domingo, 19 de junho de 2022

Seleta Piauiense - Renato Castelo Branco


Fonte: Google/Caminho da Luz

Caminheiro

 

Renato Castelo Branco (1914 – 1995)

 

Caminheiro das estradas do mundo,

não turves a água da fonte

onde teus irmãos vão beber...

 

Não arranques das árvores

os frutos que sobram da tua fome...

 

Não poluas o ar

de que teus pulmões não precisam...

 

Não pises as flores

que teus olhos não podem ver...

 

Caminheiro das estradas do mundo,

não manches as mulheres

que não podes possuir...

 

Não roubes o amor dos que amam,

nem o sono dos que dormem,

nem queiras para ti,

caminheiro das estradas do mundo,

o pão dos teus irmãos,

o suor dos teus irmãos,

a alegria dos teus irmãos.

 

(In Almanaque da Parnaíba, 1996.)

sábado, 18 de junho de 2022

TRIBUTO A DOIS AMIGOS

Carlos Cardoso e eu, numa das traves do Estádio Deusdete Melo, onde atuei como goleiro, algumas vezes, em minha adolescência.

 

TRIBUTO A DOIS AMIGOS


Elmar Carvalho


Estive hoje no escritório de contabilidade de meu amigo Carlos Cardoso. Conheço-o desde a nossa adolescência. Quando o conheci, no início da década de 70, ele era vizinho de seu primo, o Otaviano, meu amigo e colega de turma no velho Colégio Estadual, quando fazíamos o terceiro ano do antigo ginásio. Moravam perto do Centro Operário de Campo Maior.

O Otaviano era nosso líder no futebol. Foi ele quem nos iniciou na prática do esporte de arremesso de copo, por outros chamado de libações etílicas. Passados tantos anos, lembro vagamente que foi numa noite, por ocasião dos festejos de Santo Antônio do Surubim, numa mercearia, salvo engano, da chamada rua da pista. Foram umas largas talagadas de Ron Montilla.

O Carlos engasgou-se com uma dose, e o Otaviano passou-lhe umas duras reprimendas. Mais adiante, já no centro da cidade, ri não sei por que motivo ou mesmo talvez sem motivo; ele aborreceu-se, naturalmente achando que aquilo era uma “mancada”, o que denotaria a ingestão de álcool. Pouco tempo depois, o Carlos, seus irmãos e seus pais foram embora para Fortaleza, e o perdi de vista por algumas décadas.

Quando vim assumir meu cargo de fiscal da extinta SUNAB, em agosto de 1982, voltei a encontrá-lo. Amigo fraterno, convidou-me para morar em sua república, na avenida Jockey Club, em Teresina. Não era uma república de estudantes, onde imperasse a bagunça e a baderna; ao contrário, ali havia ordem e organização, com divisão de responsabilidades administrativas, financeiras e de tarefas. Moravam com ele dois administradores postais da ECT, o Humberto Nadal, paranaense, e o Robério, cearense, hoje juiz do Trabalho. Depois o Carlos deixou a república, em virtude do casamento, e eu nela continuei por mais alguns anos, até perto de meu casamento em  meado de 1985.

Ingressei na maçonaria a convite do Carlos e de seu irmão sanguíneo, Zé Ataíde, que também conhecia há muitos anos. Posteriormente, nós três e mais um punhado de irmãos valorosos fundamos a Loja Hiram Abib nº 3069, filiada ao Grande Oriente do Brasil – PI, da qual o Carlos foi o primeiro venerável. Meses atrás o Carlos nos pregou um grande susto, quando, perto de um infarto, foi submetido a intervenção cirúrgica, e teve que receber três pontes de safena e uma mamária, em virtude de herança genética, segundo o histórico familiar.

O Otaviano não deixou por menos, e, ao telefone, passou-lhe outra dura repreensão, e disse-lhe que não admitia que, na qualidade de primo e amigo mais velho, o Carlos lhe tomasse a dianteira, e construísse três pontes de safena e uma mamária antes dele; aquilo não estava certo e era uma tremenda injustiça que o primo mais moço lhe fazia.

Nesse ponto, devo esclarecer que a alegada diferença de idade é de apenas um ano. Contudo, dias depois voltou a ligar, e disse que já estava reconciliado com ele, pois adquirira uma hipertensão arterial, e pelo menos nisso o Carlos não lhe levara a palma e nem os louros da vitória.

Claro, tudo isso era uma brincadeira do imperador Otaviano, e uma maneira peculiar, toda sua, de animar e alegrar o primo e amigo. O certo é que, benza-o Deus, o Carlos está muito bem, e a “indesejada das gentes”, no dizer do poeta Manuel Bandeira, terá que bater em outra porta.

                                          31 de março de 2010

(*) Por coincidência, se é que existe coincidência e acaso, encontrei ontem (17/10/2019), na loja J. Monte, o José Francisco Pinto, que procurava reencontrar há alguns meses, sem êxito. Conversamos sobre o Otaviano Furtado do Vale, nosso amigo comum. Quando fui republicar hoje a sequência de meu Diário Incontínuo, o texto da vez era este, em que evoco o saudoso amigo Otaviano e o seu primo Carlos Cardoso. Ao conversar agora com sua irmã Cristina do Vale e Silva, soube que ontem era o dia do seu aniversário, posto que ele nasceu em 17 de outubro de 1956, mesmo ano em que nasci. E no próximo mês de novembro, no dia 19, será o sexto ano de seu falecimento, uma vez que sua morte precoce aconteceu em 2013, no mesmo ano em que tive várias perdas, inclusive a de minha inesquecível mãe, Rosália Maria de Mélo Carvalho.     

sexta-feira, 17 de junho de 2022

O velho e bom São João já não é mais o mesmo

 


O velho e bom São João já não é mais o mesmo


Pádua Marques

Romancista, cronista e contista

 

Quem é mais antigo há de se lembrar dessa época do ano em tempos idos quando o mês de junho era o mais esperado do ano depois do Natal. Mas o Natal é festa de família e o São João é festa de rua, de povo no meio da rua e de muita alegria. Está aí a diferença entre os dois. Naquele tempo parecia que uma energia invadia as casas, as pessoas, as árvores, os postes de lâmpadas, os passarinhos e até as muriçocas.

Havia alegria de todos os tamanhos. E a gente era só começar o mês já estava com aquele sorriso de orelha a orelha calculando aonde ia ter uma quadrilha e a casa onde vinha dançar o bumba meu boi. Na escola a gente ficava imaginando dentro de mais uns dias o início das férias. Adeus livros, tarefas, olho duro da professora e os enfadonhos exercícios de dever de casa. Agora tudo era São João.

E a gente largava a procurar dentro de casa e na casa de nossos amigos alguma coisa para fazer o nosso boi. E as meninas por sua vez iam arrumando um lugar e as vestimentas para as quadrilhas. Tudo era uma bagunça que acabava dando certo e até ficava bonito.

Os meninos, as crianças envelheceram, os tempos passaram, o viço da infância e da juventude foram embora. Vieram os filhos, os netos, mudaram os costumes, a brincadeiras se transformaram e a gente foi para dentro de casa e sentados no sofá na frente da televisão. Fomos e tivemos que nos acostumar com outros costumes, costumes de terras distantes e desconhecidas.

O mês de junho nunca mais será o mesmo de nosso tempo. Hoje ninguém solta mais fogos de artifício, os traques, as famosas bombas de quinhentos, que a gente colocava debaixo de uma lata somente para ver o impulso no rumo de cima. Ninguém passa e nem pula mais fogueira, vira compadre, afilhado, padrinho ou madrinha. Agora a televisão é quem manda em nosso dia e na nossa noite de São João.

Tudo hoje em dia aborrece, faz mal a fumaça, incomoda o estampido dos traques aos cães, aos idosos e agora às pessoas com síndrome autista. O mundo ficou um poço de aborrecimentos. Santo Antonio, o primeiro homenageado e tido como casamenteiro, anda é na fila do seguro desemprego. São João, o mais querido e lembrado, anda escondido com medo dos ecologistas. E finalmente o velho e rabugento São Pedro, o do final do mês, esse deve estar com dengue no fundo de uma rede.  

segunda-feira, 13 de junho de 2022

UNIVERSALIZANDO OS SACRAMENTOS

 

Fonte: Google

UNIVERSALIZANDO OS SACRAMENTOS


Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)


                Antes que alguma outra lançasse mão da ideia, ela se anteciparia. Faria uma grande campanha nas principais mídias de comunicação – falada, escrita, audiovisual – convidando proprietários – opa! Politicamente incorreto! -, donos – que é isso? Ninguém é de ninguém! –, tutores, curadores, cuidadores; mesmo pais, mães, como assim se consideram muitos em relação a eles -, para levarem seus pets, animais de estimação, companheiros, filhos adotivos, a fim de receberem alguns dos sacramentos dogmáticos que a igreja, antes, oferecia apenas aos indivíduos racionais, seres humanos.

                Poderiam começar com o sacramento do batismo e, a depender da idade do animal e de sua experiência existencial, agregariam o da confirmação, a crisma, e, a seguir, quem sabe alguns outros.

                Obviamente, nem todos os pets poderiam ser atendidos no recinto paroquial, apenas os mais dóceis e pequenos. Animais peçonhentos, muito grandes ou, sabidamente perigosos, requereriam o agendamento de horário e local onde o pároco, sem submeter a qualquer risco, tanto a si mesmo, quanto os sacramentados, faria a ministração dos sacramentos. 

                Os responsáveis pelos animais, se assim o desejassem, contratariam empresas ou pessoas credenciadas pela instituição religiosa para, se não inconveniente ou inadequado, realizarem as reuniões festivas de congraçamento entre os convidados, parentes, padrinhos e amigos dos sacramentados, em recinto específico do próprio templo religioso; o que não seria de modo algum estranho ou inconcebível, uma vez que, aqueles que se enquadram em determinados perfis: sanitário, tamanho, grau ou nível de higiene e limpeza “pessoal”; volume de barulho que produzem; enfim, sem nada que torne inadequada a presença deles ali, já são bem recebidos em restaurantes, shoppings centers, hotéis, e lugares diversos.

                Segundo a igreja, como ocorre na preparação de indivíduos humanos para recebimento da maioria dos sacramentos por ela dispensados, seria exigido dos interessados – tutores, protetores e animais - participação em cursos ou experiências religiosas especificamente destinadas à compreensão dos mesmos; claro que, nem todos os pets – também assim ocorre com certas pessoas -, teriam discernimento suficiente para compreender e avaliar a extensão religiosa dos sacramentos que iriam receber; sem problema, os responsáveis por eles também se responsabilizariam por, de algum modo – certamente, muito mais fácil do que fazê-lo a uns humanos componentes de suas famílias naturais -, incutir na memória ou qualquer centro de compreensão e/ou arquivamento mental deles, treiná-los, como já fazem para outros fins, formas de induzi-los a respeitar decisões,  ensinamentos, princípios religiosos, as exegeses de observação necessária e indispensável.

                Passando daquela fase em que alguns afirmavam que animais somente entram nos templos religiosos porque encontrariam abertas as portas, para a de que, doravante, sempre seriam bem recebidos, a mesma igreja – condição que estenderia a todas praticantes e ministrantes do mesmo credo e às que aceitassem as novas sugestões incitadas por ela e havidas como proveitosas e cabíveis – criaria, nos templos que dispusessem de espaço suficiente, recintos especiais e exclusivos, destinados à ministração e acompanhamento do sagrado sacramento da eucaristia, pelos fiéis que decidissem assisti-la juntamente com seus pets.

                No momento em que a fé – pelo menos, no que tange a dos que criam bem mais antes que agora – passa por duras provas, e que, não por acaso – talvez, providência divina -, coincide com o de valorização, dir-se-ia, não apenas individual, mas social e política, dos animais de estimação – há casos, hoje, em que maus-tratos feitos a eles e, em condição semelhante, a seres humanos, recebem punição muito mais dura do que a aplicável a estes -, a igreja entendia como exigência imediata, visando mesmo, trazer de volta ou recuperar fiéis em via de cisma iminente, permitir, na verdade, incentivá-los a ir até ela todos aqueles que, agora, sim, quisessem vir acompanhados de seus animais mais queridos; não tinha dúvida de que, assim fazendo, reconduziria a ela parte do rebanho perdido. Isso tinha, pois, que ser tratado como decisão urgente e inadiável.

                Um novo tempo se anunciava, sacramentos religiosos, originariamente, atribuíveis somente aos seres racionais, inteligentes, dotados de espírito, alma, sendo, então, universalizados, eis que dispensáveis a indivíduos do mundo irracional, animais de estimação. Todos, eles e seus tutores, defensores, protetores, no mesmo lugar sagrado onde poderiam ficar pertinho, em comunhão divina e humana. 

Claro que, certamente, haveria resistência religiosa ou eclesiástica, ante tão grande evolução dos sacramentos, mas que poderia ser superada; afinal, o mundo já convive com seres humanos gastando fortunas para ficarem o mais parecido possível com animais que adora ou venera, ou tentando fazer com que esses se humanizem; não se tem registro confiável do sagrado sacramento do matrimônio envolvendo pets e ocorrendo em recintos religiosos, mas alguns deles, geralmente, sem o consentimento do ministro celebrante, já adentram templos na condição de pajens de nubentes humanos. Alea jacta est!              

domingo, 12 de junho de 2022

Seleta Piauiense - Hermes Vieira

 


O lobisomem

 

Hermes Vieira (1911 - 2000)

 

Vosmincê, doutô, conhece,

Ou já viu falá no nome

Desse bicho que aparece

Nos camim quando anoitece,

Qui se chama lubisomem?

 

Esse bicho qui é chamado

Desse nome e fáiz pavô,

Muntos conta qué virado

De cumpade amancebado

Cum cumade, seu dotô.

 

E quando ele vai virá

O dimõi nesse figura,

Pra ninguém num bisservá,

Sai de casa, divagá,

Quinta-fêra, noite iscura.

 

Vai dereito a um ispojêro

Dos mais perto qui tivé;

Tira a roupa e cai ligêro

Si rolando no ispojêro,

Dando isturro e pontapé.

 

Quando o bicho si alevanta

Num tem nada mais de gente,

E a fiúra nele é tanta

Qu’inté mermo ele s’ispanta

De si vê tão deferente.

 

Diferença d’assombrá,

Apois tem, nesse momento,

Unhas grande de jaguá,

Dentadura de guará

E a zureia de jumento.

 

Tem seu corpo de barrão

E de bode a cabelaça;

Seus dois ói são dois tição,

Mode vê, na escuridão,

Os lugá puronde passa.

 

E assim sai dali trotando,

Sacudindo a cabelêra,

E puronde vai passando,

Dele a gente vai suntando

Risuído e tinidêra.

 

Nesse trote, qui num sôa,

Ele sente sede e fome;

E pegando uma pessoa,

Qui pra ele a carne é boa,

Mata e sangra, rasga e come.

 

Quando passa nas fazenda,

Pr’ele avança a cachorrama,

E no mei dessa contenda,

Todos qué fazê merenda

Do bichão do zói de chama.

 

Mais cum’é de muita sorte,

É valente e tem capricho,

Vence tudo e segue forte.

(Mais, si arguém dé nele um corte,

Logo dêxa de sê bicho).

 

Desse jeito, ele vai indo

Assombrando, de hora im hora,

Os cristão qui fica uvindo

O barui dele seguindo

Noite adentro, istrada afora.

 

Mais porém quando ele nota

Cantá galo nos pulêro,

Volta o corpo e sai da rota,

E apressado ele si bota

Novamente pru ispojêro.

 

E ali chega de repente

Faiscando o zói de brasa,

E rolando novamente,

Disfáiz tudo e vira gente,

Veste a rôpa e vai pra casa.

Fonte: Livro Nordeste - poemas, sem indicação de data e editora.

sábado, 11 de junho de 2022

O Velho Ancião

 

Fonte: Google/Acesse Piauí

O VELHO ANCIÃO


Elmar Carvalho


No sábado passado, estive na Oficina da Palavra, pertencente a Cineas Santos, para tirar fotografia de um belo quadro do Amaral, em que aparece um goleiro em um voo espetacular e talvez um tanto espetaculoso, para ilustrar uma crônica que fiz em homenagem a dois grandes goleiros de nosso estado: Coló e Beroso, que marcaram época, o primeiro a defender o Caiçara, e o segundo, como guarda-meta do Comercial.

Como goleiro, com atuações quase sempre regulares ou boas, ao menos segundo meus amigos, fui admirador dos dois, embora, por ser caiçarino, tivesse certa predileção pelo Coló, goleiro estiloso, cujas enfeitadas “pontes” admirava e aplaudia. Também queria fotografar um quadro do saudoso Fernando Costa, que conheci, cujo talento artístico apreciava. Lamentei sua morte trágica e precoce, décadas atrás, em pleno carnaval.

Quando eu estava nesse mister, chegou o Cineas Santos, que foi meu professor em 1976, no Cursão. Nós, todos os alunos, o admirávamos, mesmo os que não eram tão interessados em literatura. Garoto interiorano, fanático por literatura, gostava imensamente de suas aulas. Acompanhei o lançamento de Ciranda, no Theatro 4 de Setembro, e com muito gosto li suas páginas. Rapaz um tanto tímido, um dia criei coragem e lhe mostrei alguns poemas e um ou dois contos meus.

Cineas os leu, e com a sua proverbial franqueza me disse, com ênfase, que eu tinha “garra”, mas me aconselhou a ler os poetas modernos, dos quais, entre os que ele citou, me lembro bem de João Cabral de Mello Neto. Nessa época, deslumbrei-me com o jornal de cultura Chapada do Corisco, editado pelo Cineas, que estampava os belos versos do poeta Paulo Machado, intelectual do mais alto valor e honesto, como cidadão e como ser cultural.

Entretanto, já no início do ano seguinte (1977) retornei a Parnaíba, para cursar Administração de Empresas, pois fora aprovado no vestibular, bicho papão na época, uma vez que existia apenas, como entidade de ensino superior, a Universidade Federal do Piauí.

Devo acrescentar que Cineas era um verdadeiro mestre; suas aulas eram fascinantes e atraíam o aluno, mormente aqueles que, como eu, amavam literatura. Como pessoas físicas, e não instituições, ele e o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana são os dois maiores editores do Piauí. Apesar de vigoroso, enérgico e dinâmico em seus sessenta e poucos anos de vida, em autoironia ou talvez como catarse, para afastar o fantasma da velhice, que ainda vem longe, deu para chamar-se a si mesmo de o “velho ancião”, com a proposital ênfase da redundância.

Conquanto, pelas circunstâncias da vida, não tenha sido um amigo próximo, acompanhei os seus permanentes e constantes sucessos, como escritor, editor e promotor de eventos culturais. E sempre lhe reconheci e aplaudi os méritos.

 

24 de março de 2010   

sexta-feira, 10 de junho de 2022

OEIRAS NA ALMA E NO CORAÇÃO

Neander Francisco (autor da proposição) e Espedito Martins (presidente da Câmara Municipal) entregam a Elmar Carvalho o diploma do Título de Cidadão Oeirense

Os três homenageados: Elmar Carvalho, Igor Martins e Margarete Coelho
Dona Amália Campos, aos 98 anos, lendo o livro Oeiras na Alma e no Coração, que contém o discurso e outros textos oeirenses de Elmar Carvalho

 

OEIRAS NA ALMA E NO CORAÇÃO


Elmar Carvalho

                                                                                                                          

Oeiras navega na noite

de um tempo que não termina.

De um tempo sem medida, fugitivo

de ampulhetas e relógios.

 

Nos longes de minha meninice, salvo engano no livro didático Nosso Tesouro, li – num de seus “serões” – uma referência a Oeiras, como tendo sido a primeira capital do Piauí. Foi a primeira alusão à Terra Mater, encravada nos confins dos sertões de Cabrobó, de que tomei conhecimento em livro. Data daí, talvez, o meu fascínio pela velha Mocha e o meu desejo de conhecê-la.

Por volta de duas décadas depois, numa viagem a serviço da SUNAB – Delegacia do Piauí, a conheci de relance. É que cheguei à noite e logo, ainda no escuro da madrugada, retornamos a Teresina. Posso dizer que apenas a entrevi, que ela apenas se entremostrou, como uma rosa ainda em botão, entrefechada ou entreaberta, como num poema do Bruxo do Cosme Velho.

Contudo, o meu desejo de conhecê-la ou mesmo devassá-la se tornou mais avassalador. E a conheci em toda sua glória e tradição em outras viagens a serviço e, sobretudo, para participar de vários eventos culturais e literários.

Em minha gestão como presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí (1988/1990), minha principal meta foi desenvolver uma campanha para que a Literatura Piauiense fosse insculpida no texto de nossa Constituição Estadual (1989), como disciplina obrigatória em nossas escolas, o que terminou acontecendo, graças à acolhida que nos deu o deputado Humberto Reis da Silveira, seu relator-geral, descendente de velhas estirpes oeirenses.

Imbuído desse propósito de bem divulgar a nossa literatura, fiz realizar um de nossos Encontros de Escritores em Oeiras, em cujo evento homenageei o grande romancista brasileiro O. G. Rego de Carvalho, nascido nesta terra de rica história e tanta tradição cultural, religiosa, literária e musical. Nesse encontro, além de outras atividades, o romancista, cronista e médico Expedito Rego pronunciou uma minuciosa palestra sobre o jornalismo oeirense, que infelizmente parece haver se perdido entre os papéis de seu espólio literário.

Em sua conferência, foi ele auxiliado pelo seu afilhado Carlos Rubem, defensor intransigente do patrimônio arquitetônico, artístico e cultural de Oeiras, que além de Promotor de Justiça, o é também de Cultura. Por causa dessa sua veemência em defesa das coisas oeirenses, me solicitou algumas crônicas sobre a velhacap, em ocasiões especiais, dentre as quais estão as em que falo do velho calçamento de Oeiras, do grande poeta Nogueira Tapety e do Sobrado dos Ferraz, hoje Paço Municipal. Na minha crônica Uma noite, em Oeiras, falo do nosso sonho de ser construído, no alto do Morro da Sociedade, o Jardim dos Poetas, em que seriam estampados os poemas que louvam as louçanias da bela paisagem sertaneja e os velhos casarões e sobrados de nossa encantadora Oeiras.

Ao longo dos anos 80 e 90 do século passado e neste século XXI, fui amealhando importantes amizades com ilustres intelectuais e escritores de Oeiras. Além dos já referidos acima, citarei (pedindo desculpas por eventuais omissões): Balduíno Barbosa de Deus, meu professor no curso de Direito na UFPI, Possidônio Queiroz, de valsas sublimes, dito o Bruxo Velho de Oeiras, Dagoberto Carvalho Jr., meu confrade na APL, Antonio Reinaldo Soares Filho, Ferrer Freitas, Paulo Gutemberg, Rogério Newton, Gutemberg Rocha, que me prefaciou o livro Noturno de Oeiras, com belas ilustrações de Francisco Leandro, Rita Campos, Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, Cassy Neiva Gama, Stefano Ferreira, Júnior Vianna, Socorro Barros e Moisés Reis, que fez a apresentação, em lançamentos nesta velha urbe, de meus livros Lira dos Cinqüentanos e Noturno de Oeiras e outras evocações, hoje meu confrade na APL.

Sobre muitos dos escritores citados acima tive a honra de escrever, lhes ressaltando o talento e o brilho da escrita. E muitos deles se pronunciaram sobre a minha prosa e sobre a minha poesia, o que vale mais para mim do que certos galardões.

Uma das maiores honras e satisfações que tenho é a de que o meu poema Noturno de Oeiras caiu no gosto e na graça dos amigos oeirenses. Foi incluído em vários livros e antologias. Em diferentes ocasiões, já ecoou no palco do Cine Teatro Oeiras, no adro da catedral e entre suas vetustas naves. Teve versos citados em vários livros e discursos, o que o mantém vivo e presente na memória de meus novos conterrâneos. Foi publicado na Revista do Instituto Histórico de Oeiras, que também publicou vários outros textos de minha autoria sobre assuntos oeirenses. Foram feitos três vídeos desse poema, que se encontram no You Tube, um dos quais recentemente produzido por Inamorato Reis, em que aparecem suas lindas fotografias, com a interpretação irrepreensível de Cláucio Carvalho, de bela voz ritmada e de dicção perfeita.

Na época em que o escrevi, uma cópia de Noturno de Oeiras foi enviada para o advogado Talver de Carvalho Mendes, que me remeteu uma desvanecedora carta manuscrita, na qual teceu muitas considerações elogiosas, mas em que disse haver sentido falta dos sons de bandolins e do velho cemitério. Instigado por essa missiva, senti a inspiração e o impulso para compor o Noturno do Cemitério Velho de Oeiras, que foi musicado e apresentado no dia do lançamento do livro Noturno de Oeiras e outras evocações por alunos do Instituto Barros de Ensino – IBENS.

A dona Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira enviou uma cópia desse livro para seu irmão, o ilustre oftalmologista Elisabeto Ribeiro Gonçalves. Para meu gáudio, poucos dias depois, recebi uma linda missiva desse médico, que é na verdade uma excelente crônica, em que ele, a pretexto de comentar o poema, parece viajar ao tempo de outrora, para rever os prédios e outros sítios oeirenses de uma outra dobra ou dimensão do espaço-tempo, toda impregnada de emoção e saudade.

Em julho de 2013, quando me encontrava de férias, após renunciar a promoções para outras Comarcas, por preferir ser promovido a titular do Juizado Especial Cível e Criminal de Oeiras, consegui esse desiderato. Estava presente a essa sessão o ilustre Des. Sebastião Martins, casado com a senhora Solange, filha desta terra, que sempre me incentivou e aplaudiu o labor literário.

Assumi o Juizado no começo de agosto, mas logo após recebi a impactante notícia, dada por minha mulher, por telefone, de que os exames que fizera constataram a existência de um CA, o segundo de minha vida, o que me impediu de exercer por mais tempo a minha atividade judicante nesta vetusta Comarca, embora estivesse contente com minhas funções e com o relacionamento e apreço dos servidores. Todavia, tive a honra de encerrar minha carreira como magistrado pertencente a esta jurisdição de entrância final.

Posso dizer que ao longo de todos esses anos participei de vários eventos culturais em Oeiras, escrevi textos sobre vários assuntos e logradouros oeirenses, bem como várias crônicas e críticas literárias sobre diversos poetas e escritores de nossa etérea e eterna capital.

Assim, julgo que me fui tornando um cidadão oeirense por livre e espontânea vontade de mim mesmo, ou por conta própria como disse um amigo.

Diria que me tornei um oeirense por coração, vocação, predestinação e devoção. Mas, para continuar com essas rimas em ão, acrescento que como coroação a Augusta Câmara Municipal de Oeiras, no tempo certo de Deus, através de proposição do Excelentíssimo Vereador Neander Francisco da Silva Moura, com o beneplácito dos demais parlamentares, houve por bem me conceder o glorioso Título de Cidadão Honorário de Oeiras, que tudo farei para honrar, e que me será um galardão, do qual saberei manter o lustre. Agradeço a todos os eminentes Vereadores, aos do tempo da concessão, ocorrida em 2013, e aos deste momento da solenidade de outorga desta magna honraria, na pessoa do Excelentíssimo Sr. Espedito Martins, Presidente desta Egrégia Casa Parlamentar.

Que mais dizer? Nada mais preciso dizer, exceto repetir que agradeço, comovido, ao povo de Oeiras e aos nobres e distintos Vereadores por este áureo Título, que oficializa e enobrece para sempre a minha cidadania oeirense, que sempre porfiei em cultivar em minha acendrada oeirensidade.

(*) Discurso pronunciado no dia 06/06/2022, em solenidade da Câmara Municipal de Oeiras, no dia em que recebi o Título de Cidadão Oeirense.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

LITERATURA PIAUIENSE do Prof. Luiz Romero



LITERATURA PIAUIENSE do Prof. Luiz Romero


Elmar Carvalho


Fui ontem à noite ao SALAPI para participar do Bate-papo Literário, juntamente com outros confrades da Academia Piauiense de Letras. Antes do evento, no stand da APL, encontrei o professor Luiz Romero Lima, professor de Teoria da Literatura e de Literatura Brasileira, Portuguesa e Piauiense há várias décadas, no ensino médio e universitário, autor do importante livro Por um leitor crítico e criativo.

Tratei logo de adquirir o seu livro Literatura Piauiense, 21 edição, primorosamente editado, no formato 21 cm por 26 cm, com capa dura e muitas ilustrações ao longo de suas 344 páginas. Todos os autores são contemplados com seu retrato, síntese biográfica e alguns textos, de sorte que é também uma antologia. Pela primeira vez vi o retrato de Ovídio Saraiva, o primeiro poeta piauiense.

A obra é dividida em 8 capítulos, abordando os seguintes assuntos: Neoclassicismo (1808 – 1866), Romantismo (1866 – 1917), Fase Acadêmica (1917 – 1949), Modernismo no Piauí (A partir de 1949 até os dias atuais), Modernismo/Geração Meridiano, Modernismo/Vanguardistas, Modernismo/Grupo do Clip, Modernismo/Autores Contemporâneos.

São estudados 40 escritores, entre poetas e prosadores, nessas diferentes fases de nossa literatura, mas outros são citados ou referidos, de forma avulsa ao longo das partes dissertativas.  

O livro traz ainda exercícios, exercícios complementares, a seção Aprendendo Mais, duas listas, “por indicação de professores, alunos e bons leitores”; uma, indicando os “quinze romances piauienses de todos os tempos”, e a segunda, “as trinta outras obras piauienses”.

Portanto, é um farto manancial de informações e comentários enfeixados num belo e monumental projeto gráfico e editorial.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

PARNAÍBA – 311 ANOS DE EXISTÊNCIA


 

PARNAÍBA – 311 ANOS DE EXISTÊNCIA


Vicente de Paula Araújo Silva

Historiador e escritor


            Hoje, domingo, 05 de junho deste ano de 2022, a nossa cidade inicia a semana que registrará algumas celebrações alusivas à memória de 311 anos de sua historia, que teve início oficialmente em 11 de junho de 1711, quando foi autorizada pelo Bispado de São Luiz do Maranhão, a construção de uma igreja que abrigaria um altar com a imagem de Nossa Senhora de Mont Serrat. A partir dessa data, segundo o trâmite legal da época, a Villa de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnaíba passou a existir, e dentro de um novo ordenamento político, em 1762, passou a ser Villa de São João da Parnahiba e posteriormente, em 1844, foi elevada a condição de cidade com o nome de Parnahiba, grafia atualizada no nosso tempo como Parnaíba.

           A trajetória histórica e comprobatória da criação da Villa de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnaíba, está explicitada a seguir :

 

CAPELA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATHE DA PARNAÍBA

311 ANOS DE EXISTÊNCIA EM 11 DE JUNHO DE 2022

  

MARCO HISTÓRICO DA EXISTÊNCIA DA VILLA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATHE DA PARNAÍBA DESDE 11 DE JUNHO DE 1711

 

Imagem original de N. S do Mont Serrat em porcelana que,

vinda de Portugal,  encontra-se no altar da Igreja de Nossa

Senhora do Monte do Carmo, localizada na Praça

Irmão Dantas, em Piracuruca – Piauí.(Foto: Moraes Brito para o Jornal da Parnaíba)

 

Altar da Capela de N. S. do Mont Serrat, em Parnaíba, primeira padroeira de

Parnaíba, permanece com uma réplica da imagem esculpida pelo parnaibano Charles Santeiro

(Foto: Moraes Brito para o Jornal da Parnaíba)

 

      Após as ações de Leonardo de Sá, em 1699, nos vales dos rios Pirangí e Igaraçu, os gentios de corso entraram em luta com posseiros luso-brasileiros, na serra da Ibiapaba e vale do rio Aribê, que no Piauí recebe o nome de Piracuruca. Para resolver a situação, foi destacado o cabo de guerra João Pires de Brito, que, em 1701, participava como Sargento-Mor da tropa de Manuel Álvares de Morais Navarro, na guerra dos bárbaros na Paraíba e Rio Grande do Norte.

     Daí, o loco-tenente Fernão Carrilho, foi autorizado pelo governador do Maranhão D. Manoel Rolim de Moura a povoar e construir uma casa forte próxima ao Ceará, fato noticiado em 24/08/1702,  que provocou manifestação do Conselho Ultramarino, através de uma consulta a respeito desse evento, com data de 30 de janeiro de 1703, a favor da administração através da Capitania do Ceará[subalterna à Pernambuco], dando início ao avanço desta no litoral[Barra do Coreaú-Barra do Igaraçu] que pertencia ao Maranhão, portanto era área litorânea do atual Estado do Piauí.  Ver Doc. Maranhão: AHU_ACL_CU_009, Cx. 10, D.1055.

    Após a submissão dos nativos na já chamada Região da Parnahiba, os jesuítas da Ibiapaba, passaram a atuar com mais continuidade no norte do atual estado do Piaui. Foi quando, o Padre Domingos Ferreira Chaves, Prefeito das Missões do Ceará, solicitou em 11/03/1703, ao então Capitão-Mor do Ceará – Jorge Barros Leite - 40 índios para vir em missão à Parnahiba, conforme atesta o documento a seguir:

 


     

      Após 1703, com a chegada à região da Parnahiba, de João Gomes do Rego, preposto do Coronel Pedro Barbosa Leal, titular de terras nas margens dos rios Parnahiba, Igarassu e Pirangy, e a instalação de currais nas margens desses rios, incluindo o Longá, potencializaram a criação de gado pronto para abate e ou apto para venda nas praças de Pernambuco, Bahia e Pará. Os rebanhos eram tangidos para os seus pontos de vendas, pelas rotas de gado em caminhos longínquos e, durante os percursos em tempo duradouro, havia perdas de reses por extravios e mortes, ocasionando consideráveis prejuízos financeiros.

  Devido a essas dificuldades, João Gomes do Rego, preposto do empreendedor baiano Pedro Barbosa Leal, na administração de suas fazendas, iniciou timidamente a feitoria de salga da carne dos bois abatidos com o aproveitamento da courama, na beira do rio Igaraçu, no lugar que passou a ser conhecido como Arraial Novo.

 Dai, em 1608, foi iniciado o processo para a regularização de uma Villa, onde existia a feitoria, que, de acordo com as normas da época, teria na sua composição: o donatário Cel. Pedro Barbosa Leal, o Capitão-Mor João Gomes do Rego e um altar com a imagem de Nossa Senhora de Monte Serrathe, santa de devoção do proprietário do lugar.

 Seguindo os trâmites vigentes, a povoação teve três momentos distintos na sua criação, após a posse de Pedro Barbosa Leal:

1: Villa Nova – quando foi solicitada a patente de Capitão-Mor a João Gomes do Rego em 19/05/1708;

2: Villa de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnahiba – data da solicitação e autorização para a construção da igreja em 11/06/1711;

3: Consolidação da Criação da Villa - confirmação de João Gomes do Rego, como Capitão-Mor em 16/11/1711.

 

A data de 11 de junho de 1711, quando foi autorizada a construção da Igreja de Nossa Senhora do Monserrathe, é uma das Datas Magnas da Memória da Existência da Parnaíba, através da Lei Municipal nº 2581, de 13 de agosto de 2010, sancionada pelo prefeito José Hamilton Castelo Branco, descendente de José Lopes da Cruz I e Florência do Monte Serrathe Castello Branco, esta um das filhas de João Gomes do Rego e Maria do Monte Serrate Castello Branco.

Já neste século, em 11 de junho de 2011, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba – IHGGP, apoiado pela administração municipal da época, promoveu ampla programação alusiva aos 300 anos da memória da criação da Villa, que hoje é a cidade de Parnaíba.

    O documento (PT/TT/RGM/C/0007/48211. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 7, f.541 v), publicados em primeira mão pelo pesquisador Reginaldo Miranda e os apresentados a seguir, mostram a parte legal dos fatos narrados:

LIVRO DE PROVISÕES DA SÉ EM SÃO LUÍS (MA)

                    


SOLICITAÇÃO DE JOÃO GOMES DO REGO PARA ERIGIR A IGREJA EM 1711

  


         Documento solicitando licença para erigir a Capela de Nossa Senhora de Monte Serrathe da Parnahiba, conservado no Bispado de São Luiz, Maranhão:

     O Coronel Pedro Barbosa Leal [...] senhor da Vila Nova da Parnahiba [...] bastante [...] geral administrador [...] Rego, que ele suplicante quer fundar na sua vila e bem assim [...] que ficava dentro dos termos [...] portanto [...] pede a V. Mercê [...] seu Governador do Bispado do Maranhão lhe faça [...] conceder [...] para poder erigir a dita igreja Paroquial para [...] nomear Pároco dela, como também dos Curados [...] receberem [...] concedemos licença ao suplicante para poder [...] Paróquia de Nossa Senhora do Monte Serrathe [...] e dita Paróquia com todo o necessário de fábricas e o [...] para a dita igreja, na forma do Sagrado Concílio Tridentino. 

São Luiz,11 de junho de 1711. Barreiros

[Documento transcrito pelo Padre Cláudio Melo].

 

 

 

 

 AUTORIZAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA IGREJA

 




        Diante o exposto, nesta semana, a comunidade parnaibana contando com o apoio de alguns órgãos ligados à cultura, estará participando de eventos, que culminarão no dia 11 [sábado], celebrando 311 anos de Memória da Existência da Parnaíba, a nossa invicta cidade, como gosta de dizer o nosso quase centenário Dr. Lauro Andrade Correia.

PHB, 05/06/2022 – Vic.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Elmar Carvalho, Cidadão de Oeiras

Neander Francisco (autor da proposição) e Espedito Martins (presidente da Câmara Municipal) entregam a Elmar Carvalho o diploma do Título de Cidadão Oeirense

Elmar Carvalho entrega a Sthefano Ferreira o exemplar único da edição artesanal feita pelo poeta e editor Edson Guedes de Moraes, para ser custodiado pela Biblioteca Municipal de Oeiras
Flagrante da solenidade de entrega de Título de Cidadania Oeirense a Margarete Coelho, Igor Martins e Elmar Carvalho 
Capa do livro Oeiras na Alma e no Coração, de Elmar Carvalho, que foi entregue a todos os presentes na solenidade
Os três novos oeirenses: Elmar Carvalho, Igor Martins e Margarete Coelho

 

Elmar Carvalho, Cidadão de Oeiras

   

Benjamim Santos

Dramaturgo, escritor e poeta


Hoje, 6 de junho de 2022, o poeta Elmar Carvalho recebe o título de Cidadão Oeirense, a ser concedido pela Câmara Municipal de Oeiras, a mais carregada de História das cidades do Piauí.

Ah, que título bem doado! Que título a ser bem recebido!

Que eu saiba, nenhum outro escritor e poeta, não nascido em Oeiras, demonstrou oralmente e por escrito tanta afeição por esta cidade que foi a Primeira Vila/Cidade da Província do Piauí e também a Primeira Capital do Estado. 

Esse afeto do Elmar foi uma afeição derivada do forte impacto emocional que a cidade provocou no poeta, uma afeição que também me atingiu durante os (curtos) três dias em que estive em Oeiras, quando participei do Festival Cultural, coordenado pelo secretário municipal de cultura, Stefano Ferreira, muito bem assessorado pelo historiador Pedro Junior, que logo se tornou meu amigo; três dias em que Carlos Rubem, meu afetuoso Biu, me concedeu todas as singelezas oeirenses.

Percebo agora que o que causa essa intensa emoção ao visitante de primeira viagem a Oeiras é inicialmente a impressão-sensação de estar-se inserindo numa paisagem de clima ancestral, de intenso ardor histórico, pois tudo o que há de preservado da antiga Vila e Capital é tão assinalado por sua historicidade que nos faz, como em Ouro Preto, sentir-nos penetrando num certo passado do Brasil. 

Elmar, de início, fez-se brilhante ao escrever e publicar o Noturno de Oeiras, que considero um dos mais belos poemas da Literatura Brasileira referentes a uma cidade secular e que assinala um certo parentesco com o Romanceiro da Inconfidência de Cecília, mesmo sem métrica e sem rimas.

A mim, que também afundei na noite de Oeiras, os mistérios históricos que avassalaram Elmar também me atingiram. 

Hospedado em hotel diante da Praça das Vitórias, na Praça das Vitórias mergulhei no meu noturno de Oeiras: as mesmas paragens diante dos meus olhos, os mesmos fantasmas vistos por Elmar (ou talvez fossem outros mas com os mesmos mistérios), tudo me afetou por duas noites, minhas duas únicas noites de Oeiras, guardadas em mim por estes vinte anos de século vintium.

Por isso, saúdo hoje meu amigo Elmar Carvalho por seu titulo de filho de Oeiras e, sobretudo, saúdo Oeiras por seus tantos séculos de brasilidade,  essa Oeiras do meu parnaibano bem querer, Oeiras que há vinte anos habita meu coração!   

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Elmar Carvalho recebe hoje o Título de Cidadão Oeirense

 



Elmar Carvalho recebe hoje, na Câmara Municipal de Oeiras, o Título de Cidadão Oeirense, em solenidade híbrida (presencial e virtual), às 19 horas. A honraria foi uma proposição do Vereador Neander Francisco da Silva Moura. 

O homenageado encerrou sua carreira de Juiz de Direito como titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Oeiras, ao aposentar-se em 19 de dezembro de 2014, com mais de 39 anos de serviço público. Seu poema Noturno de Oeiras se encontra afixado em placa metálica no prédio do Fórum local.

A solenidade será transmitida (ao vivo) pelas plataformas:

You Tube: @camaramunicipaloeiraspi

Facebook: @camaramunicipaloeiraspi   

domingo, 5 de junho de 2022

Rompimento

Fonte: Google/Pinterest

 

ROMPIMENTO


Elmar Carvalho

 

Dedo em riste,

muito feroz e muito triste,

o homem, grosso e imundo, falou:

– Lembra-te, tu já lambeste meu cu!

A mulher, com gestos abstratos

feitos do mais singelo recato,

elegante e delicada, retrucou:

– Lambi, mas não lambo mais ...

O homem quedou-se transformado

em pesada estátua de pedra e dor.

A mulher se foi

            leve e evanescente –

anjo que se libertou.

sábado, 4 de junho de 2022

Visitante ilustre

Felipe Mendes no hall do Hotel Moisés Reis (SESC/Oeiras), ao lado de uma placa com o poema Noturno de Oeiras, de Elmar Carvalho


Visitante ilustre 


Carlos Rubem 



Hoje pela manhã (04.06.2022), tive o prazer de recepcionar o economista Felipe Mendes, que dispensa apresentação, mas não me furto de dizer que se trata de um velho amigo de Oeiras.


Juntamente com o seu sobrinho Marcos Mendes, Juiz de Direito da nossa Comarca, o encontramos no Posto Santa Isabel, cujo proprietário, Batista Barroso, deu-lhe boas vindas.


Em seguida, adrede agendado, fomos conhecer a SAMEL, destacada, nacionalmente, empresa de exportação de mel. Pena que o conterrâneo Samuel Araújo, dono desse grande empreendimento, não pode nos receber, uma vez que está em Luís Eduardo Magalhães, Bahia, participando de uma feira do ramo agronegócio.


Levei-o, também, a conhecer Maurício Araújo, 82 anos, que, apesar de sua cegueira, continua na labuta de sua serraria. Pai do Samuel. Aprazível figura humana!


O ilustre visitante veio à nossa cidade para assistir a inauguração do Memorial Major Doca Nunes, na noite de hoje, e, amanhã, fazer a cobertura fotográfica da nossa tradicional Festa do Divino.


Na segunda-feira vindoura (06.06), proferirá uma palestra, às 10h, no IFPI - Campus de Oeiras, subordinada ao tema “Desenvolvimento do Piauí: realidade e perspectiva”. Na oportunidade lançará dois livros: “Políticas Públicas para o Desenvolvimento do Piauí (1976 - 1986)” e “ Economia e Desenvolvimento do Piauí”. Este evento ocorrerá sob a chancela da Fundação Nogueira Tapety - FNT.


À noite da mesma segunda-feira, prestigiará a solenidade de entrega do Título de Cidadania Oeirense ao poeta Elmar Carvalho, seu colega da Academia Piauiense de Letras.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

O boi de paneiro


 

O boi de paneiro


Pádua Marques

Romancista, contista e cronista

 

Chegando junho lá íamos nós os meninos, agora se avizinhando as férias do meio do ano nas escolas, à procura de paneiros ou caixas de papelão ainda em bom estado pra se fazer o boi e sair dançando embaixo como faziam os homens grandes. Porque naquele tempo ainda se achavam paneiros e caixas velhas nas portas das quitandas e dos armazéns lá de dentro da rua.

Agora já não havia mais perigo de chuvas, que naquela altura do ano ficaram pra trás em maio e já se sabia onde haveria de ter aluá. E a gente saía procurando caixa de papelão das grandes, paneiros, pedaços de varas pra montagem do esqueleto de nosso boi. Depois vinha a cobertura, um pano qualquer de chita, limpo, de bom uso e sem buracos ou até uma rede de dormir. Depois eram colocados os chifres, que podia ser um pedaço de vara, um mulambo pra o rabo, feita a pintura, essa última quando se podia,

Mas voltando pra armação, o paneiro era o melhor esqueleto pra um boi de meninos porque era feito de palha de palmeira, daqueles que as embarcações traziam com farinha de puba ou farinha branca, vindas da Água Doce e da Tutoia, das brenhas do Maranhão.

Tinha uma ciência a escolha do paneiro de palha, uma engenharia de meninos. É que o paneiro tinha naquele tempo, pouco mais de um metro. A boca com a sua abertura larga e flexível, se ajustava direitinho, tinha molejo e até facilitava a capa de cobertura e a entrada do dançarino pra dentro do boi. E qualquer um de nós, geralmente o mais afoito e resistente, era o escolhido, o que iria brincar o tempo todo embaixo quando a gente saísse pela rua e aos gritos e cantorias e toques de tambores e maracás de lata.

E aquela brincadeira e cantoria dos meninos chamava gente nas portas das casas e nas quitandas. E às vezes até que de dentro de alguma delas saía alguma pessoa de bom coração pra abrir a burra e nos dar uma cédula de dinheiro, que mais lá na frente iria servir pra compra de bombom ou um pedaço de rapadura, uns traques pra se soltar perto das fogueiras grandes de Santo Antonio, São João e São Pedro.

E os maracás feitos de latas de goiabada, de lata de Leite Ninho, lata de sardinha, cheias de pedrinhas de piçarras, tudo aquilo iria se juntar aos tambores feitos de caixas de papelão mais resistentes e que pudessem aguentar pancada por um bom tempo. E a gente saía no início das noites pelas ruas cantando e o boi dançando e as mulheres e as crianças vinham ver aquele boi de meninos, com seus caboclos reais, o Pai Francisco, o Amo, o Folharal e a Catirina.

A Catirina no boi de meninos era a personagem mais difícil de se conseguir. Tinha que ser um menino sem vergonha de se vestir de mulher e de pintar a cara, colocar um pano na cabeça. Mas acabava dando certo naquele que também mostrava alegria e improvisação. Aí vinha o Folharal, seu companheiro de estripulias, fingindo e forçando grossura na voz, armado com uma bola de meia pra assustar e afastar as pessoas, a figura mais temida pelos meninos pequenos e as moças.

Era se ouvir longe uma batida de tambores e caixas no início da noite e todo mundo já sabia reconhecer que era um boi de meninos. E os apitos, as vozes finas e gritantes com algumas mães ou pais até acompanhando aquele cortejo, lá se danavam pelas ruas dos bairros mais próximos, procurando contrato pra dançar uma meia hora nalguma porta de casa ou quitanda, enquanto o boi dos homens feitos, mais solene e rico, mais bem acabado vinha em outro dia ou mais tarde, principalmente nos dias consagrados aos três santos de junho.

E os donos da casa, as mulheres, os vizinhos, as moças, os velhos de barbas por fazer, naquelas noites de junho eram de ficar ali, de queixo caído, vendo aquela destreza e alegria dos meninos, a cantiga de Pai Francisco, a dança, os rodopios do boi de paneiro. E as crianças pequenas querendo correr com medo do Folharal ou até por maiores cuidados das mães, vinham tocar nos chifres daquele objeto esquisito.

Passada a dança e pago pela apresentação, sempre uma cédula de pequeno valor, o boi saía, ganhava a rua com seus caboclos reais, seu Pai Francisco, o Amo, Folharal e a Catirina. Iam à procura de um novo terreiro de casa, um lugar pra sua nova exibição. Antes das dez da noite, era pra estar todo mundo em casa e dento da rede. E o boi de paneiro iria dormir lá nos fundos da casa ou encostado na parede da cozinha pra o quintal. Iria noutra noite escura sair pelas ruas levando barulho e alegria enquanto durasse o mês de junho.