segunda-feira, 11 de maio de 2020

ESTARIA O CORONAVÍRUS FECHANDO O CERCO?

Fonte: Google/Uol


ESTARIA O CORONAVÍRUS FECHANDO O CERCO?

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

    

                Três ou quatro semanas atrás, diante das perspectivas alvissareiras, vindas até mesmo do Brasil, de onde se falava estarem no forno medicamentos secretos, ufanei-me ante a possibilidade de, enfim, poder comemorar, senão o fim, um tratamento paliativo ou inusitado para as moléstias causadas pelo maldito coronavírus.

                Dias depois, novas informações acrescentadas às muitas especulações circulantes, inerentes a possíveis inéditas complicações e descobertas referentes ao vírus e à virose, induziram-me a algumas deduções: uma adveio da leitura de um pensamento, segundo informava o texto, de Goethe: “para saber alguma coisa seria necessário saber tudo”; ou seja, quase nada sabemos a respeito do coronavírus, pois, mesmo sobre o pouco que imaginamos saber, temos dúvidas.... A segunda veio na forma de concordância ipsis litteris com a conclusão a que chegou doutor em doenças infecciosas e parasitológicas do Hospital das Clínicas, antes do primeiro caso da virose no Brasil: “não há um ser humano livre de adquirir essa infecção”...

                Estatisticamente, hoje, ele mata por pneumonia; eliminaria mais indivíduos portadores de sangue do tipo A; liquida muitos por insuficiência múltipla de órgãos; já se fala que causa úlceras e lesões digitais, trombose, logo, também haverá casos de mortalidade em decorrência de essa patologia; pode incrementar, nos infectados, os casos de acidente vascular-cerebral; desconfia-se de que o vírus poderia afetar os neurônios. Quais seriam as outras espécies de afecções que poderiam levar as vítimas à morte? Sabe-se lá. Estar-se-ia andando às tontas?

                Isolamento, uns acham que não é solução, pois matará de fome – antes que o vírus o faça – pobres, desempregados, abandonados socialmente. Fato é que, infelizmente, sempre foram mais sacrificados os menos abonados – social e, economicamente -, com ou sem coronavírus. Máscara? não basta. Distanciamento, que é isso? Qual, matematicamente, a distância a ser respeitada, de modo a evitar-se o contágio? Um metro e meio? Há controvérsia. Ninguém sabe, eis a verdade...

                Outro dia, análises feitas nas proximidades de recentes hospitais de campanha construídos, descobririam resquícios de coronavírus; somente exames mais apurados diriam se as populações e transeuntes que moram ou trafegam nas imediações daqueles temporários nosocômios correriam ou não risco de contrair o vírus.

Já se ouviu dizer que encontraram vestígios do coronavírus em sistemas de esgoto, logo rechaçada a possível periculosidade; nas quantidades e condições verificadas, concluíram que não causariam mal; cientistas também constataram a presença do patógeno em fezes, sêmen, urina de pessoas que não mais o apresentavam nos pulmões ou vias respiratórias…Seriam apenas novas cenas de terror, ou estaria o vírus – o atual dono do mundo -, de fato, fechando o cerco?

                Com o enovelamento cada vez maior de tudo que envolve e cerca o assassino microrganismo, será que aquele ex-ministro que quase virou, novamente, ministro – o que disse que quarentena é coisa de classe-média, que tem geladeira cheia e dinheiro no banco, o pobre está mais preocupado com a fome do que com o vírus -, e o liberalista empresário paranaense do ramo de restaurantes, que afirmou serem as poucas mortes causadas pela COVID-19 motivo insuficiente para parar-se o país, ainda pensam da mesma forma, não teriam se convencido de que o isolamento é, ainda, o melhor remédio contra o peste? O antolho churrasqueiro sulista e o insosso ex-ministro, certamente, não viram nem leram, ou, se o fizeram, deram-se olhos de cego, a oportuníssima e inteligente expressão - depois replicada por pessoas que não pensam como esses dois - dita pelo empresário americano, dono da segunda maior fortuna do universo, e que anda investindo milhões de seus dólares, também, em pesquisas de medicamentos e vacinas contra o coronavírus: “economia a gente ressuscita, mortes, não”...

                Com todo o povo nas ruas, exposto, liberadas todas as atividades mercantis, como querem indivíduos feito aqueles carniceiros acima citados, nem precisaria estar certo o médico-cientista do Hospital das Clínicas, o que veríamos talvez não fossem os negócios indo de venda em popa, lucros e empregos recuperados, mas, mantida essa falta de sincronismo entre o ininterrupto surgimento de novas letalidades para o coronavírus e a descoberta de drogas ou tratamentos efetivos, não o fim da virose, mas, provavelmente, ela matando um número infindável de pessoas, enquanto outras aguardam sua vez.

                Ah! Se estivessem blefando, atônitos, perdidos, ou apenas querendo justificar investimentos, empregos, a conquista de espaço nas mídias, esses que nos sufocam com informações e contrainformações sobre o mesmo tema. Por não se saber serem verdadeiras ou não, em vez de nos acalmar, angustiam e nos amedrontam; como naquela parábola da cobra e da lagartixa, em que o picado por esta morre de medo e não do veneno, por pensar ter sido a serpente, à qual viu, que o picara.       

domingo, 10 de maio de 2020

CÂNTICO DO CORPO AMADO

Fonte: Google


CÂNTICO DO CORPO AMADO

Elmar Carvalho
                                             
Teus cabelos
às vezes são filigranas escorridas
tecidas em pura maciez.
Às vezes são algas e caracóis
encrespados em ondas e espumas
esculpidas pelo vendaval.

Tua tez
revestindo a superfície
veludosa e bela de tua carne
é película de esplêndida
fruta tropical.

Teus olhos
às vezes sombrios
pelos enigmas e mistérios
de tua alma de mulher
às vezes resplandecentes
pelo relâmpago do riso
são dois lagos – calmos ou agitados –
em que os meus imergem e se perdem.

Tuas orelhas
são conchas
em labirinto de perfeito lavor
e nelas escutas e escuto as vozes
dos búzios e o chamado do mar.

Teu nariz
ergue-se em cordilheira
e de suas cavernas
emerge o vento de teu respirar.

Tuas sobrancelhas
são arcadas góticas
e teus cílios tessituras persas
do frontispício de teu altar.

A tua boca
onde as palavras lavras
em forma de canção
são retábulos e ornatos
do sacrário de teu ser.

Teus sorridentes lábios entre-
mostram o dique/arrecife
de concha, ostra e coral
do límpido colar dos dentes.

Pedestal firme e flexível
de teu rosto é o teu pescoço
- belo e singelo colosso.

Teus braços
são baraços que
enforcam e fascinam
serpentes que
atraem e traem.

Tuas mãos
são plumas e verrumas:
afagam e esmagam.

Teus seios
alçados em sublime formosura
de tenras carnes e tênues epidermes
são Olimpos
que meus dedos alpinistas escalam
para (re)colher o hidromel
no céu dos mamilos sensitivos.
Os pomos
de teus seios tomo
e eles me enchem as mãos.

Pelas dunas do deserto
de teu ventre fértil e belo
encontro o oásis na cacimba
de teu umbigo em que naufrago
perigo e me embriago.

De teu umbigo
minhas mãos e meus olhos
correm e escorrem
pelas vertentes e grotões
de tuas passagens/paragens
mais secretas e seletas
e se saciam
no frescor de tuas nascentes,
onde estão o lodo e o húmus
de um Nilo todo dádiva.

Na tecelagem do púbis
- tapete mágico de penugem e babugem –
e na fenda dos lábios
que são pétalas e conchas
recende a maresia
que reacende a velha flama
de um deus pagão.

Minhas mãos apalpam
tuas coxas roliças
de macia carnação
e descem pelas dobradiças
perfeitas de teus joelhos
circundam teus artelhos
e giram ávidas em torno
de teus pés de artesanal contorno.

Tuas pernas formam arcos
de onde são arremessadas
as flechas de meus braços
em busca de outros acidentes
geográficos anatômicos.

Tuas nádegas
às vezes árdegas gazelas
às vezes mansas aves de estimação
às vezes retesas setas acesas
às vezes quedas texturas de veludo e seda
desenham arcos e penhascos
                                   rochedos e penedos
                  desfiladeiros e socavões
em que meus olhos
de tamanha beleza se abismam
na vertigem que alucina e ilumina.

Meus dedos
cegos de tanto encanto
tateiam e tenteiam
se enlevam e se enleiam,
pelos enlevos e relevos
                         mimos e cimos
atavios e baixios
                         côncavos e recôncavos
                         entrâncias e reentrâncias
da geomagia de teu corpo.

Navegam minhas mãos
pela sinuosidade litorânea
da enseada de tuas ilhargas
e do cabo bojador
de tormentas e esperanças
de tuas ancas – âncoras –
e desbravam/devassam
as volutas voluptuosas
de tua coluna (grega) dorsal
e se perdem na voragem/miragem
das ondas revoltas
de teus cabelos.

                             Te.Dez.89   

sábado, 9 de maio de 2020

SERVIDOR PÚBLICO


Elmar visto pelo Gervásio Castro, na condição de literato, juiz, blogueiro e flamenguista


SERVIDOR PÚBLICO

Elmar Carvalho

O texto abaixo faz parte do meu livro Confissões de um juiz, que recentemente publiquei na loja Amazon, no formato e-book, através da qual pode ser adquirido. Faz parte do meu Diário Incontínuo, conforme pode ser visto na nota de rodapé. Resolvi republicá-lo em homenagem ao meu filho João Miguel, que recentemente aniversariou. Quando o escrevi, em 15/09/2011, João Miguel se preparava para iniciar o curso de formação de oficiais da PM/AM, sendo hoje capitão dessa briosa corporação militar.

Faz hoje 36 anos que ingressei no serviço público, quando fui admitido na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, lotado na Diretoria Regional do Piauí, no cargo de monitor postal, após ter feito curso de três meses, em Recife. Amanhã, por coincidência, meu filho João Miguel de Sousa Carvalho segue para Manaus, onde será aluno do curso para oficial da Polícia Militar do Amazonas, depois de ser aprovado em difícil e concorrido concurso público. Após as provas, foram exigidos rigorosos exames e laudos referentes à saúde, além de um extenuante e reprovativo exame de resistência física, em que muitos não lograram êxito. Por último, ainda houve teste psicotécnico.

Após deixar a ECT, ingressei na SUNAB, no cargo de fiscal, através de aprovação em concurso público, no dia 10 de agosto de 1982. Se não tivesse seguido outro rumo, hoje seria auditor-fiscal da Receita Federal. Em 19 de dezembro de 1997, tomei posse junto ao egrégio Tribunal de Justiça do Piauí, no cargo de Juiz de Direito. Hoje, sou o titular da Comarca de Regeneração, desde 3 de abril de 2007.

Na minha vida, desde muito cedo, senti atração pelo serviço público, pois nunca tive vocação nem para empregado e nem para patrão. Também nunca tive desejo de ser rico. Confesso que sempre desejei ter um bom emprego público, em que pudesse me sustentar e sustentar minha família com dignidade, sem maiores sobressaltos financeiros. Deus me concedeu isso, não, talvez, exatamente no modo e na velocidade em que o almejei, mas me atendeu esse desejo de forma gradativa e ascendente, como a me moldar, a me aperfeiçoar na experiência e nas lições de vida.

Não vou aqui ser um cabotino, e dizer que tenho sido um bom servidor; afinal, parafraseando Cristo, quem quiser ser o maior, deverá ser aquele que melhor serve. Portanto, deve ser o melhor servo, aquele que serve, e não o que é servido. Direi apenas que tenho me esforçado para ser um bom servidor, para cumprir da melhor forma possível o meu dever, dentro de minhas limitações físicas e intelectuais, e de acordo com as condições que me são oferecidas, que certamente não são as ideais.

Considerando meu tempo ficto na magistratura e no serviço público em geral, tenho mais de quarenta anos de serviço, e, portanto, já posso requerer minha aposentadoria. Como gosto do que faço, e continuo estimulado a bem desempenhar o meu ofício, ainda pretendo seguir na ativa por mais alguns anos. Desde que assumi minhas funções judicantes, compreendi que a Justiça tardia é muitas vezes injustiça; que minha maior preocupação não deveria ser o formalismo dos ritos e das decisões, mas a essência, e a essência é exatamente fazer justiça, agir com justiça, e com a possível celeridade.

Nem sempre isso é possível, pois a parte, embora possa ter razão, nem sempre consegue provar as suas alegações. Mas, digo sem empáfia, tenho buscado alcançar esse desiderato, analisando as provas carreadas para os autos e procurando bem instruir o feito. Em meu mister de julgador, com modéstia o digo, não tenho remorso, pois nunca violentei a minha consciência e jamais cometi injustiça deliberadamente. Os erros que devo ter cometido foram involuntários, e se devem à minha condição humana, pois todos os seres humanos somos pulvis e somos falíveis.

Neste momento em que o João Miguel se prepara para ingressar no serviço público, peço a Deus que ele seja um bom servo, seja um bom servidor público, quando estiver no seu cargo de oficial da Polícia Militar do Amazonas; que tenha prazer em servir, pois para isso será um servo/servidor público; que cumpra as suas funções com correção, justiça e bondade. Já tive oportunidade de dizer que quem é justo é bom, e quem é bom é justo, embora tendo a humildade de reconhecer que verdadeiramente bom é o Senhor que está nos céus.

Mas nos esforcemos para sermos um pálido reflexo de sua bondade e justiça. Exorto meu filho a seguir os princípios estampados no caput do artigo 37 da Constituição Federal (legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência), procurando sempre ser justo e bom, para ter a proteção do Onipotente, que não vela pelos iníquos e perversos.  

            (Texto extraído de Diário Incontínuo, de 15 de setembro de 2011)   

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O galo cego que viu um charuto voador

Fonte: APAL



O galo cego que viu um charuto voador

Pádua Marques
Romancista, contista e cronista

A estrada de ferro ficava longe e era preciso caminhar aquele mar de areia todo até alcançar o Macacal, muito úmido e coberto de mato e insetos, mas nada que fosse impedimento pra Aprígio naquela manhã de maio de 1930, quando logo depois do cantar dos galos se arrumou e foi ganhando caminho. Nem passou pela venda do velho Canuto Beviláqua, na Guarita, perto da linha de ferro, onde comprava aguardente fiado e ainda levava alguma moeda pra abrir as apostas do dia.

Aprígio, o Rolo de Fumo, era um negro até que de boa altura, forte, retinto, de uns trinta anos, beiços grossos, cego de um olho, filho de Benícia, dos Tucuns. Andava pra cima e pra baixo o dia todo, da Guarita ao Alto do Cemitério, com pedras de dominó dentro do bolso e um galo de briga debaixo do braço, pronto pra encontrar com quem apostasse uma luta. O apelido, dado por causa da sua cor, ele não gostava, detestava, era capaz de dar bofete e puxar briga, mas não andava nunca armado, fosse faca, navalha ou cacete.

Passava na venda de Canuto Beviláqua, na Guarita, e além de tomar uma dose larga de aguardente ainda inventava de dar outra pra o galo. Os que estavam no balcão imundo naquele início de manhã achavam graça, pegavam na cabeça do bicho, alisavam as penas, davam ajuda de alguma moeda. E assim naquela vida sem muito futuro de uma Parnaíba sem muito movimento no de longe porto Salgado e apenas agora, o que dava sentido era o trem no Macacal, Aprígio ia levando a vida de vagabundo.

De certa forma Aprígio, o Rolo de Fumo, foi criado na casa de Canuto Beviláqua. Quando menino ficava ali por perto vendo quem precisasse de ajuda pra levar uma compra mais pesada e do dono da venda, algum recado, uma cobrança de fiado. O quitandeiro agora estava por trás de um balcão feito de caixotes, entre sacos de farinha, latas de querosene, fumo de corda, velas, cordas, feijão, sabão, anil, garrafas de azeite de coco e latas de banha de porco.

Canuto Beviláqua, de Viçosa do Ceará, veio trabalhar na Estrada de Ferro Central do Piauí, mas um acidente o tirou do campo como assentador de dormentes. Quase teve a perna cortada por doutor Cândido Athayde, na Santa Casa de Misericórdia, tal a gravidade, mas mexendo os paus com um deputado em Teresina, conseguiu uma indenização boa e com o recebido botou aquela venda e era dela que passou a viver com a mulher Nerina e a filha, Maria Lúcia, uma menina de uns dez anos.

Na Parnaíba daqueles dias a polícia vivia correndo atrás de vagabundos e desordeiros, essa gente que vivia explorando jogo de azar, fosse dominó, baralho de noite e alumiados com luz de lamparina, colocando galos pra brigar e fazendo disso meio de vida, criando confusão no porto Salgado, nos Tucuns, Curre, Guarita e Macacal. O intendente Marães Picanço e o chefe de polícia não aliviavam pra quem quer que fosse, mesmo que fosse gente de dentro da alta sociedade da Parnaíba. Jogo só no Cassino 24 de Janeiro!

Aprígio, o Rolo de Fumo, naquele dia de maio de 1930 não tinha muita esperança de um dia de sorte no jogo e na briga de galo. Passou na venda do padrinho Canuto Beviláqua, assuntou conversa com uns dois bêbados e ficou olhando pra cima e pra baixo na intenção de descobrir pra que lado haveria de seguir. Ali do lado o animal com que tirava dinheiro dos outros, pessoas que não conheciam os meios sujos daquele negro sem ofício ganhar a vida.

Nada de ir pra os lados do centro, no largo da matriz, onde estavam os hotéis, o Parnaíba e o Carneiro ou a pensão do sírio Nagib. Demorou um pouco e de repente se pegou a caminhar com o galo debaixo do braço, camisa de chita, uns poucos botões deixando o peito escuro à mostra, a calça de algodão encardida amarrada com um cinturão gasto, os pés calçados naqueles tamancos já finos nos calcanhares.

Foi olhando pra o céu, no sentido de quem ia pra o Moraes, na Coroa, e de repente viu com um olho só, aquilo que nunca achou de ver um dia na vida. Um negócio grande, escuro, esquisito, parecendo um charuto, fino nas pontas e grosso no meio, voando lento e nem assim tão baixo, seguindo como se quisesse, fosse quem estivesse dirigindo, procurando um lugar pra baixar. Aprígio, o Rolo de Fumo, ficou alto do chão. Não sabia pra que lado corresse!

Naquela aflição até esqueceu que levava o galo de briga. Olhou pra tudo quanto foi lado e viu que estava sozinho. Logo numa hora daquelas não passava uma vivalma! Passou um tempo segurando o cós da calça e tentando colocar os pés dentro da alça dos tamancos. Veio o medo de olhar pra o céu e ver mais coisa esquisita. Seriam os castigos de Deus que estavam chegando? Agora estava arrependido de não ter uma faca ou um cacete!

Depois aquela coisa foi seguindo, seguindo e sumindo por trás das carnaubeiras de Ilha Grande de Santa Isabel, por certo ganhando o rumo do Maranhão. Não foi mais tentar o jogo e voltou se pelando de medo pra venda de Canuto Beviláqua, na Guarita. O padrinho quando ouviu aquilo disse que já estava velho demais pra acreditar em coisa vinda do céu que não fosse coisa de Deus. Dois dias passados e Aprígio ficou sabendo pela boca dos entendidos de que aquele bicho era um tal de Zé Pelim.   

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A VIDA INTELECTUAL DO PIAUÍ




           
A VIDA INTELECTUAL DO PIAUÍ

Valério Chaves
Des. Inativo do TJPI

Toda vez que falamos ou escrevemos alguma coisa sobre academias de letras, livros, escritores e poetas piauienses imortalizados, a partir de relatos literários e historiográficos, nos possibilita tirar do esquecimento muitas figuras que honraram a inteligência do Piauí, e que em sua trajetória de vida souberam transmitir às gerações que lhes sucederam, exemplos de sabedoria e abnegada vocação de nobreza nas biografias com que firmaram suas personalidades.

Muitos piauienses ilustres, embora tenham se destacado no cenário nacional pelo seu valor intelectual e destacada atuação nas diversas áreas do saber, permanecem na obscuridade, as vezes lembradas pelo nome de uma rua ou de um logradouro público de Teresina, ou de alguma cidade do interior do Estado.

            Sabemos que a vida dos homens que se dedicam às letras e ao cultivo da sensibilidade humana é construída com a imagem do seu tempo e a sua oferenda, tecendo o fio insensível de cada instante dentro do cenário grandioso da vida. O desembargador piauiense Cristino Castelo Branco (1892-1983) – um sonhador que na sua época vivenciou a intelectualidade do nosso Estado e sempre esteve empenhado no aprendizado da vida - dizia que “Na história de cada homem há um rastro de luz a lhe aclarar os caminhos.

            Humberto de Campos, Odylo Costa, filho, e Alberto da Costa e Silva foram exemplo de homens ilustres aos olhos de seus contemporâneos e das gerações futuras porque não deixaram sair da sagrada existência da imortalidade o sentimento de amor à terra mafrense - aquele amor que invadiu Odylo Costa, filho, que ao escrever “A Faca e o Rio” disse ser maranhense, mas ter um lado do coração no Piauí.

            Nesse contexto, não podemos esquecer que no advento do século XX muitas personalidades e intelectuais como o poeta Felix Pacheco notadamente pela coerência e pelas convicções, vivenciaram o Piauí na Academia Brasileira de Letras ao espaço de vanguarda e liderança que marcou a vida dessa instituição – “iniciada por um moço e completada por moços” como afirmou Machado de Assis ao empossar-se como seu primeiro presidente em 1896.

            É importante destacar que a vida intelectual do Piauí no começo do século XX, girava tão somente em torno de nomes como Higino Cunha, Clodoaldo Freitas e Abdias Neves, por suas múltiplas produções culturais. Na sucessão de acadêmicos piauienses dedicados ao ofício da criação literária e que ocuparam merecidamente cadeira no “Petit Trianon”, no Rio de Janeiro, há nomes que permaneceram além do tempo como por exemplo: José Felix Pacheco (1913), Deolindo Augusto de Nunes Couto (1963), Carlos Castelo Branco (1982) e Evandro Cavalcanti Lins e Silva (1998). Detalhe: todos eram filhos de magistrados que continuam até hoje como objeto do nosso culto, honram a nossa existência e guardam a proteção dos nossos ideais.   

quarta-feira, 6 de maio de 2020

DIÁRIO - 06/05/2020

Capa do e-book (Amazon - ed. 2020)


Edição impressa (2014)


DIÁRIO
[Confissões de um juiz à venda na Amazon]

Elmar Carvalho

06/05/2020

            Aproveitando o ócio tedioso desta quarentena covidiana, quando já anunciam o início do chamado pico da pandemia em Teresina, resolvi publicar o meu livro Confissões de um juiz pela sistemática Amazon/Kindle/KDP, no formato e-book. A versão impressa foi editada no final de 2014, quando eu encerrara minha função judicante. Requeri minha aposentadoria em outubro desse ano, aos 58 anos de idade, quando completara mais de 39 anos de serviço público, cujo deferimento pelo Tribunal de Justiça do Piauí ocorreu em dezembro.

            Como uma espécie de comemoração de meus tempos de juiz e de servidor público, resolvi escrever essa obra memorialística. Em curto intervalo de tempo, escrevi especialmente para essa finalidade a parte titulada Confissões de um juiz.

Depois, fiz uma seleção de várias crônicas memorialísticas, que vinha escrevendo há vários anos, e as dividi em duas partes, denominadas Memórias Afins e Memórias Afetivas, cujos títulos, acho, são autoexplicativos. Por sugestão da professora e historiadora Teresina Queiroz, incluí uma Memória Fotográfica. Achei por bem lhe acrescentar um Anexo, em que recolhi uns poucos comentários e depoimentos sobre a minha pessoa, sobretudo como magistrado e intelectual.

Na parte denominada Confissões de um juiz, que abre o livro, me ative, sobretudo, a narrar fatos que considerei trágicos, dramáticos, interessantes, jocosos ou pitorescos, de que tomei conhecimento ou nos quais atuei na minha condição de julgador. Em uns poucos fui protagonista, em outros, um simples coadjuvante, e dos demais apenas tive conhecimento, quase sempre em função de meu cargo.

Memórias Afins são crônicas, de viés memorialístico ou de depoimento, mas algumas são narrativas de fatos históricos ou de episódios interessantes, pitorescos ou anedóticos referentes a pessoas e coisas das Comarcas em que exerci minhas atividades funcionais. Em nenhuma fui mocinho ou bandido, mas apenas, na parte que me diz respeito, tentei cumprir, da melhor forma possível, dentro das condições que me foram dadas, as minhas obrigações de servidor público.

Em Memórias Afetivas abordei outros assuntos de meu interesse, com ênfase aos relacionados à cultura, educação, futebol, literatura, ecologia, bem como referentes a familiares e amigos. Em alguns desses textos memoriais comentei fatos e eventos, que reputei importantes, dessas atividades, além de eventualmente haver comentado e analisado autores e sobretudo obras literárias, no ensejo de lançamento de livros, comemorações, efemérides e palestras. Tive a satisfação de coordenar um grande seminário em defesa do Rio Parnaíba, que se encontra relatado numa dessas crônicas.

Todavia, passados mais de cinco anos de sua edição impressa, resolvi nessa nova publicação virtual (e-book) fazer uma pequena modificação. Por motivo de ordem técnica, resolvi suprimir a Memória Fotográfica, mas acrescentei os textos Retrato de meu pai e Canindé Correia – Mestre e Amigo às Memórias Afetivas, uma vez que eles foram escritos em datas posteriores à primeira edição.

Não acrescentei novas páginas preambulares. Apenas mantive, é claro, o prefácio do confrade Reginaldo Miranda, um de nossos melhores historiadores, por ser elucidativo e pertinente, e por abrilhantar o nosso trabalho.

Optei por incluir duas novas partes: a V, sob o título de Elmar Carvalho – o cidadão, o magistrado e o intelectual, da autoria do escritor e médico Dr. Domingos José de Carvalho, cidadão probo e maçom paradigmático, de quem tenho a honra de ser parente e amigo, que me traça uma espécie de perfil moral e espiritual, nas três vertentes sobre as quais dissertou.

E, por fim, a VI e última, denominada Dois estudos sobre Confissões de um juiz, que enfeixam dois belos e percucientes ensaios da lavra de Alcenor Candeira Filho e Cunha e Silva Filho, que, juntamente com a anterior, são o coroamento dessa despretensiosa obra memorialística.   

segunda-feira, 4 de maio de 2020

DIÁRIO - 04/05/2020




DIÁRIO
[Histórias de Évora disponível no sistema Amazon/Kindle]

Elmar Carvalho

04/05/2020

            Publiquei ontem, através do sistema Amazon/Kindle, o meu romance Histórias de Évora, com o conteúdo integral de sua edição feita pela Academia Piauiense de Letras, integrante da Coleção Centenário. Tudo que eu poderia dizer sobre ele está em suas páginas preambulares, escritas pelos escritores José Pedro de Araújo e Cunha e Silva Filho.

            Contudo, tentando atrair a curiosidade de potencial leitor, direi que se trata de um romance de formação, e conta a saga de Marcos Azevedo, de sua adolescência até o início de sua maturidade. O cenário é a cidade fictícia de Évora, um misto de Parnaíba, Campo Maior e outras cidades piauienses dos anos 60, 70 e 80.

Perpassando essa ambientação, como pano de fundo, há um pouco da recente história econômica e social do Piauí, sobretudo a decadência do extrativismo e da prostituição, em que imperavam os coronéis da carnaúba, as madames de cabaré e as músicas românticas de Waldick Soriano, Roberto Müller, Evaldo Braga, José Ribeiro, Carmem Silva etc., cujas vozes evolavam dos discos de vinil (LPs), que giravam em sofisticadas ou singelas eletrolas.

domingo, 3 de maio de 2020

Seleta Piauiense - Carvalho Neto

Fonte: Google

Crepuscular

Carvalho Neto (1944)

e, assim, se fez
o sonho da manhã
e o obreiro da argila
construiu uma cidadela
e, assim, se fez
a vigília da noite
e o obreiro da palavra
construiu o bem-querer
chegando ao lugar
um querubim
errante
anunciou o crepúsculo.

sábado, 2 de maio de 2020

DIÁRIO - 02/05/2020

Fonte: Google



DIÁRIO
[Mascarados e assaltantes]

Elmar Carvalho

02/05/2020

            Hoje, por causa do corona (novo coronavírus), o homem de bem anda mascarado, em estranho e extemporâneo carnaval, sem música, sem alegria, sem dança e sem saracoteios.

            Enquanto isso, os assaltantes, com a sua inata audácia, andam a cometer seus crimes de cara limpa, com a sua cara de pau, em frente às câmeras de monitoramento e de segurança, de celulares ou mesmo de televisão, em plena luz do dia, como se fossem mocinhos e não bandidos. Não raro, são muito sensíveis, nervosos e violentos, muitas vezes sem a menor necessidade, pois a vítima lhes entrega o que exigem, sem opor a menor resistência.

            Outrora, um ladrão tinha vergonha, e só praticava seus furtos e roubos em alta madrugada, no escuro e da maneira mais discreta possível, de modo a não incomodar a vítima.

            Eram verdadeiros e talentosos artistas: eram peritos em escalar muros e paredes, como legítimos “homens-aranha”; sabiam desarmar armadilhas, driblar obstáculos e se esquivar de cachorros. E quase nunca matavam ou espancavam suas vítimas, até mesmo porque faziam tudo para não ter contato com elas.

            Agora, muitos assaltantes são do tipo “ostentação”. Eles mesmos filmam suas “operações” e os “produtos” de seu labor, e exibem o vídeo ou “live” na internet, como se tivessem orgulho de sua atividade, como se fossem os mocinhos de moderno filme de bangue-bangue, em que a vítima passou a ser o bandido.

            Tanto isso é verdade, que eles costumam anunciar o assalto chamando o ofendido de “vagabundo”. E ai do ofendido se se sentir ofendido, e se queixar de alguma coisa ou simplesmente olhar a face do meliante. Será espancado ou morto.

            Oh tempos, oh costumes! Antigamente, apenas Deus não admitia ser olhado em plena face.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Os três meninos e o bicho voador

Fonte: Google



Os três meninos e o bicho voador

Pádua Marques
Romancista, contista e jornalista

João Batista veio se equilibrando devagar, quase engatinhando e se colocou na proa da embarcação até ter como ver aquele movimento de muitas pessoas importantes naquele dia 25 de janeiro de 1939 no Igaraçu, quando a Panair inaugurava uma estação flutuante pra seus passageiros no Rosápolis, em Parnaíba. O menino, o mais miúdo dos três amigos, pouco mais de oito anos, ainda trocando os dentes, filho de Cesário e Rita, queria ser canoeiro, vareiro de barca, pra conhecer a Água Doce e o João Peres, onde tinha muito peixe.

Mas o que dentro de mais alguns instantes seus olhos veriam, nunca mais iria se repetir, porque aos dez anos, João Batista morreria afogado depois de saltar entre canoas tentando mostrar destreza pra uns ingleses no porto Salgado em troca de moedas.  O pai trabalhava numa fábrica de pilar arroz de doutor Cândido Athayde. Rita, a mãe, era lavadeira quando precisava trazer alguns trocados pra dentro de casa e dar de comer pra muitos meninos e sua mãe, avó de Joãozinho, dona Chica, velha e aleijada.

No meio da canoa, em pé, estava Sebastião, o Capote Valente, menino de dez pra onze anos, cabelo pixaim da cor de fogo, franzino e com as bochechas cobertas de pintinhas escuras. Se zangava quando algum desconhecido chamava seu apelido. A ponto de ameaçar com tiro de baladeira. Seu pai, com o mesmo nome, foi embora pra o Maranhão em busca de emprego numas embarcações pra os lados de Floriano e nunca mais voltou em Parnaíba. Uns diziam que já tinha outra família. Outros diziam que havia morrido depois de uma briga entre companheiros de trabalho do cais em Uruçuí.

Mais do meio pra popa da canoa estava Felisberto, o mais velho dos três. Tinha de doze pra treze anos, calção encardido, os bicos dos peitos inchados, já uma risca de bigode por cima do beiço, olhos negros e duros quando fitava os outros e as coisas. Gostava de saltar da proa das canoas e mergulhar na água pra logo depois sair lá longe cuspindo e achando graça.

Filho terceiro de Raimunda, uma mãe solteira, no Curre, queria ser estivador, pra ganhar dinheiro e sair nos fins de semana pelos cabarés. Já engrossando o talo da pinta, vivia coçando as virilhas e gostava de se gabar de ter visto mulher nua com os homens fazendo saliência. Os outros ouviam e ficavam entre encabulados e admirados.

Os três meninos ficaram ali dentro da canoa esperando o acontecimento. Dentro de mais algum tempo, por volta do meio dia, um sino deu aviso de uma batida pra depois, um ronco alto e causando admiração, medo em alguns e apreensão em Celso Nunes. O Baby-Clipper S43 da Pan American Airways tocou a água do rio e veio atracar direitinho no cais flutuante. Levou algum tempo até que umas dez pessoas entre homens e mulheres, pessoas bem vestidas, de sapatos lustrados, os homens de bengala e chapéu e terno de linho branco, desembarcaram e foram recebidas com muitas palmas. 

João Batista, Felisberto e Sebastião Capote Valente ficaram ali dentro da canoa, admirados e com medo daquele bicho de ferro e que soltava fumaça e de lá ouviram sem entender do que se tratava aquela cerimônia, todo o discurso de Mirócles Veras ao lado da pianista Guiomar Novaes. A artista seguia pra Miami, Texas e Nova York, nos Estados Unidos da América do Norte. O avião e tudo nele causaram uma inquietação e ao mesmo tempo contentamento.

Os três meninos do Curre taparam os ouvidos e fecharam os olhos. Nunca na vida haviam imaginado alguma coisa parecida. Estavam acostumados a ver barcos, vapores e outras embarcações menores atracando no cais do porto Salgado, mas nunca uma que voasse e andasse por cima da água ao mesmo tempo e de dentro saísse gente e bagagens. Aquilo era muito pra acreditar! Passaram a contar as pessoas, a quantidade de carros, mas nada fazia acreditar que fosse se repetir com outros meninos.

Logo em seguida o sino tocou outra vez e logo apareceu outro avião, bem maior, o Commodore. O primeiro, o Baby-Clipper S43, na mesma pisada levantou voo e foi embora levando outros passageiros, entre eles a pianista Guiomar Novaes. Tudo aquilo foi motivo de encantamento pra os três meninos. Mesmo de longe pouco deram atenção aos discursos, pra quantidade de carros vindos de Parnaíba.  Quando tudo passou e aos poucos o Rosápolis foi ficando silencioso naquele inicio de tarde, João, Felisberto e Sebastião, os três foram tomando o rumo de casa. O medo havia acabado, mas aquele bicho de ferro ficou batendo na cabeça deles pra nunca mais sair.   

quinta-feira, 30 de abril de 2020

DIÁRIO - 30/04/2020

Henry Drummond - Fonte Google


DIÁRIO
[O dom supremo]

Elmar Carvalho

30/04/2020

            Estava lendo ontem O Dom Supremo, que é o título como ficou conhecido célebre sermão, fundamentado na carta de São Paulo aos Coríntios, proferido por Henry Drummond, em formato virtual da Amazon/Kindle, com tradução e prefácio de Paulo Coelho, quando fui abordado pela Fátima sobre um assunto relativo a preconceito e intolerância.

Lembrei-me, então, de uma conversa que tive, faz quase vinte anos, dentro de um velho e empoeirado ônibus, alta noite, com o magistrado João Batista Rios, quando seguíamos para as nossas remotas Comarcas, ele, a de Bertolínia, eu, a de Ribeiro Gonçalves, ainda mais distante. Na época eu tinha dúvida sobre o que seria mais importante, se a caridade, se o amor.

Muitos entendiam que a caridade seria superior, porque era revestida, digamos, de uma “ação prática”, concreta, ao passo que o amor seria um “mero” sentimento, sem efetividade nenhuma. Hoje, fundamentado na epístola I Coríntios, de São Paulo, e no sermão O Dom Supremo, de Henry Drummond já não tenho dúvida nenhuma.

Aliás, a bem da verdade, desde essa conversa com o amigo Batista Rios passei a não ter mais essa dúvida, pois passei a entender que o amor, o amor verdadeiro, leva uma pessoa aos gestos largos e generosos, aos grandes sentimentos, que ele parece amalgamar, e que impulsionam o ser humano a cometer boas ações e a ter bons comportamentos, inclusive os da generosidade, da gentileza e da humildade.   
  
No prefácio, colho a informação de que quem iria falar era o mais famoso pregador da época, que no momento se sentiu esvaziado, sem inspiração para o mister. Ele, ato contínuo, pediu a um jovem missionário que o substituísse, o que provocou, sem dúvida, uma forte frustração na assistência, que se preparara para ouvir o maior orador sacro de então.

Henry Drummond, o jovem e inexperiente missionário, que regressara da África há pouco tempo, e que ainda buscava definir a sua verdadeira vocação, sem dúvida tocado pelo Espírito Santo, produziu de improviso um dos mais magníficos sermões de todos os tempos, ainda mais admirável por ser claro e belo, embora profundo em sua análise do amor, o dom supremo ou summum bonum.

Em seu notável sermão, Henry Drummond afirma que “O amor é a regra que resume todas as outras regras”, e que é o “mandamento que justifica todos os outros mandamentos”. Explica que o amor é composto de nove ingredientes: paciência, bondade, generosidade, humildade, delicadeza, entrega, tolerância, inocência e sinceridade. Justifica todos esses componentes com citações do texto de S. Paulo.

Com relação à tolerância, transcreve que o amor “não se exaspera”. Considera a intolerância como uma “verdadeira falha de caráter”, e não como um pecado inerente à natureza humana, que dificilmente poderíamos corrigir, e acrescenta que a Bíblia, em várias outras passagens, coloca a intolerância “como o elemento mais destruidor da nossa maneira de agir”, para em seguida afirmar:

“O que mais impressiona é que a intolerância, o preconceito, está sempre presente na vida de pessoas que se julgam virtuosas. Geralmente é a grande mancha numa personalidade que tinha tudo para ser gentil e nobre.”

Consta que Henry Drummond, ao ser designado de forma inesperada para fazer a sua prédica, “pediu emprestada a Bíblia de um dos presentes e leu um trecho da carta de São Paulo aos Coríntios”. Julgo de bom alvitre, para reflexão e como um arremate a este registro, transcrever os dois versículos iniciais do trecho que ele leu, e que lhe serviu de mote para a glosa genial do famoso sermão:

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. [1 Coríntios 13:1,2]”