mas logo saímos para o terreiro, para conversarmos com umas moças, que logo soubemos ser filhas da dona do templo. Quando a conversa já estava bem adiantada, prometendo render bons frutos, a macumbeira, ou antes, a bruxa daquele terreiro apareceu com um cabo de vassoura, e furiosa nos botou para correr. Ainda bem que aquela velha bruxa não sabia voar em vassoura, e ficou apenas empunhando o cabo, a vociferar e a desferir imprecações contra uns jovens, que queriam apenas um ameno e inocente aconchego com suas belas filhas.

17 de novembro de 2010

domingo, 4 de maio de 2025

UM LANCE DE BÚZIOS

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UM LANCE DE BÚZIOS


Elmar Carvalho

 

O grande búzio

soltava seu super sopro

feito de sonho e ilusão

e soprava suas conchas multicores

seus búzios bizarros e bizantinos

que saíam se iam e se esvaíam

transformados em flores

borboletas e besouros

que entravam em outra dimensão

pelo portal – pórtico triunfal –

de outro grande búzio

e voltavam a ser conchas e búzios

do além-mar da morte. 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Livre, ou quase

 

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Livre, ou quase

 

Por Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Olhei para cima. Fuga ou capricho? Talvez os dois.  Foi então que vi. Lá estava ele. Não, não era Deus. Era apenas um pombo. Um vira-latas qualquer. Horrível, sujo, pleno — como só os que não devem favor à beleza sabem ser.

 

Cinza das calçadas rachadas que todos pisam. Pena torta, como promessa descumprida. Bico imundo de esgoto e peleja. Se fosse belo, estaria preso. Chamariam de "ave exótica", dariam um nome humano, colocariam numa gaiola personalizada com alpiste premium e mil chamegos breves. Mas não era. Era livre. Ou quase. Sorte dele? Quem sabe.

 

Vi quando ele voou pelas portas da igreja. E não era a fé que o movia, era a pura sede. Bebeu do esgoto, sacudiu as asas e voltou para o alto, sem "amém". Entre o teto rachado e o chão encardido, fazia sua penitência, aquela que os homens fingem abraçar, mas não praticam.

 

Lá de cima, enxergava mais do que santos atarefados e túnicas empoeiradas. Via joelhos doídos, defeitos soprados, juras, muitas juras. Via o que ninguém ousa confessar.

 

E você? Reza por medo ou por fé? Pensei, sabendo que os vira-latas jamais rezariam. As aves não rezam. Sentem fome. Medo. Mas descem. Porque farelos não caem do céu, caem, sim, das mãos desatentas de quem pensa ter demais e, no fundo, sobra de menos.

 

Ele sabia disso. Por isso desceu e bicou o biscoito da mão da minha senhora, com a autoridade de quem toma posse do que sobra. Eu olhei, com aqueles olhos que só vira-latas domesticados sabem ter: orgulho disfarçado de compaixão. Ou seria cobiça disfarçada de moral?

 

O pombo seguiu. Feio, imundo, livre.

 

Eu ajeitei as correntes, abaixei a cabeça e agradeci — não pela liberdade, mas pela minha aconchegante gaiola. E no fundo do instinto pedi que Deus me livre do livre-arbítrio.

                                                            Abril, 2025

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O MUSEU DO SÍTIO BOA ESPERANÇA





O MUSEU DO SÍTIO BOA ESPERANÇA


Elmar Carvalho

 

Através do mais recente número da revista Nossa Gente, editada pelo jornalista Raimundo Belchior Neto, tomei conhecimento da existência de um museu, instalado no sítio Boa Esperança, de propriedade do senhor Antônio Conrado. Decidi que em minha primeira viagem a Campo Maior iria conhecê-lo, fato que aconteceu no domingo. A reportagem informava que o sítio ficava no quilômetro 29 da estrada que vai para Barras.

 

Como meu pai não tivesse conhecimento a esse respeito, consultei o Dedé, vizinho de sua casa na rua Capitão Félix, perto do estádio. O Dedé simplesmente sabia tudo e foi preciso nas informações. Disse que o sítio ficava perto da estrada, e era de bom e fácil acesso. Com esse esclarecimento, em companhia do Antônio José, meu irmão, e do amigo Zé Francisco Marques, dirigi-me para lá. Fui recebido cortesmente pelo proprietário.

 

A antiga sede da fazenda é como se fizesse parte do museu, com o seu babaçual, suas grandes árvores e plantas ornamentais, e a gruta onde está entronizado o santo da devoção dos donos da casa. O museu propriamente dito fica num prédio próximo, independente. Ali estavam antigos móveis e objetos, que eu já não via há muitos anos; objetos que foram úteis e preciosos, mas que se tornaram obsoletos ou fora de moda, com as novas invenções e a mudança de gostos e costumes. Numa prateleira estavam enfileirados rádios de vários modelos, alguns a válvula, além dos famosos Semp e ABC.

 

Este último ostentava o seu slogan “a voz de ouro”, que marcou gerações. Sobre uma rústica bancada estavam enfileirados vários ferros de engomar, a carvão, que ainda alcancei em pleno uso. Entre outros objetos, vi baús, bilheiras e um grande e pançudo pote. Recordei os velhos petromax, que iluminavam as noites sertanejas. Entre os objetos artesanais e mais rústicos, havia um imenso pilão horizontal, de vários furos; um corró, que é uma armadilha de varas para pegar peixes; uma tora de madeira oca, em cujo interior havia uma armadilha para prender pebas e tatus.

 

O senhor Antônio Conrado, em conversa, contou que havia vendido alguns dos objetos, mas depois os comprou de volta, para o acervo do museu. Revelou que um dos novos proprietários se recusou a fazer a retrovenda de um móvel; disse preferir doá-lo, para que seu nome constasse na ficha de identificação da peça. O engraçado é que esse proprietário tem o sobrenome Grosso, mas pelo visto trata-se de pessoa fina e educada, para ter essa sensibilidade e percepção.

 

Contemplei uma grande e velha cadeira de outrora. Era numa delas, sem dúvida, que os coronéis da carnaúba, do tucum, do babaçu e demais produtos do extrativismo e do gado ditavam suas ordens e suas leis, num tempo mais simples, em que não havia tanta pressa e tanto estresse. É certo que alguns desses objetos existiam na casa de meus pais, mas foi um prazer reencontrá-los, para poder viajar ao país de minha infância.

 

Na ida e na volta, vimos algumas secas cabeças d'água do Surubim, como disse Dobal, num de seus poemas. São riachos temporários, que, nas grandes invernadas, extravasam suas águas, após dois ou três dias de boas chuvas, mas que, tão logo estas cessem, param de correr, quase instantaneamente, deixando um leito de pedras e areias, sem nenhuma poça d' água. Vimos as Extremas, de nome tão sugestivo e poético. Numa época em que todos têm o seu carro ou sua motocicleta, em que as distâncias encurtaram demasiadamente, já não entendemos a razão desse nome tão extremado.

 

Passamos pelas Areias, do falecido fazendeiro Zé Pedro. Ele era um dos coronéis da pecuária e do extrativismo. Numa época em que poucos podiam comprar um automóvel, ele sempre teve o seu, com motorista particular. Gostava de tomar, de leve, a sua cerveja, num dos barzinhos da cidade, sozinho, a ruminar seus pensamentos. Para que se tenha uma ideia de suas posses e cabedais, basta que eu diga que ele, em companhia de sua mulher, ia ao exterior, para assistir à Copa do Mundo de Futebol, numa época em que viajar de avião era um misto de aventura, luxo e glamour.

 

Antes do bairro Flores, de nome poético, florido e cheiroso, no sentido de quem vai de Cabeceiras para Campo Maior, nos deslumbramos com a alcatifa das suaves colinas e com os tabuleiros de capim mimoso, onde as ovelhas pastam placidamente. Nessa paisagem ainda podemos ver os galopes dos potros e ouvir o relincho das éguas e o canto alegre dos bem-te-vis. Ao longe, podemos vislumbrar o debrum do perfil azulado da serra a se recortar contra o azul do céu e o branco das nuvens. E o pensamento vaga e divaga por essas quebradas encantadas.   

16 de novembro de 2010

domingo, 27 de abril de 2025

MÚSICA VIVA

 

Fonte: Google

MÚSICA VIVA


Elmar Carvalho

 

Passarinhos cantando

saltitavam e dançavam

sobre os fios elétricos

– pássaros ou dedos sobre cordas

de violinos, violas ou violões –

eletrocutando corações.

Aladas notas vivas

fazendo acrobacias e coreografias

sobre as paralelas da pauta.

O vento que passava fazia

coro e uma música celeste

se evolava.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A SAGA DO INOVAÇÃO

Colaboradores do jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos. 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Francisco Fontenele de Carvalho (Neco), Diderot Mavignier, Francisco José Ribeiro (Franzé), Sólima Genuína, B. Silva e Reginaldo Costa; 3º plano: Danilo Melo, Jonas Fontenele de Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho, Flamarion Mesquita e Paulo Martins

Colaboradores do Inovação, quase todos residentes em Brasília: Porfírio Carvalho, Cícero, Ana Alice, Cândida, Jonas Carvalho, Madeira Basto, Reginaldo Costa, Ivana, Rinaldo e Ernesto Magalhães

Canindé Correia visto por Gervásio Castro


A SAGA DO INOVAÇÃO


Elmar Carvalho

 

Há vários dias o romancista Assis Brasil me pediu que lhe conseguisse uma cópia da entrevista que concedera ao saudoso jornal Inovação, muitos anos atrás. Nas vezes em que fui a Parnaíba, tentei consegui-la através do Francisco José Ribeiro (Franzé), companheiro do Reginaldo Costa na feliz iniciativa de fundarem o periódico. Soube que um filho dele estava escaneando todos os números do Inovação, o que seria muito importante para os pesquisadores e interessados, pois apenas o Franzé e o Reginaldo tinham a coleção completa dos números publicados.

 

Em “Jornal Inovação – um Depoimento”, que publiquei em vários livros e na internet, contei a saga do jornal, suas lutas, suas dificuldades, suas atividades culturais, como biblioteca, suplementos (encartes), pesquisas sociais e promoções de eventos e palestras. Nesse trabalho, eu dizia que a história do órgão bem se prestaria a uma tese de doutorado ou a uma dissertação de mestrado. Tenho conhecimento de que alguns estudantes escreveram ou estão escrevendo a esse respeito.

 

O Reginaldo Costa, seu principal baluarte, escreveu um livro sobre o Inovação, infelizmente ainda não publicado, que será de grande valia para o conhecimento da efervescência cultural que Parnaíba então viveu. Através do Vicente de Paula, o nosso bravo Potência, ou do Canindé Correia, ambos colaboradores assíduos do jornal, recebi, meses atrás, um cd com a digitalização de todos os seus exemplares, graças ao esforço de um dos filhos do Franzé.

 

Acabo de imprimir o número que traz a entrevista de Assis Brasil, concedida ao Francisco Fontenele de Carvalho (Neco), no Rio de Janeiro. Entrevista bem feita, longa, de rico conteúdo, recheada de reminiscências, quando o escritor ainda não retornara ao Piauí, nem mesmo a passeio. A capa assinalava: Ano VII – Nº 50 – Parnaíba, 31 de outubro de 1984. Sei que vai causar muita emoção ao Assis Brasil, quando eu lhe entregar o exemplar que fiz imprimir.

 

Aproveitei para ver, virtualmente, vários números, que tive em minhas mãos, em papel, ainda quase com a tinta fresca, ainda quente, como um pão que tivesse acabado de sair do forno. Emocionei-me. Voltei a me sentir aquele garoto vibrante, entusiasmado, cheio de sonhos e ideais, a exalar poesia e literatura por todos os poros. Recordei as lutas e o idealismo do Reginaldo Costa para publicar o “monstrinho”, como eu e ele, brincando, chamávamos o periódico.

 

Achávamos que estávamos contribuindo para destruir a ditadura militar, que no início do jornal (dezembro de 1977) ainda era muito forte. Folheando digitalmente esses velhos números, recordei os amigos, que foram seus colaboradores assíduos. Em homéricas degustações de crustáceos, que os imbecis chamam de caranguejos, em tirada pacamônica, regadas a cerveja, o Reginaldo Costa, o Canindé Correia, Bernardo Silva, De Paula e este diarista, traçávamos a pauta e planejávamos as estratégias de sobrevivência do jornal, que estava sempre enleado em dificuldades financeiras, sobretudo quando não mais pode ser editado em Parnaíba, em consequência de represálias a sua linha independente e ousada.

 

Escritores, poetas, intelectuais e artistas plásticos da estirpe de Canindé Correia, Alcenor Candeira Filho, De Paula, Ednólia Fontenele, João Maria Madeira Basto, Wilton de Magalhães Porto, Danilo Melo, Israel Coreia, Jonas Carvalho, Airton Menezes, Ana Alice, Sólima Genuína, Olavo Rebelo, Flamarion Mesquita, Bartolomeu Martins, Paulo Martins, etc. foram seus colaboradores. Várias outras pessoas, que não escreviam, o ajudaram, de uma forma ou de outra.

 

Quase todos éramos amigos fraternos, e estávamos sempre em contato, seja para discutir o jornal, seja para conversar em nossos momentos de lazer. Vendo as fotografias do rio Igaraçu e das ruas inundadas, comprovei, mais uma vez, que naqueles idos já denunciávamos a lenta agonia do Parnaíba, a devastação dos mangues, a exploração predatória dos caranguejos e os descasos da administração pública. 

 

Folheando, através da tela do monitor, essas velhas páginas do Inovação, senti emoção e saudade, do jovem emotivo e sentimental que fui e dos amigos que citei; das longas viagens de motocicleta que fiz, na companhia do Reginaldo Costa, a serviço do jornal ou para acampar, por simples espírito de aventura, em plagas distantes, como Sete Cidades e Camocim.

 

No topo das barracas, o Reginaldo fixava a bandeira improvisada do jornal Inovação. Poderia dizer que essa bandeira continua a tremular, para sempre fincada em minha memória e em meu coração.    

10 de novembro de 2010         

domingo, 20 de abril de 2025

A ERO MOÇA

Fonte: Google

A  ERO  MOÇA

 

Elmar Carvalho


A aeromoça

abre os braços

e mostra as saídas

de emergência ...

 

E eu a sonhar

que ela abrisse

as pernas e mostrasse

as entradas de quintessência.

terça-feira, 15 de abril de 2025

ENTARDECER EM AMARANTE

Fonte: Google

 

ENTARDECER EM AMARANTE


Elmar Carvalho

 

Dia desse, fui assistir ao espetáculo do entardecer em Amarante. Fiquei no passeio do cais, à beira do Parnaíba, no bar do Pelicano. A serra azul do poeta, nesta época de seca prolongada e de baixa umidade, não estava azul, mas apresentava uma cor quase sépia. À medida que começou o ocaso, dois camaleões começaram uma lenta escalada, cada qual em sua árvore.

 

Subiam pachorrentamente, quase como se fossem bicho preguiça, e não lagarto. Quando passavam por um galho, davam uma rápida parada, como para recuperar o fôlego. Pareciam querer contemplar de seu poleiro os momentos finais da agonia solar. Se pegavam parelha, era sobre quem conseguiria subir mais lentamente.

 

Do outro lado, na cidadezinha maranhense de São Francisco, as luzes começaram a se acender. Pude ver a refração das luzes e das árvores na água. Não tive como deixar de me lembrar de um dos poemas dacostianos, que fala do reflexo das folhagens nas águas barrentas do rio. Em irônica brincadeira, dizem que a melhor beleza de Niterói é ver a beleza do Rio de Janeiro. De Amarante jamais se poderia dizer que a sua maior beleza seria a beleza das serras maranhenses, porque ela é uma bela e bucólica cidade rodeada de bucólica beleza. É uma ilha de formosura cercada de natural encanto por todos os lados.

 

A cor sanguínea do crepúsculo aos poucos foi esmaecendo, até a noite descer sobre as serras, sobre o céu e sobre todos e tudo, como se o caos do nada tudo encobrisse, tudo transformasse em nada. Nas últimas luzes do entardecer, uma bela moça, de olhos sonhadores, mergulhou seu olhar nas águas do rio, e por breve momento sua jovem beleza exprimiu suave melancolia; a melancolia de quem pressentiu que tudo muda, que tudo passa, inclusive a juventude e a beleza.

 

A brisa da tarde sacudiu levemente as árvores, e eu me lembrei de outra tarde, em que o vento sacudiu fortemente as faveiras, cujas favas secas vibraram como maracás; como os maracás dos índios que outrora perlongaram as barrancas do Velho Monge. Nessa já longínqua tarde eu conversava com o poeta Virgílio Queiroz, que por feliz coincidência ou atendendo ao chamado misterioso das musas chegou nesse momento. Levantamos um brinde à vida e à poesia e à inefável beleza amarantina, que só não é inefável aos versos de seus poetas, como Da Costa e Silva, Clóvis Moura e Carvalho Neto.

 

Tudo estava perfeito. Cenário perfeito, conversa perfeita. Mas tudo foi desfeito por um carro de som que chegou, trazendo seu barulho horrendo, sua música horrível. Não sei se alguém poderia chamar aquela zoada de música. A letra, igualmente de baixa extração, dizia, em interminável e insuportável estribilho, que a bunda da moça foi baixando, foi baixando, foi baixando... E nunca uma música pode jamais descer tão baixo assim. 

9 de novembro de 2010

domingo, 13 de abril de 2025

POEMA DA MULHER AMADA

Fonte: Google

 

POEMA DA MULHER AMADA


Elmar Carvalho

 

Amada mulher fatal

o teu amor embora servido

em pequeninas doses é letal

mas eu o tomo lentamente

como um néctar de veneno

em longos e lentos goles (sereno)

como ópio em lenta mente

 

Mulher amada o teu amor

conquistador e guerreiro me toma de assalto

e nem me deixa a oportunidade

de esboçar o meu espanto

e ensaiar o meu sobressalto

de acrobata perdido em pleno salto

                                                     mortal

mas que antes de um desfecho trágico

como que por milagre se salva

entre magia sortilégio e quebranto

pelo gesto carismático de um mágico

 

Amada mulher fatal

o teu amor devastador

não me deu a chance de optar

entre te querer ou não querer

 

               Teresina, 07.12.83 – 18:00h

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Voe, Canarinho

 

Fonte: Google

Voe, Canarinho

 

Por Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Tenho quase certeza de que já escrevi sobre o meu bendito muro — ou pelo menos tentei escrever e esqueci de começar — algo sobre ele, em minha breve e errante passagem como cronista de objetos cotidianos.

 

Uma pessoa normal — ou apenas tida como convencional — talvez nem se perguntasse sobre um objeto tão comum, tão medíocre.

Mas o olhar desse muro me incomoda profundamente.

É o grande muro que faz divisa perpétua com o meu vizinho.

 

Monótono. Monocromático. Mudo.

Um muro frio, impávido, amarelo desbotado.

Bem que pesquisei na internet — e, até agora, não encontrei uma parede sinceramente contente. Há as tentativas: umas pintadas com grafites, outras cobertas de murais ou flores falsas ... mas o meu muro, não.

 

Voltemos a ele.

Eu, atrás da janela com grades.

Ele, sempre de pé.

Todos os dias.

 

Se há algum alento nessa paisagem, ele vem de cima.

No galho mais alto da palmeira imperial do vizinho, avisto ele — o canarinho-da-terra — confundindo-se com a alvorada no seu canto suave:

 

“Tsip, tsi-tit, tsi, tsiti, tsi, tsi, tsiti. ”

Tenho-o observado desde as primeiras chuvas de dezembro. Naqueles dias, ele flertava com entusiasmo.

Exibia os penachos dourados, inflava o peito, soltava um canto que misturava alegria. E estava sempre rodeando várias louras.

Porque é livre. Livre de mim, do muro, do mundo.

Outro dia, uma filha de uma amiga — vinda do Canadá — mirou o meu muro com aqueles olhos que ainda sabem perguntar e tascou:

 

— Mãe, por que neste lugar tem tantas prisões?

 

Eu e a mãe desconversamos. O silêncio nos foi mais doce que a resposta.

 

Depois, vieram as minhas sandices. Imaginei, um dia, oferecer alpiste ou pedacinhos de pão ao canarinho. Talvez um gesto de carinho disfarçado da velha vontade de possuir um pouco dele.

Deixei a ideia.

 

Mas o amarelinho, certo dia, me visitou.

Pousou no muro como quem pisa em algodão. Pus os óculos e vi o que antes era apenas movimento no ar: a esposa elegante, os filhotes cambaleantes, a família inteira saltando sobre o muro.

 

Ziguezagueavam como quem brinca de errar o voo. Um dos pequenos, no entusiasmo, esbarrou a penugem amarronzada na cerca elétrica e quase deu de cara com a parede da casa.

Vieram todos. Como se soubessem que, naquele momento, lhes cabia a tarefa de alegrar um outro passarinho preso — o que está dentro do muro.

Recebi aquela família com um sorriso amarelo. 

Ele me observou. Juro: havia dó nos seus olhinhos.

 

Então partiram. Voaram para longe. Sumiram na copa da palmeira imperial do vizinho.

 

E eu fiquei.

Janela.

Muro.

Silêncio.

Voe, canarinho. E volte, se quiser.

Tu que levas e trazes, sempre, um pedaço de mim.

                                                                                                                                                                                Abril, 2025

terça-feira, 8 de abril de 2025

Procissão do Fogaréu em Campo Maior

Foto meramente ilustrativa   Fonte: Google

 

Procissão do Fogaréu em Campo Maior


Elmar Carvalho

 

Em 29 de abril de 2019 publiquei em meu blog uma crônica em que sugiro ao bispo da Diocese de Campo Maior, Dom Francisco de Assis, a criação da Procissão do Fogaréu. A semente caiu em terreno fértil, pois hoje recebi a seguinte mensagem por WhatsApp, enviada pelo amigo e parente Dr. Domingos José Carvalho, católico praticante e fervoroso:

“Meu prezado irmão e parente, lhe informo que na quinta-feira santa teremos o FOGARÉU, sua ideia foi acatada pela paróquia e diocese.” 

Desnecessário dizer o quão contente fiquei. Assim, julgo oportuno republicar o texto referido acima:

Em recente conversa com o professor e multi-instrumentista José Francisco Marques, lhe informei que pedi ao médico Domingos José de Carvalho, meu parente e amigo, para que apresentasse ao bispo da Diocese de Campo Maior uma minha sugestão, qual seja, instituir a Procissão do Fogaréu.

A velha cidade, depois de Oeiras, creio, é a mais antiga freguesia ou curato do Piauí, que teve seus primórdios na antiga igreja de Santo Antônio do Surubim, construída pelo último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão, a pedido de seu parente e amigo padre Tomé de Carvalho, primeiro vigário de Oeiras, e que bem pode ser considerado o fundador ou, pelo menos, um dos fundadores daquela velha urbe, primeira capital de nosso estado.

Quando eu tinha finalizado a versão que eu considerava definitiva deste texto, encontrei na sala a revista Cidade Verde, edição 213, de 21/04/2019, que traz uma matéria do Fonseca Neto, na qual consta um documento recentemente vindo a público. Trata-se da Resolução expedida da Mesa da Consciência e Ordens, datada de 20 de maio de 1740, assinada pelo bispo Dom Manuel da Cruz, que criava as freguesias da Caatinguinha (Valença do Piauí) e a do Gurgueia (Jerumenha) e elevava à categoria de freguesia os curatos de Piracuruca, do Surubim (Campo Maior), Parnaguá e Poti (depois, Marvão, e hoje Castelo do Piauí). Por via de consequência o curato de Campo Maior, cuja primeira igreja data de 1712, só passou a freguesia em 20/05/1740.

Julgo importante dizer que a Festa do Divino é realizada em Amarante (PI) há mais de 110 anos, mas depois, de certa forma, caiu no esquecimento. Faz cerca de uma década, suponho, foi reativada com toda pompa e circunstância, como se costuma dizer para realçar um fato, por Marcelino Leal Barroso de Carvalho, que foi meu professor no curso de Direito (UFPI). Portanto, uma tradição pode ser retomada ou criada.

Marcelino, que foi diretor geral do Instituto Camillo Filho e auditor-fiscal do Estado do Piauí, a suas expensas comprou um vetusto casarão na Avenida Des. Amaral, e nele instalou o Museu do Divino. Os fiéis carregam um lindo estandarte e envergam uma bela veste talar, uma espécie de opa ou túnica.

Também promove eventos culturais na época da festa, uma espécie de serenata pelas ruas da bucólica e mimosa Amarante, inclusive com a participação do instrumentista professor Melquíades, seu irmão. Eu mesmo, mais de década atrás, tive meu livro Lira dos Cinquentanos lançado por ele, em um solar da Des. Amaral, pertencente a familiares dos irmãos Álvaro e Raimundo Luiz Cutrim Costa. Posteriormente, ele me prefaciou o livro Amar Amarante, que tem uma bela capa de sua filha Ana Cândida Nunes Carvalho. Este opúsculo foi lançado no dia 6 de dezembro de 2013, na solenidade em que recebi o título de Cidadão Amarantino. Seu exemplo teve seguidor, porquanto, em Oeiras, novamente Oeiras, viva Oeiras, Olavo Braz Barbosa Nunes Filho fundou o Museu do Divino, no qual, além das várias peças sacras, há placas com vários poemas de oeirenses ou que falam na velhacap, inclusive o meu Noturno de Oeiras.

Voltando à minha sugestão da criação do Fogaréu, quero dizer que essa procissão é mais do que centenária em várias cidades mineiras e em Oeiras, que tem uma das mais belas Semanas Santas do Brasil, já que a sua procissão de Bom Jesus dos Passos é comovente, sobretudo por causa da multidão que aglutina e do canto melancólico e doloroso de Maria Beú, que nos rasga a alma e nos parte o coração, mormente no momento da lancinante passagem, que parece nos ecoar como um estribilho de miserere, que dilacera e fere:

“Caminheiros, que passais por este caminho, parai um pouquinho, e olhai, por favor, se neste mundo existe uma dor assim tão grande, como a dor de minha dor”.

Contudo, enfatizo que toda tradição começa com a sua primeira vez, com o seu primeiro passo. E a nossa episcopal Campo Maior mostra seu fervor católico no Festejo de Santo Antônio do Surubim, que, no gênero, é a maior festa religiosa do Piauí, pelo menos sob a invocação desse santo, que além das trezenas, tem ainda a solenidade de condução e levantamento do mastro, com o seu folclore e crendice.

Ainda me recordo da procissão de Bom Jesus dos Passos. Quando Nossa Senhora se encontrava com Jesus a carregar o pesado lenho, monsenhor Mateus nos comovia com um vibrante sermão, que falava nas dores de Cristo e no acerbo sofrimento de Maria. Essa cerimônia religiosa me fez escrever estes versos, que fazem parte de meu poema Vida in Vitro, apresentado pelo poeta e ator José Teixeira Pacheco como um monólogo, em mais de uma ocasião:

sentes ainda o cheiro dolorido e pisado dos alecrins / da paixão do senhor morto, do horto das agonias, / das chagas vermelhas, maceradas, da túnica / roxa, brilhante, da coroa de espinhos, dos cravos, / não os de cheiro, mas os de ferro, que ferem... / eras infante, então, e como sofreste / e como fizeste sofrer tua mãe, madona, / mater dolorosa e pietá sofrida e consoladora / de teus sofrimentos de então e de sempre.

Na minha sugestão, além de estandarte, de vestes talares, como opas ou túnicas, a que não poderia faltar a imprescindível lamparina ou tocha, poderiam ser incorporados ou não máscaras e elmos, se for o caso. As vestes e as lamparinas poderiam ser vendidas por uma loja do bispado, tanto para financiar as despesas do evento, como as obras sociais diocesanas, ou cada participante faria a sua própria roupa e tocha, conforme modelo padrão elaborado pela Diocese. E, sem dúvida, ainda haveria o benefício econômico do turismo.

Sei que Dom Francisco de Assis, simpático e dinâmico, que por sinal me foi apresentado pelo Dr. Domingos José, haverá de apreciar a nossa sugestão com cuidado e zelo, sem dúvida levando em conta a tradição e a antiguidade da Igreja Católica Apostólica Romana em Campo Maior, onde fica sua cátedra pontifical.    

domingo, 6 de abril de 2025

ALGUNS HAICAIS

 

Fonte: Google

ALGUNS HAICAIS

 

Elmar Carvalho 


          SIMBIOSE AMOROSA                            

 

Eu te amo                                                    

para que me ames                                    

e eu te ame.                                                

 

           ASCENÇÃO                                               

 

A chuva caía                                               

e em cada pingo dizia:                              

– Saiba cair.                                                

 

           TROVÃO                                                    

 

Nuvens novas                                            

brincando de trocar                                    

tiros de foguete e rojão.                            

 

           AMOR

 

Arte de possuir

na mesma medida

em que se é possuído.

 

           CHUVA

 

Bênção dos céus

debulhada em bagos

de água.

  

           RELÂMPAGO

 

Nuvens novas

a brincar com

fogos de artifício.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

EXPEDITO REGO EM PESSOA

 

Fonte das imagens: Google


EXPEDITO REGO EM PESSOA

 

Elmar Carvalho

 

Meu primeiro contato com a incomensurável poesia de Fernando Pessoa foi aos 16 ou 17 anos, através da magnífica Antologia Escolar Portuguesa, organizada por Marques Rebelo, pseudônimo do cronista, contista e romancista Eddy Dias da Cruz. Comprei-a com o santo e escasso dinheirinho de minha mãe; o de meu pai seria empregado na compra dos livros e outros materiais didáticos.

Pela mesma época adquiri a Antologia Escolar Brasileira, do mesmo autor, que tinha o mesmo formato e programação gráfica e visual. Foi nesta última que tive o alumbramento de conhecer maravilhosos poemas do piauiense Mário Faustino. Já conhecia e admirava alguns poucos poemas de Da Costa e Silva, entre os quais Saudade e A Moenda. Desde os dez anos já era viciado em leitura, e já lera os principais poetas do Brasil e de Portugal nas antologias didáticas de meu pai, sobretudo as contidas em livros de Aída Costa.  

Mais tarde, já lastreado em outras leituras e em outras antologias, que fui amealhando, pude perceber que as duas seletas de Marques Rebelo, com textos em versos e em prosa, eram mesmo magníficas, porque o seu organizador fora muito rigoroso na escolha de textos e autores, e selecionara o que esses mestres tinham produzido de mais representativo e de mais excelente. Inclusive, adotou o critério de só admitir autores falecidos, creio que para não sofrer qualquer tipo de pressão ou influência por parte de amigos vivos. Não tinha nenhuma discriminação quanto a gênero literário, estilo, corrente, movimento ou escola literária. Interessava-lhe somente a excelência do texto.

Em junho de 1975 minha família se mudou para Parnaíba, uma vez que meu pai fora chefiar a ECT – Empresa de Correios e Telégrafos nessa cidade, onde morei por vários anos. Levei as duas Antologias Escolares, pelas quais tinha muito orgulho e afeição, tanto que as reli, consultei e folheei várias vezes.   

Certo dia, no apartamento dos Correios, onde morávamos, mostrei uma dessas antologias a um grupo de amigos, enquanto degustávamos um vinho. Um deles, com inusitada insistência, pediu-me lhe emprestasse uma delas. Relutei, mas resistir, como diria o poeta, para rimar com saudade, quem há-de? Pouco depois esse amigo morreu, e eu para sempre perdi a antologia, que havia comprado com o rico dinheirinho de minha mãe. Nos anos 80 ou 90, já morando em Teresina, perdi a outra seleta congênere, em circunstâncias que desconheço ou de que já não me lembro.

Tentei adquirir essas duas monumentais Antologias, mas elas já haviam deixado de ser editadas há vários anos e a própria FENAME-MEC, sua editora, já fora extinta pelo governo Collor de Mello, em 1990. Contudo, creio que em 2001, o historiador e dicionarista biográfico Wilson Carvalho Gonçalves, amigo e conterrâneo de meu pai, que se tornara um grande amigo meu, me presenteou com um exemplar usado da Antologia Escolar Portuguesa. Tentei encontrar a sua congênere Brasileira. O poeta cordelista Sebastião Evangelista, um verdadeiro “sebo” ambulante, me informou ter um exemplar desse florilégio. Dias após ele me vendeu esse exemplar. Como os dois exemplares já não possuíssem as capas duras originais, mandei protegê-las com uma bela capa preta dura, ornadas por letras áureas.

Embora possa não parecer, mas essa digressão memorialística me foi provocada por uma postagem do amigo Carlos Rubem, através de WhatsApp, em que ele me enviou uma fotografia da capa de um velho livro, que pertencera ao médico, poeta e escritor Expedito Rego, titulado O Guardador de Rebanhos e outros poemas, da autoria de Fernando Pessoa. Segundo a Meta AI, “Os poemas de "O Guardador de Rebanhos" são caracterizados por uma linguagem simples, direta e objetiva, que busca descrever a natureza e a vida rural de forma quase primitiva”. Sua autoria foi atribuída a Alberto Caieiro, um de seus vários heterônimos.

A postagem de Carlos Rubem trazia o poema Liberdade, constante no exemplar que pertencera ao saudoso Expedito Rego, que termina com este quarteto:

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

 

Abaixo, na página em branco, Expedito escreveu os seguintes versos, como se fossem uma continuação ou complementação ao poema de Pessoa:

Por isso que entregou a Judas

O dinheiro... Jamais te iludas:

O livro é mesmo uma garrida

Bobagem de gente sabida!

 

Em rápido comentário por áudio, disse ao Carlos Rubem que Expedito Rego mantivera o estilo, a mesma semelhança de conteúdo, com algo da ironia, do desencanto e do pessimismo do poema pessoano, e com a mesma estrutura formal.

Nesse admirável poema, que já conhecia, existe esta magnífica estrofe:

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Para finalizar esta crônica, direi apenas: de minha parte, prefiro esperar por Jesus Cristo, que subiu aos céus em toda a sua Glória, à vista de muitos, e que prometeu voltar. Porque sei que ele voltará, para instaurar o Reino Divino, no tempo que lhe for determinado por Deus.