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Uma Leitura Íntima de "A Maldição do Poeta"
Frederico Rebelo (*)
Ensaio
elaborado pelo escritor e poeta Frederico Rebelo sobre o poema “A Maldição do
Poeta, da autoria de Elmar Carvalho, que poderá ser lido na íntegra através
deste link: https://poetaelmar.blogspot.com/2026/09/a-maldicao-do-poeta.html.
Conheço Elmar Carvalho há tempo suficiente para reconhecer,
por trás de seus versos, algumas das inquietações que os alimentam. A amizade e
a convivência me ensinaram que, nele, poesia e vida não caminham por estradas
inteiramente separadas. Há sempre, sob a palavra rigorosamente trabalhada,
alguma inquietação mais funda, algum acerto de contas do homem consigo mesmo e
com o mundo.
É dessa perspectiva, ao mesmo tempo afetiva e crítica, que
leio "A Maldição do Poeta". O poema me parece uma espécie de
autorretrato interior: não do homem biográfico, mas do poeta diante da própria
condição de escrever.
Desde o primeiro verso, o poema nos coloca diante de uma
figura solitária: o “lobo solitário”, perdido em estepes onde jamais esteve. A
paisagem é imaginária, mas o sentimento que a produz é concreto. Vento, frio,
Lua e estepes compõem menos um cenário do que uma geografia interior.
Então vem um dos versos que mais me chamam a atenção:
"para não a ver
meus próprios olhos ceguei.”
Há aqui uma contradição de grande força poética. O poeta cega
os próprios olhos para não contemplar a Lua. Mas essa cegueira voluntária pode
ser entendida de outra maneira: ao recusar o olhar imediato, ele procura uma
visão que não depende dos olhos. A imagem sugere o preço de uma percepção que
ultrapassa a aparência das coisas.
Em seguida, aparece o “cão danado”, “condenado / por si
mesmo”. A condenação já não vem somente de fora; nasce no próprio sujeito. E
sua pena é uma “eternidade / de trabalho forçado”. A expressão me parece
particularmente feliz porque despoja o ato de escrever de qualquer romantismo
fácil. Para esse poeta, a criação tem algo de necessidade e de suplício.
É nesse ponto que o título começa a adquirir sua verdadeira
dimensão. A maldição não está apenas no sofrimento. Está na impossibilidade de
escapar daquilo que o impele a escrever.
O "Judeu Errante" prolonga essa condição. O poeta
atravessa “desertos de areia e de gelo”, sempre fugindo de si mesmo. A errância
deixa de ser geográfica e passa a ser existencial. Por mais que caminhe, o
poeta carrega consigo aquilo de que tenta fugir.
Quando se proclama “Poeta maldito / até a infinita geração”,
Elmar aproxima sua voz de uma antiga linhagem literária: a do poeta que não se
acomoda, que permanece em conflito com o mundo e consigo próprio. Não é
necessário recorrer a nomes ou genealogias para perceber essa filiação; ela
está contida na própria imagem.
Mais adiante, a expressão “cosmopolita proscrito / das
fronteiras do / tudo e do nada” amplia o horizonte do poema. O poeta pertence a
todos os lugares e, simultaneamente, sente-se estrangeiro neles. As fronteiras
de que fala Elmar já não são políticas: são existenciais. O poeta habita esse
território instável entre o que pode ser nomeado e aquilo que permanece
obscuro.
E então surge Prometeu.
A escolha é precisa. Prometeu traz consigo o fogo, a
transgressão e o castigo. Mas o que mais me interessa na apropriação de Elmar é
um detalhe: as aves que dilaceram o titã “saíram de seu cérebro”.
Aqui o poema alcança uma de suas imagens mais perturbadoras.
O algoz nasce do próprio pensamento. Os monstros e fantasmas
que atormentam o poeta são também criaturas de sua imaginação. Ele dá
existência àquilo que depois o persegue. A criação, portanto, deixa de ser
apenas expressão: torna-se também uma forma de confronto com aquilo que o
próprio espírito produz.
Por isso, o "caldeirão vulcânico / em contínua erupção”
me parece a imagem que melhor concentra o poema. A mente do poeta ferve. Dela
brotam “monstros e fantasmas / de milhares de membros e cabeças”, numa
proliferação quase descontrolada de formas. O vulcão não é apenas destruição; é
também fonte de matéria.
E talvez esteja aí o paradoxo central de "A Maldição do
Poeta": aquilo que atormenta o poeta é também aquilo que alimenta sua
poesia.
É por essa razão que não vejo o poema apenas como uma
confissão de angústia. Vejo nele uma reflexão sobre a própria condição de
escrever. O lobo, o cão, o Judeu Errante e Prometeu são faces diferentes de uma
mesma figura: o homem que carrega dentro de si uma matéria que não lhe permite
o repouso.
Como amigo e confrade, essa leitura me toca de maneira
particular. Há em Elmar uma inquietação intelectual que conheço e que reconheço
nesses versos. Não me parece que ele esteja simplesmente construindo a
personagem convencional do “poeta maldito”. Há, antes, uma espécie de
reconhecimento: o poeta sabe que sua condenação está ligada àquilo que
constitui sua própria força.
Talvez seja essa a verdadeira maldição de quem escreve: não
conseguir expulsar os fantasmas que o habitam porque são justamente eles que,
transformados em palavra, podem sobreviver ao próprio poeta.
É nesse ponto que o poema deixa de ser apenas autorretrato e
se torna poética. A dor, a solidão, a errância e o tumulto da imaginação
encontram na linguagem uma forma de permanência.
E é talvez aí que eu encontre o Elmar que conheço: o homem
inquieto que não se satisfaz com a superfície, o escritor que transforma a
inquietação em matéria verbal e o poeta que, mesmo quando fala de sua própria
maldição, continua exercendo aquilo que essa mesma maldição lhe impõe.
Prometeu permanece acorrentado. As aves continuam retornando.
O vulcão não se extingue.
E o poeta, fiel ao seu destino, continua escrevendo.
(*) Frederico A. Rebelo Torres, poeta, escritor, Brasil.

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