quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

GÊNESE DOS MEUS “POEMAS INÉDITOS”



24 de dezembro   Diário Incontínuo

GÊNESE DOS MEUS “POEMAS INÉDITOS”

Elmar Carvalho

Faz poucos dias publiquei em meu blog o ensaio Elmar Carvalho – poemas inéditos, em que o arguto e percuciente crítico literário Cunha e Silva Filho, pós-doutor em Literatura Brasileira, comentou os poemas que enfeixei na seção Poemas Inéditos de meu livro Lira dos Cinqüentanos. Estimulado por essa matéria, passarei a falar sobre a gênese desses textos, na esperança de que isso tenha algum interesse literário, mormente para os raros leitores de poesia.

Durante muitos anos desejei escrever sobre chuva, fenômeno natural que me dá a sensação de uma maior proximidade de Deus, sobretudo quando escuto os trovões longínquos, de sons graves, cavernosos, como saídos das entranhas da terra. Imaginei fazer um poema um tanto longo, com metáforas e onomatopeias, imagens de barcos de papel, rumores de pingos d’água e coaxar de sapos, além de outros ingredientes. No já distante ano de 2002, na cidade de Ribeiro Gonçalves, finalmente o escrevi. Após longa viagem, em ônibus da Princesa do Sul, cheguei a essa cidade numa manhã chuvosa. Fui da agência até o prédio do fórum debaixo de um chuvisco. Choveu durante a semana toda, sem tréguas. Eu morava e trabalhava nesse edifício da Justiça. Com o frio e o dedilhar da chuva no telhado, além da infindável cantoria dos batráquios, de diferentes ritmos e tonalidades, com sopranos, barítonos e tenores, escrevi o poema no dia 13 de janeiro do referido ano. O texto contém todos os componentes citados e outros. Mais de década após, ainda sinto com intensidade a lembrança dessa semana tão pluviosa, em que passei o sábado e o domingo trancado no fórum, em solidão digna de um asceta, e não de um poeta.

Canção pastoril de um urbanoide foi esboçada na rodoviária de Uruçuí, em um guardanapo de papel, que peguei na lanchonete. Muitas vezes, antes de a cidade ter a sua estação rodoviária, eu passeava pela cidade, enquanto aguardava a saída do ônibus. Andava pela praça da matriz de São Sebastião e me dirigia até a margem do Parnaíba, de onde eu contemplava, do outro lado, a cidadezinha maranhense de Benedito Leite, então ainda acanhada e bucólica. Via, à boca da noite, as estrelas fulgurando no infinito. Como eu me encontrava em trânsito, pois viajava de Ribeiro Gonçalves a Teresina, via a paisagem dos cerrados e as grandes roças de soja, e delineei o contraste entre uma vida bucólica e pacata e a vida agitada de uma cidade grande. Às vezes via grandes bandos verdoengos de periquitos e ouvia a sua algazarra festiva, e outras vezes me sentia saudado pelo canto mavioso do sabiá do poeta.

O poema Guernica, embora não tenha sido feito sob encomenda, coisa que nunca soube fazer, de certa forma foi escrito por influência do professor Manoel Paulo Nunes. Certa feita ele me pediu para organizar uma espécie de pequena antologia de poemas de repulsa às guerras, para publicação na revista Presença, editada sob sua responsabilidade, em virtude de ser o presidente do Conselho Estadual de Cultura. Escolhi os textos, de diferentes autores, e como eu desejasse participar dessa coletânea me determinei produzir o meu Guernica, que já era um projeto antigo, mas que nunca tive o ensejo de realizar. Para fazê-lo me baseei, sobretudo, nas imagens do filme O Pianista, que mostra toda a miséria e crueza de uma guerra, mormente a desorganização do abastecimento e da vida civil, fora a dramaticidade das relações sociais, com doenças, fome e morte.

O deputado Humberto Reis da Silveira, que foi um excelente amigo, me contou a história de um palhaço eslavo, que morrera e fora sepultado em Jaicós, sua terra natal, muitas décadas atrás. Imaginei como seria a vida de uma pequena cidade do semiárido naquela época. Pensei na ironia do tédio de um palhaço no ostracismo de uma urbe pacata e insulada nos sertões do Cabrobó, uma vez que sua profissão se destina a proporcionar a alegria da plateia. Sem dúvida esse clown deveria viver saudoso de sua frígida terra, a sentir o bafo da canícula sertaneja. Associei esse artista à mortal melancolia do palhaço do poema de Heine, e lhe dei a necessária dramaticidade. Portanto, o meu texto nasceu da história contada por Humberto Reis, que por sinal era um grande leitor e admirador da melhor poesia piauiense.

Da janela do apartamento, em Parnaíba, eu via uma fileira de grandes árvores, semelhantes a pinheiros. O dono da casa em frente os plantara para formar uma espécie de empanada, que impedisse a visão de sua piscina. Eu não gostava dessa situação, porque isso me impedia de contemplar a paisagem ao longe, principalmente as dunas e as palmeiras. Mas, ante o inelutável, tentei admirar a beleza dessas plantas. Passei a vê-las como flexíveis bailarinas, dançando ao sabor do vento, em suaves requebros e meneios. Também as via como altos mastros e velas. Simulava um veleiro, no qual eu navegasse pela magia da imaginação. Por vários meses tentei elaborar um poema que retratasse o que acabo de pintar, mas a musa se mantinha arisca e arredia, por mais que eu a cortejasse. Um dia, ao tomar alguns goles de cerveja, a contemplar com paciência essas árvores, o poema me surgiu de forma dócil e integral, e quase não precisei retocá-lo.

Entre os poemas inéditos [em livro] havia dois antigos, ainda do final da década de 1970: Autoantropofagia e Simbolismo. O primeiro, mantive-o íntegro, tal como o escrevi originalmente, mas fiz duas ou três pequenas modificações no segundo. Autoantropofagia é um texto dito engajado, de conteúdo político, social, mas muito sintético, e que contém algo dos chamados poemas piadas, em que tentei cultivar meu senso de humor. Na verdade ele seria o paroxismo da fome e da autofagia. Já Simbolismo é mesmo o que o título indica; é um poema simbólico, cheio de imagens, mas revestido de pequena dose de surrealismo.

Creio que tentei escrever o Teia de Te(n)tação no começo dos anos 1980, quando ainda morava em Parnaíba. A ideia era colocá-lo em camisas de meia, que seriam vendidas para custeio de um projeto cultural, do qual já não me recordo. Mas a pessoa que faria o trabalho de silkscreen não levou à frente o seu projeto, e eu terminei perdendo o texto. Muitos anos depois, suponho que em 2006, o reescrevi. Conquanto seja um poema discursivo, que bem pode ser recitado, contém recursos do concretismo, em que os negritos e os parênteses provocam polissemias e duplos sentidos, mormente te(n)tações e ações libidinosas provocadas por belas e empinadas tetas.

No meu livro Confissões de um juiz expliquei a origem do poema A um ganancioso morto, e por que o escrevi. Por comodidade e para não me repetir, transcrevo o que foi dito em Confissões:

“A caminho de Várzea do Simão, à beira da estrada, sempre procurei ver o túmulo de um homem que fora muito rico, mas que parecia insaciável, sempre desejoso de mais terras, algumas delas, segundo comentavam, adquiridas de forma ilegítima, através de logro ou fraude.
Durante muito tempo ele tentou conseguir uma pequena gleba pertencente a meu sogro João Rodrigues, dito João Simão. Chegou a simular uma falsa diligência policial para pressioná-lo a assinar um documento que ele forjara, mas o velho, por insistência de sua mulher, dona Filomena, não o assinou. Ante a negativa, ingressou com um processo judicial contra o pai de minha mulher, que demorou muitos anos, até meu sogro vencer a lide, através de seu advogado Luís da Graça, que ainda cheguei a conhecer.
Eu via o túmulo e ficava a meditar na ambição de certas pessoas. Aquele homem desejara terras e mais terras, e finalmente poucos palmos de terra lhe eram mais do que bastante. Nascemos sem nada trazermos, e quando morremos nada podemos levar, para onde quer que possa ir a nossa alma imortal, segundo acredito.
Nas audiências assistia a muitas discussões por coisas miúdas, por pequenas importâncias, por parte de pessoas que bem poderiam passar sem esses bens, sem essas moedas. Embora eu reconheça ter certa habilidade para mediar as conciliações, entretanto vi muitas vezes um acordo deixar de ser feito por intransigência, por birra, por ganância, por apego demasiado aos metais.
Por causa dessas reflexões e meditações, escrevi o poema A um ganancioso morto. Mandei fazer um belo banner com este texto e uma pertinente ilustração. Emoldurei e o afixei nas salas de audiência dos fóruns de que fui diretor, com o objetivo de predispor as partes aos acordos, às transigências, ao desapego de bens materiais.”

Por fim, falarei do poema Viagem. Ele, como o nome sugere, foi estimulado pelas dezenas ou centenas de viagens que fiz, nos 17 anos em que exerci a magistratura em cidades interioranas. Sempre gostei de contemplar o céu da janela dos ônibus em que viajei. Nesses deslocamentos ruminava algumas ideias para a concepção desse texto poético. Mas ele é fruto também de pesquisa, das várias leituras que fiz sobre astrofísica e mecânica quântica. É uma viagem do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, das abissais profundezas oceânicas às vertiginosas refulgências do espaço sideral.


Com muita propriedade observou Cunha e Silva Filho, com cuja “chave de diamante” encerro este registro metapoético: “No último poema da seção “Viagem”, o poeta, mais uma vez, escreve um longo e denso trabalho de dimensão cósmica, universal. Poema abrangente, de andamento épico - recurso por ele já testado com sucesso mais de uma vez – no qual o sujeito lírico empreende uma “viagem” que vai dos elementos minimamente divisíveis da matéria física, dos átomos, dos minúsculos recantos da natureza animal, vegetal e mineral, das superfícies da Terra às profundezas oceânicas, da solidão do nosso planeta às culminâncias planetárias, do profano ao sagrado, da realidade histórica aos mitos. Não satisfeito, o poeta adentra o universo misterioso e encantatório da astrologia, criando magníficas imagens para cada signo do Zodíaco.” 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

DAS AMIZADES PERDIDAS


DAS AMIZADES PERDIDAS

Cunha e Silva Filho

                                              
                                             [...]  
                                  Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
                                  O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
                                  A mão que afaga é a mesma que apedreja.
                                                         [..]
                                  Augusto dos Anjos,  Eu e outros  poemas
                                                       

        Poder-se-iam  citar a  mancheias as causas  das perdas das amizades. Não vou esgotar o tema,  principalmente porque este não é objetivo  dos comentários que farei neste artigo (crônica, sei lá, chamemos apenas “texto” para ficar  ao lado do poeta, tradutor,  ensaísta e crítico  José Paulo Paes (1926-1998).
        Menciono algumas is facilmente me   à tona, a que se situa no domínio da política, da literatura e mera convivência social, a que pode  estar no condomínio de um prédio,  no açougue,  na loja, na banca de jornal, no trabalho,  na família, entre familiares, nas instituições  culturais, nos clubes   nas academias  de letras e assim por diante.
       Vejamos a primeira, que é muito comum em nosso pais  e desde tempos bem recuados quando, numa cidade do interior,  dois partidos  dividem  as ambições de assumir a liderança  política local. Inúmeros são os desdobramentos  que de ordinário  surgem em meio às refregas: as famílias da situação e as da oposição  se tornam  inimigas,  por vezes chegam às vias de fato,  por vezes  cometem  desatinos entre si e até ao extremo de  cometer  atos  in desejáveis, como crimes.
     No campo amoroso,  membros das famílias não podem  namorar outros cujos pais lhe são  desafetos políticos. Daí pode  ressurgir, em alguns casos,  tragédia do tipo  Romeu e Julieta,  de William  Shakespeare (1564-1616). Nos anos 1920, 1930, 1940 1950, só para dar  um recorte no tempo,   eram  comuns  familiares  se tornarem  inimigas  quando  seus membros  escolhiam  seguir a  carreira política e se candidatavam a cargos eletivos, prefeitos,  deputados, vereadores. A política no  interior desse mesmo  país, pelo menos  antigamente, assim me contava meu pai,  começava a ser assunto mesmo entre   crianças, de adolescente, os quais  discutiam  suas posições, naturalmente  influenciados pelos adultos.
        Para espíritos muito  inclinados à política  militante,  não necessariamente aquela  voltada para  exercer  mandatos, e meu pai era um exemplo disso,  o fato   era bem  observado  pelos adultos.
    Uma tia-avó materna, a Aurora Cunha e Silva, há muito falecida, a quem chamávamos  carinhosamente de tia Lolosa, professora  primária  muito  respeitada na época em que  lecionou em Amarante, PI, e em Teresina,  certa feita me fez um comentário:  “Não sei, Francisco,   como você  não é chegado à política, seu pai foi, desde bem jovem,  tão interessado por   política, e você não me parece gostar  da discussão política”
      Razão tinha ela,   pois meu pai foi  tão um    jornalista  visceralmente político a vida inteira. Olhei para ela e apenas lhe sorri, sem lhe dar uma resposta   nem lhe apresentar argumento algum.
      Isso ficou  na minha  cabeça por muito tempo.  Só com a maturidade me veio  o interesse  político,  não para  ingressar  na política, mas como  campo de  análise, de discussão,  de reflexões  que me levaram logo a  escrever sobre assuntos,  os quais não eram  estreitamente  de cunho  político, no sentido técnico, de aprofundamento nas questões fundamentais  da vida política nacional, contudo estavam  muito  intimamente   conexionados com ela.Ou seja, os problemas que diziam  respeito  à vida do brasileiro, da nossa sociedade começaram a me  chamar a atenção e se tornar  até   temas  recorrentes  meus, o mesmo se estendendo para a situação  do mundo  político internacional, que passou a ser  objeto de minhas   discussões em jornais do Piauí e, depois,  em  meu blog “As ideias no tempo,”   sempre que  afetavam   as condições  injustas  vividas por países tanto das Américas  quanto do mundo em geral.
   Em resumo,  a opção minha  de estimar  o debate político visando à defesa de minhas ideias e posições me custou  a perda de amizades que  supostamente  pensava que fossem verdadeiras,  visto que, quando são genuínas,   profundas,  elas não se   acabam   meramente  por  motivos  ideológicos, os quais – com somos tolos! -  não vão beneficiar nem a mim nem as minhas amizades  perdidas.
    O único beneficiário das polêmicas  entre  contendores é o próprio sistema dominante ou a oposição,  ambos, ao contrário dos humildes  discutidores  de política, ao final e ao cabo,   só lucrando com isso, ao receberem seus votos. Os briguentos – cá no espaço anônimo e  terra-a-terra – de lucros  só tiveram  prejuízos e a perda da amizade. Confuso mundo o nosso.
   Na  perda da amizade por motivações  literárias, o país tem uma longa tradição, sobretudo nos anos 1940, período em que  pipocaram  inúmeras combates nos jornais, muito acirrados dividindo escritores a favor ou contra  determinadas práticas  de visões literários. O  mais célebre, a meu ver, foi o travada entre o crítico Álvaro Lins (1912-1970) e o crítico  Afrânio Coutinho (1911-2000),  ambos  com  propostas  de militância  na crítica  inteiramente  diferentes, o que redundou  em  discussões  violentas entre eles, sobretudo  da parte  de Afrânio Coutinho, espírito mais    apaixonado  pelos seus ideário de   abordagem  do fenômeno literário, sobretudo  porque  Coutinho  almejava atingir um  alvo: o de  desalojar  da liderança  da crítica de rodapé o  famoso  autor de Os mortos de sobrecasaca(1963)
       Em várias obras, debatendo os seus pontos de vista no tocante à judicatura crítica,  Coutinho defendia   a crítica universitária,  através da qual  os estudos  literários poderiam  encontrar o seu locus  principal  de desenvolvimento  e de atualização  dos estudos  literários entre nós. Afrânio Coutinho saiu, de certa maneira,  vencedor; Álvaro Lins, desgostoso,  foi aos poucos se afastando  dos meios literários,  inclusive da Academia Brasileira de Letras de que era ilustre membro. Para ainda piorar sua vida de escritor, ainda morreu  antes de completar sessenta anos. A polêmica entre os dois  foi  o núcleo central  de minha pesquisa de pós-doutorado na UFRJ concluída em  2014.
       Mesmo tendo pessoalmente me  envolvido em curta polêmica no Piauí,  deploro certos arroubos das polêmicas sobretudo um lado que reputo deplorávael: os ressentimentos  que deixam marcas e que, a meu ver,  só prejudicam  o conjunto da vida literária entre pessoas que,  de outra forma,  poderiam  até, quem sabe,  terem feito boas amizades a fim de  tocar a marcha dos estudos da literatura  em nosso país. Para a literatura, sobretudo quando entram em jogo a objetividade  e seriedade da vida acadêmica,  o uso das citações  bibliográficas tendem a  subtrair  as obras de nossos   inimigos  no campo  teórico e vice-versa, o que é uma perda e um desserviço à mentalidade imparcial que deve presidir  o  trabalho acadêmico. Essa situação assim criada se me afigura uma violência, espécie de  tácita e desonesta   obnubilação do  espírito científico   na investigação  acadêmica. Espécie, em suma,  de crime capital  que ainda grassa  no meio  intelectual  e universitário brasileiro. 
    Quanto às inimizades convencionais que possamos  ter ao longo da vida,  elas também  não trazem  nenhuma vantagem a nenhuma das partes, malgrado reconheçamos que   algumas delas  devam  se manter no  ponto  em que as deixamos  por  absoluta incompatibilidade entre as partes. Outra podem ser refeitas, dependendo dos condicionamentos   que as geraram, os quais, podem, de repente,  por uma circunstância ou outra, se reabilitarem.     

     Porém, é muito pouco provável que haja reconciliações entre as pessoas, dado que o ser humano  é imprevisível,   rancoroso,   preferindo não abrir a guarda,  a qual   seria  a possibilidade da  volta da amizade.  Repito: é quase impossível  que as amizades  perdidas  refaçam o caminho da volta, tão necessário à vida em sociedade, à vida comunitária. A realidade, todavia,  é outra e nada tem a ver   com as nossas  específicas  subjetividades  tão arraigadas estão  ao  nosso  universo afetivo interior ultrajado.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O FIEL DE JUNQUEIRO


O FIEL DE JUNQUEIRO

Jacob Fortes

Em linguagem ornada de eruditismo robusto, portanto de difícil assimilação por quem se houve em leituras fortuitas, o escritor Guerra Junqueiro (1850 – 1923) narra, por meio do soneto intitulado “O FIEL”, a comovente história de um cão que vivia nas ruas e delas retirava o seu sustento. Aliás, as ruas, no dizer do escritor “João do Rio”, são “a mais niveladora das obras humanas”. É que as ruas tudo admitem: o bem e o mal, o evangelho e o crime. As ruas são igualitárias, socialistas, agasalhadoras, ignoram a erudição, transformam o significado dos termos, criam o chulo e o baixo calão, impõem aos dicionários as palavras que inventam. Mas voltemos ao cão, do Abílio Manuel Guerra Junqueiro; a dissertação das ruas fica para 2016.

Era um reles cão, sem coleira, acostumado ao vento e ao frio.  Para alimentar-se garimpava sobejos nas lixeiras e monturos. Durante as chuvas fortes ou frios rigorosos, abrigava-se nos portais, nos vestíbulos, mas ao menor ralho levantava-se e saía — envergonhado — pedindo desculpas, com os olhos, por haver ocupado um lugar que não lhe pertencia. Inofensivo, jamais mordera uma criança indefesa, sequer ladrara com quem quer que fosse mesmo com os molambentos de sujidade sem par. Porém, não faltava quem o fizesse correr à pedrada.

Certa feita um mísero pintor, boêmio, deparou-se com o solitário cão. Ao vê-lo, de olhar plácido e acolhedor, disse-lhe o pintor: — "O teu destino é quase igual ao meu, eu sou como tu és, um proletário roto, sem família, sem mãe, sem abrigo, e quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto, eu não irei achar o meu primeiro amigo? Tu és o meu amigo e eu sou o teu irmão; partamos, pois, juntos. O sofrimento a dois minora a dor”.

Depois de anos ombreados, dividindo, por igual, privações e dores, o pintor, por obra desses acasos agenciadores de bons e maus sucessos, fora contemplado com a glória, que o libertou da miséria.  Ambos, libertos de tantas vexações, passaram a desfrutar de vida lauta. O cão dormia em confortável tapete à borda do leito do pintor. Ao despertar, de manhã cedo, cuidava de acariciar festivamente o seu amo. Mas o pintor, inebriado de abastança, desandou pelos caminhos da luxúria, das paixões e da esbórnia, circunstância que o afastava cada vez mais do seu leal rafeiro, de quem, aliás, já não tolerava as carícias, aborrecíveis. A indiferença do pintor imprimia ao cão um sentimento de desgosto, cujos olhos, lânguidos e doces, se tornavam melancólicos ao feitio da melancolia da imensidão oceânica. Velho, preterido e negligenciado, muitas vezes se via castigado, até batido pelos criados que lhe davam pontapés quando se punha a ganir chorando o seu destino. Por se haver nojento e pelos em queda, o dono impunha-lhe a detenção para que não o acompanhasse às ruas. 

Certo dia, pressentindo a morte disse a si: "Não morrerei sem antes despedir-me do meu amo; quiçá seja em seus pés o meu último gemido”. Ao meter-se no quarto do pintor, este bradou colérico contra o cão.
— Que fazes aqui, ó sórdido animal? Hei de pôr fim à tua impertinência!
Mas, simulando amizade, consertou.
—Ó meu pobre fiel, tão velho e tão doente, acompanha-me, ainda que te custe.

E partiram os dois, no breu da noite, em direção ao cais, que ficava perto.   Aquele proceder, àquela hora, inspirou no cão um pressentimento nefasto. Enquanto o cão, pensativo, lançava o olhar sobre as trevas mudas recebia à face, com a imperturbável amargura do Nazareno, ósculos de Judas. E, resoluto, disse a si: “se este é o meu fadário pouco importa, foi ele que me abriu um dia a sua porta; morrerei se lhe dou com isso algum prazer.". Subitamente o pintor arremessou o cão nas águas profundas e geladas, mas junto, se foi o gorro de memoráveis recordações. De regresso a casa o pintor exclamava irado: “Por causa do cão perdi o meu estimado adereço, antes o tivesse envenenado; daria riquezas a quem pudesse reaver o meu gorro”.  Deitou-se, mas, inquieto, manteve-se insone durante o resto da noite pensando no gorro. E quando o clarão da manhã já era vívido ouviu bater à porta. Ergueu-se e foi abrir. Cheio de espanto recuou: era o fiel cão que voltara: arquejante, exânime, encharcado, a tremer, trazendo à boca o gorro do pintor. E tendo, com esse gesto, erguido para si o altar do sacrifício apenas tombou desfalecido! No plano terreal imolara as suas ilusões, mas restava o amparo da Celestial luz Santíssima.

Essa história de Junqueiro, real ou fabulosa, levará o leitor, inexoravelmente, a muitas ilações acerca da natureza dessas duas espécies que Deus engendrou e fixou sobre a terra: o homem e o cão.   

domingo, 20 de dezembro de 2015

Seleta Piauiense - Da Costa e Silva


A ARANHA

Da Costa e Silva (1885 - 1950)

Num ângulo do teto, ágil e astuta, a aranha
Sobre invisível tear tecendo a tênue teia,
Arma o artístico ardil em que as moscas apanha
E, insidiosa e sutil, os insetos enleia.

Faz do fluido que flui das entranhas a estranha
E fina trama ideal de seda que a rodeia
E, alargando o aronhol, os elos emaranha
Do alvo disco nupcial, que a luz do sol prateia.

Em flóculos de espuma urde, borda e desenha
O arabesco fatal, onde os palpos apoia
E, tenaz, a caçar os insetos se empenha.

Vive, mata e produz, nessa faina enfadonha;
E, o fascinante olhar a arder como uma joia,
Morre na própria teia, onde trabalha e sonha.

sábado, 19 de dezembro de 2015

No Caminho de Volta pra Casa Ninguém se Perde


No Caminho de Volta pra Casa Ninguém se Perde

José Pedro Araújo
Cronista e historiador

Vivi menos de quinze anos na minha terra, na minha querência, dos mais sessenta que tenho hoje. No mais, minha convivência com o velho Curador tem sido menor do que eu desejava. A necessidade de batalhar pelo pão de cada dia me levou para longe da singeleza que tanto aprecio, lugar em que vi a claridade do sol pela primeira vez.

Todavia, mesmo para passar fugazes momentos, começo a sentir aquele friozinho gostoso na barriga desde o dia anterior ao da partida. Aliás, preciso fazer um parêntese aqui para justificar porque uso tão frequentemente o nome Curador no mais das vezes em que me refiro à terrinha. Querem mesmo saber? Porque tem maior sonoridade, é mais palatável, deixa sabor na língua. Acho-o mais poético até. Sinceramente, experimentem falar Presidente Dutra ao se referirem à terra querida. Depois, empreguem o termo Curador. Sou de Presidente Dutra. Sou do Curador. Gosto mais da segunda frase. Entretanto, não discuto com quem ache o contrário. Trata-se, apenas e tão somente, de um jeito de ver as coisas, de sentir gosto ao pronunciar o topônimo das duas maneiras. Já quanto ao gentílico, tenho dúvidas se presidutrense não é mais gostoso de pronunciar do que curadoense. Mas, voltemos à estrada que trafegávamos antes de investir por este atalho.

Falei que já sinto um friozinho leve na barriga ao se aproximar o dia da minha viagem à minha querência. Esse sentimento aumenta à medida que ultrapasso os chapadões de Caxias e começo a ver os coqueirais de Codó, ali bem antes do Dezessete. Notem que estou trafegando pela estrada habitual e de melhor condição, a BR-316. Em Peritoró então, já me sinto em casa. Pouco mais de uma hora depois já avisto a torre da matriz de São Sebastião, ai então o friozinho se transforma em pura adrenalina. A alegria de voltar para casa me faz entrar em profundo êxtase, em um estado de felicidade total.

Certo pensador inglês, George Moore, cunhou a seguinte frase: Um homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta a casa para encontrá-lo. É como me sinto ao voltar para casa. Tal alegria só encontro lá. Caminhar pelas ruas da cidade é como reviver um passado que sempre teima em voltar à memória. Sinto-me andando pela minha casa de morada. Não preciso da claridade para andar firme e seguro pelas ruas por onde sempre andei, corri, tropecei e aprendi a me erguer a cada tombo.

Estar com os meus, abraçar a minha mãe e os meus irmãos e amigos, é um aditivo a mais nesse alegre exercício de voltar no tempo. Claro, a falta que meu pai me faz, não pode ser substituída por nenhum outro sentimento. Do mesmo modo, sinto a falta daqueles parentes e amigos que já nos deixaram. Consolo-me ao adentrar em  alguma das casas onde moraram. Requer forças redobradas para impedir que as lágrimas me toldem os olhos. Somos recompensados com a imagem dessas pessoas nas fotografias pregadas nas paredes ou postadas sobre os móveis na sala. Sei que eles ainda estão ali, em espírito, mas, estão e sempre estarão.

Tenho procurado, nos últimos anos, conviver diariamente com as coisas do meu querido torrão, através das pesquisas. Tudo o que aconteceu no passado me interessa. Quero reviver os acontecimentos que nortearam a nossa caminhada para recontar a todos que se interessam pela história de um povo que precisou superar todos os tipos de dificuldades para tornar aquela região deserta e insalubre em um lugar bom para se viver. Deste modo, todos os dias estou em contato com o meu passado. O presente também me interessa sobremaneira. E as novas tecnologias tem facilitado isso. A internet e o telefone são instrumentos que me ligam diariamente ao meu velho e querido Curador. As tristezas e as alegrias são vividas quase em tempo real. Portanto, estou sempre retornando ao meu pedaço de chão.

Como agora quando tento passar para o papel o presente texto.     

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

POEMAS EM GARRAFAS AO MAR


Livro artesanal editado por Edson Guedes Moraes


17 de dezembro   Diário Incontínuo

POEMAS EM GARRAFAS AO MAR

Elmar Carvalho

No dia 27 de novembro, cedo da manhã, cheguei à portaria do prédio onde mora o poeta Rubervam Du Nascimento, meu amigo e conhecido desde o final da década de 1970, quando nos conhecemos, em Parnaíba, conforme já registrei neste diário. O vate não se fez esperar, e logo seguimos para Luzilândia, onde participaríamos do II Festival Literário das Águas – FLIÁGUAS. Eu faria uma palestra sobre o tema “A poesia no contexto das novas linguagens e recursos tecnológicos” e o Rubervam discorreria a respeito de “O Lugar do Poema”, em que ele aplicaria uma oficina poética. 

Embora nossa amizade tenha se mantido sempre firme, sem nenhuma espécie de arranhão, nos encontramos raramente, mas sempre que isso acontece a alegria e o congraçamento são efusivos, de sorte que a viagem de mais de quatro horas, posto que fui sem pressa, foi entremeada de histórias e de “causos” pitorescos, jocosos, anedóticos. Recordamos algumas conversas anteriores, mas surgiram muitas novidades, tanto minhas como dele.

Há muitos anos li texto, no qual o escritor Eduardo Galeano dizia que publicar livros é como meter uma mensagem numa garrafa e lançá-la ao mar; a possibilidade de que alguém a leia é muito remota. Exatamente por causa dessa frágil perspectiva, fiquei admirado de três, digamos, coincidências que Rubervam me relatou.

Disse-me que nos idos de 2003, numa viagem de fiscalização do Ministério do Trabalho, encontrou na cidade de Paulistana a professora Tânia Rosado Paranaguá, que lá se encontrava em trabalho de pesquisa sobre a oralidade de quilombolas da região. Ela lecionava na Universidade Federal de Pernambuco – Campus de Arcoverde, em cuja cidade residia. Ela lhe revelou apreciar minha poesia. Por que meios misteriosos alguns de meus poemas chegaram a seu conhecimento não posso imaginar, uma vez que nossas edições são pequenas e precárias, e sempre circunscritas a algumas poucas pessoas de Teresina e de duas ou três cidades interioranas.

O nosso poeta, em outra viagem a serviço, em 2004, encontrou em um restaurante da longínqua Parnaguá um rapaz de nome Evangelista de Lima, que se encontrava, sozinho a uma mesa, a ler um livro de poemas de H. Dobal. Por ser um fato raro, chamou a atenção de Rubervam, que entabulou rápida conversa com ele. Descobriu tratar-se de um leitor contumaz de literatura, que disse gostar de nossa poesia. Como meus versos foram esbarrar em plagas tão distantes e cair em terreno tão fértil também me é outro mistério, que prefiro não decifrar, para entender esse fato pouco provável como algo um tanto enigmático.

Rubervam também me falou que muitos anos atrás, ao participar de um debate sobre poesia na desvairada Pauliceia, encontrou o poeta José Almino, nascido em Pernambuco, que se referiu a minha poemática de forma elogiosa. Disse que a conheceu através do festejado poeta e sociólogo Clóvis Moura, que me incluíra na seção Quatro Poetas (do Piauí) da revista LB – Revista da Literatura Brasileira, número 6, na qual me encontro na agradável companhia de Da Costa e Silva, H. Dobal e Clóvis Moura. Aproveitei para ler e reler o grande poeta José Almino, que é a melhor maneira de se render homenagem a um literato, sobretudo numa época em que poucos leem os escritores e poetas nacionais.

Ainda na esteira dessas surpresas agradáveis, contei a Rubervam que havia recebido, alguns meses atrás, um e-mail do poeta e contista Edson Guedes Moraes, no qual ele, de forma elegante, me pedia “desculpas” por somente agora haver conhecido minha poesia. De forma surpreendente, no mesmo bilhete eletrônico, o poeta, que é também editor, anunciou-me que faria uma edição artesanal, de exemplar único, contendo o meu poema Noturno de Oeiras. Guedes foi além do anunciado, e poucos dias após me enviou um volume primoroso, verdadeira obra de arte, com o referido texto, devidamente ilustrado, em papel couchê de altíssima qualidade, e mais alguns exemplares artesanais (diria louçanias gráficas) de uma bela antologia de meus poemas. Sem dúvida, o escritor e poeta Edson Guedes Moraes recebera uma das garrafas lançadas ao mar, cujo conteúdo era alguns de meus textos poéticos.

Quando menos esperei, ante a agradável conversa que tivemos, eu e o poeta Rubervam chegamos a Luzilândia, onde fomos recebidos, com toda fidalguia pelo escritor e poeta Ivanildo Di Deus, que todos os anos, há mais de duas décadas, promove encontros literários e culturais em sua bela terra da luz, à beira do Velho Monge erguida.

Entre outros, lá estavam os poetas, escritores e historiadores Dalila Teles Veras (da qual tive a satisfação de receber os livros Solidões da Memória, estranhas formas de vida e Retratos Falhados), Adrião José Neto e João Renôr Ferreira de Carvalho. Em Luzilândia, Rubervam me autografou seu livro Espólio, vencedor do VI Prêmio Literário Livraria Asabeça 2007 – Categoria Poesia. Aliás, nos últimos anos o vate de A profissão dos peixes arrebatou importantes prêmios nacionais com a sua poesia sempre carregada de novidades estéticas e estilísticas.

À noite, em esplêndida homenagem, recebemos (Dalila, Adrião, Rubervam, Francisco Miguel de Moura, Hardi Filho (in memoriam), Cícero Brito, Glayds Castro e este cronista) o honroso Título de Cidadão Luzilandense, concedido pela Augusta Câmara Municipal de Luzilândia, em que todos os vereadores, o vice-prefeito Oliveirinha e os homenageados proferimos breves e comovidas palavras.       

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Latim de Michel Temer para Dilma


Latim de Michel Temer para Dilma

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Vice-presidente Michel Temer, em carta explosiva à presidente Dilma, inicia com provérbio latino: “Verba volant, scripta manent”. A presidente, que mal arranha o idioma pátrio, entendeu pela tradução: “As palavras voam, mas os escritos permanecem.” Um sacerdote, no sul do país, já havia utilizado, dias antes, a mesma frase latina, em blog, para detonar, violentamente, um colega padre.

Provérbios e princípios enriquecem o discurso, condensam o pensamento em reduzidas palavras, os latinos, especialmente, com agradável efeito sonoro. E caem na memória coletiva, citando-os na hora oportuna. Teólogo Santo Agostinho, mestre em frases de efeito e trocadilhos, imortalizou esta pérola sonora: “QUI CREAVIT TE SINE TE NON SALVABIT SINE TE”. Aquele (isto é, Deus) que te criou sem sem ti (isto é, sem tua vontade) não te salvará sem ti ( sem tua colaboração). O uso repetido desses recursos estilísticos não deve servir de exibicionismo retórico, especialmente nas peças de defesa, acusação, condenação e teses acadêmicas, recheadas de juridiquês intoleráveis.

Pilatos, governador romano, apresentou Jesus à multidão vociferante, depois de açoitado e coroado de espinhos: “ECCE HOMO” - eis aqui o homem. O termo HOMO significava indivíduo desprezível, em vez de  VIR, isto é, varão respeitado. Mandou escrever na cruz debochada frase: “IESUS NAZARENUS, REX IUDEORUM” - Jesus Nazareno, Rei dos judeus. Adversários não concordaram. Pilatos reagiu: “QUOD SCRIPSI SCRIPTUM” – o que escrevi está escrito. Autoridades adoram repeti-la.

O cônsul, general e imperador romano, Júlio César, ao ver o exército inimigo nas Gálias, soltou : “ALEA IACTA EST” – a sorte está lançada. Retornou a Roma, aplaudido no senado, pronunciou a famosa frase: “VINI, VIDI, VICI” - vim, vi, venci.

Nas escolas do passado não muito remoto, estudava-se latim, grego e francês. Veteranos ilustres ainda guardam na memória frases, principalmente latinas, extraídas de obras clássicas. Estudantes eram cobrados nos exames orais e as declamavam no recreio.

No seminário, o futuro músico Belchior e eu  disputávamos quem soubesse mais frases decoradas. Nos eventos, enchia meus textos com citações, vaidosamente. Amigo radiomador, nos encontros no shopping, dispara um clássico latino a cada cinco minutos de conversa. Demais!


Nas velhas escolas, a leitura obrigatória de clássicos latinos e gregos  enriquecia o vocabulário português, originado daqueles troncos linguísticos. Como me esquecer das Catilinárias, de Marco Túlio Cícero, tribuno de brilhante retórica, político e filósofo romano do início do cristianismo? A primeira frase de um de seus quatro discursos no senado, acusava Lúcio Sérgio Catilina, cônsul romano, de pretender derrubar o governo republicano e apoderar-se do poder e das riquezas, juntamente com os apaniguados: “QUOUSQUE TANDEM ABUTERIS, CATILINA, PATIENTIA NOSTRA?” - até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Sentença bastante utilizada nos meios acadêmicos e jurídicos, para refutar alguém teimoso, que insiste em abraçar tese vencida, superada, sem chance de prosperar. Que sirva de reflexão à atual elite brasileira no poder.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Caetano José Teixeira


Caetano José Teixeira

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Um dos maiores negociantes do Maranhão na passagem do século XVIII ao XIX foi o português Caetano José Teixeira, dono de empresas que negociavam por todo o império colonial português, sobretudo nas praças de São Luís, Belém, Lisboa, Porto e em Guiné, assim como nos outros domínios da África(AHU–CU–009, Cx. 75, D. 6495).

Nasceu cerca de 1760, na velha cidade do Porto, em Portugal, filho de Francisco José Teixeira e de sua mulher Francisca Gonçalves Teixeira, comerciantes de grosso trato, naturais e residentes na mesma cidade do Porto.

Embora mantivesse empresas na cidade do Porto, cedo veio para o Maranhão, estabelecendo-se em Alcântara, onde casou-seem 1790, com dona Rosa Maria Serra(n. 1770), filha de Bertolo de Deus Dourado, e fundou filiais de suas casas comerciais. Com o tempo amealhou grande fortuna, tornando-se “um dos principais comerciantes de escravos, importante credor do erário e representante do Banco do Brasil no Maranhão”(GALVES, Marcelo Cheche. Política em tempos de Revolução do Porto: constitucionalismo e dissenso no Maranhão. Passagens – Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica. Rio de Janeiro. Vol. 4. N.º 1. Jan-abril 2012. P. 4-38).

De sua vida localizamos algumas passagens na documentação histórica do período colonial. Em 23 de fevereiro de 1788, recebeu sesmaria de uma légua de comprido e três de fundo, no rio Mearim, a fim de estabelecer lavouras. Parece que acabara de chegar à colônia porque disse em seu requerimento que ainda não possuía terras(AHU–CU–009, Cx. 81, D. 6882).

Em 19 de outubro de 1799, obteve licença real e remeteu para estudar em Lisboa, seu filho Honório José Teixeira, de nove anos de idade, seguindo na galera Ninfa do Mar, do capitão Joaquim Adrião Rosendo.

Encontramos referências às apreensões dos grandes comerciantes com relação à remessa de mercadorias para Lisboa em 1807, diante do ultimato francês para que Portugal fechasse seus portos aos navios ingleses. Então, é intensa a correspondência do comendador Caetano José Teixeira com seus sócios de Lisboa e do Porto, buscando inteirar-se dos fatos; e daquele com o sócio Francisco Pedro Ardasse, de Belém do Pará, para quem repassava as informações privilegiadas que recebia do reino, orientando que continuasse a negociar, porém evitando a remessa imediata para o velho continente(LOPES, Siméia de Nazaré. As relações comerciais do Pará no início do século XIX. IV Conferência Internacional de História Econômica & IV Encontro de Pós-Graduação em História Econômica – USP).

Foi também um filantropo, concorrendo de boa vontade em 1810, “para as urgências do Estado, com diferentes donativos e ofertas de valor”, em razão da qual o príncipe regente D. João concedeu-lhe o hábito de Cristo com 12$000 réis de tença(ANRJ, Cód. 15. Graças honoríficas, v. 2, fl. 10). 

Em 18 de julho de 1815, doou a importância de quinhentos mil réis, para resgate de cidadãos portugueses que se encontravam cativos em Argel(Gazeta de Lisboa, n.º 284, de 20.11.1815).

Nesse mesmo ano protocolou petição cobrando dos herdeiros do governador e capitão general do Maranhão, Aires Carneiro Homem de Souto Maior, que faleceu com dívidas ao requerente(PT/TT/JIM-JJU/002/0113/00012).

Era também grande latifundiário, chegando a fundar no Maranhão, 36 feitorias, onde trabalhavam dois mil escravos. Quem assim informa é o deputado maranhense Francisco Gonçalves Martins, em discurso na Assembleia Geral do Império, em julho de 1826, a título exemplificativo, na defesa de um ponto de vista:

“Ainda há poucos anos faleceu um grande proprietário da província do Maranhão, que deixou um casal de mais de 4 milhões de cruzados; e tendo este homem feito um grande estabelecimento de lavoura, apenas conseguiu cultivar 36 feitorias e nisso empregou 2.000 escravos; e de certo que semelhantes estabelecimentos lhe absorveram mais de seiscentos contos de réis, e talvez oitocentos contos; eispois um exemplo prático, e de um proprietário bem estabelecido na província, qual foi Caetano José Teixeira” (Diário da Câmara dos Deputados a Assembleia Geral Legislativa do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Typographia do Império, 1826 – 1829. P. 901).

De sua atividade comercial são vários os registros, a exemplo do “Bergatim S. Ana, que saiu do Porto para o Maranhão com carga da praça a Caetano José Teixeira”(Jornal do comércio, vol. 4).

Faleceu esse rico negociante em 1818, na cidade de Alcântara, no Maranhão, onde residia. Deixou descendência, entre os quais: comendador e coronel de milícias Honório José Teixeira(1790 – 28.9.1849), um dos baluartes da Independência no Maranhão, estudou em Lisboa e Londres; e, Maria Teresa Teixeira Vieira Belfort, que foi casada com o coronel José Joaquim Vieira Belfort (4.3.1770 – 28.9.1838), pais de Antônio Raimundo Teixeira Vieira Belfort (Barão de Gurupi).


Com essas notas resgatamos algumas informações sobre esse importante líder do comércio no império colonial português e iniciante de ilustrada família no Maranhão.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Seleta Piauiense - Jônatas Batista


ALEGRIA DO CÉU

Jônatas Batista (1885 - 1935)

Maio...Junho...
Os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!      

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Triste realidade atual dos autores brasileiros: escritores em perigo!


Triste realidade atual dos autores brasileiros: escritores em perigo!
   
 Cunha  e Silva Filho
   
       A Cultura Brasileira, no geral, está também  decadente e por muitas razões: a explosão das mídias, hoje cada vez mais se  diversificando, a fragmentação  das áreas outrora  prestigiadas como veículos  de informação e transmissão de conhecimento não pasteurizados. Tudo isso  soma ainda, para  o bem ou para o mal,  o excessivo “excesso” de  autores de áreas não diretamente ligadas, por exemplo, à literatura,  procurando  também  produzir  ficção, já que, em poesia,  seria difícil  manejar a pena,  quer dizer,  o teclado,  para  criar   poesia de alto valor  estético - seara do gênero  para o qual  há que se ter talento e  competência linguístico-literária.

     As pessoas que passaram a vida toda labutando  na preparação de competências  que lhes  facultariam  a possibilidade  de ingresso  na criação literária  se veem desprestigiadas diante  da concorrência  de bons e maus  escritores ou de escritores que  procuram  as fórmulas fáceis de atraírem  leitores  intelectualmente rasos   que  estarão prontos a  digerir  literatura de segunda ou terceira linha.

      Os resultados dessa queda vertiginosa  de  prestígio, de valorização e atenção aos  escritores de raça, de talento genuíno aí estão  se manifestando  de várias formas  no tecido    esgarçado  cultural: os bons suplementos  de literatura estão desaparecendo, minguando,  se reduzindo a duas ou três páginas,  retirando de circulação  críticos  de mérito e experientes e impedindo também que outros críticos menos visíveis ou mais jovens  possam  ter acesso  às colunas  literárias. 

      Restarão como  alternativa  frouxamente  viáveis os blogs, os sites  coletivos ou  individuais que, bem ou mal,  continuam  produzindo, dentro de suas possibilidades,  matéria crítica ou  de outros  áreas culturais.

      Razão tem o  escritor Rogel Samuel que, em recente crônica, de título “Nós, os quase extintos,” em sua coluna  “Crônica de Sempre”do site Entretextos, em tom   melancólico e de desabafo,  constata  a situação   de desapreço  com que são  tratados os escritores brasileiros  que ele chama com muito acerto  de “independentes” – seres, segundo ele,  “quase extintos da face da Terra.”

       Ora,  tal  situação  em que  colocam  os  escritores  brasileiros   é, no mínimo, um  golpe duro e insensato    do editorialismo de cunho elitista e xenófilo que  só tem olhos  para os estrangeiros, ainda que  muitos destes  estejam  bem aquém de autores nacionais que  estão   implorando para que lhe deem atenção  e façam  circular  comercialmente  seus livros. No entanto, a cultura  apátrida,   imediatista, pragmática, com sumista  hoje pouco está se lixando para um  bom autor pouco divulgado.

. O que para os editores  mais  conhecidos  vale é o produto   da venda, não a qualidade  dos autores nacionais em todos os gêneros. Só tem vez uns poucos que caíram  no gosto  discutível  de leitores   ávidos  por  autores  de cenários  escapistas,  ou   voltados  para  as cenas picantes de sexo barato,   crime e corrupção, tanto quanto os filmes importados, em geral americanos.

    Soube por um amigo que um jovem crítico  brasileiro escreveu  ultimamente  um artigo   discutiu num artigo  a questão da realidade  da crítica   literária  nacional  que, segundo ele, não anda bem. Não anda bem  porque, diz ele, está havendo  profundas mudanças  de comportamento  de leitores  e de novas  alternativas  midiáticas   que tendem a  pôr em segundo  plano o  exercício    da análise e da interpretação de obra.

    Quero crer que  a perda da aura da antiga militância crítica se deveu  ao incremento  da força que  instrumentos  de publicidade  têm disponíveis a fim de  dispensar   o papel  de orientação  e doutrinação   de  críticos de jornais  ou de rodapés, que ficaram célebres nos anos 1940, 1950, 1960. Esses críticos militantes   foram,  por seu turno, substituídos, fora dos jornais,  pelos críticos  universitários, i.e.,  professores  de literatura,  teóricos, que  passaram  a ter  um papel de   destaque  na avaliação  e pesquisa sobre autores antigos e novos.

     O espaço  privilegiado dos estudos  literários  passou  assim a ser dentro da universidade, e a   militância crítica, que praticamente  se extinguiu ,  cedeu terreno à “crítica universitária,”confinada daí em diante  às revistas especializadas, às monografias,  dissertações,   teses, aos anais de congressos nacionais ou  internacionais, ao universo acadêmico especializado. Ao crítico de jornal coube apenas  o papel  secundário  de resenhista, de noticiador  de lançamentos  de livros.Ou seja, o papel  do agenciamento  da crítica   se instalou   de vez no seio  dos curso s de letras e em todos os níveis  de adiantamento.

    O antigo  acompanhamento  dos lançamentos de livros que iam surgindo  sofreu, portanto,  um inflexão. Já não se podia  produzir  crítica literária como  antigamente  em razão de que os livros eram muitos e o crítico não teria tempo  suficiente para lê-los logo que  fossem  colocados às livrarias. O processo da leitura  de novos  autores na  universidade era  bem mais  lento,  demandava  maior  aprofundamento  e aparato  crítico,  bibliográfico,   rigor  ensaístico, formatação  acadêmica. O velho   crítico dos rodapés, não,  era rápido,  produzia suas análises   no calor  da emoção da leitura, quiçá de um só leitura, e o seu artigo ou crítica iam logo para folha dos jornais.  

       Veja-se o exemplo da Folha de São Paulo, com  o seu atual  caderno  Ilustríssima. Veja os seus colaboradores e as suas áreas de atuação cultural: cartunista, reportagem, jornalista, tradutor, professores de diversas áreas, diplomatas e escritores. Dificilmente, se encontram entre eles críticos  literários A discussão do temas nesse caderno  sofreu  um  expansão ou diversidade    cultural  de tal sorte que  a literatura  passou  a  se inscrever   sem aquele  antiga posição de   realce  entre outras áreas. Deixou de ser a primeira dama; hoje é apenas mais uma  área da inteligência brasileira.

        São muitíssimos os blogs ou sites  que cuidam de  produzir  crítica e ensaios, ou mesmo  poesia e  ficção.


        Voltando  ao que  declarou o  ficcionista  Rogel Samuel, há uma trecho  de seu texto que resume  a deplorável  posição – não merecida, é claro – do escritor  brasileiro  independente, que não  pertence aos grupos  do poder da produção  literária distribuídas em nichos  inexpugnáveis  de editoras  elitistas que  escolhem e repudiam  quem  lhes parece  não  estar à altura de seus lançamentos:”Ontem entrei na Livraria saraiva no Shopping Rio Sul e vi que os autores nacionais sumiram. Só nas estantes laterais, marginais.” O cronista  se interroga, machadianamente  cético, se  os escritores independentes e os escritores  em geral  são “seres em extinção” e ainda lamenta  que, na mídia televisiva, “num domingo de tarde,”  não havia  nenhuma  notícia sobre um  poeta,  uma homenagem a um  escritor, um “cronista.” Seria preciso  alongar mais  este artigo?   

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A fé que se renova


A fé que se renova

Dílson Lages Monteiro (*)

“Eia povo barrense é chegado/ o momento de vossa alegria/ elevai vossa fé, oh cristãos, /em louvores  a virgem Maria./ Salve Rainha do Céu/ salve a estrela da manhã/ Salve a padroeira de Barras do Marataoã”.  Ouvindo e cantando o Hino à Padroeira de Barras, de João Berchmans de Carvalho, milhares de fiéis católicos percorrem, entusiasmados, estradas vicinais e ruas de Barras do Marataoã, para reconhecer as graças alcançadas e renovar a esperança em novos dias.

Os festejos de Nossa Senhora da Conceição das Barras do Marataoã, um dos mais tradicionais do Piauí, iniciam-se oficialmente com o transporte da zona rural para a urbana, em romaria, do mastro que é fixado de frente ao adro da igreja. Por toda a noite e a madrugada do dia 27, o mastro é conduzido por centenas de jovens, adultos e até idosos, por longo percurso, em alguns anos, de até cinquenta quilômetros, em ritmo que vai além da caminhada habitual.

Com passos largos, de mastro aos ombros, os caminhantes misturam a fé à  força física. Ele é conduzido até a Igreja Matriz de Santa Luzia, no bairro Boa Vista, de onde, no dia 28 de dezembro, é transportado em procissão, que reúne cerca de 15 mil pessoas até a igreja Matriz de Barras. Ali, os fogos, as orações e o tradicional hino tornam a festa em momento de profunda emoção.

Em 2015, o mastro saiu do povoado Murici, a 32 quilômetros do perímetro urbano, numa tradição que se fortalece a cada ano. Neste ano, particularmente, o número de jovens envolvidos no transporte desse símbolo da festa empolgou as autoridades religiosas e toda a comunidade, numa demonstração da importância do evento como uma das maiores manifestações culturais da região.

A história de Barras do Marataoã está, como na maioria das antigas cidades piauienses, ligada ao catolicismo; à construção de uma capela, depois, transformada em templo de arquitetura característica dos padrões de seu tempo. Segundo anotações do Padre Cláudio Melo, em fins do século XVIII, já havia no local que compreende a atual igreja, na remota Fazenda Buritizinho, de Miguel de Carvalho, uma capela com autoridades religiosas ali investidas.

É com José Carvalho de Almeida que a construção da igreja ganha força. Pelo menos é o que atestam os mais acreditados historiadores do Piauí Imperial. Entre eles, David Caldas, o primeiro que se tem conhecimento a fazer anotações de cunho historiográfico sobre Barras, e outros, como Pereira da Costa e Miguel de Sousa Borges Leal.

A propósito do envolvimento de Carvalho de Almeida com as causas da fé católica, expressas no obstinado anseio da construção do templo da Igreja Matriz, lembra o historiador Wílson Carvalho Gonçalves que José de Almeida, ”assumira a administração da capela de Barras em 22 de agosto de 1819. Inspirado pelo amor a sua terra, lançou os fundamentos duma nova capela, mais tarde matriz, ficando a antiga contida no recinto desta, e demolida em 1835”. Acrescenta o historiador que José Carvalho de Almeida teria “concluído, por sua conta, a Capela do Santíssimo Sacramento da Matriz”. Infelizmente, demolida em 1963. Ressaltam vários historiadores, pautados principalmente em David Caldas, que Barras é elevada à  freguesia (30 de dezembro de 1939) e à vila (27 de setembro de 1841), graças aos pleitos de José Carvalho de Almeida.

Quando literalmente começou a festa da padroeira de Barras e seu processo de formação é tema curioso que demanda pesquisa detalhada, sobretudo pela relevância sociocultural do acontecimento. Ao evento, já fazia referência em poema de tom elegíaco o celebrado Teodoro Castello Branco (1829-1891) : “Vila que nos festejos grandiosos,/Viste-me sempre com alegre rosto;/Vila, vila chorosa/Meus olhos vês agora,/ que acerbo sentimento me devora”.

Sobre essa emoção renovada da fé em Nossa Senhora de Barras, diz em crônica, Eurípedes de Castro Melo (1941-1972), conforme se lê em Chão de Estrelas da História de Barras, de Wílson Carvalho Gonçalves:

“Sempre que se celebram de 29 de novembro a 8 de dezembro, os festejos da Imaculada Conceição, Padroeira excelsa de Barras, duas coisas impressionam, de gente simples e boa, acolhedora e amiga, de minha terra: o espírito da tradição e o fervor da crença religiosa. E nada há que faça, sequer, arrefecer o entusiasmo com que se espera, ali, a temporada alegre do concorrido novenário da Virgem Santíssima. Nem a mutabilidade dos tempos. Nem o fluir dos anos. Nem a inclemência das adversidades. Nem o tormento das maiores provações. Nem as decepções, as tristezas e as cores comuns, que compõem o tecido da existência humana.’

Faça-se o que se fizer, a fé dos barrenses se mantém inabalável. Ainda que os tempos difíceis e as forças ocultas pareçam instransponíveis; ainda que as artimanhas do mal vicejem no solo, a esperança na generosidade divina é imorredoura. Dezembro chegará trazendo a certeza de que Deus é maior. Dezembro de Nossa Senhora. Dezembro em sua fé secular, porque o tempo virá ar:

  Dezembro desabrocha no chão
  de onde a terra leva e leve
  o cheiro da chuva e dos jasmins



   da porta ao quintal.



   Dezembro de Dasinha e das dores
   da Senhora Nossa da Conceição
   no peregrino passo



   os olhos molhados de preces



   Ah! Dezembro no teto (des) habitado
   de morcegos onde a manhã estrelas desenha
   onde os vitrais se alargam palpitantes



   onde a porta-a-sala-e-a-casa:



   A cidade se abre
   para Jesus renascer
   segurando as mãos de Dasinha



  onde imagem-ação, o esperar do novo ano.



     Ah! O ar de agora e de sempre
     no Pai Nosso e em Cada Dia
     do quintal à porta



      onde a bisavó armava



      as margaridas nas janelas
      e o carmim do céu
      para o vento (ex)altar a procissão.
           
      Dezembro em tijolos
      na cabeça do povo
      os dedos derretendo em velas



      e a luz do fogo em filas



      e os férteis pés e firmes
      na comum-união de todos as classes:
      dezembro e a promessa



       de que o tempo vira ar.
   

(*) Dílson Lages Monteiro é poeta, romancista e membro da Academia Piauiense de Letras.   

domingo, 6 de dezembro de 2015

REALIDADE FANTÁSTICA


REALIDADE FANTÁSTICA

Elmar Carvalho

Velhas borboletas empoeiradas
saídas do fundo dos baús.
Velhas borboletas obsoletas
              e de
              asas
enferrujadas querendo
aprender de novo a arte de
     bor-    bor-       bor-
  bo-    bo-      bo-
       le-      le-         le-
   to-      to-                to-
        a-          a-               a-
                vo-      vo-           vo-
ar.                  ar.                      ar.
              Lâmpadas
votivas destroçadas, estrelas
cadentes geladas, luzes
apagadas pelos inimigos da
          claridade.
Antigos
            alfarrábios cheios
            de traças e cupins
            com as amarelas
            páginas dissecadas
reescritos.     

sábado, 5 de dezembro de 2015

Navio do Sal...E os pesadelos continuam


Navio do Sal...E os pesadelos continuam

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com

A tentação de poder e egolatria vem da primeira civilização humana, metaforizada num casal, em mundo paradisíaco, por saborear o fruto proibido de se igualar ao divino. A história humana continua a mesma, plasmada de sonhos malucos, à custa do suor e sangue de inocentes, na construção de pirâmides, fortalezas, muralhas chinesas, mausoléus, jardins suspensos e confrontos bélicos. Piauí, também, tem pesadelos feitos de Navio do Sal, Porto de Luís Correia, Centro de Convenções, Rodoanel, estripulias tantas.

Noite de maio de 1988, à beira do cais, rojões fogueteavam, repórteres e câmeras de televisão registravam a multidão eufórica aguardava a chegada do Navio do Sal. Mal atravessou a Ponte Metálica, o monstro iluminado rompia a escuridão, lotado de autoridades militares e políticos, soltava surdos roncos. Canhões pirotécnicos iluminavam o céu, refletindo sobre as águas do Parnaíba.

O cerimonial de desembarque seguiu, rigorosamente, as praxes militares, continências, palavra do governador Alberto Silva. Tomás Teixeira, fidelidade canina ao  governador, exaltava, ao microfone, “o novo capítulo da história do Piauí”.

Alberto Silva, um engenheiro com ideias geniais - para muita gente, loucas, cujo mérito despertava na população enorme autoestima.

Na década de 1960, o Piauí envergonhava, pelas avenidas sem asfalto e escuras, praças abandonadas da capital. O estado sofria a pior chacota nacional, publicada pela famosa revista Realidade: “Visite o Piauí antes que acabe”. Alberto Silva, no primeiro governo, conseguiu, com apoio de entusiasmados representantes do estado, no governo da ditadura militar, alavancar o estado, especialmente a autoestima da população. Urbanizou e iluminou a capital, construiu obras como o metrô e o Hospital Evangelina Rosa.

Tirar as dezenas de obras do governo Alberto Silva, sobra pouca coisa. Fez bocado de besteiras, tangido por sonhos malucos que não resultaram em nada, como a engenhoca Globinho, de aço, um horror pedagógico; o arranca toco, sem pé nem cabeça tecnológica; fontes luminosas nas praças da capital, que só serviam para deleite de crianças de rua; o Porto de Luís Correia, inacabado, que só avançou em pedras e verbas públicas desviadas, hoje com lâmina d’água de um metro de fundo; o Navio do Sal (ou Barca do Sal).


À beira do cais do Parnaíba, eu assistia à chegada do Navio do Sal, arrastado, na marra, desde o litoral, sobre bancos de areia. Nem lembrava outro navio, bem maior, cheinho de convocados para a Guerra do Paraguai, século 19, partia, depois da missa e despedidas na Igreja do Amparo. O rio Parnaíba do passado aguentava embarcações pesadas, desde Amarante ao litoral. Hoje, anêmico, assoreado, imundo, mais de cinquenta esgotos, só em Teresina, vomitam porcarias no Velho Monge. Alberto Silva e outros que o precederam perderam a chance de ouvir os clamores mais urgentes da população e da natureza, reflexo do ancestral pecado da egolatria, presunção e poder. E o povo, tadinho, permanece, à beira do cais, a ver navio.  

Café Literário apresenta Nathan Sousa & José Lins do Rego