| Charge criada por Gervásio Castro |
Música.
LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta).
PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.
https://suno.com/s/iJQjqhpqGE3B3m30
Poeta, contista, cronista, romancista, memorialista e diarista. Membro da Academia Piauiense de Letras. Juiz de Direito aposentado. *AS MATÉRIAS ASSINADAS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES, E NÃO TRADUZEM OBRIGATORIAMENTE A OPINIÃO DO TITULAR DESTE BLOG.
FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA
Elmar Carvalho
Após cerca de um ano, retornamos
ao velho fórum da Comarca de Regeneração, encerrados os serviços de reforma. Na
parte da instalação elétrica, um dos interruptores, quando acionado, não
desliga a luz, o que parece encerrar algum mistério ou algum erro na execução
da rede interna. Por outro lado, disse-me a Lúcia, secretária da Comarca,
pessoa séria, discreta, zelosa e dedicada ao trabalho, que por duas vezes
observou que o split, embora ela tenha certeza de que o desligou, após o
término das audiências, voltou a funcionar, sem ser acionado por mão humana, ao
menos deste mundo.
Contei o fato ao engenheiro, e um
tanto por chiste, disse-lhe temer fosse obra de algum fantasma brincalhão. Ele
me respondeu que a ocorrência deveria ser mais bem investigada. A comarca, em
sua primeira fase, remonta a mais de século. Daí ser possível que o espectro de
um velho magistrado ou de um zeloso serventuário possa ter se ressentido do
calor e tenha religado o aparelho de ar-condicionado, para mais confortavelmente
executar invisível trabalho, já que não se nota aumento na produtividade.
Sei que a Inglaterra é famosa
também por causa de seus fantasmas, e que todo vetusto palácio ou castelo que
se preze tem os seus habitantes imateriais, que abrem e fecham janelas e
portas; que ligam e desligam luzes e torneiras, e existem até os que arrastam
correntes por entre ais doloridos. Alguns escritores povoaram seus contos,
poemas e romances com personagens vindos do outro mundo.
No momento em que eu tratava
desse assunto, um servidor municipal, o professor Eudo, contou que em certa
casa da cidade um dos moradores ouviu um casal de fantasmas a conversar. O
masculino perguntou à mulher se ela não queria tomar banho, tendo ela respondido
que não, pois estava com frio. O fantasma/marido, então, retrucou:
– Pois eu vou tomar, pois onde
nós estamos faz muito calor!
Logo em seguida, ouviu-se o
barulho de água no banheiro. Não se soube ao certo onde o casal estaria, no
outro lado do enigma, se no inferno, ou se no purgatório.
O que mais me causou espécie foi
o fato de que a suposta atividade espiritual teria acontecido durante o dia.
Esses fenômenos, historicamente, sempre acontecem à noite, que é mais propícia
ao mistério, ao que é escondido, ao que não deve ser revelado. Ao que parece,
já não se fazem mais fantasmas como antigamente, assim como também os gatunos
parecem ter mudado os seus hábitos. Outrora, os ladrões pareciam ter vergonha
de sua “profissão”, e só atuavam à noite, às ocultas ou à socapa. Eram
verdadeiros artistas, senão mesmo ilusionistas, a fazer desaparecer objetos dos
bolsos dos outros, e trazê-los para suas próprias algibeiras. Eram hábeis em
escalar muros, em esquivar-se de cães ferozes e em driblar as armadilhas dos
vigias.
Hoje, perplexo, vejo que os
fantasmas exercem suas atividades à luz do dia e que os bandidos nos assaltam
em pleno meio-dia, à vista de todo mundo, como se sua ação fosse um espetáculo,
que devesse ser filmado e observado por todos os circunstantes.
6 de abril de 2011
| Imagem criada pela IA GPT |
MARÍTIMA
Elmar Carvalho
Do mar eu trouxe
o vento que dança
em torno de meus cabelos.
Trouxe este meu cheiro
de sal, mariscos e maresia.
Vaqueiro fui e fazendeiro
de estrelas-do-mar que
subiram ao céu para formar
constelações e galáxias.
Nas pontas agudas de meus dedos
cintilam fogos-de-santelmo.
Meus olhos têm o brilho
que roubei das ardentias.
Os relâmpagos das procelas
pousaram nas minhas mãos
e nelas se aninharam.
Do ritmo do mar eu trouxe
os meus gestos e o meu jeito de falar.
Num lance de búzios
joguei minha cartada final
em que fui anjo terminal.
Do mar eu trouxe a cantiga
do vento na voz dos búzios.
Sobre o dorso de alados cavalos-marinhos
pesquei sereias malévolas que me
encantaram e depois fugiram.
No vai-e-vem das ondas
busquei o meu gesto de
posse e devolução.
Trouxe o meu beijo temperado
no salamargo de suas águas.
Trouxe tesouros sepultos
nas covas do coração.
Com o mar aprendi meu modo
de caravela: meus dedos
são filamentos que machucam
sem querer, que ferem
sem ter por quê.
Trouxe caracóis que se (con)fundiram
com os caminhos labirínticos que trilhei.
Louros, nunca os tive,
exceto algas em meus cabelos.
Arrebatado por navios fantasmas
conheci várias e inefáveis dimensões.
Nadei contra as correntes marinhas,
mas a elas cansado me entreguei,
despojado da púrpura e do cetro
com que havia lutado.
Trouxe do mar as conchas ilusórias
– multiformes e multicores –
com que minha vida enfeitei.
Mas sobretudo trouxe a vida
na alegria das chegadas
e na tristeza das despedidas.
| Escritor e magistrado William Palha Dias |
VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO
Elmar Carvalho
No sábado passado, após a reunião
ordinária da APL, um grupo de acadêmicos foi visitar o confrade William Palha
Dias, que já não frequenta o sodalício por causa de doença. Além deste
diarista, faziam parte da comitiva o nosso presidente Reginaldo Miranda, Manoel
Paulo Nunes e Manfredi Mendes de Cerqueira. Um pouco depois, chegou o professor
José Júlio Martins Vieira, filho do grande poeta Júlio Antônio Martins Vieira, autor do célebre livro Canto
da Terra Mártire, que é uma espécie de épico do calcinado sertão, de nossa
agreste e adusta caatinga.
Quando fui titular da Comarca de
Ribeiro Gonçalves tive a satisfação de sugerir o nome do bardo, que ali havia
sido juiz, ao Tribunal de Justiça do Piauí para designar o fórum da remota
localidade, em que também foi magistrado o mestre do conto, Fontes Ibiapina,
autor de Cidade sem Reboco, que conheci em Parnaíba, onde ele exerceu a
magistratura; conheci-lhe também a vasta biblioteca, instalada num sobrado da
rua Pedro II. A sugestão caiu em terreno fértil, porque o desembargador Osíris
Neves de Melo, então corregedor-geral da Justiça, tinha admiração pelo poeta e
apreço pelo seu filho, de modo que foi aprovada por unanimidade.
O confrade Humberto Guimarães é
filho daquele município, que já foi maior do que o estado de Sergipe, e
escreveu a saga de sua gente, entre as quais a obra Um Município do Tamanho do
Mundo. Três acadêmicos fomos juízes
nesse rincão: Martins Vieira, Fontes Ibiapina e este escriba. O nosso Palha
Dias, embora seja filho de Caracol, tem vários parentes em Ribeiro Gonçalves,
tendo sido seu nome dado à biblioteca da Fundação Leôncio Medeiros, criada e
dirigida pelo amigo Adovaldo Medeiros.
Há mais de duas décadas conheço o
escritor Palha Dias, pois desde o início dos anos 1980 passei a frequentar a
APL, quando era seu presidente A. Tito Filho. Fui à grandiosa festa de seus
oitenta anos de vida. Hoje, ele ultrapassou os noventa. Muitas vezes lhe ouvi a
palestra alegre, lhe testemunhei a verve jocosa ao sabor do improviso, e o
vasto repertório de casos anedóticos, em que era mestre insuperável.
Por ocasião da publicação de seu
livro Memorial de um Lutador Obstinado, escrevi um pequeno artigo em que lhe
reconheci os méritos de um homem que soube conquistar o seu lugar ao sol, e as
suas virtudes de contador de histórias interessantes, sejam verdadeiras ou
fictícias. Sua esposa, a professora e escritora Maria das Graças, disse-me que
ele é visitado diariamente pelos filhos, o que revela a estima e respeito que
eles lhe dedicam.
O professor Paulo Nunes,
regenerense ilustre, e o Reginaldo Miranda, que se fez regenerense por título
de cidadania e por ter se casado com regenerense, lembraram que três juízes da
velha Comarca haviam ingressado na Academia Piauiense, no caso, os contistas e
romancistas Palha Dias e Oton Lustosa, e este diarista e poeta.
Aproveitando o momento evocativo
e saudosista, o autor de Geração Perdida, que não tem nada de perdida,
porquanto deu filhos brilhantes ao Piauí, entre os quais ele próprio,
perguntou-me se eu já fora conhecer as nascentes do Mulato. Respondi-lhe que
sim, e que me batizara a mim mesmo, usando uma providencial cuia que levara, ao
descer as suas íngremes barrancas, em lembrança dos índios trucidados.
Para coroar a visita e a evocação
da Vila de São Gonçalo da Regeneração, e seguindo as pegadas do anfitrião, que
era, como já disse, um exímio contador de casos anedóticos, o professor Manoel
Paulo Nunes, dando-lhe um cunho de quase tertúlia literária, narrou um caso
engraçado, com que encerrarei este registro. Mais de meio século atrás, fazer
uma viagem, mesmo de carro, de Regeneração a Teresina era quase uma aventura,
em virtude das ladeiras, dos areais, dos atoleiros e outros percalços.
Na década de 40 e 50 do século
passado, poucos regenerenses viajavam a Teresina. Entre esses poucos
aventureiros, José Moraes viajou à capital, para resolver algum assunto de seu
interesse pessoal, e terminou demorando por cerca de seis meses, o que não era
comum na época, a não ser em se tratando de estudantes, que ficavam durante
todo o período letivo, só retornando nas férias. Era José Moraes um operoso
operário, um homem de sete instrumentos, como se dizia então, ou um
polivalente, como se diz hoje. Exercia várias profissões, não sei se todas com
a mesma competência, ou se existia alguma de sua especial predileção, de seu
mais perfeito domínio.
Vendo os costumes e as fatiotas
da capital, quando retornou a Regeneração passou a envergar um indefectível
terno de linho branco, a combinar com os sapatos igualmente brancos. Depois de
algum tempo, começou a relaxar no uso da indumentária, e já nem sempre andava
imaculadamente em alvas vestes. Perguntado sobre o motivo do aparente desleixo,
respondeu de plano:
– O meio não “compite” meu
esforço!
Naturalmente, queria dizer que a
sua luta em dar bom exemplo no trajar, como um novo árbitro da elegância, não
estava tendo seguidores. Demos, todos, forte gargalhada, e encerramos a visita
ao mestre Palha Dias.
5 de abril de 2011
PAISAGEM MARINHA
Elmar Carvalho
Fecho os olhos
e encosto a concha do búzio
na concha de minha
orelha
e escuto o ritmo frenético
do
mar
ou lhe ouço o rouco ronco rolado
de ondas paradas.
Fecho os olhos e escuto
a
voz do búzio
e de dentro de sua concha
de cornucópia surgem
ondas, espumas e areias,
peixes, corais e caracóis,
alados cavalos-marinhos
e estrelas-do-mar e do ar
em galáxias de a(r)mar.
(Meu coração
marinho sonha com sereias,
ilhas, coqueiros e veleiros.)
De dentro
da concha do búzio
sai um vento
recendente de maresia
que me
leva/lava/lavra
como se eu fora um
fruto do mar.
Charge de Gervásio Castro. Nela, aparecem Gervásio, Elmar e Fernando di Castro.
HIPERTENSÃO E REBATE FALSO
Elmar Carvalho
O amigo e grande chargista
Gervásio Castro, parnaibano/carioca e flamenguista fervoroso, mandou-me um
e-mail, em que diz que circulou notícia em Parnaíba pela qual eu teria tido um
problema cardíaco, inclusive havendo sido internado no ITACOR, mas que o
Canindé Correia teria esclarecido não ser bem assim; que eu teria tido apenas
um aumento da pressão arterial. A verdade é que fiz exames e consulta médica,
mas jamais se cogitou de internação.
No bilhete internético, no qual
se encontra anexada uma excelente charge de sua autoria, o Gervásio me dá as
boas-vindas ao Clube dos Hipertensos. Na ilustração, digna dos maiores artistas
plásticos do Brasil, estamos retratados ele, seu irmão Fernando Castro,
arquiteto talentoso e igualmente chargista da melhor qualidade, e este
diarista, já como neófito da agremiação.
Em razão disso, liguei para o dr.
Itamar Abreu Costa, para saber se, diante do resultado dos exames e do meu
histórico, eu já poderia ser considerado um hipertenso, e como tal ser admitido
na referida confraria, com direito ao batismo de pelo menos três cálices de
vinho tinto. O cardiologista foi peremptório em me desenganar; não será desta feita que poderei ser iniciado
na agremiação, pois eu tive um aumento de pressão, provavelmente por causa de
circunstâncias alimentícias, porém não poderia ainda ser considerado um
hipertenso.
Avisarei o amigo Gervásio Castro
de que ele terá de me aguardar um pouco mais, porquanto, segundo Itamar Costa,
ainda não alcancei a “pontuação” necessária. Contudo, pensando bem, estou com a
leve impressão de que o semáforo da malvada e discreta doença já começa a me
acenar com sua luz amarela.
30 de março de 2011
| Imagem criada pela IA GPT |
O ÚLTIMO GALO
Elmar Carvalho
Quando, por uma curta temporada,
fui morar na zona rural, passei a prestar atenção no canto dos galos. Ficava
alegre ao ouvir esse cantar vibrante, metálico, que parecia uma trombeta
anunciando o amanhecer. Ao ouvi-lo, sabia que o dia vinha chegando, e que logo
a vida ativa começaria. Com a alvorada dos galos, eu tinha a certeza de que os
fantasmas bateriam em retirada, e já não iriam assombrar ninguém. Esses
animais, por alguns, são vistos como guerreiros, por causa da crista vistosa, a
lembrar um elmo, do bico adunco, como de ave de rapina, e sobretudo por causa
dos esporões agressivos, que ferem como punhais, que cortam como esporas, que
dilaceram como cilícios.
São associados a vigias, por
causa da corneta denunciadora de seu canto. Por causa do episódio bíblico, em
que Cristo disse a Pedro que este o negaria três vezes, antes que o galo
cantasse, naquele dia triste e de mau presságio, parecem denunciar a fragilidade
e a pusilanimidade do homem. Por isso, galos metálicos são colocados nos
campanários das igrejas, como advertência para que não reneguemos Cristo
novamente, ou, talvez, por causa de outro simbolismo que desconheço. Mas sempre
significando que devemos manter vigilância sobre nós mesmos. Vigiai e orai para
que não entreis em tentação – disse Jesus. O galo, como um sentinela vivo no
seu poleiro ou como simulacro de metal nos mirantes ou nas torres dos templos,
há de nos lembrar a negação de Pedro e a admoestação de Cristo.
Adolescente, creio que ao cursar
o antigo ginásio, li o poema de João Cabral de Melo Neto, afirmando que um galo
sozinho não teceria uma manhã, mas que sempre haveria a necessidade de outros
galos. Foi um dos meus primeiros grandes contatos com a poesia moderna, uma vez
que eu já conhecia relativamente bem os poetas do romantismo, do parnasianismo
e do simbolismo. Julgo não ter tido nenhuma dificuldade em interpretar o poema
de João Cabral. Entendi bem as suas rupturas sintáticas, as supressões de palavras,
como se as frases e os versos estivessem truncados, mas na verdade apenas
“enxugando” o texto, através de elipses sem nenhum enigma. Achei criativos e
apropriados esses cortes, porém só “materializei” as metáforas há poucos dias.
Foi quando, em certa madrugada,
ouvi uma alvorada festiva de galos, aqui em Regeneração. As aves, por razão que
desconheço, estavam excepcionalmente inspiradas e ativas. Um canto era
desferido aqui perto, outro respondia mais além. Um vinha do nascente, o outro
parecia estourar no poente; um à esquerda, o seguinte à direita. De repente, a
cantiga amiudou, e eu já não sabia ao certo de onde provinha o alvoroço
musical.
Houve um momento em que os
cocorocós pareceram formar uma mesma e única massa compacta, a se
entrecruzarem, se “entretendendo” como no poema. Então, em minha mente, o poema
se tornou uma imagem, e senti que os cantos formaram fios, que formaram teia;
teia, que formou tecido; tecido, que formou tenda; tenda, que formou um circo,
onde todos os galos se esgoelavam. Porém, os fios se foram desfiando, se
esgarçando, se desfazendo, quando foi minguando o número dos galos que
cantavam.
Até que o sol estrangulou o canto na garganta do último galo.
29 de março de 2011
| Imagem criada pela IA GPT |
SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO
Elmar Carvalho
Ingressei na Superintendência Nacional do Abastecimento –
Delegacia Regional do Piauí – SUNAB/DEPI no dia 10 de agosto de 1982, quando
tinha 26 anos de idade. Dos cerca de 25 funcionários em atividade no dia em que
tomei posse, só restam vivos três, talvez quatro. Exerci o cargo de Inspetor de
Abastecimento e Preços, posteriormente renomeado para Fiscal.
Sua sede ficava na Rua Eliseu Martins, no cruzamento com a
Rua Quintino Bocaiuva, no começo da ladeira do antigo Alto da Moderação, ou
Praça Demóstenes Avelino, mais conhecida como Praça do FRIPISA. Meu chefe
imediato era Walter e Silva Mendes, que cursara Medicina até o quarto ano e
fora amigo de meu pai na adolescência. A delegada era a Dra. Francisca Dalva
Marques Assunção.
Após os sucessivos planos econômicos, destinados a debelar a
estratosférica inflação, a sede da delegacia regional do órgão foi transferida
para o prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, situado na Praça Barão do
Rio Branco, cujo busto de bronze foi surrupiado de seu pedestal anos depois.
Após esses planos, a delegacia da SUNAB teve vários delegados e delegados
substitutos.
Creio que, em 1995, eu e vários outros funcionários da
autarquia, por força de decisão judicial transitada em julgado, passamos a
receber uma vantagem salarial destinada a repor dois percentuais da inflação
que o governo federal havia expurgado do reajuste de nossos vencimentos. Meses
depois, por meio de ação rescisória, esse acréscimo foi retirado de nossos
salários, o que representou um duro golpe, uma vez que eles já se encontravam
bastante defasados, no jargão da época.
No começo de 1997, fui convidado pelo deputado estadual
Humberto Reis da Silveira, que iria comemorar 50 anos de atividade parlamentar
ininterrupta, para lhe prestar assessoria particular, sem qualquer vínculo
funcional com a Assembleia Legislativa. Tendo em vista possíveis entraves
burocráticos, pediu-me que entrasse em gozo de férias e requeresse minha
licença-prêmio, a que fazia jus em razão do tempo de serviço.
Assim fiz e pude prestar-lhe minha assessoria. Devo dizer que
a gratificação que dele recebi serviu para minorar os efeitos da redução
salarial acima referida. Dessa forma, auxiliei-o em diversos serviços, mormente
na elaboração do discurso que foi proferido em Jaicós, na solenidade magna de
comemoração de seus 50 anos como deputado estadual.
Agora vem o caso enigmático, motivo maior desta minha crônica
memorialística. Afirmo que desejo ser imparcial e objetivo e que não pretendo
fazer nenhum julgamento sobre o episódio. Deixarei que o leitor tire suas
próprias conclusões.
Quando minha licença especial estava prestes a terminar, a
SUNAB entrou em processo de extinção. Imediatamente, os fiscais foram afastados
de suas funções. Determinou-se, inclusive, que devolvessem todo o material de
trabalho, tais como blocos de formulários de autos de infração, comprovantes de
fiscalizações e notificações, bem como suas credenciais de identificação.
Mesmo estando impedido de exercer as funções inerentes ao
cargo de fiscal, fui falar com o delegado da época a respeito de minha
situação, inclusive sobre minha assessoria ao deputado Humberto Reis.
Ele então chamou o chefe da Seção de Pessoal e determinou que
eu fosse designado para compor uma das Comissões Especiais afetas ao processo
de extinção da autarquia. O chefe da seção lhe respondeu que isso não seria
possível, pois havia determinação do Superintendente no sentido de que nenhum
fiscal fosse designado para qualquer serviço interno.
Diante desse empecilho, o delegado imediatamente mandou que o
chefe da Seção de Pessoal minutasse um ofício colocando-me à disposição da
Delegacia do Ministério da Fazenda.
Devo esclarecer que minha relação com esse delegado era
amistosa, e eu até o considerava um quase amigo. Ele gostava de conversar
comigo. Ainda assim, fiquei com a leve, levíssima impressão de que pretendia me
prejudicar ou "quebrar" o meu "bico".
Farei uma breve pausa para criar um clima de suspense e
contar, resumidamente, um caso semelhante ocorrido com um saudoso amigo.
Meu amigo e mestre José Ribamar Freitas, professor do Curso
de Direito da Universidade Federal do Piauí, de quem fui aluno, requereu uma
vantagem a que julgava ter direito na repartição previdenciária em que era
lotado. Em virtude da morosidade burocrática e dos Correios da época, resolveu
levar pessoalmente o processo, viajando de avião até a cidade do Rio de
Janeiro.
Foi diretamente ao chefe responsável pelo caso. Após
explicar-lhe a situação e justificar a urgência, entregou-lhe o processo. O
chefe imediatamente começou a despachar. Como de praxe, carimbou e assinou o
despacho. Surpreso com tamanha presteza, algo insólita na burocracia
brasileira, o professor Ribamar Freitas perguntou-lhe se poderia ler o
despacho.
Atônito e estarrecido, constatou que o burocrata determinava
a devolução do processo à repartição de origem, para que fossem cumpridos os
trâmites burocráticos de praxe.
Retomo agora o fio de meu relato principal.
De posse do referido ofício, que me colocava à disposição da
Delegacia do Ministério da Fazenda, dirigi-me à Seção de Pessoal dessa
repartição, que funcionava no primeiro ou no segundo andar acima do nosso. A
chefe da seção, após ler o documento, sem delongas nem titubeios, disse que não
havia vaga e que eu poderia ir embora, devendo aguardar comunicação quando
surgisse alguma vacância.
Não me fiz de rogado. Fui embora e só retornei alguns meses
depois, no dia 19 de dezembro de 1997, para pedir minha exoneração e assumir,
no mesmo dia ou no seguinte, o cargo de juiz de Direito, do qual me aposentei
exatamente 17 anos depois.
Desde então, guardo a convicção de que, mais uma vez, Deus me
livrara do mal e da injustiça.
| Foto antiga da Praça da Graça, vendo-se o prédio da ECT. A foto foi melhorada pela IA GPT. |
O FAMIGERADO SNI E EU
Elmar Carvalho
Uns trinta dias atrás, o escritor, jurista e historiador
Marcelino Leal Barroso de Carvalho, meu professor no curso de Direito e meu
confrade na APL, perguntou-me se eu havia sido fichado no SNI. Respondi-lhe que
não tinha conhecimento disso.
Coincidência ou não, há quatro dias recebi, por WhatsApp, um
arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI), enviado pelo historiador
parnaibano Jedson Martins, no qual, a meu respeito, constava o seguinte:
“b. Após o Comício [de Luís Inácio da Silva – Lula], foi
realizada uma reunião na residência do estudante JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO
(líder estudantil e PT/PARNAÍBA), onde o mesmo recebeu orientações para a
organização do PT:
1. Buscar apoio de grupos já existentes na área, como, por
exemplo:
- Pessoal do Movimento Contra a Carestia;
- Pessoal das Pastorais da Terra;
- Pessoal das Pastorais da Juventude;
- Pessoal dos Encontros de Casais;
- Os movimentos eclesiais de base; inclusive foi ressaltada
pelo LULA a importância dos movimentos eclesiais de base, por trás dos quais
aconselhou que se articulasse todo o trabalho de conscientização popular, com o
respaldo da Igreja.”
Essa parte que me diz respeito até me faz lembrar um célebre
ironista que, dirigindo-se a um enciclopedista, teria dito:
— Cavalheiro, a sua definição seria perfeita, se não fosse
por três exceções: caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda para
trás.
O trecho que transcrevi acima está eivado de inverdades ou de
meias verdades. Não desejando assumir um protagonismo que não tive, outra
alternativa não me resta senão esclarecer os fatos, dentro da verdade, como
passo a fazer.
A aludida reunião, que, segundo o CIE/SNI, teria acontecido
em 30/08/1980, após o comício, não ocorreu em minha casa. Na época, eu morava
com meus pais e mais seis irmãos no apartamento funcional da Empresa Brasileira
de Correios e Telégrafos (ECT), de, no máximo, 110 metros quadrados. Além da
limitação do espaço, meu pai jamais permitiria uma reunião de política
partidária nesse apartamento, uma vez que era o chefe da ECT em Parnaíba, e
isso poderia acarretar-lhe graves consequências.
Eu não era e não poderia ser filiado ao PT de Parnaíba, como
consta do documento acima referido, uma vez que meu título eleitoral pertencia
à Zona Eleitoral de Campo Maior. Em 10/08/1982, passei a residir em Teresina e,
após essa mudança, transferi meu título de eleitor para esta capital. Aliás, a
bem da verdade, devo dizer que nunca fui filiado a partido político algum.
Quanto às recomendações que teriam sido feitas diretamente a
mim, não tenho qualquer lembrança delas, nem poderia aceitá-las, muito menos
cumpri-las, pois era servidor da ECT, trabalhando em expediente duplo,
inclusive aos sábados (no turno da manhã), e, à noite, frequentava o curso de
Administração da UFPI – Campus Ministro Reis Velloso.
No segundo semestre do ano anterior (1979), na qualidade de
presidente do Diretório Acadêmico "3 de Março", do mesmo campus da
UFPI, discursei no grande comício que marcou o retorno do ex-governador Chagas
Rodrigues (Francisco das Chagas Caldas Rodrigues), após o término da suspensão
de seus direitos políticos.
Fui um dos primeiros a falar, no coreto da Praça da Graça,
onde se encontravam os demais oradores, entre os quais Ulysses Guimarães,
Franco Montoro, Almino Afonso e Miguel Arraes, próceres do MDB nacional. Entre
os piauienses, estavam presentes João Mendes Nepomuceno, Celso Barros Coelho,
Roberto Broder, José Alexandre Caldas Rodrigues e, claro, Chagas Rodrigues, a
grande estrela do comício, que, poucos anos depois, foi eleito senador.
Em meu discurso, falei das mazelas da época, entre elas o
cerceamento das liberdades, o Decreto-Lei nº 477, as eleições indiretas para
presidente da República e governador, bem como da escassez de recursos
destinados à educação. Vários oradores fizeram referência às minhas palavras.
Eu morava na Praça da Graça e tinha apenas vinte e poucos
anos de idade. Não sei se esse fato também foi parar em alguma ficha ou
relatório do SNI. Sei que, poucos anos depois, mais precisamente em 10/08/1982,
quando assumi o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços da SUNAB, exigiram
que eu apresentasse uma certidão de bons antecedentes expedida pelo DOPS. E eu
a apresentei.
Consta que o general Golbery do Couto e Silva, um dos
idealizadores e chefe do SNI, em conversa privada, teria dito, em referência a
esse órgão:
— Criamos um monstro.
Por fim, devo dizer que nunca fui ouvido em inquérito
policial, nem mesmo na condição de testemunha. E dou muitas graças a Deus por
isso.
| Criação da IA Copilot |
A FOME
Elmar Carvalho
I
a fome
que come
e consome
o “home”
mora
em sua víscera sonora
e o devora
como uma flora
cancerosa
rosa carnívora
que aflora e o deflora
de dentro para
fora.
II
a fome é tanta
e tanto espanta
que o ex-grevista de fome
hoje é grevista com fome
– ou melhor – desempregado
pregado na miséria
de ser
gado sub/ju/gado
fis/gado vis/gado k/gado
* Poema do final dos anos 1970 ou início dos anos 1980.
| Imagem criada pela IA GPT |
FIM DE CASAMENTO
Elmar Carvalho
Perguntando eu, hoje, a um homem
de mais de sessenta anos de idade se ele era solteiro, contou-me que fora
casado, em sua juventude, mas durante menos de vinte e quatro horas. Revelou-me que ao constatar que fora enganado
pela mulher, a devolveu a seu pai. Fazendo-me de um tanto ingênuo, disse-lhe
estranhar como essa traição poderia ter ocorrido nesse curto espaço de tempo,
“em plena lua de mel”, como na bela letra da música de Reginaldo Rossi.
Esclareceu-me que a traição fora o fato de ela não lhe ter revelado,
anteriormente, não ser mais virgem. O homem a interrogou, e ela acabou por lhe
confessar já ter tido outras experiências sexuais.
Acrescentou-me ele que sua mãe,
ao saber do fato, ponderou-lhe que tudo poderia ser apenas um erro proveniente
da juventude dela, que poderia não mais se repetir. Ele disse à mãe que nessa
oportunidade conseguiu se controlar, e por isso não cometera nenhuma violência
contra a mulher, mas, em outra ocasião, não saberia dizer se conseguiria
conter-se. A mãe, então, falou que ele fizesse o que achasse melhor para si.
Embora pedindo desculpas, indaguei-lhe se ele, ao constatar que a jovem não era
mais virgem, havia interrompido o coito. Sorriu, e me disse que era homem, e
que, portanto, tivera de concluí-lo, talvez, suponho, para acalmar-se e tomar
uma atitude de maneira mais ponderada. Tinha ele 25 anos e a mulher, 16.
O certo é que ele não aceitou a
mulher, devolvendo-a a seus pais, mal (ou bem) comparando, como se ela fosse
uma mercadoria com defeito oculto ou vício redibitório. Na verdade, nessa
época, as mulheres se conservavam virgens até o casamento, e poucos homens
aceitariam casar-se com uma mulher que não fosse donzela, exceto se fosse o
próprio nubente o autor do defloramento. O próprio Código Civil de 1916
permitia a anulação do casamento, conforme o seu art. 218 em combinação com o
219, IV, ao estampar que era anulável o casamento quando “o defloramento da
mulher” fosse “ignorado pelo marido”.
Mas houve casos em que o marido
repudiou a mulher, embora fosse ele o responsável pela defloração, sob a alegativa de que ela não deveria ter cedido
às suas súplicas e insistências; que se cedera com relação a ele, poderia
entregar-se aos caprichos e seduções de outrem, no futuro, ainda mais porque já
não existiria a película denunciadora.
No final da conversa, fazendo uma
analogia entre as ponderações de sua mãe, para que desse nova oportunidade a
sua mulher e a perdoasse, lembrei-me de uns versos do grande poeta Hermes
Vieira, que tem poemas magistrais na vertente popular e na temática sertaneja,
que lhe citei de forma livre, parafraseada, já que faz muitos anos que os li
pela derradeira vez. O poema conta o caso de um jovem que constatou haver se
casado com uma mulher já deflorada.
Na manhã do dia seguinte às
núpcias, foi aconselhar-se com o pai, sobre o seu desejo de restituir a mulher
a seu pai. Após elogiar muito a própria mãe, acrescentou que feliz era ele, seu
pai, que se casara com uma mulher direita, séria, honesta, que sempre o
respeitara. O pai, nos versos do poeta, que cito livremente, apenas de memória,
disse ao filho angustiado: “Meu filho, vê se você se acoita, / Na mulher se
bota um frei, / é melhor você ficar na moita, / Do jeitim que eu fiquei”.
O homem sorriu, conquanto fosse
este o mesmo conselho que lhe dera sua mãe, em sua distante juventude.
23 de março de 2011
| Imagem criada pela IA GPT |
MOISÉS
Elmar Carvalho
Escravo,
não sou escravo da submissão
e meu último adeus será uma corrida
com os pés fora da corda-bamba.
Escreverei
um manifesto assinado
com o sangue de cada um,
com o suor de todos,
todos mocinhos
de um filme sem mocinhos.
Escarnecerei
os muros e os tetos das prisões
porque são exceções de um regime de
exceção.
Escangalharei
as portas do céu
e os portões do inferno
e soltarei a liberdade.