sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Gérson, meu filho



Gérson, meu filho 

Carlos Rubem 

Há exatos 28 anos, veio ao mundo o meu filho Gérson, na Maternidade Evangelina Rosa, em Teresina. Assisti  e fotografei o seu nascimento. Estive o tempo todo no centro cirúrgico. Momentos de tensão nervosa. Logo que o colocaram num pequeno leito com a cabeça declinada para baixo, ao me aproximar para lamber a cria, ela fez uma boa comigo: mijou tão forte que atingiu o meu rosto. Moleque danado, exclamei!


Gérson Oeirense Lopes Reis. O seu prenome foi dado em homenagem ao meu inesquecível tio Gerson Campos, poeta, falecido no dia 11.02.73, aos 39 anos incompletos, vítima de ataque cardíaco, após o gol da virada (2X1) do time de Oeiras (técnico) em cima do selecionado de Floriano pelo campeonato intermunicipal de futebol, cujo estádio que leva, hoje, o seu nome.


Na porta do apartamento em que ficou internada a parturiente (Dirce) e o nosso rebento, coloquei à mostra “Operação Cesariana”, poema de autoria do meu estimado padrinho José Expedito Rêgo, médico e escritor. Visitantes, médicos, enfermeiros, enfim, todos que se interessaram, tiveram a oportunidade de lê-la. Muitos me comentaram sobre a aludida mensagem literária.


No dia em que deixamos aquela casa de saúde, achei por bem retirá-la da porta. Neste momento, eis que me aparece uma linda jovem, gente humilde, que havia dado à luz uma criança, uma interna de enfermaria, pedindo-me referido poema, no que lhe atendi prontamente. Agradeceu-me com um largo sorriso. Usando um transparente vestido, seios prenhes de leite, saiu lendo-o corredor afora. Foi uma cena impactante! Desci os degraus da maternidade tendo a certeza de que uma obra artística pertence mesmo a quem dela necessita. Não me perdôo: deveria ter levantado informação daquela mãe que ficou embevecida com a leitura de “Operação Cesariana”


Fazendo o registro deste fragmento, parabenizo o aniversariante, a desconhecida mãe, a memória do meu tio NORGES (seu anagrama que usava), e do autor daquele belo poema adiante transcrito:


Desliza o bisturi sobre a pele macia...

Gotas rubras rorejam na deiscência branca.

Uma pinça hemostática estala metálica

e estanca o sangue.


Prossegue a operação, metódica, pausada.

No silêncio da sala

manchas de som retinem do aço do instrumental.

Gritos de sangue vivo partem das compressas.


Há no ambiente uma seriedade

igual à que antecede

o ato de amor.


Os olhos do cirurgião não desviam

do campo operatório.

Suas mãos emitem ordens

em silêncio atendidas.


Quando o útero é rompido, a natureza revolta-se.

É uma agressão às suas leis.

Ao mesmo tempo sente-se orgulhosa

por ter criado o cérebro do Homem

que repara suas falhas...


E da vida que brota, entre pinças e gazes,

parte o primeiro choro – é um grito de espanto

de quem, logo ao nascer, vê o mundo primeiro

através de uma névoa do sangue

da própria mãe.    

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

O amigo e poeta V. de Araújo




DIÁRIO

[O amigo e poeta V. de Araújo]

Elmar Carvalho

12/11/2020

Comuniquei ao poeta V. de Araújo, coronel da reserva da briosa PM/PI, por WhatsApp, que ele era citado várias vezes no meu e-book Diário Incontínuo, que se encontra à venda na Amazon, e ele me respondeu que “Hoje, estive lendo o teu poema em Campo Maior, segue o registro!” Me enviou, em anexo, uma bela fotografia, em que ele se posiciona perto da placa de acrílico, em que se encontram estampados os quatorze versos iniciais (como se fora um soneto diferente, composto por sete estrofes de dísticos) de meu poema Elegia a Campo Maior. O painel se encontra afixado no espaço cultural da beira do Açude Grande.

Em tempos de distanciamento social, por causa da pandemia, fiquei feliz com esse reencontro espiritual e virtual com esse bom e velho amigo, sobre o qual já escrevi em outras oportunidades, ao comentar a literatura piauiense e parnaibana. Em resposta, lhe informei que estava preparando, por sugestão dos escritores Claucio Ciarlini e Carvalho Filho, uma edição virtual de meu livro Aspectos da Literatura Parnaibana, a ser publicado na Amazon/KDP e em outros sites. Com a sua costumeira lhaneza, o poeta V. de Araújo respondeu que aguardaria “ansiosamente a publicação de tão instrutiva obra!” Ambos participamos de importantes antologias e coletâneas da poesia piauiense, entre as quais cito Poemágico - a nova alquimia, Poemarit(í)mos, A poesia parnaibana, A poesia piauiense no século XX e Parnárias - poemas sobre Parnaíba.

Numa época e numa região em que se respondem às conquistas e aos méritos alheios com eloquente e sepulcral silêncio ou com alfinetadas e "brincadeirinhas" cheias de misérias e insignificâncias, devo confessar que fiquei contente com o aplauso e o estímulo internéticos do poeta.     

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Centro Cultural da Fecomércio/PI e as dádivas de Valdeci


Fonte: Google
Edifício Dep. Ezequias Costa, onde funcionará o Centro Cultural Dr. Roberto Tadros



DIÁRIO

[Centro Cultural da Fecomércio/PI e as dádivas de Valdeci]

Elmar Carvalho

11/11/20

Na quinta-feira passada o irmão maçônico Valdeci Cavalcante, por WhatsApp, me perguntou se eu aceitaria dar meu nome ao Espaço de Criação Musical, que haverá no Centro Cultural da Fecomércio, ainda não inaugurado, e que terá o nome do Dr. Roberto Tadros, presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Foi uma enorme e inesperada  surpresa. Confesso que fiquei emocionado e lisonjeado ao mesmo tempo. Do meu conhecimento, é a primeira vez que meu nome será dado a um espaço cultural.

Já recebi, para gáudio meu, outras homenagens, mas ser epônimo de um espaço cultural é a primeira vez. Tenho poemas afixados em espaços e prédios diversos, em vários rincões do Piauí, bem como já recebi comendas, medalhas e diplomas, além de alguns títulos de cidadania, porém confesso que ter meu nome designando um espaço musical me calou fundo no peito.

Em sua mensagem o Dr. Valdeci Cavalcante, que foi meu professor no curso de Direito e é meu confrade nas Academias Piauiense, Parnaibana e Maçônica de Letras, me pedia lhe enviasse meu currículo resumido e uma foto de minha preferência. De imediato adotei as providências solicitadas. Já tive a honra de o saudar em noite memoranda, quando de sua posse na Academia Parnaibana de Letras, oportunidade em que enalteci os atributos e virtudes, que lhe ornam a personalidade de escol.

O suntuoso e belo edifício será designado pelo nome do Deputado Ezequias Costa, e terá vários espaços (destinados a oficinas de diversas atividades e artes), além de teatro, cineteatro, biblioteca, espaço nobre, escola de música e o Café Acadêmico. Nele serão realizados diversos cursos e oficinas de aperfeiçoamento profissional e artístico.

Muitos desses espaços receberão os nomes de vários membros da Academia Piauiense de Letras, entre os quais cito: Da Costa e Silva, Celso Barros Coelho, Paulo Nunes, Assis Brasil, Francisco Miguel de Moura, Nerina Castello Branco, Fides Angélica, Herculano Moraes, Jônathas Nunes, Magno Pires, Homero Castello Branco, Hugo Napoleão e este escriba. Também serão homenageados Dora Parentes, Jesus Arias e Luizão Paiva.

No sábado, na reunião virtual da Academia Piauiense, após dizer que considerava os colegas uma extensão de minha família, compartilhei essa informação com eles. Direi abaixo, de forma mais ampliada, o que lhes disse.

Conquanto não seja cantor e nem instrumentista, a música é uma das manifestações artísticas de minha preferência. Apesar de não ter talento e nem dom musical, admiro essa arte, que é uma das que mais tenho fruído ao longo de minha vida. Admiro e aplaudo os seus artistas, e a muitos compositores, instrumentistas e cantores tenho louvado com entusiasmo.

Tenho alguns poemas que foram musicados por diferentes compositores. É um tanto difícil o casamento entre um poema e a música, porquanto um pode ser muito superior ao outro. Por outro parte, às vezes um bom poema não se presta a ser musicado, por causa do tema, do ritmo ou mesmo do tamanho do texto. Contudo, quando uma bela melodia se casa com um ótimo poema não poderia haver casamento mais harmonioso.

Considero seja a arte poética uma prima legítima da música, porque um poema deve ter ritmo, sonoridades, aliterações, coliterações, e, às vezes, métrica e rima, o que dá a essa arte literária certo ritmo musical. A Escola Simbolista buscava com muita ênfase a musicalidade das palavras, das frases e dos versos. Portanto, eu disse que as musas da mitologia grega Euterpe e Érato eram as mais próximas, as mais unidas, talvez irmãs siamesas.

Euterpe, como todos sabem, representa e protege a música, e várias bandas filarmônicas se chamaram Euterpe. Érato é a musa da poesia lírica. Dessa forma tentei justificar a designação de meu nome para o espaço destinado à criação musical, sendo, porém, que a maior justificação é mesmo a generosidade do mecenas Valdeci Cavalcante, que, semelhante ao que se dizia do educador, intelectual e escritor Anísio Teixeira, parece pensar com as mãos, tal a quantidade e qualidade de suas realizações, inclusive no campo da cultura e das artes. Diria que ele é um dínamo em figura de gente.

Como a homenagem é prestada por um órgão da iniciativa privada, não há que se questionar a sua legalidade e legitimidade, pelo fato de a maioria dos homenageados não ter falecido. Mas aproveitei para contar um episódio anedótico, que tem como protagonista o imenso e humilde poeta Manuel Bandeira, que sendo um poeta maior, se autodenominou poeta menor.

Quando lhe foram erigir uma estátua em praça pública, algumas vozes dissonantes, que sempre as há, invocaram a postura municipal na tentativa de privar o poeta da justa homenagem. Indagado sobre se desejava a homenagem, Bandeira disse que não só queria, como até se recusava a morrer enquanto a estátua não fosse colocada em seu pedestal. Da mesma forma, eu disse que iria rezar para Deus me manter vivo até a concretização final da homenagem, com a inauguração do espaço e a aposição da respectiva placa.

Por fim, só me resta agradecer ao operoso administrador da Fecomércio/Piauí e 1º vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio, Dr. Valdeci Cavalcante, por esta importante homenagem, pela qual lhe serei eternamente grato, ainda mais por desconfiar de que, talvez, não tenha, em sua integralidade, o devido merecimento. Mas me esforçarei para dela me tornar digno.   

terça-feira, 10 de novembro de 2020

UM PREFEITO VANGUARDISTA

Professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana.

Foto extraído do livro Painel Fotográfico de Ex-Prefeito de Campo Maior de autoria do historiador e advogado Moacir Ximenes.


UM PREFEITO VANGUARDISTA

Celson Chaves

Professor, escritor e historiador


Até hoje, apenas três professores tiveram o privilégio de comandar a prefeitura de Campo Maior. Raimundo Nonato Monteiro de Santana (1926-2018) foi um deles. Nascido em Campo Maior, administrou o município entre 31/01/1951 a 31/01/1955. Na época, foi eleito o prefeito mais jovem do Brasil. Quando assumiu a prefeitura era recém-formado em Direito pela faculdade do Ceará (1949). O pleito eleitoral foi disputadíssimo, marcado pela fraude e violência. O ponto trágico da campanha foi o assassinato de França Catura, eleitor de Raimundo Santana, numa fatídica noite de comícios. O coronelismo político imperava.

 

Raimundo Santana era um jovem entusiasta, leitor voraz, intelectual consciente da forte instabilidade política brasileira no momento em que o país se urbanizava e industrializava. Nos estudos de sociologia e economia descobriu a vocação para o magistério. Na dimensão da cultura se fez escritor interessado nos problemas sociais e econômicos do Piauí. Foi professor universitário. Lecionou em renomadas instituições: Universidade Federal de Brasília, Escola Superior de Guerra, Colégio Interamericano de Defesa (Washington/EUA) e Universidade Federal do Piauí. Publicou diversos livros e patrocinou outros. Foi um mecenas. De sua autoria, vale citar: Introdução à Problemática da Economia Piauiense (1957); O Desenvolvimento Econômico Nacional na Teoria Econômica Geral (1959); A Evolução Histórica da Economia do Piauí (1964) e Vale do Longá e Perspectiva Histórica do Piauí (1965).

 

A vida dinâmica de Raimundo Santana permitiu criar em Campo Maior, no ano de 1953, o Centro de Estudos Piauienses (CEP), depois transferido para Teresina.  A ideia do CEP foi pensada pelo seu secretário municipal de educação, professor José Olímpio Castro de Oliveira, apoiado por outros intelectuais da terra dos carnaubais: o historiador Monsenhor Chaves e o jornalista e vereador Raimundo Antunes Ribeiro. Nesse período foi criado em Campo Maior a Biblioteca Padre Marcos de Araújo Costa. Com encerramento das atividades do Centro, o acervo da Biblioteca foi doado ao Ginásio Santo Antônio. Depois do CEP, Raimundo Santana fundou em 1960, o Movimento de Renovação Cultural no Piauí.

 

O jovem professor de sucesso transformou-se rapidamente num intelectual renomado. Ocupou diversos cargos públicos. Foi membro do Conselho Estadual de Educação, Secretário Estadual de Planejamento e imortal da Academia Piauiense de Letras (APL) e da Academia Campo-Maiorense de Artes e Letras (ACALE).

Com Raimundo Santana, Campo Maior tornou-se um ponto de referência na educação e cultura no Piauí. O CEP realizou palestras e conferências sobre os mais diversos temas (história, geografia, literatura, economia, folclore…) em várias localidades piauienses. O município de Campo Maior foi contemplado com parte dessas aulas e conferências. O grupo do CEP era eclético. No rol das personalidades, o CEP contava com o historiador Monsenhor Chaves, jornalista Raimundo Antunes Ribeiro, jurista e escritor José de Arimathéa Tito Filho, poeta H. Dobal, romancista O.G. Rego de Carvalho, crítico literário Cunha e Silva, folclorista Artur Passos, cientista político José Lopes dos Santos… O prefeito Raimundo Santana foi presidente do CEP, secretariado pelo professor José Olímpio Castro de Oliveira, outro entusiasta da educação campo-maiorense. O movimento irradiou cultura para todo o Estado.

 

Raimundo Santana levou esse espírito vanguardista para a prefeitura de Campo Maior. Na chefia do executivo, promoveu medidas significativas para transformar a realidade social do município. A cidade era rica por conta da pecuária e da cera da carnaúba. Contudo, a riqueza era mal distribuída. O analfabetismo e a pobreza imperavam. Um dos planos de governo de Raimundo Santana visava tornar o serviço público mais eficiente através da qualificação dos servidores. As gestões anteriores a ele “sempre tem feito nomeações de candidatos a cargos municipais sem a exigência do concurso, mas a praxe tem demonstrado a inconveniência, pois muitos dos nomeados, quando no cargo, se revelam de uma incapacidade gritante”. O próprio Raimundo Santana “já teve dessas decepções, pois pessoas que nomeara, delas não correspondem à sua expectativa, no tocante a conhecimentos para desempenho da função (Mensagem Governamental nº13 de 19 de março de 1952)”.

 

Para resolver tal entrave administrativo, Raimundo Santana torna a educação uma prioridade. Foram muitas as ações nesse setor. E significativas. O nível educacional do campo-maiorense nesse período era baixíssimo. Faltava profissionais qualificados e imperava o apadrinhamento político no serviço público.

 

Como gestor, Raimundo Santana tinha enormes desafios a enfrentar. O objetivo dele era começar primeiro pelo setor educacional contaminado pela politicagem. A precarização do sistema educacional do município era profunda. Intelectual consciente dos problemas de Campo Maior, dizia ele em uma de suas mensagens governamentais enviadas a Câmara Municipal:

 

“É simplesmente deplorável a situação de nossas escolas. Sem o aparelhamento necessário ao seu perfeito funcionamento, completamente desorganizadas, são, com algumas exceções, dirigidas por pessoas semianalfabetas e, via de regra, desinteressadas, que incapazes de preparar as crianças para a vida, incutindo-lhes amor ao estudo ou indicando-lhes soluções exatas para os problemas que lhes podem surgir a cada momento no seio da comunidade onde vivem, limitam-se a fazer a chamada e a ditar pontos e regras que os alunos devem decorar em casa e recitar na aula seguinte. Usando uma linguagem mais clara, não dão educação às crianças, o que, aliás, é muito natural, pois ninguém, dá o que não tem”.

 

Os maiores problemas da educação campo-maiorense eram a falta de estrutura das escolas, a questão pedagógica e a qualificação dos professores. De forma corajosa, Raimundo Santana peitou o desafio de melhorar a educação municipal, mesmo sabendo dos empecilhos políticos a enfrentar. Ele começou pela seleção dos professores. Para isso, realizou o primeiro concurso público da história de Campo Maior.  O objetivo era moralizar o serviço público.

 A situação da educação campo-maiorense era crítica. As poucas escolas da zona rural temiam ser fechadas pelas péssimas condições de funcionamento. Faltava de tudo. Nem sede própria possuía. Funcionavam em casas de fazendas, a depender da vontade pessoal do proprietário para existir. Raimundo Santana expõe essa situação em uma mensagem enviada a Câmara, quando fala do colégio da localidade “Ilha Nova”: “sujeita a existência da escola ao Sr. Alfrêdo de Melo Paz, pois só poderá funcionar enquanto aquele senhor quiser existir ou permanecer em ‘ilha Nova’. Se não mais a quiser em sua casa de residência, se se mudar, ou falecer, terá desaparecido a escola, com prejuízo para a população escolar”. Muitas vezes quem indicava o professor do colégio era o proprietário do prédio. Geralmente um parente.

 

Ação do poder público custava chegar às escolas, tudo ficava a cargo do dono da casa que as mantinham funcionando a seu bel prazer. As principais localidades e povoados de Campo Maior eram distante da sede. As estradas carroçáveis eram poucas e as que existiam encontravam-se em péssima estado de conservação. O município era cortado por caminhos e trilhas. As escolas ficavam isoladas, algumas abandonadas. Partiu dele as primeiras políticas no sentido de planejar estratégias para construir edifícios próprios para as escolas da zona rural. A maioria das escolas da zona urbana também era instalada em casas alugadas.

 

Raimundo Santana apostava na educação como a principal arma contra o atraso social e econômico, a desorganização administrativa e a ignorância cultural, traços marcantes do “mandonismo dos chefes [políticos], cuja maior virtude –a coragem- é uma pura estupidez decorrente de sua ignorância e de sua irresponsabilidade diante dos homens e do mundo”. Havia muita resistência política. Para a realização das reformas educacional e administrativa, o prefeito Raimundo Santana tentou convencer não apenas os políticos como os próprios educadores, que se encontravam completamente desmotivados com a profissão: “É que tais professores, não compreendendo as responsabilidades inerentes aos seus cargos, preocupam-se menos com aprimoramento de seus minguadíssimos conhecimentos e o aproveitamento de seus alunos, do que com os animados passeios e divertimentos que lhes prometem os dias de férias. […] Para eles, professores improvisados, com a grave responsabilidade dos chefes políticos, e sem capacidade para distinguir Instrução de Educação, educar significa apenas transmitir vagas noções de linguagem, aritmética, história e geografia, o que não abrange toda a significação do termo, pois que ele traduz também formação da personalidade da criança, ajustamento da criança à sua comunidade e habilitação, em suma, da criança para enfrentar as canseiras da luta pela vida (Mensagem Governamental nº2 enviada a Câmara Municipal, 28 de janeiro de 1953)”.

 

 A percepção crítica de Raimundo Santana sobre o quadro apático do ensino municipal, na década de 1950, é de uma perícia impressionante. Ele tinha total domínio da pasta. Sabia como resolvê-los, só precisava vencer o maior de todos os entraves: o político. O vereador Raimundo Antunes Ribeiro, colega de Raimundo Santana no Movimento de Renovação Cultural no Piauí, em sessão plenária da Câmara de 09 de outubro de 1948, expressa toda sua insatisfação quanto ao ensino ministrado nas escolas de Campo Maior:

 

 “iniciando o seu discurso S. Exc.ª, afirmou que o município de Campo Maior é um dos mais bem servido no Estado, em matéria de instrução. Entretanto, prossegue a Exc.ª dada a falta de compreensão ao cumprimento do dever, o professorado municipal, está muito longe de corresponder a expectativa que se exige ao sagrado mister de ensinar. Não basta somente ensinar. […] É preciso que se transmita noções e conhecimentos adquiridos por uma geração subsequente, com mais ardor,  com mais carinho, mais entusiasmos. Portanto, finaliza o líder udenista [Antunes Ribeiro] -, que se fizesse sentir ao Exmº -senhor prefeito municipal a necessidade de sua mais rigorosa fiscalização às diversas escolas municipais, impondo aos respectivos professores, mais eficiência e mais responsabilidade ao sagrado mister de educar”.

  

Diante dessa triste situação do magistério, o prefeito Raimundo Santana inicia o movimento em defesa da educação pública e a valorização do magistério. A meta dele era qualificar o professor, eliminando do quadro os inaptos. O concurso público foi o instrumento escolhido para fazer essa seleção. Realizou os primeiros cursos de aperfeiçoamentos pedagógicos. Melhorou o salário do magistério e o manteve em dias. Em 1952, por intermédio do Governo do Estado, Raimundo Santana contratou o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP) para ajudá-lo na restruturação da grade curricular e do ensino em geral.

  

CÓPIA de uma das muitas mensagens governamentais enviadas pelo prefeito Raimundo Santana ao Poder Legislativo. Ele cumpria fielmente os ditames das regras do Direito Administrativo e a Constituição Federal. Os relatórios e as mensagens chamam atenção pela escrita enxuta e bem fundamentada. Em certos trechos há o forte sabor literário.


Todo início de ano da sua gestão, conforme manda a lei, cumpria fielmente a leitura de prestação de contas e o resultado anual do governo perante o plenário da Câmara. Sempre que achasse necessário ia pessoalmente as sessões legislativas apresentar mensagens que julgassem melhor esclarecimento aos parlamentares.

  De todos os setores da prefeitura, a educação era o mais crítico. O ensino público estava infestado pela praga do apadrinhamento político, os “professores não compreendiam as responsabilidades inerentes aos seus cargos, preocupam-se menos com o aprimoramento de seus minguadíssimos conhecimentos e o aproveitamento de seus alunos, do que com os animados passeios e divertimentos que lhes prometem os dias de férias (Mensagem Governamental nº2 enviada a Câmara Municipal, 28 de janeiro de 1953)”.

 

O emprego público à base do “pistolão” preenchia a maioria das vagas na prefeitura. Raimundo Santana começa a valorizar o currículo sobre a indicação política. Com a implantação do concurso, ele tenciona enfraquecer a cultura do “papai-governo” tão maléfico para o desenvolvimento municipal, suspende a lista dos servidores “amigos do prefeito”, que consumiam assustadoramente os recursos públicos, com a distribuição de “mesadas gordas” pagas pelo “papai-governo” a pessoas influentes e membros de famílias que por prestígio “social” ou “eleitoral” vinham se perpetuando em cargos de chefias, nas administrações de prefeitos poucos zelosos com o patrimônio público.

 A politicagem consumia bastante recurso, prejudicava investimentos e sucateava a administração, com amontoado de servidores sem a menor qualificação, apenas de indicação política. A ordem de Raimundo Santana era modernizar a gestão para que a mesma pudesse liderar o processo de desenvolvimento em Campo Maior. Torná-la eficiente. Segundo o prefeito Raimundo Santana, Campo Maior precisava recuperar o tempo pedido.  Ele insistia na “necessidade de reformar o ensino e adaptar as escolas municipais aos métodos da pedagogia moderna, e novamente insistimos, em sugerir que o professorado seja submetido a concurso para o aproveitamento dos capazes e melhoria do ensino (Mensagem Governamental nº2 enviada a Câmara Municipal, 28 de janeiro de 1953)”.

 Como professor e pensador, o prefeito Raimundo Santana também se preocupava com a questão pedagógica e ideológica envolvendo o ensino. Ele incentivou o ingresso do homem num magistério dominado pelas mulheres. Buscou a igualdade de gênero, o equilíbrio entre os sexos e acabou reforçando valores machistas. Na época não era visto dessa forma, hoje sim.

 

Para o prefeito Raimundo Santana “deveria se falar em ‘professor’, termo genérico” para nomear os profissionais da educação, independente do sexo. Ele tentou ingressar homens no magistério, mas não conseguiu. Ao fazer a lotação de um professor para escola da localidade Ilha Nova, ele desabafa “é preciso que se diga, não tenho candidato masculino ao cargo. O que desejo é simplesmente ter uma situação clara, que de futuro, não traga embaraços (Mensagem Governamental nº2 enviada a Câmara Municipal, 28 de janeiro de 1953)”.

 

O governo de Raimundo Santana foi acometido por uma grande seca que castigou Campo Maior. Mais um problema para o prefeito resolver. Ele socorreu os mais pobres e os imigrantes do Ceará fugidos da estiagem. Nem mesmo a seca foi capaz de atrapalhar o ambicioso projeto de Raimundo Santana para educação. A reforma do ensino era uma questão de honra para o prefeito:

 

“Em duas outras mensagens mostramos urgente necessidade de se reformar o ensino e adaptar as escolas municipais aos métodos da pedagogia moderna, e novamente insistimos, em sugerir que o professorado seja submetido a concurso para aproveitamento dos capazes e melhoria de ensino” (Mensagem Governamental nº2 enviada a Câmara Municipal, 28 de janeiro de 1953).

  

No período da República Populista no Brasil (1945-1964), o número de escola em Campo Maior aumentou significativamente, principalmente na gestão de Raimundo Santana. Grande parte delas estabeleceu-se na zona rural. Em 1949, o prefeito Waldeck Bona destinou dez mil cruzeiros para iniciar a construção do Patronato Nossa Senhora de Lourdes. Ivon Pacheco, em 1950, criou três escolas. O prefeito Raimundo Nonato Monteiro de Santana foi o que mais criou escolas municipais nesse período. No seu primeiro ano de mandato (1951) fundou oito unidades escolares. No ano seguinte, foram mais onze. Todas na zona rural.


O prefeito Oscar Castelo Branco Filho por meio da lei nº 286 de 10 de fevereiro de 1955, desapropriou as terras de Luís Maria de Carvalho para doá-las ao Estado para construção do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco no bairro Nossa Senhora de Lourdes, antigo bairro da capela. Ele também desapropriou as terras de Maria Barbosa Monte, para construção do Grupo Escolar Briolanja Oliveira, no bairro de Flores. Oscar Castelo Branco também aumentou o auxílio financeiro da prefeitura para manutenção do Ginásio Santo Antônio de Cr$ 18.000,00 para Cr$ 30.000,00. O prefeito José Olímpio da Paz desapropriou terrenos municipais, em 1961, para construção do “Ginásio Industrial”, o antigo GOT. Cada prefeito ao seu estilo empreendeu uma política educacional.

 

Entre todos os prefeitos do período da República Populista, Raimundo Nonato Monteiro de Santana empreendeu uma vantajosa política educacional. Solidificou um planejamento aproveitado pelos gestores posteriores. Era um homem visionário e ousado, conhecia como poucos o drama da educação brasileira, seja como estudioso da matéria, professor ou político.

 

Raimundo Santana avança nas reformas. Aproveitou o bom momento econômico do município advindo da indústria extrativista da cera de carnaúba para impulsionar o comércio e os negócios da cidade. Conseguiu aumentar a receita e a capacidade de investimento da prefeitura. Com muita desenvoltura gerencial, equilibrou as contas públicas. Ofereceu apoio aos empresários “sem extorquir ou ameaçar senão como resultante de uma política administrativa racional e portadora dos requisitos de ordem científica (Relatório do executivo enviado a Câmara Municipal-1953)”.

 

Por meio da Lei n° 208 de fevereiro de 1953, Raimundo Santana contratou o Departamento Administrativo do Serviço Público-DASP (órgão do governo federal), criado por decreto-lei n° 579 em 30 de julho de 1938, para reformar diversos serviços internos da prefeitura, bem como proceder à reestruturação do quadro de funcionários municipais. O objetivo político de Raimundo Santana ao contratar o DASP era fazer o entrosamento da máquina burocrática da prefeitura, tal como vinha acontecendo no plano nacional, afim de ter uma maior eficiência na arrecadação de tributos e na aplicação de recursos.

 

Raimundo Santana implantou um governo ideológico, fundamentado na “política administrativa racional e portadora dos requisitos de ordem científica”. Porém seu projeto modernizante foi obstaculizado por forças retrógradas, desejosas em manterem o velho modelo de gestão que vinham conduzindo a coisa pública para benefícios particulares. O prefeito Raimundo Santana, como intelectual e estudioso da realidade brasileira, conhecia afundo os problemas e principalmente a mentalidade dos políticos campo-maiorenses:

 

“No comum, pelo menos no Nordeste Brasileiro, o prefeito do interior é um coronel, cioso de sua experiência, mas certo, apenas de uma única coisa – seu poder e sua fortuna-. É o homem providencial […], querendo mandar em tudo e em todos, daí porque quase sempre fracassa no trato da coisa pública e nas relações obrigatórias de coordenação entre os poderes (Mensagem Governamental nº2 enviada a Câmara Municipal, 28 de janeiro de 1953)”.

 

A falta de pessoas qualificadas, com gral de instrução razoável e uma mentalidade aberta aos novos ditames da moderna administração atrapalhava o projeto de Raimundo Santana na implantação de uma gestão eficiente, menos dispendiosa para o erário municipal. Resistências e limitações à reforma modernizadora da máquina burocrática da prefeitura proposta por Raimundo Santana se dava por conta da política coronelista enraizada na cidade. Mesmo com a oposição na Câmara e dentro do próprio governo, Raimundo Santana alegrava-se da agilidade conquistada nos procedimentos funcionais em sua gestão.

 

Além da baixa capacitação profissional dos servidores, outro fator de ordem interna que prejudicava a reforma modernizadora na gestão de Raimundo Santana deu-se nos compromissos firmados das alianças e acordos políticos do pleito eleitoral em que foi eleito prefeito. Raimundo Santana não conseguiu romper totalmente com os vícios e os apadrinhamentos políticos instalados há décadas na prefeitura. O coronelismo político imperava.

 

Raimundo Santana combateu uma das maiores sangrias financeiras no tesouro municipal, ao acabar com privilégios advindos do perdão de dividas de contratos entre arrendatários e a prefeitura no uso dos carnaubais do patrimônio municipal para a extração de cera, produto de grande valor de mercado na época. Ele criou e aumentou diversos impostos, em vez de revogá-los, como fazia as administrações anteriores. Procurou ser criterioso no perdão ou cancelamentos de impostos e dívidas de pessoas físicas ou jurídicas com a prefeitura. Pelo menos no primeiro ano do seu mandato. Não conseguiu fugir totalmente das amarras da política clientelista vigente. Porém, driblou algumas vezes o sistema. Beneficiou fazendeiros, ao construir barragens e açudes (tipo aterro) em propriedades particulares, mas também esforçou-se em edificar barragens e açudes em terrenos públicos para que a população da zona rural pudesse beneficiar-se da água sem ficar devendo favores ou sofrer pressão de “coronéis” e latifundiários.

 

Por causa de compromissos e acordos, infiltravam-se no governo forças antiquadas. Extratos das velhas oligarquias que emperravam qualquer avanço. Mesmo as forças mais progressistas do governo, com capacidade e inteligência administrativa, acabavam rendendo-se aos vícios políticos e atropelavam o plano desenvolvimentista de Raimundo Santana.

 

Para um homem de visão como Raimundo Santana, tencionado a mudar a gestão de Campo Maior, ao privilegiar o aspecto técnico sobre o político, aceitar o loteamento de cargos em seu governo parece um contrassenso a tudo que está sendo discutido neste artigo. No entanto, o leitor há de convir que a vitória eleitoral de Raimundo Santana ao cargo de prefeito não se deve apenas a sua capacidade intelectual ou por ser homem de letras numa sociedade de analfabetos, mas dependia sobretudo dos famosos “currais eleitorais” nas mãos de “coronéis” como Francisco Alves Cavalcante (Chico Alves) e Sigefredo Pacheco.

 

A chegada de Raimundo Santana a prefeitura deve-se ao apoio político de Chico Alves e outros “coronéis” que visavam derrotar o candidato a prefeito João Chrysóstomo de Oliveira, aliado de Sigefredo Pacheco. O pleito do ano de 1950 foi um dos mais tensos e violentos da história política de Campo Maior. Era praticamente impossível o candidato chegar à prefeitura sem uma aliança e apoio de Sigefredo Pacheco ou Chico Alves.

 

Raimundo Santana cedeu às vontades do coronel Chico Alves e aceitou o Dr. Antônio Cícero Correia Lima, como vice-prefeito em sua chapa. O Dr. Cícero Lima, aliado de Chico Alves, já tinha disputado um pleito eleitoral (1935) contra Sigefredo Pacheco e perdeu.

 

Raimundo Santana não mediu esforço para retirar as barreiras políticas do apadrinhamento político que engessava a administração pública. Teve excelentes resultados. Melhorou sensivelmente o serviço público e, sobretudo o ensino municipal. Parte dessas conquistas, especialmente no campo administrativo, foram desfeitas nas gestões seguintes.

 

Na política, Raimundo Santana procurou colocar em prática as teorias que aprendeu de maneira eficiente na vida de estudante e professor. Como prefeito, empreendeu uma gestão mais técnica que política, para desagrado dos aliados que o ajudaram a eleger. De espírito republicano, Raimundo Santana ao longo do seu mandato, dialogou com as forças políticas de forma democrática, respeitou a regra constitucional e manteve uma boa relação institucional com a Câmara Municipal.

 

Homem de princípios, desviou-se de escândalo que viesse manchar sua reputação e o cargo conquistado pelo voto popular. Contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento de Campo Maior. Foi o político do diálogo. Um defensor da educação pública, gratuita e de qualidade. Fez uma gestão de excelência. Realizou obras, construiu escolas, abriu estradas, equilibrou as contas públicas e soube lidar com os coronéis sem comprometer a sua honra e moral, eliminou vícios administrativos e políticos no governo. Pouquíssimos prefeitos foram éticos como ele na condução da coisa pública.

 

A política foi um acidente de percurso na vida de Raimundo Nonato Monteiro de Santana. Ele não buscou a reeleição, tão pouco deixou herdeiro político. Seu verdadeiro e único grande amor foi o magistério, exercido de maneira brilhante nas instituições educacionais em que trabalhou como professor e intelectual independente. O pensador preocupado com o desenvolvimento do Piauí. Na Academia Piauiense de Letras, atuou de forma incansável no apoio a cultura e a literatura do Estado.

 

FONTES CONSULTADAS

 

CHAVES, Celson. História Política de Campo Maior. Campo Maior-PI, edição do autor: 2013.

 

CHAVES, Celson. História da Educação Campo-Maiorense: políticas educacionais da Prefeitura de Campo Maior (1940-1975). Campo Maior, edição do autor. 2012.

 

LIMA, Reginaldo Gonçalves. Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia. Campo Maior-PI, edição do autor, 1995.

 

OLIVEIRA, José Olímpio Castro de. Vestígios da minha Caminhada. Teresina-PI, edição do autor: 2006.

 

Revista Cadernos de Teresina. Entrevista com Professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana. Teresina-PI, agosto 1995, Ano IX – Nº 20.

TIMIDEZ

Fonte: Colégio Bandeirantes/Google


TIMIDEZ


Wilton Porto


Falar é bom

falar pouco é melhor

falar o necessário é excelente 

calar se não irão te ouvir

é digno dos sábios.


Tímidez não é indiferença 

observar não significa vigiar

no orgulho se trabalha para si

na prepotência 

a língua é voz que não se cala.


Meditar 

é linguagem dos santos

ler é a grandeza dos gênios 

ouvir o Alto é a plenitude dos Anjos

não se aborrecer com quem te vira as costas

é ter consciência de que no teu âmago te fala o próprio Deus.


 Atitude é estar onde a limpidez é luz

Luz é quem na escuridão tem atitudes.

 Se luz e atitude se encontram e se encantam

Ser 

é no meio de onde não se sente no meio 

é meio para todos os meios!   

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

E-book Diário Incontínuo disponível na Amazon

 



Já se encontra à venda no site da Amazon o livro Diário Incontínuo (2010 - 2016), que construímos durante seis anos.

A seguir um pequeno extrato da Apresentação, por mim escrita:

Um diário, a rigor e em tese, pelo que sugere a sua própria classificação, deveria se voltar mais para o presente, ao passo que as confissões, as memórias e as autobiografias se voltariam mais para a narrativa de fatos pretéritos.

Mas, lendo os diários mais notáveis, verifiquei que esse gênero literário, conforme a habilidade e o talento do autor, bem se presta, ao ensejo de uma recordação, de um sonho, de uma conversa, de um acontecimento, de uma solenidade cultural e outras, bem se presta, repito, a evocar fatos de nossa própria vida, da vida de outras pessoas, de episódios pitorescos, singulares, jocosos, anedóticos, bem como a relatar uma conversa, um fato histórico, a comentar uma obra de arte, um livro, etc.

Dessa forma, ao longo de cinco anos (2010/2016), transpus para estas páginas muito da vida cultural, artística, literária e social do Piauí, motivado, como disse acima, por diferentes fatores. Narrei eventos artísticos e culturais, mormente os literários, comentei alguns livros lançados nesse período, me referi a personalidades literárias e históricas, algumas ainda vivas, outras pertencentes a um passado mais remoto. Sem dúvida, alguns desses registros são quase resenhas de obras literárias e breves perfis biográficos, embora recheados de outros ingredientes e condimentos.

O escritor, crítico literário e professor Cunha e Silva Filho, com a sua reconhecida argúcia e faro quase detetivesco, ainda bem no início da publicação sequenciada e internética do livro, percebeu e aplaudiu essa diversidade de interesses, pois postou o seguinte comentário no dia 13/02/2010:

“Por isso, gostei do seu comentário, revelador de um amplo interesse pelas artes em geral, e, no caso específico, pela escultura e suas implicações com movimentos de vanguardas que deixaram marcas indeléveis nas múltiplas formas de criação artística. Sei também quanto aprecia a pintura, um Dalí, por exemplo. Não é verdade, amigo? Explore bem esse lado de crítica das artes, lhe cabe bem. Boa surpresa do seu intelecto.”

Encero com um pequeno trecho da excelente "orelha", escrita pelo poeta, escritor e magistrado Weliton Carvalho:

"O título da obra denuncia que a empreitada do autor não se vincula às cegas com o calendário. Dito de outro modo: o seu compromisso não é registrar o dia a dia de determinado período da folhinha. O tempo do diário é, por evidente, o cronológico, mas a partir de acontecimentos dignos do leitor. Elmar Carvalho é, sobretudo, um poeta. E esta sua qualidade se espraia para todos os outros gêneros literários que ousa experimentar. Significa isto dizer que a pena de Elmar tem o poder da marca lírica onde quer que tome acento. Chame-se, de logo, a atenção que este diário tem uma peculiaridade: são acontecimentos transformados em crônicas de alto padrão e dos mais variados motes: há textos pitorescos, de intimidade familiar, históricos e até sobrenaturais. Todos eles, no entanto, encadeados pelo encanto. E não raro se entrelaçam na magia de quem sabe manejar a pena com leveza e urdidura."    

AH! SE FALTA DE RESPEITO DOESSE

Fonte: Google


AH! SE FALTA DE RESPEITO DOESSE


Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                

Vou falar sobre dois assuntos: a insuperável criatividade da bandidagem no que tange à aplicação de golpes financeiros, tanto em correntistas, quanto nos proprietários de cartões de crédito administrados por instituições financeiras. Por mais que alguém se julgue esperto, não seria estranho se, de repente, viesse a ser vítima de algum deles.

                O outro tema é a greve de cobradores e motoristas de transporte coletivo que, por aqui, recorrentemente, os sindicatos das categorias retomam ou permitem. Na nova, a que começou no final do mês de outubro -, a justificativa defendida pelo SINTETRO - Sindicato dos Trabalhados em Empresas de Transporte Rodoviário do Piauí, para sua deflagração é velha: patrões empresários não estariam efetuando pagamento de benefícios como o tíquete alimentação ou o plano de saúde dos empregados. O Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros de Teresina - SETUT, por sua vez, afirma que a motivação para a paralisação é pífia, já que o pagamento de tais benefícios não fazia parte dos itens negociados, coletivamente, lá atrás.  No meio desse imbróglio, além do desrespeito ao cidadão, outro fato saltou das notícias vazadas pela mídia: o SINTETRO, defensor do movimento paredista, teria sido penalizado pela justiça do trabalho, em uma multa diária de cem mil reais por desobediência à decisão de instância daquela corte, de que, pelo menos, setenta por cento dos serviços de transporte coletivo urbano, precisariam ser prestados. Ora, se a entidade sindical tem disponibilidade financeira para pagar tanto dinheiro a fim de bancar uma greve questionada, com risco de os filiados serem perdedores, haja vista os patrões anunciarem que os motivos que a justificariam não seriam fortes o bastante, do ponto de vista legal, para mantê-la, por que, enquanto discute a legalidade ou não do acordo, no qual dizia estarem incluídos os tais benefícios, não financia os mesmos aos filiados? Grana não parece ser o problema. Vencedor do perrengue, buscaria o ente sindical reaver, junto aos patrões, os valores adiantados, acrescidos dos gravames jurídico-financeiros. E vamos em frente, respeitando toda a gente.

                Retomando o assunto dos golpes aplicados por criminosos ao sistema bancário. É injustificável a parcimônia ou descaso com que as instituições bancárias e financeiras cuidam de um fato que, reiteradamente, se repete, vem à tona; tamanha é a falta de preocupação dessas organizações para com a segurança de seus sistemas, ditos inteligentes, cuja consequência mais imediata é o prejuízo que causam àqueles que, por ingenuidade, ou levados pela lábia ou retórica dos criminosos, veem-se vítimas dos crimes, cotidianamente, perpetrados. Esse processo de lavar as mãos das instituições financeiras em relação à sua responsabilidade para com os crimes cometidos chega a ser abusivo: elas sabem que eles ocorrem, que seus sistemas não resistem à inteligência e eficiência dos criminosos, mas nem por isso se sentem na obrigação de tomar providências para tentar minimizá-los. Aliás, para os bancos, é obrigação pessoal dos correntistas, investidores ou usuários de seus cartões de crédito, cuidarem da própria segurança; direito deles é informar ou orientar – nada de obrigação, pois se roubos ou furtos ocorrem é por culpa de quem os permite ou facilita que aconteçam -  sobre crimes, dos quais eles, tanto quanto os bandidos que os aplicam, conhecem o modo de operacionalizá-los.

                Chega a ser inexplicável como o proprietário de um cartão de crédito ou de débito, que, por jamais haver sido utilizado, por exemplo, a possibilidade de ter sido clonado seria remota ou nula – a não ser que a instituição financeira que o concedeu, e a única saber de sua existência, haja permitido o vazamento de seus dados para estranhos -, recebe em seu telefone residencial ligação de uma central qualquer, de um bandido que sabe seu nome, endereço, de que é detentor de cartão tal ou qual, que, a propósito, até então estivera na gaveta, empoeirado, alertando-o de que estaria sendo utilizado em uma compra falsa. A instituição financeira sabe que é esse crime corriqueiro, o que ela não explica, não diz nem publica, é como da existência de um cartão que forneceu a um cidadão qualquer, que jamais o utilizara na prática comercial ou bancária, vem a saber um golpista.

                O resto é consequência. Se o dono do cartão, que deveria saber que sua disponibilização a desconhecido poderia redundar em crimes que seu banco e outros meios de informação já lhe haviam informado estarem sendo executados, e, ainda assim, inadvertidamente, o faz, isso não deveria eximir de corresponsabilidade as instituições financeiras pela perpetração de tais crimes, pelo contrário, que viessem a ressarcir ou indenizar, espontânea e, voluntariamente, o cliente lesado por saques ou compras indevidamente feitas com os cartões roubados, em restando devidamente comprovado que, apenas o banco fornecedor do cartão e o próprio cliente, criminosamente, lesado, deveriam saber da existência do mesmo.

                Vá o cliente bancário avaliar mal seu gerente, que telefonemas da central de qualidade da instituição, dos mais distantes rincões do país, até que ele justifique ou reforme a nota data, vão ficar atazanando sua paciência. Ainda que dispondo o banco de vários telefones que o correntista informou em seus cadastros, mesmo em se tratando de compra estranha, como as únicas realizadas por ele depois de meses ou anos de inatividade do cartão, só quando a lesão ou prejuízo já se faz grave é que alguma das centrais da instituição financeira avisa-lhe sobre o cancelamento provisório da ferramenta. Mas ele que lute por seus direitos.

                Se a greve dos motoristas e cobradores do transporte coletivo vai ter vida longa, não sei; mas que os bandidos vão continuar explorando a boa-fé e roubando clientes incautos, porque sabem que seus bancos estão pouco ligando para a segurança deles, enquanto clientes, disso ninguém venha a ter dúvida. Infelizmente, falta de respeito não dói.

domingo, 8 de novembro de 2020

Seleta Piauiense - Raimundo Alves Lima - RAL

 

Fonte: Pixabay/Google

Canção permanente

 

Raimundo Alves Lima – RAL (1956)

 

Persigo a vida

porque acredito nos homens

que anseiam por liberdade

 

Como posso fazer silêncio

diante desse tormento,

dessa ausência de ternura e claridade?

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Biblioteca infantil instalada em vagão de trem recebe as primeiras doações de livros

 




Biblioteca infantil instalada em vagão de trem recebe as primeiras doações de livros

 

A biblioteca infantil instalada em um vagão de trem na praça Mandu Ladino no bairro de Fátima e que recebeu o nome da poetisa e escritora Dilma Ponte de Brito, começou a receber as primeiras doações. A biblioteca é uma iniciativa da Federação do Comércio do Piauí que tem na presidência Valdeci Cavalcante, membro da Academia Parnaibana de Letras.

Até o dia 13 deste mês o SESC disponibilizou um funcionário para receber e catalogar as doações de livros de literatura infantil e de escritores parnaibanos. A biblioteca já recebeu doações de Roberto Cajubá, Christina Moraes Souza Oliveira e Pádua Marques, os três, membros da Academia Parnaibana de Letras. Fonte: APAL/SESC. Fotos: APAL/SESC. Edição: APM Notícias.   

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Pádua Marques e seus contos para Simplício Dias




DIÁRIO

[Pádua Marques e seus contos para Simplício Dias]

Elmar Carvalho

04/11/2020

Recebi, poucos dias atrás, pela velha ECT, um exemplar, com amável dedicatória, do livro Vinte contos para Simplício Dias, com 112 páginas. Bem encadernado e impresso, teve a capa, a formatação e a programação visual elaboradas de forma impecável pelo jornalista, escritor e poeta Paulo Moura, paradigmático irmão maçônico, meu conterrâneo e velho conhecido.

Além do mais, a obra tem o luxuoso valor agregado de conter várias ilustrações  desse grande artista plástico, um dos maiores em seu gênero. Fiquei ainda honrado de estar incluído na lista impressa de agradecimentos, embora certo de não ter tido mérito para isso. Não tem prefácio, porém possui elucidativas “orelhas” e um esclarecedor e conciso texto na contracapa.

O autor, em seu sentimento de gratidão, esclarece que será eternamente agradecido a Batista Teles “por dar condições para que este trabalho fosse publicado”. João Batista Mendes Teles é meu conhecido há várias décadas, e fazia parte dos colaboradores do jornal Inovação.

Um dos pioneiros em pesquisas técnico-científicas de estatística, no final dos anos 1970, começo dos 80, preparou várias pesquisas para diagnóstico econômico-social de Parnaíba para esse periódico. Professor da UFPI por várias décadas. É o titular do mais importante Instituto privado de pesquisa estatística do estado, o Amostragem. Na medida do possível, tem incentivado a cultura e as artes do Piauí.   

Mário de Andrade de forma sintética e bem-humorada, com alguma dose, talvez, de ironia, disse que conto é tudo aquilo que chamamos de conto. Para mim, sem considerar a questão da qualidade e outros gêneros textuais limítrofes, sua frase de efeito é certeira e exata. Já tive oportunidade de dizer que, para mim, um conto que não conta, não conta,  porque nada vale como um conto.

Seria qualquer outro artefato literário, menos um conto. Seria uma crônica, um poema em prosa, um devaneio, mas não um conto. Entendo que esse gênero literário deve narrar, deve relatar, deve conter uma estória ou história. Nesse aspecto, os contos de Pádua Marques, não há negar, são realmente contos, uma vez que contam, que relatam um fato, um acontecimento, um episódio.

Contudo, por razões que abaixo alinhavo, não os considero propriamente contos históricos, no mesmo sentido que se dá ao chamado romance histórico. Classifico-os, em sua quase totalidade, como sendo contos de época. É que eles não se restringem a “ficcionar” sobre fatos da história de Parnaíba ou da biografia de Simplício Dias da Silva, como à primeira vista o leitor poderia achar, induzido pelo título do livro.

No meu entendimento, um conto histórico ou um romance histórico deverá ser permeado por fatos e episódios da história de uma localidade ou da biografia de uma figura histórica, evidentemente com “variações sobre o tema”, ou seja, com “licenças fictícias”, todavia verossímeis, compatíveis com desdobramentos que poderiam ter acontecido, ou que ensejem dúvidas sobre se aconteceram ou não, inclusive levando em conta o que o imaginário popular acaso tenha transformado em episódios lendários.

Vejamos o que diz a Wikipédia, em acesso do dia 03/11/20, sobre o gênero romance histórico, que mutatis mutandis pode se aplicar a conto histórico:

“O romance histórico é um gênero literário em prosa em que a narrativa ficcional se ambienta no passado. Geralmente, os romances históricos são marcados pela influência (em menor ou maior grau) de eventos e personagens históricos no desenrolar da trama. Ao longo da história, o gênero teve um papel importante em trazer para um público leitor conhecimentos históricos através das narrativas de ficção.”

Conquanto os contos sejam ambientados numa Parnaíba da época de Simplício Dias, os seus relatos, episódios e entrechos não se basearam, quase, em fatos narrados nos compêndios de História e em episódios da vida romanesca de Simplício e de outras figuras históricas. Aliás, a história e o tempo, às vezes, são até subvertidos pela ficção, como no conto A caveira de burro, em que “o velho Domingos Dias da Silva vivia batendo cabeça, tentando de tudo para aposentar-se pelo INSS”. Nesse mesmo texto, consta que “chamaram umas ciganas, que ficam ali perto da Banca do Louro”.

Portanto, Pádua Marques, em sua ilimitada liberdade de ficcionista, usando do que chamei de “licença fictícia”, provocou uma verdadeira distorção no tempo-espaço, porquanto na época de Domingos e Simplício Dias, como é sabido por todos e muito mais pelo próprio autor, consciente de sua arte e de sua liberdade de criar livremente, o INSS ainda não existia, e o Louro, embora seja um patrimônio histórico, devidamente tombado pelos seus amigos, ainda não havia nascido, claro está.

Essas elucubrações se destinam apenas ao leitor, porquanto Pádua Marques tem plena consciência de seu fazer literário e dos recursos de que poderia dispor, pois já é um contista de longa cabotagem e já traquejado na arte romanesca, tanto que o próprio título do livro já é uma pista do que acabei de explanar: Vinte contos para Simplício Dias. “Atentai” bem: contos para, e não de ou sobre Simplício Dias.

O autor usou a sua capacidade imaginativa e de criação e as colocou a serviço de sua ficção, que em três ou quatro contos tangenciou o conto histórico, e colocou os seus episódios e tramas no cenário de uma Parnaíba do início do século XIX, através de fatos compatíveis com o que bem poderia acontecer numa cidade dessa época, além de ter usado com habilidade e verossimilhança personalidades históricas, nos moldes feitos em um romance à clef.  

No mesmo diapasão, o texto da contracapa referenda ou chancela o que acabo de abordar, senão vejamos: “Neste livro a vida política de Simplício Dias da Silva é o menos importante. Não que ele não mereça. Merece e muito. Mas é que outros autores, historiadores de formação ou até mesmo leigos já o fizeram com grande alcance. Seria apenas mais um livro a tratar sobre a engenharia política e econômica dessa parte do Brasil, distante e muito da Corte.”

De fato, no vertente livro, a História de Parnaíba e a biografia de Simplício Dias não foram importantes, por mais notáveis que tenham sido (e foram). O que importa mesmo são as narrativas, frutos da imaginação de Pádua Marques, que são atraentes e bem delineadas, embora não relatem fatos rocambolescos e mirabolantes, nem tampouco escabrosos e escatológicos.

Um episódio, todavia, me chamou muito a atenção: foi o fato de o Simplício fictício ter uma preocupação imensa com o seu passado, a ponto de mandar matar uma testemunha, a meu ver analfabeta, por ser um escravo, e que sequer poderia ter tomado conhecimento do conteúdo dos documentos, que foram queimados e enterrados pelo escravo de sua confiança. Que tanto ele teria a temer? Ou apenas se tornou frágil e assombrado  por causa de doenças, da velhice e da proximidade da morte?

O ficcionista seguiu a tradição da contística. Seus textos respeitam o tempo da física, tal como o conhecemos em nossa vida prática e cotidiana. Não faz inversões temporais. Seguem o tempo cronológico, com início, meio e fim bem definidos. Não usa, em consequência, o chamado flashback, que pode dificultar a compreensão do leitor mediano.

Em momento algum, para dar voz a suas personagens, lançou mão do discurso direto. Pode-se dizer que usou sempre ou quase sempre o discurso indireto, com o narrador em terceira pessoa. Portanto, esquivou-se do discurso indireto livre, do fluxo de consciência, do monólogo interior, etc. A sua narrativa é feita por intermédio de um narrador onisciente (ou quase), que tudo enxerga, que tudo escuta, que tudo perscruta e desvenda. Não atribuo a isso defeitos ou virtudes; estou fazendo apenas uma simples constatação.

O que importa, também, é a linguagem e a forma dos contos, que foram elaborados em linguagem escorreita, clara, objetiva, concisa, em frases curtas, quase telegráficas, que me fazem lembrar Hemingway, em seus melhores momentos, sem firulas, adereços e excrescências, sem adiposidades e adjetivações desnecessárias.

É isso o que efetivamente importa. E Pádua Marques, nesse aspecto, se houve com maestria.  

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Dia langoroso



Dia langoroso 


Carlos Rubem 


Neste Dia de Finados (2020), manhã nublada, tempo ameno, estive, como de costume, no Cemitério Municipal (1938) contíguo ao Cemitério do Santíssimo Sacramento (1869), em Oeiras, para prestar referência à memória dos meus entes queridos, familiares ou não.


Antigamente, as pessoas tidas como gradas da cidade eram sepultadas no interior da Igreja de N. Sra. da Vitória, a exemplo do jornalista Tibério César Burlamaqui, o Cego, proprietário do periódico “Eco Liberal”, que muito se insurgiu contra a mudança da Capital de Oeiras para Teresina (1852). 


Também havia o Cemitério de São Benedito. Nele eram enterrados somente negros. Aqui, estratificação social era bem delineada. Nos anos quarenta do século passado, período da getulina ditadura, o prefeito da época, Coronel Orlando Carvalho, achou por constituir em seu lugar o Matadouro Público. Neste prédio funciona, hoje, a Secretaria Municipal de Saúde.


Desnecessário dizer que aqueles equipamentos necessitam de uma urgente e séria intervenção por parte da gestão municipal. A última que houve para valer foi em 1971, na administração do prefeito Juarez Tapety.


Não depositei flores nem acendi velas nas catacumbas. Apenas fotografei muitas delas. A cada inscrição lida em suas respectivas lápides, fui tomado de saudades e reflexões.


Ao me deparar como o túmulo do Professor Possidônio Queiroz fiquei bastante enternecido. Lembrei-me de sua figura mansa, dadivosa. Pessoa sempre disposta a servir, distribuir saberes, indistintamente.


Ao pé de sua cova, lembrei-me do folclórico Joaquim Caboclo. Um doido engraçado. Dizia-se beato, homem de muitos estudos, que havia se encontrado com Cristo. Usava roupa militarizada, espada de plástico, cabelo rastafari. Pintura do diabo!


Certa feita, desafiou o Bruxo Velho de Oeiras:— Compadre Possidônio, qual é o maior pau do mundo?


Muito jeitoso, fazendo arrodeio, o Professor passou a falar das grandes florestas mundiais.  Discorreu sobre a araucária e outras gigantes árvores.


— O maior pau do mundo, Possidônio, é o capitão de campo que já nasce com a patente, negro besta, atalhou.


Nesta efeméride fico sempre langoroso...

domingo, 1 de novembro de 2020

Seleta Piauiense - Elmar Carvalho

 

Fonte: Google/Wikipédia


MULHER NA LAGOA DO PORTINHO


Elmar Carvalho (1956)

 

Na tarde antiga

de sol e bruma

de luz e penumbra

as dunas mudaram

de cores e formas.

 

Os belos olhos esplendentes –

pálidas cálidas opalas ou

esmeradas esmeriladas esmeraldas –

da mulher bonita

de sinuosas dunas e viagens

furta-cores furtaram

outros tons e sobretons.

 

Ainda guardo a memória viva

daquela tarde morna e morta

e ainda vejo aqueles olhos vivos

furtando furtivos cores e atenção.

 

E os olhos e as formas curvilíneas

permanecem intactos no tempo

que em mim não passou.

 

E a mulher, acaso passou,

nos escombros das formas

transitórias da beleza?...