sábado, 21 de novembro de 2020

Arca de Noé V (Epílogo)

 

Fonte: Google

Arca de Noé V (Epílogo)

 

Vitor de Athayde Couto

Cronista e ensaísta

 

O envelope contém um manuscrito, com pouquíssimas palavras. Edwiges, único bicho alfabetizado em inglês, por ter frequentado a escola de uma ONG ambientalista, lê a carta de mãe Divina, e traduz com dificuldade para a assembleia silente:

 

“Cinzas é o que nos resta

 

deste mundo inerte

 

e cremado.

 

Não se ouve um pio.

 

Os polos e a energia da Terra

 

estão invertidos.

 

Gravitamos

 

em torno da Lua.

 

A Terra é a lua da Lua,

 

filha da Lua,

 

com o mesmo solo da Lua.

 

Sem água, sem bio.

 

Cinzas é o que nos resta.

 

Divina cruz, na testa.”

  

Após 190 dias na água, conclui-se a expedição hidroviária “Anime”, sob o comando mono crático de Ching. Os bichos desembarcam sobre a cinza do chão sem vida. O solo ficou desequilibrado, pelo excesso de potássio. Ouvindo o silêncio eloquente das almas, buscam a terra prometida que o mico-leão havia anunciado. Caminham um dia e uma noite. Em meio às trevas, vislumbram alguma luz. Confiante e inspirado na sua experiência bíblico-escatológica, Cam sugere um caminho e sua proposta é acolhida:

  

– Transportei reis que seguiam a luz. Sigamos também a nossa luz interior.

  

As decisões mono cráticas do chimpanzé já não operam mais em terra firme.

  

Na madrugada ainda tenebrosa, o Sol começa a nascer por trás da miragem de um gramado verde. Cada vez mais próxima, a luz transfigura-se em aura, contornando um espectro com aparência humana. Alto, usando uma batina escura, o halo gênio não assusta os bichos. Pelo contrário, dele parece exalar uma afinidade eletrônica que atrai todos os animais, sem discriminação. Mais alguns passos e já se percebe que é apenas um homem muito simples, de barba. Segura cuidadosamente um objeto com as mãos. Sobre os seus ombros repousa um casal de arapongas-brancas-da-amazônia.

  

Ao verem os animais que sobreviveram à expedição, reunidos em volta da luz, as arapongas anunciam o milagre de São Francisco. Com suas mãos, o santo protetor dos animais protege um ninho recuperado de uma Muiracatiara centenária, carbonizada pelas queimadas sem controle na floresta primária. Os ovos no ninho simbolizam o recomeço da vida na Terra, mas o santo homem está triste e chora lágrimas de mistério.

  

Mais de perto, a miragem verde é, na verdade, uma mega plantação de soja transgênica, padronizada e tecnificada, que se estende até o horizonte. Devido à irrigação contínua e ao seu desenho genético artificial, a soja é o único vegetal que resiste a incêndios.

  

Equipado com placas solares, o cultivo é robotizado e autônomo em todas as suas etapas. Acionado por algoritmos de inteligência artificial, mostra-se infalível e durável. Monitorado por sensores de umidade do ar, e alimentado por energia fotovoltaica acumulada em grandes baterias, o sistema de irrigação permaneceu ligado e ativo durante todo o período dos incêndios, inclusive à noite.

  

Ocupando a plantação, movidos pelo instinto de sobrevivência, os bichos começam a comer folhas verdes, com sabor acrílico. Imediatamente o detector automático de pragas é acionado. Em poucos minutos, uma família de drones, terrivelmente de bem, ataca e lança veneno agrotóxico industrial sobre todos os bichos.

  

A Terra agoniza. Inverte-se a energia e os polos norte e sul são trocados. O exoplaneta passa a gravitar em torno da Lua. Agora, a Terra é a lua da Lua, com o mesmo solo cinzento da Lua. Sem água limpa, sem fertilidade, mas sobretudo sem vida reprodutiva. Vida que “até um dia, até talvez, até quem sabe” recomece em águas recicladas, com o que restar dos hidróbios. Se restar. O sistema solar ascende ao zênite da Era de Peixes. Seu fim, profetizado para o ano 2600, encerra mais um desses ciclos curtos do universo.

  

Mãe Divina bem que alertou:

  

– “Meus filhos… não haverá solução para os humanos, se depender das atuais gerações.”

  

Dissipa-se a aura e o halo do santo protetor dos animais. O príncipe das trevas refaz, lentamente, o teatro da primeira guerra do fogo. Mas já não restam humanóides. Sequer um australopiteco, terrivelmente fanático, a repetir aqueles mantras-mais-do-mesmo, que ecoavam nos templos antigos tornados pó: “glória a deus, aleluia, irmãos!”

  

Segundo José, o Saramago, “a morte é o não ser”, portanto, dízimo com quem andas que eu te direi quem não és.

  

E quem não viver, verá.

 

 (The End, como nos filmes antigos)

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Expedição ao Sertão Colonial


Na foto, vê-se, entre outros: Márcio Freitas e seu filho, Dilson Tavares, Elmar Carvalho, Rubens Luna e o prefeito de Amarante, Diego Lamartine Teixeira

Componente da Expedição Sertão Colonial  Fonte: Portal 180 Graus
A fábrica de laticínios do Engenheiro Sampaio, quando ainda estava bem preservada. Fonte: Google



Expedição ao Sertão Colonial

Elmar Carvalho


1.      AMARANTE

Na quinta-feira, dia 17, recebi telefonema do des. Carlos Brandão, em que me convidava a participar da “Expedição Sertão Colonial”, a ser iniciada no dia seguinte, pela manhã. Me falou do cronograma e objetivos da viagem. Ao final de seus argumentos, com que procurou me convencer a aderir à empreitada, disse-lhe: “Temo não poder participar, vez que vendi minha picape ao meu filho, que mora em Manaus”. Mas ele me respondeu que me conseguiria uma carona, pelo que fiquei sem motivo para dela não participar. Em virtude de eu lhe ter falado sobre um antigo projeto meu para a cidade de Amarante, ele me disse que me facultaria a palavra, no momento das falações.

Quando cheguei ao parque da Floresta Fóssil (ponto de encontro para a saída), conduzia um exemplar de meu pequeno romance Histórias de Évora, para ofertar a algum amigo. Logo fui abordado por uma pessoa que ficou interessada e curiosa sobre o livro e seu conteúdo. Em rápidas palavras, lhe expliquei que a Évora de minha ficção era uma cidade fictícia, misto de Parnaíba e Campo Maior dos anos 1960/1980, bem como, em menor escala, de outras urbes de nosso estado.

Acrescentei que, como pano de fundo, ele tratava um pouco da história recente, econômica e social do Piauí, sobretudo da decadência do extrativismo econômico e da agonia, paixão e morte dos velhos cabarés, que outrora incendiavam o imaginário dos adolescentes e jovens. Como propaganda, afirmei que se ele superasse os três capítulos iniciais, leria todo o romance. De fato, alguns minutos depois, o professor universitário Samuel Pontes do Nascimento (era este o nome de meu potencial leitor), me falou haver lido o primeiro capítulo, e me asseverou que prosseguiria em sua leitura. Numa época de escassos leitores, isso me soou como um elogio.

Após o café na Floresta Fóssil de Teresina, e depois de uma elucidativa palestra sobre o projeto de revitalização desse ponto turístico e de pesquisa, inclusive com a construção de novos e importantes equipamentos para essa finalidade, seguimos para a cidade de Amarante, com parada inicial no parque ecológico e turístico da Cachaça Lira, onde poderíamos sorver dois ou três tragos dessa deliciosa pinga. Em seu restaurante degustamos um saboroso jantar.

No passeio e jardim da margem piauiense do Parnaíba, houve vários e pertinentes pronunciamentos, entre os quais o do médico e intelectual Francisco (Tatá) Almeida, que é meu velho conhecido. Em seu consultório ele tem uma bela e enorme escultura do excelso poeta Da Costa e Silva em postura declamatória. Tem na cabeça minuciosa biografia de Da Costa, um verdadeiro livro virtual, que espero seja publicado na internet e no formato impresso. Discorreu sobre aspectos interessantes e pitorescos da vida do grande vate, e lhe recitou de cor alguns poemas, em mais de uma ocasião de nosso périplo amarantino.

Quando terminaram os pronunciamentos, previamente programados, o des. Brandão abriu espaço para que eu falasse do que há várias décadas eu havia idealizado. Subi à tribuna improvisada, no caso a borda de um canteiro da pracinha, e de forma muito sucinta disse que estivera em Amarante várias vezes, desde a primeira metade dos anos 1980, tanto a serviço da extinta Sunab, como para participar de eventos culturais. (Inclusive, acrescento agora, em minha gestão como presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI promovi um encontro de escritores nessa bela terra azul do nosso poeta maior, quase uma ilha, na verdade um jardim incrustado nas confluências do Mulato, do Canindé e do Parnaíba, cercado pela beleza azul das serras e colinas, que o grande bardo tanto exaltou em magníficos versos.)

Falei que, no período 1988/1990, na qualidade de presidente da UBE-PI, encetei uma campanha para que os restos mortais de Antônio Francisco da Costa e Silva (1885 – 1950) fossem sepultados em Amarante, sua terra natal; que no cemitério do Rio de Janeiro, por maior que ele tenha sido, e ele de fato é um dos maiores poetas brasileiros, seu túmulo é apenas mais um túmulo entre milhares, mas que em seu torrão seria visitado e reverenciado por milhares de piauienses e amarantinos. Usei, trinta anos atrás, como fundamento de minha campanha, o seu próprio desejo, expresso no segundo terceto do soneto Amarante: “Terra para se amar com o grande amor que tenho! / Terra onde tive o berço e de onde espero ainda / sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho!”

Portanto, defendi a ideia de que seja construído em Amarante um mausoléu e memorial, de preferência com auditório, estátua e placas modernas, com ilustrações, em que seriam estampados alguns de seus poemas antológicos, bem como poemas de outros autores sobre ele e sobre a sua bucólica cidade. Como alguém aparteou, lembrando que o embaixador e poeta Alberto da Costa e Silva é contra esse traslado, o escritor e historiador Reginaldo Miranda, de forma certeira, concisa, precisa e incisiva disse que não haveria problema; que o mausoléu ficaria como um símbolo. Então, retomando a palavra, disse que o monumento ficaria com um espaço reservado, à espera de que, no futuro, fosse possível a vinda das cinzas do grande bardo, para o cumprimento de seu desejo.

Estivemos ainda na frente do Museu Odilon Nunes, que foi um dos maiores historiadores do Piauí e do Brasil, para homenageá-lo e para abraçar, simbolicamente, o vetusto casarão. Nele não pudemos entrar, pois suas portas se encontravam fechadas. Tivemos a informação, não sei se verídica, de que os trabalhos de pintura, limpeza e restauração já estavam concluídos, mas que, mesmo assim, por motivos não informados, essa casa cultural não fora reaberta.

A seguir, fomos nos postar aos pés da escadaria do Morro da Saudade (é assim que o chamo em homenagem a Da Costa e Silva e a seu poema Saudade), onde foram tiradas algumas fotografias dos expedicionários. Conforme constava na programação, um dos coordenadores nos convidou a subirmos os degraus, mas sem olharmos para trás, como foi bem enfatizado. Assim fizemos. Contudo, quando eu estava na metade da escalada, recebi recado de que o professor e advogado Valdeci Cavalcante, presidente do sistema FECOMÉRCIO, desejava falar comigo. Mesmo correndo o risco de virar uma estátua de sal, como no episódio bíblico da mulher de Ló, resolvi olhar para trás, para atender o pedido, pois acreditava tratar-se de algo importante.

E realmente foi algo muito, muito importante. Quando cheguei, o Valdeci, que conversava com o advogado Márcio Freitas, apontando para um terreno que havia no sopé do morro, exclamou: “Bem aí, nesse terreno desocupado, vou construir o mausoléu e memorial em homenagem ao grande poeta Da Costa e Silva”. Não posso dizer o quanto fiquei feliz e emocionado, ainda mais porque Valdeci Cavalcante sempre cumpre as suas promessas, ao contrário de muitos políticos e falastrões. O dr. Tatá, após retornar da subida ao mirante, disse que iria pedir ao artista plástico Hostyano Machado que fizesse o projeto, para entregar ao grande mecenas da cultura piauiense. Pedi-lhe que o fizesse o mais rápido possível, para aproveitarmos a boa vontade de Valdeci e a disponibilidade orçamentária e financeira da FECOMÉRCIO.

Quando olhei o velho casarão que existe na esquina, perto do início da escadaria, ensombrado por grande oitizeiro, recordei da primeira vez em que estive em Amarante, ainda jovem e entusiasmado, com a vida e com a poesia, que então, estuante, me borbulhava no cérebro, como o gênio em Castro Alves. Três décadas atrás, havia um hotel instalado nesse prédio solarengo. E eu imaginava que nele havia fantasmas de poetas mortos, e gorgolejos e golfadas de afogados nas águas traiçoeiras das enchentes do Velho Monge.

Não pude deixar de lembrar um episódio que vivi nesse casarão. Numa fria e silenciosa madrugada acordei com forte vontade de urinar. Com medo desses fantasmas, tentei me conter, chegando mesmo ao cúmulo de ainda procurar um urinol. Apesar do heroico esforço, não pude resistir, e mesmo com medo enfrentei o longo corredor fantasmagórico, até encontrar o mictório. Durante o ato fisiológico, comecei a ouvir uns penosos gemidos. Pensei, de início, fossem de algum moribundo ou doente, mas logo os associei a almas penadas de poetas ou de afogados, como nos poemas de Argila da Memória, do amarantino Clóvis Moura, notável poeta e sociólogo dos melhores.

Incontinenti, tratei de retornar ao meu dormitório, em passos apressados, fustigado pelo sobrosso. De manhã, na hora do café, o mistério foi desfeito. Soube, então, que no quarto próximo ao banheiro dormira (ou melhor, passara a noite) um casal em plena lua de mel. Logo vi que não se tratava de almas penadas, mas de almas “penando” nos entreveros do amor e da paixão.

Quando estive na ribanceira do Parnaíba, me lembrei de longínqua tarde em que lá estive, a degustar umas talagadas de pinga com água tônica, em companhia de meu amigo e poeta Virgílio Queiroz, a conversar sobre cultura e poesia, a que não faltaram as indefectíveis anedotas, de preferência amarantinas. Nenhuma folha se mexia naquela tarde morna e parada. Mas, de repente, veio um pé de vento, que farfalhou na frondosa árvore, sob cuja sombra estávamos, e sacudiu as faveiras da proximidade, que passaram a emitir uma toada de chocalhos e guizos.

Em minha mente surgiram os índios alegres da região, que cantavam e dançavam ao som dos maracás, e que outrora perlongaram as barrancas sinuosas do Velho Monge. Talvez esse momento de insight ou mesmo epifania tenha sido a gênese de meu poema Amarante, em que perpassa o farfalhar do vento nas faveiras e nos ciprestes, em que a água gorgoleja e “boceja nas bocas de lobo dos esgotos” e “gargareja nas gargantas gosmentas dos gargalos”, e deriva singular para as águas plurais do Parnaíba.

E eu não pude deixar de sentir saudade do rapaz que eu fui, algumas vezes ingênuo, mas sempre tão cheio de sonhos, tão sentimental e emotivo, em que a poesia, a me arder na alma, parecia me consumir. E como terapia e catarse, eu tive que escrever os versos que escrevi. 


2.      OEIRAS

Chegamos a Oeiras na boca da noite do dia 18. Fomos conhecer o museu do Sobrado Major Selemérico, no qual estive em outras ocasiões culturais. Estava restaurado e limpo. Vi antigos móveis e sua ambientação, que me fez viajar ao Piauí colonial. Estavam expostos vários quadros e a galeria dos governadores republicanos. Em outro ambiente havia a pintura de quase todos os governadores provinciais (mas não os coloniais ou da velha Capitania). A partir do operoso Zacarias de Gois, seu construtor, eles governaram o Piauí provincial, tendo como palácio esse vetusto sobrado, rústico e sem luxo. Sem traumas e sem preconceitos, ali estava o retrato do Conselheiro Saraiva, o fundador de Teresina, a nova capital. Mas, também, dominava o recinto, entronado na moldura, o Visconde da Parnaíba, oeirense que governou a província por dezesseis anos.

Fui abordado na calçada do sobrado pelos vereadores José Alberto Pinheiro de Araújo, presidente da Câmara Municipal, e Francisco Espedito Nunes Martins. Me comunicaram que meu Título de Cidadão Oeirense, concedido em 2013, me seria entregue neste ano. Fiquei muito satisfeito com a notícia, e disse que o mais difícil, a concessão, já estava feito, ao que Espedito Martins retrucou: “O mais fácil... a votação foi por unanimidade”. Sou agradecido a todos os parlamentares oeirenses por essa alta honraria, que consagra a minha condição de oeirense por devoção e vocação.

Assisti com muita atenção à magnifica palestra do professor e secretário municipal de Cultura Stefano Ferreira, titulada “Interpretação do Patrimônio Cultural”. Em voz de correta dicção e pronúncia, com frases claras e bem construídas, com riqueza de detalhes e denso conteúdo, o palestrante discorreu, com notável poder de síntese, sobre diversos aspectos da cultura oeirense, tais como patrimônio arquitetônico, música, literatura, religiosidade, artesanato e costumes. Após ter visto a linda Praça das Vitórias e os bem-conservados solares e sobrados coloniais, a conferência de Stefano me fez ressurgir a Oeiras colonial, que insiste em permanecer, mesmo ante a insolência e iconoclastia dos dias atuais.

Sem dúvida foi uma das melhores palestras a que tive a oportunidade de assistir, ilustrada ainda por oportunos e elucidativos slides, e com certeza a melhor na temática abordada. E para minha maior satisfação, uma das telas projetadas estampava estes versos de meu Noturno de Oeiras: “Oeiras navega na noite / de um tempo que não termina”. Stefano teceu rápidas considerações elogiosas a esse poema. Também fez referência ao Noturno do Cemitério Velho de Oeiras.

Uma voz, não sei se do Carlos Rubem, defensor perpétuo das coisas oeirenses, ou se do Alcide Filho, exímio fotógrafo e cinegrafista, disse que eu estava presente. Como o Stefano tentasse me localizar no meio da multidão, lhe acenei, sentado em minha cadeira. Não tendo ele me visto, pediram que me levantasse. Para minha honra e contentamento, tive a alma afagada por uma forte saraivada de palmas. Obrigado a todos os oeirenses e expedicionários por esse momento ímpar na vida de um poeta menor e provinciano.

Sinto-me quase forçado a esclarecer que Noturno de Oeiras já foi entoado em diferentes ocasiões e locais da velha capital. Na solenidade de restauração do antigo fórum, na gestão do des. José Luís Martins de Carvalho, foi interpretado pelo ator Bonifácio Lima no Cine Teatro Oeiras; em certo 24 de janeiro, data magna oeirense, foi recitado entre as naves da tricentenária catedral, assim como também em seu adro. Foi declamado em rodas de poesia, documentários e em lançamento de livros. Existem clipes dele no You Tube.

Tendo escrito vários textos sobre Oeiras, além dos dois poemas citados, resolvi enfeixá-los no livro “Noturno de Oeiras e outras evocações”, que o IBENS lançou em memorável acontecimento cultural, em que foram apresentados números de dança, música e uma performance de Noturno. Um aluno do Instituto Barros de Ensino - IBENS musicou o Noturno do Cemitério Velho de Oeiras e o apresentou nessa ocasião. Essa obra foi apresentada nessa solenidade pelo advogado e escritor Moisés Reis. Sobre esse livro disse o médico Elisabeto Ribeiro Gonçalves, um dos maiores oftalmologistas do Brasil, em bela missiva: “Além das virtudes próprias do livro, que são tantas, ele me dá, de lambujem, mais uma satisfação e um encantamento: rememorar Oeiras, retornar a Oeiras, reviver Oeiras. // O livro é Oeiras encadernada, viva, palpitante. Ele me levou a Oeiras, de onde saí ainda bem jovem em busca do conhecimento que ela não poderia mais me dar. Mas não sei, não sei...”    

Após essa digressão, retomo a trilha expedicionária, para dizer que por volta das 23 horas fomos ao Hotel do SESC, onde ficamos hospedados, em cuja recepção, tempos atrás, Valdeci Cavalcante mandou afixar uma grande e bela placa de metal, na qual consta o meu poema Noturno de Oeiras. Degustamos um lauto e delicioso jantar. No dia seguinte, tivemos um farto café interativo, em que o engenheiro Avelino Neiva, presidente da Codevasf, proferiu uma palestra sobre o projeto de restauração da navegabilidade do Parnaíba, inicialmente de Uruçuí até Teresina, e, em segunda etapa, se o porto for construído, até Luís Correia.

Segundo o palestrante e outros técnicos da companhia a navegabilidade é viável e pode ser restaurada, e já existe um empresário interessado e com recurso suficiente para essa empreitada. Para mim, que tenho denunciado a degradação do Velho Monge em diferentes ocasiões, bem como apontado soluções, tanto por escrito como através de minha voz, achei uma notícia auspiciosa, inclusive em termos econômicos, pois o transporte dos produtos seria barateado consideravelmente. Oxalá esse projeto se torne uma realidade. Navegar é preciso, mas salvar o Parnaíba é mais preciso ainda. Esse rio é o mais importante e imprescindível patrimônio natural do Piauí.

Após a palestra, fomos em demanda da “Fábrica dos Sonhos”, perdida num dos confins dos sertões de Cabrobó.


3.      SANTO INÁCIO E CAMPINAS DO PIAUÍ

Seguindo a orientação de Carlos Rubem, nos deslocamos para Santo Inácio do Piauí, que outrora teve o bucólico nome de Brejo de Santo Inácio. Iríamos visitar o degradado olho-d’água. Nesse brejo, em pleno Piauí colonial, a partir de 1711, os jesuítas nele tomavam banho. Pelo que se observa em seu derredor, e pelo que se sabe da história da região, nessa época deveria ser um local totalmente isolado.

Os padres construíram a casa e a ermida em local sobranceiro, um verdadeiro mirante, de onde se observa a longa distância toda a paisagem circundante, e as faldas de morros em seu derredor. A casa foi restaurada, embora com algumas restrições apontadas pelo grande arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, um dos maiores peritos na área de restauração. Segundo ele me informou, três imagens de santos da igrejinha são do período colonial. Fui vê-las e deu para que eu percebesse a sua antiguidade, observável em sua textura cromática e desgastes naturais. Também observei, seguindo informação do Olavo, que o altar, em certos pontos, apresentava resquício de sua construção inicial.

Aliás, ouvi comentários de que até a década de 1960, a igrejinha dos padres da Companhia de Jesus de Santo Inácio de Loiola ainda apresentava a sua feição colonial, mas que teria sido demolida (a pretexto de reforma, ampliação e melhoramentos) para que homens gananciosos tentassem encontrar supostos tesouros enterrados pelos jesuítas, quando da ordem de confisco e expulsão da época do Marquês de Pombal. Também os comentários que me chegaram diziam que o banheiro dos padres, com as pedras formando uma espécie de caracol, também existia até cinquenta ou sessenta anos atrás; todavia, pelo mesmo motivo, foi destruído, dele só restando algumas pedras. Não sei se se trata apenas de histórias um tanto lendárias sobre os tesouros de jesuítas, que também ocorrem em outros lugares, nem tampouco se é mesmo verdade o motivo da destruição da igreja e do banheiro, que deveriam ter sido preservados como testemunhas e fontes da história do Piauí Colonial.

O banheiro dos padres fica a uma boa distância. A ida até lá foi sem problema. Mas a volta, com o sol a pino, e com a trilha em constante e implacável subida, extenuou alguns expedicionários, que tiveram de fazer paradas estratégicas, à sombra de duas ou três arvores que se destacavam no descampado. No local da vertente, houve alguns pronunciamentos, em que foi pedida a sua recuperação, através de drenagem e reflorestamento, sobretudo. Restou, ao menos, a esperança naquele sertão adusto e esquecido de que algo pode ser feito.

Seguimos para Campinas do Piauí.

Outrora, denominada Campos, ao tempo da instalação da fábrica de laticínios. De mulheres idosas, nas quais ainda remanesce um pouco da antiga e gloriosa beleza, dizem os ironistas e sarcastas, entre os quais não me incluo, que são uma bela ruína. Mas a fábrica de laticínios do engenheiro Sampaio, bastante deteriorada, é mesmo uma bela e imponente ruína, a um passo de se tornar escombros, quase uma imensa tapera, no meio de construções novas e de uma quadra esportiva, que lhe encobre a fachada, ainda majestosa apesar da incúria do poder público.

Segundo afirma e pergunta Fernando Pessoa, “Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?” Loucura no sentido, talvez, de sonho utópico ou de difícil realização. Nessa acepção, pelo que tenho lido e meditado, ao longo de alguns anos, o engenheiro Antônio José de Sampaio foi um sonhador e um louco. Mas foi também um realizador e empreendedor, que não soube, talvez, calcular todas as consequências de sua obra magna. Esse engenheiro, cientista, professor, escritor e poliglota, nasceu na Fazenda Ininga, hoje cidade de José de Freitas, em 9 de abril de 1857. Vejo que nasci no mesmo dia que ele, 99 anos depois. Morreu em 1906.

No meio do nada, como hoje se costuma dizer (embora, segundo muitos acreditam, o nada sequer exista) construiu o seu sonho. Para esse fim, em 26/04/1889 firmou vultoso contrato de arrendamento com o governo imperial. Nesse mesmo ano sobreveio a proclamação da República, que lhe trouxe ônus adicionais, sob alegações diversas, inclusive supostos descumprimentos de cláusulas. Comprou modernos, caros e pesados maquinários, que tiveram de ser levados até o porto de Floriano, pelo rio Parnaíba.

Levar esses pesados equipamentos e peças, no final do século XIX, de Floriano até Campos (hoje Campinas do Piauí) foi um trabalho hercúleo e uma verdadeira epopeia, como bem disseram os escritores Luís Mendes Ribeiro Gonçalves e Reginaldo Miranda, ambos da Academia Piauiense de Letras. Sem dúvida, os entraves burocráticos, as dificuldades financeiras enfrentadas pelo engenheiro Sampaio, e a condução das partes desmontadas da fábrica, em longo trecho de precárias estradas carroçáveis, enfrentando atoleiros de lama e areais, atravessando rios e riachos, dariam um belo filme épico. Para que fossem vencidos esses atoleiros usavam peles bovinas, sobre as quais passavam as ringidoras rodas de madeira. Em alguns trechos teve de abrir estradas, quebrar morros e construir pontes e pontilhões. Dezenas de bois morreram, extenuados, nessa penosa jornada.

O contrato de arrendamento previa vários ônus dispendiosos a serem custeados por Sampaio, entre os quais manter o Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, construir frigorífico, fábrica de gelo, estação meteorológica; introduzir melhores raças de gado vacum, lanígero, cavalar e muar; adquirir maquinaria moderna para fabricação de manteiga, queijo, leite condensado e outros produtos,  sobre os quais não pretendo me estender, porquanto a sua simples enumeração não exaustiva é suficiente para o que pretendo concluir.

Com o arrendamento, o engenheiro Sampaio passou a administrar imensas glebas de terras e um grande rebanho de gado bovino “pé duro”, que pertenceram a Domingos Afonso Sertão e depois aos jesuítas, dos quais foram confiscados e passaram a constituir as Fazendas Nacionais. Trouxe alguns colonos italianos e suas famílias (cerca de quarenta), que por esse simples fato lhe acarretaram grandes despesas, além das salariais que adviriam. Teve que adquirir reses propícias à produção de leite, mas certamente em pequena quantidade. Como se sabe, as vacas nativas ou curraleiras produzem pouco leite, e por isso não são adequadas ao laticínio.

Mas, além de todos esses percalços econômicos, financeiros, de transporte, de pessoal, e burocráticos, que tiveram de ser enfrentados, como dito acima, a meu ver o maior problema foi o da logística. Ora, havia a imensidão de terra e o gado pé duro, adaptado à criação extensiva. Mas para o leiteiro talvez houvesse a necessidade de ração, medicamentos e outros insumos, que teriam de vir de muito longe. Teria que haver consumidores para os produtos da fábrica, que não estavam na região, que então era deserta ou de desprezível densidade demográfica, como ainda hoje o é.

Esses consumidores estavam em locais muito distantes. O porto fluvial mais perto se localizava no Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, que deu origem à cidade de Floriano. Portanto, teria que ser percorrida uma distância de mais de mais de duzentos quilômetros. E os produtos teriam que ser levados em lombos de animais ou em veículos de tração animal, por trilhas rústicas, ou estradas carroçáveis, talvez impossíveis de serem percorridas no período chuvoso. De Floriano teriam que ser levados, por via aquática, até os longínquos centros consumidores. Ademais, o preço dessas mercadorias teria competitividade com as produzidas na região em que se encontrava o público consumidor?

Daí, sem querer tirar o mérito e a glória do engenheiro Sampaio, creio poder afirmar que esse lindo e grande sonho, não levou na devida conta a logística de transporte, distribuição e mercado consumidor, e os custos e despesas a que fiz referência. Por conseguinte, teria mesmo que fracassar, mais cedo ou mais tarde, quando os recursos financeiros se exaurissem e as dívidas se acumulassem. Foi um sonho megalomaníaco que malogrou, e cujo belo e imponente prédio se transformou em um magnífico ocaso, que ainda hoje ilumina a pequena urbe que nasceu em seu derredor. Contudo, parafraseando o poeta já citado, sonhar é preciso, viver não é preciso.

O edifício recebeu o abraço simbólico de todos os expedicionários. Visitamos as suas entranhas, os seus sótãos e porões, os seus alçapões mais recônditos, as suas vísceras mais esconsas, e vimos que está muito mal, como um moribundo em seu leito de morte, como um paciente em estado terminal. Houve vários pronunciamentos. O Carlos Rubem relembrou os velhos tempos em que iniciou a campanha pela sua restauração. O des. Carlos Brandão falou da importância de sua preservação. O senador Elmano Ferrer e a deputada federal Margarete Coelho prometeram envidar esforços em prol de sua restauração. O senador prometeu propor uma emenda, salvo engano, no valor de R$ 500.000,00 para esse objetivo. O prefeito Valdinei Carvalho de Macedo estava presente e também fez uso da palavra, na mesma toada e refrão.

A professora Socorro Alves, campinense, que estudou e lecionou nesse vetusto prédio industrial, falou de sua história e de suas lembranças, já que ele é parte integrante e indissociável da história e da paisagem arquitetônica e sentimental da cidade. Olhando os detalhes esmerados e ornamentais de sua arquitetura, que muito deve ao engenheiro alemão Alfredo Modrack e seus auxiliares, e, sobretudo, vendo a sua fragilizada chaminé, já sem o orgulhoso penacho de fumaça, que ostentou na época de seu fastígio, senti que o apito saudoso de sua caldeira ainda parece ecoar nesse sertão esquecido, a implorar por socorro.

Socorro que tanto tarda, e que talvez não venha, ou venha demasiado tarde, quando já nada mais possa ser feito.     

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Os três canários e o piano

 


Os três canários e o piano

Pádua Marques

Romancista, cronista e contista

Foi de chorar o dia inteiro naquele setembro de 1947 como se estivesse vendo pela segunda vez o corpo do marido Vitorino Gomes de Miranda dentro do caixão e rodeado pelos poucos amigos de serviço na praça comercial de corretores de cera de carnaúba, pelo pessoal da Casa Inglesa e dos Moraes. Mas aquele choro de dona Carmem de Miranda era por causa do piano da família, um Bosendorf alemão muito bonito e a lembrança com que tocou nalgumas vezes com os três meninos seus filhos em ocasiões importantes em Parnaíba.

O piano agora em cima de uma carroça ia direto pra loja de móveis usados do português Manoel Carneiro na rua Conde D’Eu. Dali, quem sabe algum tempo poderia ser comprado por algum novo rico de Parnaíba pra ser peça de decoração de casa ou ser coberto pela poeira e o esquecimento nalgum salão de escola. Em nada iria lembrar os dias de glória de depois de limpo e deixado brilhando seu móvel com óleo de peroba, quando com sua dona tocou pra homens ricos, bispos, políticos, artistas de fora e até no Cine Éden num Dia de Natal.

Dona Carmem Câmara Gomes de Miranda, a velha e empobrecida professora de piano das meninas filhas de industriais e comerciantes ricos de Parnaíba, viúva do cearense e corretor de cera de carnaúba Vitorino Gomes de Miranda, moradora da rua dos Pires Ferreira, no centro, estava inconsolável. Havia algum tempo perdido o marido e os três filhos ganharam o mundo atrás de coisa melhor. André, o mais velho, Pedro o do meio e Paulo, o caçula, o filho querido de Vitorino de Miranda. O pai poliglota, antigo estudante do Liceu do Ceará, falava inglês, francês e italiano antes de vir trabalhar na Casa Inglesa.

Os três filhos de Vitorino e Carmem estudaram na escola da professora Alda Avelino da Cunha, filha do jornalista Alarico da Cunha. Eram os meninos de pouco sair de casa e se misturarem com outros de suas idades. A mãe não gostava deles na rua e juntos com aqueles filhos de gente rica e gente pobre, alguns até devassos e arruaceiros, beberrões. Em casa eles estudavam canto e piano clássico. Quando completou quatorze anos André foi estudar em Fortaleza, terra dos pais e de lá seguiu pra Londres por recomendação dos ingleses de Parnaíba. Era funcionário da embaixada do Brasil.

O segundo filho de seu Vitorino e de dona Carmem de Miranda, o Pedro, foi sempre muito esperto pra ser independente e tão logo foi crescendo o pai arranjou colocação numa empresa de navegação, a Booth Line, e ele acabou ganhando o mundo dentro da marinha mercante.  De vez em quando mandava notícias pra mãe e quando podia agora passava em casa. Era feito um beija flor pra chegar e pra sair.  Paulo foi um menino bom, o caçula da casa. Nada que dizer dele. Mas acabou sendo funcionário da alfândega por um tempo e depois foi embora pra o Rio de Janeiro.

Um dos orgulhos de dona Carmem Câmara Gomes de Miranda, a agora viúva pobre e que até outro dia era professora de piano, foi um dia ter tocado acompanhada pelos meninos cantando pra o bispo do Maranhão, quando se tratava sobre a criação de um bispado pra Parnaíba. Os três meninos ali perfilados e cantando músicas sacras. Os aplausos dos presentes à cerimônia e aquele nervoso tomando conta dela. Mas agora vendo a carroça se distanciar no rumo da Quarenta dona Carmem assuou o nariz com o pano e a lembrança voltou tratando de procurar a placa com o anúncio da sua agora extinta atividade.

Resolveu fechar a escola de piano porque só havia em três as meninas como alunas. Adiantava ficar se matando, batendo cabeça com aquilo? Ninguém mais tinha dinheiro sobrando na Parnaíba! O que não foi a sua e a vida de sua família?! Vitorino morreu há anos e os meninos, cada um tomou seu rumo. Precisava daquele dinheiro do piano. Ainda havia muita coisa que precisava se desfazer dentro daquela casa, um móvel aqui e outro ali. Depois viria a louça, a prataria. A casa ficou grande pra ela sozinha e já sem saúde. Iria ver doutor Cândido pra semana.  

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

PREFEITO PROFESSOR RAIMUNDINHO ANDRADE

Raimundo Nonato Andrade. Foto extraída do livro Painel Fotográfico dos Ex-Prefeitos de Campo Maior, autoria do historiador e advogado Moacir Ximenes.


Placa no Colégio Estadual de Campo Maior, que por lei estadual, foi denominado de Professor Raimundinho Andrade.


PREFEITO PROFESSOR RAIMUNDINHO ANDRADE

Celson Chaves

Professor, escritor e historiador

Raimundo Nonato Andrade, carinhosamente chamado de professor Raimundinho Andrade, assume a prefeitura de Campo Maior em 1967. Um ano antes da implantação do famoso ato institucional (AI) nº 05 que retirou garantias individuais dos brasileiros, consequentemente asfixiando a liberdade civil. O Brasil entrava na fase mais autoritária da ditadura militar. Eram os anos de chumbo. Campo Maior já vivia o clima de perseguição política, com prisões, interrogatórios e cassação de direitos de  sindicalistas e pessoas ligadas a movimentos sociais desde 1964.

 

Com o peso da repressão política, a campanha eleitoral do qual o professor Raimundinho Andrade disputou foi tranquila do ponto vista político. No Brasil havia apenas dois partidos: a ARENA, aliada aos militares; e o MDB, fazendo uma oposição consentida. Apesar da institucionalização do bipartidarismo no país (AI nº2), em Campo Maior, existia apenas a ARENA, dividida em duas alas. O MDB era uma sigla morta. O partido não conseguiu eleger nenhum vereador e prefeito no município durante a vigência do regime militar (1964-1985).

 

A disputa eleitoral nesse período ocorria entre candidatos de único partido.  Além da sua vitória eleitoral a prefeito no pleito de 1966, professor Raimundinho Andrade conseguiu eleger o irmão Antônio Wilson Andrade a vereador. Wilson foi líder do governo na Câmara. A família Andrade ressurgia forte no cenário político campo-maiorense. A última vez que o clã teve um papel importante nas decisões locais foi com Elesbão Rodrigues Andrade, no início do século XX, quando este ocupou o cargo por duas vezes de vice-prefeito (1901-1904; 1905-1908). Professor Raimundinho Andrade tentou retornar a vida pública, ao concorrer mais uma vez ao cargo de prefeito, no pleito de 1992 pelo PTB e perdeu. Na eleição de 2020, Antônio Wilson Andrade, “o neto”, tenta recolar o nome da família no cenário, ao disputar uma vaga na Câmara.

 

Raimundo Nonato Andrade (1922-1999) foi o segundo professor eleito a prefeito. Nascido em Campo Maior, governou o município de 01/02/1967 a 31/01/1971. Quando assumiu a prefeitura, já possuía experiência exitosa no serviço público, ao participar da gestão do professor Raimundo Santana como tesoureiro da prefeitura (1951-1955). Ele acompanhou de perto as transformações administrativas realizadas por Raimundo Santana, principalmente na área da educação. Com o prefeito Santana, Raimundo Andrade ganhou experiência e visão de gestão.

 

Professor Raimundinho Andrade, de família tradicional, iniciou seus estudos primários no Colégio Valdivino Tito; o ensino secundário e ginasial no antigo Instituto, depois Ginásio Santo Antônio. Formou-se em Matemática. Foi um aluno disciplinado e estudioso, despertara cedo o interesse pelo magistério. Segundo Marcos Vasconcelos, seu colega de Ginásio Santo Antônio, Raimundo Andrade era ao mesmo tempo “aluno e professor”. Foi um homem marcante. Nunca fugiu de um desafio.

No envolvimento com os problemas e os dramas da sociedade campo-maiorense foi construindo sua personalidade de homem de ação e visão. Descobriu o talento para liderar e dialogar. Ajudou na criação de diversas instituições na cidade.  Vale destacar sua contribuição como sócio e fundador nas seguintes entidades: Campo Maior Clube, Comercial Atlético Clube (1945), Escola Normal Santa Teresa de Jesus (1953), Lions Clube (1960) e Iate Clube Laguna (1967). Lecionou por um bom período no Ginásio Santo Antônio, momento em que foi diretor -1966-1967, e na Escola Normal Santa Teresa de Jesus. Foi membro do Conselho Estadual de Educação. Subsecretário de Educação do Estado do Piauí no governo de Bona Medeiros (1985) e Secretário Municipal de Educação. É patrono da cadeira nº 16 da Academia Campo-Maiorense de Artes e Letras (ACALE), ocupado atualmente pelo professor Gilvã de Carvalho Leite.

 

Na educação, Raimundo Andrade seguiu os passos de Raimundo Santana, ao continuar sua política educacional vanguardista. Para ajudar nessa tarefa, ele chamou para o cargo de Diretor de Instrução, atual cargo de Secretário Municipal de Educação, a intelectual, artista, educadora e historiadora Maria de Jesus Saraiva Monteiro ou simplesmente Marion Saraiva (1967-1969). Com a morte da escritora Marion Saraiva em 1968, ocupa o cargo José Felipe de Oliveira (1969-1971). Marion foi secretária de educação em vários governos. Poucos campo-maiorenses conheciam a educação municipal como ela.

A meta do professor Raimundinho Andrade era continuar o desafio em resolver o velho problema do apadrinhamento político que emperrava o bom andamento do ensino municipal. Ele inspirava-se no mestre Raimundo Santana. Viabilizou vários projetos educacionais. Viajou a diversos capitais brasileiras, participando de congressos e eventos ligado a educação, observando experiências exitosas no ensino, a fim de implantá-las em Campo Maior. 

Raimundo Andrade era dinâmico. Buscava sempre inovar. Como professor fez diversos cursos no campo do ensino e da gestão escolar. Construiu e reformou escolas na zona urbana e rural, implantou programas educacionais. Para reduzir o alto índice de analfabetos entre a população jovem e adulta, instalou o programa Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), atual EJA. 

Em 1970, ele transforma o Ginásio Orientado para o Trabalho Cândido Borges Castelo Branco (GOT) em uma unidade Educacional Autônoma da prefeitura. Elevou os proventos da aposentadoria da mestra Josefa Lima de Cr$12,00 para Cr$60,00 mensais. O salário do magistério era baixo. A educadora Josefa Lima era uma privilegiada. Apesar da lei, do plano de cargos e salários dos servidores, o merecimento continuava passando pela vontade pessoal do gestor. Josefa Lima era bastante conceituada pela sociedade e pela classe política, devido aos seus valorosos trabalhos em prol da juventude campo-maiorense. O aumento na aposentadoria da professora, segundo os gestores municipais, era uma recompensa por ter realizado parte dos seus afazeres de forma voluntária.

 

Doou ao governo do Estado um terreno para a construção do Colégio Estadual Professor Raimundinho Andrade (1968). Adquiriu para a prefeitura a escola profissionalizante de datilografia de propriedade da senhora Edmé Rocha Carvalho. Tornou o 13º salário dos servidores municipais em provento permanente. Concedeu gratificação especial para as professoras leigas da zona rural que fizesse curso pedagógico promovido pela secretaria de educação do município ou do estado. Aumentou o minguado salário do magistério. Mesmo assim, a classe não é valorizada. O número de professores aumentou significativamente em concomitância aos cursos de aperfeiçoamentos pedagógicos. Concedeu auxílio à Escola de Alfabetização “Hilson Bona” (1967). Professor Raimundo Andrade deu início ao antigo projeto do professor Raimundo Santana de construir sede própria para as escolas da zona rural.

 

Como forma de atender a crescente demanda por vaga nas escolas, professor Raimundo Andrade resolver implantar o programa chamado “revezamento” visando inserir mais crianças nas escolas. Era muito aluno para pouca escola. O objetivo do programa era manter os colégios abertos o ano todo. Para isso, fez-se o “revezamento” de turmas entre períodos de quatro meses de estudos. No sistema de “revezamento” de turmas, umas funcionavam, enquanto outras permaneciam de férias, esperando sua vez. A ideia do sistema dos ciclos de estudos (quatro meses) era aproveitar o período de férias (dois meses) para inserir mais turmas e assim atender mais crianças. 

A antiga Escola Normal Rural, depois quartel do Batalhão de Engenharia e Construção (BEC) e atualmente Campus Heróis do Jenipapo da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) foi por décadas (1960 e 1970) o principal local em que ministravam os cursos de aperfeiçoamento pedagógico para os professores do Estado e do Município.

Assim como a maioria dos prefeitos da época, professor Raimundinho Andrade deu assistências financeiras as principais escolas particulares. Contudo, nem todos os vereadores eram favoráveis da prefeitura subsidiar escolas particulares, principalmente o Ginásio Santo Antônio, que segundo alguns parlamentares obtinham bons rendimentos com os recursos advindos de bolsas de estudos e mensalidades. Para o vereador Antonio Wilson Andrade, irmão do prefeito e da base do governo era justo o subsídio. Segundo ele, o Ginásio passava por uma crise financeira. Wilson Andrade era mais a favor do prefeito ajudar em algo fundamental como a educação que os clubes de futebol. Para receber a ajuda do governo, as escolas particulares cumpriam uma série de requisitos. Uma delas era o desconto de 50% nas mensalidades dos funcionários da prefeitura que estudavam no Ginásio.

 

Ele reestruturou o ensino, ao implantar um novo calendário escolar, um horário de trabalho dos professores com jornada três horas divido em turnos diários. Objetivo de Raimundo Andrade era absorver o maior número de alunos por turnos. Reduziu sensivelmente o número de crianças fora da escola. O número de colégio também aumentou. Em seu governo, houve melhoria significativa no ensino e principalmente na gestão escolar, por conta dos inúmeros cursos de aperfeiçoamento pedagógico ofertados ao professorado municipal. Manteve em dia o salário do magistério.

Inspirado na política educacional do mestre Raimundo Santana, professor Raimundinho Andrade conseguiu transformar a educação. Sua gestão no campo da educação se identifica tanto com a de Santana que também preferiu ser conhecido mais como educador que político. 

Outro traço significativo entre as gestões dos Raimundos foi à dificuldade em se livrar ou controlar a política clientelista que loteava o governo em “feudos” para os coronéis trocarem voto e apoio político por empregos na Administração Pública. Nesse sentido, Raimundo Andrade foi menos resiliente que Raimundo Santana. 

Além da educação, a urbanização foi outra política-administrativa de destaque no governo de Raimundo Andrade. Uma das melhores entre os anos de 1930 e 1970. Com esmero e planejamento, Raimundo Andrade idealizou e executou um plano de urbanização invejável. Ele construiu mais de 181,000 m² de calçamento e 1.200 m² de esgoto. Implantou um sistema de coleta de lixo e limpeza das vias públicas. Assinou convênio com a Fundação Serviço de Saúde Pública (FSESP) para proceder à ampliação e manutenção do serviço de água e esgoto da cidade. A gestão bateu recorde em residências contempladas com fornecimento de água. Foram 1385 novas ligações. A paisagem do centro da cidade mudou, embelezou-se.

 

Raimundo Andrade fiscalizava as obras de perto. As praças limpas e arborizadas eram um atrativo. Ele construiu e reformou os seguintes logradouros: Praça Bona Primo, Luiz Miranda e José Miranda; as Avenidas do centro Demerval Lobão e José Paulino; e a antiga avenida Marechal Castelo Branco, atual Santo Antônio, a praça Cícero Correia Lima e a construção do contorno do Açude Grande, com a instalação da “churrascaria “beira do açude” (antiga Radar).  As intervenções urbanas foram necessárias para melhorar o trânsito e a estética urbana.

 

Foram muitas as realizações no melhoramento urbano. Ele arborizou grande parte das ruas do centro, com a distribuição gratuita de mudas frutíferas. Construiu o edifício da Câmara Municipal de Campo Maior, localizado na praça José Olímpio da Paz. Construção do conjunto comercial da Demerval Lobão. No setor da urbanização, Raimundo Andrade foi o mais dinâmico e inovador entre os prefeitos das décadas de 1930 e 1970. Auxiliou o futebol. Na sua gestão, O Comercial Atlético Clube foi vice-campeão do campeonato piauiense de 1969.

 

A zona rural foi contemplada com a construção de diversas estradas carroçáveis. As principais ligavam à sede as comunidades mais populosas do município: Jatobá, Sigefredo Pacheco, Nazaré, Boqueirão, Lagoinha… Essas localidades também foram contempladas com eletrificação, reforma ou construção de posto de saúde, escolas e implantação de televisores nas praças. Auxiliou o trabalhador rural com a distribuição de sementes, perfuração de poços tubulares e cacimbão.

 

Construiu barragens e açudes (tipo aterro). Fortaleceu a tradicional atividade econômica do município ao promover exposições agropecuárias. Todas essas melhorais nos povoados, garantiram aos mesmos, na década de 1990, os requisitos necessários paro o processo de emancipação político-administrativo que os tornariam em novos municípios.

 

A riqueza de Campo Maior provinha do campo, com a pecuária e o extrativismo vegetal da cera de carnaúba. Os lucros obtidos com a venda do gado e da cera, parte foram reinvestidos no comércio. O poder aquisitivo da população cresceu. No governo de Raimundo Andrade foram instaladas sedes regionais de departamentos de órgãos federais e estaduais como BEP (Banco do Estado do Piauí) TELEPISA (Telecomunicações do Piauí S/A), CEPISA (Companhia Energética do Piauí), INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Campo Maior desponta-se num polo de serviços e negócios do centro-norte do Estado do Piauí. Oportunizou empregos em estabelecimentos de filiais de grandes redes de lojas do estado e do país.

 

Raimundo Andrade foi um político sagaz.  Ele usou de prestígio político e do cargo de prefeito para proteger os aliados e correligionários de críticas e acusações desferidas no plenário da Câmara. A gestão de Raimundo Andrade foi marcada por alguns escândalos e crise política protagonizada por pessoas do primeiro escalão do governo. Os casos foram “arquivados” pelo prefeito. Ele não aceitava intromissões em seu governo nos assuntos exclusivo do executivo. Os ânimos acirram-se entre os vereadores de oposição e o professor Raimundinho Andrade. O conflito estava relacionado a assuntos ligado ao secretariado. O prefeito saiu em defesa do secretário de educação, José Felipe de Oliveira, acusado de obstruir direitos e maltratar professores.

 

Fruto de um contexto político, professor Raimundinho Andrade se afastou dos princípios da gestão de Raimundo Santana. Escolheu atrelar-se a lógica política do coronelismo. Em sua gestão, manteve-se o apadrinhamento político e privilégios. Nesse sentido afrouxou a rédea fiscal, ao agraciar com cancelamento de impostos, de qualquer natureza, alguns comerciantes em detrimentos de outros.   Houve privilégio na concessão de perdão de juros, multas ou pagamentos de tributos. Existiu questionamentos por parte de vereadores quanto ao benefício fiscal dado ao comerciante Antonio Bona Neto.

 

Joaquim Mamede Lima, vereador líder da oposição, exigiu do prefeito Raimundo Andrade explicações quanto à diferença na base de “cobrança de imposto” relacionado aos bares dos senhores Antônio Crisóstomo de Sousa e Luiz da Costa Araújo com o do senhor Antonio Bona Neto.

 

Talvez por pressão político ou o medo de se indispor com a família Bona, um dos clãs políticos mais influentes na cidade, o vereador Mamede Lima recuou em sua acusação de benefício fiscal ao senhor Antônio Bona Neto. Quem sabe Mamede temesse ser mal interpretado por sua conduta política. Receoso, o mesmo recuou. Devido ao último episódio, em que o vereador Francisco Pedro Barros levantou a discussão no plenário da Câmara em defesa da troca do nome da praça Bona Primo por praça Santo Antônio. Francisco Barros acabou se indispondo politicamente com a família Bona, que se mobilizou e derrubou o projeto de lei do referido vereador.

 

O governo de Raimundo Andrade foi atingido por uma forte disputa política na Câmara Municipal.  A legislatura de 1967 a 1971 foi conturbada e instável. O vereador Joaquim Mamede Lima manteve acirrada oposição à gestão Raimundo Andrade. O parlamentar cobrava mais avanços nas questões sociais. A política de assistência social era muita tímida.

 

Surgem os boletins sediciosos atacando o prefeito e seu irmão, o vereador Antônio Wilson Andrade. Foi uma legislatura difícil. Vereador renunciou mandato, suplente foi impedido de assumir o cargo parlamentar por conta de declarações contra a ditadura militar.

 

Envolvido no espírito patriótico propagado pelo regime militar, Raimundo Andrade decidiu abrir e participar de um concurso público (1968) para escolha da primeira bandeira de Campo Maior. O município não possuía nenhum símbolo cívico. A comissão do concurso foi composta por Marion Saraiva e Ducilia Ibiapina.

 

Foram apresentados três desenhos, o escolhido foi o do prefeito Raimundo Andrade. Depois dessa iniciativa cultural do professor Raimundinho Andrade, Cesar Ribeiro Melo, por meio da lei nº 04 de agosto de 1983, instituiu o Hino Municipal. Na gestão de Marco Aurélio Bona foi sancionada a Lei nº 02 de fevereiro de 1993, que instituiu uma nova bandeira com um brasão.

 

O governo de Raimundo Andrade é digno de apreço. São muitos os pontos positivos, principalmente na educação e na urbanização. Contudo, há que fazer algumas ressalvas. Ele, infelizmente, como muitos prefeitos da segunda metade do século XX, não enfrentou a mentalidade retrógada de agentes públicos e políticos que colocavam os interesses pessoais acima do desenvolvimento municipal. Manteve a gestão atrelada ao mandonismo e o clientelismo político.

 

Professor Raimundinho Andrade foi um político nato. Bem relacionado, conseguiu trazer vários obras e projetos para Campo Maior, quando administrou a prefeitura. Era um homem ponderado. O amor pela cidade em que nasceu, o zelo pela causa pública, assim como pelo ensino, fez o historiador Reginaldo Lima resumir a gestão do professor Raimundinho Andrade com as seguintes palavras: “foi muito comedido na utilização de verba pública e econômico nos gastos da municipalidade. Foi muito improvisador e ao mesmo tempo muito genioso. Inegavelmente, um bom e probo prefeito”. Certamente ele está entre os gestores que contribuíram de modo significativo para o engrandecimento de Campo Maior no século XX.

 

FONTE CONSULTADA

 

CHAVES, Celson. História Política de Campo Maior. Campo Maior-PI, edição do autor: 2013.

 

CHAVES, Celson. História da Educação Campo-Maiorense: políticas educacionais da Prefeitura de Campo Maior (1945-1975). Campo Maior, edição do autor. 2012.

 

LIMA, Reginaldo Gonçalves. Geração Campo Maior: anotações para uma enciclopédia. Campo Maior-PI, edição do autor, 1995.

 

Revista Nossa Gente. Professor Raimundinho Andrade: uma homenagem seria o mínimo (parte I). Campo Maior. Fev/Maio de 2010. Ano I – Nº03.

 

Revista Nossa Gente. Professor Raimundinho Andrade: uma homenagem seria o mínimo (parte II). Campo Maior. Junho de 2010. Ano I – Nº04.

 

Jornal Folha do Norte. A sucessão começa agora: definidos os candidatos a prefeito de Campo Maior. Campo Maior. Edição de 24de junho a 1º de julho de 1992.

 

Jornal Primeira Página. Raimundinho Andrade Fala de Política. Campo Maior. Edição de 28 de março a 4 de abril de 1992.  

terça-feira, 17 de novembro de 2020

A fundação de Campo Maior

Fonte: Diocese de Campo Maior

 

A fundação de Campo Maior


Reginaldo Miranda


Tem causado certa celeuma a fixação da data de fundação da aprazível cidade de Campo Maior, plantada em meio aos vastos carnaubais e campinas verdejantes do centro-norte do Estado do Piauí.

 

Foi o padre Cláudio Melo, filho ilustre daquela terra, o primeiro historiador que percebeu ser a fazenda Bitorocara, do mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, o núcleo inicial daquela comunidade. No entanto, apesar do tirocínio e das provas levantadas por aquele notável historiador, sempre houve contestações porque, de fato, existia um hiato, um ponto obscuro entre Bitorocara e Campo Maior. Mais recentemente, outro campomaiorense ilustre, o magistrado e acadêmico Elmar Carvalho vinha fazendo eco, como discípulo, às descobertas do padre Cláudio Melo. Em linha oposta surgiram alguns novos historiadores contestando essa tese e, consequentemente, a primazia de Bernardo de Carvalho e Aguiar na fundação de Campo Maior.

 

No entanto, o melhor achado foi feito nos últimos dias pelo incansável pesquisador Valdemir Miranda de Castro, de Esperantina, que localizou num livro de registro de mercês, arquivado na Torre do Tombo, a descrição da sesmaria concedida em 1718, a Bernardo de Carvalho e Aguiar, que dirime qualquer dúvida sobre o assunto. Sabedor de que estamos reconstituindo a vida de Bernardo de Carvalho e Aguiar, com base em fonte primária, para uma coletânea em homenagem ao centenário de nossa Academia, enviou-nos a referência do documento, o que também foi feito pelo confrade Elmar Carvalho, pedindo que o apreciássemos.

 

Nessa altura já vínhamos analisando, entre outros documentos, uma certidão de serviços prestados por aquele militar. Chegou agora ao nosso conhecimento uma segunda certidão ainda mais detalhada, com informações geográficas sobre os sertões das Cajazeiras e o dos Alongazes. Então, interpretando esses documentos em conjunto nos achamos habilitados para entrar nesse debate e indicar uma data para a fundação da fazenda que deu origem à pacata e hospitaleira cidade de Campo Maior. Bitorocara, o nome indígena solto na história (do tupi ibi: terra + toro: jorro de água, nascente + cará: ervas trepadeiras da família dioscoreaceae; significando lugar de nascente, terreno embrejado), é a primitiva fazenda depois rebatizada Santo Antônio. Esse fato está agora tão claro quanto a luz do sol ao pino do meio dia. Dela tinha o mestre-de-campo a posse desde que a desbravou, porém, só requereu e conseguiu a sesmaria em 1718, talvez depois de livrar-se de pretensões da Casa da Torre, então em franco declínio, que se achava dona de quase tudo no Piauí. Foi no governo de Christóvão da Costa Freire, governador e capitão general do Estado do Maranhão(1707 – 1718), que lhe foi dada a sesmaria “no sertão dos Alongazes por evocação de Santo Antônio, em um riacho cujas vertentes desaguavam no rio Jenipapo, em o qual tinha todas as fábricas de criados, escravos, cavalos e o mais necessário, e nele necessitava de três léguas de terra de comprido com uma de largo em todo o comprimento, para criação dos ditos gados e suas multiplicações, começando o dito comprimento da casa para Leste duas léguas e da mesma casa para Oeste uma légua, fazendo a largura de Norte a Sul ficando o dito riacho em meio da largura, reservando ele as voltas e pontas e da terra toda a inútil de criar gados, pelo haver povoado estando deserta” (PT/TT/RGM/C/0008. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, fl. 509v).

 

Então, seria impossível uma localização mais precisa, ficando a mesma no sertão do Longá, em um riacho que entra no Jenipapo (o mesmo da Batalha da Independência). E fora erguida sob a invocação de Santo Antônio, em cuja sede foi pelo proprietário iniciada a construção da capela, à sua custa, em 1711, para servir de matriz à freguesia de Santo Antônio dos Alongazes ou Santo Antônio do Surubim, a segunda mais antiga do Piauí, que fora criada naquele ano, pelo padre Tomé de Carvalho e Silva, sob ordens do Bispado de Pernambuco. Essa antiga construção somente foi concluída em 1828, conforme alguns registros.

 

Dirimida a dúvida sobre a localização resta discutirmos a data de fundação da fazenda. Segundo o referido documento de concessão da sesmaria era “Bernardo de Carvalho e Aguiar, um dos primeiros conquistadores e povoadores da Capitania do Piauhy, aonde era morador havia mais de 26 anos” (PT/TT/RGM/C/0008. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, fl. 509v). Essa data reporta ao ano de 1692 ou antes, em que ele fixara residência no Piauí, não necessariamente nos Alongazes.

 

No entanto, segundo uma certidão expedida em 20 de janeiro de 1719, que dá conta dos serviços prestados por Bernardo de Carvalho e Aguiar, no ano de 1690, estava ele combatendo os índios Paracatis, no sertão de Parnaguá, sob o comando do capitão-mor José Garcia Paz, onde demorou mais de seis meses, inclusive permaneceu governando os índios prisioneiros no arraial militar; em 1691, nenhum ato relevante praticou, pois nada consta na certidão, sendo provável que tenha continuado administrando os índios do arraial e suas fazendas naqueles sertões, que ainda não pertenciam ao Piauí e sim a Pernambuco; no entanto, “no ano de 1692, fez à sua custa uma entrada com muita gente de cavalo e de pé, ao sertão das Cajazeiras, onde descobriu umas terras novas no Riacho da Cabeça do Tapuio, Sambito e Puty, em que pôs gados seus e fez casas fortes com homens, armas e munições para a sua defensa em que gastou muito de sua fazenda (PT/TT/RGM/C/0008. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, fl. 520/520v).”.

 

Portanto, foi no ano de 1692 que Bernardo de Carvalho e Aguiar fixou residência no Piauí, fundando a fazenda Cabeça do Tapuia, que deu origem à atual cidade de São Miguel do Tapuia. Nessa fazenda residiu por três anos, quando muda para a terra dos Alongazes.

 

Foi no verão de 1695, que fez ele nova entrada “e descobriu outras terras novas que chamam os Alongazes, junto da Serra da Guapava, levando também muita gente armada à sua custa, povoando-as de gados e negros escravos seus, fazendo casas fortes para a defensa dos novos moradores, dando-lhes todo o sustento, armas e munições e o mais necessário para as habitarem e defenderem, resultando desta sua diligência grande utilidade para os Estado da Bahia e Pernambuco pela grande abundância de gados com que logo se povoaram aquelas terras, seguindo o seu exemplo outros muitos moradores que logo situaram naqueles sertões mais de 40 fazendas, que sem dúvida aumentaram muito os dízimos reais” (PT/TT/RGM/C/0008. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, fl. 520/520v).

 

Então, conforme esse importante documento ele descobriu terras novas no lugar dos Alongazes no ano de 1695, depois de três anos residindo no Piauí (Fazenda Cabeça do Tapuio). Antes, nós havíamos analisado uma certidão que nada dizia sobre a localização geográfica de Cajazeiras e Ibiapaba, também não fazendo referência ao lugar dos Alongazes. No entanto, o último documento bem esclarece essa situação, dando razão ao padre Cláudio Melo, de que o conquistador viera pela fronteira cearense. No referido documento, também havia dúvida sobre o algarismo 5 que parecia 3, agora tudo se esclarecendo(1695).

 

Por outro lado, as campanhas militares sempre iniciavam no final do inverno, entre os últimos dias do mês de abril e o princípio do mês de maio, sendo nesse tempo que Bernardo de Carvalho iniciou sua jornada à Terra dos Alongazes, onde chegou em meados do mês de maio. Descobriu novas terras, como diz a certidão de seus feitos, e como qualquer pessoa sensata foi buscar o melhor local para abrir a clareira das primeiras rancharias e chantar a caiçara do curral, concluindo isso no final da primeira quinzena de junho. Podemos perfeitamente presumir que ele deu por fundada a fazenda no Dia de Santo Antônio, popular santo português, também homenageando o nome de seu pai, Antônio Silvestre de Aguiar.

 

Portanto, com base na documentação até agora estudada, ousamos afirmar que a fazenda Santo Antônio, antiga Bitorocara, que deu origem à cidade de Campo Maior, foi fundada pelo mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, em 13 de junho de 1695.  Passou a freguesia em 1711 e vila por carta régia de 19 de junho de 1761, sendo oficialmente instalada no ano seguinte. A localização geográfica e o ano da fundação estão baseados em documentos irrefutáveis, sendo o dia e o mês uma boa presunção que a ninguém ofende, mas vem prestigiar uma velha tradição portuguesa.

 

** Nova versão, com revisão do autor.

 

* REGINALDO MIRANDA, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Versão impressa de Aspectos da Literatura Parnaibana

 


Já se encontra à venda na https://www.amazon.com a versão impressa (livro físico ou capa comum) de Aspectos da Literatura Parnaibana, de Elmar Carvalho, que, como o nome indica, é uma coletânea de estudos sobre autores, fatos e obras da literatura produzida em Parnaíba.

Continua disponível, claro, a versão virtual ou e-book.

domingo, 15 de novembro de 2020

Jardim dos Poetas e Aspectos da Literatura Parnaibana

Fonte: site da Amazon
Capa produzida por Claucio Ciarlini



DIÁRIO 

[Jardim dos Poetas e Aspectos da Literatura Parnaibana]

Elmar Carvalho

15/11/2020

Faço parte de quatro grupos de risco, com relação à covid-19, mas daqui a alguns minutos sairei para votar. Mas não é disto que desejo falar. O que desejo dizer é que na sexta-feira, em conversa telefônica com Valdeci Cavalcante, no ensejo de lhe comunicar a publicação virtual de meu livro Aspectos da Literatura Parnaibana, que já se encontra disponível na Amazon, lhe sugeri a construção do novo Jardim dos Poetas, no entorno do Castelo de Eventos, na Praça Mandu Ladino, em Parnaíba. Sobre essas coisas, seguem detalhes abaixo, na Apresentação de meu e-book, que torno parte integrante deste Diário:

Apresentação

Estava eu posto em sossego, após ter realizado a edição virtual de Diário Incontínuo, disponível na Amazon, quando fui interpelado, por WhatsApp, pelo escritor e poeta Claucio Ciarlini, da seguinte forma: “Um amigo, o escritor Carvalho Filho, estava a me perguntar ainda hoje se tenho conhecimento de uma possível futura reedição de Aspectos da literatura parnaibana. Há tempos ele o procura.”

Eis minha resposta: “Não pensei nisso. Não está nos meus planos. Mas talvez eu comece a pensar numa edição virtual aumentada. Quando eu me livrar de uns sufocos, vou pensar numa edição virtual, revista e aumentada, com o acréscimo de uns artigos e discursos novos sobre a literatura parnaibana. Vou pensar nisso.”

Contudo, um pouco depois, eu já lhe noticiava ter tomado a decisão de fazer uma publicação virtual (e-book) de Aspectos da literatura parnaibana, em edição revista e substancialmente aumentada. Pedi-lhe o favor de bolar a capa, com base em duas fotografias (que lhe enviei) de uma marinha que orna a sala de minha casa, da autoria do pintor F. Chagas (2008) e de uma estatueta de um poeta, que pela magreza mais parece Dom Quixote, a empunhar, em vez de uma lança ou espada, uma pena de escrever, da autoria do grande escultor Braga Tepi.

Faço aqui um parêntese para dar aos poetas e leitores uma boa nova. Tendo em vista que o pequeno ensaio Aspectos da literatura parnaibana foi por mim escrito especialmente para a inauguração do Jardim dos Poetas, idealizado pelo escritor e teatrólogo Benjamim Santos e construído na gestão do prefeito Paulo Eudes, em que fui um dos oradores, resolvi mandar, por WhatsApp, uma mensagem de áudio ao dinâmico presidente da Fecomércio/PI, Dr. Valdeci Cavalcante, lhe informando sobre a vertente edição, e lhe explanando sobre o Jardim dos Poetas, que me ensejou elaborar o referido texto; em seguida lhe disse que o aludido logradouro fora abandonado há muitos anos, pelo que entrara em estado de ruínas, com as placas dos poemas retiradas de seu suporte.

Sugeri-lhe a construção de um novo Jardim dos Poetas ou Praça dos Poetas, em terreno perto do Castelo de Eventos, na Praça Mandu Ladino, ou em outro imóvel de sua conveniência. O grande mecenas da cultura e das artes em geral, imediatamente me respondeu que o construiria nas proximidades do Castelo, local nobre e muito frequentado pela sociedade parnaibana.

Acredito que o novo Jardim dos Poetas será erigido, por uma única e simples razão: Valdeci Cavalcante tem por hábito cumprir as suas promessas. Agora mesmo, ele terminou a construção do Centro de Cultura, em Teresina, com teatro, cineteatro e diversos outros espaços culturais, um dos quais, para honra minha, terá o meu nome, a ser inaugurado oportunamente. Se monarquia não estivesse fora de moda, o magnífico edifício bem poderia ser designado como Paço ou Palácio da Cultura.

Sobre o novo Jardim dos Poetas, que mais poderia dizer, exceto que os poetas ficarão eternamente gratos a Valdeci, bem como os parnaibanos, que terão mais um local e monumento dedicado ao culto das artes e da poesia, pois certamente nesse espaço haverá o casamento perfeito de uma obra arquitetônica com a poesia, sobretudo a que louva as louçanias de Parnaíba.

Fechado o parêntese, volto ao curso natural desta apresentação. Como disse, esta é uma edição revista e demasiadamente aumentada, com vários textos, que produzi após o lançamento do opúsculo na solenidades de inauguração do Jardim, ocorrida em 30 de abril de 2003.

Vários outros textos que escrevi, antes de possuir computador, aqui não foram enfeixados, tanto porque não os encontrei, como porque não teria disposição e nem tempo de digitá-los, neste tempo de pandemia, em que, às vezes, nos quedamos sem ânimo. Entre essas matérias sobre literatura e autores parnaibanos, há uma sobre o poeta, memorialista e romancista Renato Castelo Branco, com quem me correspondi por cartas, através da velha ECT (Correios), e outra sobre o romancista e contista Fontes Ibiapina, que conheci pessoalmente, proprietário de imensa biblioteca, onde estive uma vez.

Como se pode ver, numa simples verificação do sumário, neste livro coligi matérias diversas. Muitas são crônicas, discursos ou pequenos ensaios, em que comento livros, autores e fatos de nossa vida literária. Portanto, há algo de crítica e de historiografia literária, embora não me considere um historiador e muito menos um crítico literário.

Talvez alguém ache fora de propósito eu haver inserido a crônica Professor Amstein. Fiz sua inclusão porque Amstein foi um homem bom e um bom professor, um contador de “causos” anedóticos, em que muitas vezes ele era o protagonista; porque nela eu falo em muitos intelectuais, professores e escritores de Parnaíba. E porque ele era uma espécie de escritor ou literato oral, se é que não estou proferindo alguma heresia gramatical. KKKKK.

Achei por bem incluir, na parte denominada ANEXOS, textos dos professores, poetas e escritores  Alcenor Candeira Filho e Claucio Ciarlini, que complementam os textos de minha autoria, agrupados sob o mesmo título do livro – ASPECTOS DA LITERATURA PARNAIBANA. Os textos de ANEXOS estudam os poetas e escritores, que surgiram depois de minha geração, a chamada geração 70 ou Geração Mimeógrafo.

É esta obra apenas parte de minha modesta contribuição à Literatura de Parnaíba.

Contudo, a História da Literatura Parnaibana, de forma exaustiva, sistêmica e aprofundada, com comentários críticos e contextualização histórica, ainda está por ser escrita, esperando por um dinâmico e ousado “sangue novo”, que nos preste esse extraordinário serviço, que talvez só possa ser levado a cabo por uma equipe proativa e bem coordenada, talvez com necessidade de incentivo e verba de nossa Universidade Federal do Delta do Parnaíba, cujo embrião foi o Campus Universitário Ministro Reis Velloso, em que cursei Administração de Empresas, e cujo Diretório Acadêmico 3 de Março presidi.   

Como disse, esta é apenas minha contribuição ao estudo de Literatura Parnaibana. Outros poderão fazer muito mais e melhor.

sábado, 14 de novembro de 2020

A despedida

Fonte: Meio Norte/Google


A despedida

Everardo Oliveira

Bartolomeu, a morte sempre nos prega surpresas. Eu estava planejando logo após a pandemia pegar um autógrafo do livro dele. Diz o conhecimento popular espiritualista que quando estamos próximo ao retorno à Pátria Espiritual, o nosso subconsciente acusa e começamos o processo de despedida. Pelo depoimento de hoje dos colegas da Teresina FM, o Chico Leal teve as bênçãos de fazer isso no penúltimo parágrafo do seu último texto Finados, do dia 30/10/2020:

"Mas, como diz o poeta, a mais bonita lágrima é a lágrima da saudade, pois ela nasce de risos que já se foram e de sonhos que não se acabam.

Que os nossos mortos descansem em paz", a prova disso é que no dia 03/11/2020, por volta das 04:00 horas, ele já doente e em casa, uma colega pediu para ele gravar um aúdio e ele não quis gravar e enviou apenas uma foto de uma flor, ou seja, a missão dele tinha terminado. Que Deus em sua infinita bondade e misericórdia o receba e console os amigos e familiares.