sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

REVISTA TURMA TEIXEIRA DE FREITAS

Des. Nildomar da Silveira Soares

Elmar Carvalho


Recebi hoje, das mãos do desembargador Nildomar da Silveira Soares, membro da Academia Piauiense de Letras, a Revista Turma Teixeira de Freitas, comemorativa das bodas de ouro dessa turma da Faculdade Nacional de Direito (1961-2011), da qual ele fez parte. A capa traz um palco iluminado, tendo como cenário “o caminho da vida que cruzamos”, como nela está assinalado.

Foi editada exclusivamente às suas expensas, tendo sido ele também o seu idealizador e organizador. Imagino o seu trabalho em conseguir as velhas fotografias, que a ilustram, em coligir as reportagens e notas jornalísticas, que se referem a essa turma, em obter os vários depoimentos, que a enriquecem, alguns repassados da mais vívida saudade, outros da mais intensa emoção. Enaltece o nome dos ilustres mestres, alguns juristas consagrados em sua época, autores de livros adotados em outros faculdades de Direito, entre os quais podem ser citados, em sintética enumeração: Evaristo de Morais Filho, Hélio Tornaghi, Serpa Lopes, Haroldo Teixeira Valladão, Lineu de Albuquerque Mello, Alcino Salazar e Hélio Gomes.

Evidentemente, grande foi o seu esforço em contactar os seus colegas, que se encontram dispersos em vários rincões do Brasil. Muitos já partiram para outras moradas dos páramos celestiais, mas seus nomes foram assinalados, sobrepostos a bela ilustração, em que se destacam uma cruz branca e um verde gramado, como símbolos da Paz e da Esperança. Muitos dos componentes dessa turma se tornaram parlamentares, entre os quais o deputado federal piauiense Paes Landim; sete galgaram o cargo de desembargador, dentre estes o piauiense Nildomar Soares, e um tornou-se vice-governador, fora os que se destacaram em outras atividades, inclusive como operadores do Direito.

A revista é toda em papel couché, e teve bela formatação e programação visual. Contém várias fotografias em preto e branco e em policromia. Estampa textos em prosa e em versos, que ilustram e enriquecem essa crônica de vencedores, entre cujos textos se destaca o poema Nem Tudo é Fácil, de Cecília Meireles. Mas, sobretudo, registra a história da Turma Teixeira de Freitas, no ano em que a Faculdade Nacional de Direito completa 120 anos de existência.

DIÁRIO INCONTÍNUO




9 de dezembro

NO PESQUEIRINHO

Elmar Carvalho



Neste domingo, minha mulher e eu fomos comer uma peixada na churrascaria, ou antes, na peixaria ou restaurante Pesqueirinho. Disse churrascaria para melhor designar o tipo de ambiente da casa gastronômica, que é amplo, com áreas cobertas e abertas, podendo o freguês escolher ficar à sombra de árvores. Em certos locais, o cliente poderá ter uma bela visão do rio Poti, com a sua renda de aguapés, ou as belas árvores ribeirinhas, mormente da margem oposta, em que também se vê uma extensa pastagem.

Não faz tanto tempo assim, ao lado do restaurante ficava o ancoradouro de um pontão, que atravessava carros e passageiros, de uma margem à outra, em constante vaivém, fora o movimento das embarcações menores, que conduziam apenas pessoas, bicicletas e pequenas cargas. Com a construção da ponte, algumas centenas de metros a jusante, cessou esse comércio de passageiros, que dava um tom pitoresco de cidadezinha ao local. Dali, vê-se a curvatura da ponte, que liga os bairros Poti Velho e Santa Maria da Codipe. O Poti Velho tem hoje um importante centro artesanal, e continua sendo o local onde moram muitos operários de olarias e pescadores.

Pode ser considerado o mais antigo bairro de Teresina. Quando o Conselheiro Saraiva, em 1852, fundou a cidade de Teresina, ele era um povoado, situado quase na confluência do Poti e do Parnaíba, onde hoje fica o Parque Encontro das Águas, ponte turístico da capital. Saraiva achou que o local seria insalubre e suscetível de enchentes, pelo que preferiu instalar a nova capital a montante do Parnaíba, na chapada do Corisco, onde fica o centro histórico teresinense.

Nas lendas, anedotas e mistificações, que podem ou não ter um fundo de verdade, o conselheiro teria uma amante no povoado, razão determinante para que ele criasse a nova capital em sua proximidade. Talvez tudo não passe de simples maledicência ou brincadeira, não sei ao certo. Em junho, o bairro, através da Igreja Católica, promove o movimentado festejo de São Pedro, com as instalações de barracas para venda de comidas e bebidas, boxes de jogos, realizações de quermesses e novenas, além de outros eventos profanos. O ponto culminante é a passeata fluvial, com os barcos acompanhando a imagem de São Pedro pelos rios Parnaíba e Poti, no trecho que vai do troca-troca à praça da matriz do bairro.

No Pesqueirinho vi várias esculturas de animais, como coruja, papagaio, águia e tucano, que não existem, pelo menos nos dias de hoje, na região ribeirinha. Apenas a garça retrata espécime que vive ali. Por coincidência, numa das fotografias que tirei, uma garça de verdade aparece por trás da esculpida, fixada na mureta do terraço da casa de pasto. São obras de cerâmica que podem ser compradas no centro de artesanato do bairro.



O tucano, com o seu bico enorme, desproporcional em relação ao corpo, parece querer contrariar as leis da aerodinâmica, pois voa sem nenhum problema. A coruja tornou-se símbolo da sabedoria, apesar de noctívaga, sorumbática, tida como aziaga; talvez isso se deva ao seu ar meditabundo, em que seus olhos grandes, arregalados, parecem tudo enxergar, tudo perscrutar e compreender. O papagaio, animal inteligente, a arremedar a voz humana, designa o homem falador, falastrão, de incontinência verborrágica, muitas vezes um simples decoreba, sem ideias próprias.



Vi ainda a escultura de um pescador a segurar um enorme peixe, praticamente de seu tamanho. Lembrei-me de antigo cartaz de propaganda do purgante emulsão de Scott, que segundo a legenda era feito à base de fígado de bacalhau. A catrevagem ou beberagem era tida como uma verdadeira panaceia, mormente para as pessoas de poucas letras, e era bastante vendável. Podia ser encontrado em qualquer farmácia ou drogaria interiorana. No cartaz, um pescador, profissional tido como mentiroso, carregava às costas um peixe quase de seu tamanho, sem fazer esforço, a demonstrar o suposto vigor proporcionado pela emulsão.



A escultura também me fez lembrar o romance de Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, em que o obstinado pescador, enfrentando uma maré de azar, dia após dia, lançava seus apetrechos de pesca ao mar, sem sucesso. Após vários dias de persistente trabalho, Santiago consegue pescar um peixe descomunal. Ao chegar à praia, após tremenda luta, o velho pescador constata que o espadarte fora devorado pelos tubarões, que só lhe deixaram o esqueleto, como troféu de uma glória quase inglória ou inócua. Contudo, por ser o maior peixe capturado naquela paragem, serviu para lhe elevar o moral ou astral, com o consequente respeito de seus pares.



Tive a satisfação de encontrar no recinto, à sombra de frondosa árvore, o desembargador Tomaz Gomes Campelo, dona Gracy e dois dos filhos do casal amigo. Ao cumprimentá-lo, pedi licença para fotografá-lo com a família. Com a sua lhaneza e conhecida elegância, sorriu, e permitiu-me retratá-lo. Constantemente o encontro em eventos culturais, como conferências, posses acadêmicas e lançamentos de livros. Tenho a honra de ser seu confrade em várias instituições culturais, entre as quais cito: Academias do Vale do Longá, da Maçonaria, da Magistratura, do Médio Parnaíba. É ele o atual titular da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, de que tive a honra de ser presidente nos idos de 1988/1990.



Numa das paredes, vi um banner com o retrato de Edvaldo Robert da Silva, no qual foi grafada a frase: “Não lembres de mim com tristeza, lembre-se dos momentos felizes e alegres que vivemos”. Era ele o proprietário do Pesqueirinho, bar e restaurante tradicional de Teresina, de grande e fiel clientela. Perguntei a um dos garçons quando ele falecera. Respondeu-me que fazia 31 dias de sua morte. Pude sentir que os garçons são educados, prestativos, atenciosos, e que os herdeiros haverão de conduzir o barco do Pesqueirinho, por águas tranquilas, sob céu de brigadeiro, a porto seguro e venturoso, como expressou no cartaz o seu antigo timoneiro.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Flagrante natalino de Gervásio Castro


Texto e charge: GERVÁSIO CASTRO

Acredite: Papai Noel existe!  E mora na minha rua. Na verdade ele mora em várias ruas, mas ontem estava aqui perto. Se chama Carlos, tem oito anos e não é framenguista:
 usano a camisa porque a moça mim deu. A outra tava muito rasgada.
Esse ano havia decidido caprichar no cartão de Natal. Depois de hora e meia desenhando resolvi fazer uma pausa e saí pra tomar um chopp. Foi então que encontrei Papai Noel. Quando voltei pra casa (vários choppsdepois) desisti da idéia original e hoje fiz esse outro desenho. Acredito que esse será o cartão mais feio que vocês vão receber nesse Natal. Espero que me perdoem. Prometo não fazer pausa pro chopp, ano que vem.

DIÁRIO INCONTÍNUO



8 de dezembro

CRÍTICA LITERÁRIA – MINHA DESPEDIDA

Elmar Carvalho

Assim como o craque envelhecido deixa de jogar futebol, e pendura as chuteiras, resolvi, metaforicamente, pendurar a minha caneta de aprendiz de crítico literário, que tenho sido algumas vezes, ao longo de minha vida literária. Assim como a velha meretriz, que vai perdendo a clientela para as mais jovens e mais bonitas, começa a fazer os serviços de arrumadeira e criada, e fica em paz em seu canto ou quartinho, comecei a fazer os serviços mais humildes de recolher os meus textos dispersos, de coligir os esparsos, de enfeixar os avulsos, e de tentar rever os extraviados. Oportunamente, pretendo reunir em volume os meus pequenos ensaios sobre literatura e mais alguns dos prefácios e apresentações que escrevi.

A crítica literária sempre me foi um mister algo penoso ou que me exigia certo esforço intelectual e de pesquisa, de modo que me dava a sensação de um quase exercício físico, de disciplina espartana. Aliás, só fiz texto de crítica quando movido por alguma injunção, ou quando me senti praticamente no dever de fazê-la, em atenção ao merecimento da obra e do seu autor. Portanto, posso dizer que só as fiz quando achava que os textos analisados mereciam meu esforço. Adotei o critério de que não deveria malhar a produção de meu semelhante, mas que também não deveria fazer elogios que entendesse descabidos, exceto os verbais, que a polidez e a relação social recomendam, mas sem ênfases e superlativos.

Sem dúvida considero a crítica e a teoria literária da mais alta importância para o desenvolvimento da arte literária, sobretudo para a formação de bons leitores e escritores, dando-lhes maior discernimento crítico, para que saibam separar o joio do trigo, mormente numa época internética em que todos se metem a escrever e a publicar. Por isso mesmo lhes dei a minha modesta contribuição, e delas extraí lições que ainda hoje me são de grande valia. Ademais, a boa crítica, a crítica justa e imparcial, contribui para divulgar as boas obras literárias, e para deixar no seu devido lugar as obras menores. Pode provocar o salutar debate, que venha a manter viva a verdadeira literatura, arejando-a com novas ideias, recursos e possibilidades, unindo sempre a tradição e a invenção.

O poeta Hardi Filho, no prefácio à primeira edição de meu livro Rosa dos Ventos Gerais, UFPI, 1996, asseverou que: “Criou-se até, entre nós, a mítica dos 'opinantes de plantão' os quais, de tão assediados, seriam obrigados a ter já grafado ou de memória o que dizer de um que sirva para muitos; se o trabalho não merece, a pessoa do autor recebe elogios e fica contente”. O texto seria uma espécie de carimbo, que, mutatis mutandis, aplicar-se-ia a todos os prefaciados. Um desses prefaciadores contumazes era sempre laudatório. Contudo, a seu modo, era sincero; se o seu texto fosse lido com a devida atenção, o leitor perceberia que o elogio era apenas aparente, porquanto era dirigido ao autor ou ao tema, mas nunca à qualidade ou ao estilo do escritor ou poeta.

Certa feita um amigo, cujo nome jamais irei declinar, ensinou-me como eu deveria proceder para obter elogios dos medalhões da literatura nacional, e, de forma humilde e sincera, me confessou que procedia da maneira como me recomendava. Eu deveria fazer uma carta, exaltando a obra literária do destinatário, encaminhando-lhe um exemplar do livro a ser elogiado; deveria prometer-lhe que o texto encomiástico seria publicado em jornais e revistas, e sairia na próxima edição do livro, que já se avizinhava. Agradeci-lhe o conselho, mas devo confessar que nunca o segui.

Vejo, aqui e alhures, encarapitados nas orelhas, nas folhas de rosto, nas contracapas, os mais descomedidos panegíricos a certos livros; a gente fica até na dúvida se desaprendeu o que sabia, ou se o elogiador escalado é quem teria perdido o juízo. Todavia, se esses aplausos forem lidos com cuidado, verifica-se que eles são uma tremenda ironia ou gozação, pelo exagero dos qualificativos e retumbância das palmas, ou são apenas metáforas pomposas, que nada dizem de concretamente sobre a obra a que se referem. O fato é que ficamos com a sensação de que a “estátua é bem maior do que o modelo”.

Muitos anos atrás, uma poet(is)a me deu um poema para que eu o lesse em sua presença. Porém, antes de me repassar o papel com o texto, foi logo me advertindo de que se tratava de sua obra-prima; que estava muito inspirada quando a escreveu, e que ficou muito feliz com o resultado final dessa peça. Devo dizer que me senti muito pequeno para merecer tamanha deferência e consideração, e cheio de espectativa comecei a ler essa arte supostamente tão esmerada. Não sei se foi pelo excesso de espectativa que a autora me passou, ou se foi porque sempre fui um leitor muito exigente, mas o certo é que não vi nenhuma qualidade excepcional no poema; na verdade, o texto era repleto de trivialidades, lugares comuns e ejaculações discursivas balofas, sem nenhum lampejo de talento, quanto mais de genialidade.

Ao devolver-lhe o papel, com a cortesia de praxe, que a civilidade recomenda, para não lhe ferir o inflado ego e a delicada suscetibilidade, falei:
- Muito bem... Está bom.
Como ela notasse, pela expressão de meu semblante que eu ficara decepcionado e também pela falta de efusão em meu “elogio”, retrucou-me com ênfase, em que mal dissimulava certa irritação:
- É, pode não estar bom para os outros, mas para mim está excelente!

Sorri, e nada mais acrescentei. É por causa de fatos desse tipo que tomei a deliberação de me recolher a meu canto, para me dedicar apenas a produzir os meus textos, sem ilusões de glória, posto que sei, mais do que ninguém, de que o renome através da arte literária, nunca vem, ou só vem após demorado, árduo e penoso esforço. Irei, aos poucos, sem pressa e sem alarde, publicando os meus “dispersos, esparsos e reencontrados”. Finalizo com o que disse o pregador de Eclesiastes (1:2), que se aplica também e talvez principalmente a mim: “Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade”.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


NA NOITE

Elmar Carvalho

Na noite
um sapo coaxa.
Uma puta triste
acha graça. Acha graça.
Um galo
às desoras desfere um canto
fora de hora. E chora.
Um cão ladra por nada:
nenhuma cadela no cio.
O silêncio
grita como louco
na concha acústica
dos labirintos dos ouvidos moucos
por onde um Teseu lasso caminha
em busca do Minotauro – perdido
sem o fio de Ariadne –
conduzido por outro fio
que parte / se parte e
se reparte entre o ser
e o não ser.
E os gritos de Teseu
arrancam ecos
que já ecos de si mesmos
se repetem se repetem
até a mais completa
absoluta exaustão.
Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

Texto e charge: João de Deus Netto


MÁRIO FAUSTINO

Mário Faustino dos Santos e Silva nasceu em Teresina (PI) em 22 de outubro de 1930. Foi jornalista, tradutor, crítico literário e poeta. Morreu em Lima, no Peru, com apenas 32 anos de idade num desastre aéreo. Publicou: “O Homem e sua Hora” (1955) e teve seus melhores poemas publicado pela Global Editora.
Com apenas 32 anos de idade, Faustino tinha sua trajetória interrompida de forma brutal. Perdeu a poesia brasileira um dos seus mais brilhantes e talentosos criadores. Poeta, tradutor, crítico e jornalista, Faustino teve atuação intensa do final dos anos 50 ao início dos 60, do século XX, agitando nosso cenário poético com sua presença viva e polêmica, principalmente através da página "Poesia-experiência", que ele concebeu e editou no então inovador “Suplemento Dominical” do “JB”.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

PUKA, A NOSSA CADELA DE JEITO MOLEQUE

Anita e Belinha. Foto meramente ilustrativa.


JOÃO PINTO (*)

Na noite seguinte da morte de minha cadela, fui dormir de rede na sala, apenas cochilei um pouco e pulei fora. Sobre a mesma janela aberta fiquei de cócoras, com a mão na arma, esperando o ladrão para quando arrombasse o portão da frente e, ao penetrar um pouco no quintal, talvez com um pé-de-cabra para derrubar a porta e querer nos render, dali mesmo eu daria um tiro bem no peito dele para vingar o coquetel de veneno de rato misturado a calabresa salsicha e a farofa. Fiquei como ela, atrás de qualquer ruído mesmo de um gato intruso.

Porém não foi isso o que aconteceu, de luz apagada na sala e também na área da frente que dava ao portão, dali de uma brecha da janela, com a mão na arma, vi para o meu espanto a silhueta da minha cadela, que azunhava desesperada o portão. Acho que queria uma recepção de algum membro da família para abrir o portão, e assim passou um bom tempo tentando e resmungando. Depois como ninguém lhe viesse abrir o portão, saiu do portão pequeno e, por debaixo do outro maior, por onde alguém havia empurrado a quentinha, entrou. Balançava o rabo de contente, cheirava o seu território e dava umas cambalhotas no ar. Ah, quase não aguentava em ver a minha Puka tão contente, depois de morta, voltar ao aconchego ali na frente da casa. Aí a silhueta dela ficou de quatro e veio vindo para o rumo da porta. Baixei a guarda da arma e, em sacudidelas violentas, as lágrimas desciam pelo rosto. Só que não a vi mais ficar na porta como era seu jeito, as duas patas deitadas no chão e a bunda tocando a porta. Quando dormia ali na sala, ela sabia que estava ali e respeitava meu sono, às vezes tocava de leve a porta para se comunicar comigo, para dizer que era o meu escudo.

E estando nesse devaneio, de repente a cadela já se encontrava de novo bem próximo do portão, cheirou o portão e lançou as patas dianteiras ficando de pé, depois usou alguma brecha do portão e saiu do quintal. Azunhou novamente o portão, deu um grande uivo e dobrou à esquerda, no beco onde havíamos feito a sua cova. Já sabia que aquele aparecimento nunca mais iria se repetir porque a minha comoção ficara no limite de suportar uma presença tão cheia de dor.

Na noite em que envenenaram a bichinha, o sacripanta malvado havia parado um automóvel na frente de casa, além da minha casa, jogou o produto na casa da dona Maria e da Lukésia, e assim fazia a limpeza dos nossos bichinhos. Um homem que mata um cachorro é a pior espécie de gente, a alma dele vive na nojeira mental e nunca teve o amor de um cão. A Puka passou por um processo lento de morte, lembro que, ao acordar pela manhã, estava toda encolhida na sua casinha. Quando me viu, veio quase cambaleando, de expressão triste, com o tremor por todo corpo. Fizemos o que podemos para salvá-la, de manhã, o Bruno deu ainda leite numa mamadeira improvisada, ia lambendo tão devagar e depois apanhei a comida envenenada que havia vomitado. E ficamos esperando algum desfecho.

Por volta de duas horas da tarde, a cachorra deu um latido enorme e indescritível, varou pela casa adentro e buscou um canto da casa, toda já com as órbitas tão demonstradas de despedida que logo foi cercada de mais carinho. Levamo-la para sua casinha. Lá a tremedeira se acentuou com os rompantes dolorosos. Aí teve uma hora que se aquietou ao fundo da casinha, fez um ruído estranho entre os dentes, foi estirando as patas, os olhos ficaram de uma cor amortecida e a língua ficou totalmente roxa do veneno. Cavamos um buraco aqui perto de casa. Pegamos pelas patas e acomodamos aquele projeto de carinho no buraco.

De noite, reunida a família, de olhos marejados, a gente ia se lembrando dela. Do gesto do Bruno quando a tomava pelas quatro patas e ia rodopiando ela numa curtição; do Lucas quando dizia, Cadê a minha Negona; da Gina, ao entrar pelo portão, com a bolsa na mão tocando nela de leve, Não, não! Do Ruan que, quando ia levando um petisco dizia com expressão de comando, Sente, sente! E deste gari que fazia a limpeza pela manhã, colocava-a na corrente. A sua primeira merenda matinal era um pão integral que colocava entres as patinhas. Depois bebia água, ou leite em dias especiais. E assim roncava a manhã toda, talvez sonhando já com o céu.

Mas, o que ficou dela talvez, não foi a cadela com seu lado hipotálamo, foi o amor que tinha no coração, o gesto de os meninos colocar a mão na cavidade da boca, as cambalhotas, trepar ali na janela, e fazer do seu lado moleque o registro de dois anos incompletos dentro da nossa memória.

(*) Contista e cronista. Natural de Luzilândia - PI. Reside em Manaus, onde é professor.

A SERENÍSSIMA REPÚBLICA


ROBERTO VELOSO
Juiz Federal

Este é o título de um conto assinado por Machado de Assis, publicado pela primeira vez em 20 de agosto de 1882, na Gazeta de Notícias, no qual ele trata da descoberta realizada pelo seu personagem, Cônego Vargas, de uma comunidade de aranhas falantes.
Machado de Assis é sempre atual e esse conto me chamou especialmente a atenção, porque trata da organização das aranhas e de seu sistema eleitoral. Quando ocupava o Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão e o li pela primeira vez, achei que se casava bem com a realidade que vivemos no Brasil.
Segundo Daniel Piza, Machado era monarquista porque acreditava que o Brasil não tinha história e nem uma elite, sendo aquele sistema capaz de impor padrões civilizadores maiores do que a República. Machado, porém, foi abolicionista convicto, sendo a sua obra permeada de fortes ironias à mentalidade escravocata.
No conto, que parece ser uma crítica à República e ao seu sistema eleitoral, vale registrar os partidos políticos das aranhas. Diz ele que existiam quatro partidos. O retilíneo, o curvilíneo, o reto-curvilíneo e o anti-reto-curvilíneo. Tais nomes se referem à geometria.
A forma das linhas das teias tinha a ver com os postulados partidários. Para o partido retilíneo, “a linha reta exprime os bons sentimentos, a justiça, a probidade, a inteireza, a constância, etc., ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores, como a bajulação, a fraude, a deslealdade, a perfídia, são perfeitamente curvos”
Em contrapartida, o partido curvilíneo afirma que a linha curva é a da virtude e do saber, enquanto que a ignorância, a presunção, a toleima, a parlapatice, são retas. O partido reto-curvilíneo fez uma combinação dos contrastres e alardeou que a junção simultânea das linhas curvas e retas eram a cópia do mundo físico e moral. O anti-reto-curvilíneo negava tudo e defendia que as teias seriam urdidas de ar, portanto, sem nenhuma linha.. Qualquer semelhança com os partidos atuais é mera coincidência.
As eleições para os cargos públicos eram realizadas por meio do sistema do saco e das bolas, mencionado pelo autor como utilizado em Veneza, fabricado cuidadosamente, por dez aranhas, que eram as mães da República. Havia dois oficiais encarregados das eleições. Um o das “inscrições” e o outro o das “extrações”.
A proposta do processo eleitoral era simples. O oficial das “inscrições” inseria o nome dos candidatos nas bolas e no dia das eleições elas eram enfiadas no saco, que continha cinco polegadas de altura por três de largura, e o oficial das “extrações” retirava o nome dos eleitos até o preenchimento de todos os cargos.
Como todos os sistemas eleitorais têm as suas mazelas, com o das aranhas não foi diferente. Machado, com o seu senso de humor refinado, relata alguns casos de ineficiência do sistema.
O primeiro problema ocorreu com a quantidade das bolas. Em uma das eleições, foi constatado que o oficial das inscrições havia inserido duas bolas com o mesmo nome de um candidato. Para resolver o problema, diminuíram o tamanho do saco. Em outra eleição, já com o saco diminuído, constataram que o nome de um dos candidatos havia sido suprimido, pelo que resolveram voltar o saco ao tamanho normal.
Nesse ínterim falece um magistrado e é preciso realizar a eleição para tão importante cargo. Concorrem três candidatos, os dois chefes dos partidos reto e curvilíneo, Hazeroth e Magog, e um terceiro desconhecido, mas milionário e ambicioso. Quando é feita a extração, as bolas de Hazeroth e Magog são inutilizadas porque a do primeiro faltava a primeira letra e a do segundo a última. O nome vencedor, como não poderia deixar de ser, foi o do terceiro candidato, que imediatamente ocupou o cargo, sentando-se na cadeira pertinente.
Para evitar tamanha ignomínia, resolvem pedir às mães da República que fabriquem um saco com malhas por meio das quais o público e os candidatos pudessem ler as bolas, para, em caso de erro na grafia, as inscrições serem corrigidas.
O problema surgiu quando um dos candidatos acertou com o oficial das extrações a sua eleição. Considerando que através do saco era possível ler os nomes, o oficial das extrações ficou de olho no candidato, que abanava a cabeça negativamente sempre que a bola escolhida não era a sua, até que a sufragada com o seu nome foi extraída.
E assim, mais uma vez, a solução encontrada pelos legisladores foi a mudança no saco. Agora de malhas para um tecido espesso, com a introdução na legislação da fórmula segundo a qual o erro de grafia do nome não invalidava a candidatura, desde que atestada por cinco testemunhas, mas a cada eleição novos problemas aconteciam e novamente as mães da República eram chamadas para ajustar o saco.
A ideia que passa Machado de Assis é a de que as tentativas feitas pelo Cônego Vargas para dar organização social às aranhas são em vão, porque sempre haverá uma maneira de se burlar a legislação eleitoral. O conto é de domínio público, vale a pena ser lido, e pode ser acessado livremente na internet pelo site:

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um Natal quase na solidão


CUNHA E SILVA FILHO

Naquela velhíssima Casa de Estudante da Rua Senador Pompeu, chamada CESB (sigla para Casa do Estudante Secundário do Brasil), Centro do Rio de Janeiro, ano de 1965, para onde fui graças à bondade de um amigo de Amarante que nunca mais vi, e sobre o qual nem mesmo sei se ainda vive no Rio ou se voltou ao Piauí. Infelizmente, nunca mais soube dessa criatura séria e solidária. Só espero que tenha sido muito feliz na vida.
Eu me preparava para o vestibular da Faculdade Nacional de Filosofia, curso de Letras. Como não tinha dinheiro para pagar o chamado curso pré-vestibular, a única saída que encontrei era estudar sozinho confiante também no meu preparo trazido das escolas de Teresina.
O exame do vestibular era realizado pela própria faculdade escolhida e constava de três provas: língua portuguesa, língua latina e língua inglesa, esta última compreenderia uma prova oral, um ditado, e uma prova escrita. As provas escritas, todas discursivas. As questões eram difíceis. A de latim abrangia tradução para o português seguida de questões gramaticais. Não foi fácil. Os examinadores apertavam na rigidez da correção. Preparei-me durante quase um ano e como local de estudos, usava a Biblioteca Demonstrativa “Castro Alves,” na Rua Treze de Maio, também no Centro. Parece-me que a biblioteca pertencia ao Instituto Nacional do Livro. Era excelente, tinha um bom acervo no campo das letras, bons dicionários, boa bibliografia em filologia, gramática portuguesa, literatura portuguesa, brasileira, universal, alguns bons livros didáticos de língua inglesa, de latim. Essa biblioteca não mais existe no antigo endereço. Disseram-me que o seu acervo havia sido transferido para uma anexo da biblioteca do Colégio Pedro II. Não sei se em São Cristóvão ou em outra unidade deste Colégio. Foi uma pena terem acabado com ela.
Certo é que, na Casa de Estudante, aos sábados e domingos, ficava estudando numa mesa grande da sala principal desse precário prédio.
Comigo também, no mesmo horário, compartilhavam da mesa dois colegas que se preparavam para o vestibular. Um, o Marinho, iria fazer exames para engenharia; um outro - o nome dele não me ocorre agora -, para medicina. Ambos eram, como eu, jovens pobres vindos do interior para a grande cidade carioca. Eram bons em matemática, estudiosos e de bom caráter. A Casa naqueles dois anos quase que lá passei, abrigava uns vinte jovens, a maioria de idade próxima. Mas, havia deles que eram bem mais velhos do que eu, aproximadamente de vinte e quatro a não mais de trinta anos. No geral, todos se davam bem e mantinham bom convívio.
Um outro colega já era estudante do segundo ano de engenharia da UFF (Universidade Federal Fluminense), de cujo nome não me lembro mais, sabendo que todos os outros moradores iam passar o Natal em algum lugar, e vendo que eu não tinha para onde ir passar o Natal, chegou-se até a mim e me disse: “Francisco, estou te convidando para no sábado, que é Natal, almoçarmos juntos. Você não vai pagar nada, tudo por minha conta, sim?” O convite inesperado encheu-me de alegria incomum. Aceitei de imediato. Meu colega e amigo se defendia dando umas aulas particulares em cursinho de pré-vestibular, aulas particulares. Assim, ia se defendendo.
O nosso almoço natalino foi num restaurante da antiga Mesbla, na Cinelândia, coração do Rio de Janeiro. Tudo transcorreu muito bem. Conversamos muito e eu particularmente estava muito contente com a companhia daquela amigo. Era um jovem moreno, magro, de estatura média, cabelos meio crespos, de olhar compenetrado, educado, sério, estudioso. Naturalmente, percebendo a minha solidão, a minha falta de dinheiro e sabendo, por observação, que eu era estudioso e com bom relacionamento com os moradores, logo pensou em conseguir uma forma de me tirar da solidão e do isolamento do sagrado feriado natalino. Foi o que fez o meu amigo estudante de engenharia que, hoje, se for vivo, deve estar também aposentado após ter seguramente exercido com dignidade a sua nobre e profissão.
Se não fosse ele, o meu Natal de 65 seria um desastre. Não tinha aonde ir, nem me atrevia a passar – sem ser convidado - na casa de algum parente que morava no subúrbio. Naquele período, deixei de frequentar casa de parente. Amargar um Natal sozinho no velho prédio da CESB era a última coisa que queria. Por isso foi tão providencial o convite do meu colega de moradia. Principalmente, porque esse feriado sempre me fora especial no tempo em que estava com meus pais lá em Teresina, com um Natal e a galinha assada esplendidamente preparada por mamãe.
Com hoje está tudo tão distante! Não, porém, sem as imagens daqueles anos de infância e adolescência, nem sem o badalar dos sinos da Igreja de São Benedito à meia-noite para a Missa do Galo. Não, porém, sem a alegria da ceia natalina, ouvindo as vozes queridas de papai e de mamãe e o burburinho álacre das vozes dos meus irmãos. Tudo se foi com o tempo. Tudo se foi com o silêncio e a eternidade querida daqueles que me deixaram na orfandade física e na orfandade da memória. Foram-se contra a minha vontade, mera vontade de um simples vivente também marcado com a natureza do efêmero.
Aquele almoço no restaurante da Mesbla com o jovem estudante de engenharia foi mesmo um presente de Natal que, de certa maneira, vinha suprir o vazio de minha imensa solidão na grande cidade.

sábado, 3 de dezembro de 2011

P E R F I S A C A D Ê M I C O S - ABDIAS DA COSTA NEVES


REGINALDO MIRANDA

Abdias Neves somente não figura entre os fundadores da Academia Piauiense de Letras porque naquela oportunidade encontrava-se no Rio de Janeiro, exercendo o mandato de senador da República. Porém, aderiu desde a primeira hora à nova instituição cultural, tomando assento em uma de suas cadeiras, a de n.º 11 e participando de suas atividades até quando faleceu em 28 de agosto de 1928, na cidade de Teresina. Naquele tempo era ele um dos três principais nomes da cultura piauiense, dividindo a liderança cultural com Clodoaldo Freitas e Higino Cunha, em torno de quem girava a vida cultural do Estado. Mais tarde, tornou-se também patrono da Cadeira n.º 33 da mesma Academia. Jurista, político, jornalista, professor, poeta, romancista e historiador, foi um dos mais ativos e respeitados intelectuais de seu tempo.
Nascido em 19 de novembro de 1876, na referida cidade de Teresina, era filho de João da Costa Neves, servidor público, e de Delfina Maria de Oliveira Neves. Foi casado com Cristina Neves.
Aos quinze anos de idade ficou órfão de pai, tendo de enfrentar desde cedo as asperezas da vida.
Fez o primário e os estudos preparatórios em sua cidade natal, de onde seguiu para o Recife, a fim de continuar sua formação. Concluiu os estudos jurídicos em 1898, sendo aprovado com distinção, na mesma turma de que fizeram parte os também piauienses Miguel Rosa, Henrique Couto, Laudelino Batista e Heitor Castelo Branco.
De regresso a Teresina, o bacharel Abdias Neves ingressou na magistratura, ocupando os cargos de Juiz de Direito nas comarcas de Piracuruca (1900 – 1902) e Marvão, hoje Castelo do Piauí (1902). Exerceu ainda os cargos de Juiz Substituto da Justiça Federal (1902 – 1914), Secretário de Governo (1914), Procurador Fiscal da Fazenda e Chefe de Polícia.
A par dessa brilhante carreira jurídica, ingressou no magistério, lecionando as disciplinas Inglês, Alemão e Lógica no Liceu Piauiense e Pedagogia, na Escola Normal Oficial do Estado.
Com essa intensa atividade, não tardou a ingressar na política, elegendo-se Senador da República para o período de 08/05/1915 a 31/01/1924. Foi o mais jovem da sua época, chegando a ocupar, sucessivamente, os cargos de 4º, 3º, 2º e 1º Secretário da mesa do Senado Federal, de 1919 a 1922.
Sobre sua estréia no Senado, lembra Monsenhor Chaves: “não foi muito auspiciosa. É que, após sua eleição, o marechal Pires Ferreira, num entusiasmo muito provinciano, havia comunicado à imprensa que Abdias era o Rui Barbosa do Piauí, que ia desbancar o outro Rui Barbosa, da Bahia. Quando desembarcou no Rio, franzino, de narigão vermelho, havia um ambiente desfavorável de prevenção e quase hostilidade contra ele. Mas Abdias não ia se opor a Rui; mesmo com a grande vaidade que possuía, não se considerava um Rui. Vivíssimo, simpático, insinuante, logo desfez a onda e se impôs nas afirmações de seu talento e de sua capacidade de trabalho”.
Intelectual irrequieto, desde cedo militou no jornalismo, distinguindo-se “pelo estilo enxuto, pela cultura, pela linguagem elevada e pela argumentação incisiva”, no dizer de Wilson Carvalho Gonçalves. Desde sua juventude dedicou-se às letras: aos 17 anos já era o redator principal de A Ideia e, posteriormente, fundou os jornais A Crisálida, A Notícia, O Dia e foi co-fundador de A Pátria e do Almanaque Piauiense. Foi também colaborador nos jornais O Redator, A Luz, o Norte, O Estafeta e o Jornal de Notícias, além das revistas da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Em 1906 escreveu uma série de artigos intitulados “Das Deutschtung In Sud-Brasilian”, negando a germanização do sul do Brasil.
Festejado pela crítica como um dos principais escritores piauienses, Abdias Neves publicou obras de valor histórico-literário, entre as quais se destacam: A Guerra do Fidié (1907), sobre a guerra da Independência no Piauí; Imunidades Parlamentares (1908), obra de cunho jurídico; O Padre Perante a História (1908), conferência; Um Manicaca (1909), romance de costumes e tipos piauienses; Psicologia do Cristianismo (1910); A Elegibilidade do Marechal (1910), versando sobre a eleição do Marechal Hermes da Fonseca; Autonomia Municipal – limites que lhe traçou a Constituição (1913); Direitos Políticos; O Brasil e as Esferas de Influência na Conferência da Paz (1919); O Piauí na Confederação do Equador (1921); Aspectos do Piauí(1926); Guerra dos Balaios; Política das Estradas de Ferro e Finanças da República; Os Mitos Solares dos Índios in Almanaque Garnier, 1908, páginas 238-240, dentre outras.
Foi, portanto, Abdias da Costa Neves uma das maiores inteligências do Piauí, atuando com brilho e distinção, por trinta anos, desde sua formatura até o óbito. Ao falecer, deixou uma lacuna irreparável na vida cultural piauiense.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Fundadores da Loja Maçônica Hiram Abib nº 3069: 1ª fila: Acídio, Juscelino, Olímpio, Eurivan Sales, prof. Soares, Francisco Augusto e Ribamar Gomes; 2ª fila: Juvenal, Luardo, Edilberto, José Augusto Ximenes e Antônio Carlos; 3ª fila: José Ataíde, Carlos Cardoso (1º venerável), José João Magalhães Braga e Elmar Carvalho. 

2 de dezembro

EURIVAN – VERDADEIRO MAÇOM E MÉDICO

Elmar Carvalho

Outro dia, em Regeneração, fui procurado em meu trabalho por um soldado, que me trazia um bilhete/convite do irmão-maçom Eurivan Sales Ribeiro, em que ele me dizia para que eu não deixasse de comparecer à solenidade em que ele receberia o Título de Cidadão Teresinense, pois temia eu não recebesse o verdadeiro convite a tempo. Quando foi ontem, no fórum, ao meio dia, recebi o convite enviado pela Câmara Municipal de Teresina. Apressei minha vinda à capital, para não perder a justa homenagem ao nobre irmão. Ao chegar, à boca da noite, quando fui ler mais atentamente a data do convite, verifiquei que a homenagem havia acontecido no dia anterior, quarta-feira. A justa honraria lhe fora outorgada por proposição do vereador major Paulo Roberto Bezerra de Oliveira. Chateado com a minha falta involuntária, resolvi prestar-lhe este outro tipo de homenagem, conquanto infinitamente mais singela.

Conheço-o desde o meu tempo de neófito, na loja maçônica Monges do Tibet, através da qual cruzei os umbrais da sublime instituição, ao fazer as viagens iniciáticas e as progressões salariais até o grau de mestre. Depois, por razões que não vêm ao caso aqui relatar, juntamente com ele e vários outros irmãos, fui um dos fundadores da ARLS Hiram Abib, da jurisdição do Grande Oriente do Estado do Piauí – GOEPI. Eurivan foi o terceiro venerável da loja. Sempre respeitado na Ordem, por causa de suas posições claras, firmes, maçônicas, contudo sempre predispostas à conciliação e à fraternidade, em que as arestas e o egoísmo da pedra bruta são inexoravelmente desbastados.

Nascido no município de Brejo, Maranhão, veio para o Piauí em 1952, aos sete anos de idade. Sua mãe era natural de Brejo (outrora Brejo dos Anapurus), enquanto seu pai nasceu em Campo Maior. Contou-me, muitos anos atrás, que uma das coisas que mais admira, pela beleza bucólica, pastoril, é contemplar os rebanhos de carneiros, na época das chuvas, a pastarem o capim mimoso, nos tabuleiros ou nas suaves colinas campomaiorenses, atapetados de babugens. Já cantei essa paisagem em alguns de meus poemas. Quem chega à cidade de Campo Maior, vindo de Barras, contemplará a sinuosidade alongada da colinas; quem proceder de Altos ou de Cocal de Telha, admirará os planos tabuleiros, que se desdobram a perder de vista, pontilhados de carnaubeiras. Eurivan, portanto, admira o bem, o bom e o belo.

Em sua vida de luta e de salutar liderança, foi presidente da Associação dos Professores do Estado do Piauí, que deu origem ao atual Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Piauí – SINTE-PI. Foi candidato contra chapa tida como governista, que tentou lhe tomar o cargo, através de uma espécie de intervenção ou administração provisória, mas ele venceu a nova eleição, e se manteve no cargo. Em reconhecimento a sua liderança e esforço, o professor Wall Ferraz, em sua segunda gestão como prefeito de Teresina, o nomeou secretário municipal da Educação. Por duas vezes foi suplente de vereador, mas chamado a ocupar esse cargo na Câmara, preferiu declinar da convocação.

Professor de Química, enfrentou, já na idade madura, vestibular para o curso de Medicina, tendo sido aprovado. Fez esse difícil curso tendo que trabalhar, para sustentar a família. Quase aos 53 anos tornou-se médico, especializando-se em psiquiatria. Foi membro da Junta Médica de Saúde Psiquiátrica, da qual fazia parte o escritor Humberto Guimarães, membro da Academia Piauiense de Letras, que já narrou em alguns de seus textos as vicissitudes e tormentos da loucura. Tanto na vida particular, como na maçonaria e na medicina, Eurivan Sales Ribeiro é um homem desprendido, humanitário, humanista, fraterno, solidário, caridoso, virtudes que lhe ornam a rica personalidade de homem desprovido de empáfia.

Posso atestar isso porque, quando tive que lutar contra uma neoplasia, ele me visitou algumas vezes, em minha convalescença, tanto no hospital como em casa, e eu lhe pude sentir a energia benfazeja, positiva, e a sua palavra amiga, de força e incentivo. Nas minhas conquistas, pude sentir-lhe o regozijo; a alegria de quem fica feliz com os triunfos alheios. Por tudo isso posso dizer que o irmão Eurivan Sales Ribeiro é um verdadeiro médico e maçom, que fez por merecer a distinção honorífica que recebeu. Um médico e maçom que segue à risca o juramento de Hipócrates e o da Sublime Ordem, cujas colunas ele honra e ajuda a sustentar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Abertura do XXIX Encontro de Magistrados Piauienses


Os juízes Thiago Brandão, Carmem Ferraz e o empresário Raimundo Rios



1º de dezembro

NO CONGRAÇAMENTO DA AMAPI

Elmar Carvallho


O desembargador Lineu Bonora Peinado, do Tribunal de Justiça de São Paulo, ao falar sobre “A magistratura Brasileira e o Projeto do Novo CPC”, observou que no esboço inicial havia um dispositivo, que facilitava a concessão de liminar. O nobre magistrado posicionou-se contra ele, dizendo que a magistratura nacional não estava à procura de mais poder. Na verdade, o que se deseja é maior simplificação na ritualística processual, maior celeridade, mais praticidade e maior efetividade das decisões judicais, no sentido de que se tenha mais mecanismos para que elas sejam cumpridas, sem delongas, sem protelações. O desembargador mostrou-se simpático e acessível, tanto em sua exposição, como posteriormente, ao conversar com os colegas.
Juízes Manoel Soares, Elmar Carvalho, Dioclécio Sousa e Sebastião Firmino
Ressaltou, assim como havia feito anteriormente o desembargador Paulo Henrique Moritz da Silva, a contribuição de nosso colega Thiago Brandão, titular da Comarca de Água Branca, que atuou junto à Comissão responsável pela elaboração do Novo Código de Processo Civil, em tramitação no Congresso Nacional, cujo relator é o deputado federal Fábio Trad. Em e-mail que me enviou, o Thiago teve a humildade de consignar que a sua principal atuação na Comissão foi ter sido aluno dessas e de outras eminentes personalidades do mundo jurídico. O desembargador Lineu tem certa semelhança física, e até um pouco no timbre da voz, com o falecido Carlos Teixeira, procurador da Fazenda Nacional, que exerceu o cargo de delegado do Patrimônio da União no Estado do Piauí por vários anos, do qual fui aluno no Campus Ministro Reis Velloso, da UFPI, em Parnaíba, já falecido há mais de duas décadas em desastre automobilístico.
Como eu não tivesse em meu carro nenhum de meus livros individuais, mas apenas a antologia de poetas brasileiros contemporâneos, intitulada Vozes na Paisagem, editada em 2005 pelas Edições Galo Branco, tendo como organizador o escritor Waldir Ribeiro do Val, um dos maiores estudiosos do grande poeta parnasiano Raimundo Correia, resolvi presentear o eminente magistrado Lineu Peinado com essa obra. Além de seu assessor e magistrado Marcos, abrilhantavam a mesa de que ele fazia parte no Clube da AMAPI os juízes Thiago Brandão, Leonardo Trigueiro, Rafael Paludo, Luiz Henrique Moreira e outros colegas e amigos. Fazem parte da coletânea, entre outras ilustres personalidades, A. B. Mendes Cadaxa, Anderson Braga Horta, Aglaia Souza, Antonio Miranda, Aricy Curvello, Astrid Cabral, Jorge Tufic, Francisco Miguel de Moura, José Jeronymo Rivera, José Santiago Naud e Lélia Coelho Frota, que estão consagrados como integrantes do mais importante rol da lírica nacional contemporânea.
Por essa razão, reconhecendo ser eu um dos mais pálidos bardos da seleta, ao lhe entregar o livro, depois de devidamente autografado, fiz questão de dizer:
- Desembargador, eu sou mesmo um cara metido, um enxerido, e aí estou no meio desses altos nomes, como um penetra!...
O colega Thiago Brandão, com a sua conhecida lhaneza, mas evidentemente em flagrante exagero, disse que eu era um “grande poeta” e um sofrível goleiro. Como eu tenha ficado “carrancudo” com a qualificação “goleirística”, o colega me promoveu a goleiro razoável ou regular; como ainda assim eu fingisse ter ficado chateado, o Thiago, em sua generosidade, em ascendente gradação, terminou me qualificando como um bom goleiro. Aí, escancarei o meu melhor e mais simpático sorriso, e me despedi, não sem antes recomendar que procurassem no Google a crônica http://poetaelmar.blogspot.com/search?q=quem+te+ensinou+a+voar [quem te ensinou a voar], que conta a minha saga de guarda-metas, golquíper, guarda-redes, ou ainda goleiro. E mais não disse e nem precisaria dizer. Esse texto falará por mim.