sexta-feira, 22 de maio de 2020

DIÁRIO - 22/05/2020

Fonte: Google


DIÁRIO
[A última praga]

Elmar Carvalho

22/05/2020

            Nesta madrugada, quando acordei para urinar, tive de imediato o insight de um conto. Antes de adormecer procurei aperfeiçoar e desenvolver mentalmente a repentina inspiração. Acredito que a sua gênese pode ser as sugestões provocadas pela quarentena covidiana que estamos vivenciando.

            Procurei não dar a meu conto nenhum tom alarmista, nem apocalíptico e muito menos de Juízo Final. Até porque Cristo disse que quando ele retornasse: “Daquele dia e hora, porém, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão só o Pai. [Mateus 24:36]” Acredito que também não saberemos como esse acontecimento predito será.

            Sem mais delongas, eis o conto, acima citado e agora concluído, que fará parte de meu livro inédito “Arte-Fatos Oníricos e outros”:

A ÚLTIMA PRAGA
           
            23/12/2102. Acho importante registrar neste diário que, no final de 2100 e nos três primeiros meses do ano seguinte deste novo século, algo muito estranho aconteceu. Muitas pessoas começaram a morrer, de uma forma que inicialmente fez lembrar a pandemia da Covid-19, doença provocada pelo novo corona vírus, no ano de 2020. Ainda foram iniciadas as quarentenas e outras modalidades de distanciamento social.

            Contudo, logo os médicos e os cientistas notaram que havia uma grande diferença. Os infectados morriam rapidamente e sem sofrimento. Era quase uma espécie de morte súbita. A pessoa se sentia fraca e logo perdia a vida. Muitos de nós sentiam um verdadeiro terror, outros se resignavam, enquanto alguns passaram a orar fervorosamente, em verdadeiro misticismo. Havia os medrosos, os covardes, os corajosos e os estoicos. Mas quanto a isso não havia distinção por parte da nova e estranha doença.

Notou-se que os infectados, em sua maioria, eram pessoas de índole ostensivamente má; depois se descobriu que havia os hipócritas e fariseus, que dissimulavam suas perversões e maldades, mas eles também sucumbiram. A história da ciência não registrava nada semelhante, embora, é claro, desde muito tempo se saiba que há doentes e há doenças, e que a doença e a cura sempre foram consideradas psicossomáticas.

Ainda no início os mais modernos exames, testes, autópsias e sofisticados aparelhos descobriram que o mal não era contagioso, pelo que era inútil qualquer forma de quarentena. Também nunca encontraram o menor indício de vírus ou bactérias, razão pela qual concluíram que era produzida de forma autônoma pelo próprio organismo de cada infectado. E todos os casos foram letais e de imediato desfecho.

Dada a radicalidade e rapidez dessa espécie de praga ou pandemia, as câmaras frigoríficas e fornos crematórios funcionaram em capacidade máxima, já que não havia condições de tempo e espaço para o sepultamento de tantos mortos.

O mais estranho, e para isso cada um tem a sua própria explicação, é que a sociedade, como um todo, se tornou muito melhor, mais amável e mais generosa, e o que considerávamos crimes e pecados desapareceram. As relações sociais e os costumes mudaram de forma radical.

Não houve mais morte e nem doença, e nota-se que está acontecendo um processo gradual de rejuvenescimento, com os corpos se tornando mais belos e mais poderosos. A ciência não tem explicação para esse fenômeno.

Para mim e para todos os que conheço a única explicação é que houve uma intervenção direta de Deus.  

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Capitão Francisco José da Costa Alvarenga

Grupo Escolar Costa Alvarenga, em Oeiras - PI Fonte: Mural da Vila


Capitão Francisco José da Costa Alvarenga

Reginaldo Miranda*

Desde seus primórdios até a Guerra da Independência, nenhum médico propriamente dito prestou serviços profissionais no Piauí. Isto porque nenhum piauiense logrou a láurea acadêmica nesta área do conhecimento humano. E não veio médico de fora estabelecer-se entre nossos ancestrais. Por isso, os primeiros colonizadores de nosso sertão curavam seus males com mezinhas aprendidas com os indígenas: entre folhas, cascas e raízes colhidas na flora regional. Os casos mais graves levavam a óbitos prematuros, daí a baixa expectativa de vida no período colonial.

Por essa razão, no segundo ano de sua gestão, o governador João Pereira Caldas fundou em Oeiras um hospital, o primeiro da capitania, mas sem profissionais qualificados, sendo administrado por um cabo e tendo por enfermeiro um soldado, ambos da companhia de dragões. Posteriormente, adoecendo esse governador, desabafou em carta datada de 21 de novembro de 1760, ao secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado:

“Para a brevidade com que faço esta [correspondência] concorre também a gravíssima moléstia com que fico no peito, em que na noute de anteontem padeci um fortíssimo ataque, que me tem obrigado ao uzo de diferentes remédios, e ao depurgar-me amanhã, com o que não sei se me restabelecerei, porque ainda ignoro qual é a cauza da minha queixa, nem será fácil averiguá-la por haver só aqui um mezinheiro com o nome de cirurgião, que em tudo obra à toa; porém não há outro remédio senão hi-lo aturando, até ver se escapando com vida das suas mãos, me chega o tempo de me livrar delas” (AHU. ACL. CU. 016. Cx. 7. D. 436).

Portanto, era essa a triste realidade da época, assim acontecendo com o governador da capitania, em plena capital, imagine com os demais moradores. A questão era estrutural, não havendo profissionais capacitados. Embora nenhum médico se estabelecesse no Piauí de antanho, conforme dissemos, nas décadas seguintes apareceram cirurgiões capacitados e licenciados para exercer a profissão. E aqui não se pode confundir com aquele profissional completamente leigo, o cirurgião-barbeiro. De fato, segundo os dicionários da época a profissão de barbeiro estava repartida em três[1] campos distintos: o fazer as barbas e cortar cabelos; o barbeiro de lanceta ou sangrador; e aquele que consertava e limpava espadas, também chamado alfageme. Esses profissionais não eram valorizados nem tinham status na sociedade, sendo seu trabalho considerado mecânico. São esses polivalentes barbeiros os precursores dos cirurgiões e seu trabalho consistia em intervenções com seus instrumentos em pústulas do corpo ulcerado, além de aplicarem ventosas e deitarem sanguessugas. Certamente, era um desses cirurgiões-barbeiros que tratava da enfermidade do governador João Pereira Caldas, em novembro de 1760.

No entanto, desde 1492, com a edificação do Hospital de Todos-os-Santos, foi iniciada em Portugal a medicina hospitalar. Com a destruição deste no terramoto de 1755, essa tradição do ensino de cirurgia vai ser continuada no Hospital de São José que então se edificou, ambos situados na cidade de Lisboa. Mas esta profissão não pode ser confundida com os médicos diplomados pela Universidade de Coimbra, tratando-se de um curso profissionalizante que habilitava cirurgiões e sangradores. No entanto, ambas as categorias estavam autorizadas a prestar cuidados de saúde, juntamente com outros profissionais igualmente aprovados. É importante ressaltar, que o Hospital de São José, serviu de base para a Real Escola de Cirurgia de Lisboa, fundada em 1825 e que ficou alojada em suas dependências. Em 1836, esta foi convertida na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, pondo fim à distinção[2] entre médicos e cirurgiões.

Felizmente, alguns anos depois, por fruto desses avanços, chegaram ao Piauí em épocas diversas, alguns poucos cirurgiões diplomados pelo Hospital de São José, entre esses: Francisco José da Costa Alvarenga, Francisco José Furtado e José Luís da Silva.

Francisco José da Costa Alvarenga, nasceu em Lisboa, no ano de 1758. Pertencia a uma família abastada e culta daquela cidade, com diversos de seus membros participando ativamente de sua vida cultural e econômica. Era irmão do médico José da Costa Alvarenga, cavaleiro professo nas Ordens de Santiago e de Cristo[3], formado pela Universidade de Coimbra e profissional bem sucedido, sendo médico da Real Câmara. Ao falecer em 1812, deixou um legado para seus sobrinhos, filhos do biografado.

Embora não tenha feito o curso de medicina na Universidade de Coimbra, como fizera o indicado irmão, preferiu estudar e buscar o diploma de cirurgião no Hospital de São José da cidade de Lisboa, onde foi aprovado. Passou a ser qualificado como cirurgião anatômico aprovado e licenciado.

No entanto, em 1779, com 21 anos de idade[4], Francisco José da Costa Alvarenga deixa a corte de Lisboa em busca do sertão do Piauí. Tendo aqui chegado fixa residência no Brejo de Santo Ignácio, onde toma posse do cargo de administrador das fazendas do Real Fisco daquela Inspeção, ali demorando-se por dez[5] anos.

Logo mais exerceu também o cargo de procurador da coroa, em cujo exercício firmou documento em favor do padre Dionísio José de Aguiar. Por essa razão, foi ameaçado publicamente em uma rua de Oeiras, pelo ajudante Antônio do Rego Castelo Branco, de quem se fizera inimigo.

No ano de 1789, ainda respondendo por aquela Inspeção, recebeu ordem do governo e acudiu gratuitamente com seu curativo na grande epidemia de bexigas que grassou na cidade de Oeiras, fornecendo remédios a todos os doentes que o procuravam. Nesse mesmo ano, foi nomeado para a exercer o cargo de cirurgião anatômico incumbido do curativo dos escravos do Real Fisco na cidade de Oeiras, onde fixou residência. Também, durante o mês de setembro foi enviado pelo governo para tratar o governador D. Francisco de Eça e Castro, que vinha assumir o governo do Piauí e adoeceu gravemente de sezão, a caminho, na Passagem de Santo Antônio, onde veio a falecer, antes de receber a cura e tomar posse do cargo.

Por esse tempo, com os lucros auferidos na Inspeção de Santo Ignácio, montou sua própria fazenda. E depois foi expandindo o rebanho em outras por ele multiplicadas. Mas somente regularizou essas terras no governo de D. João de Amorim Pereira, de quem se fez aliado, vez que nunca se integrou à elite rural piauiense. Em 11 de junho de 1798, regularizou sesmaria[6] em seu nome no vale do rio Parnaíba, termo de Campo Maior, logo abaixo da barra do Poti, nas extremas da Data Covas, medindo três léguas de comprido e uma de largura; em 12 de junho do mesmo ano, seu filho Egídio da Costa Alvarenga, recebeu sesmaria no termo de Jerumenha[7]; em 22 de março do mesmo ano, sua filha Rosa da Costa Alvarenga, já havia recebido sesmaria na margem do rio Parnaíba, entre o Riacho dos Negros, São Francisco e Santa Teresa, no atual território de Palmeirais[8].

Depois da chegada à cidade de Oeiras, contraiu matrimônio[9] com D. Matildes Efigênia de Santana, que lhe sobreviveu. Alguns anos depois de viúva passou a morar em fazenda no termo de Pastos Bons, no Maranhão. Foram filhos desse casal, todos naturais de Oeiras: 1. Tenente Egídio da Costa Alvarenga, na Guerra da Independência lutou ao lado de Fidié, depois mudou-se para Lisboa; 2. Catharina da Costa Alvarenga, foi casada com Victor da Costa Veloso; 3. Rosa da Costa Alvarenga, nascida em 14 de março de 1792, batizada na matriz, em 20 de junho de 1792, foi casada com o cirurgião Francisco José Furtado, primeiro do nome, nascido em Portugal e falecido em Oeiras, onde sucedeu ao sogro na profissão de cirurgião; e 4. Porcina da Costa Alvarenga, batizada em 24 de agosto de 1793.

Logo que chegou ao Piauí, Francisco José da Costa Alvarenga assentou praça de alferes da 3ª companhia do terço de cavalaria ordenança do Piauí. E com a reforma de Marcos Francisco de Araújo Costa, foi provido em seu lugar pelo general Fernando Antônio de Noronha, no posto de capitão do dito terço, sendo confirmado[10] em 29 de julho de 1796.

Em princípio do ano de 1793, foi a Lisboa resolver problemas de seu interesse, demorando-se por alguns meses. E retornando a Oeiras, encontrou servindo em seu lugar no curativo dos soldados um charlatão[11], segundo ele, que aparecera naquela cidade. E porque houve resistência para reassumir o cargo, formulou denúncia ao general do Estado, razão pela qual contra ele teceram-se muitas intrigas.

Nessas circunstâncias, depois de reassumir seu cargo contra a vontade de algumas autoridades de Oeiras, enfrentou alguns dissabores. Por exemplo, de 22 de setembro de 1793 até fins de janeiro de 1794, providenciou os curativos nos soldados do destacamento[12] daquela cidade e de um preso do calabouço. Porém, teve dificuldades para ser corretamente reembolsado das visitas e despesas feitas, formulando pleito à corte. Acrescentou que nas faltas do tesoureiro do Real Fisco, também era chamado para assisti aos doentes do Hospital.

Faleceu o capitão Francisco José da Costa Alvarenga, no ano de 1809, deixando larga folha de serviços prestados e ilustrada descendência no Piauí. Possuía apenas 51 anos de idade, fato que não impediu de projetar seu nome no seio da sociedade e da terra que abraçou como sua. Dois de seus netos seriam figuras notáveis ao tempo do império, o médico e cientista Pedro Francisco da Costa Alvarenga, renomado lente da Academia de Ciências de Lisboa; e o magistrado e político Francisco José Furtado, segundo do nome, senador, ministro da justiça e presidente do Conselho.

________________

* REGINALDO MIRANDA, advogado e escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.

[1] Moraes Silva, Antonio e Freire, Laudelino 1922 Diccionario de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Litho-Typographia Fluminense. In.: FIGUEIREDO, Betânia Gonçalves. Barbeiros e cirurgiões: atuação dos práticos ao longo do século XIX. ISSN 1678-4758. Hist. Cienc. Saúde-Manguinhos vol.6 no.2 Rio de Janeiro July/Oct. 1999

[2] SILVA, J. Martins. Anotações sobre a história do ensino de medicina em Lisboa, desde a criação da universidade portuguesa até 1911 – 1ª Parte. História da Medicina. Lisboa: RFML, 2002. Série III; 7 (5): 237-249.

[3] PT/TT/IFF/009/0454/00010. Feitos Findos, Inventários post mortem, Letra J, mç. 454, n.º 10.
PT/TT/MCO/A-C/002-009/0067/00071. Mesa da Consciência e Ordens, Habilitações para a Ordem de Cristo, Letra I e J, mç. 67, n.º 71.
PT/TT/MCO/A-C/003-009/0006/00126. Mesa da Consciência e Ordens, Habilitações para a Ordem de Santiago, Letra J, mç. 6, n.º 126.
  
[4] AHU.ACL. CU. 016. Cx. 17. D. 872.
  
[5] Em princípio de 1794, ele firma petição que servia a Sua Majestade por 14 anos, sendo sete no cargo de Inspetor e sete no de cirurgião. No entanto, no mesmo documento diz que em 1789 ainda era Inspetor. Em outro documento datado de 1787, aparece residindo na Inspeção do Brejo de Santo Ignácio, ainda solteiro, de onde concluímos que houve equívoco, tendo ele deixado aquela Inspeção de 1789, ano em que também foi mandado em diligência para atender a D. Francisco de Eça e Castro, que faleceu em 15.9.1789.

[6] AHU. ACL. CU. 016. Cx. 22. D. 1128.

[7] AHU. ACL. CU. 016. Cx. 22. D. 1130; Cx. 23. D. 1210.

[8] AHU.ACL. CU. 016. Cx. 22. D. 1134; Cx. 23. D. 1211.

[9] Posterior a 3 de novembro de 1787. Mas anterior a 3 de abril de 1794 (AHU.ACL. CU. 016. Cx. 17. D. 872).
  
[10] PT/TT/RGM/E/001/0028. Registo Geral de Mercês, D. Maria I, liv. 28, fls. 117v-118.
   
[11] Segundo sua denúncia, o charlatão era José Antônio Ribeiro Coimbra.

[12] Informa que o cirurgião seu antecessor passou a fazer o curativo dos soldados em sua casa e esses desonraram suas filhas, o que motivou a sua morte.   

terça-feira, 19 de maio de 2020

DIÁRIO - 19/05/2020





DIÁRIO
[Felipe Mendes: Economia e Desenvolvimento do Piauí]

Elmar Carvalho

19/05/2020
                        
       No dia 14 tive uma longa conversa telefônica com o confrade Felipe Mendes, escritor e economista renomado, sobre assuntos diversos do Piauí, incluindo sua economia, aspectos sociais, administrativos, financeiros, políticos e históricos.

Por ter sido deputado federal, vice-governador, secretário de estado da Fazenda, do Planejamento, e secretário municipal de Teresina nas pastas do Planejamento e de Finanças, além de professor do Curso de Economia da UFPI, ele é profundo conhecedor da administração, da economia e do planejamento do Estado do Piauí. Exerceu seus cargos públicos com probidade, eficiência e dedicação, como um verdadeiro servidor público e estadista, com o olhar voltado para o interesse social e com espírito público.

            No final da conversa, ele me pediu meu endereço; dei-lhe também os necessários pontos de referência, para uma mais eficaz localização. Um pouco mais tarde, chegava à portaria do condomínio onde moro a 2ª edição (2019) do importante livro Economia e Desenvolvimento do Piauí, publicado pela Editora da Universidade Federal do Piauí, que no ano vindouro completará 50 anos de bons serviços prestados à educação superior de nosso estado. Na folha de rosto encontra-se a amável dedicatória: “Ao amigo e confrade Elmar Carvalho, com estima e admiração, Felipe – 14.05.2020.” Desnecessário dizer que é verdadeira a recíproca.

            Neste registro, referente ao livro de Felipe Mendes, me servirá de mote o pequeno comentário de Teresinha Queiroz, de apenas seis linhas, inserto em sua contracapa, assim como usarei, como aperitivo ou chamariz para futuros leitores, algumas passagens, sobretudo as do capítulo 1 – O Piauí em 1950, da Terceira Parte, que traz a seguinte epígrafe, da lavra de Renato Castelo Branco, com quem tive a honra de manter correspondência pelos Correios na década de 1980: “[...] por um erro administrativo crônico, por um vício hereditário dos nossos governos, temos preferido, até hoje, solucionar o acessório, com abandono do fundamental.”

            Confessou-me, em outro telefonema, que a gênese de seu livro, ou pelo menos o que lhe provocou o desejo forte de escrevê-lo, foi o ensaio Formação Econômica do Piauí, de sua autoria, publicado originalmente no livro Piauí – formação – perspectivas – desenvolvimento, organizado pelo professor R. N. Monteiro de Santana, editado em 1995, do qual constituía o  capítulo III.

Sem dúvida o magistério superior de economia, as longas e profundas leituras e a experiência e conhecimento adquiridos nos importantes cargos públicos que exerceu lhe possibilitaram escrever essa importante obra, pioneira do ponto de vista do enfoque e abordagem e da formatação do conteúdo.

Como o próprio autor admite na “orelha”, a vertente edição teve pouca modificação em  referência à primeira. Houve a necessária correção de erros de digitação e de eventuais “cochilos” ortográficos. A quarta parte foi suprimida para ser transformada “em versão eletrônica da Quarta Parte, constituída pelo Documento dos Governadores e a Cronologia Histórica”.

Associaram-se a esse adendo eletrônico os arquivos de fotografias e vídeos relacionados com os temas abordados no livro, que evidentemente não poderiam integrar a edição impressa. Tanto o conteúdo do livro físico como essa parte eletrônica estarão integrados no site felipemendes.com.br, em fase de construção.

De fato, em sua seara, é enciclopédico, como disse Teresinha Queiroz, pela quantidade e diversidade de informações que contém. Sem dúvida, é também uma obra de consulta, e abarca um amplo corte cronológico, que se estende do período colonial aos nossos dias. Sem pretensão a fazer exercício de futurologia, o autor, com fundamento em suas análises e diagnósticos, aponta prognósticos e perspectivas coerentes com a nossa realidade, e não fantasiosos ou ufanistas.

Não apenas nos fornece informações e dados, mas os coteja, quando necessário. E os analisa e interpreta de forma perspicaz, de modo a esclarecer ou justificar os fatos e fenômenos de nossa economia. Lança luz em nossos sucessos e insucessos econômicos, em diferentes períodos de nossa história, apontando os “erros e acertos de nossos ancestrais e contemporâneos”, conforme escreveu Teresinha Queiroz, que além da notável historiadora que todos conhecemos, é também afeita aos estudos da economia.

Além de expor os dados, os fatos e informações de forma clara e objetiva, o autor os ilustra com quadros, tabelas e gráficos, cujos dados e informações são analisados, esclarecidos e interpretados de forma didática, sem filigranas ou firulas sibilinas, com que muitos pretendem fazer pose de profundos. Assim, esses quadros demonstrativos são uma síntese do objeto da dissertação e ao mesmo tempo a sua comprovação estatística.

Não é uma obra maçante ou meramente técnica, recheada de hermético economês. Ao contrário, é permeada pela história social, econômica, política e administrativa do Piauí, o que torna atraente e agradável a leitura. Para melhor condimentar esta crônica e fazê-la mais atrativa, pinçarei alguns tópicos, de forma sintética, do aludido capítulo 1 da Terceira Parte.

No ano de 1950, o nosso estado ultrapassou mais de um milhão de habitantes, conforme o censo demográfico desse ano. Contudo, de cada quatro piauienses, de 10 ou mais anos de idade, apenas um era alfabetizado. Essa faixa etária totalizava 702.424 habitantes, dos quais apenas 591 “afortunados”, como os classificou o autor, possuíam curso superior completo.

A estatística não era e nunca foi cruel; cruel era a realidade que ela expressava. De fato, a estatística não tem coração, mas apenas deve ser a pura expressão da verdade. No mesmo ano acima referido, a taxa de mortalidade infantil era alta: de cada mil nascimentos, 146,54 infantes morriam. Ainda assim era relativamente favorável, se comparada com a do Nordeste, que era de 176,34.

Somos informados de que, no início da segunda metade do século XX, o Piauí amargaria uma de suas piores crises, com a chegada do fim do ciclo do extrativismo vegetal associado ao comércio exterior, cujas atividades possibilitaram, a partir do final do século XIX, “um período de prosperidade singular na história do Estado”.

O autor nos informa que “as exportações de cera de carnaúba, iniciadas em 1894, as de babaçu, em 1911, e as de borracha de maniçoba”, que alcançaram seu auge no período de 1900 a 1920, tornaram possível o Piauí alcançar, na primeira metade do século passado, relevante posição no conjunto das exportações de nosso país. O fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, teria determinado a queda dos preços desses produtos, sobretudo da cera de carnaúba e do babaçu.

A borracha da maniçoba, no início do século XX, que teve sua exploração impulsionada pela nascente indústria automobilística nos Estados Unidos e na Europa, foi sufocada pela produzida na Malásia, o que também aconteceu, ainda em proporções maiores, com a produzida nos seringais do Acre.

A vontade de mostrar outros dados, informações e análises contidos na obra em comento é enorme, todavia devo me curvar ao fato de que não devo subtrair ao leitor o prazer de beber na fonte límpida, fecunda e original do livro. E também não desejo fazer uma espécie de spoiler.

Mas, como curiosidade e por ser interessante, ainda um fato quero e devo comentar. Com o declínio do extrativismo local, que prosseguiu até hoje, e do surgimento de outros produtos extrativos de outros estados e regiões, as companhias de navegação estrangeiras, com escritórios instalados em Parnaíba, começaram a encerrar suas atividades, desde o final da Segunda Guerra Mundial até meados da década de 1950, o que mais agravou a crise econômica parnaibana.

Com o agravamento da crise, segundo nos revela o livro, em 1957, a Companhia de Fiação e Tecidos Piauienses, instalada em Teresina, deixou de funcionar, após 64 anos de existência. E nessa derrocada econômica, pequenas fábricas de cigarro e quase dois mil engenhos, produtores de cachaça e açúcar, situados em diferentes rincões do estado, encerraram suas atividades.

Os pequenos engenhos, que inspiraram Da Costa e Silva a fazer o seu célebre soneto, ficaram de fogo morto, como no belo título do romance de José Lins do Rego. Restou apenas a saudade dos pequenos engenhos de madeira, “movidos pelos bois tardos e sonolentos”, que também povoam a poesia de Ascenso Ferreira: “Dos engenhos de minha terra / Só os nomes fazem sonhar:  // – Esperança ! / – Estrela d’Alva ! / – Flor do Bosque ! / – Bom-Mirar !”    

Todavia, esse capítulo também refere os fatos auspiciosos da história social, administrativa e econômica de nosso estado, tais como, em 1954, a fundação em Parnaíba da Federação da Indústria do Estado do Piauí; o início do processo de organização e planejamento da administração pública estadual, com a criação, em 1956, da Comissão de Desenvolvimento do Estado – CODESE; a vinda, neste mesmo ano, do novo arcebispo de Teresina, Dom Avelar Brandão Vilela, que além da ênfase que deu à solução de problemas sociais, com a criação da Ação Social Arquidiocesana – ASA, fundou a Rádio Pioneira de Teresina e a Faculdade de Filosofia – FAFI; e a fundação, por um grupo de particulares, da Faculdade de Odontologia, cujo funcionamento contou com o auxílio do governo estadual. O Piauí já dispunha da Faculdade de Direito, instalada em 14/04/1931 e federalizada através da Lei nº 1254, de 04/12/1955.

Podemos dizer que essas três faculdades e mais a de Administração de Empresas (Parnaíba) e a estadual de Medicina foram a semente ou o embrião da Universidade Federal do Piauí, criada em 1968 e instituída pelo Decreto nº 64.969, de 11/08/1969, conforme informações colhidas no monumental Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí, de Cláudio Bastos, para cuja publicação tive a honra de contribuir, na época em que fui presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Sua instituição pelo Poder Executivo fora autorizada pela Lei nº 5.528/68. Foi instalada em 01/03/1971, e no próximo ano completará, como dito, meio século de relevantes serviços educacionais, culturais, hospitalares e editoriais prestados ao Piauí.

Por fim, merece uma menção honrosa e destacada a construção da Barragem de Boa Esperança, que no livro de Felipe Mendes teve uma longa abordagem, inclusive em seu aspecto histórico. A obra, uma das mais importantes em nosso estado, foi iniciada no princípio do governo do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e concluída em 1970.

Também mereceu um percuciente, embora sintético estudo o panorama político que se desdobrou de 1947 até 1960, em que analisou as eleições e os embates políticos e partidários, as mazelas econômicas e eventuais conquistas, bem como as crises administrativas. Por conseguinte, comentou as eleições de José da Rocha Furtado, Pedro de Almendra Freitas, Jacob Manuel Gayoso e Almendra e Chagas Rodrigues. 

Nesta segunda edição foram acrescentados os capítulos 6 e 7, que versam fatos ocorridos a partir de 2000, de forma resumida, mormente quanto aos aspectos sociais, econômicos e ao “papel do governo estadual no processo de desenvolvimento do período”. O livro, como já tive oportunidade de afirmar, é recheado de fatos históricos e políticos, que terminam comprovando que os problemas atuais de nosso estado vêm de um tempo remoto. Afirma e demonstra que o progresso e o avanço econômico do Piauí, nos últimos vinte anos, dependeu da iniciativa privada, e não de induções, de estímulos e de obras estruturantes do governo estadual.

Teresinha Queiroz, em entrevista publicada pela revista Revestrés (setembro/outubro de 2012), diz que “O IBGE, em meados dos anos 50, publica a primeira pesquisa com o ranking dos estados brasileiros. São Paulo aparece em primeiro lugar. O último era o Piauí. Essa descoberta impactou fortemente a maneira como os Estados passaram a se enxergar.  O Piauí se tornou, a partir daí, no discurso local e nacional, o pior Estado do Brasil. A ironia é que se a pesquisa tivesse sido feita alguns anos antes, o Piauí estaria muito bem”. O livro de Felipe Mendes, por suas análises e interpretações pautadas nos fatos, na lógica e nos números, por suas informações, dados e quadros demonstrativos estatísticos, além do volumoso conteúdo histórico que possui, no âmbito econômico, social, administrativo e político, é uma fotografia e uma radiografia do que disse a historiadora e economista.

Teresinha também afirmou, no breve comentário da contracapa, que Economia e Desenvolvimento do Piauí já surgira como “um clássico da cultura escrita piauiense”.

E pelo respeito e acatamento, que tem merecido dos estudiosos e leitores ao longo de dezessete anos, permanece e há de permanecer como um clássico, ocupando o pódio que merece ocupar.      

domingo, 17 de maio de 2020

Seleta Piauiense - Cineas Santos




Bilhete

Cineas Santos (1948)

Perdão, moça:
hoje não falo de mim
das vezes que tentei
das lutas que perdi...
Estou partindo
para o próximo sonho
queres ir?

Fonte: site Poetas do Brasil   

sábado, 16 de maio de 2020

DEMAGOGIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Fonte: Google


DEMAGOGIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                Estava lendo o jornal do longo final de semana, quando cheguei ao artigo de um professor/historiador piauiense que tentava dar ares de suma importância à antecipação do feriado pelo dia do Piauí, de dezenove de outubro para quinze de maio, afirmando que, muito mais do que por conta da necessidade de manter dentro de casa, isolada, a população e, com isso, tentar diminuir a possibilidade de contágio pelo novo coronavírus, essa decisão governamental – que, possivelmente, nem ele queria tê-la feito – trouxe à baila a oportunidade de propor-se uma discussão sobre as causas que teriam levado os pensadores da efeméride à determinação de quando e porque deveria acontecer em dezenove de outubro e não quinze de maio: na primeira data, ainda lá em mil, oitocentos e vinte e dois, pouco mais de um mês após a ocorrência da mítico-histórica proclamação da independência do Brasil, o Piauí iniciaria um primeiro levante, um processo bélico de reconhecimento da separação nossa de Portugal, ocorrido na cidade de Parnaíba. Esse episódio, certamente, inusitado para estados do norte e nordeste brasileiros, não teria como ver transferida ou trocada, ainda que legalmente, sua comemoração para uma data aleatória qualquer.

Outras tantas nos remetem à luta pelo reconhecimento da independência: mas aquela foi a primeira. Portanto, não que se esteja dizendo que a legislativa antecipação não tivesse a importância que se lhe quiseram atribuir: do ponto de vista sanitário, sim. Afirmar-se ou lhe querer conferir valoração histórica, como a insinuação de que deveríamos aproveitar o fato para discutir o motivo da existência do feriado, é, ou não, fazer demagogia? Logo, logo, a se manter no ar o perigo causado pelo coronavírus e a necessidade de isolamento da população, não havendo sido descoberto nem encontrado medicamento ou tratamento para a virose, poderia ser de extrema importância, não somente sanitária, mas, principalmente, para que pudéssemos examiná-los sob ponto de vista didático-histórico ou religioso, a antecipação para vindouros finais de semana, dias santificados ou feriados como o sete de setembro, o doze de outubro, o dois e quinze de novembro, o oito e até mesmo o vinte e cinco de dezembro. Ainda bem que esses feriados ou suetos são nacionais e, a não ser que o presidente da república mexa com eles, o governador, certamente, não teria como fazê-lo; a menos que decidisse estatuir outros.

                Voltando um pouco no tempo. Coincidentemente, enquanto lia as últimas linhas do artigo do historiador mafrensino, o netinho, que comigo “curtia o confinamento”, perguntou-me: - ‘vô, hoje é feriado porque é o dia do Piauí? Temendo lhe dar resposta diferente de outra já obtida, devolvi-lhe a pergunta: você já perguntou isso a alguém? Como estava entretido com o celular, apenas acenou, negativamente. Então, lhe disse: - hoje não é feriado coisa nenhuma! – ele ficou bastante sério, mas não disse nada -, o governador determinou que assim fosse para proteger-nos da contaminação pelo coronavírus – nova perplexidade, não porque não soubesse sobre o vírus, talvez porque sim -, o dia do Piauí, no qual comemoramos nossa luta pela independência do Brasil, ocorre em dezenove de outubro. Vi um sorriso em seu rostinho inteligente, como a dizer: vá entender os adultos, e continuou com seu jogo eletrônico. Ainda bem, porque não sei se não teria de lhe dizer que tinha de dar razão a um outro governante piauiense, tido como excêntrico, que preferiu desconsiderar a antecipação do feriado e confiar no discernimento de seus governados, no sentido de que eles, e somente eles, não só seriam os maiores beneficiários pela redução de infecção e mortes pelo coronavírus, como os mais prejudicados, a depender do que, voluntariamente, decidiriam sobre a necessidade de isolamento.

                Outro caso de demagogia; ou eu é que estaria sendo hipócrita? Não parece difícil, preocupante, nem mesmo pode ser considerado um ato de irresponsabilidade, alguém como um leigo, um religioso, jurista ou um gestor público acossado pela urgência, sugerir, especular ou insistir que, ante tal ou qual situação, dever-se-ia utilizar ou adotar, por exemplo, certo procedimento fármaco-médico experimental não recomendado nem aprovado por organismos especializados, por ainda não estar pacificado o entendimento de que seria inquestionável sua eficácia contra sintomas, ou mesmo tratamento de  determinadas enfermidades ou patologias, em que, pretenderiam aqueles, fossem aplicados; notadamente, se ou porque saberiam, que essa recomendação, sugestão, de fato, prosperaria (ou não), após especialistas no assunto, depois de exaustivas análises e exames, darem parecer, laudo ou decisão conclusiva, na qual se embasariam aqueles que receberam ou foram cientificados da representação, sugestão, provocação, para agirem dali em diante; se é que no curso da demanda não já decidiram por conta e risco próprios, ou como lhes deu na telha.

No futebol, dizem que todo brasileiro é entendido, senão técnico; em tempo de pandemia, ao que parece, esse entendimento também pode ser aplicado ou aproveitado: não é incomum, até quem é de seara científica diferente meter-se a discutir ou agir como infectologista, microbiologista, virologista; ou a criticar todos eles.          

A guerra acabou nossa riqueza




A guerra acabou nossa riqueza

Pádua Marques
Romancista, contista e cronista

Calça de linho branca, camisa azul listrada de mangas compridas e a inseparável bengala ali perto da espreguiçadeira de pano listrado, os pés dentro de um chinelo de couro cru, Berilo Ferreira de Miranda estava em mais um dia de descanso na calçada de sua casa na rua do Riachuelo, à pouca distância da praça da matriz de Nossa Senhora da Graça, em Parnaíba, esperando algum conhecido rico ou pobre que lhe desse atenção pra uma conversa.

Daqui mais um tempo apareceu lá de dentro um menino de seus oito anos, quando muito, negrinho, limpo, de nome Olegário e filho de sua criada. Vinha trazer o primeiro dos muitos canecos de água fresca pra o velho comerciante de mais de setenta anos beber e ficar olhando a rua naquele movimento de cabeça pra direita e pra esquerda.  Lá dentro de casa estavam a mulher Colombina, a filha única Olímpia, moça velha e a cozinheira, copeira e lavadeira Veneranda, todas entretidas nos do que fazer do dia.

Berilo Ferreira de Miranda foi comerciante de arroz no porto Salgado pelo lado dos Tucuns por cinquenta anos tendo largado o ponto e passado pra um sócio, filho de gente de sua terra, o Mucambo, no Buriti dos Lopes, quando começou a sentir a saúde indo embora e a tristeza incomodando. Era de conhecer todo mundo e todo mundo conhecer ele. Sabia quem era bom e quem era ruim nas famílias importantes de Parnaíba. Quem prestava e quem não prestava.

Primo legítimo de Colombina, sua mulher, teve com ela a única filha, Olímpia, que quando menina foi uma das primeiras estudantes do Colégio das Irmãs. Quando foi ficando moça, se engraçou de um caixeiro viajante, Eliseu Rodrigues, mas que a coisa de casamento não foi pra frente. E foi quando passou a paixão e os cuidados de mãe pra o filho de Veneranda, Olegário. Ia com ele pra tudo quanto era lugar. Missa, procissão, mercado, passeio e até no cinema do Miguel Carcamano.

Até botou o diabo do negrinho no catecismo. Ele já sabia rezar o Pai Nosso e o Creio em Deus Pai. Olegário obedecia a Olímpia em tudo. Dia de Natal saiam eles os dois pra praça da Graça ver as vitrines da Casa Cristino e na volta pra casa traziam um ou dois presentes. A mãe verdadeira, Veneranda, ficava com ciúmes, mas engolia o choro e quando sozinha ralhava com o filho.

Naquela conversa com um conhecido, o sapateiro Euclides, morador do Macacal, disse que em mais de cinquenta anos vendendo arroz nos Tucuns, nunca foi de roubar no peso uma grama que fosse, na hora de pesar mercadoria, mas conhecia gente que agora estava rica e poderosa, que se fez nisso. Ele se calava, mas sabia quem era. Também nunca foi de ter paixão por política, mas até que uns comerciantes amigos quiseram ele como intendente e sucessor de doutor Carlos Picanço.

O velho comerciante de arroz encompridava conversa, mandava o menino trazer café e um assento pra Euclides e ia dizendo agora que estava preocupado com essa guerra na Europa. Ficou sabendo por uns conhecidos. Não via com bons olhos aquele alemão, da Condor, Werner Shluepmann dentro de Parnaíba, almoçando e jantando em casa de gente de bem.  E que não entendia desde há muito tempo aquela inquisição, aquela intriga, desavença entre os homens mais ricos de Parnaíba, os franceses e ingleses por causa do preço, qualidade, controle e vendada de cera de carnaúba. Intrigas que acabaram levando comerciantes honestos, no seu caso, a largar o negócio de arroz e outros gêneros porque estavam sendo até perseguidos.

Teve até morte, tocaia de empregados uns com os outros entre os armazéns e as docas no porto Salgado, no caminho pra os Tucuns, muito sangue derramado. Mas isso era o que ouvia falar. O seu medo era de agora e daqui a pouco, com aqueles aviões passando em cima da sua cabeça, Parnaíba não entrasse na guerra, se perdesse tudo, os ricos ficassem com uma mão na frente e outra atrás, o dinheiro trocasse de mão. E as vendas, as exportações de cera de carnaúba e de óleos, que já estavam ruins, poderiam ficar piores!

E ele, Berilo Ferreira de Miranda, descendente de gente importante que abriu caminho na Parnaíba, tendo que no fim da vida ver aquilo! Logo ele que alcançou tempos bons e ruins no ramo de comércio, que em quantas vezes abriu a gaveta pra ajudar nisso e naquilo. Até naquela engenharia maluca de Zeca Correia de abrir o canal do São José, pra melhorar a navegação vinda de Tutoia até o porto Salgado. Fora outras ajudas que deu a fundo perdido.

A mesma gaveta que se abriu pra dar uns trocados pra filha Olímpia sair com o negrinho e afilhado Olegário até o cinema de Miguel Ferreira, o Carcamano. Agora era até malvisto pelos vizinhos da rua do Riachuelo e que viviam de cara fechada. Espalhavam por tudo quanto era canto de Parnaíba que Olímpia, a filha, que não gostava de gatos, vivia dando veneno pra os bichos, enchendo o quintal de armadilhas, até nos corredores da casa, na cozinha, perto das gaiolas dos curiós. Muitos bichos já haviam morrido.

Agora se inchava dentro da cadeira preguiçosa gesticulando, parecendo que ia levantar voo e visto e admirado por Olegário, o negrinho que, por ele haveria de ser padre e dar gosto dentro de casa. Se ele, Berilo, tinha chegado até ali, naquela idade de mais de setenta anos, era à custa de, todo dia, no cair da tarde que Deus dava, Veneranda trazer pra ele na sala uma tigela fornida de sopa, um caldo de farinha branca temperado com sebo de gado, aquele tutano forte, coisa comprada no Mercado Central, lá mais embaixo, decerto trazida de sua terra, o Mucambo.      

sexta-feira, 15 de maio de 2020

PALAVRA DE LEITORA (*)

3ª edição de Rosa dos Ventos Gerais


PALAVRA DE LEITORA (*)

Teresinha Queiroz
Historiadora e ensaísta

         Paul Veyne, ao tratar da elegia erótica romana, registra interessante distinção entre a alma do poeta e a dos mortais comuns. Segundo sua afirmação, a alma do poeta é mobiliada por um certo número de sentimentos, assim como a dos outros homens; além disso, nessa mobília há também um espelho, que reflete o resto do mobiliário. Dessa sorte, a alma que contém este móvel de Narciso não é igual a outra que tivesse o mesmo mobiliário, e não tivesse o espelho.

         Esse móvel narcísico e seus reflexos têm sido objeto de especulação permanente no âmbito dos estudos literários. Aqui o que nos interessa não é adicionar algo a essa questão, muito menos sumariá-la, porém, tão somente expressar em rápidas pinceladas nossa visão de como o poeta Elmar Carvalho, em sua obra síntese A Rosa dos Ventos Gerais produz, através da criação poética, o seu mundo e revela, no seu espelho interior, o nosso mundo.

         A vigorosa poesia de Elmar Carvalho desvenda com força extraordinária alguns dos mais profundos ismos de nossa cultura: o narcisismo (do poeta), o erotismo e o lirismo. Marcas indubitavelmente modernas, mas ao mesmo tempo classicamente antigas.

         Se não sou capaz de decodificar as estéticas, devo enfatizar as temáticas. Nesse sentido, o fulcro da modernidade é a tomada da própria poesia, do amor e da paixão, em suas diferentes modalidades, e da política, como objetos de elaboração poética. Todos esses objetos, agressivamente presentes na poesia de Elmar, trazem como expressão comum uma espécie de estética da intensidade. A comunicação dos sentimentos, no mundo moderno, tem sido feita a marteladas, de forma a provocar a dor e, no caso dos registros literários, a agredir da maneira mais íntima a emoção.

         Nesse aspecto, a poesia de Elmar se apropria da emoção do leitor, através de um lirismo intenso, como na “Lírica 2222” e em “Trabalho de Cestaria e Renda”, de contundente crítica política, como está posto em todo o Cancioneiro do Fogo e de um erotismo basilar, que é toda a força vital da natureza, criada poeticamente, porém, no limite, “quase” desveladora das amarras  culturais face à potência da vida. Essa força impetuosa, primordial, está expressa com a maior qualidade artística no notável conjunto poético que é o “A Zona Planetária”.

         Aliás, é através de “A Zona Planetária” que Elmar leva às calendas gregas e nos religa à mais clássica e milenar tradição poética ocidental. Ao atrever-se a resgatar esse universo literário por excelência que é o da Mitologia, associando-se à Astronomia – saber que já teve seus momentos de ser levada a sério, tendo importância similar à da Psicanálise hoje e que continua, apesar de tudo, a ser um dos nossos fundos mentais – e a uma disciplina que o próprio autor denominou “Sociologia dos cabarés”, terminou por realizar trabalho de inusitada audácia criadora. Nesse poema exemplar se encontram aqueles traços já evidenciados do lirismo, da paixão contundente e arrebatadora, do erotismo visceral, sem dúvida traços do sentir moderno. O clássico, e na historiografia a tradição clássica é a greco-romana, é inegável na escolha dos temas, no requinte das imagens, na natureza e teor dos recursos metafóricos.

         A aludida estética da intensidade, que conduz à busca incessante da emoção mais adormecida e resguardada do leitor, neste livro, ganha a forma da comunicação mais forte, mais direta, às vezes até despudorada, mas de um despudor que se explicita quase sempre por um jogo de sentimentos conflitantes, excludentes. Esse jogo de intensidade, que trabalha emoções diferentes, está em vários pontos do livro e a transparente em “Rompimento”, mescla a asco e sublimidade, com passagens rapidíssimas do sujo ao etéreo, ao quase evanescente.

         O jogo especular entre o poeta e o leitor é feito de imagens ricas, poderosas, exemplares. Essa comunicabilidade pode ser conferida na temática do amor e da paixão, em que a simbiose autor-leitor revela-se, a partir do espelho da alma do poeta, em flagrantes quase cotidianos, como em “Encontro”, em “Musa Medusa” e em “Amor”. Deve-se destacar que em quase todos os seus poemas de amor está presente aquele vezo literário que demarca a poesia ocidental moderna – que é o tema do interdito, do proibido, da paixão irrealizada, não consumada. É sabido que o desencontro amoroso, que a frustração dos amantes tem sido a tônica da criação ficcional dos últimos séculos. Exemplo nesse sentido é o “Elegia do Amor Final”, que se conclui com a belíssima imagem:

                “E teus cabelos
                 à brisa eram lenço
                 acenando em despedida.”

         A grande densidade lírica de A Rosa dos Ventos Gerais é também em grande medida associada ao erotismo, o que explica e justifica a igualmente forte presença feminina neste livro. Em seu ato de criar e recriar a mulher, o poeta a evidencia como um completo-complexo objeto amoroso. Eis que emergem de seu livro “Olhos”, de lã e de lâminas, de céu e inferno, verdes musgosos, azuis fuzilantes; cabelos de lenço e de loiras algas; mãos que acariciam e esmurram; bocas sequiosas e bocas mudas; curvas femininas que transcendem as curvas da terra e do mar, meras projeções da “poesia selvagem de teu corpo”. Tomando as próprias palavras do poeta, a mulher aqui é retratada “a leste, a oeste, ao vento e ao mar, com a mesma paixão incontida de um gesto feito de raiva.” Devo dizer como leitora, que o poeta sucumbe, se submete, capitula e que apesar da resistência, este livro é de entrega.

         Não creio ser necessário destacar as poesias marcantes do autor e já sobejamente realçadas pelos seus críticos e leitores. É óbvio que também acho encantadoras “Noturno de Oeiras” e “Amarante”, de suave melancolia. “Elegia a Campo Maior”, de versos tão sublimes, sempre me fazem lembrar o Neruda das paixões adolescentes, especialmente dos 20 poemas de amor e uma canção desesperada e não apenas pela singular humanização da natureza, como pelas belas imagens construídas e pelo campear melancólico do sonho e da solidão. A mesma sensação me persegue quando leio os diversos poemas marítimos, tão narcisicamente coletivos, de que destaco a quase camoniana “Perdição”.

         Por fim, ler a poesia de Elmar Carvalho, para esta sua leitora circunstancial, tem sido sempre um suave mergulho não só em nossa sensibilidade coletiva, mas igualmente nos arcanos de nossa tradição cultural.
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(*) Texto publicado no Almanaque da Parnaíba, nº 64, 1997. A autora foi professora da Universidade Federal do Piauí. Altamente respeitada, tem mestrado e doutorado em História.   

quinta-feira, 14 de maio de 2020

MANUEL DOMINGOS E OS CORONÉIS DO PIAUÍ


        

MANUEL DOMINGOS E OS CORONÉIS DO PIAUÍ

Elmar Carvalho

Fui ao lançamento do livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram – o domínio oligárquico no Vale do Parnaíba”, de Manuel Domingos Neto, ocorrido na sexta-feira, no pátio interno do Arquivo Público do Piauí.

Conheço-o faz alguns anos, sobretudo quando, na qualidade de editor adjunto, o ajudei a organizar a 60ª edição (1985) do anuário Almanaque da Parnaíba, fundado por Benedito dos Santos Lima, o Bembém, em 1924, que passou a ser editado por seu avô, o comerciante Ranulfo Torres Raposo, de 1942 a 1982; este empresário também presidiu o sistema FECOMÉRCIO no Piauí.

Devido a essa aproximação, expus-lhe, na época, a importância de os direitos autorais do periódico passarem para a Academia Parnaibana de Letras – APAL, que seria a sua editora, tendo ele concordado. Transmiti sua anuência ao Dr. Lauro Correia, então presidente da entidade. De lá para cá, o Almanaque da Parnaíba passou a ser editado como revista da APAL, embora sem a conservação rigorosa da anualidade.

Posteriormente, Manuel Domingos foi deputado federal constituinte, tendo, portanto, assinado a Carta Magna de 1988. Voltou a Fortaleza, onde passou a lecionar na Universidade Federal do Ceará. O autor foi decisivo para a implantação, na Fundação CEPRO, do Núcleo de História Oral, com modernas técnicas de historiografia, que terminou produzindo importantes entrevistas com figuras notáveis em diferentes campos da atividade humana.

Eu mesmo sugeri fosse entrevistado o senhor Antônio Sales, na época com mais de noventa anos, que fora líder laboral, desportista, funcionário público federal e amigo de figuras ilustres da política piauiense, cujo entrevistador foi o professor Alcides Nascimento. 

O livro de Manuel Domingos enfeixa três belas entrevistas com Pedro de Almendra Freitas, comerciante e ex-governador do Piauí, José da Rocha Furtado, médico e ex-governador, e Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, engenheiro, escritor e responsável pela construção de várias obras importantes do governo estadual.

Pelas entrevistas, ficamos sabendo de muitos fatos notáveis da administração pública, de fatos curiosos  e interessantes da biografia dos entrevistados, de peculiaridades da vida cotidiana e econômica do Piauí, bem como tomamos conhecimento de como era a vida nas pequenas cidades interioranas, sobretudo nos aspectos dos costumes, genealogia, cultura e economia. Passamos a conhecer como se desenvolviam o comércio, a agricultura e a pecuária.

No entendimento do autor, o chamado coronelismo no nosso estado não teve as mesmas caraterísticas e peculiaridades do coronelismo de outras plagas, principalmente sulistas. O livro deixa entrever que os nossos “coronéis” não merecem, ao menos de forma intensa, os estigmas que lhes foram impingidos por muitos estudiosos do Brasil.

Vejamos o que comenta, na “orelha”, a professora Linda M. P. Gondim: “Desde Nunes Leal, estudiosos viram no 'coronel' um arcaísmo que seria liquidado com a urbanização e modernização. Mas os políticos estudados neste livro destoam desse estereótipo: aceitaram a Revolução de 1930 e as transformações promovidas desde então, inclusive pela ditadura militar, como a institucionalização do planejamento e a criação de empresas e órgão estatais 'modernos'”.

Ao ler esse livro, o leitor fará um mergulho profundo na história social e política mais recente do Piauí, e conhecerá de forma mais íntima, mais humana, figuras de destaque do proscênio político estadual.    


2 de maio de 2010

quarta-feira, 13 de maio de 2020

DIÁRIO - 13/05/2020

Fonte: Google



DIÁRIO
[Sobre rezas e orações]

Elmar Carvalho

13/05/2020

            Desde muito cedo minha mãe me ensinou a rezar. Fiz catecismo e comunguei. Decorei algumas orações. Depois, me mantive fiel exclusivamente ao Pai Nosso. Li o Velho e o Novo Testamento algumas vezes. Reli os Evangelhos, os Salmos e os Provérbios em maior quantidade de vezes. No final de minha meninice li um exemplar comentado do Novo Testamento. Mas nunca fiz parte de nenhuma congregação religiosa e tampouco fui acólito ou coroinha.

Aos treze anos, fui a uma pregação, uma espécie de encontro com um padre católico. Após a leitura de uma parábola, o sacerdote perguntou se havia alguém habilitado a explicá-la. Fundamentado no Evangelho comentado que eu havia lido, e também em minha experiência em leitura e interpretação de fábulas e apólogos das antologias dos livros didáticos de meu pai, alguns da autoria de Aída Costa e José de Sá Nunes, dei a minha interpretação. Isso causou grande admiração do padre e dos presentes.

Contudo, nunca fui um fiel, um evangélico e nem um católico praticante. Faz muito tempo não comungo e raramente vou a uma missa. Entretanto, desde que aprendi a rezar, ensinado por minha saudosa mãe, rezo diariamente, como vi meu pai, católico convicto, fazer. Porém, posso dizer que faço pequenas orações ao longo do dia, movido por circunstâncias e finalidades diversas.

Pelo que tenho lido e baseado em minha própria experiência, entendo que há vários tipos de rezas ou orações, e diversas maneiras de orar, até mesmo quanto à postura física ou obedecendo a uma ritualística. Creio que o importante seja a sinceridade e a Fé, e não certos formalismos ou exterioridades.

Muitas vezes a reza é decorada e recitada de forma mecânica, distraída, sem que a pessoa atente para o que está dizendo. Outras vezes, é dita de forma sincera, fervorosa. Havia, não sei se ainda os há, os grandes místicos, que meditavam e oravam de forma arrebatada, e entravam em estado de êxtase, como na primeira das Elegias de Duíno, de Rilke:

“Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam (...)”

Enfim, repito, são inúmeras as maneiras e os motivos para uma pessoa entrar em oração, sem falar naqueles que só o fazem quando estão desesperados ou precisando de algo. Deixo que o leitor medite sobre isso e sobre as razões que o levam a rezar.

Não sendo um fariseu e nem um hipócrita, confesso que durante alguns anos rezei apenas por hábito, como se fosse um dever, e quase sempre o Pai Nosso. Depois, parei de rezar. Pretensiosamente, achei que não havia necessidade de fazer orações, que os nossos atos e ações falariam a Deus por nós, e que teríamos a nossa recompensa ou não, conforme o que praticássemos ou deixássemos de fazê-lo.

Mas logo senti que isso era uma espécie de comodismo e de atitude orgulhosa, pois todos somos pequenos e frágeis, e dependemos de Deus. Se o próprio Cristo orava, por que nós não teríamos necessidade de orar? Além do mais, compreendi que ninguém pode ser salvo mediante seus próprios méritos, porquanto todos somos falhos e pecadores.

Quero encerrar fazendo uma confissão: hoje, em minhas orações, agradeço a Deus por tudo que Ele me deu, por tudo que Ele me permitiu viver, mesmo pelos fatos desagradáveis, que me chatearam, que me decepcionaram, que me frustraram, porque certamente eles contribuíram para moldar a minha personalidade, para me tornar mais humilde, e assim compreender as falhas de meu semelhante; sem isso, talvez, eu me tivesse tornado um tanto arrogante e presunçoso.

Por fim, peço que Deus, dentro dos limites que Ele me achar apropriado, me torne uma pessoa boa, digna, correta a seus olhos; que nos afaste, todos nós, do egoísmo, do orgulho, da vaidade, da arrogância e da empáfia, e que nos abençoe e nos conceda sua Graça, especialmente a da salvação.

Mas, parafraseando Benjamim Franklin, sou apenas uma edição em processo de revisão e que ainda tem muito que melhorar.