quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

PROFUNDAS MUDANÇAS DE HÁBITOS

Fonte: Google



PROFUNDAS MUDANÇAS DE HÁBITOS

José Pedro Araújo
Cronista, contista, romancista

Agora há pouco vinha transitando pela Homero Castelo Branco quando me lembrei de algo que ainda precisava fazer antes de chegar em casa. Então falei para a minha esposa que ia do meu lado: “Minha filha, preciso passar na farmácia para sacar algum dinheiro”. Sem nenhuma surpresa ela me respondeu "tudo bem". Logo depois dessa resposta, virei-me para ela e lhe disse: ”Se você tivesse adormecido no início dos anos Sessenta e só tivesse acordado neste presente momento, a sua reação seria de surpresa" – comentei sem um propósito definido. 

Nesse instante, ela olhou para mim, aí sim, com surpresa estampada no rosto e me perguntou o porquê daquela conversa. Sorrindo, disse-lhe que alguém que tivesse mergulhado em sono profundo em 1960 e só tivesse acordado neste instante se depararia com algumas surpresas. A primeira delas seria a afirmação que acabara de lhe fazer que precisava passar na farmácia para sacar dinheiro.

Naquele ano, minha cara, os nascidos no velho Curador, como eu, responderia de pronto que eu havia me enganado, que farmácia era lugar para se comprar medicamentos, e não sacar dinheiro. Aliás, a surpresa seria maior ainda por que de banco mesmo somente ouvira falar, nunca havia posto os pés em uma, pois na terrinha não havia agência de qualquer banco. Contudo, mesmo assim, sabia-se que era no banco que se buscava dinheiro.

A conversa parou por ali, uma vez que estacionei o veículo e entramos no banco, digo, na farmácia. Eu, para fazer o meu saque de dinheiro. Ela, para procurar algum protetor solar, uma vez que na manhã seguinte estaríamos descendo para o litoral. Aquele assunto, contudo, continuou a martelar na minha cabeça até que decidi passar para o papel o caso da minha viagem mental rumo ao passado(nos anos sessenta se anotava tudo no papel, quer com uma caneta ou na máquina de escrever). Portanto, o que estou a fazer mesmo é passando para a tela do computador esse assunto bobo. E se não fizesse assim, ele não pararia de martelar na minha cachola por horas e horas até que eu me decidisse registrá-lo. Coisa que faço agora para me ver livre de vez dessa inutilidade.

Então, já que é assim, digo que naqueles anos aos quais me referia nos parágrafos acima, as farmácias só vendiam medicamentos para a clientela, quem precisasse sacar algum dinheiro teria que procurar uma agência bancária (a mais próxima do Curador ficava em Codó, a mais de cem quilômetros de distância), e enfrentar uma fila enorme no caixa antes de colocar as cédulas no bolso. Lá na terrinha, portanto, as pessoas teriam que se virar com o dinheiro pouco que circulava na própria cidade, ou fazer uso das suas próprias reservas guardadas sob o colchão ou nos bolsos dos paletós nos armários (cofres somente uns poucos possuíam).

E a carência de dinheiro circulante era tão grande, que alguém da cidade terminou por inventar a sua própria moeda, um tal “Sunguelo”, um pequeno vale-compra com um valor estampado na face que vinha assinado por esse criador da ideia. Aquele pequeno tíquete era aceito por parte do comercio sem contestação.

A propósito disto, sai agora à procura do significado do nome Sunguelo e me deparei com o seguinte resultado: “Sunguelo, espécie de vale compras fornecidos pelos responsáveis pelas obras de construção de estradas, açudes e obras em geral da SUDENE. O Cassaco recebia o Sunguelo que constava o valor correspondente ao limite de crédito individual. Em geral era usado nas obras contra a seca”. Sunguelo também é um termo nordestino utilizado para definir uma pessoa magra, raquítica.

Na minha terra, pelo que me lembro, estavam em construção, nessa época, algumas estradas que melhoraram significativamente a ligação da cidade com Barra do Corda, e também à capital, São Luís. Do mesmo modo, uma infinidade de outras cidades, como Teresina, por exemplo, mas também outras dos sertões foram beneficiadas naquele momento. Talvez tenha sido esse pessoal os responsáveis pelo pequeno pedaço de papel em forma de moeda que passou a circular por lá. Lembro-me bem que se tratava de um pequeno pedaço de cartolina no qual constava um valor em Cruzeiro, bem como um carimbo e a assinatura de alguém.

Sobre alguém que dormiu anos atrás e acordou em um mundo totalmente diferente, mudado em todos os sentidos, a literatura e o cinema já trataram com enorme clarividência e sucesso. Não apenas isto, mas até mesmo uma viagem em sentido contrário, para frente, rumo ao futuro, como nos filmes 2001- Uma Odisseia no Espaço ou na série De Volta para o Futuro, além de tantos outros, a criatividade humana já trabalhou.  A própria Globo já tratou sobre esse tema em algumas novelas.

É assunto instigante que mostra o choque sofrido pelo protagonista frente às mudanças sofridas nos costumes, nos hábitos ou comportamentos das pessoas, bem como na própria maneira como a humanidade encara certas situações da vida.

Quanto às mudanças tecnológicas, essas nem dá para enumerar aqui, são imensas e tantas. Nesse momento, por exemplo, digito o texto na tela do meu computador, corrijo, apago, mudo o sentido de uma frase inteira, sem precisar de uma borracha ou mesmo de corretor de texto (o tal branquinho, um produto líquido inventado anos atrás com o qual se cobria uma letra ou mesmo uma palavra inteira e depois se escrevia sobre ela quando o liquido secava). Um trabalhão, mas já um avanço, pois permitia que não se perdesse a página inteira. Nos anos sessenta, nem isso existia. Errou, perdia-se tudo.

Outro exemplo vivo da mudança a qual venho me referindo: por instantes, no computador, parei de digitar este texto, passeei pelo Google em busca do significado da palavra Sunguelo, copiei e o colei no meu texto. Tudo com muita rapidez e segurança.

E o que dizer das comunicações, dos meios de transportes, das estradas, dos veículos com navegador, GPS, ar condicionado? Falar o quê do minúsculo Pen Drive no qual tenho arquivadas mais de quinhentas músicas e que vai comigo na viagem para aliviar o estresse? Ou do aplicativo Streaming que tenho no meu telefone móvel (o tal celular que era uma coisa impensável na época), no qual tenho uma montanha de músicas à minha disposição, caso enjoe das que trago no Pen Drive?

São tantas as mudanças, até mesmo no vestir, que ficaria horas e horas digitando aqui e não chegaria ao fim da descrição de tantas mudanças.

Para terminar, digo apenas que na farmácia, caso quisesse poderia ter comprado um telefone novo, um umidificador, um secador de cabelo, um picolé, um pote de sorvete, uma caixa de chocolate, um shampoo para lavar os poucos cabelos que ainda tenho, ou até mesmo um simples comprimido para dor de cabeça.

As coisas mudaram muito nesse meio tempo, meu caro dorminhoco. A internet, por exemplo, trouxe um mudo de novidades para as nossas vidas, facilitou-a de uma maneira avassaladora, mas, ao mesmo tempo, trouxe um mundo de problemas para dentro da minha própria casa. Hoje, um sujeito pode roubar os parcos dinheirinhos que tenho no banco sem me apontar uma arma, apenas com um comando rápido lá do outro lado do mundo, ao tempo em que escrevo essas bobagens. Pronto. Já voltei, apenas com um clique dado pelo meliante estrangeiro, a ser o liso completo dos anos sessenta.
É, crianças, como diria Billy Blanco, na sua música Canto Chorado,

“O que dá pra rir dá pra chorar. Questão só de peso e medida. Problema de hora e lugar, Mas tudo são coisas da vida”.  

Fonte: Blog Folhas Avulsas  

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

DALILÍADA




DALILÍADA

(poema épico inspirado na vida e na obra de Dalí)

Elmar Carvalho


           XXIX

Cabeça torturada suspensa
por estacas que mais torturavam. . .
Girafa incendiada sem poder pastar
na terra calcinada que ela própria queimava. . .
Imenso prato vazio
que um famélico morcego agourava. . .
Apenas os seios de mulher
eram pêras, laranjas e maçãs
para a mão estendida do indigente.

           XXX

Leões rajados eram jorrados
do peixe alado que queria
a mulher desnuda que sonhava
com leões rajados jorrados
do peixe alado que voava.

           XXXI

No fundo negro
o pão na cesta era um convite
irresistível à fome que rondava.

           XXXII

As circunvoluções gelatinosas do cérebro
eram um sorvete artisticamente
trabalhado pela fome que
esculpia as espirais
de vermes, lombrigas e inanição.   

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Lançamento da autobiografia de Leônidas de Castro Mello


QUANDO FIZ SESSENTA ANOS AGORA QUE JÁ COMPLETEI SETENTA E QUARO ANOS




QUANDO FIZ SESSENTA ANOS AGORA QUE JÁ COMPLETEI SETENTA E QUARO ANOS

Fragmentos de memórias


Cunha e Silva filho


                            A meus filhos Francisco Neto e Alexandre

Queridos amigos e amigas!

          Certas datas de aniversário são importantes, como o primeiro aniversário de uma criancinha, a data dos quinze anos(sobretudo para as debutantes ), dos cinquenta, dos sessenta. Paro aqui porque ainda espero outras etapas. Completo sessenta, na realidade, já os completei no dia 7 deste mês de dezembro. No entanto, o que vale é a ação, a intenção, o valor simbólico demarcado.

         Vou seguir um conselho de minha esposa. Se cheguei a esta idade deve ter sido por vontade divina. Descobri, nesta nova fase de vida, que a Arte, sem o viver é incompleta. Vou, pois, completar-me com a Arte (especialmente com a arte literária, com a Literatura). Tenho amigos e conhecidos que não gostam de dizer a sua idade verdadeira. Eu não me importo com isso . A Arte, em todas as suas manifestações, equivale a viver com júbilo, emoção, plenitude, dignidade.

         Meu pai, Cunha e Silva (1905-1990) em carta, me confessou que aos sessenta se viu chamado pela musa Calíope. Segundo ele, poesia nele brotou diante da “amarguras da vida. Eu, ainda que com amarguras, não vou me tornar poeta, não obstante tenha, de forma bissexta, incursionado pelo terreno poético com alguns poucos poemas de menor “voltagem, ” poemas circunstanciais, diria melhor, presunção de jovens que pensam fazer tudo no campo literário. Vou, porém, continuar meus estudos literários aliando o prazer da análise ao julgamento estético.

        No mundo a criação artística, o ponto final só se dá com a nossa passagem do domínio terreno para o da dimensão do espírito. Claro que sentimos o fluir dos dias, meses, anos, décadas e séculos;Por outro lado, a temporalidade é pejada de subjetividade. Eis por que, no nosso particular mundo interior, não nos percebemos velhos e descartáveis.

        A nossa velhice está nos outros através dos rótulos e das discriminações .Uma vez minha mãe Ivone, uma bela mulher, me falou que, à altura dos setenta anos, não se sentia idosa. Sentia-se sempre plenamente remoçada. Meu pai, por sinal também, nunca deixou escapar qualquer resquício de sentimento negativo com a vida de idos, mesmo ao chegar aos oitenta anos. Por que essa atitude? Porque ele e mamãe amavam a vida e tinham ainda sonhos e esperança em dias melhores.

       Gilberto Freyre (1900-1987), notável sociólogo brasileiro, certa vez formulou a ideia de um tempo tríbio - um tempo que para ele somaria o passado, o presente e o futuro numa espécie de fusão de temporalidades, nas quais a sensação resultaria num eterno presente, como forma de não nos apegarmos tão-somente, ao meu juízo, com a preocupação das apreensões do futuro. Tal sensação, ou melhor, percepção desse eterno presente, seria uma maneira de nos sentirmos dentro da contemporaneidade. Não vejo, assim, coisa mais saudável ao espírito para regressarmos ao passado com saudades e aproveitar o presente da melhor forma possível.

       Um texto límpido e fascinante do psiquiatria Augusto Cury, numa abertura a um capítulo do livro Pais brilhantes, Professores fascinantes 7 ed.( Rio de Janeiro: Sextante, 2003,p. 103) há o seguinte pensamento: “Se o tempo envelheceu o seu corpo mas não envelheceu a sua emoção, você será sempre feliz.”

       Essa emoção não a quero perder visto, porquanto não entendo a vida sem a emoção, como não a entendo sem o choro, a sensibilidade, a solidariedade e a dor do outro. Isso não é pieguismo inócuo, porém demonstração inequívoca de que alguém se toca diante de fatos e acontecimentos que nos fazem vibrar de alegria, chorar de emoção ou chorar pela tristeza alheia. Por isso, a arte da comédia, a arte do drama e da tragédia têm seus fundamentos derivados do riso, do ridículo e da catarse.

       Reunindo vocês aqui, amigos queridos e diletos de longa data, amigos mais novos, de coração lhes agradeço pelo carinho de suas presenças no playground do meu prédio. Aqui tenho amigos, cujos laços cada vez mais se estreitaram ao longo do tempo, como da mesma forma tenho nesse recinto outros amigos mais recentes que tive o grato prazer de com eles travar amizade sincera.

       Para concluir, espero que se sintam como se estivessem em suas casas. Tenho dito.   

domingo, 19 de janeiro de 2020

AMOR DE SALVAÇÃO


Fonte: Google


AMOR DE SALVAÇÃO

Elmar Carvalho

O teu grande amor
foi o que te salvou
e me salvou,
pois nos arrebatou
dos amores tentadores
em que seríamos arrastados.
Já que me amavas
eu tive que te amar
para que não sofresses,
nem eu, amiga, por
te ver sofrer.
Não gosto que ninguém sofra
e muito menos tu, amada,
frágil frasco de fragrâncias
e de refrigérios refrescantes
que me ama muito além
do que mereço.  

sábado, 18 de janeiro de 2020

RESPEITEM O MACACAL (SÃO JOÃO)

Fonte: Google


RESPEITEM O MACACAL (SÃO JOÃO)

José Maria Vasconcelos, cronista, josemaria001@hotmail.com
  
          Em 1970, a Zona Leste de Teresina acabava no BALÃO DO SÃO CRISTÓVÃO. Seguia-se um fim de mundo de modestas casas, raras residências nobres ao longo da inacabada AVENIDA KENNEDY, de mão única, chão batido, ao norte.

         Ricos do centro da capital sonhavam atravessar a ponte do RIO POTI, morar no cobiçado e crescente JÓQUEI, construir residência moderna, desfrutar fundos de quintais arborizados, friozinho noturno, termômetro 20 à noite, privilegiados ricos. O JÓQUEI logo se estendeu para a região de FÁTIMA e RIVER, e a valorização imobiliária disparou.

         Em homenagem à simpática GUADALAJARA mexicana, que torceu pelo BRASIL NA COPA DE 70, ergueu-se belo conjunto residencial de mesmo nome, no prolongamento do RÍVER.

         À direita de toda a modesta AVENIDA JOÃO XXIII, só mão dupla e calçamento, estendia-se imensa floresta de babaçu e matas, até confins da atual PONTE WALL FERRAZ ao RECANTO das PALMEIRAS. Região úmida, mananciais pantanosos, frio intenso à noite, macacos divertiam-se, gritando, quebrando coco e o silêncio da mata. Pouca gente cobiçava um lote na imensa extensão daquelas terras úmidas e férteis. Baratíssimos. Dez vezes menos, comparados aos do lado direito da JOÃO XIII. Pior, o futuro BAIRRO SÃO JOÃO, estigmatizado de MACACAL. Ganhando meus primeiros salários de modesto professor, arrisquei em cinco lotes, sabendo que, um dia, valeriam fortuna. Dito e feito. Lá meu recanto e vida.

         A arquidiocese de Teresina dispunha de extensa gleba na região próxima ao atual CLUBE ELDORADO. DOM AVELAR BRANDÃO VILELA dedicava-se às questões da exclusão social. O prelado dividiu a terra com os pobres e reservou uma porção para construção do templo de SÃO JOÃO BATISTA, a cargo das freiras  de SANTA CATARINA. Fundava-se, em 1973, a Paróquia JOÃO XXIII, constituída de modesta comunidade, sem infraestrutura, isolada da ambição imobiliária. À noite, a fumaça carvoeira de fundos de quintais infernizava a região.

         Desdenhava-se o BAIRRO SÃO JOÃO de MACACAL. “Zé Maria, você reside no MACACAL?!” Referência aos símios que habitavam a floresta. Imobiliárias descobriam que valia a pena vender lotes naquela região. Invejaram-me? Ora, eu já adquirira onze lotes!

         Diariamente, músicas sacras e bucólicas da amplificadora da igreja despertavam a comunidade. Não se ouvem mais românticas melodias nem se respira certa tranquilidade e interação comunitária, sob a liderança do pároco PADRE CARLITO. Macacos me mordam, se um dia eu me separar do BAIRRO SÃO JOÃO. Sempre preservado de MACACAL.   

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

NO REINO DO SOBRENATURAL

Batista Rios, ladeado por Ivanildo de Deus e Elmar Carvalho, no oratório de sua casa

Batista Rios (centro) e família, vendo-se: Eduarda (filha); Vera Lúcia (esposa); Batista Filho e Saulus (filhos), e em primeiro plano (sentado) seu pai, o saudoso vicentino Nestor Rios

   
NO REINO DO SOBRENATURAL

Elmar Carvalho

Fui à casa de meu colega e amigo João Batista Rios. Pedi-lhe que me contasse uma história que ele me havia contado há mais de seis anos, quando ele era juiz de  Bertolínia, e eu, de Ribeiro Gonçalves. Muitas vezes viajamos, à noite, no mesmo velho e desconfortável ônibus, para as nossas longínquas Comarcas. De madrugada ele descia na sua cidade e eu continuava em minha desgastante odisseia madrugada friorenta adentro.

Repetiu a história da mesma forma como eu a guardara em minha memória. Certo dia do início da década de 1990, quando ele era servidor federal da Previdência Social e advogado, por volta de 13:30 horas, estacionou seu carro na frente do Colégio das Irmãs, onde deixou sua filha, e seguiu a pé em direção a seu escritório, situado no Palácio do Comércio. Na calçada da antiga Escola Técnica Federal, na frente da EMBRATEL, avistou o padre Geraldo Vale, que fora capelão da Polícia Militar do Piauí e fora seu diretor espiritual no grupo da Renovação Carismática da Escola Dom Barreto.

 Quando o padre o avistou, em gesto largo e de muita expansividade, abriu os braços, como se estivesse se preparando para um grande abraço, e sorrindo o chamou de “meu advogado Dr. Batista Rios”, como costumava saudá-lo. Conversaram no máximo dois minutos. Despediram-se e Batista seguiu para o seu escritório.

Um pouco adiante, voltou-se e viu o padre afastar-se no ensolarado início de tarde teresinense. O meu colega admirava esse capelão, pelo que ele tinha de ungido, de santidade, de homem efetivamente de Deus. Fazia tempos que não o via, mas sempre pensava nele, sempre desejando revê-lo, uma vez que passara a integrar o grupo da Renovação Carismática do Cristo Rei, deixando o que era dirigido pelo padre Geraldo.

No caminho, foi pensando em como o achara rejuvenescido, quase transfigurado em sua expressão de alegria, de paz, de beatitude, com feição e expressões angelicais. De tarde, ao deixar o seu escritório, foi pegar uma revista na banca do Solon, na praça Pedro II. Nessa banca, encontrou Célia, que fora sua colega do antigo INAMPS e do grupo carismático do Dom Barreto.

Com muita alegria lhe informou que havia encontrado, antes das duas horas da tarde, o padre Geraldo. Célia, incrédula e sorrindo, disse-lhe que ele estava a fazer mais uma de suas brincadeiras,  pois tal fato jamais poderia ter acontecido, posto que o capelão havia falecido há mais de um ano. Batista retrucou-lhe que ela é quem estava a fazer gracejo, e foi embora. 

No dia seguinte, quando o magistrado Batista Rios, como costumeiramente fazia, foi assistir a uma missa na igreja de São Benedito, encontrou, logo na entrada do templo, a senhora Ivani, pessoa de muita devoção e de sua estima. Disse-lhe da alegria de haver encontrado, no dia anterior, o padre Geraldo Vale.

Dona Ivani, algo perplexa, com as pupilas um tanto dilatadas, respondeu-lhe:
– Meu filho, padre Geraldo já faleceu, faz mais de ano...

Batista Rios, católico da mais lídima devoção, homem íntegro, magistrado honrado, não sabe a explicação definitiva para o fato, mas somente que ele aconteceu, da maneira que me narrou.

Talvez o seu desejo em rever o sacerdote tenha sido tão forte, que materializou a imagem dele, que estava incrustada indelevelmente em sua mente; talvez o padre tenha obtido permissão para lhe aparecer uma última vez, para que Batista pudesse dar o seu testemunho de que há mais coisas no céu do que apenas aviões de carreira, como asseverou célebre ironista.     


11 de abril de 2010      

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Posse de Diego Mendes Sousa na APAL


O macaco e o menino




O macaco e o menino

Pádua Marques
Contista, cronista e romancista

O comandante Pedro da Galiza chegou naquele dia à tarde em casa, no distante e úmido bairro dos Tucuns e já foi gritando na direção da cozinha, onde a mulher Eponina estava decerto próxima do fogão a lenha. De lá ela ouviu o marido arriando os apetrechos de viagem ao Maranhão. Dois dias entre o Brejo, os Araioses, São Bernardo e a Parnaíba, transportando lenha pra os Moraes, no bairro do Carmo, naquele meio de maio e com o rio cheio de perigos.

Muita chuva, muita correnteza e o leito do Parnaíba se entupindo de carnaubeiras mortas derrubadas e oferecendo perigo. Mas tinha que ir e trazer aquela carga toda semana. Se não fosse, ninguém iria em seu lugar. Pedro de Galiza era um homem de boa altura, queimado de sol, nariz chato, cabelos raros e pouco carapinhos no meio da cabeça. Estava há muitos anos neste ramo de navegação no Parnaíba. Conhecia o rio de ponta a ponta, quantas braças de uma margem à outra, a fundura aqui e acolá, onde estava naquele momento o canal.

Era capaz de saber quantas carnaubeiras tinham na beira do rio entre a Parnaíba e a Barra do Longá sem contar duas vezes. Sua profissão era difícil, mas era a única que tinha e era com ela que trazia alguma coisa pra ele e a mulher Eponina, uma filha de lavadeira de roupas das casas de famílias como a de seu Pedro Machado, na rua João Pessoa, a de doutor Mirócles e tantos outros. Eponina não era lá aquele poço de beleza. Nunca deve ter sido bonita mesmo. Hoje estava velha, gorda, os peitos grandes quase saltando pra fora pelo colarinho do vestido e ainda por cima cambota.

Nunca teve filhos, mas gostava de criar os dos outros. Criou mais de doze entre meninos e meninas, que depois de grandes, cada qual dono de seu nariz, ganharam o mundo saindo da Parnaíba. Alguns voltavam de vez em quando trazendo filhos e até netos pra ela conhecer. Eponina ficava feliz, mas não cobrava, não fazia questão. Se acostumou anos e anos aquela casa só ela e as coisas, seus objetos de cozinha, a camarinha, a janela da frente de casa onde podia ver aqui e ali alguma vizinha de cócoras catando piolho na filha ou algum pescador consertando sua tarrafa naquela rua de casas cobertas de palha indo dar longe no porto dos Tucuns.

Agora tinha em casa mais um filho de criação. Damião, de pouco mais de quatro anos, ganhou de uma comadre de fogueira, quando esta voltou pra o Brejo dos Anapurus com o outro irmão gêmeo, Cosme. Escurinho, triste, barrigudo, sempre com o nariz escorrendo, vestido com um calção de brim ordinário, sempre com os pés descalços naquele chão de barro entre a rua e a casa.

Doutor Cândido, quando Eponina passava com ele na Santa Casa, receitava pílula contra, pés calçados, roupa limpa e que evitasse molhado. Nunca houve quem fizesse Eponina chamar o marido pelo nome certo, Pedro Galiza. Chamava de seu Galiza ou agora mais puxada na idade, Galiza. Os do porto e onde ele tinha encomenda de lenha chamavam de mestre Pedro da Galiza.

Quando não tinha nada pra fazer em casa, pegava o menino e ia ver Galiza chegar no porto Salgado. Passava antes na venda e comprava algumas frutas. No porto, do lado dos Tucuns, sentava num caixote ou até uma pedra que fosse e se largava a comer melancia, manga, cajus ou banana. E gostava de quando algum conhecido vindo do porto Salgado passava por ele e chamava pelo nome. Sinal de que era importante pra alguém e pra muita gente naquele fim de mundo dos Tucuns.

E o menino ali do lado olhando aquele movimento dos estivadores na beira do rio Igaraçu, as canoas levando e trazendo gente e coisa de comer dos Morros da Mariana, na Ilha Grande de Santa Isabel. Damião ficava ali quieto, calado como sempre, de vez em quando admirado apontando esta ou aquela embarcação. Outros meninos brincando, nus da cintura pra cima, encardidos, descalços naquele pedaço de Parnaíba onde os ricos e importantes nunca passavam.

Naquele dia Pedro trouxe um animal que veio mudar a vida de Eponina e de Damião dentro daquela casa. Trouxe do Maranhão, onde tinha parentes, um macaco. Foi só entrar em casa com o bicho no ombro e a confusão começou. Não com ela, mas com o gato da casa.  A mulher deu um grito de susto quando o presente saltou por cima dela e foi parar na cozinha quase causando um prejuízo com as panelas, vasilhas de açúcar e outros trens. Damião foi de correr pra entre as pernas da mãe e lá ficou até que Pedro com muita paciência colocasse ordem naquela arrumação.

Mas aos poucos o macaco foi ficando mais amigo do gato e até cochilavam juntos depois do almoço e debaixo da mesa da cozinha. Eponina dava pra ele comer manga, laranja, banana, goiaba, abóbora cozida, pregado de panela, tudo. Era de dentro de casa. Damião tinha medo dele. Nunca passou por perto que fosse. Quando Pedro voltava de viagem era a primeira coisa de que perguntava era do Chico. Depois vinham os passarinhos lá no alpendre, presentes de amigos de beira de rio.  E esse Chico foi criando asa e só não falava pra não fazer mandado na vizinhança. E o que tinha de sabido passou a ficar saliente!

Um dia Eponina estava lavando umas peças de roupa e quando se deu conta sentiu alguma coisa levantando sua saia. Nem foi muito longe e lembrou naquele relâmpago de tempo no gato. Mas aquilo foi ficando mais constante e a saia se levantando ainda mais já quase nas coxas. Olhou pra trás e levou um susto. O macaco estava com saliência e aquilo não podia ficar sem um cobro! Quando Pedro chegou naquele meio de tarde de mais uma daquelas viagens vindo do interior do Maranhão ela perguntou de onde ele havia tirado aquele animal.

De onde veio e quem deu o diabo daquele macaco? Contou tudo sem tirar nem por. E o animal foi amarrado no tronco de um pé de goiaba no quintal e lá foi ficando até se esquecerem dele por uns dois dias. Eponina de vez em quando saía na ponta do pé ver como ele estava. Damião sempre ao lado da mãe e lhe segurando a ponta do vestido. Passado o tempo de castigo o macaco foi solto e veio pra dentro de casa tomando chegada e se esfregando nas coisas da cozinha. De repente se danou a fazer caretas pra mulher e pra o menino como se quisesse se vingar da prisão.

Pedro de Galiza ficou sabendo dessa sua nova investida, inclusive já incomodando a vizinhança e, num dia de manhã, numa semana de folga da carga de lenha pra os Moraes, foi até o porto Salgado e tratou de ver se estava vindo alguém de cima do Parnaíba e que devesse voltar logo pra o Maranhão. Já não tinha paciência com o serviço de carregador de lenha e muito menos pra ficar sendo cuidador de um macaco! Até se aparecesse um circo que fosse já era vantagem!

Passados uns dias Chico estava de volta pra o Maranhão. Desta vez dentro de uma gaiola e longe de causar qualquer brincadeira de mau gosto com alguém. Pedro levou Damião pra se despedir dele, no convés do barco Estrela do Mearim, embarcação de um compadre seu, mas o menino pouco deu importância. Bem que Damião podia ter se dado bem com Chico pra que o macaco fosse seu brinquedo. Eponina ainda foi perto da gaiola e deu duas bananas pra ele comer no caminho. Damião pra ela sua mãe, ia ganhar seu lugar de volta naquela casa.   

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

ENQUANTO NÃO VEM O ALZHEIMER




ENQUANTO NÃO VEM O ALZHEIMER

Antônio Francisco Sousa
Cronista e articulista

                        Pensava que Sandoval nem fazia uso do aparelho celular; tanto menos, de aplicativos ou de redes sociais. Dei com os burros n’água. Naquele dia, ao nos encontrarmos, foi logo pedindo meu contato de WhatsApp, alegando que era eu um dos poucos amigos de quem ainda não tinha o número. Verborrágico como sempre, complementou, dizendo que precisava, antes que fosse tarde, de todos os contatos das pessoas pelas quais tinha apreço; e eu não poderia ficar fora da lista. Envaidecido, agradeci-lhe, mas lhe disse que não era usuário de redes sociais, nem do WhatsApp; possuía e-mails, que ele dispensou – depois de gozar um bocadinho -, porque não tinha afinidade com os tais computadores.

                        Quis, então, saber por que a repentina necessidade de ter todos os amigos na palma da mão; tendo ele me respondido que era para um caso de emergência, temia a chegada do malsinado mal de Alzheimer, do qual, aliás, para alguém muito próximo, ele já teria apresentado alguns sinais. Fez questão de negar essa possibilidade, mas não descartou desenvolvê-lo no futuro. Era coisa da vida e, portanto, quem não estaria suscetível a tal desgraça?

                        Que história era aquela de já estar apresentando os sinais característicos da doença? Quis saber. Entre irritado e contrariado, contou-me o que acontecera.

                        Como fora instado, naquele dia, a ir a um evento promovido por alguém da família, onde, certamente, iria encontrar pessoas há muito não vistas, decidiu pôr um traje da “hora”, como ouvira de um de seus jovens parentes denominar-se assim uma vestimenta moderna e “bem transada”. Mesmo entendendo bulhufas de que queria aquilo significar, escolheu uma boa calça e uma camisa considerada chique e bem alinhada; nos pés, os sapatênis, presente de sua filha.

                        Para retirar o odor e a rugosidade da roupa há muito guardada, tomar um bom banho, refazer a barba, além de poder atualizar seus áudios e vídeos no Instagram e WhatsApp, aproveitaria o intervalo de tempo que a patroa utilizaria para se “empetecar”, algo em torno de uma hora bem calculada, ou mais.

Chegara o momento de me “aprontar”. A partir dali, mestre, viria a desconfiança, da mulher, diga-se de passagem, sem nenhuma base científica, de que eu poderia estar com indícios da praga lá de cima, o malsinado Alzheimer. Tudo porque, não vendo a calça no lugar em que a colocara, perguntaria àquela senhora onde ela a teria posto. Um “eu não peguei nem vi calça nenhuma”- ”você deve estar louco” -“procure direito”, fora a resposta dada, lá de dentro do “closed”, local em que a figura concluía os últimos retoques cosméticos. Ainda paciente, não encontrando a peça, depois de atirar ao solo tudo que estava sobre o local em que a pusera, como desencargo de consciência, haja vista ter certeza absoluta de que não a colocara em quaisquer deles, dirigi-me a outros cômodos da casa para procurá-la.

                        Vã procura, como já previra. Espumando pela boca, questionaria minha alegre esposa se, por acaso, não a teria confundido com alguma roupa dela e guardado juntas. Claro que não, responderia a cidadã. Óbvio que sim, retrucaria: só aquilo justificaria o estranho desaparecimento da calça. Vá com outra, homem; estamos quase atrasados. Não e não, ou vou com ela ou não saio de casa. Assim fica difícil: não se lembra aonde teria colocado a peça, nem vai usar outra. Fique à vontade. Quanto a mim, vou pedir aos meninos para me levarem; você, se achar o que procura, e quiser ir, encontrar-nos-emos lá. Ainda insisti com ela para procurar a danada em meio a suas roupas; se eu tiver que a procurar ali, a bagunça estará garantida, ameaçaria. Faça como quiser, falou calmamente; eu não vou procurar calça alguma. E fim de papo, amigo!

                        Contei até cem, jurei me vingar, mas fui com outra calça. Tinha para mim que ela a escondera porque não queria que eu a usasse naquela oportunidade: talvez não combinasse com seus trajes.

                        Confesso-lhe que, até determinada hora, mesmo rodeado de amigos, conhecidos, gente que não via há muito, nada me alegrava:  estava possesso, raivoso, iracundo, furioso. Se ela tivesse ficado ao meu lado, em vez de sair cumprimentando todo mundo, tê-la-ia tratado mal. Eu não estava com Alzheimer, bolas: ela mudara minha roupa de lugar, bufava, sozinho.

                        Voltando para casa, ainda fulo, ordenei-lhe que, antes de dormir, remexesse suas roupas porque eu tinha certeza de que minha calça estava entre elas. Dito e feito, amigo, mal ela abriu seu guarda-roupa deu cara de com a dita. É esta? Disse, ironicamente. Claro, quase lhe destroncando a mão em que ela estava. Vai ver, sem querer, misturei às minhas. E adentrou à toalete para retirada da maquiagem, toda feliz. Para não fazer algo impensado, naquele resto de noite dormi em outro quarto, prometendo me vingar na primeira oportunidade que surgisse. Com Alzheimer eu não estava, era fato. O mesmo não diria daquela senhora. Despedimo-nos, com Sandoval sugerindo que, ainda que por economia, me conectasse ao WhatsApp.  

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

DEPOIS DO GINASIAL, VOO PARA FORA DO NINHO




DEPOIS DO GINASIAL, VOO PARA FORA DO NINHO

José Pedro Araújo
Cronista, contista, romancista e historiador

Já discorri aqui neste espaço sobre a minha vida estudantil no inesquecível Colégio Presidente Dutra onde cursei o meu ginasial. Mas falei muito pouco sobre o que aconteceu depois disto. Faço isto agora muito mais para que não me caia no esquecimento do que propriamente como fonte de informação que, acredito, interessar a poucas pessoas, além dos da minha família ou alguns amigos. De qualquer forma, algumas pessoas podem até mesmo relembrarem que trilharam caminho parecido ao meu e voltarem um pouco ao seu próprio passado, e nesse retroceder no tempo saírem colhendo fiapos de memória do começo de suas vidas.

Naqueles tempos, ano primeiro da década de setenta, levávamos quase um dia inteiro para vir de Presidente Dutra a Teresina, apesar de já possuirmos rodovias e veículos automotor. No começo de março, diploma do ginásio embaixo do braço, embarcamos em um velho ônibus com a carroceria de madeira com destino a Teresina. Era nesta cidade que iríamos prosseguir com os estudos. O velho misto do Galinha sacolejava em baixa velocidade pelo piso irregular da estrada poeirenta atrasando a viagem e prorrogando o tempo de sofrimento. A saudade já devidamente agasalhada no peito fazia o coração sangrar. Sabia que dificilmente retornaria para casa em definitivo outra vez. Como de fato ocorreu.

O trecho da BR 135 não era asfaltado ainda, e muito menos a parte da MA-026 que tomamos no Triângulo e que nos conduziria até o Povoado 17. Ali tínhamos contato, pela primeira vez, com o asfalto da BR 316, estrada que faz a ligação Peritoró à Teresina, fugindo da poeira terrível que nos sufocava. Viagem demorada e que levava cerca de dez horas, comendo a dita poeira e padecendo de maus-tratos dos solavancos do velho Chevrolet misto. Reclamo do desconforto, mas já era um avanço significativo. Era o que diziam as pessoas que precisavam de três dias para fazerem o mesmo trajeto somente até Caxias no lombo de um animal de sela. Nessa minha primeira viagem o velho ônibus do Galinha quebrou uma roda logo que ultrapassamos a cidade de Caxias em direção a Teresina. E nós, que havíamos embarcado no ponto inicial da viagem às cinco da matina, só chegamos à margem do Parnaíba quando a noite já era velha. Menos mal que as luzes da cidade sobre as águas do Velho Monge me encantaram para sempre.

O dia seguinte me encontrou subindo a escadaria do velho Liceu Piauiense, também conhecido como Colégio Estadual Zacarias de Góis. Ia em busca de informações sobre o material escolar que iria precisar, e do fardamento, além de outras informações pertinentes. Fiquei impressionado com a majestosa imponência do prédio que abrigava o colégio. Era ali que eu deveria passar os meus próximos dois anos de aprendizagem e isso sem conhecer vivalma. Tímido como sempre fui, confesso que fiquei um pouco amedrontado com o desafio que tinha à minha frente, pois a fama da escola era a de que possuía os melhores professores e exigia muito de seus alunos. Ali também teria contato pela primeira com matérias que nunca havia estudado, como física, química e biologia, além de me debruçar com uma matemática mais avançada, diferente mesmo de tudo o que já havia visto até então.

Some-se a isto o fato de estar saindo de casa pela primeira vez, e isso era o que me causava mais apreensão. Não foi fácil encarar tudo isso. A saudade dos meus, dos lugares que costumava frequentar, a falta dos amigos e, inicialmente, o contato com disciplinas tão desconhecidas para mim, se constituiu em um fardo de considerável peso para um jovem que ainda não havia completado os seus quinze anos. Fui um aluno apenas razoável nos dois primeiros anos, confesso. E a maior culpa disto jogo nas minhas próprias costas; não me dediquei o suficiente.

Por outro lado, o colégio havia perdido muito da qualidade que o fizera granjear tanta fama. A maioria dos bons professores que lá ensinavam, e que haviam feito o educandário chegar a um bom patamar, não estava mais em atividade, e os novos mestres tinham que conviver com baixos salários e não frequentavam muito as salas de aulas, uma vez que tinham que ministrar aulas em outros estabelecimentos para conseguirem sobreviver na profissão. Depois, ainda tínhamos as reformas processadas no ensino que o fizeram piorar em muito o que já não era tão bom. Por tudo isso, atrevo-me a dizer que sem a presença efetiva e responsável de um professor, dificilmente irão os alunos se aprofundar com a necessária responsabilidade nos livros e colher deles o que necessitam. A necessidade de bons professores ainda é uma constatação. Mas, para isto, precisam receber salários compatíveis com a sua importante função que é a de fazer com os alunos se dediquem com afinco aos livros e deles extraiam o que necessitam. Sem a presença deles em sala de aula, nada feito, tudo é utopia e discurso vazio. 

O fato é que logo me aclimatei com os novos colegas e com as novas matérias. Vivíamos um período de mudanças profundas no mundo e essas novidades meio que atrapalhavam os estudos daqueles jovens imberbes e curiosos como eu. Como se ainda fosse necessário.

Naquele tempo, por conseguinte, o velho Liceu já estava na descendente, perdia qualidade e se debatia com todas as dificuldades que fariam com que se encaminhasse para se igualar por baixo com as demais escolas públicas da cidade. No que pese isto, somente o Diocesano, o Colégio das Irmãs e a Escola Técnica possuíam melhor padrão de ensino na cidade. Ainda. Não esperei para ver para onde se encaminhava. E terminei me transferindo no terceiro ano para outro Liceu, o de São Luís. As notícias que eu tinha daquela instituição de ensino eram as melhores possíveis. Ainda não havia caído na vala comum do ensino público estadual no país. E essa mudança me trouxe muitos ganhos. Provou que eu estava certo em mudar.

De fato, o Liceu Maranhense ainda oferecia um ensino de ótima qualidade na época. Tive que correr mais que os outros colegas, é bem verdade, estudar muito mais para aprender tudo que deixara para trás nos dois primeiros anos do científico para poder acompanhar o ritmo de aprendizagem que se desenvolvia no terceiro ano. Ao custo de muito esforço terminei por conseguir. E isso foi muito bom para a minha vida futura.

Somente então, aprendi, de fato, a me dedicar aos estudos com responsabilidade e sabedoria.  Passar no vestibular, por conseguinte, foi um passo que dei com certa facilidade, apesar da concorrência não ser pequena. A UFRPE, Universidade Federal Rural de Pernambuco, foi a minha escolha. E sobre isso, acho que já falei um pouco.   

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

DALILÍADA

Fonte: Google

DALILÍADA
(poema épico inspirado na vida e na obra de Dalí)

Elmar Carvalho


           XXV

Ao som de sua música dorida
o instrumento masoquista
se torturava e em gestos
retorcidos se dilacerava nas mãos
atormentadas de quem tocava.

           XXVI

O homem é um navio fantasma
algemado por velas e cordames
de promessas vãs
na praia inóspita em
que se acha encalhado.

           XXVII

As postas de carne se revolviam
em bruscos gestos torturados
– espadas por si mesmas decepadas –
 e revolviam a terra que
era uma mão mutilada.

           XXVIII

Os amantes comiam objetos
e se comiam entre gestos
obscenos em que se perdiam.  

domingo, 12 de janeiro de 2020

Claucio Ciarlini agora é imortal da Academia Parnaibana de Letra




A forte chuva que caiu na noite do sábado, dia 11, não apagou o brilho da festa de posse de Claucio Ciarlini Neto na Academia Parnaibana de Letras, solenidade realizada no auditório da subseção da Ordem dos Advogados do Brasil, com a presença de acadêmicos, convidados, familiares e amigos do novo imortal. O discurso de recepção foi feito pelo escritor Renato Arariboia de Brito Bacellar.

O presidente José Luiz de Carvalho, aberta a solenidade, nomeou uma comissão, formada pelos escritores Alcenor Candeira Filho, Antonio de Pádua Marques Silva e Roberto Cajubá da Costa Britto para introduzirem o novo acadêmico no salão. Em seguida o secretário Antonio Gallas Pimentel prosseguiu com os trabalhos dando vez à escritora Christina Moraes Souza Oliveira, segunda secretária da APAL, para que fizesse a entrega do diploma a Claucio Ciarlini. A aposição do manto foi feita por Ana Roberta.

No seu discurso de entrada, Ciarlini agradeceu o apoio recebido pela eleição, fez um relato de sua trajetória cultural como professor, incentivador de movimentos, a formação e o agradecimento especial à família, a mulher Ana Roberta e às filhas Ingrid e Caroline e à mãe Rosângela. Ressaltou que chega à entidade com o objetivo de muito trabalho e abrindo espaço cada vez mais para as novas gerações.

Estiveram presentes à cerimônia de posse de Claucio Ciarlini, além de familiares, amigos e os membros da Academia Parnaibana de Letras, colegas professores, colaboradores e seus companheiros do movimento cultural Versania, Marcello Silva, o casal Francisco e Ana Carvalho, a escritora e poetisa Edinólia Fontenele, Jaílson Júnior e Morgana Sales, Benedito Lima, Airton Porto, Daltro Paiva e Carlos Pontes e a professora Rossana Silva. 

Fonte: APAL. Fotos: APAL. Edição: APM Notícias.