quinta-feira, 5 de setembro de 2019

LIÇÕES TIRADAS DA VIOLÊNCIA NAS RUAS



LIÇÕES TIRADAS DA VIOLÊNCIA NAS RUAS

 Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                (O espaço físico e os personagens não são fictícios; assim como parte do enredo deriva de fato por nós presenciado).

Era por volta de meio-dia e meia. Ele acenara ao “motoqueiro” pedindo para passar sobre a faixa de pedestre. O sujeito, a princípio, simplesmente, ignorou o cidadão que, irritado, reclamou em voz alta: quanta falta de educação! Metros adiante da faixa, o indivíduo, não somente parou, como desceu da motocicleta em que trafegava com uma senhora, e se dirigiu ao pedestre, que, antes de ele falar, argumentou, com fino deboche: Ah! Antes da faixa, não, mas lá na frente, sim, e até desce. Ao que o sujeito redarguiu: - desci, sim, para, primeiramente, te perguntar do que me chamou inda há pouco, depois, decidir o que vou fazer contigo. Desligue a moto, por favor, e faça a gentileza de pedir à sua esposa para procurar uma sombra, que lhe respondo: apenas disse haver lhe faltado educação, e é verdade, amigo: faixa de pedestre existe para ser respeitada por aqueles que transitam em veículos automotores. E a motocicleta é um deles, ou não é, pessoal? Pedindo o aval de algumas pessoas que, sol a pique, já transformavam o espaço em uma pequena arena.

                - Pois tu vais ver que sova este mal-educado aqui te dará, no meio da rua, para quem quiser ver. Quer dizer que, além de mal-educado, também é bravo? Ele quer aplausos, senhores! Aplaudam o valentão do qual vou tomar uma surra logo, logo! Ironizando. A figura parecia bastante irritada, queria briga. Ameaçou partir para cima do pedestre.

                - Só um instante, meu chapa! Vai querer piorar as coisas? Fez uma bobagem, que até poderia esquecer, se pegasse sua senhora e se mandasse. Ou preferiria que lhe desse uma boa lição? Não vai querer apanhar na frente dela e de todo esse pessoal – que apontava, gestualmente -, ou vai?

                - Cara, tu és muito folgado! Estás pedindo, vais ver quem apanhará, agora mesmo. E partiu para cima do pedestre que, ignorando sua valentia e com a mão estendida à frente, em posição de defesa, questionou: sua esposa sabe pilotar? Sim, por quê? Respondeu, com outra pergunta, o irascível “motoqueiro”. Ainda bem, porque se você não mudar de opinião e se mandar agora – olhando para o relógio, acrescentou: ao meio dia e vinte e cinco minutos -, não somente levará uma instrutiva surra, nesse calorzão, como ela terá que o conduzir a um hospital daqui a pouco. E aí, que decide?

                - Para o hospital quem irá serás tu, idiota, tentando acertá-lo com um direto, cuja contrapartida foi um soco na altura das costelas que fez o “motociclista” gemer e se dobrar. O pedestre afastou-se e esperou a reação do esmurrado; e ela logo veio, com um soco no ar, respondido com um gancho que o levou ao asfalto, de costas, estateladamente.

                Àquela altura, a mulher pedia-lhes para pararem de brigar, o que não foi possível, porque o “motoqueiro”, antes da contagem chegar a dez, cego de raiva e humilhação, arrumou forças para arremeter-se, qual um touro, contra o pedestre, que o recebeu com um poderoso chute nas pernas, fazendo-o cair, dessa feita, de boca no solo quente.

                O pedestre, então, se dirigiu à mulher, quase tentando ser gentil: senhora, limpe seu marido com esta água – quase íamos esquecendo: ele atravessava a faixa bebendo uma garrafa de água mineral -, e o leve a um posto de saúde para examinarem se quebrou algum osso ou fazer curativo.

                Por pouco, ela não atira nele a garrafa d’água. -Você é um monstro, um covarde; pode ter aleijado meu marido - uma chorosa senhora se lamentando.

                - Que aleijou coisa nenhuma! Quem sabe ele, a partir de agora, aprende um pouco mais a se portar no trânsito como cidadão. Antes de seguir seu destino, notando que o maltratado “motoqueiro” já estava lúcido, arrematou: se tornar a cruzar com você nas mesmas condições em que nos encontramos hoje, dar-lhe-ei, aí, sim, uma sova como as que levei de meu pai para aprender a me comportar como gente, cidadão de bem, que respeita o direito dos outros: de cinturão, como este aqui, que apontou. Sem forças, o da motocicleta apenas resmungou: se houver uma próxima vez, eu te mato, cara.

                Com algum esforço e ajuda da mulher, levantou-se e ocupou a garupa da motocicleta, que foi por ela conduzida, sabe-se lá para onde; minutos antes da passagem de uma viatura policial que, não vendo nada de anormal, seguiu em frente.

                Fato é que a cena, violenta, claro, servira de divertimento, bochicho, para tantos que a presenciaram e, certamente, de lição ao mal-educado condutor que, até então, ainda não aprendera que as leis de trânsito existem para, em síntese, dar segurança a quem está na condição de condutor de veículo automotivo, e proteção ao pedestre.  

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A revolta dos tamancos



A revolta dos tamancos

Pádua Marques
Escritor e jornalista

Ninguém na vila de São João da Parnaíba esperava por aquilo naquele dia 10 de setembro de 1829. Caboclos, negros desocupados, negras vendedoras de frutas e verduras, embarcadiços, viajantes, donos de pequenos pontos de comércio, enfim toda sorte de gente ficou por toda a manhã em frente à casa do quase morto coronel Simplício Dias da Silva, entre o largo da igreja da Graça e a rua Grande, batendo um tamanco no outro, gritando nome feio e dando vaias.

Gente vinda de Ilha Grande de Santa Isabel, Araioses, Tutoia, Tucuns, Testa Branca e dos Campos, da Parnaíba toda, cobrando justiça pela prisão e açoite na véspera, de duas negras vendedoras de muricis e goiabas que estavam falando alto e arrastando os tamancos, justo na calçada e embaixo da janela do quarto, onde estava acamado e com os dias contados, o dono da Parnaíba. Aquele reco pra cá e reco pra lá nas pedras não deixava Simplício Dias pregar o olho.

A notícia de que as duas negras estavam no calabouço da casa e levando de meia em meia hora dúzias e mais dúzias de bolo de palmatória fez vir gente de tudo quanto foi lugar. Diante da confusão e do clamor da multidão os milicianos foram chamados e cada um em seu cavalo tentou dispersar e acabar com o princípio de tumulto, que se não tivesse a mão da lei acabaria em banho de sangue. Foram chegando e desferindo golpes de baionetas e de chicotes, pegasse em quem pegasse. Os principais da vila foram chamados ao senado da Câmara, mas pouco ou quase nada puderam fazer.

Até as senhoras ricas e mulheres de juízes, vereadores, religiosas como Esmeralda Freitas Basto, a inglesa Dorothy Cunnis, mulher do capitão de navio Sinclair Cunnis e Tertulina Correa Prado, tia do advogado e afilhado de Simplício Dias, Bernardo Vieira. No largo da casa de morada, sol a pino, era negro dando no meio da canela. Tudo por causa das duas negras tempereiras que tiveram os tabuleiros revirados e os tamancos arrancados dos pés, quebrados e jogados no meio da rua. Falta de respeito aquilo, incomodar o coronel já no leito de morte?

No meio da manhã a multidão estava dando na beira do rio Igaraçu. Quem tentava descer das embarcações era retirado nos braços e obrigado a subir o barranco já descalço e de tamancos nas mãos. E tudo aquilo foi coisa de dois dos piores indivíduos que a vila da Parnaíba tinha até então, Coré e Papudo. Dois vagabundos de entre o cais e o largo da igreja! O primeiro, dito e batizado com o nome de Coriolano, era, diziam, ser irmão de Simplício Dias por parte de pai. Beberrão, nem negro nem branco, gabola, mas sempre que alguém ia lhe dar cobro puxava na frente o nome de Domingos Dias da Silva.

Papudo, o outro, vagabundo, arruaceiro, perdido em jogo de azar, família ignorada, andava de cara pra cima e de casa em casa à procura de quem desse um prato de comida ou roupa usada, uma gandola de soldado que fosse o que acabava trocando por alguns tostões ou aguardente nas proximidades da igreja dos pretos. Ninguém o tinha em boa conta porque quando não tinha o que comer se danava a pegar no alheio na rua entre a casa de Simplício Dias, que ficava em frente a um cemitério e a igreja da Graça. Em troca de alguns tostões de quem desembarcava de Tutoia, se dava a beber de uma vez só, jarros e mais jarros de água do rio Igaraçu. Nome de batismo e de onde veio era coisa que nunca ninguém soube.

Vieram dizer ao chefe da milícia que do jeito que estava a situação se agravando podia ser necessário disparar alguns tiros de bacamarte, mas ele não achou conveniente. Porque de espada e de chicote não dera vencimento!

Chegasse aos ouvidos de dom Pedro I no Rio de Janeiro, notícia de um massacre na vila da Parnaíba, tudo o que fez pela independência, há sete anos, iria por água abaixo. Mais de duzentas pessoas espalhadas até aonde a vista dava batendo um pé de tamanco no outro. Os negros carregadores de água acharam de atear fogo em barris velhos e por isso acabou provocando uma briga.

Na casa de Simplício Dias as duas negras tempereiras estavam nos fundos trancafiadas e teve quem dissesse ter visto as palmas das mãos delas estavam azuis de tanto levar bolo de palmatória! Mas era tudo conversa! Conversa pra aumentar ainda mais a revolta de toda aquela gente. Por volta do meio do dia, quando as canoas vindas do Maranhão voltavam pra casa, sem ter como acabar com aquela revolta, veio de dentro da casa do coronel a ordem de soltar as negras. Mas que nunca mais, enquanto vida Simplício Dias tivesse, queria ser incomodado na hora de descanso com raspada de tamanco em sua calçada!  

JORNAL INOVAÇÃO – UM DEPOIMENTO

Da esquerda para a direita - agachados: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2ª fila: Danilo Melo, Francisco Carvalho (Neco), Diderot Mavignier, Franzé Ribeiro, Sólima Genuína, B. Silva e Paulo Martins; 3ª fila: Jonas Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Alcenor Candeira Filho (de óculos escuros) e Flamarion Mesquita.


"Inovadores" no saudoso Bar do Augusto, que foi um dos redutos de alguns membros do Jornal Inovação.
Flagrante do lançamento da recente edição extraordinária do Jornal Inovação, comemorativa dos 40 anos da queima do "Muro da Vergonha" e da publicação do livro Salada Seleta. 
Painel onde estão estamplados alguns número do Inovação.



JORNAL INOVAÇÃO – UM DEPOIMENTO

                                                     Elmar Carvalho

Em virtude do lançamento da edição extraordinária do Jornal Inovação, comemorativa dos 40 anos da derrubada e queima dos tapumes, que escondiam os escombros da Praça da Graça, e da publicação do livro coletivo Salada Seleta, resolvi republicar na internet este meu depoimento sobre esse bravo periódico alternativo mensal, que breve fará 42 anos do lançamento de seu número inaugural. O evento aconteceu no entorno da Banca do Louro, que foi um admirador e amigo do Inovação e de seus colaboradores.

O jornal Inovação foi, sem sombra de dúvida, o mais consistente e mais duradouro jornal alternativo a circular em terra piauiense, pois o seu primeiro número foi lançado em dezembro de 1977 e o último, em janeiro/fevereiro de 1992, numa edição especial e extemporânea, que foi na verdade o seu canto de cisne.

Este trabalho é um simples depoimento, escrito quase ao correr e sabor da pena, das lembranças e da saudade, embora sem perder de vista os documentos e os fatos concretos, além de informações verbais, e produzido por quem viveu intensamente essa aventura, na verdade uma odisseia, para a Parnaíba do início do jornal. Não pretende esgotar o assunto, mas apenas servir de apontamento para um trabalho de mais alentado fôlego, a ser feito por quem tenha mais tempo e mais paciência do que eu para pesquisar o arquivo do jornal e outras fontes, pois o periódico e o Movimento Social e Cultural Inovação (que lhe servia de esteio), bem se prestam a uma dissertação de mestrado ou a uma tese de doutorado, porquanto a meu ver não existiu em Parnaíba, e talvez mesmo no Piauí, uma proposta cultural e de luta social mais bonita do que a que se lhes erigiu em torno.

Em seu primeiro número, já o jornal, em edição mimeografada, tipo apostila, delineava a sua linha de ação e editorial, quando denunciava a carência cultural da Parnaíba do final de 1977, ao dizer em sua primeira página: “Somos carentes de bibliotecas, centros culturais de nível mais elevado e tudo que a juventude sinta estar realmente segura, apoiada por órgãos municipais, sociedades filantrópicas e outros órgãos deveriam olhar mais pela cultura parnaibana.” A seguir dizia que a sociedade, a exemplo do que ainda ocorre hoje, só queria saber de diversões, sobretudo em boates, restaurantes, bares de esquina e bate-papo sem interesse cultural. Ainda nesse primeiro número, se dizia alinhado com o MDB, partido de oposição ao regime militar, na época do bipartidarismo.

Nos seus primeiros passos e vagidos, o pasquim foi saudado por outros periódicos, entre os quais, o jornal O Dia, de Teresina, edição de 30.04/01.05.78, que trazia uma reportagem sobre a imprensa alternativa. Estampava as capas do pasquim-mor, o Pasquim (este, assumido até no nome), de circulação nacional, e a do Inovação, nº 6, de abril/1978, tendo como legenda a frase: “surge um ‘nanico’ em Parnaíba”. Ou seja, um nanico federal ao lado de um nanico estadual.

O poeta, escritor e professor Alcenor Candeira Filho, em seu importante livro “Aspectos da Literatura Piauiense”, publicado em 1993 pela Editora e Gráfica da Universidade Federal do Piauí, reconhece que no início o jornal manteve relações de cordialidade com as mais importantes lideranças do MDB, embora sem vinculações ideológicas com esse partido político. Contudo, ainda nos primeiros números, o jornal passou a atacar um dos próceres do MDB de Parnaíba, o prefeito João Batista da Silva, apontando as mazelas e equívocos de sua administração.

Ainda nesse livro encontramos a seguinte informação: “O Movimento Social e Cultural Inovação foi oficializado no dia 15 de janeiro de 1978, ocasião em que importantes figurões do MDB se fizeram presentes: o prefeito João Batista Ferreira da Silva (...), o vice-prefeito Roberto Broder, o ex-prefeito José Alexandre Caldas Rodrigues, o deputado federal Celso Barros Coelho, o presidente regional do MDB João Mendes Nepomuceno, o presidente da ACEP Francisco José Martins Jurity, o poeta Elmar Carvalho,  (...) e os jornalistas Reginaldo Costa e Francisco José Ribeiro.”

 Além dos fundadores Reginaldo Ferreira da Costa e Francisco José Ribeiro, foram colaboradores da edição inaugural: Jeferson Ramos, Ângela, Bernardo Silva, Francisco Jurity, Marcos L. de R. Melo e Vicente Vicentino. Posteriormente, mas ainda no início, o jornal passou a contar com vários outros colaboradores, como Canindé Correia (uma espécie de guru do grupo), Alcenor Candeira Filho, Ednólia Fontenele, Airton Menezes, Vicente de Paula, Jorge Carvalho, Israel Correia, Diderot Mavignier, Mário Carvalho, Sólima Genuína, João Maria Madeira Basto, Fernando Holanda, Dr. Cândido Athayde, Dr. Celso Barros Coelho, Porfírio Carvalho, Francisco (Neco) Carvalho, Jonas Carvalho e Elmar Carvalho, além de outros colaboradores circunstanciais.

O Reginaldo Costa, além de fundador, foi seu diretor, redator e uma espécie de faz-tudo. Era um líder e incentivador. Era, verdadeiramente, um dínamo incansável. Várias vezes o vi varando dia e noite, preparando algumas das edições. Então é que se via a força de um ideal, slogan da global TV Rádio Clube (enquanto o do Inovação era um jornal sem colunista social), pois o Reginaldo fazia todo o trabalho de datilografia, montagem e planejamento gráfico, seja utilizando estêncil comum ou os destinados a mimeógrafo eletrônico.

Na primeira fase – a fase do mimeógrafo, de formato apostilado – o jornal foi quase sempre editado em Parnaíba, de forma algo clandestina, contando com o apoio de pessoas abnegadas e idealistas, cujos nomes ainda não podem ser revelados.

Em sua segunda fase, o Inovação tornou-se o primeiro jornal em off-set de Parnaíba, cidade que se orgulha de haver sido pioneira em várias coisas no Piauí. Era publicado em tamanho tablóide, e trazia várias fotografias e ilustrações de artistas parnaibanos, como Flamarion Mesquita, Bartolomeu Martins e outros mais. Portanto, registrou muito da História parnaibana recente, através de suas fotografias, desenhos, charges e cartuns. Mais uma vez era o Reginaldo, utilizando-se somente de uma pequena e modesta máquina de escrever elétrica, de cola, tesoura e estilete, quem fazia toda a diagramação, montagem e planejamento gráfico do valoroso e valente alternativo.

Na terceira fase, também em off-set, o Inovação quis seguir o padrão da grande imprensa, ao adquirir um tamanho maior, embora com menos página. Mas, então, já era o princípio do fim. Já as dificuldades de toda ordem, sobretudo as financeiras, começavam a falar mais forte e mais alto, o que terminou culminando com a desativação do jornal, cuja última edição foi aquela a que já me referi, de janeiro/fevereiro de 1992, que visava sobretudo a homenagear o seu grande incentivador e admirador Mário Carvalho, que falecera um pouco antes. Nessa edição de luto e de saudade foram publicados vários artigos, depoimentos e crônicas sobre o ilustre morto, escritos por Elmar Carvalho, Jonas Carvalho, Reginaldo Costa e João Maria Madeira Basto. Havia ainda um belo trabalho humorístico de quadrinhos, denominado “Expurgado por um desenhista expurgado”, da autoria do velho e sempre novo colaborador Flamarion Mesquita, e uma entrevista com o gerente executivo do Projeto de Irrigação Tabuleiro- Litorâneo, além de uma crônica do próprio Mário Carvalho, intitulada “A bodega do Zé Bento”, dentro da coluna “Projeto memória de Parnaíba/Jornal Inovação”. O editorial, além de ratificar o mesmo ideário do primeiro número, prometia a continuidade do jornal. Foi a primeira e última vez em que o Inovação não cumpriria uma promessa, pois foi aquela a sua derradeira edição, a sua última pá de cal e o seu verdadeiro e glorioso ocaso. O Inovação, de rica história e de bela trajetória, não mais circularia.

Logo no seu primeiro número, de dezembro de 1977, o Inovação trazia em suas páginas o conteúdo e a linha editorial, que seriam a sua marca registrada, até a última edição de jan./fev. de 1992, já referida e descrita. Nessa primeira edição, como nas demais, o jornal fazia reivindicações, críticas e apontava soluções. Tinha uma preocupação com os problemas sociais da cidade, principalmente das comunidades mais carentes. Demonstrava sintonia com o que se passava na aldeia global, ainda sem o rótulo globalizado da atual e famigerada “globalização”. Apresentava matérias literárias e culturais, além de se preocupar com a educação no município. Tudo isso seria uma constante, até o seu número final.

E assim se passaram dez anos, como diz a imortal canção popular. Nessa oportunidade, em artigo publicado no próprio periódico (nº 69 – janeiro/1988), titulado “Inovação – 10 anos de luta”, assim me pronunciei sobre o decênio: “Como sua direção editorial é de isenção e imparcialidade face às causas que defende, tem encontrado barreiras quase inexpugnáveis, apenas transponíveis graças ao esforço, que busca na própria dificuldade a sua própria força e a sua razão de ser (...)” E arrematei o texto, em alusão aos duplos sete anos de trabalho de Jacó, em sua luta pela conquista da bela serrana Raquel, que lhe era prometida e negada pelo pai Labão, com essas palavras: “E se outros dez anos não forem bastante, que outros dez sejam trilhados, apesar das ingratidões e da precariedade da vida fugaz”.

Em números mais recentes, expressivas figuras do mundo literário e cultural parnaibano, como Danilo Melo, Wilton Porto e José da Guia Marques, vieram integrar a plêiade inicial dos “inovadores”, mantendo-se a qualidade jornalística e literária do jornal, com pessoas do porte das mencionadas. Com o nível literário e cultural dos colaboradores, e depois com a impressão pelo sistema de off-set, o jornal mantinha-se num nível nem de perto alcançado pela imprensa parnaibana ainda hoje. Era um jornal informativo e de opinião, mas sempre combativo. Além das matérias “sérias” – reportagens e artigos – o alternativo também estampava excelentes matérias literárias, que marcaram época, no campo da poesia, da crônica e do conto.

Ainda em 28.08.83, através do Jornal da Manhã, assim eu já me pronunciava sobre o nosso pasquim: “Inovação é, atualmente, para algumas pessoas de Parnaíba, um jornal maldito. E incômodo, muito incômodo. Mas vale ressaltar que não obstante isso, ou exatamente por isso, é mais vendável e discutido que a grande imprensa de Parnaíba. Creio que em virtude de sua independência, de sua coerência para com a verdade, e de sua não omissão diante de fatos injustos e nocivos à comunidade”.

É preciso que se diga e agora vou dizer, sem vaidade, mas também sem falsa modéstia: antes de Alcenor Candeira Filho, com seus dois livros (“Sombras entre Ruínas” e “Rosas e Pedras”), impressos em mimeógrafo, pioneiros, inclusive em termos de Piauí, da utilização desse equipamento na confecção de livros, que passou a designar uma geração literária, deste escriba e do poeta V. de Araújo, ambos com poemas publicados, ainda nos idos de 1977/1978, nas páginas de “Folha do Litoral”, o que se via em Parnaíba eram poemas obsoletos e formalmente ultrapassados, sobretudo sonetos de cunho parnasiano, escola já destroçada em 1922, pelo movimento dos modernistas, mas cujos influxos ainda não haviam chegado a Parnaíba, ao menos publicamente, através de livros e jornais. Não mencionei o nome de Renato Castelo Branco em virtude de este notável escritor e poeta ter-se radicado em São Paulo há muitos anos e não haver publicado seus poemas modernistas em Parnaíba. Com o surgimento do Inovação, que provocou uma verdadeira revolução cultural e literária em Parnaíba, houve o ambiente literário propício para o aparecimento de novos nomes, que se somaram aos já referidos.

Com essa ambientação cultural criada em torno do Movimento Social e Cultural Inovação e do seu órgão de imprensa, houve a promoção de palestras, seminários e debates, inclusive com a integração entre Parnaíba e Teresina, antes tão distanciadas. Também a nossa gestão junto ao Diretório Acadêmico “3 de Março”, com a promoção desses eventos, e também de festival de música, jornada cultural e publicação de cartaz e livro de poemas, concorreu para essa efervescência artística, dantes nunca vista e nem depois, em nossa avaliação. Poetas de Parnaíba participavam de eventos em Teresina e vice-versa. Livros foram publicados com a presença de poetas dessas duas cidades. Basta que se compulsem as coletâneas “Aviso Prévio”, “Galopando” e “Em três tempos”, nas quais marcaram presença Alcenor Candeira Filho, Kenard Kruel, Paulo de Athayde Couto e Elmar Carvalho.

Graças sobretudo ao dinamismo e senso de organização do Reginaldo Costa, o alternativo sobrevivia independente de grupos políticos, e por isso tinha voz altiva e ativa. O jornal tinha um setor de assinaturas, que eram sempre renovadas, tanto de pessoas residentes em Parnaíba como em outras cidades e estados. Igualmente, possuía sua área de propaganda, quase sempre composta de anunciantes fiéis, que se mantiveram ao longo de toda a vida do periódico. Além disso, havia as pessoas que colaboravam financeira e economicamente, de forma espontânea, em virtude de admirarem o trabalho realizado. Esses três fatores contribuíram para a manutenção do alternativo.

Durante vários anos o jornal manteve uma biblioteca no centro de Parnaíba, onde ficava a sua sede, que era bastante frequentada, sobretudo por jovens admiradores do trabalho desenvolvido pelos “inovadores” e sedentos por perspectivas culturais e nobres ideais, além de aspirarem a uma sociedade mais justa e mais fraterna, que era na verdade a pregação mais constante do Inovação, e talvez a sua utopia e desiderato final. Essa biblioteca prestou relevante serviço, além de ter servido de fator de integração e interação entre o jornal e seus leitores.

O jornal foi realmente pioneiro e inovador em várias posturas. Não foi um órgão meramente informativo e laudatório, mas formador de opinião, cultural e denunciador das arbitrariedades, desvios, desmandos e falcatruas administrativas, tanto em nível local, como estadual e federal. Não apenas denunciava, apontava soluções e sugestões. Foi talvez o único a verificar os problemas das comunidades, favelas e povoados. Inovou ao trazer na maioria de suas edições importantes entrevistas, sendo que algumas merecem destaque: a de uma prostituta anônima, humilde e pobre; a de Chagas Rodrigues, por ocasião de seu retorno à cena política do estado; a do padre Leonardo Martin, da linha progressista da Igreja, que parece ter levado uns puxões de orelha de seu bispo, pois depois tentou se retratar, embora a fita magnética provasse haver ele realmente falado o transcrito na entrevista; as concedidas pelos intelectuais e escritores Alcenor Candeira Filho, R. Fonseca Mendes e Assis Brasil; a do padre Ladislau João da Silva, a que farei referência à parte. Teve, ainda, o pioneirismo de trazer encartado em vários números um suplemento especial sobre variados assuntos. Foi igualmente o primeiro a fazer pesquisas de formato científico, com planilhas elaboradas pelo estatístico e professor Batista Teles, da UFPI, a respeito de problemas dos bairros, periferia e favelas parnaibanos, detectando problemas e perspectivas, que pudessem servir de orientação à administração municipal. Ressalte-se, também, o pioneirismo em promover debates e palestras, além da criação e manutenção da biblioteca, com livros literários, sociológicos, históricos e sobre economia, além de outros. Outro pioneirismo já foi ressaltado: a sua própria impressão em off-set, que possibilitou a utilização de fotografias e ilustrações. Inovou, ainda, ao criar uma seção de cartas, até por uma necessidade, pois vários leitores enviavam correspondências de apreço, solidariedade e admiração. Como se tudo isso não fosse o bastante, dedicava páginas às manifestações literárias e culturais.

Foi um jornal tão corrosivo e independente em suas denúncias, que seu diretor Reginaldo Costa e os colaboradores Bernardo Silva e o hoje deputado Olavo Rebelo foram processados, os quais tiveram por advogado o jurista Celso Barros Coelho. Os processos, de autoria do prefeito Batista Silva, incomodado com as denúncias contra sua administração, terminaram sendo arquivados. O Reginaldo foi, por mais de uma vez, agredido fisicamente. Outras vezes, membros do jornal sofreram ameaças, inclusive eu mesmo.

O que talvez mais incomodasse no jornal fosse o nível de seus redatores e colaboradores, além da criatividade, aliada a uma linguagem irônica, humorística, e muitas vezes debochativa, que tiravam do sério os autoproclamados “homens sérios”. Isto para não se falar nos editoriais e reportagens, que eram verdadeiros açoites, nos lombos dos pulhas e aproveitadores de todos os matizes.

Apesar de no seu início, como já foi dito, ter sido impresso em mimeógrafo, no formato de apostila, era mais lido do que a imprensa tradicional de Parnaíba. Circulava bastante. Era lido, discutido e comentado. Passava de mão em mão, e era recomendado a outros leitores. Tornou-se um formador de opinião, faceta que incomodava sobremaneira a administração municipal, que tentou inviabilizá-lo, por diferentes meios, inclusive com a tentativa de aliciamento de um dos seus integrantes, com o aceno da criação de um outro jornal. Inclusive, sob os auspícios do prefeito Batista Silva, um jornal, o Abertura, foi criado, com a participação de colaboradores do Inovação, suponho que com a finalidade velada de desagregar o grupo. Ambas as tentativas não obtiveram êxito. Contudo, é bom que se diga, algumas das sugestões e alternativas do jornal foram acatadas, e algumas denúncias inibiram ações nefastas à cidade.

Para que se tenha uma pálida ideia de quanto o jornal se tornou incômodo, basta que se diga que vários de seus colaboradores sofreram ameaças e perseguições em seus empregos. A situação se tornou tão difícil que, a partir de determinada época, ainda na primeira fase, a do mimeógrafo, o jornal teve que ser impresso em Teresina e Fortaleza, contando com o apoio de padres da linha progressista da Igreja Católica e do Sindicato dos Bancários, pois o tempo e todas as portas de entidades estatais e paraestatais se fecharam para ele, e não havia quem tivesse a coragem de lhe ceder equipamento mimeográfico.

Com efeito, a importância do jornal era tão elevada e a sua influência tão marcante, que vários jornais surgiram sob seu influxo, graças ao ambiente cultural, literário e libertário, que lhe surgiu em torno, como uma de suas consequências. Gravitando em torno do Inovação, contando com seu apoio logístico, moral e até mesmo material, e tendo como colaboradores vários de seus membros, podem ser elencados os seguintes jornais: Litoral News (grupo Ônzimo), Impacto (grupo de jovens), Periferia (Camp), Folha Estudantil (estudantes do C. E. L. R.), Juventude e Participação (Ginásio Clóvis Salgado), Tetéu (D. A. “3 de Março”), Abertura (Grupo Força Jovem), Caminhando (universitários do C. M. R. V.), Querela (grupo Querela), Hora do Estudante ( estudantes secundaristas), Batalha do Estudante (Clube de Leitura do C. E. L. R.) e Força Jovem (estudantes secundaristas do Grupo Força Jovem). 

Os principais articuladores do Inovação eram boêmios; boêmios no bom sentido da palavra, no sentido de que éramos apreciadores de uma cerveja estupidamente gelada com tira-gosto de caranguejo e de uma boa música. Nesses momentos de libações etílicas, como diria o folclórico e histórico Pacamão, traçávamos estratégias administrativas e políticas para o jornal; levantávamos pautas e matérias, além de que discutíamos problemas internos, que bem podiam ser a administração de egos, acaso momentaneamente inflados, como a discordância saudável em torno de algum assunto. Também eram discutidos os problemas financeiros e econômicos do jornal. Éramos um grupo homogêneo, até certo ponto apenas, pois havia os mais pragmáticos e os mais românticos, aqueles que acreditavam que a ditadura militar poderia ser derrubada a partir de um poema. E, por acaso, o regime militar não terá caído por causa da força da poesia – a poesia dos ideais e das ideias?

Agora, sim, vamos ao caso da entrevista com o padre Ladislau – Ladislau João da Silva. Creio que nos últimos meses do primeiro semestre de 1981, o referido sacerdote foi espancado por um latifundiário de Esperantina (ou por pessoa a mando deste). O proprietário se sentia naturalmente incomodado com as pregações e com as campanhas de conscientização política do padre, que inclusive organizara, por ocasião das comemorações do 7 de Setembro, uma passeata com trabalhadores carregando seus instrumentos de trabalho, como foices, enxadas, machados, etc. Suponho que o latifundiário e outras pessoas graúdas de Esperantina se sentiram irracionalmente ameaçados, daí por que o vigário sofreu o espancamento, fato que obteve alguma repercussão na mídia estadual, embora não tanto como merecia. Por essa razão, embora o Inovação não dispusesse de estrutura, eu e o Reginaldo resolvemos ir a Esperantina, bem distante de Parnaíba, para entrevistá-lo. No auge de nossa juventude e de nossa saudável boêmia e “irresponsabilidade”, seguimos pela manhã, em minha motocicleta, parando em quase todos os botecos de beira de estrada para tomarmos uma “calibrina” e batermos um papo. Chegando à cidade de Batalha, já nas proximidades de nosso destino, nos demoramos um pouco, em um bar, e entramos numa inconsequente discussão sobre quem era maior: se Chico Buarque ou Ivan Lins. Eu defendia o primeiro, o Reginaldo, o segundo. Evidentemente, ainda não chegamos, passados quase vinte anos, a uma conclusão a respeito. Fizemos uma longa e bela entrevista, publicada com todo destaque na edição de nº 37, junho/julho de 1981, do Inovação, inclusive como Suplemento Especial, com direito a capa ilustrada e tudo mais. A viagem em si e a conversa com o entrevistado me renderam o poema “7 de Setembro”, dedicado ao padre, e publicado na mesma edição da entrevista, em que eu vociferava com toda a força de minha ardente juventude:

       Ai! Guernica
       Ai! Picasso
Ai! grito explodindo
em forma de cogumelo
de uma grande dor
       atômica
       atônita
       agônica
       e sem
       sentido.

Episódio rumoroso, que mereceu todo o interesse do jornal, foi o da destruição da Praça da Graça, pelo prefeito Batista Silva. O logradouro foi destroçado, com a finalidade de que uma outra praça (moderna) fosse construída em seu lugar, em vez de ser apenas preservada e restaurada a já existente, que era de grande beleza, e fazia parte do patrimônio afetivo e sentimental de várias gerações de parnaibanos, que ali brincaram, namoraram, amaram e passearam com seus filhos e netinhos, sendo o recanto encantado de tantas recordações e saudades. O fato é que a praça foi aniquilada, e os meses se passaram sem que uma outra fosse construída. Os escombros foram devidamente ocultados da vista dos parnaibanos, através de um tapume de madeira compensada. Eu sei disso muito bem porque morava na Praça da Graça, mais exatamente no apartamento dos Correios, de onde eu vislumbrava, outrora, uma mágica nesga da velha e bela praça. O Inovação que, como já frisado, se tornou um formador de opinião, e tinha muita força na comunidade, especialmente junto às lideranças mais jovens, começou uma veemente campanha pela reconstrução da praça, cujos tapumes chamava de “Muro da Vergonha”. As verrinas e catilinárias atingiam de morte o prefeito e os mentores da infeliz ideia de destruição do logradouro. A luta do pasquim começou a apimentar o brio e o sentimento da mocidade parnaibana, o que terminou culminando com a derrubada do “Muro da Vergonha”. Na noite de 31 de agosto de 1979 vários estudantes e pessoas do povo derrubaram os tapumes que encobriam os escombros da praça. Empilhavam as peças de madeira e tocavam fogo, numa verdadeira, guardadas as proporções e os motivos, derrubada da Bastilha, que no nosso caso denominamos de “Derrubada do Muro da Vergonha”. Eu tudo presenciei, pois como já disse morava na praça. Peguei uma bicicleta e fui chamar o Reginaldo Costa e o Bernardo Silva, que através do maldito/bendito Inovação contribuíram para que essa “revolução” acontecesse, o que terminou por forçar a reconstrução da praça, embora num modelo que não tinha toda a beleza e encantamento do anterior. O editorial, escrito pelo prof. Benedicto Jonas Correia, descreve o episódio com exatidão e veracidade, e lhe dá uma correta interpretação histórica e sociológica. O jornal dedicou um Caderno Especial sobre esse importante acontecimento da recente História de Parnaíba, inserido na edição de nº 22, de setembro/1979, na qual foi publicado o meu poema “Balada da Praça da (Des)Graça”, cujos versos finais descrevem o verdadeiro carnaval cívico, em que houve queima de foguetes e bombas de São João, com pessoas e carros circulando e buzinando em torno dos destroços da praça, que varou a noite do dia 31 de agosto até a manhã do dia seguinte:

Mas no dia da vingança
da derrubada do “Muro da Vergonha”,
que impedia o povo de contemplar
a terra revolvida, o relógio
tombado, a pérgula arruinada,
o povo percorria as ruas,
em verdadeiras passeatas marciais,
em olímpica apoteose,
sob o aceno das palmeiras imperiais,
que antes choravam orvalhos
em prantos, lamentações e ais
pela ruína dos cimentos,
das pedras e dos cascalhos.

O Inovação foi um jornal que marcou toda uma época, a época em que circulou, em que passava de mão em mão, em que era discutido, incentivado, admirado e aplaudido. Outro não existiu antes, mais valente e destemido, nem tampouco existiu nem existirá depois. Marcou de forma indelével toda uma geração, a geração daqueles que o fizeram com amor e dedicação e sem nenhum apego aos metais.

Encerro este depoimento com as mesmas palavras que disse, mais de década e meia atrás, e que foram transcritas pelo também ensaísta Alcenor Candeira Filho, em seu precioso livro, já referido: “Se alguém, algum dia, escrever um ensaio isento e imparcial sobre a cultura parnaibana não poderá olvidar, jamais, o jornal INOVAÇÃO”.

Texto publicado na revista Cadernos de Teresina, ano XII – nº 31 – dezembro/99, no Almanaque da Parnaíba, na plaqueta Aspectos da Literatura Parnaibana e no livro A Poesia Parnaibana.     

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Homilia



                            HOMILIA

Weliton Carvalho

                                   TENHO um encontro com Deus:
                                                  ─ José!
                                                 onde estão tuas mãos que
                                                 eu enchi de estrelas?
                                                 
                                                 ─Estão aqui, neste balde
                                                de juçaras e sofrimentos.
                                                         (José Sarney)

Não almejo meu texto lido nos púlpitos das igrejas
                mormente das igrejinhas literárias,

                            onde Narcisos
                 recitam ladainhas laudatórias
                 refletindo mil espelhos de ego:

nascem panegíricos bumerangue quase constrangedores
e os condoreiros se arvoram em salvar a pátria e as letras:

ninguém se ocupou em colocar o ouvido ao nível do relés,
do puído sol cintilante de todos os dias sobre a morte,

              destino derradeiro das vaidades veladas

    sobre o vulgar da vida que arde ao sonhar ser pétala,
    borboleta, sol alaranjado sobre buzinas a hora do rush.

            Ou a tarde devaneando nas asas do dia letargo,
            que sucumbiu ao burburinho das máquinas,           
    humanas algumas, tocadas a salários e contas a pagar.

Também não quero ser ovacionado entre copos de chopes
        e anedotas entrecortadas por nobres confrades.

Desejo ardentemente ser lido pelos adversários mordazes
não na esperança da restauração de sentimentos esgarçados,
mas para nos reconciliarmos ante a tentativa da beleza,
quando uma palavra toque a fímbria do azul dilacerado.

Senhor Stendhal, política também é sonho embebido em poesia
e como tal – por vezes – se perde macerado na lida crua da vida.
(bem sei: politica e poesia tocam a alma em carne viva, puro fogo:
sabe o senhor, em França, o que seja ferroada de marimbondo)?:
poesia é a alma em carne viva – ah, como disso sei, senhor Stendhal!    

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

E SE AS GERAÇÕES SE UNIREM?

Na foto, entre outros, são vistos:  Claucio Ciarlini, Dilma Ponte, Antônio Gallas, Pádua Marques e Alcenor Candeira Filho. Fonte: Blog do Professor Gallas


E SE AS GERAÇÕES SE UNIREM?

Claucio Ciarlini
Jornalista, escritor e poeta


Para além dos jornais e demais produções impressas, a Parnaíba da década de 70 viu surgir uma geração de jovens escritores que encontraram no mimeógrafo uma chance de se manifestarem de forma mais abrangente, tendo como forte exemplo o movimento Inovação, principalmente no que condiz ao funcionamento de seu criativo e contundente periódico (1977-1992), gerador de grande visibilidade a diversos poetas, cronistas e contistas que figuram, muitos, ainda hoje, publicando e sendo referência para estudiosos e amantes da escrita, nomes como: Elmar Carvalho, Alcenor Candeira Filho, Wilton Porto, Israel Correia e Diderot Mavignier.

Contudo, chegada a década de 90, a cidade passou a vivenciar um período mais discreto no que diz respeito a grupos literários. Irão surgir alguns exemplos, mas geralmente isolados. Não houve, por assim dizer, uma geração. O que se deu foi a continuidade da atuação daqueles escritores oriundos da década de 70, que obtiveram sua consolidação nos anos 80, com a abertura da Academia Parnaibana de Letras, fundada por boa parte dos próprios, no que adentraram os anos 90, continuando a atuar em jornais e no Almanaque da Parnaíba, quando não em suas obras individuais.

Quantos nomes não deixaram de ser revelados ou incentivados durante esse período obscuro, onde, repito, houveram sim algumas manifestações, porém esporádicas e em sua esmagadora maioria de forma solitária. Essa geração “fantasma”, que inclusive, foi de onde despontei, respirou um período mais democrático em termos políticos, se comparado a geração anterior, que havia batido de frente com a ditadura, ou seja, tínhamos mais liberdade, porém nos faltou união, ou quem sabe alguém ou algo que pudesse nos incitar? Uma junção de ambos? Uma questão a ser possivelmente elucidada numa pesquisa bem mais extensa e aprimorada.

O fato é que veio o século 21, e junto, o advento da internet, que embora já existisse bem antes, não possuía o leque que viria a ser aberto apenas em meados de 2000, quando da época do surgimento de diversos espaços virtuais, a citar, Recanto das Letras (2004) e Orkut (2006). O escritor não mais se limitaria ao campo de seus próximos quando do ato de divulgar os seus textos. O Brasil, ou melhor, o mundo, se tornou palco para suas manifestações.

Em meio a essas novidades, tiveram início marcas como O Piaguí (2007), impresso cultural, mensal e gratuito (também detentor de site) que desde seu nascimento concedeu espaço para numerosos jovens escritores, servindo de base para que eles pudessem não apenas mostrar seus talentos, como também se conectarem e até mesmo produzirem ações em conjunto, como foi o caso da coletânea Versania (2017), que potencializou a visibilidade destes, que já vinham sendo publicados no jornal e que compartilhavam suas criações pela internet, a citar, Carvalho Filho, Alexandre César, Jailson Junior, Daltro Paiva, Joyce Cleide, Morgana Sales, Marcello Silva, Luana Silva, Leonardo Rodrigues da Silva, Marciano Gualberto, dentre outros.

O Boom das faculdades e cursos em Parnaíba nesta última década também tem ajudado a fomentar a vida literária e a formação de grupos que promovem saraus, oficinas, até mesmo publicações, havendo uma constante parceria entre estudantes de Parnaíba e talentos vindos de outras cidades e estados.

Cabe ressaltar também, o enorme incentivo cultural e literário dado pelo empresário e acadêmico da APAL Valdeci Cavalcante, como mecenas de muitas obras lançadas nos últimos anos.

Recentemente, porém não menos importante, o surgimento da plataforma Escrever sem Fronteiras (2016), com realização do SESC, que tem ajudado a alavancar ainda mais o nascer e o interagir destes jovens da escrita, promovendo bate-papos e servindo de base para o impresso anual Correio Literário. Isso, sem contar as outras atividades desenvolvidas pelo Sesc Caixeiral, como lançamentos e demais eventos, por exemplo, o Corredor Literário, feira realizada em 2018 e neste ano e que possibilitou a união de escritores oriundos das gerações já mencionadas e que fez com que fosse reforçado um sentimento já existente de promover a aproximação destes grupos, ideia também defendida pela APAL, na figura de seu atual presidente José Luiz de Carvalho, como também em publicações de outros acadêmicos, como é o caso de Antônio de Pádua Marques, Maria Dilma Ponte de Brito, Renato Bacellar e Antônio Gallas.

E é na missão de unir os jovens literatos aos mais experientes que seguimos, a realizar ações, como por exemplo, um projeto de minha iniciativa, que terá seu lançamento em outubro: um livro de contos entre gerações, no intuito de fortalecer os laços, uma espécie de ponte oficial que consolidará de vez a parceria entre APAL e O Piaguí, e que certamente renderá excelentes frutos, afinal, e como costuma-se dizer: a união faz a força!

Fonte: Blog do Professor Gallas

domingo, 1 de setembro de 2019

A ZONA PLANETÁRIA - O Sistema Planetário


Fonte: Google

A ZONA PLANETÁRIA

Elmar Carvalho

Poema épico moderno, inspirado no meretrício Zona Planetária, de Campo Maior, em que procurei mesclar a mitologia greco-romana, a astronomia e a sociologia dos cabarés. Na Zona Planetária cada um dos lupanares ostentava na fachada o nome e a imagem de cada um dos planetas. Irei, no blog, publicando cada uma das partes desse relativamente longo poema.

           O SISTEMA PLANETÁRIO

Anfion percorre os sulcos
dos discos das vitrolas e as
emoções são alinhadas pedra a pedra.
Apolo é qualquer moço feio
que nos vitrais Narciso se julga.
De repente, Átropos corta o fio da vida
que era tecido pelas Parcas lentamente
pelos golpes de facas, adagas ou estiletes
nas mãos de um velho Pã embriagado.
Baco e suas bacantes celebram suas
lúbricas bacanais e bebem vinho
e sangue em frágeis taças de cristais.
Nas calçadas altas da Zona Planetária
meretrizes expõem suas carnes
em varais de açougues imaginários
aos transeuntes ou faunos eventuais,
nas horas em que Hélio esboça a Aurora.
Ali, os desejos são Ícaros leves que sobem
nas asas de cera do pensamento, quando
Nyx, filha do Caos, com seu negromanto
lantejoulado de estrelas e sua
coroa de dormideiras, a noite,
o sonho e a orgia instaura.
Cupido passa com seu
séqüito de sátiros e de ninfas
pelas calçadas e salões da Zona Planetária
e Eros proclama seu reinado
de orgia, prazeres, orgasmos e pecados.