domingo, 22 de janeiro de 2017

Seleta Piauiense - Paulo Véras


Traços noturnos

Paulo Véras (1953 – 1983)

quintal amargando
abrigando velhas fruteiras
sombras, verdes, enormes

morcegos em voos rasantes

frutas se despencando maduras
mordidas, nuas

mormaço arfando
nos troncos calosos

vozes mornas na cozinha

varal vestido de peças várias
mangas, golas, bolsos, laços

pedaços de conversa
na lata de lixo

restos de olhos verdes do gato
na água escura do prato.


(Poemágico – a nova alquimia, 1985)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

SÃO SEBASTIÃO: PADROEIRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO



SÃO SEBASTIÃO: PADROEIRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Cunha e Silva Filho

Salve, Sebastião, hoje no seu dia, que e feriado na Cidade Maravilhosa de São Sebastião. Salvai o Rio de Janeiro! Salve! Protegei a nossa cidade tão necessitada de vossa ajuda, de vosso cuidado, de vossa força. São Sebastião, não só salvai a cidade, os cariocas e todos os que por passem po essa cidade como visitantes, turistas, nacionais ou estrangeiros.


Salvai o Estado do Rio de Janeiro, os fluminenses, os emigrantes, os imigrantes, os refugiados, os que aqui se estabeleceram e ficaram para sempre. Salve São Sebastião! Salvai todos os que têm o Rio de Janeiro no coração!


Ó Sebastião, tende piedade de nós que atravessamos crises diversas em quase todos os setores do governo estadual principalmente. Ó São Sebastião, livrai a nossa cidade dos malfeitores, dos maus políticos, dos que querem afundar o Rio de Janeiro por causa de sua ganância, de sua falta de dignidade e respeito à população. Salve São Sebastião!


Ó São Sebastião, não permitais que os oportunistas, os demagogos, os parasitas do Estado do Rio de Janeiro conspurquem o bom nome sua capital ainda desfruta junto à comunidade mundial Salve São Sebastião!


Ó São Sebastião, afastai todas as mazelas morais, políticas, financeiras que só têm infernizado os habitantes dessa excelsa cidade e deste Estado amado” 


Sei, São Sebastião, que hoje, no seu dia tão esperado e digno de tantas honrarias, haveis de olhar pelo aflições por que passamos todos os que convivemos sob a sua proteção e as suas energias.


Não só olheis para o Rio da Zona Sul, a área da Barra da Tijuca, do Recreio dos Bandeirantes mais bem cuidados e servidos, mais cantado em prosa e verso por seus cronistas, poetas e letristas. Olhai também e com o mesmo desvelo para a Zona Norte, para os subúrbios ( muitas vezes esquecidos), para as periferias, para as comunidades sofridas e humilhadas. Olhai pela nossa saúde, nossa moradia, nosso transporte, nossa educação, nosso lazer, Livrai de nós os violentos, os criminosos, os homens maus. Desterrai para bem longe os traficantes, curai os drogados, olhai pelas nossa crianças, sobretudo pelas mais carentes.


Não permitais que os malfeitores nos espreitem e nos matem nas ruas, nos parques, nas praças, nos restaurantes, nas lojas, nos shoppings, nos locais mais humildes. 


Devolvei à nossa cidade e ao nosso Estado a paz, a tranquilidade, a alegria antiga dos cariocas s e dos fluminenses.


Olhai também para os defeitos que o Rio apresenta: lixos derramados pelas exalados por excrementos de cachorros e dos humanos desalmados, o mau-cheiro de alguns lugares, os esgotos e ralos entupidos, calçadas maltratadas, os prédios pichados, os monumentos, estátuas, hermas, vítimas de vândalos, tal como já fizeram com as estátuas do poeta Carlos Drummond de Andrade, com a do compositor Noel Rosa e de outros nomes ilustres . 


São Sebastião, bem que podeis dar uma mãozinha em todos esses defeitos que o Rio de Janeiro ainda mantém. No tempo de Machado de Assis, ele já dizia: “Os cariocas somos pouco dados ao jardins públicos.” Ainda vale essa crítica do fino escritor carioca, visto que praças existem que nos envergonham pelo pouco zelo com que o povo e o próprio governo municipal as tratam.


Salve São Sebastião! Salvai-nos das agruras do Rio de Janeiro, livrai-nos de todos os males da terra e do espírito. Dai-nos governantes responsáveis, competentes, amigos da cidade e do seu Estado, homens íntegros, probos que possam gerenciar nossa cidade e nosso Estado em benefício da população. Livra o Rio de Janeiro, a cidade e o Estado dos seus inimigos. 


Tende piedade de nossa cidade e do nosso Estado. Queremos que o Rio de Janeiro “continue lindo de braços abertos (como na belíssima escultura de Cristo situada no Corcovado) para todos os que aqui nos venham visitar, conhecer nossas maravilhas, nosso s encantos, nosso charme, nosso charme, nossos lugares paradisíacos, nosso espírito brincalhão, galhofeiro, nosso um tanto abalado bom humor, nossas gírias, nosso “s” medial ou final chiado que encanta e até é imitado por nordestinos ao voltarem para a terra natal e se passarem por cariocas.


Salve São Sebastião! Defendei seus devotos e não devotos, i.e., todos os que sonham com um Rio de Janeiro dos idos tempos melhores e mais serenos!


Enfim, para concluir esta crônica me valho para estancar o desespero da cidade e do Estado do Rio de Janeiro, neste dia do padroeiro, a estrofe inicial do poema “Rio de Janeiro, extraído da obra Estrela da tarde (1960) de Manuel Bandeira, outro artista apaixonado pelo Rio de Janeiro: Louvo o Padre, louvo o Filho/E louvo o Espírito Santo./Louvado Deus, louvo o santo/De quem este Rio é filho./Louvo o santo padroeiro/___Bravo São Sebastião__/


Que num dia de janeiro/Lhe deu santa defensão.


Salve São Sebastião! O Rio de Janeiro salvai! Meu São Sebastião, tende misericórdia dos males que afligem tanto o Rio de Janeiro, cidade e Estado que não merecem todas as aperturas financeiras vividas agora pelos funcionários estaduais vítimas dos desatinos e da rapinagem de, pelo menos, últimos governantes. Ó São Sebastião, por favor, não esqueçais de nós, habitantes castigados pelos que decerto não amam esta cidade “de encantos mil”. Salve, Salve nosso padroeiro! Salvai-nos!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXVII


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXXVII

Seus olhos são negros, negros

Elmar Carvalho

Não se pode dizer que Marcos tenha sido insensível ao filho que Madalena lhe disse levar em seu ventre para as Alterosas. Apenas aceitou como fato consumado e irreversível a circunstância de que talvez nunca o veria e de que essa criança seria criada por ela e pelo marido, sem a sua participação e sem a sua lembrança. Contudo, alimentava a esperança de que algum dia poderia ver o filho, ainda que incógnito e à distância.

Muitos anos depois, quando Marcos já completara cinquenta anos de idade, e exercia, pela segunda vez, a função de delegado da Receita Federal, recebeu, em seu gabinete, a visita de um guapo rapaz, que se anunciara como uma pessoa que desejava tratar de urgente assunto pessoal. O jovem, bem vestido e elegante, após os cumprimentos iniciais e apresentação, com certo embaraço e discreta hesitação, lhe contou que era formado em medicina, como seu pai, e era filho de Madalena.

Disse que o pai, quando sentiu que estava à morte, um ano atrás, pedira à mulher que, após o seu falecimento, revelasse a Lucas da Mota Dias Júnior, que lhe herdara o nome e a profissão, quem era seu pai biológico. Recomendou que o filho o visitasse, caso o desejasse. O rapaz, após colher as necessárias informações da mãe, quando esta lhe revelou o segredo familiar, fez pesquisas na internet, tendo conseguido o endereço funcional de Marcos, sem maiores dificuldades.

Desejando ser sintético e não querendo emocionar o meu leitor, direi que ambos se comoveram, se abraçaram e mesmo derramaram discretas lágrimas. Marcos o convidou para se hospedar em sua casa, mas o rapaz, que viera acompanhado de sua jovem esposa, em viagem de lua de mel, preferiu ficar hospedado no Luxor Hotel, no centro da cidade.

Todavia, aceitou almoçar com o pai, na residência deste, onde foi muito bem recebido por sua esposa e pelos dois filhos do casal. Coroando tudo, em perfeito final feliz, após conversa e deliberação entre eles, Marcos foi com Lucas ao Cartório competente onde o reconheceu como filho. Os expedientes e termo foram enviados ao cartório de Belo Horizonte, onde Lucas fora registrado.

Feitas as averbações, o rapaz passou a constar como filho de Lucas da Mota Dias e de Marcos Azevedo, seus pais afetivo/adotivo e biológico. Pouco se falou em Madalena, mas o jovem médico informou que ela se encontrava em bom estado de saúde e ainda se mantinha bela e em forma. Pai e filho passaram a se comunicar, com admirável frequência, por telefone e pelas redes sociais da internet, inclusive com envio de fotos familiares.

*   *   *

Marcos nunca esqueceu a linda e loura paranaense de olhos de esmeralda. Ela lhe ficou como uma bela e inatingível miragem de sua adolescência. Seu pai fora transferido para outra loja, sediada na capital, e ele não mais a reviu. Porém, mais de década depois, quando ele já residia na capital voltou a vê-la, talvez por acaso, se é que o acaso existe.

Estava, em companhia de Antônio Francisco Sousa, colega fiscal, assistindo a um artista de rua, quando uma magnífica balzaquiana, de cintilantes cabelos louros e refulgentes olhos verdes, começou a olhá-lo de forma insistente e intensa. Embora estivesse acompanhada de uma menina de cerca de cinco anos, chegava ao ponto de quase se voltar para trás, para melhor fitá-lo.

Ele também a fitou, com intensidade e alumbramento, com paixão e ternura no olhar, mas logo convidou o colega a se retirarem, temendo  este notasse alguma coisa. Mas, não andaram muito, Antônio Francisco, que também era perspicaz cronista, lhe perguntou, com ar divertido e malicioso:
– Marcão, você pensa que eu não vi, que eu sou cego e insipiente? Quem é aquela suntuosa e esplêndida “balzaca”, com aquela linda aliança no anelar esquerdo, que te olhava com tanta insistência e admiração? Parecia te conhecer e estar cheia de amor para dar...

Marcos, recordando-se dos seus tempos de adolescente, preferiu responder de forma enigmática e poética:
– É um fantasma, um vulto de mulher que me persegue desde minha adolescência. Prefiro deixá-la numa torre ebúrnea, alta, distante, e inalcançável como um unicórnio, para que em mim permaneça indelével a nostalgia de quanto a amei, e de quanto a fiz inatingível em minha timidez e loucura de poeta adolescente, embora ela também me quisesse... Assim foi melhor, porque sempre permanecerá a doçura do enlevo e da devoção, e jamais a amargura da decepção... 

*   *   *

Quando Marcos completou 32 anos de idade, assumiu o cargo de auditora-fiscal uma moça de nome Lívia Maria. Esbelta, de boa estatura, chamava a atenção por sua beleza e simpatia. Embora concentrada nos serviços que desempenhava e focada em seus deveres funcionais, tinha senso de humor e o usava com inteligência, discrição e notável senso de oportunidade. Fora analista na Justiça do Trabalho. Corria o boato de que tinha um namorado ou noivo em sua antiga repartição.

O rapaz logo percebeu que, além de diligente em seus deveres funcionais, ela tinha bom caráter e uma exemplar formação moral, mas sem preconceitos e farisaísmos. Nas horas de folga, estudava com afinco a legislação tributária, especialmente as mais direcionadas a seu cargo. Tratava todos os contribuintes com urbanidade e presteza, sobretudo os mais humildes.

Quando Marcos entrava em discussão intelectual com algum colega, ela parecia admirar a cultura e a capacidade argumentativa dele, a sua capacidade de análise, a maneira como ele falava das variáveis que poderiam ser seguidas e de suas possíveis consequências. Poucas vezes ela participava dessas controvérsias, avessa que era a polêmicas e dissensões.

Todavia, em suas poucas e comedidas intervenções, demonstrava sempre conhecimento da matéria e muita racionalidade em seus fundamentos, sempre pautados pela lógica, proporcionalidade e razoabilidade. Uma vez ela confidenciou ao colega que o que mais admirava num homem era a inteligência e o caráter. E, se não fosse querer demais, o bom humor.

Algumas vezes, quando fazia um novo poema, e se encontrava bem humorado e eufórico, o rapaz o recitava para um ou outro colega interessado. Lívia parecia ouvi-lo com admiração e certo embevecimento. Ele, para testar os seus pruridos de pudor e talvez preconceitos, quando fez um poema erótico, aliás, inspirado em sua beleza sinuosa, lhe entregou uma cópia, e ficou a lhe observar as reações faciais.

Notou que ela enrubesceu levemente, talvez pressentindo ser a musa daqueles versos eróticos ou por estar sendo observada, mas o leu com muita atenção e sem demonstrar contrariedade. Fez duas ou três perguntas, e em seguida emitiu comentários argutos e pertinentes, em que se percebia a sua inteligência e os seus conhecimentos de quem gostava de literatura, conquanto não fosse poeta ou escritora, mas assídua leitora de poemas, contos, crônicas e romances, como esclareceu.

Certa ocasião, antes do início do segundo turno, Marcos foi até a sua sala. Encontrou-a sozinha. O rapaz, apesar de não cultivar a vaidade, percebeu que ela o olhou de cima a baixo. Pareceu admirar o que viu. O rapaz a consultou sobre certo assunto de trabalho, sobre o qual tinha dúvida, e depois lhe contou uma de suas anedotas engraçadas, supostamente verídicas, ao menos em parte, retornando a seu local de trabalho. Ficou pensando naqueles cabelos negros, ondulados, e naqueles olhos negros, cheios de fascínio e mistério, que lhe faziam recordar os versos do condor Castro Alves: “Teus olhos são negros, negros, / Como as noites sem luar... / São ardentes, são profundos, / Como o negrume do mar”. Seu pensamento divagava, como a barcarola do poeta.

A moça foi em seu encalço. O rapaz também estava sozinho em sua sala, sentado à sua mesa, com o olhar sonhador, pensativo. Ela, às suas costas, pousou as mãos sobre seus ombros, afagando-os com muita suavidade. Marcos ficou surpreso, porquanto Lívia sempre fora muito contida e discreta em seus gestos e palavras. Não sabendo bem o que fazer, pousou as suas sobre as dela, que não as retirou.

Porém, quando Marcos se levantou e tentou lhe afagar o rosto, ela se afastou e disse, com suavidade, mas com voz firme e peremptória:
– Não, Marcos, não... Eu te toquei porque te amo, mas você tem uma linda noiva, com a qual vai em breve se casar.

Para não entrar em delongas tão enfadonhas quanto desnecessárias, direi apenas que nesse mesmo dia Marcos terminou o noivado, que, por sinal, já vinha muito morno, quase adormecido, e logo iniciou apaixonado romance com Lívia, que se mostrou terna, carinhosa e ardente, como ele sempre sonhara.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Uma fotografia antiga



Uma fotografia antiga

Elmar Carvalho

Ontem, por simples desfastio do ócio ou simplesmente para driblar o tédio, dando-lhe ainda de quebra um chutão nas canelas, fui folhear o livro Dalí, da autoria de Carolina Brook, recheado de belas fotografias, sobretudo das mais importantes obras do grande pintor surrealista. O livro me fora ofertado pelo italiano Alfredo Fait, já falecido, que se hospedava no mesmo condomínio que eu, em Parnaíba.

Foi uma excelente retribuição aos livros Rosa dos ventos gerais (2ª edição) e Lira dos cinqüentanos, ambos de minha autoria, que lhe autografei, dos quais ele me assegurou, por e-mail, haver gostado. Após lhe haver entregado os livros, ele viajou para Belo Horizonte, onde trabalhara no consulado italiano, e na primeira viagem que fez à sua terra natal adquiriu o álbum das obras de Dalí, para me presentear. Em virtude de só ter conversado com ele em duas ou três ocasiões, já que ambos não residíamos no condomínio (mas ele em BH, e eu em Teresina), não posso dizer que fomos amigos próximos.

Quando ele faleceu, cerca de um ano depois, o senhor Swami me telefonou, seguindo orientação da família de Alfredo Fait, para me perguntar se eu desejava ficar com os livros dele. Respondi-lhe que gostaria de ficar apenas com alguns dos livros de arte, e que sugeria fossem as demais obras doadas à Biblioteca Pública Municipal de Parnaíba.

Autorizado a fazer os contatos necessários, liguei para o secretário de gestão da Prefeitura Municipal, o escritor e poeta Alcenor Candeira Filho, que adotou as providências necessárias para arrecadar os livros, que foram prontamente entregues. Desnecessário dizer, mas direi: por uma culpa que não atribuo a ninguém, terminei não ficando com nenhum livro. Talvez tenha sido melhor assim.

Retomo o fio da meada. Ao atingir a metade das páginas do livro sobre a vida e obra de Dalí, encontrei uma velha fotografia, com certeza tirada em 1976; portanto, já lá se vão mais de 40 anos, quando eu tinha vinte de idade. Esbelto, ostentava uma cabeleira longa e ondulada, como era moda na época. Camisa de malha apertada, um cinto e uma calça quadriculada, boca de sino, compunham minha indumentária.

Estou de pé, segurando uma espécie de diploma, e me dirigia a pequeno auditório, que não se vê na fotografia. A meu lado, sentado numa cadeira colegial, estava o senhor João, dono do curso pré-vestibular, em que eu fazia o terceiro ano do antigo curso Científico. Eu iria presidir uma agremiação estudantil, que estava sendo criada. No ano seguinte, como na música de Martinho da Vila, passei no vestibular, e fui cursar Administração de Empresas em Parnaíba.

Ao me deparar com essa antiga fotografia, que não lembrava estar guardada no álbum que folheava, não posso negar que tive saudade de mim mesmo, do rapaz emotivo que fui, por vezes ingênuo, desprovido, quase sempre, de maldade e de malícia, sabedor de que Deus protege os tolos e os inocentes. Lembrei-me destes meus versos, em que proclamo sentir

A nostalgia do rapaz que fui,

Tão emotivo, tão sentimental (...)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lançamento do livro Sentimento Oceânico


O poeta Marcos Freitas, a Editora Catrumano (São Paulo, SP) e a Livraria Entrelivros têm o prazer de convidar-lhe para o lançamento do livro “Sentimento Oceânico”, nova coletânea de poemas, no dia 17 de janeiro (terça-feira) de 2017, às 19:30 hs, em Teresina – PI.

Programação:

Sessão de Autógrafos.
Leitura de poemas do livro “Sentimento Oceânico”, prefaciado por Anderson Braga Horta, apresentação de Edmar Oliveira e orelha por Jorge Amâncio.


Serviço:

LIVRARIA ENTRELIVROS
Av. Dom Severino, Av. Dom Severino, 1045 - Fátima,
Teresina - PI, 64049-375
Horário: 19:30 hs.

Livro:
Sentimento Oceânico
Ed. Catrumano, São Paulo, 124p, 2015.
ISBN: 978-85-64471-45-0   


APRESENTAÇÃO

Marcos Freitas é um poeta profícuo e, cumprindo a sina dos seus antepassados, nele a intimidade com as letras procura a composição estética sem qualquer esforço. Engenheiro de formação, com pós-graduação na Alemanha, também tira do estranho idioma, que teve de aprender, a tradução em versos de sua obra. Especializado em Recursos Hídricos, faz dos seus afazeres a poesia de um meio ambiente que, mesmo quando maltratado, grita num poema a percepção técnica.

Neste trabalho, que tenho a honra de apresentar, os cantos de jurema nas quenturas do bê-erre-ó-bró são percebidos nas verdesveredas de sua cidade como um Sentimento Oceânico, como se a galáxia fosse tomada por lembranças da sua aldeia.

O livro é dividido em quatro seguimentos. SULEANDO-SE PELAS VERDESVEREDAS traz as lembranças infantis, que foram buscadas nas Dobras Espaciais de Alcubierre, soluções do Tubo de Krasnikov, para entrar no encantamento de uma floresta tupi, substituída por uma concreta plantação de eucaliptos. Pois vejam só, o nosso poeta usa os conhecimentos das ciências exatas para explorar os recônditos de suas memórias sentimentais, onde a máquina Singer da mãe serve de instrumento musical: “dedilha, bem sei mãe, na nova harpa sutis sons de galáxia, estalos eternos de amor”. E também usa o Diário de Pigafetta, documentário da viagem marítima de Magalhães em volta da terra, para sair do sertão da cacimba barrenta e voltar ao cerrado do Planalto Central, não sem antes fazer um inventário das (S)obras do Piauí. Estamos apenas começando uma viagem espacial para dentro do sentimento.

Em ELEGIA ARANI, segunda parte do livro, pode ser num mau tempo e/ou numa cidade da Bolívia. Com os mesmos ares. Porque La Chascona de Neruda, em Santiago, há de ter paciência com o sol. “Ser poeta é estar sempre disposto a se lançar, sem paraquedas, no abismo profundo de sua alma, quando o poema lhe bate à porta”. A árvore da vida, os planos de Brasília (Unheimlich), as realidades não-locais podem ser achados na filosofia de Ernst Bloch? Foi muito pouco traduzido o alemão entre nós, mas é dos sonhos de sua arte que o poeta nos chama atenção, cantando a Laura Moura de Mário de Andrade ressoando em H. Dobal. Pronto, de volta a casa: na sua procura universal retorna a aldeia conquistada por Mandu Ladino: “o canto airoso daquela hora / é canto ladino / é elegia arani”. O nosso herói indígena nos braços da cabocla Jurema. A praça Tahrir é a nossa Pedro II. Pra lá de Dortmund, na Alemanha, a nossa Estação ferroviária, onde um metrô não nos leva a lugar nenhum.

A negra massapê, o amarelo-tauá e o branco caulim são as cores das areias em que caminha a AVIVENTAÇÃO DE RUMOS do terceiro movimento poético. Mesmo contemplando o Morro da Baleia no Goiás, a saudade de sua terra fala mais alto. O nosso anti-herói, o Cabeça de Cuia de nossos rios, sonha em ser descoberto por um olheiro de futebol. As andorinhas da Frei Serafim fugiram todas. Talvez ecoem no Morro do Roncador em Pedro II. Mas as palavras poéticas, ah, essas “palavras / como que formigas enfileiradas / as palavras como águias esfomeadas / flanando – quase sem peso – / no ar”. Aviventam os rumos.

Por último, nas MINUDÊNCIAS recolhe os fragmentos do território do Matopiba. É nesse pedaço de território, do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que a monocultura assassinou os pés de paus das frutas de nossa infância. E o Matopiba parece ameaçar toda a caatinga e cerrado, encerrando os doces frutos do buriti, do pequi, do bacopari. As lembranças são feitas de um gosto no território dos sentimentos. Para fazer-se mais luz, danificam-se os recursos hídricos. Se na sua profissão, Marcos luta desesperadamente contra o inevitável do progresso que nosmatará, o poeta ainda pode gritar no seu movimento político sentimental:

“a tarde carregada / de chuva abriu-se / inesperada em sol”.

Edmar Oliveira, Rio de Janeiro, 2015.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Seleta Piauiense - Jorge Carvalho


O Fogo

Jorge Carvalho (1951)

Ascendem chamas... bailam labaredas! 
Fato volúbil, estigma de glória! 
Entre caminhos... trêmulas veredas! 
Castiçais: candelabro d'estória.

Aflora centelha... lúcia chama!
Cintilo brilho... ígneo fulgor!
Cálida se eleva... etérea flama!
Aquece, irradia ardente calor.

Enigmas!  Fascinantes misticismos!
Aonde o segredo de tuas cinzas?
Só no espectro volátil que eternizas?

Sofismas!  E múltiplos simbolismos!
Onde o mistério de tuas asas?
Sob as tépidas escarlates brasas?  

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXVI


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXXVI

E assim se passaram os anos

Elmar Carvalho

Quando Marcos concluiu o curso ginasial, encontrou uma turma de ginasianos que se comprometeu a dar continuidade ao jornal mural O Arauto. Conseguiu ainda publicar o jornal mimeografado O Liberal até o final de seu curso de Direito. Já então Mário Cunha fora morar no Rio de Janeiro, onde seu talento artístico foi reconhecido, passando a trabalhar como capista e ilustrador de grande editora nacional, que publicava revistas e livros didáticos e literários. Fabrício, que já vinha auxiliando seu pai na administração de sua loja de eletrodomésticos, fora cursar Administração de Empresas na capital.

Em virtude de O Liberal ter uma linha editorial independente e criticar com contundência as três esferas de governo, terminou perdendo vários anunciantes, o que foi inviabilizando a publicação regular do jornal, que foi espaçando cada vez mais a sua periodicidade, até o seu extemporâneo último número, cujo editorial teve o título poético de O canto do cisne, em que anunciava melancolicamente a sua própria extinção. Nesse número, a exemplo do que fazia nos demais, denunciou várias mazelas e corrupções da política estadual, nacional e municipal, além da derrubada e descaracterização de vários prédios e logradouros do patrimônio arquitetônico e artístico municipal.

Com a decadência do extrativismo e da construção de estradas asfaltadas, interligando as cidades circunvizinhas, a navegação do Paraguaçu foi definhando, até quase extinguir-se de todo. Já não se viam as grandes chalanas, barcaças e alvarengas ancoradas no cais do Porto do Charque, cujo nome era devido às charqueadas que ali existiram num passado já distante. As duas maiores indústrias de óleo de babaçu e de cera de carnaúba – a Vegecera e a Teles Bacelar – entraram em processo falimentar.

Quando James Cavalcante Taylor, proprietário da primeira, parou suas máquinas e caldeiras, seu grupo empresarial já estava em grandes dificuldades financeiras; disso resultou ficar em atividade apenas a matriz da Casa Britânica, fixada em Évora, que ainda resistiu por alguns anos. Carlos Teles Bacelar, por sua vez, emborcou o facho de suas fábricas de cera e de óleo babaçu; passou a fabricar outros produtos e diversificou suas atividades.

Os pequenos fabricantes, geralmente pequenos e médios fazendeiros da região, também não puderam prosseguir com essa produção cerífera. Outros produtos, cultivados ou coletados, como jaborandi, tucum, oiticica, babaçu, maniçoba, algodão, ao longo dos anos, também perderam valor comercial, e foram substituídos por outros produtos, naturais ou sintéticos. A grande fábrica têxtil dos Dias Bezerra, que comprava quase toda produção algodoeira do entorno de Évora, entrou em colapso, e não mais se viu penacho de fumo em sua imensa e suntuosa chaminé.

Com a instalação de grandes lojas de departamento em Évora, com preços mais atraentes e sistema de crediário de prazo mais alongado, muitas lojas concorrentes locais, de nomes imponentes como Império dos Móveis, Ditador da Moda, Palácio de Variedades, fecharam as portas. Os chamados profetas do apocalipse anunciaram que a cidade entraria em total decadência, e passaram a chamá-la de “a cidade do já teve”, de “bela adormecida”, de “finada Princesa do Paraguaçu”, etc.

Contudo, o rebate das trombetas foi falso, e os profetas apocalípticos fracassaram em seus presságios. Tal como aconteceu com outras cidades de mesmo porte, Évora voltou a se desenvolver em outros setores, sobretudo no turismo, prestação de serviço e comércio. Assim, surgiram novos hotéis e pousadas; instalaram-se vários estabelecimentos de ensino, mormente de nível superior, inclusive com faculdades de medicina, odontologia, enfermagem, agronomia; fundaram-se mais clínicas e hospitais; grandes empresas atacadistas e de supermercados surgiram na cidade, atraindo consumidores e varejistas de todos os municípios da região. Eclodiram muitas empresas não pertencentes às famílias tradicionais da cidade. Évora se expandiu em novos e afastados bairros, inclusive com a construção de luxuosos condomínios fechados. Foi nesse embalo que, já formado, Fabrício conseguiu transformar a loja de seu pai numa grande rede estadual de lojas de departamento, o que demonstrou a sua inteligência, liderança e capacidade empresarial.

Em meados da década de 1980, Marcos associou-se a alguns amigos intelectuais e fundou a Academia Eborense de Letras. Na qualidade de seu idealizador, foi aclamado pelos seus confrades como seu primeiro presidente. Na solenidade de sua instalação, realizada no auditório da Câmara Municipal, no prédio onde funcionara o desativado Évora Clube, onde dançara tantas vezes, proferiu notável discurso, no qual denunciou que alguns prédios antigos e históricos da cidade já haviam sido derrubados ou descaracterizados, sobretudo por comerciantes gananciosos, ávidos apenas por lucro e mais lucro. Alertou que as velhas casas (os “planetas”) da Zona Planetária estavam com seu estado de conservação bastante comprometido, podendo ruir num “inverno” mais rigoroso.

Acrescentou que o poder público municipal deveria promover concurso no ramo da historiografia, para que algum pesquisador ou historiador ficasse estimulado a escrever a história de Évora. Falou da degradação ambiental da cidade, sugerindo que um parque florestal fosse criado, sobretudo para preservação das matas ciliares do Paraguaçu. Também apresentou a sugestão para que um parque de preservação ambiental fosse criado na região da Serra do Cachimbo, com a criação e instalação de piscinas, bicas, trilhas, teleférico e outros equipamentos, que, sem dúvida, fomentaria o turismo no município.

Por fim, defendeu a ideia de que o Cemitério da Igualdade, de nome tão justo quanto apropriado, já inativo há mais de duas décadas, fosse transformado num museu e memorial a céu aberto, com a preservação dos túmulos e a criação de alamedas, jardins, caramanchões e um espaço para meditações e palestras temáticas. Seu discurso, com as suas denúncias e sugestões, foi acolhido com longa e intensa salva de palma. O jornal A Batalha o publicou na íntegra e a rádio Princesa do Paraguaçu o divulgou em vários horários. Posteriormente, foi publicado em forma de folheto.

Após o seu discurso, houve um lauto coquetel. Quando Marcos se postou, sozinho, a uma das janelas ogivais, perto das quais dançara tantas vezes, quando o auditório era a pista de dança do saudoso Évora Clube, veio cumprimentá-lo uma moça loura, um tanto gorda, de olhos azuis, meio enevoados pelo que poderia ser o prenúncio de alguma doença ocular; apresentava sinais de espinhas, sardas e varíola no rosto. Elogiou-lhe o discurso e tentou entabular uma conversa. Olhava-o como se tentasse seduzi-lo. Não tendo gostado da conversa e não se sentindo nem um pouco atraído pela mulher, Marcos, conquanto a tenha tratado com cortesia, inventou uma desculpa qualquer e se dirigiu para a mesa onde estavam Fabrício e outros amigos.

Soube, então, que aquela mulher era uma neta de James Cavalcante Taylor, já falecido há alguns anos, despojado da fortuna que tivera outrora. Viera passar alguns dias em Évora, após longos anos de ausência, em visita a familiares. Marcos, consternado, teve a certeza de que por trás daquela ruína precoce se escondia a inefável e precária beleza daquela menina linda, mas tola e presunçosa, que tanto o encantara no início de sua adolescência, e que tanto o magoara com o seu estúpido desdém.

Tomou um longo gole de cerveja, porém a bebida lhe pareceu mais azeda que de costume, como se fora um cálice de amargura e de fel. Não teve nenhuma sensação de vitória, revanche ou vingança. Ao contrário, como lamentou esse reencontro e a beleza esvaída nas formas transitórias, imperfeitas.

Com o coração confrangido, lembrou-se destes versos de um jovem poeta amigo seu:

recordas a menina que te golpeou
com um não, apenas por capricho e maldade.
(...)
lamentas a namoradinha jovem e esbelta
que envelheceu e engordou.
debalde procuras a sua cintura
para ternamente lhe pousares as mãos.
antes não mais a tivesses revisto.     

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Engenheiro Antônio José de Sampaio

Reginaldo Miranda

Escritor, historiador e membro da APL



Engenheiro Antônio José de Sampaio
            Foi um homem de ideias e ação que apostou fundo no desenvolvimento econômico do Piauí. Engenheiro, professor, escritor, cientista, poliglota, veio ao mundo em 9 de abril de 1857, na fazenda Ininga, do termo de União, hoje de José de Freitas, antiga vila de Livramento, nos arredores da Capital. Foram seus pais o capitão Antônio José de Sampaio, primeiro do nome e abastado fazendeiro (1821 – 26.6.1889) e D. Rosa Merolina de Sampaio (1823 – 1915). Pelo costado paterno era neto de José Joaquim de Sant’Anna e D. Veneranda Rosa de Sant’Anna. Pelo materno era neto de Estêvão Lopes Castelo Branco e D. Lina Rosa de Jesus, todos fazendeiros de avultados cabedais, parentes entre si e oriundos de tradicionais famílias piauienses.

Depois de cursar as primeiras letras em sua terra natal, ainda criança foi mandado pelos genitores para estudar em São Luís do Maranhão. Prossegue nos estudos, educando-se e instruindo-se no Seminário, sob a firme e sábia orientação do cônego Luiz Raimundo da Silva Brito, que depois seria deputado provincial pelo Maranhão e bispo de Olinda.

Em seguida, para aprimorar sua formação intelectual seguiu para a Europa, por volta de 1871, fixando-se na cidade de Zurich, na Suíça com ligeira passagem pelas escolas de Weisthertur, na Alemanha. Ali encetou seus estudos com afinco e determinação, bacharelando-se em Letras e concluindo Engenharia, Artes e Manufaturas, pela Escola Politécnica Federal Suíça. Sem perda de tempo, na mesma escola de ensino superior doutorou-se em Ciências Físicas e Naturais, defendendo sua tese e concluindo o doutorado em 18 de novembro de 1881. Nessa época fez proveitosa leitura de naturalistas do porte de Hartt, Gardner, Martius, d’Orbigny, Koster e Agassiz, entre outros. Paralelamente a essa formação acadêmica estudou diversas línguas neolatinas, ao ponto de falar fluentemente seis idiomas. Por fim, antes de retornar ao Brasil, empreendeu viagem de estudo por vários países da Europa.

Em princípio do ano de 1882, com a mente borbulhando de ideias novas regressou ao seu País, demorando-se pouco tempo em meio aos familiares, no Piauí. Moço finamente educado na Europa, onde permaneceu por uma década, entre os quatorze e vinte e quatro anos de idade, durante sua ligeira estada no Piauí, tentou a todo custo despertar o ânimo e o interesse dos criadores da região de Campo Maior para a pecuária de leite, não obtendo, porém, êxito. É que se inspirava no sucesso dos lacticínios suíços e flamengos, que os conhecera. Sobre esse episódio, anotou o acadêmico Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves:

“Os criadores ouvem a explanação atentos e silenciosos. No fim, não lhe recusam aplausos. A boa educação e a urbanidade tradicional impõem tratamento respeitoso e afável ao hóspede ilustre. Mas, em verdade, o calor das falas ouvidas não lhes infundiu coragem. Acendeu-lhes, ao contrário, muitas dúvidas. O que lhes fora dito como proposta auspiciosa parecera-lhes, antes, uma inovação revolucionária. E, contra todas as sedutoras promessas, opunha-se a realidade, herança avoenga de mais de dois séculos, expressa na rotina satisfeita, modorrenta e despreocupada a que tão bem se acomodavam. Todos responderam à sugestão de maneira evasiva. Tiveram como muito mais seguro permanecer como estavam. O progresso, da forma por que lhes era acenado, além de excessivamente trabalhoso e cansativo, se lhes afigurava por demais arriscado. O que haviam recebido dos maiores, pretendiam legar, sem desfalque, à prole, garantindo-lhe igual quietude e tranquilidade”(GONÇALVES, L. M. R. Brasília: 1980:243).

Sobre esse mesmo episódio, também anotou a escritora carioca Augusta Franco de Sá de Sampaio, esposa do biografado:

“... muito anteriormente à propaganda e prática dos princípios e meios que somente agora estão sendo adotados e seguidos em diversos outros Estados, já procurava ele em 1882 introduzi-los em sua terra natal, para promover e estimular o seu progresso industrial, com auxílio e cooperação de todos os criadores”.

Depois desses esforços inúteis, retorna a Livramento e, em seguida, ao Rio de Janeiro, onde chegou no final de junho, iniciando vida profissional. Na primeira semana de julho foi recebido pelo imperador Pedro II, conforme noticia o Jornal do Comércio daquela corte(edição de 11.7.1882).  A partir de 11 de setembro do mesmo ano faz divulgar anúncio no mesmo veículo de imprensa, endereçado aos pais de família que desejassem educar seus filhos em suas casas, segundo os mais modernos métodos de ensino adotados na Suíça e Alemanha, onde estudara, tanto em línguas vivas quanto em ciências matemáticas, físicas e naturais, para poderem freqüentar com proveito qualquer escola do Brasil ou estrangeiro. Informa que os interessados poderiam se dirigir ao cônego Brito, no Seminário de Santo Antônio, à casa do farmacêutico Eugênio Marques de Holanda, na Rua Visconde do Rio Branco ou ainda à Rua Oito de Dezembro, 2, São Francisco Xavier (Jornal do Comércio, 11/22.9.1882). No ano seguinte, dedicou-se então ao magistério de Física Industrial e Química na Escola Politécnica, como lente substituto interino do curso de Artes e Manufaturas, aí permanecendo entre os anos de 1883 a 1894, quando começou, de fato, seu empreendimento no Piauí. Nesse espaço de tempo, em presença do Imperador, no Externato Aquino, fez diversas conferências sobre ciências e assuntos práticos. Moço culto e inteligente, envidou esforços para reformar o ensino técnico no Brasil, chegando a escrever e publicar interessante estudo, de parceria com o professor Antônio Ennes de Sousa, um maranhense seu contraparente que ali também lecionava. Porém, em face de defender essa reforma no ensino técnico, sobretudo a divisão da cadeira de Química Industrial em Orgânica e Inorgânica, enfrentou a firme oposição de outros lentes, cujos protestos e defesas de pontos de vista pipocaram na imprensa, com ataques e descomposturas de parte a parte. Nesse tempo, por sua iniciativa foi criado no Rio de Janeiro, um laboratório de química analítica para análise dos produtos nacionais e estrangeiros.

Com o auxílio do dr. Wilhelm Mickler, mestre alemão que fora seu professor na Escola Politécnica de Zurich e que radicara-se no Brasil desde novembro de 1882, lecionando interinamente no curso de Artes e Manufaturas da Escola Politécnica do Rio, procedeu a várias análises de vegetais brasileiros, no laboratório daquela escola, descobrindo algumas fibras de valor comercial, a exemplo do que ocorrera nas matas do município de Santa Bárbara, em Minas Gerais (Jornal do Comércio, 22.12.1883) 

Mas o passo mais decisivo de sua vida, Antônio José de Sampaio estaria por dar, aquele que o notabilizaria como pioneiro das indústrias de lacticínios no norte do Brasil. É que em 26 de abril de 1889, celebrou importante contrato de arrendamento com o governo imperial, passando a gerir as Fazendas Nacionais que haviam sido confiscadas aos jesuítas no Piauí e, anteriormente, pertenceram ao conquistador Domingos Afonso Sertão. Era o primeiro passo para realizar o sonho de implantar a indústria pastoril em terras piauienses. Entretanto, com a queda da monarquia e proclamação da República em 15 de novembro do mesmo ano, passou a enfrentar resistência de muitos opositores, culminando com a revogação do contrato em 9 de abril de 1891, no governo Deodoro da Fonseca, sob a falsa alegação de descumprimento de cláusulas. Felizmente, depois de vários embates, em 1893, já no governo Floriano Peixoto, teve restituídos os seus direitos.

Por esse contrato, o Engenheiro Antônio José de Sampaio arrendava as Fazendas Nacionais pelo prazo de nove anos e ao preço de 20:000$000 (vinte contos de reis) anuais. Assumiu o compromisso de promover a colonização, fundando colônias formadas de nacionais e estrangeiros, sendo metade pelo menos de estrangeiros, obrigando-se ainda a manter à sua custa o Estabelecimento Rural S. Pedro de Alcântara, que fora fundado pelo falecido agrônomo Francisco Parentes, mantendo a sua finalidade de acolher libertos menores e dar-lhes instrução primária, artística, industrial e zootécnica, assumindo as despesas com pessoal; criar e manter à sua custa uma estação meteorológica; desenvolver em grande escala a criação de gado lanígero e introduzir nas ditas fazendas melhoramento genético, com melhores raças de gado vacum, lanígero, cavalar e muar; fazer aquisição de maquinaria moderna para fabricar manteiga, queijo, leite condensado e outros produtos dentro dos mais modernos padrões, trazendo da Europa pessoal qualificado; montar frigorífico e contratar pessoal para abater gado e preparar a carne seca e mais produtos congêneres, logo que se fizesse necessário; desenvolver a lavoura de cereais, sobretudo de cacau e de cultivo do bicho da seda; montagem de fábrica de gelo – sistema Linde, utilizando amoníaco e bomba a vapor, para refrigerar e conservar o produto; funilaria, serraria circular e vertical, etc..

Por seu turno, o governo obrigava-se a vender as ditas fazendas ao arrendatário, no fim do seu contrato, ou antes, pelo preço de 400:000$000, desde que tivesse ele cumprido as suas condições.

A entrega das fazendas deveria ser feita mediante inventário, procedendo-se à contagem do gado. Sobre essas fazendas, é importante ressaltar o relatório do presidente da província, de 27 de junho de 1889: Departamento de Canindé compõe-se das seguintes fazendas: Fazenda Nova, Poções, Salinas, Campo Grande, Castelo, Campo Largo, Ilha, Buriti, Saco, Saquinho, Oiti, Tranqueira, Pobre, Sítio, Baixa, Nova Fazenda, Torre e Residência, com casas, demais benfeitorias e 19.565 cabeças de gado vacum e 8.745 de cavalar, assim avaliados: gado vacum (259:164$000), cavalar (28:805$000), benfeitorias (24:830$000) e terras (47:500$000), o que demonstra que a  terra  em si não tinha grande valor comercial. Nas demais fazendas que compunham os departamentos do Piauí e Nazaré, existiam apenas as terras, vez que o gado fora vendido. Deste último departamento achavam-se a cargo do Ministério da Agricultura as denominadas Serrinha, Algodões, Olho d’água, Matos, Guaribas e Rio Branco, que constituíam o patrimônio do estabelecimento São Pedro de Alcântara(COSTA, 2010:467/468)

Depois de resolver os imbróglios burocráticos e tomar medidas de urgência, Sampaio parte para a Europa em 1894, com a intenção de adquirir modernos equipamentos, nos moldes dos que usavam as mais modernas indústrias da Europa. E, de fato, os adquire em Hamburgo, na Alemanha, realizando verdadeira odisseia para trazê-los ao Piauí, sobretudo ao sertão da fazenda Campos, hoje Campinas, na região de Oeiras, que elegeu por sede de suas atividades. Eram equipamentos enormes, pesadíssimos, tendo de colocá-los em barcaças e enfrentar a correnteza do rio Parnaíba até o porto fluvial do Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, hoje cidade de Floriano. Dali teve de transportá-los em carros de bois, abrindo 40km de estradas, quebrando morros, construindo ponte de 45 metros de comprimento sobre o rio Itaueira e pontilhões em outros córregos, para arrastá-los com inúmeras juntas de bois, às vezes forrando o solo com couro de animais, aumentando, assim, as despesas e causando retardamento. Foi um hercúleo trabalho de pioneiro empreendedor, que só os altos espíritos são capazes de concebê-lo e executá-lo, arrostando as dificuldades sem se deixar intimidar. Para isso, dentre outros importantes auxiliares, contou com a decidida colaboração de seu colega engenheiro, o alemão Alfredo Modrak, que montou a fábrica e dirigiu os trabalhos do prédio, ali residindo por largos anos, mesmo depois do afastamento de Sampaio. Houve também a instalação de funilaria, serraria e aparelhos de uma estação meteorológica, esta última merecendo do dr. L. Cruls, diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, as mais elogiosas referências pelo Jornal do Comércio de 7 de dezembro de 1897.

Para melhorar o rebanho das Fazendas Nacionais, trouxe da Suíça, quatro touros da raça simental, animais com aptidão para carne e leite, oriundos do vale do rio Simmen, no Cantão de Berna. Seguramente, constitui-se o Engenheiro Sampaio em um dos primeiros importadores desta raça para o nosso País. Entretanto, esses reprodutores e todo o rebanho por ele assumido enfrentou a grandiosa seca de 1900, causando-lhe enormes prejuízos. Ainda assim, segundo anotou o deputado Joaquim Cruz, foi de grande proveito o cruzamento desses novilhos com as vacas crioulas, produzindo animais mestiços de boa qualidade. Segundo ele, em 1906, um garrote oriundo desse cruzamento era vendido por 200$, sendo esse preço considerável.

Por fim, em 2 de maio de 1897 foi inaugurada a sonhada fábrica de lacticínios do Piauí, a primeira do nordeste e a segunda do Brasil, guarnecida com o que havia de mais moderno no mundo. Possuía 800 metros quadrados de área construída, com 26 compartimentos, toda de alvenaria, composta em grande parte de dois andares, que rivalizava em tudo com as europeias e argentinas(Minas  Gerais –órgão oficial dos poderes do Estado, Ouro Preto, 5/13.5.1897). Na palavra de Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves – “os edifícios se levantam, a água é captada e distribuída, as instalações se executam. As máquinas são postas em funcionamento, quebrando a monotonia daquelas paragens onde, antes, só o vento açoitava as folhas. A chaminé a atirar para o alto o seu penacho de fumaça, o vapor da caldeira a fazer vibrar o apito estridente a horas certas, a labuta dos currais, a atividade dos técnicos e auxiliares nas oficinas eram sinais de uma vida diferente que nascia rumorosa e promissora” (GONÇALVES, L. M. R. Brasília: 1980:244).

Na exposição do 4º centenário do Brasil, a manteiga produzida pela fábrica foi apresentada e analisada pelo Laboratório Federal de Análises, sendo considerada de ótima qualidade e merecendo como prêmio uma menção honrosa.

Em pouco tempo chegam também quarenta famílias italianas por ele contratadas em sua viagem à Europa, sessenta de cujos membros permaneceram no Estado cerca de dois anos e meio, vivendo prósperos e felizes, até que secas contínuas e falta de apoio do governo, forçaram a bater em retirada. Na versão de Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, logo surgem alguns reveses: “Alguns colonos adoecem depois de comerem, desavisados, frutos silvestres venenosos, outros são acometidos de doenças tropicais, ainda outros, amedrontados, não se adaptam ao clima. Surgem reclamações e o consequente cortejo de dificuldades. Há intervenções diplomáticas, repatriação de emigrantes com pesadas despesas imprevistas. O lamentável desastre iria servir de descrédito a outras tentativas” (GONÇALVES, L. M. R. Brasília: 1980:244).

Não se abate, porém, o notável Engenheiro Sampaio, partindo com redobrado esforço ao trabalho. Todavia, contra ele se colocam inúmeros obstáculos. Por fim, em pouco tempo foi seu contrato ilegalmente rescindido, depois de dois anos de litígio. Vencido em sua luta, obrigou-se a transferi-lo, com autorização do governo, para o conde Modesto Leal, presidente ou proprietário do Banco Industrial, com quem havia contraído algumas dívidas. Em seguida este transfere o contrato ao 1º tenente da Armada Nacional, Gervásio Pires de Sampaio. E desde então a fábrica funcionou precariamente por alguns anos, até sua completa desativação sendo os equipamentos furtados no final da década de cinquenta do século passado. O prédio posteriormente serviu de escola, capela e clube social, até desgastar-se pela ação do tempo.

Foi, portanto, de apenas quatro anos a gestão do Engenheiro Sampaio à frente de sua sonhada fábrica de lacticínios. Acossado por dívidas entrega-a aos credores, retornando ao Rio de Janeiro, onde reinicia sua carreira no magistério.

É, pois, lamentável que a mentalidade atrasada de muitos de seus contemporâneos tenha prejudicado uma iniciativa desse porte, que colocou o Piauí, com técnicas e aparelhagens modernas, entre os pioneiros da indústria de lacticínios no Brasil. Mas o fracasso do empreendimento deve-se ao atraso do Piauí de antanho, governado por políticos de pouca visão, com uma sociedade que não aspirava mudanças, contrastando, assim, com a visão moderna e o discurso otimista de um técnico formado nas melhores escolas da Europa e uma enorme capacidade de ação.

Da antiga fábrica hoje resta a construção ainda imponente, embora em ruínas, que alguns abnegados lutam incansavelmente pelo tombamento. Em seu entorno nasceu uma povoação, hoje transformada na pequena cidade de Campinas do Piauí, que permanece como testemunho imperecível da ação desse visionário engenheiro piauiense. De toda sorte o sonho frutificou, senão o desenvolvimento industrial, ao menos uma cidade para dizer que valeu a pena sonhar e lutar.

Antônio José de Sampaio foi um homem de extraordinária cultura, empreendedor, amante de sua terra e poliglota, dominando vários idiomas, entre esses: francês, italiano, inglês e alemão, tendo nessas línguas publicado alguns estudos divulgando, no estrangeiro, as nossas riquezas naturais e as iniciativas industriais. De sua lavra pode-se destacar: ZurKenntnis der Diamidoditolylverbindungen, no Berichte der DeutschenChemischenGesellschaft (1881) eInvestigações Químicas dos Produtos Naturais do Brasil (Revista de Engenharia, 28.05.1883), ambos de parceria com o químico alemão Wilhelm Michler; NationaleLandguterfurviehzucht in StaatPiauhy(1884); A general descriptionoftheStateofPiauhyonthenorthernpartofBrazil its natural resources, pasturagen, climateandsalubritywithspecialreferencetothecattlebreedingcomparedwiththeconditionsofthe Argentine RepublicandAustralia (1905), depois parcialmente traduzida para o vernáculo pela Prof.ª Maria Cacilda Ribeiro Gonçalves e publicada no Brasil(Descrição Geral do Piauí), sob patrocínio o Governo do Piauí, na gestão Pedro Freitas, entre vários outros trabalhos científicos escritos em outras línguas.

É patrono da cadeira 19, da Academia Piauiense de Letras, cujo primeiro ocupante foi Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves.

Em 22 de julho de 1893, no Rio de Janeiro, Antônio José de Sampaio casa-se com a carioca descendente de maranhenses, D. Augusta Hermínia Franco de Sá, moça culta e inteligente que, em 1885, estudava com o irmão Francisco de Paula Franco de Sá, no Colégio Augusto, fundado há pouco mais de um ano, no Engenho Novo, sendo ambos aprovados com distinção em Português(O Paiz, 8.12.1885). Depois de casada passou a assinar com o nome de Augusta Franco de Sá de Sampaio, falecida em 10.4.1931, no Rio de Janeiro e sepultada no dia seguinte no cemitério de São João Batista(A noite, 11.4.1931). Oito anos antes havia recebido na mesma cidade o diploma de honra(15.3.1923) e ao tempo em que esteve com o marido no Piauí, ajudou a administrar a fábrica, ministrando curso de renda às mulheres. Era filha de Antônio Daniel Franco de Sá e D. Augusta Firmina Franco de Sá, abastados proprietários, inclusive de muitos imóveis urbanos no Rio de Janeiro, muitos deles alugados para órgãos públicos. Em 1924, D. Augusta Franco de Sá de Sampaio publicou um romance denominado Heloisa, com 138 páginas. O casal deixou uma filha, D. Ana Rosa Castelo Branco Cardoso(Nikota), que foi casada com o médico sergipano Eleyson Jesthe Esaú Cardoso.

Antônio José de Sampaio, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, onde residia, às 14 horas do dia 15 de abril de 1906, com apenas 49 anos de idade, sendo o corpo sepultado no dia seguinte, no cemitério de S. João Batista, no carneiro número 2.183. O cortejo fúnebre saiu da Rua do Catete, 191, esquina da Buarque de Macedo, às 16 horas. Por ocasião de seu óbito, exercia as funções de professor do Colégio Aquino e de lente de alemão da Academia de Comércio do Rio de Janeiro, onde iniciara no ano letivo de 1904, deixando as mais gratas recordações.

Sobre ele disse na tribuna da Câmara Federal, o deputado Joaquim Cruz:

“Posso agora asseverar à Câmara que naquele Estado os colonos, os trabalhadores e todos os homens sensatos consideram o Dr. Sampaio como benemérito, que se dedicou com perseverança e entusiasmo ao estudo e resolução dos problemas industriais, encarados sempre no ponto de vista técnico” (Annaes da Câmara dos Deputados, edição n.º 0007 – 1906 a 1910).

Por fim, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, conclui sobre o biografado:

“Sampaio foi, incontestavelmente, um desses raros exemplares de homem de alta cultura, rasgados horizontes e esclarecidas ideias, em cuja objetivação se obstinava, ao influxo de irreprimíveis energias criadoras. As amarguras, as vicissitudes, as contrariedades não o esbarraram. Até ser paralisado pela morte, em 1906, conservou, sempre mais ardente a fé no ideal irrealizado”.

Portanto, Antônio José de Sampaio é um brasileiro notável, cuja trajetória de vida merece ser reconstituída para conhecimento da posteridade.



Bibliografia:

A Noite, edição de 11.4.1931.

COSTA, F. A. Pereira da. Cronologia histórica do Estado do Piauí. Vol. 2. 2.ª Ed. Teresina: APL-FUNDAC, 2010.

FERREIRA, Edgardo. A mística do parentesco. Os Castello Branco. Vol. 5. 2.ª Ed. São Paulo: ABC Editorial, 2013.

GONÇALVES, L. M. Ribeiro. A luta de um idealista. In: Impressões e perspectivas. P. 241-245. Brasília: Centro Gráfico do Senado federal, 1980.

O Paiz, edição de 8.12.1885.

TITO F.º, Arimathéa. Antônio José de Sampaio. Diário Oficial – Suplemento Cultural. Ano I – N.º 7. Teresina, 31.01.1988. p. 10.

REVISTA DA SEMANA – Edição semanal ilustrada do Jornal do Brasil. Ano VII – N.º 310. Rio de Janeiro, domingo, 22 de abril de 1906.

ROCHA, Odete Vieira da. Maranduba. Rio de Janeiro: Sindical, 1994.

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* A fotografaia que ilustra a matéria é da fábrica de lacticínios fundada pelo Engenheiro Antônio josé de Sampaio, hoje em Campinas do Piauí.

** REGINALDO MIRANDA, autor, é membro da Academia Piauiene de Letras e do InstitutoHistórico e Geográfico do Piauí.e-mail: reginaldomiranda2005@ig.com.br

(Excerto do livro inédito a ser publicado no corrente ano pela Academia Piauiense de Letras: MIRANDA, Reginaldo. Piauienses notáveis. Teresina: APL, 2017)