sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

DECÁLOGO

ANTÔNIO ALBERTO ARAÚJO – Nasceu na cidade de Luzilândia-PI. Casado com a psicóloga Shirley S. Lopes. Atualmente reside em Niterói-RJ - poeta, escritor, contabilista, professor, e licenciado em letras/português pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI - desde cedo que escreve poesias, contos, etc. tem um vasto conhecimento na poesia lírica, termo que mais o identifica. Já é muito conhecido pelo o Brasil, e parte do mundo, além deste publicou; “Caminhos percorridos Eu e a Poesia- poemas”. Participou da I Antologia dos poetas contemporâneos do Brasil, pela editora In house, livro que foi lançado na Bienal 2010-São Paulo-SP. Breve publicará o seu terceiro, será um romance. Sua poesia tem também característica social e contemporânea. Assina vários sites e blogs. Em seu site oficial conta-se com mais de 90 mil leituras. As maiorias dos seus trabalhos estão sempre sendo divulgado na Internet, para se ter acesso às sua poesia basta acessar os sites/blogs.
site português: http://www.lusopoemas.net/
blog: http://albertaraujo.blogspot.com/
blog: http://sitedepoesias.com.br
contato - e-mail: alberto_bacana@hotmail.com
a.alberto.sousa@bol.com.br.



ANTÔNIO ALBERTO ARAÚJO

Perguntas formuladas por Elmar Carvalho

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

R - Com certeza Iniciei aos meus dez anos, foi minha professora de Literatura, que me emprestou o livro "O Guarani" de José de Alencar, lembro que li e reli e fiquei fascinado com a história, e depois li "Iracema", esse livro me fascinou ainda mais, desde então me entreguei a literatura de corpo e alma. Digo sinceramente não consigo ir para a cama sem ler algo literário.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

R-  há poucos anos, mas desde cedo já escrevia meus textos. E sempre mostrava aos meus amigos. Ainda tenhos todos eles digitados, hoje já são mais de tres mil textos, entre poesias, contos. etc.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

R - Sim, digamos um pouco,sempre gostei de autores do meu velho Piauí, Mauro Faustino,Torquato Neto, O.G. Rego,(Rio Suterrâneo, simplesmente genial), Lado da Poesia vem, Da Costa e Silva, H. Dobal, Francisco Miguel de Moura, Alcenor Candeira Filho, Rubervan du Nascimento,(esse é meu amigão, no meu livro tem uma poesia para ele), Elmar Carvalho,são tantos... Esses escritores e poetas eu sempre li, mas,  todos nem sabiam que eu existia é claro, sempre fiquei no anonimato, nunca apareci publicamente, nunca quis isso, somente no ano de 2008, já com 45 anos, que eu me revelei, No encontro de Literatura de Luzilândia que apresentei meu trabalho. Participei do bate papo do SALIPI, Fiz parte da I antologia do poeta contempoâneo do Brasil, que foi lançado na Bienal de São Paulo de 2010, e agora já está na editora o meu segundo livro solo.e vou fazer parte novamente da II antologia do poeta contemporaneo do Brasil, que será lançado na Bienal do Rio de Janeiro 2011. Agora sou muito conhecido por todo o Brasil, e parte do mundo. Assino vários sites e blogs,

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

R- Quando participei da Bienal 2010 de São Paulo 

5 – Como conseguiu editar seus livros?

R - Minhas reservas, poupando cada centavo. Não recebi ajuda de nenhum orgão publico. Então publiquei meu primeiro livro solo, pela Editora SECCO de Florianópolis-SC, do dinheiro que vou vendendo meus livros juntei novamente e agora estou editando o meu outro livro solo, chamar-se-á "Identidade do Sol" - 196 paginas e sairá pela editora ALL PRINT, uma das editoras mais conceituadas de São Paulo, a mesma editora da escritora Maria Teresa Moreira - de Depressão Surda.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

R -  "Caminhos Percorridos Eu e a Poesia - Poemas" - ANTONIO ALBERTO ARAUJO - este livro pode ser encontrado no Piauí, na Livraria Piauiense -  da Rua Frei Serafim - falar com Jucinéia. 
O principal texto é "O Rio Parnaiba(Velho monge) pede ajuda" - está na página 175 do livro "Caminhos percorridos Eu e a poesia"
este texto fala de um rio sofrido, diante da degradação, dos dejetos que são atirados nele, um texto bastante reflexivo.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

R - Ainda tem muito que se fazer pela a Cultura Piauiense, não resta  dúvidas que é uma das melhores do Brasil, temos muitos autores bons, tantos veteranos como iniciantes,   Há uma deficiencia muito grande na incentivação, por exemplo porque não se coloca nas escolas, uma disciplina que se fale da Literatura Piauiense, digo assim uma disciplina que se aprofunde mais no contexto  biográfico, e obras dos autores, fazer disso a cartilha do aluno. Vejo um lado preconceituoso, a velha história que santo de casa não faz milagre, mero engano.

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

R - Como iniciei anteriormente, a Literatura Piauiense, é uma das melhores do Brasil, e por que não do mundo. Já que temos tantos talentos.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

R - Altamente importante, é aí que se conhece o mundo dos escritores, dos poetas, é aí que se pode ver que todos estão aqui para fazer um mundo mais belo, e retirar dos textos publicados pelos autores as nossas inspirações.

10 – Como e por que se fez literato?

R - A poesia para mim é como o ar que respiro, quando não sou o ator principal sou o coadjuvante.  A literatura foi e será sempre o meu objetivo na vida, viverei para escrever, viverei para ajudar adoçar um pouco mais a vida.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

ELMAR CARVALHO

XXI

Nos primeiros dias da primavera
o espectro da tarde me rondava,
enquanto a vertigem da torre
era o vestígio da mulher
que eu amava (e que me amava)
disfarçada em sombra de fantasma
e cabeça de Grifo decepada.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



16 de fevereiro

ADOLESCENTES & ABORRECENTES

Elmar Carvalho

Lembrei-me hoje de um conversa que tive com o Ataíde Coelho, fiscal da Fazenda Estadual, durante caminhada no calçadão direito da beira do Poti. Contou-me ele que uma médica da sua amizade havia dito que os filhos, quando bebês, são tão fofos que a pessoa sente vontade de comê-los, creio que pela beleza e pelo cheiro dos pimpolhos, mas que, quando se tornam adolescentes e aborrecentes, a pessoa se arrepende de efetiva e literalmente não os haver comido. Isso me fez lembrar a mitologia greco-romana, em que Saturno devorava os próprios filhos. Também dizem que a venenosíssima cascavel se arrasta a parir, e depois faz o caminho inverso a comer os filhotes. Esse fato, se verdadeiro, seria bom para os outros animais, porquanto o número de animais peçonhentos seria bem menor. O Vinicius de Moraes, que se dizia um homem desprovido de arestas, proclamou, a versejar, que “... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-lo?” Na dúvida, o poetinha, no maior e melhor sentido do diminutivo, preferiu ter a sua cota, pagando o seu tributo à reprodução da espécie.

De qualquer sorte, a problemática da adolescência sempre existiu, só que hoje, com o uso de drogas e com os jovens ingerindo álcool cada vez mais precocemente, parece que os conflitos entre adolescentes e pais se agravaram de forma acentuada. Li, tempos atrás, que o filósofo Sócrates, nascido alguns séculos antes de Cristo, já se inquietava com a rebeldia dos adolescentes. O fato é que a explosão hormonal contribui para que esses jovens se tornem mais desabridos e contestadores, desrespeitando normas, convenções, tabus e os mais velhos, inclusive pais e avós. É como se a geração mais nova, para se firmar, precisasse fustigar a mais velha.

Contudo, é comum vermos os jovens permanecendo por mais tempo a morar no lar paterno, onde têm pão, teto, vestuário, conforto, sem nenhuma despesa e preocupação. Alguns ainda querem constituir família a morar na casa dos pais, com estes sendo os responsáveis pelo sustento dos netos e da nora ou genro, o que afronta o aforismo antigo que dizia que “quem casa quer casa”. Como se tudo isso fosse pouco, vemos garotas, sem nenhum preparo psicológico e financeiro, tendo filhos cada vez mais precocemente, e forçando os pais a criarem os netos, quando eles mais precisam de sossego, tempo e dinheiro para o enfrentamento das mazelas que a velhice impõe. Se Cícero ainda fosse vivo, certamente continuaria a bradar, censurando: Ó tempos! Ó costumes!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



15 de fevereiro

A PREGUIÇA E O POSTE ELÉTRICO

Elmar Carvalho

Da janela do apartamento em que moro, no condomínio Pingo d' Água, em Regeneração, acabo de ver a chuva caindo sobre as grandes árvores do quintal em frente. Agora, enquanto dedilho este teclado de computador, escuto a música da água a cair sobre o telhado e sobre as poças que se formaram. Sempre gostei de contemplar a natureza. Nas várias viagens que fiz, em minha juventude, no percurso Teresina – Parnaíba – Teresina, ficava a observar a paisagem da janela do ônibus da antiga empresa Marimbá. Devo dizer que essas contemplações me inspiraram vários textos literários, sobretudo poemas e crônicas. Em minhas funções de fiscal e magistrado, conheci várias paragens da hinterlândia piauiense. Quando estou dirigindo meu carro, procuro não atropelar os animais silvestres, seja freando ou desviando o veículo. Já ouvi falar de pessoas de bom coração, que chegam a estacionar o automóvel para retirar da pista de rolamento alguma preguiça, que anda sempre no compasso de sua lentidão metabólica, talvez a nos ensinar a sermos mais pacientes e menos açodados. O simpático bicho parece transmitir bonomia, em sua lentidão de quem não deseja competir com ninguém, muito menos contra alguém; até o piscar de seus olhos puxados parece visto em câmera lenta. De dentro de seus olhos a bondade parece nos espreitar.

Tenho visto nas revistas e nos noticiários da televisão, que, com o desmatamento desenfreado que o homem vem promovendo, grandes e pequenos animais estão a entrar nas cidades, ou pelo menos rondam as regiões periféricas das metrópoles, na luta pela sobrevivência, ante as florestas devastadas. Comoveu-me bastante a história de uma preguiça. Esse lentíssimo animal, por causa dessas mazelas contra o seu habitat, chegou a uma cidade. Não encontrando as ervas, os capins, os arbustos e as grandes árvores, que lhe servem de alimento, proteção e moradia, foi escalar um poste da rede elétrica. Sem dúvida, foi a coisa mais semelhante a uma árvore que encontrou, perto do local onde chegara. Estranha e desnuda árvore, feita somente de um rígido caule, sem casca e sem seiva, sem galhos, sem folhas, sem flores e sem frutos. A paciente e pachorrenta preguiça, em sua inocência animal, talvez procurasse pousada e proteção, ou mesmo algum fruto perdido nas alturas dos fios elétricos, que podem ter sido confundidos com esquisitos e esqueléticos ramos e galhos.

A preguiça, em sua inglória escalada, colheu apenas uma forte descarga elétrica, que lhe mutilou a pata e a garra, tão essenciais para a sua sobrevivência na floresta, para subir nas árvores, em busca de proteção, repouso ou alimentos. O pobre animal deve ter ficado perplexo, com árvore tão traiçoeira, mais intratável que o cacto do poema de Manuel Bandeira. O caso dessa preguiça deve ficar como uma emblemática e contundente denúncia do que o homem vem perpetrando contra a fauna e a flora de nosso espoliado planeta. Extintos os animais e extirpadas as florestas, de que o homem irá sobreviver?

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS



MULTIPLICAÇÃO DA MATÉRIA

Elmar Carvalho

Segundo a famosa lei de Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Apenas Deus poderia criar do nada. Mas, sendo Deus a existência absoluta, nem mesmo Ele cria do nada. Ele cria de si mesmo ou do que já existe potencialmente Nele próprio. O nada seria a inexistência; na realidade, não passa de uma abstração em oposição ao existente. E ninguém concebe o inexistente. Cristo, em seus milagres, multiplicou os peixes e os pães, e transformou a água em vinho, mas não os criou. Ademais, humildemente, dizia que os prodígios que realizava não os fazia por si mesmo, mas através do Pai, que o enviara. Deus vai liberando os conhecimentos, as invenções e as tecnologias, nas diferentes etapas evolutivas da raça humana, aos pouco e conforme as necessidades do momento. Como o homem vem esgotando os recursos naturais do nosso planeta, tenho a impressão de que, se o problema continuar na marcha que vai, Deus vai terminar liberando o conhecimento e a tecnologia para multiplicação ou reprodução da matéria (mas nunca a sua criação).

sábado, 12 de fevereiro de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO

XX

Quem diz estas minhas palavras
não sou eu, mas Paul Éluard,
mas o busto pesado de Paul,
pesado mas que levitava.
O busto enigmático de Paul
sou eu, que me decifrava.

NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS

Cunha e Silva Filho




“em teu seio hospedeiro


De mulher-moça-menina!

Eu te amo e tu me amas,

Venturosa Teresina!”

(Hardi Filho) 


CUNHA E SILVA FILHO

Desta vez, infelizmente, a minha viagem foi rápida a Teresina. Só passei três dias e uma manhã. Apenas isso para quem desejava permanecer pelo menos uma semana. E uma semana ainda é pouco Fui lançar meu livro As ideias no tempo, uma edição da Gráfica do Senado em convênio com a Academia Piauiense de Letras (APL), também chamada a Casa de Lucídio Freitas.
O evento se deu numa manhã de sábado de uma Teresina quente. O lançamento foi marcado pras 10 h. Fui ao belo prédio, construção antiga e elegante. Fica num plano alto da Avenida Miguel Rosa.
Meu filho, Cunha e Silva Neto, professor universitário de Direito em Curitiba e advogado, um estudioso da área jurídica, especialmente do direito constitucional, com trabalhos relevantes já publicados, e eu fomos recebidos primeiro, pelas secretárias da APL, Verinha e Cremísia. As duas, por assim dizer, são a alma da Academia e dela cuidam com desvelo e profissionalismo. Não faltou a presença pontual do porteiro Caú, que conhece minha família há muito tempo. Poucos instantes depois, surgiu um membro da Academia, o poeta, advogado e jornalista Altevir Alencar, que nos convidou para uma salinha que deve ser a do presidente da APL, Reginaldo Miranda.
Enquanto o presidente da Academia não chegava, entretivemos uma agradável palestra com o Altevir Alencar. Em seguida, foram aparecendo homens ligados à APL, escritores, membros da Academia e, finalmente, o presidente, o Reginaldo Miranda, pessoa que havia apenas conhecido em conversa pelo telefone a fim de combinarmos antecipadamente tudo para a realização daquele lançamento.
Reginaldo Miranda é pessoa educada, simpática, simples e transmite tranquilidade a quem dele se aproxima. Muito jovem ainda, é advogado e historiador e me parece alguém talhado para o cargo que ocupa na Academia que, naquela manhã, iria abrir o calendário acadêmico programado para este ano. Ficarei torcendo a fim de que toda a programação de eventos seja cumprida e com muito sucesso.
Pouco a pouco, foram chegando novas pessoas, convidados, amigos, leitores, escritores, membros da APL e autoridades representativas de órgãos públicos de setores da cultura e educação.
Fomos convidados para o espaço do auditório da Academia, onde já nos esperavam os convidados. Alguns presentes, constituídos de entidades culturais (APL, FUNDAC, UBE-PI, Secretaria de Educação, Conselho Estadual de Cultura), compuseram a mesa, incluindo a pessoa do meu filho e a de quem assina esta coluna. Ao poeta Altevir Alencar coube a parte do Cerimonial. O presidente Reginaldo Miranda abriu a sessão acadêmica e relatou uma série de projetos que deverão ser implementados pela Academia, como a retomada da publicação da tão aguardada Revista da Academia, dar continuidade à publicação do boletim Notícias Acadêmicas entre outras realizações a serem desenvolvidas ao longo deste ano pela APL. Reginaldo Miranda, com muita elegância, dirigiu palavras a meu respeito e reafirmou a alegria e o prazer de me receber naquela manhã de autógrafos. Sua oratória é límpida, fluente, polida e ao mesmo tempo objetiva.
O presidente do Conselho Estadual de Cultura, M. Paulo Nunes, professor emérito da UFPI, crítico literário, ensaísta e educador, além de ser um dos mais eminentes intelectuais do Piauí da atualidade, fez uma bela apresentação do meu livro, que considerei pessoalmente, uma aula viva de literatura brasileira, abordando, com a sua vasta experiência e saber, com equilíbrio e mesmo eloquência, não só os principais aspectos do conteúdo do meu livro, mas articulando a sua palestra ao conjunto de fundamentais temas e autores da literatura brasileira, sobretudo na esfera da crítica literária, sendo, por isso, duas vezes justamente aplaudido pela seleta e ilustre assistência e membros da mesa. Antes, em jornal, no Diário do Povo (03/02/2011) já havia antecipado uma generosa e lúcida resenha sobre meu citado livro. Por sinal, Paulo Nune é o prefaciador do meu livro.
Finalmente, usou da palavra o autor desta coluna a fim de, emocionado, agradecer aos presentes, isto é, tanto da assistência quanto dos membros da mesa, que, naquele recinto destinado ao saber nas diferentes áreas do conhecimento, ali estavam abrilhantando o evento. Finalmente, recebi os convidados para a manhã de autógrafos, enquanto já se estava servindo, na sala fora do auditório, um gostoso coquetel.
Ainda sobre a viagem, mas agora no plano do relacionamento social, o prof. M. Paulo Nunes e o professor Celso Barros Coelho convidaram-nos, a mim e ao meu filho, para almoçarmos no domingo num aprazível restaurante, quando pudemos falar sobre temas relacionados à literatura e à ciência do direito. Isso porque sem que o notássemos, formou-se quase um par bifurcado de conversas.
Entre mim e o ilustre professor Paulo Nunes, o diálogo tomou o rumo da literatura; entre meu filho e o grande jurista Celso Barros Coelho, o bate-papo gravitou em torno de temas jurídicos. Contudo, o professor Paulo Nunes e eu, e bem assim meu filho e aquele jurista maranhense, mas piauiense de coração, não ficamos indiferentes àquelas duas áreas distintas, porquanto ao estudioso de literatura e ao estudioso do direito o saber latu sensu também faz parte do conhecimento deste mundo, principalmente hoje em dia atravessado pelos estudos e pesquisas multidisciplinares e transversais. E só pra lembrar, Celso Barros cultiva e produz na área de letras; Paulo Nunes é graduado em direito, meu filho aprecia ficção e eu não desdenho o direito. Ficamos, portanto, em família.
Na segunda-feira, dia 7, meu filho e eu visitamos a nova sede do Conselho Estadual de Educação, no bairro da Vermelha, convidados que fomos pelo professor M. Paulo Nunes. A nova sede está funcionando num sólido prédio de uma antiga Escola Pública. Está todo reformado, limpo, bem cuidado por dentro e por fora. Por dentro, é valorizado por murais do talentoso artista piauiense Nonato Oliveira que, na opinião criteriosa do professor M. Paulo Nunes, está no mesmo nível dos mexicanos Orozco e Diego Rivera e dos artistas piauienses do porte de Mestre Dezinho e Mestre Expedito, famosos como santeiros.
O professor M. Paulo Nunes, nosso anfitrião, nos fez conhecer todas as dependências que formam as seções do Conselho: o acolhedor auditório ( capacidade para 120 lugares), a sala da Biblioteca, de cujo acervo 1500 livros foram doados da biblioteca particular deste dinâmico presidente, o centro de informática no qual se pretende criar uma biblioteca virtual destinada sobretudo a jovens, afastando-os, assim, das ameaças da indolência e das drogas Uma das metas do seu setor de informática é conseguir digitalizar todo o acervo da biblioteca, conectando-a com a internet e, por conseguinte, com o mundo.
Toda a atenção do presidente M. .Paulo Nunes é no sentido de que a nova sede Conselho Estadual se torne um espaço aberto e democrático à comunidade local e de outros bairros, realizando, no relativamente amplo espaço à entrada do seu prédio, eventos culturais a céu aberto e mesmo durante noites enluaradas, como bem-humorado assinalou o professor M. Paulo Nunes. São muitos os planos já projetados pelo professor Paulo Nunes. Oxalá que se concretizem todos eles, pois todos visam ao desenvolvimento cultural-educacional dos piauienses, particularmente os jovens.
As horas que me sobraram foram limitadas, mas uma não podia deixar de aproveitar. Fui, com m eu filho, até à casa do saudoso escritor e acadêmica José Lopes dos Santos visitar sua viúva, a Miriam, e familiares. Com um deles, o Oscar, demos um pulo num dos shopppings de Teresina. À tardezinha, saí com meu irmão Evandro pra dar uma olhada no belíssimo point turístico chamado “O Encontro das Águas,” porém, quando lá chegamos, já era noite e não fazia mais sentido me demorar lá. Também, desta vez, não pude ir a Amarante. Deixarei pra outra oportunidade. Na tarde do dia 7, meu filho e eu regressamos pro Rio de Janeiro. Como sempre, ao deixar Teresina, levo saudades do Piauí.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

UMA ESTÁTUA PARA O POETA DO MEARIM


Charge: Fernando Castro

PÁDUA SANTOS *

         HUBERTO ROHDEN, filósofo e educador brasileiro, doutor em Ciências, Filosofia e Teologia em universidades da Europa, em seu livro “Filosofia Contemporânea – O Drama Milenar do Homem em Busca da Verdade Integral” - Editora Martin Claret, 2008, informa que quando foi inaugurado, em 1882, um monumento em memória de Spinoza, o grande filósofo da liberdade, Ernest Renan, ao fazer o seu discurso oficial, finalizou dizendo: “Maldição sobre o transeunte que insultar esta suave cabeça pensativa! Será punido como todas as almas vulgares são punidas – pela própria vulgaridade e pela incapacidade de conhecer o que é divino. Este homem, do seu bloco de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e, por todos os tempos, o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: ‘ Eis o homem que teve a mais profunda visão de Deus!’”
         Esta oração foi proferida em Haia, onde o filósofo viveu algum tempo e também onde Maurício de Nassau, o ordenador da famosa invasão holandesa no Maranhão - 1641/1644 - construiu uma aprazível casa que mais tarde virou o famoso Museu Mauristshuis. Foi ali onde aconteceu, em 1907, a célebre Conferência de Paz na qual o brilhante advogado e jurista Rui Barbosa defendeu, com galhardia, o princípio da igualdade jurídica entre as nações, fato que lhe rendera o apelido de “Águia de Haia”.
          No meu caso, sendo advogado como foi Rui, mas não sendo jurista como aquele famoso gênio baiano, defendo neste escrito singelo não a igualdade entre as nações, mas o direito de ser construído um monumento novo no Maranhão. Que não seja um monumento venerado e comentado pelos filósofos do mundo inteiro, como aquele de Haia, em memória do filósofo Spinoza e que fora erigido depois de sua morte; mas que seja uma construção, edificada em Vitória do Mearim, destinada a homenagear, em vida, o talentoso poeta, contista, cronista e educador Arimatea Coêlho. E justifico minha proposta:
        O Maranhão, principalmente sua capital, São Luís, talvez por ter sido berço de Francisco Sotero dos Reis, também educador e homem de letras, autor da primeira gramática do Brasil, destacou-se em um passado glorioso ao ponto de construir uma praça – a famosa Praça do Pantheon – para expor, em bronze, a imagem dos seus heróis, poetas e escritores.
  Estes vultos, por longos tempos admirados, saíram dos seus pedestais, a pedido da Academia Maranhense de Letras, por temor dos constantes ataques de vândalos que chegaram ao cume do desrespeito à cultura roubando a imagem de um deles, do Humberto de Campos, afamado memorialista, atualmente destacado em majestoso memorial localizado na Academia Parnaibana de Letras, na cidade Parnaíba, no Estado do Piauí. Mas estas celebridades, um dia, haverão de voltar aos seus lugares e a Ilha continuará a mostrar aos seus visitantes do presente aquelas respeitadas figuras que enriqueceram o seu passado.
          Em outras cidades, no interior do estado, não é custoso se encontrar, no centro de uma praça movimentada ou mesmo no canto de um jardim esquecido, a solitária imagem de um poeta romântico que um dia falou, para o Maranhão e para mundo, dos seus amores e de suas saudades. Em Vitória do Mearim, mesmo sendo a terra onde nasceu Trajano Galvão de Carvalho, não se vê, nem dele nem de qualquer outro filho da terra, qualquer efígie capaz de perpetuar a memória daqueles que engrandeceram o seu passado ou dos que hoje enaltecem o seu presente.
          Lourival José Coêlho, que antes de ser prefeito fora músico em sua terra, teve a larga visão de imortalizar, há mais de um quarto de século atrás, o seu conterrâneo flautista e solitário poeta - o primeiro a defender a liberdade dos negros cativos - criando uma biblioteca com o seu nome, mas esta, assim como a famosa da Alexandria, uma das maiores do mundo antigo, florescida no Século III a.C., sob o patrocínio da Dinastia Ptolomaica e destruída por um incêndio na Idade Média, também desapareceu, embuçada na fumaça da aversão à cultura, sepultada nas cinzas da fogueira da ignorância.
            Por força desta omissão é que me vem à lembrança o vitorioso vitoriense Arimatea Coêlho. Merece ele uma estátua por ser poeta e contista premiado; cronista de mancheia, às vezes irreverente ao ponto de responder, usando as palavras de Otto Lara Resende, se um dia lhe perguntassem se gostaria de tamanha homenagem post mortem: “De que nos serve a posteridade, se não seremos contemporâneos dela?”.
         E se alguém resolver perguntar: “porque não homenagear primeiro o Trajano Galvão, já que a primeira tentativa não vingou?” Respondo: porque seus compadres e amigos já demonstraram falta de garra para barrar as forças destruidoras. E mais: homenageando o Arimatea, far-se-á, de uma só vez, a homenagem dos dois. Afinal, são filhos da mesma gleba, ambos de uma mesma academia - um patrono do outro.
          Acatada minha ousada e justa ideia, e se por minha condição de compadre, seja eu o escolhido para o discurso de inauguração, parodiarei, em parte, o filósofo Renan, para dizer na ocasião:
Maldição sobre o transeunte que insultar esta suave cabeça do legítimo escritor do Mearim. O poeta que além de cronista e educador soube, como nenhum outro até agora, descrever e colocar no papel, para conhecimento dos leitores do presente e do futuro, interessantes fatos e lendas de sua terra. E neste ponto lembrarei, de novo, o que disse o escritor e professor de São João Del Rei em bem elaborado texto denominado “Vista Cansada”, publicado no jornal Folha de São Paulo, edição de 23 de fevereiro de 1992: “O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê.”.
É assim o Arimatea. Além de poeta laureado em outros concursos, é o grande vencedor do Prêmio Gonçalves Dias de Literatura de 2009, com o seu excelente livro de contos “A Manguda de Flores”, trabalho de fôlego onde viu, com os olhos de exímio ficcionista que facilmente sabe dosar a poesia à prosa e o fictício ao real, exatamente o que os outros não conseguiram ver, porque lhe faltaram olhos de verdadeiro contista ou simplesmente por falta de habilidade.
E, sempre parodiando o influenciador filósofo Renan, diria para encerrar o meu pronunciamento na imaginária, porém possível inauguração:
“Este homem, do seu bloco de granito, apontará a todos o caminho da boa literatura por ele encontrado; e, por todos os tempos, o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Eis aqui o filho de Vitória que mais vitórias conseguiu no difícil campo das belas-letras.”
E porque falei em Gonçalves Dias, mais um conselho, se é que a justa homenagem venha a se concretizar: não se construa estátua sedestre como a do historiador João Lisboa, no Largo do Carmo, no centro velho de São Luís, porque os poetas não gostam de ficar sentados eternamente. Faça-se de forma pedestre e na altura da palmeira do cantor dos Timbiras, como se vê no Largo dos Amores, para que assim se possa dificultar a nefasta ação dos saqueadores da Praça do Pantheon.

* Presidente da Academia Parnaibana de Letras – APAL

FLAGRANTES & INSIGHTS

Alcenor na capa de Gervásio Castro
Gervásio Castro, em autocharge, retrata Elmar

ARROMBADO E PEITO DE MOÇA

Elmar Carvalho

Convidados pelos amigos Gervásio Castro e Alcenor Candeira Filho para participarmos de um encontro gastronômico-etílico-lítero-musical, no antigo bar Acadêmico, na praça da Graça, preferimos, em virtude de programação anterior, ir antes, eu e o Canindé Correia, para a Praia do Arrombado. Quando chegamos ao boteco, no início da tarde, onde também (e ainda) estavam o Weber Mualem e o Fernando Castro, o Alcenor, brincando, nos chamou de “traíras”, uma vez que trocamos essa boa turma pela Praia do Arrombado. Dou-lhe, agora, razão. Se ao menos a troca tivesse sido por Peito de Moça, a atração lírica, sonora e sugestiva desse nome, que mexe com o imaginário, justificaria a escolha.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


9 de fevereiro

CHUVA E APAGÃO

Elmar Carvalho

Após o recesso natalino e minhas férias, retornei na segunda-feira, pela manhã, a Regeneração, para reassumir minhas funções. Quando abri a geladeira, logo notei que não havia energia elétrica. Tomei conhecimento de que desde domingo o fornecimento desse serviço fora interrompido. Ou seja, estava havendo um apagão em grande área do médio Parnaíba. Todos lembram que importante autoridade federal garantira que o Brasil não corria risco de sofrer novo apagão, como ocorrera anos atrás, quando grande e importante parte do território nacional ficara sem o serviço de fornecimento de energia elétrica. Acontece que eu vi na internet que, desde o famoso apagão que assombrou os brasileiros, o nosso país já sofreu dezenas de vários apagões de menor escala.

Não preciso lembrar que no Piauí, sobretudo nas pequenas cidades, o serviço de energia elétrica é muito ruim, tanto em termos de voltagem, como de oscilações e interrupções, que por vezes se prolongam por várias horas. No caso do problema em Regeneração, o fornecimento retornou por poucas horas na segunda-feira, voltando a faltar de novo, para somente ser restabelecido depois do meio dia de terça-feira. Deixo que o leitor se encarregue de calcular e imaginar os prejuízos que a população sofreu, no tocante a conservação de alimentos, impossibilidade de uso de aparelhos eletrodomésticos, interrupção de serviços públicos, inclusive de fornecimento de água e telefonia, fora os danos causados ao comércio, sobretudo os que vendem produtos perecíveis ou os que precisam de energia para prestação de serviços.
Na tarde de segunda-feira, caiu forte chuva, que se prolongou noite adentro. Houve um pequeno temporal, com o vento uivando nas folhagens, perto de minha casa. Fui ao terraço para contemplar o espetáculo da natureza. As árvores se retorciam, bracejavam em louco requebrado e bramiam, sob os açoites da ventania. Na terça-feira também choveu muito. Lembrei-me de Ribeiro Gonçalves, onde trabalhei durante quase quatro anos. Certa feita, depois de uma viagem de mais de doze horas de ônibus, cheguei à agência no momento em que caía uma chuva de média intensidade. Como não havia serviço de táxi e não havia nenhum carro nas proximidades, tratei logo de enfrentá-la de peito aberto. Segui para o fórum, onde residia em pequeno apartamento destinado ao juiz. Foi uma semana de chuva, em que fiquei o tempo todo na repartição, apenas fazendo o percurso do gabinete para o apartamento, e vice-versa.

Essa chuvarada de Ribeiro Gonçalves terminou me sendo benéfica, porque me inspirou um poema de difícil e longa gestação. Fazia tempos que regurgitavam em meu cérebro algumas ideias, algumas metáforas, comparações e onomatopeias, mas os versos teimavam em não querer passar para o papel, ou para a memória e virtualidade do computador. Contudo, vendo essa demorada chuva ribeirense, ouvindo o seu batuque no telhado, a semente do poema terminou por rebentar, e os versos floriram do jeito como eu os desejava, refertos de córregos, pululantes de pulutricantes cachoeiras, cantantes como rãs, espumantes como corredeiras nos dorsos das pedras. Encerrando este registro, digo que a chuva de Regeneração me fez lembar o jornal A Luta, de Campo Maior, em que publiquei texto de minha autoria pela primeira vez; esse semanário estampou que a energia da CEPISA era como bode, se arreliava com água. E note-se que esse reparo foi escrito ainda na primeira metade da década de 1970. Invocando o rifão popular, pergunto: será se tudo continua como dantes no quartel de Abrantes? Ou, pior, será se tudo continua – para usar outro anexim – como a cantiga da perua, pior, pior, pior...?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Foto antiga do general


9 de fevereiro

UM HEROI DA GUERRA CONTRA O NAZIFASCISMO

Elmar Carvalho

No domingo, dia 6, ao retornarmos de Parnaíba, eu e Fátima resolvemos almoçar em Piracuruca. No restaurante estava o irmão maçônico Francisco Airton de Carvalho. Conversamos rapidamente, pois ele já estava de saída. Recordou-se ele de que tomei posse como juiz de Direito em Piracuruca, e que fora ele, na qualidade de escrivão, quem lavrara o meu termo de posse. Lembrei-lhe que foi nessa curta temporada piracuruquense, de apenas vinte dias, que escrevi meu poema Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental. O grande artista plástico João de Deus Netto fez um belo cartaz com a primeira parte do poema, que coloquei em molduras e doei ao Fórum e à Prefeitura. Fiz, na sede da comarca, pequena e singela solenidade em que lancei o poema e o cartaz. Estavam presentes os servidores da Justiça, o intelectual Valdemar Meneses e o padre Oney Braga. No encontro do restaurante, aproveitei para dizer ao irmão Chico Airton que, sempre que passo por Piracuruca, recordo o general João Evangelista Mendes da Rocha, parente próximo do desembargador Manfredi Mendes de Cerqueira, meu colega da APL, e do advogado e escritor Paulo de Tarso Mendes de Souza. Acrescentei-lhe que, do meu conhecimento, o general nunca recebeu significativa homenagem de sua terra natal, como o seu nome ser dado a importante logradouro ou prédio público. Pedi-lhe que, através da maçonaria, envidasse esforços no sentido de que esse esquecimento fosse reparado. Chico Airton prometeu-me tratar desse assunto em sua oficina maçônica.

Quando tomei efetiva posse de meu cargo (posto que já fora empossado perante o Tribunal de Justiça em 19.12.1997), na Comarca de Piracuruca, no começo de janeiro de 1998, como juiz auxiliar, o magistrado titular Dioclécio Sousa da Silva, também pertencente à sublime Instituição, convidou-me para ficar hospedado em sua residência, pelo que lhe sou muito grato por esta prova de consideração. A casa ficava perto da velha e inativa estação ferroviária. Numa manhã fria e nevoenta, fui conhecer esse prédio. Ficava perto de uma leve curva da ferrovia. Ao longe da curva, eu via a estrada de ferro se perder na neblina, como em diluída, vaga e esbatida pintura impressionista. A estação e os pés de oitis quase ficavam esfumaçados, quase invisíveis, no meio da magia da densa bruma. Os galos, com o seu canto saudoso, vibrante e metálico, saudavam o amanhecer. Senti falta, apenas, dos repiques do sino da estação, a assinalar a chegada ou partida de velha e fuliginosa maria fumaça, também a badalar o seu sino e a emitir o seu melodioso apito a vapor. Já de há muito as locomotivas não mais passavam sobre aqueles carcomidos dormentes e enferrujados trilhos, a arrastar penosamente os vários vagões, que mais pareciam um bando de pequenas e enfileiradas casas, cheias de gente.

Desde minha juventude, mais precisamente a partir de 1975, eu costumava passar por Piracuruca, indo para Parnaíba, ou desta cidade voltando, a bordo de um ônibus azul marinho da empresa Marimbá. Parávamos em uma das lanchonetes do centro da cidade, que nos ostentava suas várias praças, solares, sobrados e palacetes. Muitos desses casarões e sobrados, por um quase milagre da vontade e esforço de seus moradores e donos, ainda estão de pé, alguns relativamente bem conservados. Creio que não houve nenhuma participação e incentivo do poder público para que isso acontecesse. Suponho que sequer tenha sido feito algum tombamento. Nessas passagens, eu via as pedras da saída para Parnaíba, que formam uma espécie de pórtico triunfal, a lembrar as formações rochosas de Sete Cidades, que por essa época conheci. Desde então alimentei o desejo de escrever um épico moderno, que falasse nos enigmas, belezas e mistérios das pétreas cidades encantadas. Sempre adiava a empreitada, porque não encontrava a forma que me satisfizesse como poeta, e porque o que esboçava em minha mente julgava indigno da grandeza daquelas caprichosas e monumentais formas esculpidas pelo vento, pela chuva e pelo tempo.

Todavia, durante os vintes dias que passei como juiz em Piracuruca, me retornou, com muita força, o desejo de escrever o poema. Então, como um insight, a sua forma e conteúdo me surgiram. Mandei-o, em primeira mão, ao ilustre general João Evangelista Mendes da Rocha, meu conhecido, há algum tempo, quando ele vinha visitar o Piauí e o seu torrão natal. Acompanhava o poema uma carta evocativa, vertida em prosa poética, que, com uma pequena adaptação, me serviu para fazer o prefácio de um dos livros do general, honra que ele gentilmente me concedeu. Era ele um homem culto, refinado, mas de um refinamento natural, sem nenhuma ponta de afetação. Era um perfeito cavalheiro. Dava-me a impressão de que tinha todo cuidado em não ferir e nem diminuir ninguém. Não tinha nenhum ranço de militarismo nem de disciplina de caserna. Escrevia artigos e crônicas sobre cultura, literatura, história e sobre as mazelas sociais do Brasil, que publicava em periódicos ligados ao Exército e no jornal O Dia, de Teresina. Coligiu esses textos e os publicou nos livros E o Sono Continua e A Serviço do Brasil. Editou ainda a obra Senha e Contra-Senha. Conquanto não fosse propriamente um crítico literário, escreveu alguns artigos sobre a minha produção poética, que considero muito pertinentes, argutos e apropriados, tanto que recolhi dois deles nos meus livros Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental e Rosa dos Ventos Gerais (2ª edição). Heroi da luta contra o nazifascismo, chegou a comandar, na Itália, uma das companhias da Força Expedicionária Brasileira – FEF. Foi condecorado com a medalha da Cruz de Combate.

Foi exatamente por causa desses serviços, de militar e de escritor, e por causa de sua bela e marcante personalidade, que pedi ao prefeito de Campo Maior, Antônio Lustosa, lhe concedesse a Medalha do Mérito do Jenipapo, a maior honraria do poder executivo local. Fiz a justificativa para a concessão, e a medalha lhe foi outorgada, em solenidade em que discursei, exaltando os altos e indiscutíveis méritos desse notável homem público, humilde e discreto em sua honrada aposentadoria. Peço aqui e agora que Piracuruca, sua amada terra natal, coloque o nome digno do general João Evangelista Mendes da Rocha num dos logradouros desse belo e histórico torrão. Tenho certeza que será uma justa e merecida homenagem.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



PERDIDO NA SERRA, NO TEMPO E NO ESPAÇO

Elmar Carvalho

Depois de algumas décadas morando na localidade Salinas, perto do rio Longá e da parte mais alta da chamada Serra Grande de Campo Maior, Serra de Santo Antônio, Serra Azul ou ainda morros isolados de Santo Antônio, como os mais sabidos dizem ser o nome correto desse acidente geográfico, talvez a parte mais extrema do fenômeno geológico que teria originado a Serra da Ibiapaba, João Agrícola resolveu ir morar na periferia da cidade de Campo Maior, no começo da estrada que vai para Coivaras e Alto Longá. Já então conseguira sua aposentadoria. Desse modo, seus filhos mais jovens poderiam estudar e se formar doutor, com direito a anelão, beca e tudo mais. Alguns dos seus filhos mais velhos já estavam casados, enquanto outros foram tentar a sorte no sul do país e em Carajás. Com a ajuda da bicicleta, ainda poderia fazer sua roça em Salinas ou na propriedade Passarinho, para complementar o provento.

Seu filho Francisco Agrícola era adolescente, e ainda tinha gosto de lhe ajudar na lavoura, nos dias de folga e nas férias. Gostava de caçar, tanto passarinho, como preás, pacas e cutias, nos socavões da serra, que ele conhecia como ninguém. João não se preocupava com essas caçadas, que o rapaz fazia, geralmente nos dias de sábado ou de domingo, porque ele era um moço ajuizado e conhecia as grutas e desfiladeiros como ninguém. Contudo, num dos sábados em que Francisco foi caçar, não retornou ao entardecer, como costumava fazer. João achou que o rapaz resolvera dormir na casa de algum conhecido, antigo vizinho. Quando deu meio dia de domingo, sem que Francisco retornasse, o pai ficou deveras preocupado. Acompanhado de outro filho, já taludo, começando a entrar na adolescência, foi em sua bicicleta tentar saber notícias do rapaz. Procurou nas casas da localidade em que o rapaz costumava caçar, mas ninguém o havia visto. Na tarde desse domingo e na segunda-feira, João e o filho entraram no mato fechado e nas grotas e encostas dos morros, mas sem nada encontrar. Gritaram, chamando o seu nome, mas ninguém respondia, exceto o eco das furnas e dos paredões. João mandou que o filho menor retornasse, para avisar a família sobre o que estava acontecendo. Ainda na terça e na quarta-feira, com a ajuda de amigos e cavalos, continuou a procurar.

Não acreditava que o rapaz pudesse haver se perdido, pois ele conhecia muito bem aquela região. Embora não se ouvisse mais falar de onça na localidade, imaginou a possibilidade de um desses animais ter devorado o rapaz. Também não descartou a possibilidade de seu filho ter caído de uma encosta mais escarpada. Mas era pragmático e se submetia à vontade de Deus, de modo que resolveu voltar para sua casa na cidade, e aguardar alguma notícia, boa ou ruim. Todavia, vários meses se passaram sem que nenhuma informação lhe chegasse, de modo que achou que o rapaz havia mesmo morrido, em algum recôndito socavão da serra, e fora devorado por algum animal, fosse de andar no chão, como alguma onça matreira, fosse de avoar, como um faminto urubu daquelas quebradas. Por outro lado, a crendice do povo dizia que a serra era uma cidade encantada e que nela aconteciam coisas misteriosas, estranhas, como se ali houvesse um reino mágico, com a sala do trono esculpida em puro ouro. Por via das dúvidas, não acreditava e nem desacreditava. Tudo tem seu mistério, e o maior mistério é a própria vida.

Um dia, quando menos se esperava, apareceu um homem barbudo em sua casa, de roupas amarrotadas e sujas. Ninguém da casa o reconheceu. Contudo, o homem disse chamar-se Francisco Agrícola, filho de João Agrícola. Disse o nome de sua mãe e de seus irmãos, e detalhes que só a família conhecia. Tiraram-lhe a barba hirsuta. Então, todos o reconheceram como sendo o membro da família que desaparecera na serra, sete meses atrás. Pediram-lhe para contar o que havia acontecido. Francisco disse que procurara um dos lugares de mais difícil acesso e mais longínquo, em relação à estrada; que de repente lhe apareceram uns homens altos e magros, vestindo roupas estranhas, feitas de um tecido que parecia muito leve e muito fino, como ele nunca vira, nem mesmo em revistas ou na televisão. Pareciam humanos, mas o rosto era muito comprido. Os olhos, pequenos e redondos. As orelhas, diminutas, quase se resumiam ao pequeno orifício. Tinham nariz fino e de pouco relevo. Não possuíam pelos, nem mesmo cabelos ou sobrancelhas. Tinham a pele muito lisa, sem uma dobra ou ruga sequer, de cor acinzentada. Esses homens, sem que lhe tocassem, pareciam dominar sua vontade, apenas com o pensamento.

Foi conduzido até um grande objeto redondo, rodeado de luzes, parecido com um disco voador, que vira num filme de ficção científica. Entrou nesse aparelho, feito de um material prateado, parecido com liga de metal e plástico, mas que não era nem uma coisa e nem outra. Ali havia muitos botões, muitos móveis, alguns parecidos com máquinas de hospitais, como vira na televisão. Foi colocado em alguns desses aparelhos. Teve a impressão de que os seres estranhos os acionavam apenas com o pensamento, ou tudo era automático, pois raramente eles precisavam tocar em alguma tecla ou botão. Umas luzes percorreram seu corpo, como se, mal comparando, lhe estivessem escaneando. Extraíram um pouco de seu sangue, com uma espécie de seringa indolor. Depois, acha que esteve num lugar estranho, com coisas que pareciam edifícios, mas diferente de tudo que já vira pessoalmente e através de revistas e televisão. Havia uns objetos que se moviam no ar, e que ele acha que eram os carros desse local. Usou as mesmas vestes que os homens usavam.

Após um lapso de tempo, que ele pensava fosse de três dias no máximo, os homens lhe devolveram sua roupa e lhe deixaram no mesmo local onde o encontraram. Achou o vestuário envelhecido, como se vários anos tivessem passado, e surpreendeu-se com o crescimento de sua barba. Quando entrara na geringonça redonda a época era de seca e o mês era agosto; agora via tudo reverdecido e molhado, como se o inverno estivesse em seu ponto máximo. Achava que o tempo fora escasso, mas tudo se passara de forma vertiginosa, intensa, como se tivesse havido uma loucura no tempo e no espaço. Coisa mais esquisita, agora se lembrava de que durante esse tempo confuso, não sentira fome, nem sede e sequer necessidade fisiológica. Não sabe o que lhe fizeram ou deram, mas nada bebera ou comera. Ficara atordoado, em pânico, e isso era tudo que recordava.

Todos pensaram que Francisco havia enlouquecido, pois sete meses se passaram, e agora estavam nas águas de março, em pleno inverno. Acharam que ele apenas imaginava haver vivido essa história, que alguém teria lhe contado, ou a que ele assistira em algum filme de ET, no qual vira os objetos e instrumentos que disse haver tocado e visto. Todavia, ele contava a história com convicção e com riqueza de detalhes, e sem nunca cair em contradição. Além do mais, o seu comportamento e raciocínio eram normais, do modo como eram antes de se perder na serra. Apenas, parecia haver adquirido certo misticismo, porquanto não pronunciava certas palavras grosseiras, fugia das conversas maledicentes, e parecia avesso a ferir ou diminuir quem quer que fosse, inclusive os animais.

Por via das dúvidas, levaram Francisco a um psiquiatra, que lhe examinou, lhe fez perguntas e lhe ouviu atentamente a história. O médico não teve nenhuma dúvida, e lhe assinou, sem nenhuma hesitação, um atestado de sanidade mental. Alguns céticos e maldizentes ainda têm dúvida sobre a sanidade do psiquiatra.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

VICENTINHO

Vicentinho, vestindo a camisa do Caiçara

CARLOS SAID

O insigne historiador, poeta e escritor Elmar Carvalho (José Elmar de Mélo Carvalho: Campo Maior, Piauí, 1956), tornar-se-á, a partir d' agora, cronista esportivo aureolado pelos contornos da intelectualidade brasileira. Pertence às Academias Piauiense de Letras e do Vale do Longá. Escolheu um tema interessante: Vicentinho, a fim de alardear compromisso com o jornalismo atrelado ao futebol. Evidentemente, da poesia para a prosa, Elmar Carvalho obteve credenciais para escrever crônicas que atingissem o cerne dos vivos personagens e relembrassem “in memoriam”, os feitos altamente espetaculares de jogadores do seu tempo de “peladeiro” e do período mais perto do nosso momento, no qual viveu aplaudindo craques da terra natal e d' outras plagas nacionais.


Assim, descortinamos a veia literária de Elmar Carvalho pousando fácil como cronista esportivo. Seu personagem: Vicentinho (Vicente Chagas do Nascimento, nascido em Fortaleza, Ceará, 1944, residente em Campo Maior, Piauí, aposentado com um salário mínimo), é um tributo ao ídolo consagrado em duas das mais importantes cidades da nossa “hinterlândia”: Campo Maior e Floriano.


Em 2003, quando escreveu “O Pé e a Bola”, homenagem aos famosos jogadores que defenderam os dois principais clubes campomaiorenses: Caiçara e Comercial, Elmar Carvalho buscou a música “Balada número 7”, dedicada ao imortal Garrincha (Manoel Francisco dos Santos: Pau-Grande, distrito de Magé, Rio de Janeiro, 1933 – Rio de Janeiro, 1983), o conhecido anjo de pernas tortas do futebol brasileiro e mundial. Por ilação, a fim de julgar a técnica do Vicentinho, colocou a composição musical dedicada a Garrincha, numa bem feita peça técnica numerada CD's-R, da Elgin, 52 x 700 MB, com duração de 80 minutos. Intuito mesmo de mais ainda reviver episódios através dos dribles desconcertantes do Garrincha, mas sem esquecer as virtudes futebolísticas do Vicentinho como atleta merecedor do destaque regional. Recursos foram empregados capazes de comover desportistas de coturno difícil (aqueles que não desejam comparar habilidades entre o “Mané” e o Vicentinho). Afinal, o novel cronista nos leva à certeza de que o belo e insinuante futebol praticado por Vicentinho em “canchas” campomaiorenses, tenha idolatração na hospitaleira Floriano. Em dois anos: 1966-1967, o Ferroviário da “Princesa do Sul” apresentou ao público o famoso Vicentinho, cantado e decantado nos livros de Janclerques Marinho de Melo: “Crônicas Flutuantes (Lendas e Ruas)”. Na estampa da página 54, Janclerques escreveu: “Em todos os jogos do “Ferrim”, os jogadores Lino, Sadica e Vicentinho, davam “show” de bola. Mas o maestro da equipe era mesmo o Vicentinho”.


Chegamos à conclusão dos esclarecimentos que dizem respeito à personalidade do Vicentinho. Buscamos, agora, as anotações do psiquiatra-neurologista Sigmund Freud, o Pai da Psicanálise (Freiberg, na Morávia, 1856 – Londres, Inglaterra, 1939): “A felicidade é um problema individual. Cada um deve procurar por si, a maneira pela qual pode se tornar feliz”. Consequentemente, as anotações de Freud representam a felicidade encontrada pelo Elmar Carvalho em reverenciar ainda em vida o Vicente Chagas do Nascimento (o formidável Vicentinho).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS


MARIA ISABEL

Elmar Carvalho

Em famoso restaurante da cidade, pedi uma porção de Maria Isabel. Quando fui recebê-la, notei que o empregado, ou para economizar palavra ou por traição da consciência, perguntou-me se eu desejava uma maria. Ao chegar em casa, verifiquei que a comida tinha arroz demais para carne de menos. Então, concluí sabiamente que o rapaz estava correto; a gostosa maria isabel está se transformando mesmo (e apenas) numa vulgar maria-vai-com-as-outras.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XIX

Um a um recolhi os estilhaços
em que te despedaçavas
e te recompus mais bela
que a beldade que eras.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



2 de fevereiro

UM MESTRE E DOUTOR, DE FATO E DE DIREITO

Elmar Carvalho


Será lançado no próximo sábado, dia 05, às 10 horas, no auditório da Academia Piauiense de Letras, o livro As Ideias no Tempo, da autoria de Cunha e Silva Filho. Pelo subtítulo ficamos sabendo que a obra contém crônicas, artigos, resenhas e ensaios. O autor é um mestre dos gêneros literários referidos. Seu estilo é límpido, correto na gramática e fluente, como escritor que domina sua língua, seu assunto e sua linguagem. Sua erudição lhe permite fazer analogias, e trazer exemplos da história e da literatura, se necessário e oportuno. Trata das mazelas dos dias atuais, mas também versa assuntos agradáveis, bem como também escreve crônicas de caráter memorialístico, recheadas de emoção e saudade – de pessoas que já partiram para a eternidade ou de um tempo mais ameno, mais feliz, sem a brutalidade e a pressa dos dias de hoje. Na crítica, Cunha e Silva Filho foge de certos modismos, em que o crítico, para se fazer passar como profundo, constroi uns períodos herméticos, sibilinos, que ninguém entende, ou em que, para demonstrar que é atualizado, envereda pela chamada crítica estruturalista, cujo conteúdo o leitor mediano jamais poderá alcançar. Embora seja um erudito, professor universitário, mestre e doutor em Literatura Brasileira, faz uma crítica moderna, contudo de fácil entendimento, uma vez que procura contribuir para aclarar a obra analisada, tornando certos aspectos dela mais perceptíveis a um leitor menos atento ou com menos traquejo na fruição literária, em que analisa a linguagem, o estilo e o conteúdo da obra, todavia sem rechaçar, de todo, as boas lições da velha crítica impressionista, no que ela tem de eterno, de permanente. A sua dissertação de mestrado foi transformada num belo livro, talvez o mais importante, sobre a poesia de Da Costa e Silva, enquanto a sua tese de doutorado abordou a contística de João Antônio. Em ambas, se houve como o mestre e doutor que é, de fato e de direito.


Conheci Cunha e Silva Filho em sua terra natal, Amarante, em 1990,  por ocasião de um evento cultural de que participei. Estava ele num dos vetustos casarões da avenida Desembargador Amaral, quando o vi pela primeira vez. Logo notei tratar-se de uma pessoa afável, simpática e acessível; numa palavra, amigável, como dizem os jovens dos dias atuais. Imediatamente, entabulamos uma conversa sobre literatura, em que se notava a sua erudição, repassada de forma discreta, espontânea, conforme o rumo da conversa, contudo emitida sem empáfia e sem um pingo de afetação. Pode ser considerado um mestre da conversação, com sua voz agradável e de boa dicção. Contudo, não obstante todas essas qualidades, é franco em suas análises, e não contemporiza com mediocridades para se tornar simpático ou para agradar quem quer que seja. Com efeito, já o vi partir para o confronto intelectual, quando lhe quiseram atacar injustamente, sem o perfeito conhecimento de sua obra de crítica literária.

Nessa época, falei-lhe da primeira edição de A Rosa dos Ventos Gerais, através da editora da UFPI. Prometi enviar-lhe esse meu livro de poemas, quando voltasse a Teresina, o que efetivamente fiz. Fui premiado com uma excelente crítica que o Cunha escreveu, o que muito me desvaneceu e incentivou. A partir de então construímos uma sólida amizade, regada e alimentada através de cartas, de telefonemas e agora, com o avanço tecnológico, mediante e-mails e recíprocas “visitas” que nos fazemos aos nossos blogs. Posteriormente, ele me prefaciou livros e escreveu ensaios sobre textos de minha autoria, um dos quais foi enfeixado no livro que será lançado no sábado vindouro. À noite, no cais do Parnaíba, o Cunha e Silva Filho e o José Pereira Bezerra entabularam uma ferrenha (porém amistosa), e infindável discussão sobre aspectos da literatura universal. Essa discussão não nos impediu de falarmos sobre a literatura de nossa aldeia, que também é universal. E será tanto mais universal quanto mais falar de nossa aldeia, conforme entendia Tolstoi.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


1º DE FEVEREIRO

DIPLOMACIA GASTRONÔMICA E PROSÓDIA INDIGESTA

Elmar Carvalho

No seu Diário Completo, vi a anotação em que Josué Montello conta que, em reunião diplomática internacional, em que se tratava da paz na Indochina, o representante da França, depois de observar que o representante oriental, por desconhecer os costumes do ocidente, comera um queijo com papel prateado e tudo, procedera da mesma forma, para evitar qualquer incidente, mal estar ou constrangimento. O diarista, a seguir, narra que ouvira importante personalidade, ao falar da galopante inflação brasileira de três dígitos, cometer grave erro de prosódia, ao pronunciar a palavra dígito (proparoxítona) como sendo digito (paroxítona); que, tomando como exemplo a atitude do representante francês no episódio diplomático, resolveu, na conversa, também pronunciar digito, e não dígito, para não melindrar o interlocutor.

Essa leitura me fez lembrar o caso que se passou com um amigo meu, notável erudito, profundo conhecedor da língua portuguesa, inclusive de etimologia, já que é um latinista, além de versado em grego. Esse meu mestre ouviu alta autoridade pronunciar a palavra díspares (proparoxítona) com a tonicidade de dispares (paroxítona). Só que o meu amigo, ao contrário do exemplo do primeiro ministro francês e do ilustre romancista, não condescendeu com o erro. Embora de forma cerimoniosa, cautelosa e até pedindo desculpas, esclareceu o ilustre homem público, muito conhecido na época, sobre a prosódia correta do vocábulo. Contou-me o mestre que a autoridade, imediatamente, abriu a gaveta, de onde sacou um dicionário, para averiguar a veracidade do corretivo, quando só então deu a mão à palmatória.

Pela parte que me toca, devo dizer que jamais iria comer queijo com papel laminado e nem iria pronunciar um vocábulo de forma errada porque uma outra pessoa o fez. Poderia até evitar comer o meu queijo, e não pronunciar a indigesta e indigitada palavra, substituindo-a por uma sinônima ou construindo a frase de modo a evitá-la, mas não seguiria a lição da autoridade francesa, no caso do queijo, nem do meu colega diarista, na questão da prosódia. Neste último caso, ficaria com o exemplo do meu amigo e mestre piauiense. E torceria para que, nos dias violentos de hoje, a pessoa beneficiada com a correção sacasse apenas o dicionário, e não um revólver, por exemplo, ou mesmo uma palavra agressiva.

LANÇAMENTO DO LIVRO LUIZ RIBEIRO GONÇALVES - CARTAS PARA A. TITO FILHO



O livro Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves – Cartas a A. Tito Filho, editora Zodíaco, 2010, organizado pelo jornalista Kenard Kruel, que também faz a apresentação da obra, será lançado em fevereiro próximo, pela Academia de Letras do Médio Parnaíba, Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, Associação Piauiense de Imprensa e Sindicato dos Escritores no Estado do Piauí, em Amarante, às 10 horas do dia 6 (domingo), na Câmara Municipal, com recepção do prefeito Luiz Neto e apresentação do conselheiro e acadêmico Afrânio Nunes, e em Teresina, às 19 horas do dia 8 (terça-feira), no auditório do CREA-PI, com recepção do presidente José Borges de Sousa Araújo e apresentação de Kenard Kruel.