sábado, 7 de janeiro de 2017

João do Rego Castelo Branco - Capitão da conquista do gentio

Reginaldo Miranda

Historiador e escritor.
Membro da Academia Piauiense de Letras

João do Rego Castelo Branco - Capitão da conquista do gentio.
             Foi o mais graduado e mais importante militar piauiense durante a segunda metade do século XVIII, exatamente os primeiros cinquenta anos de nossa vida administrativa.

Nasceu João do Rego Castelo Branco em 7 de abril de 1719, na mui impropriamente chamada Vila da Parnaíba, depois conhecida por Vila Velha do João Gomes ou simplesmente Vila Velha, no delta do rio Parnaíba, arredores de onde hoje se assenta uma importante cidade de mesmo nome. Era filho do capitão-mor João Gomes do Rego Barros(c.1665 – c.1735), fundador da referida povoação, a pedido do governador de Pernambuco, para onde fora por ele designado, a fim guarnecer aquela região de ataques inimigos; Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e grande latifundiário, tendo adquirido sesmarias entre as barras do rio Igaraçu e Parnaíba, incluindo a Ilha Grande de Santa Isabel, João Gomes pertencia a uma das mais distintas famílias de Pernambuco. Pelo lado paterno João do Rego era neto do comendador da Ordem de Cristo, capitão-mor e governador da Paraíba(1663 – 1670), provedor da Real Fazenda de Pernambuco(13.7.1675 – 27.10.1697)João do Rego Barros(c.1628 – 27.10.1697) e de Caetana Theodora Valcaçar, esta filha de Francisco Camello Valcaçar e Anna da Silveira. Pela linha varonil, bisneto de Francisco do Rego Barros e Archângela da Silveira Moraes, casados em 8.5.1623, em Olinda. Trineto do português Luiz do Rego Barros, natural de Viana; e de Ignez de Goés.
Seu pai foi casado duas vezes, sendo a primeira com a lisboeta Ana Castelo Branco de Mesquita, mãe do biografado, com quem teve quatro filhos, de que ele é o caçula, antecedido por Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, Lourenço dos Passos Rego Castelo Branco e Rosendo Lopes do Rego Castelo Branco. Depois de viúvo, o pai contraiu novas núpcias com a cunhada Maria do Monte Serrate Castelo Branco, também lisboeta, com quem teve mais três filhos: Francisca, Florência e Ana do Monte Serrate Castelo Branco. Eram ambas as esposas filhas de D. Francisco da Cunha Castelo Branco, natural de Portugal – irmão de D. Pedro de Castelo Branco da Cunha, 2º Conde de Pombeiro. Capitão de infantaria do exército português, mudou-se para o Brasil em 1693, servindo na guarnição de Pernambuco. A partir de 1696, serviu na do Maranhão, até quando faleceu, e dona Maria Eugenia de Mesquita, natural de Lisboa, falecida em naufrágio marítimo no ano de 1696, quando de mudança para o Maranhão. Eram todos oriundos de antiquíssimas e nobres famílias de Portugal.
Pouco se sabe sobre os estudos de João do Rego Castelo Branco, sendo, porém, um homem instruído, com formação acima da média, acreditando-se que tenha estudado inicialmente com os pais e depois em companhia de parentes, em São Luiz ou Recife, pela década de vinte, sendo mais provável em companhia do avô materno, na primeira cidade.
O que há de certo, porém, é que cedo ingressou na carreira das armas, servindo com o pai no norte do Piauí. Naquele tempo era comum os meninos sentarem praça ainda adolescentes, o que certamente aconteceu com João do Rego Castelo Branco.
Porém, pouco depois de 1735, com a morte do pai, o jovem militar mudou-se para a fazenda Cajazeiras, no termo de Parnaguá, passando a servir com o capitão-mor, mestre-de-campo e capitão da tropa de guerra Antônio Gomes Leite, seu contraparente, casado com uma sua prima. Ainda muito jovem, com cerca de dezoito anos de idade, o acompanha em diversas entradas contra o gentio, inclusive nos combates contra a nação dos Paracatis, na qual é ferido o comandante da tropa. Destemido, ágil, corajoso, perspicaz, logo destacou-se no seio da tropa, recebendo menções honrosas e ascendendo nos postos militares.
Estava, assim, nos sertões de Parnaguá, iniciado o seu batismo de sangue e a longa carreira militar em que iria notabilizar-se como o algoz dos nativos do norte de Goiás e sul do Piauí e Maranhão.
Por volta de 1740, aos 21 anos de idade, casa-se com Perpétua Luiza de Barros Taveira, filha de dona Antônia Gomes Travassos e de seu segundo esposo, o capitão-mor do Gurgueia, Gonçalo de Barros Taveira, todos de ilustrada estirpe.
Em 1743, acompanha o capitão-mor Antônio Gomes Leite na guerra defensiva que fazia contra os Guegués ou Gurgueias, conseguindo as pazes com os mesmos no ano seguinte e os aldear em número de 2.051, no lugar Guaribas, sendo sustentados com um lote diário de dez bois das fazendas daquele capitão.
Em 1745, com a ajuda desses indígenas aldeados e sob o comando do mesmo militar, faz nova entrada contra os indígenas no território de Goiás, desta feita contra a nação Akroá (Acoroás), de que morreram 32 indígenas e ficaram diversos feridos em um entrevero, resultando apenas 16 feridos e sem mortes de sua parte. Nessa oportunidade, conquistam e celebraram paz com oito mil indígenas, que aceitam a vassalagem e a catequização em suas próprias tabas. A falta de recursos inviabilizou a transferência para outro local.
Porém, em 1747, com a morte do capitão-mor Antônio Gomes Leite e a dura disciplina na catequese religiosa, os Guegués se rebelam, matando seu missionário e mais de sessenta pessoas no arraial e nas fazendas por onde passavam. Provocaram terror porque aprenderam a manusear e levaram consigo as armas de fogo do arraial, provocando rebeldia também nos Acoroás e Timbiras. Nessa conjuntura, o sargento-mor João do Rego Castelo Branco é reconhecido sucessor de Antônio Gomes Leite e nomeado cabo das tropas de combate aos indígenas rebelados. Para essa missão fora recomendado pelo ouvidor da Mocha, Mateus Pinheiro da Silva Botelho, que, em 6 de novembro do mencionado ano de 1747, informou ao rei ser ele “homem de reconhecida nobreza, capacidade e experiência, porque andara com seu comparente Antônio Gomes Leite em diversas bandeiras”(AHU. Piauí. Cx. 4. D. 285). Nessa missão, a primeira sob sua inteira responsabilidade, aos 28 anos de idade, mostra serviço a El Rei, atacando diversas malocas, matando uns e prendendo outros, não sem levar algumas flechadas, conforme declara em sua correspondência.
Novamente, no verão de 1751, o então sargento-mor João do Rego Castelo Branco parte em nova campanha contra os Guegués, que continuavam rebelados no sudoeste do Piauí. Levou por capelão da tropa frei José Antônio de Freitas. Nessa altura já ia se revelando como um militar que buscava resultados, partindo sem piedade contra o oponente. Passou a ferro malocas inteiras, aprisionando duzentos e trinta e tantos indígenas, depois de confrontos sangrentos, separando os mais renitentes, principalmente Timbiras, que foram condenados à escravidão e os demais ao aldeamento. Posteriormente, por ordem de El Rei, foram os indígenas escravos postos em liberdade. Foi, então, como resultado desta conquista, fundado no vale do rio Itapecuru, então termo de Aldeias Altas, hoje de Parnarama, no leste do Maranhão, o aldeamento de São Félix, sendo ele nomeado diretor do mesmo e nesse cargo permanecendo por oito anos, continuando o combate às tribos indígenas.
Como resultado dessa conquista e reconhecimento pelos serviços prestados, foi nomeado pelo governador e capitão-general do Maranhão por “capitão da conquista da guerra do gentio”. Nesse tempo o Piauí ainda estava anexado à Capitania do Maranhão.
Sobre essa conquista ainda disse o governador Gonçalo Pereira Lobato e Souza, do Maranhão:

“Pelo que alcancei neste cabo, parece-me que é homem de verdade e que enquanto andou na dita expedição observara o dito Regimento, e remetendo o conhecimento da conta da receita e despesa que nela fizera ao Desembargador Provedor da Fazenda desta Capitania; me informou este vocalmente, que não achara que fizesse, ou contivesse algum descaminho da Fazenda de V. Majestade”(AHU – Piauí – Cx. 5. D. 324).

Por esse tempo, se anima em pedir a El Rei o cobiçado hábito da Ordem de Cristo, declarando ser “pessoa das principais famílias do Maranhão, por ser descendente da casa dos condes de Pombeiro; que ele tem a honra de servir a V. Majestade naquele Estado voluntariamente; e levado do espírito dos que descende se resolveu a empreender a conquista do gentio; e sendo conhecido o zelo e valor com que executava todas as empresas foi chamado pelos governadores de V. Majestade para lhe encarregarem muitas, ocupando neste tempo todos os postos até o de cabo maior, em que mostrou a fidelidade de vassalo de V. Majestade, havendo-se em todos os combates em tal esforço, que em todas as ocasiões sem recear o perigo ficando em algumas delas ferido com setas, sempre teve bom sucesso, o que atribui à Onipotência Divina por ir com o sentido de fazer mais dilatados os Estados de V. Majestade e reduzir ao grêmio da Igreja maior número de católicos” (AHU. Piauí. Cx. 4. D. 312).
Embora situado em terreno fértil, por questão de policiamento e comércio foi o aldeamento de São Félix mudado para a fazenda Boa Vista, na freguesia de São Bento das Balsas, sudeste do Maranhão, de propriedade do capitão João do Rego Castelo Branco, em meado do ano de 1758. Essa decisão foi tomada em Termo de Junta realizado em 20 de junho do mencionado ano de 1758, no “lugar Trizidela, vulgarmente chamado Aldeias Altas”, com a presença do governador do Maranhão Gonçalo Pereira Lobato e Souza, que o convocou, dos ouvidores Manoel Cipriano da Silva Lobo, do Piauí, e Gaspar Álvares dos Reis, do Maranhão; dos capitães-mores Antônio Madeira Brandão, da vila da Mocha e Manoel Aires de Figueiredo, de Aldeias Altas, do capitão João do Rego Castelo Branco e outras autoridades.
Foi João do Rego Castelo Branco o artífice dessa mudança, tendo induzido as autoridades e doado a fazenda para implantar o aldeamento, tendo em vista ser local mais estratégico para defender as fazendas das ribeiras do Gurgueia e de Balsas, do ataque dos indígenas, que continuavam rebelados e reagindo às perseguições sofridas. Na oportunidade, se comprometeu a continuar dirigindo o aldeamento e à conquista do sertão, policiando desde a fazenda Cajazeiras, na freguesia do Gurgueia(Jerumenha), centro sul do Piauí, até a de Antônio Rabelo Bandeira, na freguesia de São Bento, no Maranhão. Também, visava essa mudança “fazer navegável o rio Itapecuru desde este lugar (das Aldeias Altas) para cima até a matriz de S. Bento das Balsas, em ordem a facilitar o comércio que atualmente lhe requereu os moradores da freguesia da Gurgueia, como também os índios situados junto à matriz de S. Bento” (AHU – Piauí – Cx 6. D. 387).
Todavia, em face de insatisfação com essa mudança e, provavelmente, fome, esses indígenas se levantam em fuga e desertam em outubro de 1759, embrenhando-se na mata, em rumo da freguesia de Pastos Bons. Contra eles, no ano seguinte, agora por ordem do primeiro governador do Piauí, João Pereira Caldas, parte novamente João do Rego Castelo Branco, trazendo-os à localidade depois de lutas e mortes(AHU – Piauí – Cx. 6. D. 387).
De fato, em 20 de setembro do referido ano de 1759, foi instalada a Capitania do Piauí, com a posse de seu primeiro governador, João Pereira Caldas, filho de Gonçalo Pereira Lobato e Souza, governador e capitão-general do Maranhão, já referido nestas notas. Então, indicado pelo pai, em princípio do ano de 1760, João Pereira Caldas encarrega o capitão João do Rego Castelo Branco de continuar perseguindo os indígenas de São Félix da Boa Vista e trazê-los de volta ao aldeamento, cuja missão é cumprida com êxito.
Satisfeito com o resultado da diligência o governador vai provê-lo na patente de tenente-coronel de cavalaria auxiliar e encarregá-lo de organizar e comandar o mesmo regimento. Era a mais alta patente entre os militares piauienses, sendo nomeado e sentando praça em 6 de dezembro de 1761, cujo ato foi confirmado por El Rei em 7 de outubro do ano seguinte(Arquivo Público do Piauí. Códice 162. P. 1v/30v). Todavia, o cargo não era remunerado com soldo, sendo-lhe dada em recompensa a administração de uma fazenda do Real Fisco, que fora confiscada aos jesuítas, como sucessores de Domingos Afonso Sertão. Sobre essa escolha disse o governador: “encontrei o homem certo para o lugar certo” – Mons. CHAVES.
Em face da guerra que se travava na Europa, de Portugal contra Castela e França, foi o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco designado pelo governador para guarnecer as barras do rio Parnaíba e do braço dele chamado Igarassu, por serem considerados lugares mais expostos a invasões. Por isso, mais dignos de vigilância. Desta forma, entre o mês de outubro de 1762 e junho de 1763, esteve comandando um competente corpo de tropa de cavalaria e de ordenança, de atalaia no litoral do Piauí, nas praias que ficam na ponta da ilha que jaz entre duas das sobreditas barras, com os olhos fixos no mar à espera do inimigo. Aí permaneceram por oito meses seguidos, alojados em barracas de palha por eles construídas, comendo carne de gado sequestrado das fazendas dos herdeiros de José de Abreu Bacelar e peixes e mariscos pescados no delta pela soldadesca. Felizmente, foi autorizado seu retorno a Oeiras, em face da paz celebrada entre os contendores, em fevereiro deste último ano, mas a eles só chegando a comunicação naquele mês. No regresso foi deixando alguns soldados em seus destacamentos de Parnaíba, Piracuruca e Campo Maior(Arquivo Público do Piauí. Códice 146. P. 84v/86. 117).
De retorno a Oeiras, não tem descanso o comandante João do Rego, logo reorganizando sua tropa para nova missão militar. Desta feita, seria o combate aos índios Guegués e Timbiras, no sul do Piauí e Maranhão, seus velhos conhecidos. Durante todo o restante do ano e princípio do seguinte foi ação principal do governo a requisição de indígenas e soldados, aquisição de armas e munições, assim como arrecadação dos mantimentos de boca. Então, em 7 de abril de 1764, parte à frente de seu comando para a vila de Jerumenha, onde o esperavam diversos soldados com alguns alqueires de farinha. Dali mandou uma parte da tropa, com mantimentos, armas e munições estabelecer arraial militar na boca do rio Uruçuí, conforme as instruções recebidas. E se dirigiu para Pastos Bons, no Maranhão, onde reuniria mais alguns soldados e os índios aliados do arraial de São Félix, que os esperavam. Entretanto, logo que saiu da vila de Jerumenha em busca da passagem do Parnaíba, donde atingiria Pastos Bons, entre este rio e o Gurgueia, teve o primeiro encontro com a nação Guegués, que no dia antecedente tinha atacado a casa e fazenda do vereador Antônio de Siqueira Barros, ferindo vários escravos. Então, depois de renhida peleja, sofre essa nação as primeiras baixas, refluindo, em seguida, para as terras dos Timbiras, onde João do Rego os alcança novamente, combatendo-os pela segunda vez e infligindo-lhes severas baixas. Resgata-lhes duas mulheres cristãs, cativas desta nação há mais de nove anos. Nessas duas pelejas se fizeram alguns prisioneiros, ficando diversos mortos na mata, para pasto das feras.
E por executar as instruções que levava do governador, se une em Pastos Bons à tropa do capitão José Nunes Maltez e prossegue a guerra contra a nação Timbira, nela empregando as forças militares com o desvelo de cinco meses, infligindo-lhes severas derrotas e grandes carnificinas, praticamente dizimando-a.
Sobre esse assunto é imprescindível o depoimento do historiador Odilon Nunes:

         “Com os primeiros dias de agosto começam a chegar a Oeiras levas de prisioneiros que eram logo remetidos para S. Luís, ficando no Piauí apenas as crianças que eram distribuídas entre os moradores da capitania.
‘Antecedeu a todos o Ten. João Rodrigues Bezerra, com 143 presas combalidas de cansaço e fome, prestes e morrer, e João Pereira Caldas diria a João do Rego que foram os que unicamente escaparam do maior número com que V. M.ce o expediu.
‘Novos grupos chegam a Oeiras, desfalcados pela desídia e impiedade dos preadores. Ao todo, uns trezentos e cinquenta prisioneiros, excedendo de muito o número dos mortos. No primeiro recontro, aprisionaram 183 pessoas, e deixara-se quatrocentos mortos e feridos que ficaram no campo por aqueles matos” (NUNES, 1975: 114-115).

Insatisfeito com esses sucessos, de regresso em fins de outubro, ainda tenta continuar a guerra com os Guegués, fazendo-lhe algumas perseguições. Porém, o inverno que se avizinhava lhe atalhou os passos, deixando o inimigo assaz enfurecido(Arquivo Público do Piauí. Códice 146. P. 193-195; Códice 147. P. 15v-16v).
Na mesma ocasião, uma tropa que saiu de Parnaguá, com cem homens, cinquenta a menos que a de João do Rego, e sob o comando do capitão Manoel de Barros Rego, para bater as matas entre os rios Uruçuí e Balsas, nada conseguiu, sendo infrutífera a missão.
Novamente, em princípio do verão de 1765, o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco parte com sua tropa no cumprimento da luta e conquista dos Guegués, que, em represália ameaçavam a vila de Jerumenha. Depois de tomadas todas as medidas preparatórias, na segunda quinzena de maio está o tenente-coronel novamente no mato em busca dos indígenas. Apoiado no arraial ou presídio que fundara na foz do rio Uruçuí, onde hoje existe uma cidade de mesmo nome, sem muita demora trava contato com os Guegués na margem ocidental do rio Uruçuí, ainda no final de junho, aprisionando alguns deles. Logo mais, em 3 ou 4 de julho, contando com o auxílio do índio cristão do arraial de São Félix, Manoel de Matos,  que era da mesma nação, conseguiu firmar paz com os Guegués, descendo com 434 deles, que chegam à vila de Jerumenha em 9 de outubro, logo mais alcançando Oeiras e fundando o arraial de São João de Sende, em 29 de novembro de 1765, nove léguas ao norte daquela cidade. Ainda hoje ali existe uma povoação de mesmo nome, no atual município de Tanque do Piauí, que recentemente foi desmembrado de Oeiras. Foi João do Rego Castelo Branco quem implantou o aldeamento, fazendo construir os edifícios necessários, a capela e os primeiros roçados, permanecendo como seu diretor, com pequeno interregno, até setembro de 1772, quando partiu para a conquista dos Acoroás. Foi sucedido na administração do lugar pelo filho Antônio do Rego Castelo Branco.
Em 1771, no governo de Gonçalo Lourenço Botelho de Castro(1769 – 1775) tem início a conquista dos índios Acoroás(Akroá). É novamente João do Rego Castelo Branco nomeado comandante da tropa de conquista. Devido às constantes queixas dos moradores do termo de Parnaguá, foi organizada nova campanha contra os mesmos, composta a tropa por 150 homens, entre esses diversos índios Jaicós e Guegués. Partiram de Oeiras no final do inverno, dirigindo-se pelo termo de Pastos Bons e vale do Balsas. Encontraram os Timbiras, aprisionando 124 deles e os enviando ao governador, escoltados por alguns soldados da tropa. Por não virem acorrentados como índios guerreiros desvencilham-se a caminho, fugindo cerca de vinte indígenas.
Mais tarde, em princípio de setembro, consegue surpreender e aprisionar uma maloca de 74 Acoroás, remetendo-os para Oeiras, pelo capitão Ignácio Paes Maciel. Continuando em sua marcha alcança o vale do rio Tocantins, onde novamente surpreende uma maloca da mesma nação, aprisionando 104 deles, em sua maioria mulheres e crianças, uma vez que os homens conseguiram fugir para as montanhas. Conta-se que foram surpreendidos ao romper do dia, ao tempo em que se achavam entretidos com a sua dança, e que era esta a única hora que tinham de divertimento. Então, vendo os homens que nação os conseguiram seguir, suas mulheres e filhos, combinaram descer seu cacique Bruenque que, enfim, após algum entendimento, aceitou a proposta de paz formulada por João do Rego. Consistia esta na imediata remessa para Oeiras de 97 índios, libertando-se 7 daqueles presos. E em razão do inverno que se avizinhava, no descimento para o mês de abril do ano seguinte, de outra aldeia vizinha e também do resto da gente que em diversas malocas ficou dispersa pelo mato, a fim de viverem na mesma Capitania estabelecidos.
Dessa forma, em princípio do verão de 1772, Bruenque, à frente de sua tribo, abandona as terras do Tocantins e é conduzido ao Piauí, satisfazendo o compromisso assumido. No mês de julho, nos subúrbios de Oeiras, arrancham-se 876 Acoroás. Logo mais chega o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco com mais 190 indígenas da mesma nação, totalizando 1237 Acoroás, acertando com o governador estabelecê-los numa mata do Poti, certamente onde hoje se localiza a cidade de Teresina. Porém, a caminho se enamora de uma mata nas cabeceiras do riacho do Mulato, ainda no termo de Oeiras, aí os estabelecendo em virtude de verificar a existência de seis léguas de terreno fértil. Era 26 de setembro de 1772, quando foi fundado o aldeamento de São Gonçalo de Amarante, hoje cidade de Regeneração. João do Rego, novamente implanta a estrutura mínima com construção de edifícios, capela e roçados iniciais, assumindo a direção do lugar.
Porém, em face da grande quantidade de bocas e escassez de alimentos começou a reinar a fome, pois foi escassa a ajuda do governo. Então, os indígenas abandonam o aldeamento em fuga na noite de 21 para 22 de janeiro de 1773, o que se repetiu na noite de 2 de abril. Buscavam suas antigas moradas. Contudo, sob o comando do diretor João do Rego grande foi a repressão e mortandade no combate às deserções. O velho militar permaneceu na aldeia castigando os que ficaram ou iam sendo remetidos pelos soldados. Entregou a campanha pelo sertão ao filho Félix do Rego Castelo Branco, em benefício de quem Botelho de Castro mais tarde pede favores elogiando-o. Depois dessa repressão restaram apenas cerca de 380 indígenas, tendo alguns conseguido fugir, porém, a maior parte sendo chacinada. Desde então, João do Rego Castelo Branco, já velho e cansado, com princípio de cegueira, permanece na missão de São Gonçalo, tocando as obras necessárias para sua implantação, à custa da Real Fazenda, inclusive o edifício da igreja. Em 1774, ainda orientou o filho Félix do Rego na infrutífera campanha de recaptura de alguns Acoroás desertores. Nesta campanha, mesmo indo até às margens do rio Tocantins, não encontrou as presas desejadas, mas aprisionou mais de 150 Timbiras, que foram enviados em sua maioria ao governador. João do Rego permanece na direção do aldeamento até o final de agosto de 1777, quando é interinamente substituído pelo filho Félix do Rego.
Com o afastamento do governador Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, que retornou ao reino, em 1º de janeiro de 1775, assume em seu lugar uma Junta Trina de Governo presidida pelo ouvidor-geral Antônio José de Moraes Durão, e tendo por membros o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, portador da mais alta patente militar e o vereador mais velho do Senado da Câmara de Oeiras, capitão-mor Domingos Barreira de Macedo, este último sendo substituído no ano seguinte por José Esteves Falcão. Em face da amizade de João do Rego com o antigo governador, de que Durão era inimigo, logo começou a azedar a convivência dos membros no governo interino. Então, desde 11 de janeiro de 1776, João de Rego abandona o governo e se afasta para o lugar de São Gonçalo, onde também era diretor. À vista disso, em pouco tempo começa uma correspondência acre entre os dois, a despeito de assuntos corriqueiros.
Mesmo afastado dos trabalhos no governo interino, somente em 12 de junho de 1777, foi substituído pelo capitão de dragões Fernando José Velozo de Miranda e Souza, oficializando, assim, sua saída do governo do Piauí. Porém, com a morte do rei Dom José e queda do Marquês de Pombal, assim como injunções de João do Rego, o bacharel Antônio José de Moraes Durão é afastado do governo e preso em 3 de dezembro do mesmo ano. Estava, assim, restaurado o prestígio da família Rego Castelo Branco no Piauí.
Durante todo o restante de sua vida o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco ficou ligado a esses dois últimos aldeamentos indígenas. Em 1778, foi nomeado inspetor das duas aldeias, com autoridade superposta à dos diretores. Em 9 de julho de 1778, porque insistisse em extinguir o aldeamento de São João de Sende e levar os indígenas dali para São Gonçalo, fogem os mesmos, sendo trazidos de volta ao lugar. Ainda assim em dezembro do mesmo ano já estavam alguns homens da aldeia estabelecidos em São Gonçalo, dividindo-se, então, a aldeia dos Guegués.
Em 12 de setembro de 1779, João do Rego manda transferir à força todos os indígenas de São João de Sende para o aldeamento de São Gonçalo. Porém, no feriado do Natal daquele ano, entre cinquenta e sessenta indígenas retornaram sem consentimento ao seu antigo aldeamento. Foram então trazidos de volta, à força, por ordem do diretor João do Rego. Contudo, às margens do riacho do Bacuri, provavelmente o atual riacho do Jacaré, em 8 de janeiro de 1780, os indígenas conseguiram libertar-se de um libambo de couro ao qual vinham presos, embrenhando-se na mata. Perseguidos pelo ajudante Félix do Rego e seus soldados, são recapturados e quatro deles degolados, tendo as cabeças enfiadas em postes no centro da aldeia de São Gonçalo para terror dos demais indígenas. Tudo respaldado pelo tenente-coronel João do Rego Castelo Branco. O assunto foi objeto de devassa, sendo condenado João do Rego, seu filho e alguns auxiliares, tendo o primeiro assumido espontaneamente as responsabilidades. Posteriormente, foram perdoados por ato do general do Estado D. Antônio de Sales e Noronha e sentença do ouvidor do Maranhão, Julião Francisco Xavier da Silva Siqueira Monclaro(AHU. Cx.24. D. 1246).
Em 1779, mesmo completamente cego, João do Rego Castelo Branco, auxiliado pelo filho Antônio do Rego, ainda enfrenta penosa e infrutífera campanha contra os índios Pimenteiras, perlustrando as cabeceiras do rio Piauí. Como resultado desse esforço redigiu um interessante Diário.
O tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, mesmo velho e cego, ainda retornou à administração do aldeamento de São Gonçalo em diversas oportunidades(de setembro a dezembro de 1777; pela terceira vez, de 18.8.1784 a 6.10.1788; quarta vez, de 4.6.1792 a 12.8.1793; e, finalmente, pelo quinto e último período, de 7.10.1795 a 1798, quando foi afastado pelo governado D. João de Amorim Pereira). Pode parecer estranho e contraditório, mas tinha o respeito e estima da maioria dos indígenas do lugar.
Faleceu no estado de viúvo, em sua residência, na cidade de Oeiras, vítima umas febres, às 11h da manhã de 7 de agosto de 1800, com 81 anos de idade, sendo assistido pelo padre Cosme Damião da Costa Medeiros, e o corpo sepultado na capela de N. Sra. do Rosário, da mesma cidade, do seu cruzeiro para dentro.
Segundo informação constante no Censo Descritivo do Piauí, realizado em 1762, João do Rego possuía cinco filhos, sendo dois varões e três varoas. Todavia, conseguimos localizar o nome de apenas quatro destes, a saber: 1. Ajudante Antônio do Rego Castelo Branco, foi casado com Ana Joaquina de Menezes e foram pais de um único filho, o capitão-mor João Nepomuceno de Castelo Branco; 2. Ajudante Félix do Rego Castelo Branco, casado com Joana Angélica de Menezes, irmã da precedente, esta ainda existindo em 1818, deles descendendo os Marreiros de Castelo Branco; 3. Ana Pulchéria do Monte Serrate Castelo Branco, que contraiu dois matrimônios, respectivamente, com seu primo Antônio José Leite Pereira de Castelo Branco e, depois, com o capitão Antônio Pereira da Silva(2.º casamento deste), com ilustrada descendência nos dois leitos; por fim, Joana Angélica Dorotéa Castelo Branco, casada com seu primo, o capitão Pedro Luiz de Abreu Bacelar, irmão do primeiro esposo de sua irmã.
A vida de João do Rego Castelo Branco foi muito densa e ocupa uma página interessante da história piauiense, merecendo estudo mais aprofundado. É bastante controverso, suscitando debates acalorados, sendo muito maltratado pelos historiadores piauienses. Cometeu excessos, é verdade, contudo agiu sempre a serviço do Estado, sendo quase sempre exaltado pelas autoridades e recebendo diversas homenagens em seu tempo. Paralelamente, foi um construtor de povoações e cidades, edificador de templos religiosos, devoto católico, organizador de forças armadas, defensor do território pátrio e, assim, detentor de larga folha de serviços prestados à coroa e a pátria. Infelizmente, executando a política de sua época, com alguns lamentáveis excessos, também escreveu uma página que melhor seria se não existisse. Ao público de hoje, com a maior isenção possível, está aí a revelação de uma densa trajetória de vida.
Que cada um faça o seu juízo de valor.
* A fotografia que ilustra a matéria foi tirada na década de cinquenta, sendo da Praça São Gonçalo,  vendo-se o antigo mercado público, na cidade de Regeneração(PI), cujas raízes assentam no aldeamento indígena fundado pelo tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, em 27.9.1772.

(Excerto do livro ainda inédito: MIRANDA, Reginaldo. Piauienses notáveis. Teresina: APL, 2017).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Fonte: Google

CUNHA E SILVA FILHO: ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO

Gilvaldo Quinzeiro

O escritor, ensaísta e crítico literário Cunha e Silva Filho concedeu uma entrevista a Sky Culture e-Magazine. Nesta entrevista, Cunha e Silva Filho, que também é Pós-Doutor em literatura brasileira, fala, além do seu mais recente livro; de Ferreira Gullar, Adailton Medeiros, da literatura piauiense e da atual conjuntura política brasileira.

Cunha e Silva Filho é piauiense de Amarante, mas hoje reside no Rio de Janeiro. Confira a entrevista.


Sky Culture e-Magazine: Quem é Francisco da Cunha? Fale-nos também da sua atividade cultural.

Cunha e Silva Filho: Sou um escritor nascido em Amarante, Estado do Piauí, que, atualmente, vive de escrever sobre gêneros diferentes: crônicas, ensaios, crítica literária, resenhas, traduções de poesia, memórias e temas relacionados à política nacional e internacional. Uso o nome literário Cunha e Silva Filho na minha produção acadêmica e fora da academia.
      Por influência paterna, fui, ainda adolescente, levado a escrever sobre literatura em jornais de Teresina, capital do Estado do Piauí. Em 1964, deixei Teresina para estudar Medicina no Rio de Janeiro, mas logo mudei meus planos e decidi ingressar no curso de Letras (Português-inglês) da antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Paralelo a isso, continuava a enviar artigos para jornais de Teresina. Ingressei por concurso de provas e títulos no magistério municipal e estadual do Rio de Janeiro, lecionando português, literatura brasileira e inglês. Mais tarde, voltei à Universidade Federal do Rio de Janeiro para fazer Mestrado em Literatura Brasileira, em seguida, Doutorado em Literatura Brasileira e, finalmente, Pós-Doutorado em Literatura Comparada.
      Fiz novamente concurso de provas e títulos para a disciplina de língua Inglesa do centenário Colégio Militar do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, fui lecionar Literatura Brasileira e Língua Inglesa no curso de Letras e de Comunicação e Jornalismo da Universidade Castelo Branco, Rio de Janeiro. Foram longos anos de magistério médio e uma década de superior. Atualmente, estou aposentado da atividade docente, mas, sempre que possível, publicando livros, prefácios, traduções, crônicas, artigos em blogs, sites, jornais e revistas culturais .

Sky Culture e-Magazine: Qual o seu gênero literário? Quais obras publicadas?

Cunha e Silva Filho: Segundo afirmei na pergunta anterior, utilizo mais de um gênero literário na minha atividade escrita.. Além de outros livros coletivos, tenho as seguintes obras publicadas: Da Costa e Silva: uma leitura da Saudade. Teresina: Academia Piauiense se de Letras/ Universidade Federal do Piauí, 1996; As ideias no tempo (Teresina: Gráfica do Senado Federal/Academia Piauiense de Letras, 2009); Breve introdução ao curso de Letrasuma introdução (Rio de Janeiro: Litteris Ed: Quártica, 2009); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica, 2016). Por outro lado, devo assinalar que disponho de um vasto número de textos publicados em jornais, revistas no meu Blog “As ideias no tempo” e no site de literatura “Entretextos”, coluna “Letra Viva”, que, organizados, me renderiam pelo menos mais alguns livros.

Sky Culture e-Magazine: Atualmente, o Senhor está se dedicando a escrever algum livro? Se sim, fale-nos um pouco a respeito. Tem previsão de lançamento?

Cunha e Silva Filho: A par dos livros publicados referidos atrás, tenho quase prontos, faltando apenas organização final, as obras: As duas face da literatura: ensaios de literatura brasileira),Poemas traduzidos, Ensaios de literatura de autores piauienses,Poliedro de insânias (crônicas e artigos). Pretendo também publicar Tese de Doutorado, de título O conto de João Antônio: na raia da malandragem, meu ensaio de pesquisa de Pós-Doutorado, de título Álvaro Lins e Afrânio Coutinho: dois críticos e uma polêmica (2014). Não obstante estar escrevendo sempre no meu Blog “As ideias no tempo” e no site “Entretextos”, direção do escritor Dílson Lages, coluna ”Letra Viva,” alguns textos postados nesses dois espaços virtuais são postados também no site www.academia.edu., - Francisco da Cunha e Silva Filho.
      Obviamente, todos os livros inéditos já referidos estão esperando para serem editados.. Não sei se serão editados. Por outro lado, nutro o desejo de escrever mais ensaios sobre literatura brasileira ou mesmo de literatura estrangeira, assim como continuar fazendo mais traduções de poesia. Não vou parar por falta de editores. Ficaria, sim, regozijado se essas obras viessem à luz. É impensável a ideia de parar de escrever, que é o que conta para qualquer escritor.

Sky Culture e-Magazine: Como o Senhor vê a atual produção literária brasileira? Há algum autor ou obra que o Senhor destacaria?

Cunha e Silva Filho: O país está em crise financeira, porém, apesar disso, a literatura continua sendo produzida e muito, seja custeada pelos autores, seja editada pelo mercado, instituições culturais, convênios, fomentos, editoras universitárias e outros meios, dentro os quais os blogs, os e-books, os sites. Sei que o número é grande, todavia, no entanto, posso afirmar ser de alta qualidade. 
      Os autores se multiplicaram por toda a parte do país. São muitos e muitos jovens escritores com projetos de manter-se em atividade, seja na ficção, na poesia, no ensaio. Nesta entrevista, vou puxar a brasa para a minha sardinha. No Piauí, por exemplo, estamos assistindo a uma movimentação intensa e jamais vista de novos autores, poetas, romancistas, contistas, ensaístas e críticos literários. Muitos deles incursionam por mais de um gênero literário. Este impulso formidável que os autores piauienses tiveram deveu-se, em grande parte, à criação das universidades federal, estadual e privada, espalhando-se por campi fora da capital e aumentando, desta maneira, o número de alunos que ingressam no ensino superior e, por consequência, aumentando o quadro de professores contratados ou concursados, muitos vindo até de outros Estados brasileiros.
      Ademais, com a criação local de cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu, a melhoria da qualidade do ensino se fez notar com o tempo. Outro fator determinante do avanço no campo da literatura piauiense foi o surgimento de editoras locais que começaram a editar livros dos autores piauiense, tanto obras literários quanto ensaios e, em menor número ainda, livros didáticos para o ensino médio e universitário. Citaria, por exemplo, da atualidade os poetas Luiz Filho de Oliveira, Nathan Sousa, o ficcionista Rivanildo Feitosa, o contista Milton Borges, o ficcionista, poeta e ensaísta Dílson Lages Monteiro, o ficcionista e ensaísta Halan Silva, as ensaístas Terezinha Queiroz, Raimunda Celestina Mendes da Silva, os poetas e ensaístas Wanderson Lima, Ranieri Ribas, o poeta Adriano Lobão, o ensaísta João Kennedy Eugênio, a romancista Socorro Abreu, a ficcionista Lara Larissa, o contista Geovane Fernando Monteiro, o poeta, cronista e jornalista Zózimo Tavares, o poeta Élio Ferreira de Sousa, entre os mais moços ou pouco menos moços.
      Dos mais velhos ou menos velhos podem ser nomeados o veterano e nacionalmente respeitado Assis Brasil, romancista notável, crítico literário, historiador da literatura brasileira, dicionarista teórico, autor didático da literatura brasileira, com vários livros de literatura infanto-juvenil, o ficcionista O. G. Rego de Carvalho, o romancista Fontes Ibiapina, o contista Magalhães da Costa, o ficcionista e ensaísta Esdras do Nascimento, o ficcionista Castro Aguiar ( infelizmente, abandonou a carreira literária), o contista, romancista e memorialista José Ribamar Garcia, o ficcionista e crítico literário Humberto Guimarães, a romancista Rita de Cássia Amorim Andrade, o romancista Homero Castelo Branco (também memorialista), o romancista, dicionarista literário, historiador, autor didático, poeta, contista, cronista, o ficcionista Oton Lustosa, contista e romancista, Rosa Kapila, contista e romancista, entre outros.
      Dos poetas menos novos, contudo ainda não velhos, mencionaria, entre outros, Herculano Moraes (também poeta e conhecido historiador literário), o poeta e cronista e divulgador de autores mais novos Cineas Santos, Elmar Carvalho (também ficcionista, cronista, contista e memorialista), o poeta, teatrólogo e divulgador cultural Virgílio Queirós,o poeta, contista e ensaísta José Bezerra Filho, o poeta, ensaísta, crítico literário e historiador literário Alcenor Candeira Filho, o poeta tropicalista Torquato Neto, Rubervam Nascimento, Carlos Alberto Gramoza, Paulo Machado, Carvalho Neto, a poeta Graça Vilhena, o incansável pesquisador cultural Kenard Kruel, entre muitos outros autores dignos de estudos
      Entre os mais velhos ou não tão velhos, ainda se encontram em atividade, maior ou menor, o ensaísta (geralmente de viés filosófico), jurista e memorialista Celso Barros Coelho, o crítico literário M. .Paulo Nunes, o jornalista e ensaísta Carlos Said (incansável divulgador da literatura piauiense), o ensaísta, poeta e ficcionista Francisco Venceslau dos Santos, o ensaísta Fabiano de Cristo Rios Nogueira, o ensaísta Jose Carlos de Santana Cruz, a ensaísta Maria do Socorro Rios Magalhães, a ensaísta Maria Gomes de Figueiredo dos Reis, o ensaísta, ficcionista, cronista, e autor didático sobre língua latina, Carlos Evandro Eulálio (grande estudioso do poeta Mario Faustino) o poeta e ensaísta Hardi Filho (falecido não faz muito tempo), o poeta, cronista, contista, romancista, crítico literário e historiador literário Francisco Miguel de Moura, entre outros.
      Quanto a novos ou menos jovens autores que já foram consagrados nacionalmente, a minha primeira intenção era não mencionar nenhum por enquanto, já que parte das minha pesquisas se volta mais para autores mais velhos, bem velhos ou já falecidos. Contudo, entre os novos e um pouco menos novos, a literatura brasileira pode contar com um grande número de nomes já com sucesso ou a caminho do sucesso.
      Entretanto, para não dizer que não mencionei alguns autores com maior reconhecimento nacional na ficção, teríamos, entre outros, os nomes Godofredo de Oliveira Neto, romancista e ensaísta, Bernardo Carvalho, João Gilberto Noll, Milton Hatoum, Luiz Rufatto, Patrícia Melo, Michel Laub, Marcelino Freire, Ana Miranda, Cristovão Tezza, Paulo Lins, Adriana Lisboa, entre muitos outros que aí estão experimentando novas linguagens, novos temas, novos desafios e caminhos para a literatura brasileira.
      Na poesia, sendo a quantidade de autores muito grande, novas vozes poéticas se cruzam com vozes mais experientes num profusão de nomes, muitos bons ou ótimos, outros apenas desejosos de parecerem poetas mas que não trazem nenhuma novidade nem originalidade a seus versos.
      Contudo, podemos pensar em nomes como os de Alexei Bueno, Armando Feitas Filho, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Glauco Mattoso, Paulo Leminski, Torquato Neto, Bráulio Tavares, Francisco Alvim, Geraldo Carneiro, Chacal, Sebastião Uchoa Leite, Lélia Coelho Frota, Nelson Ascher, Ivan Junqueira, Adélia Prado, Bruno Tolentino, Regis Bonvicino, Paulo Henrique Britto, Duda Machado, Age de Carvalho, Salgado Maranhão, Eucanaã Ferraz, e tantos outros poetas, cada qual fazendo a sua própria caminhada poética e indiferentes aos antigos grupos, manifestos, teorias poéticas, novas vanguardas, quer dizer, uma poesia que pode permanecer a despeito de marcos temporais, além dos ismos. Porém, sem perder o pé consciente no legado da tradição literária constituída pelos grandes poetas brasileiros do passado, tradição esta que, por sua vez, está associada à grande tradição literária universal, sobretudo do Ocidente.

Sky Culture e-Magazine: Recentemente perdemos o poeta Ferreira Gullar, sobre o qual o Senhor escreveu. Qual a importância de Ferreira Gullar? O que significa a morte de Ferreira Gullar para a literatura brasileira?

Cunha e Silva Filho: Depois de alguns livros consagrados (A luta corporal, O poema sujo) pela crítica especializada, o poeta Ferreira Gullar, no meu juízo, passou a ser conhecido nacionalmente por dois motivos fundamentais: o primeiro motivopor ter sido o principal teórico e mentor do chamado movimento neoconcretista (1959) da poesia brasileira; que foi a dissidência diante do Concretismo de 1956, quando retomou para a poesia a valorização do discursivo e não do meramente vanguardismo subversor do verso de corte tradicional da geração de 45. 
      O geometrismo, o espacialismo, a atomização ou desarticulação vocabular, o trinômio verbo-voco-visual concretista já apresentava o desgaste desse tipo de poesia espácio-visual-semântico, que - não se pode omitir este fato -, deixou algumas marcas, sobretudo, no espaço da página em branco das formas poéticas que se lhe seguiram. Gullar soube discernir uma forma de poesia renovadora que poderia dar certo sem se submeter aos poemas gráficos e geométricos. Não se poderia permanecer indefinidamente imitando o espaço branco da página lembrando formas figurativas, tipográficas. A poesia é também sintaxe, sentido e vida. Alia as formas de desvios semânticos, sonoros e rítmicos, sem necessariamente ficar presa ao visual-espacial-geométrico.
      O que importa é o poema bem realizado e esteticamente inovador. Daí também ter sido Gullar um crítico ácido a tudo aquilo que, nas formas da pintura, por exemplo, ou nas artes plásticas em geral, se apresentasse ao público como objeto artístico, como obra de Arte, como foi o exemplo do urinol e Marcel Duchamp exibido no Salão dos Independentes em Nova Iorque (1917).
      O segundo motivo fundamental na sua atividade de escritor, de crítico de arte e de cronista se assenta na sua visão política, a qual sofreu igualmente um processo de mudança, de um esquerda na mocidade, passou a ser, na maturidade e velhice, um crítico corrosivo e implacável da esquerda brasileira, mas sem aderência e submissões aos exageros e danos do capitalismo selvagem ou às falácias de uma direita contra qual também dirigiu sua crítica e desta mostrou seus erros e vícios crônicos sempre com coragem e uma certa rebeldia. Que tanto me agradavam como leitor cativo de sua crônicas.
      Não houve nele retrocesso nem no campo ideológico nem no das artes em geral. Talvez, conforme insinuou na última crônica tratando da questão da arte publicada na sua coluna de domingo daFolha de São Paulo, estivesse esperando por uma nova arte, uma nova linguagem, não simulacros ou contrafações sem valor algum do prisma artístico.. Procurou a beleza das formas bem arquitetadas, sem, entretanto, negar a tradição, que ensina, e sem se render à mesmice no domínio do poético.

Sky Culture e-Magazine: O Senhor foi amigo do poeta Adailton Medeiros? O que o Senhor tem a nos dizer sobre Adailton Medeiros?

Cunha e Silva Filho: Francamente, diria que conheci o poeta Adaiton Madeiros, nascido em 1938, em Angical, Caxias, Maranhão, mais do ponto de vista da amizade do que mesmo como poeta lido em profundidade.. Era meu intento pelo menos estudar sua poesia em trabalho de maior fôlego. O que li dele como poeta e como ensaísta foi suficiente para reconhecer-lhe os méritos.). Adailton Medeiros se distinguia também como um dicionário ambulante da vida literária brasileira. Conhecia os bastidores de muita gente, sobretudo dos mais velhos da vida literária nacional.
      No entanto, sua participação nos movimentos de vanguarda se deu por ter aderido ao movimento poesia-práxis (ou praxismo) proposta poética revolucionária que, a partir de 1962, ano de seu aparecimento, no geral, se opôs a todo o passado da poesia brasileira, sem, é claro, descartar alguns traços das outra vanguardas precedentes. Seu teórico maior foi o poeta Mario Chamie, com o livro-chave do movimento Lavra lavra (1962) Sua orientação teórica se fez em torno da revista Práxis, a qual publicava os poemas do grupo.. Como o Neo-concretismo, teve viés social e popular. Aproveitou as contribuições advindas dosmass media, mas recusa a armadura mecanicista do Concretismo.
      Emprega amiúde os vocábulos dispostos em forma de linhasignos (ou linossignos), os recursos da teoria da informação.Seus poemas,visualmente, procuram uma disposição gráfica do poema numa leitura horizontal, vertical, cruzada, necessitando para tanto da colaboração do leitor. A poesia-práxis não subestimou o valor do verso, da semântica.Assim, não perdeu seu valor estético, emotivo, significativo e humano..Adaílton Medeiros publicou os seguintes livros de poesia: O sol fala aos sete reis das leis das aves ( (1972); Cristó-vão Cristo: Imitações (1976); Lição do mundo ( Rio de Janeiro: Edição-7, 1992); Bandeira vermelha ( Editora Caetés, 2001), Poema Ser Poética (1982). Em prosa: Braçadas de palmas (discurso, 1981),Floração de Minas (discursos, 1982), Quatro ensaios, in SAMUEL, Rogel. (org.). Literatura básica. Petrópolis,RJ.: Vozes, 1985, v.1) Na ficção: escreveu a novela Revoltoso Ribamar Palmeira (Rio de Janeiro: Matacavalos, 1978).
      Da sua biografia intelectual é curioso acrescer que Medeiros escreveu em poesia sua dissertação de Mestrado, sob o título submetida à Faculdade de Letras da UFRJ e e por esta aprovada de título Poema Ser Poética e mais oito Pré-Textos (Rio de Janeiro:Achiamé, 1982), introdução de Francisco Venceslau dos Santos. Dele verti para o inglês um poema “Sinos,” .extraído do livro Bandeira vermelha (p.78) atrás mencionado. A minha versão foi, posteriormente, publicada na IX Antologia internacional palavras no 3º milênio (São Paulo: Phoenix Editora, 11, Homenagem póstuma, 2010).


Sky Culture e-Magazine: O Senhor esteve recentemente no Piauí, fazendo o lançamento do seu mais recente livro. Fale-nos desse lançamento e do seu livro.

Cunha e Silva Filho: O livro em consideração tem o título deApenas memórias 1.ed. (Rio de Janeiro: Quártica, 2016, 304 p.). O seu lançamento, primeiro, se deu no Rio de Janeiro, depois, o lancei em Teresina, Piauí. Foi um lançamento festivo, em memorável noite de autógrafo, com amigos, escritores e familiares com direito à entrevista concedida ao jornal Diário do Povo, Teresina, Piauí, e entrevista filmada concedida ao jornalista e ficcionista Rivanldo Feitosa da TV Meio-Norte. A apresentação do meu livro ficou por conta do escritor Dílson Lages Monteiro, que escreveu uma substancial introdução lida num momento do lançamento.
      Foi o terceiro livro que lancei em Teresina. A obra dá conta de considerável parte das minhas memórias, desde os primeiros anos da minha infância em Amarante, depois relatos do final da infância da adolescência em Teresina até à minha mudança para o Rio de Janeiro a fim de cursar uma universidade. Nessas memórias, que não são rigorosamente cronológicas, repasso aos olhos do leitor como se deu a minha formação intelectual, iniciada em Teresina e continuada no Rio de Janeiro.
      O mais importante nas memórias foi traçar os tumultuados e aflitivos anos dos meus estudos de Letras na UFRJ realizados durante a ditadura militar enfrentados com coragem, determinação e vontade de sair vitorioso. A minha vida pessoal, em alguns lances que alvitrei escolher como fundamentais ao relatos na obra, adquire toda uma carga de emoção, momentos engraçados e situações desagradáveis, relatos escritos com passagens às quais pudesse imprimir um clima poético com o objetivo de não entediar o leitor com textos demasiado áridos.Suponho que alcancei meus objetivos e oxalá que o leitor tenha fruído com prazer o meu texto.
      Elaborei a obra me utilizando de relatos novos de mistura com textos já publicados em jornais do Piauí, no meu Blog “As ideias no tempo” e em sites que republicavam os textos. Basicamente, pois, é tudo isso que reuni num volume misturando passado presente e futuro. Acredito que o saldo foi positivo, principalmente porque, num estreito círculo de leitores e amigos, o livro mereceu elogios e, até agora, sobre ele saíram quatro resenhas da obra feitas por três especialistas em Literatura. e uma por um experimentado jornalista piauiense. Confesso que Apenas Memórias foi um dos livros que, até à data presente, mais me deu prazer de escrever e organizar. 

Sky Culture e-Magazine: O Senhor escreve também sobre política. Como o Senhor ver o atual momento político do Brasil?

Cunha e Silva Filho: Não é que desprezo a política brasileira, mas, quando sobre ela medito, só vejo à minha frente um cenário sombrio, desesperador, onde campeia sobretudo, além da politicagem, o grave problema da corrupção que ronda quase cem por cento dos políticos, não só dos que estão em Brasília, mas em cada Estado da Federação. Por isso, só posso admirar o que a Operação Lava Jato tem feito a fim de punir efetivamente e afastar de nossa vida pública os maus governantes, os ladrões que infestam o nosso sistema político e os nossos governos. Por tias motivos é que meus artigos têm, em geral, um cunho polêmico, rebelde, satírico, irônico. Não poderia ser de outra forma, já que estão aos olhos perplexos dos cidadãos de nossa Pátria as marcas de desgoverno e da alta corrupção de que foi vítima a sociedade brasileira, pelo menos, de uns quinze anos até à data presente.
      Sinto, todavia, um pouco de alívio quando os políticos, com todos os seus defeitos e com todo um comportamento censurável, depuseram a Sra. Dilma Rousseff do poder e praticamente liquidaram com a hegemonia do lulopetismo que não podia mais governar o Estado Brasileiro.
    Vejo o novo governo Temer, a despeito de nele ainda persistirem políticos que apoiaram o lulopetismo, com a chamada base aliada do PT, com alguma esperança de que os atuais ocupantes do poder repensem os malfeitos e procurem vias de soluções democráticas com uma nova forma de governar menos contaminada de falcatruas e desídias tão recorrentes durante a era petista. Só espero que, com as mudanças que deseja implantar o novo governo não prejudiquem a geração de jovens que ingressaram e ingressam no mercado do trabalho e no setor público.
      No plano internacional, tem sido um objetivo primacial dos meus artigos denunciar os crimes cometidos por ditadores no mundo inteiro, chamar a atenção dos organismos internacionais responsáveis pela segurança dos povos oprimidos, das nações que não respeitam sua sociedade civil, de governos que cometem atrocidades em guerras civis que ceifam milhares de inocentes pelo mundo afora.Enfim, pelo uso da palavra, continuarei a deblaterar os crimes contra a liberdade de expressão, contra o terrorismo mundial, contra os genocídios praticados em pleno século XXI, contra os preconceito de toda espécie, ou seja, meus artigos visam ao desejo de ver o mundo, quer ocidental, quer oriental, com mais harmonia, paz e prática do humanismo – único caminho para se evitar o mal maior a que repugna a consciência dos homens de bem em qualquer parte e em qualquer época.

Sky Culture e-Magazine: Deixe o endereço do seu blog ou site, caso tenha para que os nossos leitores possam acessar.

Cunha e Silva Filho: Meu blog : “As ideias no tempo”

Sky Culture e-Magazine: Faça as suas considerações finais.

Cunha e Silva Filho: Quero agradecer ao entrevistador, escritor Gilvaldo Quinzeiro, pela oportunidade que me propiciou a falar um pouco da minha vida de escritor e de outras facetas resultantes dessa atividade que requer tanto desprendimento e tremendos sacrifícios num pais onde é espinhoso um intelectual conseguir, hoje mais do que no passado, ser visível, sobretudo quando não pertence a grupelhos, igrejinhas ou nichos que, em cada época, tornam mais dificultosa a penetração de alguns autores nos meios editoriais mais mobilizados para os lucros em produções que estejam afinadas com os vários tipos de obras de qualidade, muitas vezes, duvidosa. Não obstante todos esses percalços enfrentados pelo escritor brasileiro, ele não desiste. Sua afirmação como produtor de obras literárias ou de estudos teóricos e críticos se situam acima das mesquinharias próprias do ser humano. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

DOMINGOS DE FUTEBOL NO CURADOR

Central dos anos 80 posando para fotografia no Estádio Adrian Berrospi

José Pedro Araújo
Historiador e escritor

Trato aqui dos jogos disputados lá pelos idos anos sessenta quando as partidas eram disputadas no velho estádio Honorato Gomes (hoje Adrian Berrospi). Modesto campo de futebol que ostentava o nome de “estádio”, cercado de talos de babaçu, bem aparadinhos, juntinhos e em pé para não deixar brechas, em intermináveis cercas de faxina. Era o nosso alçapão no qual, aos domingos, sempre tínhamos time visitante para enfrentar o Central. Nos dias de hoje, fatalmente o chamaríamos de Arena, mesmo não havendo cadeiras para sentar, ou até mesmo arquibancadas, cobertura, essas coisas próprias dos bons estádios de futebol. Assistiam-se aos jogos de pé, disputando espaço na beira do gramado uns com os outros, a cotoveladas.

O campo em si já era uma peculiaridade nossa, pois situado de leste para oeste, possuía uma inclinação um pouco acentuada, ficando a trave ocidental em um ponto muito mais elevado do que outra. E a grama não era a Esmeralda, plantada em estádios utilizados na Copa do Mundo de 2014, era o nosso resistente Capim-de-Burro, perfeitamente adaptado ao nosso meio. Tão adaptado que nem usávamos o artifício da irrigação para mantê-lo sempre verdinho. Também não possuíamos aquelas máquinas corta-grama para apará-lo. O trabalho era feito pelos jumentos vadios que circulavam aos montes pela região. E a demarcação das suas linhas era feita com cinza. Isso, antes que o estádio fosse cercado. Porque depois disso, o trabalho de aparar a grama era feito pelos desportistas que se utilizavam do instrumento mais conhecido na região: a roçadeira manual. E ficava tudo bem, apesar dos muitos claros que se formavam ao longo das chamadas quatro-linhas. A bola corria macia, e isso era o que importava. Um quique da bola aqui, outro lá; uma matada de canela, ou uma escapulida da gorduchinha, quem se importava!

Outra peculiaridade: não se tirava o par-ou-ímpar para a escolha do lado do campo e de quem sairia jogando. O Central sempre jogava o primeiro tempo na descida, deixando ao adversário a única opção de começar o jogo de baixo para cima, subindo a quase ladeira. E isso se mostrava uma tarefa cruciante. Antes que findasse o primeiro tempo do jogo os jogadores do time visitante já estavam com a língua de fora, estafados. E no segundo tempo, cansados ao extremo, nem mesmo o fato de jogarem na descida era suficiente para trazer de volta a vitalidade perdida. E ainda tinha outra particularidade. Devido à falta de costume de jogar em terreno inclinado, os chutes dados na bola sempre encobriam o travessão, tamanha era a inclinação do terreno.

Outra coisa que eu nunca entendi, era porque o nosso estádio ficava ao lado do cemitério da cidade. E isso me levou a perguntar ao meu pai, certo dia, se era para enterrar os jogadores que morriam em campo. Nem vou relatar a resposta aqui nesse espaço. Sempre fui uma pessoa boba. E aos bobos estão reservadas algumas respostas duras.

Pois bem, como nunca tinha dinheiro para pagar as entradas para assistir às partidas, muitas vezes subia nas árvores que existiam dentro do Cemitério para poder ver o espetáculo que se desenrolava logo ao lado. Mas achar um lugar ali também não era tarefa fácil. A disputa era tão acirrada que tínhamos que chegar cedo para encontrar um lugar bem posicionado. E assim, passávamos horas esperando a partida começar sem descer da árvore.

Certo domingo o adversário era a seleção de Barra do Corda. E esse jogo me chamou a atenção mais que os demais em razão da propaganda que se fez ao longo de várias semanas. Era o “Match of the Century”. Bom, já que era isso, não deixei meus pais em paz até conseguir o dinheiro para a entrada. E acompanhei tudo antes do prélio começar. Desde a chegada do caminhão com os jogadores barra-cordenses, até o almoço havido na pensão da dona Maria Antônia, na esquina da Magalhães de Almeida com a travessa Nelson Sereno, não perdi um lance. Fiquei por ali ouvindo as conversas dos craques adversários até um pouco antes da saída deles para o estádio. E o que ouvi deles, suas fanfarronices, me deixou aflito: diziam ganhar a partida de goleada. Facilmente. E já no estádio, minhas preocupações somente aumentaram quando vi adentrar ao gramado o time adversário.

Os jogadores me pareceram muito mais vigorosos do que os nossos. Vestindo uma equipagem composta de camisas alvirrubras, listras vermelhas e brancas, alternadas e na vertical, com calções brancos, tudo novinho em folha, os craques adentraram ao gramado e começaram a brincar com a bola, a fazer firulas, matar no peito e rolar para o colega ao lado, tudo na maior intimidade com a pelota. Ai foi a gota d´água. Temi pela sorte do nosso humilde Central frente a adversários tão confiantes e fortes.

Olhava para os nossos craques com suas surradas camisas e calções encardidos, e já ficava com pena da lavada que iriam levar. Mas ai a partida teve início do jeito que sempre começava, com os visitantes “subindo a ladeira”. Vi também que a intimidade dos barra-cordenses com a bola não era tamanha assim. O lateral e o ponta direita, por exemplo, que corriam rente à torcida que ficava do lado da sombra, mostraram-se uns autênticos pernas-de-pau e logo caíram nas graças da torcida. No sentido pejorativo, é claro. E à medida que as brincadeiras se sucediam, seu pequeno futebol ficava menor ainda. Enquanto o isso, o Central ia marcando gol em cima de gol, enchendo a rede do nosso performático adversário.

Devo dizer que fui um tanto injusto com os nossos craques. Não confiei na sua competência tão largamente já demonstrada nos jogos realizados dentro e fora de casa. Afinal, o nosso craque maior, Chiquinho do Zé Pintor, era um centroavante de faro apuradíssimo para o gol. Com seus petardos indefensáveis, ia derrubando a meta adversária logo no primeiro tempo, e ampliando o placar ao lado do meia-atacante Bolfão. Os dois recebendo bolas açucaradas do meia-armador Albino. Por outro lado, o scratch barra-cordense via suas forças diminuírem a cada minuto que passava e já não conseguia mais atormentar o nosso goleiro como nos minutos iniciais da partida. O segundo tempo foi somente para confirmar a vitória e ampliar o placar conseguido na primeira metade do jogo. Caia no Honorato Gomes mais uma vítima do nosso inclinado campo de futebol de então. 

Lembro-me do resultado da partida como se ela tivesse acontecido hoje: 10 x 1. Os jogadores adversários que chegaram aqui contando tanta vantagem, voltaram para a sua terra mais humilhados que os brasileiros após sofrerem os 7 x 1 para a Alemanha. Outra lembrança que trago comigo daquelas tardes encantadoras de futebol era que as chuvas não nos davam trégua no inverno e caíam com intensidade logo na hora dos jogos. E nessas horas a maior parte da torcida procurava se abrigar nas casas humildes situadas na rua ao lado do campo de jogo. Casas humildes, mas, hospitaleiras, pois recebiam dezenas e dezenas de pessoas, a maioria desconhecidas para eles. E ainda nos serviam água quando pedíamos. Quem pratica atos tão bondosos nos dias de hoje? Somente no velho e bom Curador se podia ver tanta generosidade.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A história da família Pires Lages de Barras

A história da família Pires Lages de Barras (*)

A história da família Pires Lages de Barras
A  família Pires Lages de Barras do Marataoã, um dos grupos familiares pioneiros na ocupação do Norte Piauiense, é o tema do livro Alfredo e Rosa e a Descendência da Esperança, de autoria de Maria do Socorro Lages Gonçalves, cujo lançamento acontece nesta quinta-feira, 22, em encontro familiar, em buffer de Teresina.
Em 140 páginas, a obra é uma homenagem ao avô, o coronel Alfredo Pires Lages, um dos mais ativos e prósperos líderes agropastoris do Piauí na primeira metade do século XX, e à avó, Rosa Rebêlo do Rêgo. Ao contar o cotidiano do avô, a partir da memória de seus descendentes e do espaço físico em que ele viveu, Maria do Socorro Lages Gonçalves reconstrói um pedaço significativo da história da cidade de Barras quando a região era fortemente influenciada pelas antigas fazendas.


 Obra integra Coleção Século XXI, da Academia Piauiense de Letras

Mais que um livro de memórias e de reunião de informações genealógicas, a obra adquire um sentido coletivo ao fornecer um rico painel das famílias que entrelaçadas por laços matrimoniais formam a origem desse que é um dos mais antigos assentamentos humanos do Norte piauiense. Para contar a história de seus avôs, ela percorre a origem dos Lages, dos Rêgo, dos Castello Branco, dos Pires Ferreira, dos Carvalho de Almeida, dos Borges Leal, dos Gomes Rebêlo, uma só gente unida em casamentos sucedâneos.
Alfredo e Rosa e a Descendência da Esperança (a família Pires Lages de Barras do Marataoã) concentra-se principalmente na história da Fazenda Esperança, na Zona da Mata barrense, que pertenceu inicialmente a José Pires Ferreira Neto – também proprietário, entre outras fazendas, da antiga propriedade Boa Esperança, hoje Esperantina. Era sua primeira esposa Maria Joaquina de Jesus Carvalho de Almeida Castello Branco,de quem descende Alfredo Pires Lages, sendo ela uma das filhas de José Carvalho de Almeida, construtor da antiga igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição das Barras do Marataoã, figura de relevo na elevação de Barras à categoria de vila; também pai de Veneranda Francisca Carvalho de Almeida, da qual esse braço da família Pires Lages também descende pelo ramo de Rosa Rebêlo do Rêgo.
Foi a localidade Esperança dote de casamento de Maria da Assumpção Pires Ferreira e Manuel Rodrigues Lages. A fazenda, um dos berços dessa família, exerceu notável influência na vida de Barras ao longo de sua história, revelando figuras notáveis em variadas atividades humanas, na vida do município. O livro destaca, principalmente, as décadas de 1930 e 1940, quando as atividades comerciais exercidas pelo coronel Alfredo e pelo sobrinho Nelson Pires Alves determinaram valores e costumes na região. Traz ainda rica descrição da vida de costumes da propriedade nas décadas de 1950 e 1960. Detém-se a obra, também, em catalogar toda a descendência de Alfredo e Rosa, constituída hoje em 767 descendentes.
 
Fazenda Descuido, berço da família Rodrigues Lages do Piauí
Em prefácio sobre a obra, diz o historiador e romancista carioca de raízes piauienses Gilberto de Abreu Sodré Carvalho: “É um importante trabalho de memorialística. É uma coleta de narrativas de descendentes, de levantamentos genealógicos, de cartas antigas e de fotografias que remetem às pessoas e aos cenários históricos. Maria do Socorro Lages cumpre de forma irretocável, a recuperação do passado em que Barras do Marataoã e o Piauí são o pano de fundo. Fiquei feliz com o resultado de conteúdo e de edição do trabalho. Tudo nele me traz, como por encanto, inteira, a Barras de que ouvi falar aos pedaços na casa de meu pai”.
O livro é o número 10 da Coleção século XXI, da Academia Piauiense de Letras. Este selo editorial, criado pela instituição recentemente, visa favorecer a circulação de livros de gêneros diversos de valor histórico e literário. “Essa nova coleção, que estamos denominando Coleção Século XXI, pretende contribuir com os novos autores, fazendo com que o público conheça o que há de novidade em termos de produção literária e historiográfica local”, diz o presidente Nelson Nery. Alfredo e Rosa e a Descendência da Esperança (a família Pires Lages de Barras do Marataoã) será lançado também em solenidade na Academia Piauiense de Letras no primeiro semestre de 2017 e se encontra à venda na sede da instituição.
 
Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, construída por Joaquim José do Rêgo, um dos antepassados dos Pires Lages 
A AUTORA – Maria do Socorro Lages Gonçalves é natural de Parnaíba. Cursou administração de empresa na UFPI. Funcionária aposentada do INSS, exerceu o magistério no SENAI-PI e na Escola Técnica Federal do Piauí. Reside em Teresina. Para a escritura da obra, contou com a ativa participação de Dílson Lages Monteiro, Maria da Conceição Pires Rosas,  Maria do Socorro Lages Gonçalves, Luzia Maria Lages Fortes Portela, Maria das Graças Lages Nogueira, Isaura Pires Lages da Silveira, Teresinha de Jesus Lages Moreira, Conceição de Maria Lages Gonçalves Bessa, Rosa Maria Monte Lages e Duse Maria Rebêlo Lages da Silveira.    

(*) Fonte: Portal Entretextos

domingo, 1 de janeiro de 2017

Galo

Fonte: Google

GALO

Elmar Carvalho

O galo
navalha as trevas
            e o
silêncio da noite com seu canto
e desperta o sol e o corneteiro
para o incêndio e
o toque da alvorada.