terça-feira, 18 de janeiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


18 de janeiro

DE LAVRADOR A DOUTOR

Elmar Carvalho

Estive lendo o livro “Zé Rosa: de Lavrador a Doutor”, em que Francisco de Almeida, através de poema de cordel homenageia seu irmão, no ensejo do seu cinquentenário. Fui contemporâneo do autor, quando fizemos o curso de Direito na UFPI. Creio que cursamos alguma disciplina na mesma classe. Ele era empregado do Banco do Brasil, tendo, posteriormente, exercido o cargo de advogado dessa empresa. Hoje, trabalha na Advocacia Geral da União, exercendo o cargo de advogado dessa repartição no Piauí. Como o título do livro indica e a sua leitura confirma, José Rosa de Almeida nasceu na zona rural, na localidade Flor da Almécega, na época pertencente ao município de Castelo do Piauí, e que hoje integra o de São João da Serra, em 14.08.1960.

Desde menino, ajudava seu pai nos serviços de vaqueiro, campeando gado bovino, e mesmo pegando e derrubando reses bravias, a envergar orgulhosamente o seu terno de couro. Trabalhou nesse difícil mister até os 17 anos de idade, quando veio estudar em Teresina, graças à ajuda de irmãos, sobretudo do Francisco de Almeida, que já trabalhava no Banco do Brasil. Esteve alojado na Casa do Estudante do Piauí, cujas condições de conforto e alimentação parecem testar o hóspede para as vicissitudes da vida. O livro conta a história de Zé Rosa, seus percalços e triunfos. Registra que seu pai, em virtude de viuvez, foi casado duas vezes, e teve uma prole bem considerável, sendo que todos os filhos conseguiram vencer na vida. O protagonista do livro foi presidente do sindicato dos empregados dos Correios durante três vezes. Na condição de diretor regional adjunto da ECT (cargo que ainda exerce), esteve na titularidade da função de diretor durante mais de ano e em várias outras ocasiões. Conheci também o José de Ribamar Almeida, funcionário da Secretaria de Fazenda do Piauí, irmão de Zé Rosa, que foi meu colega no curso de Direito.

Portanto, essa família de pessoas humildes, nascidas na zona rural, filhos de vaqueiro, souberam triunfar na vida, graças ao próprio esforço, sem necessidade de “pistolões” e de benesses espúrias. O opúsculo foi prefaciado pelo professor doutor José Machado Moita Neto, que atestou ter o homenageado feito por merecer a louvação do mano, e foi apresentado pelo poeta Pedro Costa, em versos cordelistas, o qual certificou a capacidade de versejador de Francisco de Almeida, ao dizer que ele “do verso tem o domínio”. Todavia, o novel poeta advertiu seus pares, especialmente o apresentador, o “curió” Sebastião Evangelista e o repentista Edvaldo Guerreiro de que não tenham receio de sua concorrência, uma vez que não pretende prosseguir na carreira de cordelista.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

OS VERAS E A BARRA GRANDE


Vicente de Paula Araújo Silva (Potência)1

A denominada Rota das Emoções, é a exploração organizada do turismo regional por um consórcio formado pelos estados do Ceará, Piauí e Maranhão. Efetivamente, essa região tem muitos fatos históricos em comum a partir do século XVII. A Barra Grande está inserida nesse contexto. A sua atual condição de zona litorânea do
município de Cajueiro da Praia tem uma trajetória de lutas ao longo dos tempos a partir de 1604, quando Pero Coelho de Sousa, vindo da Paraíba chega a foz do Camocim e segue para a Serra da Ibiapaba, com o objetivo de expulsar os franceses lá estabelecidos desde 1590, iniciando-se então, o processo de colonização pelos portugueses, da região em tela, que tem muitas estórias registradas ao longo dos tempos, dentre as quais salientam-se: Em 1607, partem de Recife com destino ao Maranhão, os padres da Companhia de Jesus, Luís Figueira e Francisco Pinto, sendo este último morto pelos tapuias, simpatizantes dos franceses, em 11/01/1608; Em 1612, os franceses integrantes da expedição de Razilly e Daniel de La Touche, que estavam em viagem para a implantação da Colônia francesa na ilha do Maranhão, aportaram na Ponta de Jericoacoara; em 1613, Jerônimo de Albuquerque parte de Recife rumo ao Maranhão com o fim de expulsar os franceses que lá estavam; em 1656, partindo do Maranhão por terra, após 35 dias de viagem, chegaram a Serra da Ibiapaba os jesuítas Pe. Antonio Ribeiro e Pedro Pedrosa, implantando então, a missão da Ibiapaba; Em 03/03/1660, partem do Maranhão em visita à missão da Ibiapaba, os jesuítas Pe. Antonio Vieira e Gonçalo Veras, acompanhados do tapuia Jorge Ticuna, filho do chefe Algodão, que havia retornado da viagem a Portugal para agradecer a El Rei, a presença da missão jesuíta na serra da Ibiapaba.
Assim, oficialmente, o Pe. Gonçalo Veras foi o primeiro membro da família Veras, a estar nos Estados do Maranhão, Piauí e Ceará. Outros Veras, estabeleceram-se na região. Em 19/07/1705, o Cel. João Pereira Veras e sua mulher, receberam sesmarias de terras a partir do mar pelo rio Acaraú. Entretanto, foi o cearense Domingos Ferreira de Veras, neto dos portugueses naturais do Porto, Tomás Pereira de Veras e Joana da Costa Medeiros, quem introduziu a família Ferreira Veras na região compreendida entre a orla marítima da ribeira do Acaraú ao delta do rio Parnaíba, e as serras Meruoca, Ibiapaba, incluindo os vales dos rios existentes nessa área.
Os Veras da Barra Grande são descendentes da miscigenação de pescadores chegados da praia de Bitupitá, com os nativos tremembés e comboieiros vindos do sertão cearense e das serras Meruoca e Ibiapaba. Atualmente, compõem esses clãs familiares os sobrenomes: Ferreira Veras, Teles, Barroso, Pereira, Sousa, Araújo, Cardoso, Soares, Damasceno, Santos e Fontenele, entre outros. Essa aprazível praia, está situada entre as barras dos rios Timonha e Camurupim, e até a primeira metade do século XVIII, gentios tapuias da nação Tremembé, ainda habitavam em aldeias, localizadas entre o mar e os lugares hoje conhecidos como Tapera e Ilha das Cabras, nas proximidades da Barra Grande.
A cumplicidade do abastado fazendeiro cearense Domingos Ferreira de Veras com a Barra Grande, data da primeira metade do século XVIII, fato comprovado pelo registro de batismo a seguir, transcrito do Liv. Missão Velha, 1740/1747, fl. 119v: “Aos oito dias de abril de mil setecentos e quarenta e três, na Faz. Tiaya, em casa do Cel. Domingos Ferreira de Veras, bautizei a Vicente, filho de Vicente e sua mulher de nação Tremembé, e lhes pus os Santos óleos. Item no mesmo dia bautizei a Quitéria da nação Tremembé. Todos estes tapuias assima ditos são do rancho do tapuia velho chamado Machado que há muitos annos vivem sobre si e assistem entre a barra do rio Timonha e a barra do rio Camoripim junto a beira do mar, pertencentes a aldeia do Aracati Mirim, cita nesta freguezia de Nossa Senhora da Conceição do Acaracu. Pe. Lourenço Gomes Lelou, cura e vigº da Vara do Acaracu”.

¹ O articulista teve as avós materna e paterna, Gonçala Ferreira Veras e Joana Alves Teles, nascidas no final do século XIX, nas localidades Leitão e Arara , próximas a Praia de Bitupitá, atualmente município de Barroquinha (CE)., sendo as mesmas parentes próximas das famílias Veras e Teles da Barra Grande.

FLAGRANTES & INSIGHTS

Elmar visto por Gervásio Castro

MEIO SÉCULO E UNS QUEBRADOS

Elmar Carvalho

O velho e bom amigo, depois de haver dito ter 85 anos, perguntou se eu já estava perto de fazer 40 anos de idade. Surpreso, sorri, e lhe disse já haver ultrapassado meio século de vida. Ele, então, em flagrante exagero, retrucou-me que se não fosse pela calvície, que já me devasta os cabelos, me daria 30 anos. Com certeza o amigo me olhou com as lentes da amizade e da generosidade, e deletou minhas rugas no fotoshop de sua imaginação.

CASOS E POESIAS


Através de minha mulher, recebi o livro Casos e Poesias, da autoria de José Maria de Carvalho, nascido em 05.08.1948 na localidade Cupins, município de Piripiri, situada à margem direita do rio Piracuruca, onde residiu até os 16 anos. O livro tem apresentação da professora Teresinha de Brito Martins. Tanto nos poemas como nos textos em prosa, o escritor, fazendo uso de uma linguagem sóbria, sem rebuscamentos e torneios linguísticos exagerados, conta casos anedóticos, engraçados, e suas vivências e experiências de garoto nascido na zona rural. Evoca certas pessoas que foram queridas e conta os labores e diversões de um menino da roça, mas fala também das coisas e mazelas da sociedade urbana de agora.

sábado, 15 de janeiro de 2011

NOTURNO DE OEIRAS




Noturno de Oeiras e Outras Evocações, que poderá ser adquirido nas lojas da Livraria Universitária e na livraria da UFPI.


CARLOS SAID

A odisseia literária do notável José Elmar de Mélo Carvalho (Campo Maior, Piauí, 1956), encontra-se estampada no livro “Noturno de Oeiras e Outras Evocações”.
Não há negar. A edição primeira, 2007, colossal. Mas é no índice da segunda, 2009, que encontramos de maneira soberana a peregrinação do Elmar Carvalho pelos caminhos da velha e solene Oeiras que ele próprio aclamou “minha geografia oeirense”. Não se conformando em escrever poemas incluindo o dogma das lembranças do “Cemitério Velho de Oeiras”, o genial Elmar foi mais além: das felizes lembranças que marcaram a vida das maiores expressões literárias, relembrou a vida dos oeirenses quando habitantes da Primeira Capital do Piauí. Sem faltar os de hoje. Incorporou sublimação em todas as ocorrências que fizeram a grandeza histórica da cidade abençoada pela querida padroeira Nossa Senhora da Vitória (a lenda já considerada realidade porque dissecada pelas gerações que se envolveram na tradição oral, ressalta com propriedade religiosa que: “em 1697, sob a invocação de Nossa Senhora do Sertão, após padre Miguel de Carvalho ter anunciado a vitória obtida contra os “Rodeleiros” (Usavam eles em seus combates as rodelas grandes, todas de madeira. Lutavam sempre contra os fazendeiros da região conhecida por Sertão de Rodelas), a Igreja Matriz do Brejo da Mocha (sic) passaria à denominação de Nossa Senhora da Vitória, por ter alcançado o milagre na luta travada contra os índios da tribo dos rodelas sob desigualdade (homens e armas).
Na sua peregrinação pela terra abençoada pela padroeira Nossa Senhora da Vitória (antes, Sertão), o insigne campomaiorense jamais esqueceu pelo exercício da paciência, como é rico e belo o acervo cultural do povo da Mocha. Desfilando obras de importantes literatos oeirenses, Elmar realçou a importante contribuição do poeta Benedito Francisco Nogueira Tapety (1890-1918); do inquieto Orlando Geraldo Rêgo de Carvalho (1930); do fantástico músico e compositor Possidônio Nunes Queiroz (1904-1996) e do economista Moisés Ângelo de Moura Reis (1946), fortalecendo – assim – , o valor da formidável escola literária dos oeirenses. Mas, inteireza nossa, Elmar ao passear pelas estradas da inteligência oeirense, não esqueceu d' outros filhos da Mocha: o destemido Manoel de Souza Martins, agraciado Visconde da Parnaíba (1767-1856), proclamador da independência de Oeiras, livrando a cidade do jugo português, no correr do dia 24 de janeiro de 1823. Pelos velhos calçamentos das ruas murmurejantes de Oeiras, recordando como foi edificada a “Casa da Pólvora”, trovejou em versos: “Meia-noite. / Metade silêncio, / Metade solidão. / Atravesso a praça das Vitórias / Na hora dolorosa das doze badaladas / Punhaladas que também me atravessam”.
No entanto, é na Procissão do Fogaréu, durante os dias marcantes da Semana Santa, que Elmar Carvalho juntou à fidelidade da fé e do pranto cantado, os mais ardorosos e santos versos: “Ó som de lamentações e de ais, / De lamúrias passionais, / De réquiem e miserere / Que dilacera e fere / Como não se ouvirá / Nunca mais”!
Não sabemos até quando Elmar prosseguirá na viagem cultural pelos mais variados recantos de Oeiras, ainda hoje, no século XXI, mais silenciosa em recordações do tempo de outrora (sic). Tal como Nogueira Tapety arrostando sofrimentos mas consciente do valor de sua arte poética: “Nasci para viver solitário, abismado / Na própria vastidão do meu ser tão profundo”.
No arremate último para não perder o “Noturno de Oeiras” nos trilhos d' outras lembranças, melhor para todos nós a declinação do amor que Elmar Carvalho devota todas as noites no vestal berço embalado pela bondosa Senhora da Vitória: “Oeiras navega na noite / De um tempo que não termina. / De um tempo sem medida, fugitivo / De ampulhetas e relógios”.  

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS



BORRACHARIA ZEFUDELA

Elmar Carvalho

Pelo nome do dono da borracharia o leitor bem poderia aquilatar a importância da prosódia, cujo valor foi bastante mitigado com a mais recente reforma ortográfica, senão vejamos: se a pronúncia do segundo e for aberta [é], o Zé bem poderia ser um Zé qualquer ou um Zé ninguém; porém, se for fechada [ê], o Zé seria provavelmente um garanhão, ou pelo menos um malvado gavião de penacho.

TRANSCENDÊNCIA



JOÃO DE CARVALHO FONTES


o reino de Deus
está dentro do homem
que pode fazer da vida
uma aventura bela

não me apraz esse amanhecer
mais noite que a noite
é preciso atravessar a ponte
para que o dia realmente amanheça

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO



XVI

Ao pé das rochas duras, quadradas,
a mulher sentada,
de carne macia, delicada,
com suas curvas e coleios,
envolta na grande solidão
de um céu duro, quadrado,
sem nuvens e da cor de chumbo,
bela e humildemente contrastava.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


12 de janeiro

A VERVE DO VELHO PREDADOR

Elmar Carvalho

O velho amigo, em seu estilo mineirinho, é um grande conquistador, embora não seja considerado nenhum galã, o que, aliás, o torna ainda mais digno de admiração. No entanto, o que lhe falta no físico sobra-lhe em lábia e paciência no processo de uma conquista amorosa. Também possui a ousadia comedida, a coragem discreta e cautelosa na abordagem, sempre respeitosa e delicada, sempre a elogiar além do merecimento da presa ou prenda. Contou-me ele que, estando um dia a bebericar uns goles de cerveja, à porta de um bar, viu aproximar-se, passando quase a desfilar na calçada, uma bela mulher, dotada de bem traçadas e sinuosas linhas, muito elegante em seu requebrado faceiro e atraente. O velho fauno apurou o olhar, e o fixou enfaticamente na diva que passava. Ela, que poderia ter fingido não tê-lo visto, e mesmo não tê-lo percebido, caso não tivesse olhado em direção ao predador, deu-se por incomodada e um tanto ofendida, razão pela qual perguntou a esse meu amigo se ele nunca tinha visto uma mulher. O homem lhe respondeu que já vira muitas, mas nenhuma tão bonita quanto ela. A mulher, então, lhe disse que iria contar o caso ao marido, e queria saber o que ele iria dizer. O nosso dom Juan foi no outro mundo e voltou, mas não se deu por achado, e exclamou candidamente que ele iria lhe dar razão. Ante o inesperado da resposta, a ninfa abriu um sorriso, e foi embora, sem, literalmente, perder o rebolado; antes, redobrou em sua rebundolante faceirice.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Charge: Gervásio Castro


11 de janeiro

AS APARIÇÕES DO REDUZIDO

Elmar Carvalho

Dias atrás, eu, o Canindé Correia e o Vicente de Paula, o Potência, fomos à praia Peito de Moça à procura do amigo Porfírio Carvalho, irmão do Jonas e do Neco Carvalho, também nossos amigos. Em virtude de equívoco em relação ao ponto de referência que nos deram, não conseguimos localizar a casa onde ele estava hospedado. Por tal razão, retornamos a Parnaíba e fomos ao Labino. À tarde, após um churrasco, seguimos em direção ao Tabuleiro, Rosápolis e adjacências. Vimos as novas ruas que estão sendo abertas e os trabalhos de urbanização que estão sendo feitos nessa zona da cidade de Parnaíba. Fizemos uma parada logística no bar do Raimundo José Clarindo, um misto de careca e cabeludo, que nos contou uma proeza pós mortem do Zé Maria Reduzido.

O Clarindo, certo dia, não sei se de finados, foi ao túmulo do saudoso Reduzido, para fazer umas preces em sua intenção. Entretanto, teimosamente, as velas colocadas sobre a lápide não acendiam, mesmo após várias tentativas. Em vista disso, ele tentou acender uma delas encostando o seu pavio na chama de uma que havia num túmulo próximo, mas ainda assim não obteve êxito. Após novas tentativas, o Raimundo José perguntou-se em voz alta sobre a razão de as velas não acenderem. Umas voz semelhante à do finado, que parecia vinda de dentro da sepultura, respondeu mansamente, quase num sussurro: - “Aqui dentro já faz tanto calor, e você ainda quer acender velas aí em cima...” Após essa narrativa, recordamos algumas aventuras folclóricas do Reduzido, e lembramos que ele era um talentoso mecânico. Quando sua velha Variant marrom “negava fogo”, ele quase milagrosamente fazia com que as velas de ignição, ao contrário das de cera em seu túmulo, voltassem a emitir faíscas, fazendo com que o carro voltasse a funcionar. Ele era tão autoconfiante em sua capacidade técnica, que ao fazer alguma viagem levava apenas as ferramentas de praxe; entretanto, conduzia vários pneus estepes, em torno de meia dúzia, simbolizando com isso que os defeitos mecânicos não lhe causavam preocupação, mas sim os imprevisíveis furos dos pneumáticos.

Em face da história das velas inacendíveis, o Vicente de Paula (Potência) contou que o tenente (Bene)Dito testemunhou duas aparições do saudoso Reduzido. Uma de manhã cedo, quando viu o vulto do falecido a caminhar nas proximidades de sua casa; pouco depois, já não viu mais a visão, como se esta se tivesse desfeito no ar. Posteriormente, a imagem do Reduzido lhe apareceu de novo, com os cabelos bem pretos, bem lisos e luzidios. O tenente não teve nenhum sobrosso porque no momento não se lembrou de que o Zé Maria já tivesse falecido. Como lhe achasse bonito os cabelos tão pretos e brilhosos, manifestou o desejo de lhes tocar, mas Reduzido não lhe permitiu o contato, afirmando que doía muito, e, logo em seguida, desapareceu misteriosamente, como por encanto. Quando o Vicente contou esse fato, o Clarindo ficou todo arrepiado, e eu então fiquei certo de que ele acreditava piamente no episódio das renitentes velas sobre o túmulo do Zé Maria.

O Reduzido tinha um humorismo peculiar, e participou de várias peripécias pitorescas e folclóricas. Algumas foram fruto de suas irreverências etílicas, satíricas, burlescas, mas sem ofensa e prejuízo ao semelhante. Eram apenas brincadeiras e “tiradas”, oriundas de sua verve e espirituosidade, voltadas para o riso e a alegria. Durante alguns anos foi o principal responsável pela brincadeira de malhação do Judas, que era dependurado e trucidado perto da igreja de São Sebastião. Nunca ouvi falar de maldade que ele tenha praticado, e as suas duas aparições, se verdadeiras, e não apenas fruto da imaginação dos videntes, apenas revelam que ele era e é um espírito amante da irreverência inofensiva e do sadio bom-humor.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O CASTRADO

Elmar Carvalho


Na qualidade de fiscal do estado, fui designado para realizar serviços de inspeção na cidade de Cruz das Almas. Nessa cidade reencontrei um colega do antigo científico, cursado em colégio da capital. Combinamos jantar num dos restaurantes da urbe. Na hora e no local combinados nos encontramos, eu e meu amigo José Fernandes. Ele se formara em medicina, e viera exercer sua profissão em sua terra natal. Depois de recordarmos os nossos tempos de estudante, ele me contou a história escabrosa que passo a narrar.

Na zona rural de Cruz das Almas, no povoado Almécegas, em meados da década de 1960, se fixara um rapaz de nome Domingos Araújo. Era ele um mascate, que perambulava pelos povoados e cidadezinhas da região, vendendo suas mercadorias. Era um tipo metido a simpático, um tanto falastrão, que despertava olhares de admiração das mocinhas casadoiras. Sem ser rico, levava uma vida folgada, sem passar privações. Segundo comentavam, já deflorara meia dúzia de jovens, em outras localidades, de modo que era visto com certa desconfiança pelos pais e irmãos das moças solteiras. Por alguma razão, talvez porque já estivesse enjoado de sua vida, com suas cargas e burros de um lado para outro, sem pouso certo, Domingos Araújo resolveu estabelecer comércio fixo em Almécegas. Trabalhador, simpático, com invejável tino comercial, prosperou, e logo seu comércio se tornou o maior do povoado.

Com certa frequência, fazia compra na mercearia de Domingos uma jovem de nome Alice. A moça pertencia a uma família de fazendeiros da região, que já dera ao estado muitos políticos, bacharéis e médicos. Seus irmãos eram um tanto enfatuados, com arroubos de pretensas nobrezas de avoengos. A moça foi advertida para evitar o forasteiro, como chamavam, com desdém, o ex-mascate. Passaram a exercer certa vigilância sobre a irmã, direta ou indiretamente, através de agregados de suas terras. O certo é que, para encurtar a história, começou a correr o boato de que a moça já não era mais virgem, que Domingos já lhe extirpara a virgindade. O pai de Alice e seus dois irmãos mais velhos a puseram sob confissão, inclusive com ameaça de ser levada para Cruz das Almas, a fim de ser examinada por médico amigo da família, para que se dirimissem as dúvidas sobre se ainda era virgem ou não. A moça não resistiu à coação psicológica, e acabou por confessar que fizera sexo com Domingos, mas que este lhe prometera casamento para breve. O coronel Liberato e os dois filhos, Severo e Nonato, acharam que o forasteiro fizera uma grande desfeita e desconsideração; que nem mesmo casando, eles desejavam que Alice tivesse alguma coisa com um desconhecido, do qual não se sabia ao certo de onde tinha vindo e qual a sua procedência familiar.

Não demorou muito, os dois irmãos de Alice, numa noite escura, abordaram Domingos em sua residência. Sob a ameaça de dois revólveres, o comerciante os acompanhou, montado em um cavalo que os irmãos haviam trazido, e seguiram para um lugar distante e ermo, nos confins da chapada. Dispenso-me do trabalho melindroso de descrever os urros de dor, as súplicas, as imprecações, os rictos faciais, os olhos esbugalhados de Domingos, que esperneou o quanto pôde, quanto suas pernas abertas foram amarradas a duas árvores, cujo objetivo já lhe tinha sido anunciado. Estendido no chão, seus braços foram atados a outra árvore. Uma navalha bem amolada e habilmente manejada o emasculou em corte preciso. Ficou sangrando, a gemer de dor, desvairado em autocomiseração e em ódio impotente. Mas teve sorte. Na manhã do dia seguinte foi encontrado por cinco caçadores, que improvisaram uma maca, e conseguiram, com a ajuda dos cavalos, levá-lo à cidade de Cruz das Almas. E o fato é que conseguiu escapar. A essa altura os dois irmãos já haviam fugido, e nunca mais voltaram à região, seja para escapar da Justiça, seja para escapar de vingança, uma vez que o ofendido não morrera.

Para surpresa de todos, Domingos nunca registrou a ocorrência na Delegacia de Polícia do município, e o fato foi devidamente abafado, já que a própria vítima não teve interesse em sua apuração. Terminou voltando para o povoado de Almécegas, onde se casou com Alice. Nunca se soube de nenhum pormenor de sua vida conjugal. O casal sempre se manteve em absoluta discrição, mesmo em conversa com os mais íntimos. Embora houvesse risos e zombarias à socapa, nunca ninguém ninguém teve a coragem de chamar o marido de castrado, nem de lhe perguntar algo sobre o assunto, que sempre se manteve como um tabu. Nem tampouco as amigas e parentas pediram que Alice lhes falasse de sua vida afetiva, nem de como tinha sido sua lua de mel.

Um pouco depois de meu amigo, o médico José Fernandes, haver encerrado a história, uma pessoa, aparentando ter 55 anos de idade, pediu para se sentar à nossa mesa, enquanto esperava a mulher. Era um tipo alto, levemente obeso. Parecia estar bem-humorado, e logo começou a contar suas aventuras amorosas sem nenhum pudor ou reserva. Disse nunca haver negado fogo. Falou que uma das mocinhas da cidade estava “pegando em seu pé”, e quase não lhe dava trégua, o que lhe deixava preocupado, pois temia sua mulher viesse a desconfiar de alguma coisa. Agora mesmo acabara de assumir compromisso com uma ninfeta, para se encontrarem amanhã. Gabou-se de nunca haver engolido viagra ou qualquer similar e de também nunca haver precisado de energético; que, aliás, energia ele ainda tinha de sobra. Nisso, uma bela mulher, de idade indefinida, assomou à porta, e olhou para a nossa direção com um olhar enigmático, em que não se notava nem tristeza nem alegria, mas apenas uma impassibilidade, talvez de defesa, provavelmente deliberada, e não natural. O fanfarrão foi ao seu encontro, após breve despedida.

O meu amigo, para minha surpresa, esclareceu: - “O cidadão que acabou de sair é o protagonista do fato que lhe narrei. Depois de alguns anos, veio morar na cidade. Fez uma viagem ao Rio de Janeiro, e de uns anos para cá tornou-se o maior fanfarrão de atletismo sexual que conheço. Suspeito que ele hoje tenha uma prótese, pois a sua fama de garanhão vem crescendo assustadoramente, e já desperta inveja nos homens inteiros. Estou até pensando em pedir para ele me contar o segredo de tamanha performance e envergadura sexual”.

domingo, 9 de janeiro de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

Charge e texto: JOÃO DE DEUS NETTO

JAMERSON LEMOS

Jamerson Moreira de Lemos nasceu em Recife (PE), em 22-12-1945 e faleceu em Teresina (5-8-2008). Poeta, deixando sua terra, viveu alguns anos em São Luís (MA). Jamerson Lemos foi da geração dos anos 60 – CLIP (Circulo Literário Piauiense), além de sua participação na vida cultural no meio piauiense, registrou-a valorosamente com dois prêmios importantes que recebeu, no Piauí: um da Academia Piauiense de Letras e outro da Fundação Cultural do Piauí, ambos de poesia. Desta forma, é impossível que o Piauí não o reconheça como seu poeta, aliás um dos mais singulares, como consta de “ A Poesia do Piauí no Século XX”, antologia organizada por Assis Brasil, Editora Imago, Rio, 1995.

NOTA SOCIAL

Dico, Pedro, Diá e Natim

A Várzea do Simão esteve bastante animada, com a confraternização dos irmãos Dico, Diá, Remédios e Fátima. Estiveram presentes, também, Canindé Correia, Vicente de Paula (Potência), Natim e sua namorada Ivana, a carioca Dorinha, amiga do Dico, e este blogueiro, além de várias outras pessoas da comunidade, que fica à margem do Parnaíba. A estrada que dá acesso a Parnaíba está em bom estado de conservação, na parte que fica neste município; entretanto, a parte de responsabilidade do município de Buriti dos Lopes está em péssimo estado, apresentando buracos profundos em vários locais e em vasta extensão do percurso. O clima da festa estava bastante positivo, e reinou a paz e a alegria durante todo o evento, que teve direito a música e dança. O churrasco foi farto e variado.

sábado, 8 de janeiro de 2011

ÍTACA


Konstantinos Kaváfis
(Trad. José Paulo Paes)

Se partires um dia rumo a Ítaca, 
faz votos de que o caminho seja longo, 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o colérico Posídon te intimidem; 
eles no teu caminho jamais encontrará 
se altivo for teu pensamento, se sutil 
emoção teu corpo e teu espírito tocar. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o bravio Posídon hás de ver, 
se tu mesmo não os levares dentro da alma, 
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
nas quais, com que prazer, com que alegria, 
tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir: 
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, 
e perfumes sensuais de toda a espécie, 
quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrina 
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
e fundeares na ilha velho enfim, 
rico de quanto ganhaste no caminho, 
sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, 
e agora sabes o que significam Ítacas.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS



ESPERANDO O TREM

Elmar Carvalho

Na pequenina e mimosa estação de Floriópolis, restaurada para ficar – como monumento e obra de arte – a denunciar o desperdício da estrada de ferro abandonada, o cão, deitado pachorrentamente à sua sombra, parecia um passageiro à espera do trem que não vem, que não vem, que não vem... – contrariando a feliz e otimista onomatopeia de “Pedro Pedreiro”.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XV

Meu pai me olha circunspecto
do retrato que não pintei;
me olha austero
do que jamais pintarei.
(Os retratos têm pupilas,
os bustos não.)
Mas quanta bondade
nas pupilas de seu busto
que jamais esculpirão.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO





Natim e Dico, já no Céu, na churrascaria do Zé Nilson

5 de janeiro

DA BARRA DO LONGÁ AO CÉU

Elmar Carvalho


Fui a Buriti dos Lopes em companhia da Fátima, do Dico e do Natim, onde eles pretendiam resolver problema de interesse deles, o que terminou não dando certo, porquanto a pessoa que seria contactada havia viajado para o Ceará. Por tal razão, resolvemos visitar a localidade Barra do Longá, que há mais de duas décadas não víamos. Apenas parte da estrada foi asfaltada, o que nos remete à velha cultura das obras eleitoreiras inacabadas. O povoado estava bastante mudado. Quando o conheci, trinta anos atrás, era uma povoação simples, com poucas casas de taipa e cobertura de palha. Hoje, possui muitas casas, quase todas de tijolos e cobertas de telhas. As casas de palha já quase não existem. Seu nome se deve ao fato de ser o local onde o rio Longá deságua no Parnaíba, depois de banhar municípios como Alto Longá, onde nasce, Campo Maior, Barras e Buriti dos Lopes. Em Esperantina e Batalha, ele forma a bela e turística cachoeira do Urubu, que só se precipita na época das chuvas, quando dá um magnífico espetáculo de águas revoltas e espumantes, cujo som atroa de forma quase assustadora. Lamentavelmente, é um rio que vem sendo agredido de forma devastadora, a partir das nascentes, que se encontram bastante degradadas. Quando o “inverno” é fraco, suas águas já não correm em toda extensão de seu leito. Poucas pessoas se preocupam com sua degradação; entre esses poucos homens de boa-vontade se destaca o médico humanitário, boa-praça e intelectual Itamar Abreu Costa, cujo nome declino como justa homenagem a ele.

Logo se nota, sem nenhuma dificuldade, já que os monturos são ostensivos, que o crescimento do povoado trouxe as indesejáveis mazelas do chamado “progresso”. Ao longo da margem direita, na parte urbanizada, o lixo se acumula de forma feia e repulsiva, com amontoados de sacos plásticos, garrafas pete, vidros, latas de alumínio, etc. Também a poluição sonora, tanto pelo volume do som como pela qualidade da “música”, começa a incomodar. Um cantor, com voz gritada, esganiçada e estridente falava no rio Araguaia, e não no Longá ou no Parnaíba. Na faixa seguinte, em evidente exagero e ufanismo, dizia que ia acabar com a cachaça. Comentei para o Dico e o Natim, que sua missão seria inglória; que era mais fácil ele se acabar, do que vencer a gigantesca produção alcoólica existente. Preferimos terminar o passeio no Céu. Não no céu onde os anjos entoam belos cânticos ao Senhor, mas na localidade Céu, na Ilha Grande de Santa Isabel, no restaurante do Zé Nilson, a degustar uma saborosa galinha caipira.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

TEMPOS REPUBLICANOS


4 de janeiro   Diário Incontínuo

TEMPOS REPUBLICANOS

Elmar Carvalho

Nesta temporada de final de ano, em Parnaíba, estive com os meus compadres Gelvan e Neide. Ela é filha do sr. Anísio, que foi comerciante e vereador. Ocupa chefia importante da Caixa Econômica Federal na Paraíba, através de concurso. É minha conhecida desde os tempos em que residi em Parnaíba. Conheci o Gelvan em 1983, quando ele, na qualidade de administrador postal da ECT, recém formado pela ESAP, foi lotado na diretoria regional da empresa no Piauí. Era natural de Paulo Afonso, Bahia. Moramos na mesma casa. Era uma república, mas república séria, de muito respeito, e não uma república de estudantes boêmios e gazeteiros, nem tampouco uma republiqueta de bananas da América Latina.

Quando assumi meu cargo de fiscal da SUNAB, em Teresina, no dia 10.08.1982, fui inicialmente morar no hotel da dona Maru, instalado num antigo palacete da avenida Frei Serafim, perto da igreja de São Benedito. No mesmo apartamento, morei com o conterrâneo e amigo Jaime Filho, rebento da professora Mariema e do tenente Jaime da Paz, probo e dinâmico ex-prefeito de Campo Maior. Em menos de dois meses fui convidado pelo Carlos Cardoso, velho amigo da adolescência e também conterrâneo, para morar na república da qual ele era membro proeminente.

Explicou-me as regras, os direitos e deveres da confraria. Disse-me que a casa ficava situada na avenida Jockey Club, onde hoje funciona um colégio. Imediatamente aceitei o convite e tratei de me mudar. Moravam na república dois administradores postais, o Umberto Nadal, paranaense, e o Robério Maia de Oliveira, cearense, o Antônio Maria, comerciante, e o Carlos, contador, um dos chefes da empresa SECREL, sediada em Fortaleza. Portanto, éramos cinco republicanos.

A casa dispunha de uma boa piscina. Em quase todos os domingos havia comilança e libações. Participei de poucas festas, uma vez que nessa época costumava, pelo menos duas vezes por mês, passar o final de semana em Parnaíba, porquanto meus pais e minha namorada, hoje minha mulher, ali residiam. Tomei conhecimento de que um frequentador desses churrascos tornou-se demasiadamente assíduo, dando-se ao luxo de ainda trazer vários convidados, mas sem nada trazer em contrapartida, nem mesmo refrigerantes, quanto mais bebida e mantimentos de boca.

Diante dessa “esperteza” os colegas republicanos resolveram adotar uma estratégia contra esse abuso. Certo dia, quando o espertinho chegou com os seus convidados, encontrou o fogo apagado. Dois membros da república o convidaram a ir até um supermercado, onde compraram os suprimentos líquidos e comestíveis, e lhe “convidaram” a pagar a conta. Foi a última vez que esse mui amigo apareceu na república.

Nessa casa escrevi o meu poema Egocentrismo, que nasceu de um insight, já pronto e acabado. Eu acabara de acordar, quando, ao ficar sentado na rede, espirrei numa réstia que iluminava a escuridão do quarto. As gotículas do espirro, viróticas ou não, fizeram surgir um pequeno arco-íris. Instantaneamente o poeminha foi escrito em minha mente, com os seus versos que falam em arco-íris, em arco-do-triunfo, em velocino dourado e em coroas de louro e de ouro. Sou muito grato a esse espirro, que funcionou como uma musa ou como inspirado e inspirador lampejo.

Dessa residência, nos mudamos para uma outra, na rua Rui Barbosa, situada no início da ladeira, após a qual começa a avenida Barão de Gurgueia. Nesse período, já nos haviam deixado o Antônio Maria e o Carlos; este havia adquirido uma casa, e já se preparava para se casar. O Robério, hoje juiz do trabalho, casou-se e foi morar em casa própria. Em seu lugar entrou o Gelvan. Foi uma turma boa, composta por pessoas responsáveis e cumpridoras de suas obrigações. Como o dono dessa casa tenha precisado dela, para fazer um depósito de sua empresa, fomos morar em outra, localizada na rua Areolino de Abreu, perto da Caixa Econômica.

Era um casarão antigo, meio fantasmagórico, onde antigo morador, um engenheiro, havia suicidado. Numa das portas, fora escrito um belo, porém elegíaco, melancólico poema da autoria de meu amigo Hardi Filho, em que a tinta parecia escorrer, como gotas de sangue. Nesse vetusto solar, de história trágica, escrevi o meu poema A Casa no Tempo, infestada de esgarçantes rasga-mortalhas, de esvoaçantes e lúgubres morcegos, de almas penadas, de correntes arrastadas, de gemidos e ruídos misteriosos.

Nessa casa, hoje demolida, a república foi extinta, em virtude de casórios e do retorno do Nadal ao Paraná, sua terra natal. Mas, em minha saudade, a casa com a república, como digo no meu poema, “... sempre persistirá / nas músicas passionais de algum boteco / criando ressonâncias que repercutem / insistentemente como eco”.     

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O SUMIÇO DA TAMPA

Elmar Carvalho


Tenho 38 anos de idade. Sou o que as pessoas chamam de solteirão inveterado e convicto. Tenho minhas manias e sou metódico; às vezes, compulsiva e obsessivamente metódico. Minha mãe sofre de glaucoma. Por causa dessa doença, o meu oftalmologista me recomendou que use colírio para pressão ocular diariamente, pela manhã e à tarde, já que ela estava no limite máximo do aceitável. Moro numa quitinete, e meu quarto é bastante exíguo, mal cabendo a cama de solteiro, uma cômoda e uma estante onde coloco os meus livros mais queridos, inclusive meus vários dicionários, tanto de sinônimo, como os de flexão verbal e nominal, além dos biográficos, para consultas rápidas. Esse é todo o mobiliário do aposento. Quase às 18 horas de ontem, peguei o frasco de colírio de cima da cômoda, e pus uma gota em cada um dos olhos. Quando fui fechar o recipiente, a tampa escorregou-me dos dedos, e caiu sobre meu pé direito. Instintivamente olhei para baixo, mas não a vi. Abaixei-me para procurá-la debaixo da cômoda, mas não a encontrei. Procurei ao redor do móvel, mas também o resultado foi negativo.

Diante disso, o meu velho TOC (transtorno obsessivo compulsivo) apoderou-se de mim, com muita força, como se fosse a cachorra do Pedro Dantas. Esquadrinhei meticulosamente o quarto, cerâmica por cerâmica, como se disso dependesse minha vida. Além de olhar, passei as mãos ao redor das pernas dos móveis, procurei nos ressaltos e concavidades, em possíveis esconderijos e até nas gavetas. Como a verificação foi inútil, fiquei angustiado, quase aterrorizado, e empreendi uma segunda e terceira varreduras, cada vez mais minuciosas. Ante o resultado infrutífero, tive que me render ao fato de que não adiantava medir forças com o inelutável. Consolei-me com a ideia de que a tampa, quando eu menos esperasse, iria aparecer no segundo ou no terceiro dia, apesar de as minhas verificações visuais e táteis terem sido detalhistas, precisas, implacáveis.

Com efeito, dois dias depois enxerguei a tampa ao lado de uma das pernas da estante. Fiquei estarrecido, porque era um lugar sem segredo, sem esconderijos, sem subterfúgios, sem nenhum mistério, e sobre o qual eu havia sido muito diligente na procura do pequeno objeto. Dediquei um bom tempo a ruminar umas explicações sobre o caso. Contudo, uma após outra, eu as descartava, achando-as improváveis, inverossímeis. Não me restando outras explicações práticas, simples, banais, enveredei pelo terreno do fantástico e até mesmo do controvertido mundo da mecânica quântica e das suas várias e hipotéticas dimensões. Deixo que o leitor se divirta, fazendo suas conjecturas, imaginando razões plausíveis para o sumiço da tampa. Peço, porém, que não me ponha a culpa, pois a minha busca foi realmente obsessiva e minuciosa.

sábado, 1 de janeiro de 2011

ELMAR CARVALHO, O HOMEM E SUA OBRA (*)



JOÃO CARVALHO FONTES e EDILBERTO VILANOVA

Antes de falarmos da obra de Elmar Carvalho, vamos falar do homem, que além de escritor, poeta, crítico literário, é magistrado de formação humanística e profissional competente como costuma acontecer quando o profissional associa humanismo à técnica.
Elmar nasceu em Campo Maior, mas é um oeirense de coração. Seu fascínio por Oeiras vem desde a infância, quando leu uma lição sobre a Vila da Mocha, num livro didático: NOSSO TESOURO. Desde então, a magia de Oeiras impregnou sua alma, levando-o a dar à luz, em sua maturidade, aos poemas: NOTURNO DE OEIRAS, NOTURNO DO CEMITÉRIO VELHO DE OEIRAS, a que acresce os acordes encantados de misteriosos bandolins; e agora, o livro: NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES.

Falemos agora de sua obra. O que primeiro desperta atenção no livro de Elmar Carvalho é a forma humilde com a qual ele dispõe seus escritos, abrindo desde o princípio, um diálogo com o leitor, através do reconhecimento à grandeza histórica e cultural de Oeiras, valorizando, dignificando e reverenciando nossa terra de maneira carinhosa, numa reunião de textos que não só desempenham um papel literário, mas também documentam passagens suas pela velha capital.
O que mais aguçou meus sentidos de leitor no livro Noturno de Oeiras e Outras Evocações, de Elmar Carvalho, sendo eu também afeito a semeaduras na lida da lavoura das palavras; foi o esmero na tessitura imagética da geografia oeirense e a forma como alinhavou seus tecidos poéticos. Em suas evocações, Elmar emoldura com palavras, paisagens figuradas por seres reais e imaginários, traçando às vezes linhas de maniqueísmos e contrastes evidenciadas em seus versos , com incidências de caracteres típicos da linguagem barroca, como se pode notar no seguinte trecho do poema Noturno de Oeiras:
No Horto do pé de Deus
Visagens rezam contritas.
No Horto do pé do Diabo
Assombrações assombram
Bichos e visitas
Assim como repagina o almanaque de tradições e lendas oeirenses e como um artesão de santos, esculpe novas imagens e eterniza nomes maiores responsáveis pela feitoria da cultura e da arte piauienses, oriundos da velha urbe e pinta os universos multifacetados, mágicos e misteriosos de Oeiras, que, apesar da atmosfera mítica, sobrepõem-se lúgubres, soturnos, aprofundados nos recônditos da alma, onde os homens e os fantasmas fundem-se nas sombras da noite e como num acesso de metempsicose, todos os objetos e seres amordaçados nos velhos sobrados conspiram. Nos poemas, a linguagem e o ambiente têm a mesma ideia de composição, formando assim, um só corpo. Veja como as palavras ganham forma neste trecho do poema Noturno do Cemitério Velho de Oeiras:
Cemitério de abandono
Fantasma sem sono
Abrem os portões
De gonzos gementes, enferrujados,
E vagam pelas
Ruas adormecidas
-sombras tênues, diáfanas,
Esquecidas.

Os textos são permeados por simbologias e por se tratar de evocações, mesmo nem sempre sendo cósmicas, projetam um cenário neo-simbolista. O que é notado também na linguagem, nos casos de criação de prosopopéias e sinestesias. Em noturno de Oeiras, o poeta personifica a casa da pólvora: à distância a casa da pólvora/vigia em sua solidez de pedra bruta. Como também tece uma engenhosa e bela fusão de sentidos, através da degustação e da percepção sonora neste trecho do poema N.C.V.O: onde músicos falecidos/ acordam sons delicados/ doces como alfenim.
Embora o livro seja dinâmico e repleto de polimorfia, não deságua em incoerências, pois conserva a unidade temática durante todo o desenvolvimento, não sendo assim amorfo, porém pluriformizado, visto que não há nele a ausência de formas e sim o convívio simultâneo de formas distintas, com uma predominância geral: a linguagem poética. Seja na crônica ou na crítica literária, Elmar Carvalho nunca perde a poeticidade, elaborando narrativas e comentários cheios de imagens e combinações sonoras ricas em estética.
Suas crônicas são precisas e profundas, dotadas de uma linguagem apurada, como quem penetra surdamente no reino das palavras e se serve delas para abraçar os amigos e eternizar as horas. Por elas passeiam momentos memoráveis da história piauiense, como o encontro magistral de um grupo de escritores renomados com o mestre Possidônio Queiroz.
Na crítica literária Elmar Carvalho não perde tempo com subterfúgios, com arroubos de exegetas, nem com exibicionismos enciclopédicos, como fazem muitos dos nossos críticos. Elmar demonstra todo seu conhecimento literário dentro da obra do próprio autor analisado, sem necessariamente recorrer a teorias e/ou cânones da literatura universal, penetrando as entrelinhas com um grande conhecimento de composição poética.
Ao criticar o grande poeta Nogueira Tapety, Elmar afirma que o poeta citado considerava a sinceridade dos sentimentos colocados no papel. Numa opinião pessoal, Elmar diz que um verdadeiro poeta, qual um profeta imerso em seu misticismo e arrebatado em sua fé, deve construir sua vida como um poema e conforme sua poesia.
Parafraseando O.G. Rêgo de Carvalho, digo que um autor não pode ter piedade de si mesmo, tem que se expor a nu, nem que seja para o ridículo, mas é preciso se expor e escrever com sinceridade, como se estivesse rasgando o coração. Tudo isto é notável com forte expressão na obra de Elmar Carvalho, escrita com palavras navalhadas de amor e saudade.

(*) Apresentação de lançamento do livro Noturno de Oeiras e Outras Evocações, na edição do Sarau Ágora do dia 23.12.2010, cujo evento aconteceu no Café Oeiras.