quinta-feira, 10 de julho de 2014

A DERROCADA DE NOSSA SELEÇÃO


10 de maio   Diário Incontínuo

A DERROCADA DE NOSSA SELEÇÃO

Elmar Carvalho

Quando o Dr. Alfredo Nunes, que exerceu a presidência da Confederação Brasileira de Futebol, me deu um distintivo da CBF/Seleção Brasileira, alguns anos atrás, disse-me estas palavras, que jamais esquecerei: “Estou lhe dando este escudo porque tenho notícia de que você foi um bom goleiro do futebol amador.” Durante esta Copa do Mundo, passei a usá-lo, com mais frequência, tentando incutir em mim mesmo uma confiança, que na verdade não tinha, em nossa seleção canarinho.

Pela mesma razão, na véspera dos jogos contra as seleções da Colômbia e da Alemanha, fui caminhar na Raul Lopes, envergando a camisa de nosso escrete nacional; na primeira vez usei a amarela, e na segunda, a azul. Em ambas, estavam estampadas as cinco estrelas representativas do pentacampeonato conquistado.

Um conhecido, sorrindo, algo ironicamente, chamou-me de patriota, ao que, de imediato, lhe retruquei: “Estou usando esta camisa hoje, porque não sei se a partir de amanhã ainda poderei vesti-la.” Contei esse episódio anedótico a um outro amigo caminhante, que me garantiu, com muita ênfase, com o polegar para cima, em sinal de positivo: “Vai continuar, sim.” Não sei se realmente ele tinha fé em nosso escrete, ou se apenas simulava.

Dias antes, no auditório da Academia Piauiense de Letras, eu havia conversado com o grande comentarista esportivo Carlos Said, e ele me revelou o seu pessimismo em relação à possibilidade de conquista do hexacampeonato. Declinou os fundamentos de sua descrença, que não irei aqui alinhavar; certamente ele próprio o fará, em sua coluna jornalística. Eu comungava de suas mesmas razões, e lhe disse isso, embora não tenha os conhecimentos do sapientíssimo mestre.

Não irei, neste breve registro, dissertar sobre táticas, técnicas e estratégias futebolísticas, mesmo porque não sou a pessoa mais indicada para esse mister. Apenas direi algumas palavras, ao sabor do improviso e do correr da pena, ou melhor, da digitação e do teclado. Ontem, ao ligar para um amigo, o Natim Freitas, sobrinho de minha mulher, disse-lhe que achava que o Brasil iria vencer a Alemanha pelo placar de 2 a 0 ou 2 a 1. Falei isso sem muita convicção, claro, pois acrescentei que se os germânicos viessem a vencer não seria uma surpresa para mim.

O que me levava a acreditar na possível vitória alemã era o fato de que, em nenhuma partida da copa, o nosso time nacional me passara a convicção de que era uma equipe forte, bem entrosada, segura, confiante. Ao contrário, me parecia insegura, imatura, com jogadores à beira de um ataque de nervos, excessivamente entregues a choros e emoções, e, o que é pior, cuja frágil confiança parecia repousar em um único craque, o Neymar. Louve-se a ética e o respeito dos craques alemães, que foram muito comedidos nas comemorações, e não tripudiaram sobre a nossa acachapante derrocada.

Ora, o futebol é um esporte por excelência associativo, em que todos os onze jogadores devem funcionar a contento. Quando as jogadas coletivas não predominam sobre as individuais toda esperança é frágil ou sem sentido. O certo é que o resultado dos jogos não me agradou, inclusive chegando ao cúmulo de haver uma decisão por pênalti (após uma prorrogação em que o placar continuou sem gol), na qual dois de nossos atletas desperdiçaram as cobranças. Em síntese, mesmo nos pênaltis, os nossos “amarelinhos” amarelaram. Até o nosso gol de honra, contra os sete da goleada alemã, foi envergonhado, e não mereceu sequer a comemoração de seu autor.

Trago ao leitor um pequeno trecho, por sinal muito pertinente, de um abalizado comentário que li no portal da UOL, da autoria de Júlio Gomes: “(...) somos arrogantes no futebol. Mais até do que os americanos são com o basquete. Não aceitamos a superioridade alheia. O Brasil precisa perder por 7 a 1 para que as pessoas se deem conta de que o rival é superior (e ainda tem muita gente usando o argumento do “resultado atípico''). Se perdesse por 2 a 0 ou 3 a 1, teria sido por culpa do Neymar, do juiz, do Zuñiga, do vento, da trave, do sal grosso. Sempre encontra-se uma justificativa para a derrota.”

Esse comentarista acrescentou que um seu amigo lhe dissera que, se o brasileiro para quase tudo tem um complexo de vira-lata, no futebol torna-se arrogante, e passa a ter um complexo de pitbull. Acrescento eu, para não perder o bonde da gozação e da rima: e pitbull energizado por red bull. E para piorar o que já era trágico, o torcedor brasileiro adquiriu um novo “complexo canino”; agora tem pânico de encontrar um pastor alemão.

O goleiro Júlio César, em entrevista à rede Globo, disse que era difícil explicar o inexplicável. Não acho que tenha havido algo de “inexplicável”. Tudo está bem explicado; basta que se confrontem as boas atuações da Seleção Alemã e os insatisfatórios resultados dos jogos da nossa, considerando-se o nível dos escretes contra os quais ela atuou.

Não nos foi bastante a derrota; tínhamos que perder pelo humilhante escore de 7 a 1. Com esse vexatório fiasco, o falastrão Galvão Bueno, que exibia um exacerbado ufanismo, sem base em fatos reais, por iniciativa própria ou por recomendação da rede Globo, passou a reconhecer os erros e o baixo rendimento de nossa seleção em todos os jogos da copa, até com certa ênfase, coisa que jamais fez nas fases anteriores, quando sempre acenava para a conquista do “hexa”, com os seus famigerados sete passos, que sempre se desenharam capengas.

Conta-se o fato, ao que parece um tanto lendário, de que o holandês Adriaen Pater, ao se sentir na iminência de morrer em uma batalha naval, teria exclamado: “O oceano é o único sepulcro digno de um almirante batavo.” Por falar em Holanda, restava-nos torcer pela seleção desse país, mas esta também soçobrou, e contra ela vamos disputar a terceira colocação.


Não temos sequer o melancólico consolo de uma frase de efeito, uma vez que não pode existir nenhuma consolação para nosso humilhante naufrágio, o maior da história de nossa Seleção.     

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Desarmado, pior


José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

      A estupidez assassina, no Brasil, esgota a misericórdia e tolerância cristãs. É preciso reagir, ou multiplicar-se-ão cemitérios. Assaltam-se e matam-se cidadãos todo santo dia. Há algumas décadas, os raros assassinatos perduravam na memória coletiva por anos, como o “crime da doméstica”. Hoje, se esvai rápido.

      Em Teresina, a última vítima, um jovem estudante de engenharia, 21 anos, ficha escolar e disciplinar de causar canonização, vítima de bala perdida. Sem falar nas execuções envolvendo traficantes e viciados em drogas, diariamente. Só no primeiro semestre, mais de 70 assassinados se foram para o andar de cima. No Brasil, assassinatos ultrapassam 50 mil ao ano. Sobrepõem ao Iraque e a qualquer nação em conflito.

       É hora de se repensar se valeu a pena a lei do desarmamento e do confisco de armas, criados no governo petista. Não é preciso dom profético para se previr a conta iminente dessa onda sanguinária.

      A lei do desarmamento e do confisco de armas só beneficiou falanges de bandidos e do crime organizado, hoje incrustrados em todos os poderes da Nação. Eles, com seus tentáculos no Congresso Nacional, criam e aprovam leis estúpidas de proteção a menores, bolsa presídio, privilégios a penados, tempo mínimo de cárcere, limites de arrocho e uso de armas a policiais. Até conseguem incorporar-se às forças policiais.

      A história de desarmamento e confisco de armas não vem de agora: nasceu em regimes nazista, fascista e comunista. Exatamente para domar a sociedade à servidão ao poder. A Alemanha nazista, o Japão feudal, a extinta União Soviética, Cuba, China comunista, Coreia do Norte, todos, em algum momento, fizeram registro e confisco de armas. Em seguida, ocorreram banhos de sangue, exatamente dos que ousaram combater as ideologias ditatoriais.

         Logo após o confisco de armas de cidadãos, na Alemanha nazista, ocorreu a carnificina de judeus. Em novembro de 1938, o The New York Times informava de Berlim: “A infame violência nazista contra cidadãos judeus foi precedida pela confiscação de armas de fogo das vítimas judias. O presidente da polícia de Berlim, conde Wolf Heinrich, anunciou que toda a população judia havia sido desarmada com o confisco de 2.569 armas curtas, 1.702 armas de fogo e 20 mil cartuchos de munição...”

      Governos bem intencionados – se existem – foram vítimas dos tais cadastros nacionais de armas. Tchecoslováquia e Polônia adotaram o cadastro, antes da invasão das tropas germânicas. Alguns oponentes ao regime sumiram no meio da noite.

         O Brasil petista adota o registro e confisco de armas, seguindo as mesmas orientações de regimes autoritários. Aparentemente, bem intencionado, mas, no fundo, desarmando também o país.

         Quem condena a violência, praticando violência, aprova a violência. E quando o cidadão tenta apenas defender sua vida, seu patrimônio, sua família, enfim sua dignidade renega a fé cristã? Perdoe-me, tenho de visitar mais um amigo assassinado. 


terça-feira, 8 de julho de 2014

EDIMÊ, a professora que remanesce

Foto meramente ilustrativa

EDIMÊ, a professora que remanesce

Jacob Fortes

Por vezes nos pegamos perdidos em silêncios indecifráveis, um estado letárgico alheado aos pensamentos racionais. É circunstância comum, acomete a todos os pensantes. Assim me sucedeu, dia desses, na hora da ave-maria, embora houvesse o pressentimento vago de que o torpor do “vinho” iria desvanecer brevemente.   Teclei o “enter” da minha mente uma, duas, três vezes e nada. Por fim, tenuemente surgiram os primeiros feixes de luz. Um filme insinuava-se. A tela, com a lerdeza de uma boiada calaceira que rumina o capim mascado, finalmente despertou. Neste comenos, lá da BR, hora do rush, ouvi a ambulância alardear continuamente a sua sirene em grau tão estridulante que fazia supor urgente missão de salvamento. Isso fez acender de vez todas as luzes do armarinho da minha memória. Um após outro, os pensamentos se ergueram e logo se formou um cortejo processional deles em busca de propósitos.

O primeiro a aluir-se expôs, num escaninho especial do armarinho, a figura da professora Edimê. Mais que professora, orientadora, amiga, e muito mais para quem, ingênuo e ainda poento do sertão, tinha o horizonte do tamanho das pestanas. Não sei do paradeiro da estimada professora, menos ainda as razões que a fizeram transferir-se da metrópole recifense para lecionar naquela cidadezinha. Naquele tempo, quando o diário do século, incrédulo, anotava as façanhas do Sputnik Primeiro, já lhe pesavam aos ombros o triplo dos meus doze. Dedutivamente, há de encontra-se vetusta, em algum lugar que gostaria de saber, ostentando as marcas inconfundíveis da longevidade. Senão, atendendo o chamado incontradito do concurso de remoção, passou a exercer a docência em plagas celestiais. Assim como na terra, lá também todos os ofícios são necessários. Seu relicário instrumento de ensino/aprendizagem, a máquina de datilografia, fora, no dizer do escritor Geraldo Almeida Borges, “Província Submersa”, incorporado, por decreto dos computadores modernos, à carga patrimonial da idade neolítica.

Gostaria que ela soubesse o quanto os seus ensinamentos me foram úteis e que efeito teve em meu coração a sua fidalga generosidade. Ainda que não possa vê-la, ternamente cultivo essa expectativa nutrindo a vontade de “ser novamente um menino”. Onde quer que esteja ofereço-lhe, professora Edimê, com a permissão do Rei, a canção “Lady Laura”, na voz melodiosa do meu silêncio, assistida por uma plateia de duas lágrimas que boiam indecisas: uma para regar a saudade que se tornou minha companheira, a outra para molhar as sementeiras que fazem florescer as edimês que tornam a vida ainda mais doce, a despeito dos seus absurdos.        

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Café Literário


HARDI FILHO, SUA VIDA, NOSSA VIDA E A POESIA

Foto extraída do Portalritíssima, vendo-se: Paulo Nunes, Hardi Filho, Nelson Nery Costa, Francisco Miguel de Moura, senhora Adélia (esposa do homenageado), Osvaldo Lemos, Herculano Moraes e Elmar Carvalho


HARDI FILHO, SUA VIDA, NOSSA VIDA E A POESIA

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Hardi Filho completa amanhã, 5 de julho deste 2014, seus 80 anos de idade e 50 de poesia e literatura. Poeta e cronista, observador arguto, com o toque do jornalismo que praticou. Mas na crônica não deixa de lado o tempero dos sonhos. Além disto faz crítica literária quando a obra e o instante lhes aprazem.  Contamos, sempre com ele, a Academia e a comunidade literária, na organização, ajuda e preparo dos concursos e outros misteres. Tendo em vista o seu valor humano e literário, a Academia Piauiense de Letras, no último sábado, promoveu a comemoração do seu aniversário, fechando solenemente o semestre acadêmico. Um dia festivo marcante. E, nesta crônica que promete ser longa, relembro algumas coisas tiradas do baú da memória e ligadas à nossa vivência de amigos e poetas, que marcam o perfil psicológico e moral do homenageado. Direi, de início, como disse na festa acadêmica comemorativa, que Hardi Filho é um exemplo de probidade, generosidade, homem desprendido das coisas materiais e preso aos amigos. Nestes 50 anos de vida e vivência não tivemos sequer uma só “diferença”, na amizade, na camaradagem e no bem-querer, tudo batizado e carimbado desde o dia 5-7-1964, quando me ofereceu seu livro “Cinzas e Orvalhos”, com autógrafo firme de quem estava em plena forma. Logo que chegara da Bahia, aqui o encontrei e sua poesia adulta, forte, grandiosa, num estilo simbolista, cujas raízes adivinhávamos estar em Augusto dos Anjos e Celso Pinheiro, grandes mestres, o primeiro mais conhecido, o outro menos. Hardi Filho, em seu começo, é um simbolista equiparado ao que houve de melhor na literatura brasileira. A citação dos dois grandes nomes é apenas pra dizer que suas leituras eram das melhores, pois que se começa a conhecer o poeta por seus antecedentes de leitura. Quem lê bem, escreve bem; quem não lê, nunca virá a escrever – eis a minha glosa ao dito popular. Hardi leu bem e estreou impecavelmente com “Cinzas e Orvalhos”, em 1964. Há algum tempo venho tentando convencer a Academia Piauiense de Letras a incluir “Cinzas e Orvalhos” na lista de suas publicações comemorativas do centenário, a ser comemorado em 2017. Primeiramente, porque o livro do Hardi Filho é ótimo, ganhou um concurso da Prefeitura Municipal de Teresina e foi julgado pelos acadêmicos João Nonon Fontes de Moura Ibiapina, Júlio Martins Vieira e Mário José Batista como o primeiro lugar e merecedor do prêmio. Segundo, porque está completando 50 anos de publicada a primeira edição e possivelmente jamais será editado, pelo cálculo que se tem referente a reedições. Terceiro, porque Hardi Filho tem sido generoso na sua vida comum e na literatura; ele atende a todos que o procuram com prazer e bonomia; recebe todos em sua casa, conversa sabiamente sobre o fazer poético e o amor ao belo. Tudo isto, sem deixar de lado o seu propósito: Não procurar ninguém, não pedir a ninguém, quem quiser que o procure. Diante destas razões, meu apelo à APL, se vingar a idéia de publicação de alguns vivos, é editar Hardi Filho.


Antes que me esqueça, reabro o baú da memória e das saudades para acrescentar: Quando morei na Bahia (meus filhos fazendo o curso superior em Salvador e eu a minha pós-graduação em “Crítica de Arte”), meu dilema era não querer hospedar-me em hotel. Teresina, cidade onde fizera tantas amizades, me ia parecer estranha, quando a ela voltasse por férias ou outro motivo. Hardi Filho e dona Adélia ofereceram sua residência, com dormida e alimentação da melhor, não apenas a mim e dona Mécia, mas para qualquer dos meus filhos que aqui viessem. Este é um exemplo vivo, irrefutável. A nossa família, o favor tinha o gosto do provérbio de que “vinhos e amigos, quanto mais velhos melhores”.  Mas sei de tantas outras pessoas por eles recebidas de muito bom grado, mesmo não parentes, não por uns dias ou meses, por muito mais. Não caberia, neste espaço enumera-los e indicá-los pelo nome, se lembrasse. Também sobressaem as viagens domingueiras ao balneário “Roncador”, no Maranhão, onde passávamos o dia com nossos filhos, tomando banho, almoçando, conversando e tirando fotos. A ida de manhã e a volta à tarde era sempre no mesmo transporte: o velho e saudoso jeep do Hardi. Outras tantas vezes ele nos levou ao Parque Nacional das Sete Cidades, visto que Hardi Filho era funcionário do IBDF, por cuja repartição pública federal aposentou-se. Mas a maioria dos nossos encontros ficou por conta dos movimentos literários, primeiramente do CLIP; depois, da UBE. O velho Círculo Literário Piauiense já completa 50 anos hoje. Ele já existia a partir de 1964, quando nós, os “três mosqueteiros”, por coincidência ou não, armamos a amizade e a luta: Hardi, Chico Miguel e Herculano, já poetas de livros publicados ou procurando fazê-lo. Tarciso Prado é culpado de tudo isto: ele me apresentou ao Hardi Filho e ao Herculano Morais. E continuamos na amizade e no gosto literário de diversas facetas, nas conversas sobre a vida, a literatura, as artes e a filosofia, não obstante os percalços do golpe militar de 1964.  Como já foi dito noutras partes, o CLIP não tinha sede e reunia-se inicialmente na casa do Herculano Morais, e muito mais na casa do Hardi Filho e sua esposa, dona Adélia, que patrocinavam a bolacha, o café e o gosto de estarmos em família.  O que há de notar-se é que nunca, nestes anos todos, houve “diferenças” na família - toda amiga - nem desavenças entre nós, embora sejamos bastante diferentes em pessoa e na poesia.  Finalizo, por falta de espaço para dizer tudo, escolhendo uma frase que o próprio Hardi Filho diz em determinadas ocasiões: “Eu não sirvo de exemplo pra ninguém”. Que humildade, amigo! Você é um exemplo de grande poeta, um dos maiores entre o que estão vivos e produzindo, no Piauí. Exemplo de pai, de esposo e de amigo, meu irmão! Gracias!    

domingo, 6 de julho de 2014

Seleta Piauiense - Cid Teixeira de Abreu


Réquiem para Graça

Cid Teixeira de Abreu (1937 - 2004)

enquanto o coveiro
cava e
escava
de sete palmos a
nava
navega em rodas da saudade

simples tua opção
para uma cadeira de rodas
marejar meus olhos      

a terra não comerá minhas lembranças
— minha namorada tu serás            

sábado, 5 de julho de 2014

A Fifa, a Copa e outros prolemas


Cunha e Silva Filho

Moro Rio de Janeiro há cinquenta anos. Já vi muita coisa, boa e ruim, nos diversos aspectos em que se queira colocar o que tem atravessado este Brasil, belo na paisagem, difícil na condução de sua política, nos grandes desafios que teimosamente continuam sem solução, nas descontinuidades de seus principais problemas: desmoralização da coisa publica, corrupção crônica que se vai naturalizando, violência insolúvel, transporte ruim, educação pública municipal e estadual do ensino fundamental e médio ainda bem deficiente, saúde precária, bons hospitais particulares só para a elite, segurança do indivíduo por tempo determinado, só para inglês ver, ou melhor, para turistas estrangeiros que vieram acompanhar suas seleções em alguns estados brasileiros.

Perguntando, em dia de jogo de seleções estrangeiras, a um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro por que eu não poderia entrar por uma rua pela qual costumo passar a fim de dar caminha em volta do Maracanã, ele me respondeu que por ali não poderia, acrescentando: “São ordens da FIFA.” Então, lhe respondi, em tom de desabafo e indignação patriótica, como se eu tivesse assumindo o papel quixotesco do personagem de Lima Barreto - o tragicômico Policarpo Quaresma: “Mas a Fifa é quem dá ordens agora no país? “Cadê meus direitos de ir e vir?” O militar, com ar sorridente, não me disse mais nada e eu tomei meu rumo.

O país da Fifa é uma quarentena alegre e festiva – não há como não concordar com a alegria que paira no ar brasileiro, sobretudo agora com a vitória do Brasil sobre o Chile. Vitória suada, arrastada, sortuda porque conquistada pelo acaso dos pênaltis. A manchete hoje da Folha de São Paulo resume o resultado do jogo nestes termos desoladores: “Júlio César e trave salvam Brasil de vexame em casa.”

O país, até no futebol, está desconcertante. E não é pela força grande que os torcedores dão de coração e alma abertos tanto os entusiastas do futebol quanto os torcedores apenas de Copa Mundial. Embora a nossa seleção não seja a dos sonhos dos brasileiros, não é hora de abandonar os nossos jogadores, dentre os quais se destaca a figura de um star, de um craque, o nosso Neymar Jr. Deus sabe que, diante da tela da TV, acompanhando os jogos de nossa seleção, tenho me esforçado para torcer e até me emocionar, derramando lágrimas, quando está em jogo o destino da nossa seleção.

É neste período dos jogos da Copa que devemos dar todo o nosso apoio aos nossos atletas, esquecendo até mesmo algumas fraquezas de desempenho dos jogadores. Por cima dos problemas brasileiros, há uma voz interior, mais forte do que nós, que nos arrasta para manifestarmos o nosso apoio e os nossos desejos de que iremos ganhar a Taça. É curioso esta metamorfose que ocorre em tempos de Copa Mundial de Futebol, principalmente. Chamo a isso o sentimento da pátria, do amor ao solo brasileiro, à nossa língua, ao que temos de bom, ao que podemos ainda construir.

Em síntese, isso é patriotismo, sentimento que fala mais alto do que as misérias que não podemos nem devemos deixar de denunciar e reprovar, exigindo constantemente melhorias para nosso país cansado de tantas mazelas que nos envergonham e nos entristecem a ponto de perdermos as esperanças em nossos políticos em todos os níveis de governo.

Se o analfabetismo que ainda existe no país é um prato cheio para os que se elegem graças ao clientelismo histórico de nossos políticos, e à `irresponsabilidade de nosso eleitorado que dá votos para picaretas que se aproveitam do que conquistaram no meio artístico de baixo nível ou em outros setores de atividades que lhes dão visibilidade e fama, for debelado da cultura nacional, então é possível ter-se alguma esperança de que teremos melhores tempos para o Brasil.

O país será melhor em todos os sentidos quando a consciência de nossa cidadania atingir um nível razoável de visão imparcial de nossos problemas mais agudos: educação, saúde, trans porte e segurança. A sociedade brasileira precisa de encontrar um caminho que, conquanto tenha divergências ideológicas, possa levá-la a uma convivência solidária, se não em completa comunhão de ideias, pelo menos a um estágio de relativo equilíbrio entre todos os níveis de classes existentes, sem preconceitos, nem prepotência, nem ambições desmedidas e individualismos reprováveis.

Este relativo equilíbrio a que me refiro é exequível. Pode ser alcançado. Só depende de forças interiores, de transformação moral e ética e de um componente que a pós-modernidade e épocas passadas não souberam aplicar na práxis da vida civilizada: a dimensão religiosa sem fanatismos nem cegueiras. Os fanatismos não veem senão seus próprios princípios ou dogmas obedecidos na teoria, nos rituais, ou nos livros sagrados, tanto no mundo ocidental quanto oriental.

Essa dimensão espiritual, “the missing dimension,” como a definia um pastor americano há muito falecido, é que está faltando, com urgência, à população da Terra, agora devastada, poluída, maltratada. Planeta judiado pelos homens, pelos governos, pelas pessoas. As consequências já estão à vista: enchentes devastadoras, estranhas mudanças climáticas, efeito estufa, degelo das calotas polares, aumento do nível dos mares – este último um gravíssimo problema que pode rondar os continentes habitados do Planeta. Eis a questão.      

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A INGRATA POSIÇÃO DE GOLEIRO

Goleiro Coló e o Caiçara
Comercial e o goleiro Beroso
Pintura de Amaral - acervo de Cineas Santos/Oficina da Palavra

René Iguita


4 de julho   Diário Incontínuo

A INGRATA POSIÇÃO DE GOLEIRO

Elmar Carvalho

Desde minha infância e adolescência, fui um admirador dos goleiros Beroso e Coló, como já tive ocasião de dizer. Era meu ícone, sobretudo, o segundo, tanto por suas pontes ou voadas espetaculares, como pelo fato de ser integrante do Caiçara. O Coló, na minha concepção, era mais estiloso, exercitava mais a elasticidade e ornamentava as suas defesas com suas acrobacias felinas e pontes estaiadas, em que parecia desafiar a lei da gravidade.

O Beroso, titular do Comercial por muitos anos, era mais objetivo; procurava se posicionar corretamente, fechando os ângulos para a trave o máximo possível. As suas atuações eram sóbrias, sem ornamentos, contudo, quando necessário, realizava belas jogadas. No futebol de salão campomaiorense se destacava o goleiro Zé Olímpio (José Olímpio da Paz Filho). Fazia arrojadas defesas, em que praticava bonitos e acrobáticos saltos, sem medo do cimento rústico e áspero das quadras esportivas de então.



Mormente na minha adolescência, pratiquei, quase todo dia, o futebol. Quase sempre optei por ser goleiro, mas algumas vezes atuei na lateral direita ou na ponta direita. Como guarda-metas procurei imitar o grande Coló. Quase sempre minhas atuações eram tidas como regulares ou boas, e nunca fui defenestrado de nenhuma partida ou time. O professor, intelectual e musicista Zé Francisco Marques, na crônica “Quem te ensinou a voar?”, que se encontra publicada na internet, narra algumas de minhas peripécias goleirísticas da minha adolescência.

O acrobático e elegante Coló, quando a bola vinha numa altura e numa velocidade que ele julgava apropriadas, simulava deixar passar a pelota, para em seguida espalmá-la ou mesmo agarrá-la em suas mãos habilidosas. Isso arrancava urros e aplausos da torcida alvirrubra, que ficava com os nervos em frangalhos nas arquibancadas do velho Estádio Deusdeth de Melo. Era um arqueiro de “voadas” dignas de um trapezista circense, um verdadeiro artista do picadeiro futebolístico.

Contou-me o notável craque Zé Duarte uma audaciosa façanha do inesquecível Beroso, que assim narrei no meu livro “O Pé e a Bola”: “(...) certa vez, estando Beroso muito adiantado, houve um chute a gol por cobertura, que forçou este extraordinário goleiro a dar dois passos em recuo, arremessar-se de costas para trás, desviar a trajetória da bola, enquanto girava seu corpo, em legítimo salto mortal, para cair de bruços.”

Em tempos mais recentes, fez sucesso o espetaculoso golquíper Iguita, que além de fazer verdadeiras acrobacias circenses, metia-se a atuar como se fora um líbero, ou até mesmo atacante; nessas “loucuras” extravagantes tanto cometia inesperados dribles como fazia defesas com as pernas e pés, como se fora um zagueiro. Algumas vezes perdia a bola, e sofria melancólicos e ridículos gols. Teve alguns imitadores, que jamais superaram o mestre. Rogério Ceni se tornou o goleiro artilheiro, mas sobretudo em cobranças de faltas e penalidades máximas.



Alcançou o colombiano René Iguita, com a sua basta cabeleira encaracolada, o ápice de sua glória quando, após exaustivos treinamentos, conseguiu executar uma defesa quase suicida, designada como escorpião, na qual ele deixava a bola passar por sobre suas costas, e, em pleno voo e na horizontal, realizava a defesa, ao devolver a bola com os calcanhares. Na verdade, seria muito mais simples e eficaz encaixar a bola nas mãos ou entre o peito e os braços. De qualquer sorte foi um grande, ousado e abusado goleiro, embora, às vezes, suas intervenções fossem suicidas e irresponsáveis.   

  

Uma ocasião, talvez tentando inconscientemente imitar o meu ídolo Coló, num campinho de areia que existia às margens do Açude Grande de Campo Maior, ao lado da vivenda do tenente Jaime da Paz, vi a bola ser arremessada para o atacante adversário; tive uma loucura momentânea, e no auge do entusiasmo de meus quinze ou dezesseis anos, empreendi maluca correria para me lançar num grande e alto salto, e dessa forma interceptar o lance. Devo dizer que, já em pleno voo, tive medo do que poderia me acontecer no impacto com o solo, mas então já era tarde para arrependimento e executei a defesa.

A posição de goleiro é mesmo esdrúxula. O atleta fica solitário, sempre na proximidade da meta. Sua preocupação exclusiva é impedir os gols, enquanto a de seus companheiros é principalmente fazê-los. Estes jogam, sobretudo, com os pés, e são proibidos de usar as mãos; o guarda-redes atua principalmente com as mãos. Até a sua indumentária é diferente, tanto na cor como por ter geralmente mangas longas, além de fazer uso de luvas.



Algumas vezes, após uma magnífica defesa, um “montinho artilheiro” pode ludibriar um goleiro, por melhor e mais experiente que seja. Mesmo os melhores arqueiros, aceitam, em momento infeliz, o mais desmoralizante “frango”, ficando apenas a segurar as penas do galináceo. O goleiro Júlio César, titular da Seleção Brasileira de 2014, consagrou-se como herói na partida contra o Chile, quando defendeu dois chutes, na decisão dramática por pênalti.



Entretanto, tempos atrás, ficara um tanto depressivo, ao lhe ser atribuída a responsabilidade de uma derrota de nosso escrete nacional. O grande Barbosa amargou até o fim de sua vida o estigma de culpado de o Brasil não ter se sagrado campeão na Copa de 1950, cuja partida ficou conhecida como Maracanazo. E ele é tido por vários expertos como o melhor goleiro de nosso esquadrão canarinho. Muitos entendem que esse gol não poderia ser classificado como um “frango”.

Quanto o goleiro brilha, é sinal de que o seu time está apagado. Quando muito aparece é sinal de que os seus companheiros não estão bem. Por outras palavras: quanto menos o goleiro atuar e for destaque, menos preocupação o técnico e o time têm. Os gols e os dribles são mostrados com destaque na TV, inclusive reprisados na transmissão ao vivo, enquanto raramente são exibidas as defesas espetaculares e mesmo milagrosas dos goleiros.


Todos podem falhar, menos o solitário defensor. Uma falha desse guardião das traves é sempre fatal. Portanto, é mesmo ingrata essa posição. Contudo, como é bela e gloriosa uma defesa espetacular de um goleiro, em que ele arranca suspiros e urros da plateia. É por isso que sinto saudade dos meus tempos de goleiro, em que me quedava solitário sob o travessão, mas sempre atento, à espreita dos chutes certeiros, para frustrar os possíveis gols do adversário.    

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Imagina!



Imagina!

Edmar Oliveira

Complexo de Vira-Lata: O velho Nelson Rodrigues inventou o termo e o definia como “a inferioridade com que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. E ele voltou repaginado nesta Copa no Brasil. Misturou-se o esporte com a reclamação política de uma classe média que se acha ameaçada pela melhora econômica do povo da periferia. E por temor de nunca passar às elites, a classe média confundiu-se, voluntariamente, com elas na divulgação do bordão: “Imagina na Copa!”. Os que conhecem o exterior sempre se comparam inferiormente com o que veem lá fora. Tudo lá é bom, aqui tudo é ruim. Então na Copa iríamos passar vergonha com as visitas importantes que chegariam. O que estamos vendo é um encantamento com nossa gente, com a nossa receptividade, com os nossos estádios, com os aeroportos, com nossas cidades. Aqui em Copacabana instalou-se uma verdadeira “torre de babel” nos idiomas, mas com todo mundo se comunicando na boa vontade, na festa, na animação. E alguns visitantes tão deslumbrados que nos invejam, invertendo o complexo. Que tal se a Copa nos curar deste mal depressivo? Claro que também teve superfaturamento, corrupção de praxe nas obras para a Copa, promessas de mobilidade urbana que não foram executadas. Imagina se nos livrarmos também deste mal cleptomaníaco? Por isso é de bom tom que não sejamos Neo-Pachecos nesta Copa. Pacheco era o camisa 12 da Gillette na Copa de 82, patriotada dos estertores da ditadura. 

Teoria da Conspiração: os paranoicos sempre estão espreitando uma conspiração. Muito deles acham que a Copa está armada para favorecer um latino-americano. O futebol europeu está sendo prejudicado pela arbitragem. As chaves intencionaram tirar os melhores logo no início. Tem até os que acham que a Copa foi pensada para favorecer o governo brasileiro, do qual o Felipão é membro escondido. Como dizia um conterrâneo: “aí também já é demais também”. Prefiro a tese do técnico da Inglaterra: com o futebol globalizado, o jogador vira mercadoria de exportação e quem tem mais grana compra os melhores para jogar nos seus gramados. Os jogadores locais são preteridos. Vemos a Espanha com o melhor futebol de clubes do mundo e um fiasco na Copa. Vale também para a Inglaterra como defendeu seu lúcido técnico. Alguns estão seduzindo a nacionalização dos importados para defender a camisa nacional. Não com a mesma garra dos uruguaios, que se classificaram na chave da morte com unhas e dentes, literalmente.

Big-Brother: Ver mais que nossos olhos a tecnologia aplicada ao futebol. Bobagem algum jogador tentar esconder alguma coisa. O juiz pode não ver, mas as câmaras denunciam. Foi assim com o vampirismo do Soarez, ou a maldade com que nosso Neymar mirou com o olhar a braçada no pescoço do croata. O Balotelli aplicou um golpe de MMA no uruguaio na denúncia da câmera que o juiz não viu. A pegação dentro da área tá mais para as “boites” que eles frequentam no escuro. Mas futebol sempre foi assim. O Pelé era craque em irritar os adversários: gostava de enfiar o dedo no fiofó do marcador e cuspia na cara do adversário. Diziam!, porque se o juiz não via, não tinha a tecnologia na época para dedo-durar!

Pitacos: escrevo estas linhas antes dos jogos Chile X Brasil e Uruguai X Colômbia. Vocês estão lendo depois destes resultados. E durante o resto da Copa o Piauinauta estará no espaço sideral sem poder corrigir estes palpites. Aviso até que vou retardar a próxima edição para não coincidir com a final. Mas vamos lá: acho o Chile passável, temo mais o Uruguai ou a Colômbia e mais ainda a Alemanha (ou França), se lá chegarmos. Do outro lado das quartas está mais fácil, na minha humilde avaliação: a minha bola de cristal enxerga a Argentina na final, com uma névoa que ameaça a chegada da Holanda. As duas não estarem nas semifinais é muita zebra. Do lado de cá é matar um leão por jogo ou ser morto por ele. Morrer pro Chile é uma tragédia que vocês nem estarão lendo isso aqui. Perder pro Uruguai é antecipar o “Maracanazo” pras quartas e a tristeza antecipada. A injusta punição ao Luizito pode influir no resultado. Se for contra a Colômbia vai ser tão difícil quanto. Perder para Alemanha nos colocaria em terceiro. Brasil e Argentina é o nosso sonho de ganhar com mais emoção. Perder seria o segundo “Maracanazo” mudando de país. Mas seria uma grande final se o jogaço for Alemanha e Argentina. Pode também ser Holanda e Alemanha para curar nossos paranoicos. Mas fico aqui na torcida dos Hermanos contra a nossa Pátria de Chuteiras. Claro que a França e a Bélgica podem surpreender essa caixinha mágica do futebol. A magia do futebol é que o pior pode ganhar o melhor, que pode jogar pior num dia ruim. E ainda tem a roleta dos pênaltis. Boa Copa para todos nós!    

terça-feira, 1 de julho de 2014

Desperta, meu povo!


Desperta, meu povo!

José Maria Vasconcelos
Cronista, 
josemaria001@hotmail.com
    

Faz um ano. Multidão de brasileiros, especialmente jovens de classe média, foi às ruas, de norte a sul do país, em passeatas pacíficas, cobrando do governo segurança, mobilidade urbana, transparência nos gastos públicos, combate à corrupção, reformas políticas, entre outras medidas. Há décadas, a população não organizava protestos de tamanha magnitude e sentimento pátrio. Pelo menos, as manifestações urbanas causaram certo temor às autoridades e parlamentares, que logo providenciaram tirar das gavetas projetos de leis adormecidos, há tempo, mas de interesse social urgente.


O fervor nacionalista das ruas foi abafado, em seguida, por grupos de baderneiros encapuzados e depredadores, para atemorizar as manifestações pacíficas. Certamente, havia um pensador coletivo, espécie de guru da contramão da democracia comandando a turma da bagunça.


A tática do quebra-quebra para esbarrar as manifestações populares é antiga e repetida, especialmente em países onde o socialismo estendeu tentáculos. O nazismo, comandado por Hítler, se impôs provocando quebra-quebra contra judeus. Seguiram-se confrontos e mortes em Portugal, Espanha e Itália, onde se implantaram regimes ditatoriais de influência nazista. Getúlio Vargas farejou os mesmos planos para o Brasil e virou ditador. Jânio Quadros e Jango trocavam baforados charutos com governo cubano, sucursal da Rússia comunista. Em 1964, movimentos de esquerda no Brasil já atemorizavam a população, que foi às ruas protestar. Graças à intervenção militar, para conter a implantação comunista no Brasil, as esquerdas, que assaltavam bancos e sequestravam diplomatas, sofreram baixas com prisões, execuções e perdas dos direitos civis. Em 1968, Paris virou caldeirão de protestos e quebra-quebra por grupos de socialistas tentando impor-se no país.


Na Rússia, o regime de Vladimir Putin tenta recuperar o prestígio e territórios perdidos da antiga União das Repúblicas socialistas Soviéticas (URSS). Putin marginaliza a oposição, cala a imprensa, controla ou compra canais de comunicação. É complicado o povo russo ter acesso a fontes de informação que contem o que realmente acontece. Jornais independentes estão sendo comprados e seus editores substituídos. Os porta-vozes do governo dizem a mesma coisa, os mesmos bordões, os mesmos resultados. A estratégia de Putin é promover ataques pontuais e forjados aos líderes que se destacam. São poucos os cidadãos que leem e têm o senso crítico bem informado. Os cidadãos acreditam na imagem de perfeição de Putin, que apoia a sua gestão em 80%. Ele andava desacreditado, há alguns anos. Agora, com todas as leis contra protestos e com a onda de propaganda fascista, muitos russos voltaram a acreditar nele.


Comparando todos os paradigmas vividos em países socialistas, precisa os brasileiros abrirem os olhos. Paixão nacional não se nutre só de futebol, mas de consciência política, sem adesão a imoralidades. É preciso o povo não se deixar engabelar pela distribuição de pão e circo, arenas e pirotecnias eleitoreiras. Eu temo o silencio das ruas. O povo acordou, porém precisa despertar e vestir a camisa amarela do exercício da cidadania.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

UMA LINDA MULHER


UMA LINDA MULHER

Antonio Gallas

Não se trata aqui do filme americano “Pretty Woman” de 1990 dirigido por Garry Marshal que foi estrelado por Richard Gere e Julia Roberts, muito menos da canção do Roy Orbison “Oh Pretty Woman!” que serviu de fundo musical do referido filme. Mas trata-se mesmo de uma linda mulher que caminhou pelas ruas desta cidade abençoada por nossa Senhora da Graça, chamando a atenção de todos (isto é, daqueles que gostam, é claro,) por onde ela passava. Uma linda mulher daquelas que costumamos dizer, “de parar o trânsito”, “de fechar o comércio” ou “de fazer avião mudar de rota”. Um verdadeiro “pedaço de pecado ambulante” que no meu entender, se apreciar o que é belo não é nenhum pecado... E isso me remonta a duas grandes figuras que tive o prazer de conhecer: o professor Barreto, assíduo frequentador do Bar do Santana em Teresina e o nosso saudoso Balula declamador e orador eloquente. Professor Barreto quando se deparava com um desses monumentos exclamava alto e em bom tom: “caramba! Tem seu valor!... Já o nosso Balula com aquele entusiasmo que lhe era peculiar dizia: “que maravilha! Abriram as portas do céu!”“Deus soltou um anjo”! e arrematava: ‘se Deus fez algo mais bonito e melhor do que mulher, escondeu. Ficou prá Ele”...

Com essa linda mulher que transitou pelas ruas da nossa querida Parnaíba chamando a atenção de todos mantive um pequeno diálogo,, embora um diálogo não amistoso, mas tive o prazer também de ouvir sua voz. Foi mais ou menos assim:

Num desses feriados prolongados em que muitas pessoas buscam o litoral do Piauí pelas belezas naturais, pela tranquilidade e também pela amabilidade e hospitalidade de seu povo foi que conheci a dita cuja, ou seja, esta linda mulher. Vinha eu caminhando pela rua que dá acesso à Praça da Graça ( Monsenhor Lopes, salvo engano) pelo lado que dá acesso à Catedral quando saiu de uma daquelas lojas das galerias do Hotel Delta duas mulheres. Uma aparentando uns 30 e poucos anos, e a outra bem mais jovem. A mais velha é a quem me refiro nesta crônica. Parei um pouco e fiquei observando aquele belo espécime da autoria do grande Deus do Universo. Ela ao perceber indagou-me da seguinte forma: - Você nunca viu uma mulher na sua vida? De pronto respondi: muitas, mas com a sua beleza são poucas. Então ela retrucou: Você me respeite! Do mesmo modo respondi-lhe: - Não estou lhe faltando com respeito. Pelo contrário, estou lhe fazendo um elogio. Novamente ela retrucou: - Você é muito audacioso, seu insolente, vou dizer pro meu marido. Eu não me fiz de rogado e respondi na mesma pisada, em cima das buchas: - Pode dizer, mas tenho certeza que ele vai concordar comigo.

À essa altura dos acontecimentos a colega dela disparava em gargalhada. As duas saíram em passos apressados na direção da avenida Presidente Vargas e até hoje não sei se ela gostou ou não do elogio. Só ela, somente ela poderá esclarecer esta minha dúvida. Mas o certo é que uma linda mulher nunca deixa de ser um colírio para os nossos olhos. Esta apareceu apenas para somar com tantas outras que habitam a nossa bela e querida cidade da Parnaíba.      

domingo, 29 de junho de 2014

Seleta Piauiense - Everaldo Moreira Veras


Descer

Everaldo Moreira Veras (1937 - 2011)

A noite foi toda de desordem.
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
                       descendo
                       descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.

Nunca, nunca um homem desceu tanto! 

sábado, 28 de junho de 2014

Quem são os meus amigos?


Cunha e Silva Filho
         
                           À medida em que vou envelhecendo,  sinto a solidão dos amigos, e aqui  aludo até  mesmo  aos amigos mais  íntimos,  não aos colegas fortuitos, aos amigos de conveniências, aos de um dia, de uma semana, de um mês, de um ano,  de horas,  da infância (já quase apagados, tudo é penumbra,  que mais está para o fog inglês), aos amigos formais. Parece que a tecnologia,  o louco mundo contemporâneo,  das amizades virtuais,  dos facebooks, do telefone,  dos tablets e outros gadgests está  substituindo, parcamente,  é claro,  as grandes amizades. Considero que o verdadeiro amigo  é aquele com  quem se pode   desabafar,   dizer verdades  e até mesmo   soltar uns palavrões. Amigos que se encobrem de formalidades não são  verdadeiros amigos.
                            Eu sei que estou  sendo  duro  com  o desenvolvimento do tema  desta crônica, mas não me conformo em absoluto com  a falta do sentimento mais puro  e  incondicional. Na vida social, todos são “amigos,” até os estranhos  muitas vezes chamamos  de “amigos.” O sentido genuíno, nobre,   solidário,  preciso,  afetuoso, a amizade livre  que não tem receio de errar diante de um grande amigo, é esta que me  faz falta no mundo  atual. Estou cansado de expressões  meramente  corteses: “meu amigo”, querido amigo”,  ”um abraço do amigo etc.”   Elas só valem  pelo significante, é incompleta na inteireza semântica, na verdade íntima, não vai ao  “eu profundo” dos simbolistas.
                        Da infância para adolescência, desta para a vida adulta e da vida adulta para a velhice  vamos  acumulando um monte  de perdas de amigos, que se afastam, somem nas multidões. Sei que a vida presente é um frenesi,  um açodamento, uma correria,  um pensar em si mesmo,  e, então,  os outros, vão sendo deixados para trás,  até serem  definitivamente   esquecidos pelo  animal social.
                           A corrida para o sucesso,  para a sobrevivência,  para o que dá mais  lucro e conforto são fatores  agravantes da  fragmentação  do indivíduo.  E é nessa  corrida que as promessas  se vão  esfacelando. A passagem  da existência terrena é  mesmo  escassa de grandes amizades. O tempo urge. Os compromissos inadiáveis na agenda do  individualismo  estão acima  do sentimento  lídimo da amizade. Para  o nosso  pequeno mundo,  passageiro  e curto,  temos todo o tempo do mundo. E isso vale para pai, filhos,  netos,   parentes em geral.  Háquem me diga: “Mas você não me procura, não me telefona, não me  escreve, anda sempre sumido...”  Não,  não sou eu que não escrevo, não sou eu que estou sumido,  é a amizade que está fenecendo. E este fenômeno  social abarca não só os que não são parentes, segundo falei atrás,  mas todos socialmente   considerados.
                 Há quem  fale de uma amizade  que me decepciona    em especial:  a amizade  que chamo de “interessada.” Não é uma amizade  de verdade,  ela vive das aparências  e da hipocrisia; é plena de    carinhos,  atenções,  bajulações. Não se sustenta na verdade dos sentimentos,  conserva-se sob o escudo  das exterioridades, das superfícies, do faz de conta. O seu motor  propulsor, o seu dínamo se alimenta  da fachada, do postiço, do irreal. Seria como uma amizade “comprada.”   Ela dura enquanto dura o interesse maior  interpessoal  mediado pelo fetiche do dinheiro  e  do poder  econômico-financeiro.Seu passaporte é o prestígio financeiro de um dos lados, o lado mais forte, que é o capital, a conta corrente gorda e verdadeira fábrica  de amizades  de fancaria.
Talvez,  uma  única saída para  essa carência é cultivar a solidão  da arte, do artista,  do nosso mundo  íntimo e profundo.Que me seja  consolo  a seguinte admirável  passagem de um texto do crítico  Álvaro Lins (1912-1970),  autor que tenho  ultimamente tanto lido por injunções  de pesquisa e pelo prazer de seus  textos: “Porque é um solitário  é que o artista constrói um universo de imagem onde possa introduzir as raízes mesmas do seu ser.Porque é um artista é que um homem tem  que ser solitário, porque somente na solidão a arte existe.” (LINS, Álvaro. Teoria literária. Rio de Janeiro: Edições de Ouro,  1970, p. 109).
         A pergunta do título desta crônica não é um mero  jogo   retórico, mas a constatação da experiência de quem  viveu mais do que  tantos que já se foram, alguns ainda tão cedo. A sociedade,  capitalista, ou não capitalista,  dos nossos tempos  é que nos empurra  para a solidão e perda das amizades feitas ao longo  da vida.Todos, ou quase todos,  estão  pensando mais no seu próprio umbigo,  na sua aventura  pessoal e no seu  hedonismo  intransferível. Só as aparências valem, combinadas  harmoniosamente – quão lamentável! - com o dinheiro e a conquista  pessoal, o culto  à beleza  da juventude e  a obsessão  pelo aqui e agora. Amizade, família   pais  ficam  para trás. Que fosso tão profundo existe entre novos e velhos, entre a alegria  do primado do presente eterno e efêmero e a solidão  dolorida  da experiência a caminho da eternidade, vista esta em todas as suas formas  de  expressão  e busca pelo  sentido  do tempo e da existência. Volto à pergunta inicial: Quem são os meus amigos? Quereis, leitor,  a minha  resposta? Não vou  dizê-la. Deixo-a em aberto. Muitas vezes,  prefiro a ambiguidade à clareza sob o manto opaco da  hipocrisia: uma  realidade digna da ficção  machadiana.   

sexta-feira, 27 de junho de 2014

POEMA DA MULHER AMADA


POEMA DA MULHER AMADA

Elmar Carvalho

Amada mulher fatal
o teu amor embora servido
em pequeninas doses é letal
mas eu o tomo lentamente
como um néctar de veneno
em longos e lentos goles (sereno)
como ópio em lenta mente

Mulher amada o teu amor
conquistador e guerreiro me toma de assalto
e nem me deixa a oportunidade
de esboçar o meu espanto
e ensaiar o meu sobressalto
de acrobata perdido em pleno salto
                                         mortal
mas que antes de um desfecho trágico
como que por milagre se salva
entre magia sortilégio e quebranto
pelo gesto carismático de um mágico

Amada mulher fatal
o teu amor devastador
não me deu a chance de optar
entre te querer ou não querer     

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Memorial Chico Pereira e Museu do Couro


Encontra-se na Oficina da Palavra o Dossiê de Tombamento municipal do Sítio Rocio, juntamente com um requerimento e abaixo assinado para encaminhamento à Prefeitura Municipal de Campo Maior.

É a tentativa para instalar-se nesse sítio o Memorial Chico Pereira e o Museu do Couro.     

terça-feira, 24 de junho de 2014

IMPRESSÕES DE VIAGEM


Edmar Oliveira

Uma amiga perguntou pelo Piauinauta, que não sai há quase um mês, e eu falei que estava enrolado com o lançamento do meu TERRA DO FOGO em Teresina e que tinha de ficar lá por uns dez dias. Ela então falou: “sei, você está de licença paternidade”.  Acertou assim.

Cheguei para o “Sarau dos Amigos do Cinéas” na Oficina da Palavra, onde o livro foi muito bem recebido. Passei toda a semana indo ao stand do Leonardo, que tem editado livros de escritores da terra (muito bem caprichados), autografando o TERRA DO FOGO, que por sinal esgotou o estoque de lançamento. Eu e Salgado Maranhão fizemos um bate-papo literário discutindo o meu livro e o dele (MAPA DA TRIBO) para uma plateia de cinquenta a sessenta pessoas às oito horas da manhã, o que me surpreendeu. Geraldo Borges estava lançando ESTAÇÃO TERESINA anunciado aqui no Piauinauta anterior.

Boas conversas com Paulo Tabatinga, Gisleno Feitosa, Rodrigo Leite, Durvalino Couto, Feliciano Bezerra, Wellington Soares, Cinéas Santos, Graça Vilhena, Paulo Vilhena, João Carvalho, Fonseca Neto, Alexandre Carvalho, Gilson Caland, Climério Ferreira e Helô, Keula Araújo, Luana Miranda, Poeta Willian, a muito jovem e bonita escritora Fran Lima, Deusdeth Nunes e a turma do Conciliábulo, entre tantos outros que tive por bem encontrar. Fui entrevistado por várias emissoras de rádios que cobriam o evento, entre elas a de Marcos de Oliveira e a de Leide Sousa. E ainda deu tempo gravar um depoimento sobre o cinema marginal dos anos 70 para Patrícia Kelly e Morgana, que fazem um documentário como monografia do curso de história e jornalismo. As meninas são brilhantes. E eu estou tão velho que virei pesquisa. Mas é bom ser reconhecido.

Tinha tudo pra ficar contente. Mas não fiquei.

Me hospedei no Hotel Central, em frente ao Club dos Diários, ao lado da praça Pedro II e seu Teatro 4 de Setembro, complexo que foi outrora o centro pulsante e cultural da cidade. Após cinco dias fui para a casa do meu irmão Maioba angustiado pela solidão. A cidade entre os dois rios, que se estendia do encontro de suas águas no Poty Velho até a Vermelha (citada no filme genial do Torquato Neto) não existe mais. Foi definitivamente abandonada por seus habitantes que atravessaram o Rio Poty e ergueram uma cidade moderna na zona Leste. Mas que não tem nenhuma lembrança da minha cidade.

A minha cidade é uma cidade fantasma. Os poucos e pobres habitantes que ali ficaram não saem de noite nas suas ruas escuras com medo de assalto. Trancam-se em suas casas. Os de mais posses fazem cercas elétricas para protegerem a sua solidão. As ruas foram entregues ao drogados, aos desocupados que ocupam uma cidade sem lei e sem ordem. Em suas ruas desertas, mesmo ao meio dia, encontrei duas pessoas usando drogas. Não senti qualquer medo. Eram pessoas que eu conhecia da minha infância naquelas, outrora, ruas agitadas. Agora estavam os dois usando drogas numa cidade trancada com medo deles. Esquisito. Conversamos sem medo entre nós. Eu não me senti ameaçado por eles. Fiquei com pena de a cidade os terem tragado pela fumaça de um inexistente futuro.

Sem querer contrariar os meus anfitriões do Salão do Livro do Piauí (SALIPI), até entendo os seus motivos de o terem tirado da Praça Pedro II para que acontecesse este ano na Universidade Federal, que também fica na Zona Leste da nova cidade. Mas não concordo.

Desculpem, mas penso que a cultura abandonou também a cidade antiga. Não digo que ficou elitista porque a Universidade pública congrega estudantes de todas as classes. Mais ainda com o sistema de cotas. Mas acho que a cultura abandonou também a cidade antiga. É preciso que analisemos este fato mais devagar. Não vou fazer agora.

No livro que em Teresina fui lançar conto uma história triste que a cidade tinha esquecido. Os incêndios dos anos 1940. Acho que em breve um cronista vai contar essa história, também muito triste, do abandono da cidade antiga. A impressão que eu tive, e que me encheu de tristeza, é que ela não mais existe. E uma cidade sem passado é uma cidade sem futuro.      

sábado, 21 de junho de 2014

ALGUNS HAICAIS


ALGUNS HAICAIS

Elmar Carvalho

SIMBIOSE AMOROSA

Eu te amo
para que me ames
e eu te ame.

ASCENÇÃO

A chuva caía
e em cada pingo dizia:
Saiba cair.

TROVÃO

Nuvens novas
brincando de soltar
tiros de foguete e rojão.

AMOR

Arte de possuir
na mesma medida
em que se é possuído.

CHUVA

Bênção dos céus
debulhada em bagos
d' água.

RELÂMPAGO

Nuvens novas
a brincar com
fogos de artifício.