terça-feira, 22 de julho de 2014

AMARANTE - Futebol dos vovôs


Jogo de confraternização
FIM DE VIDA x PÉ NA COVA
Segundo ano de competição
Futebol Society

IDEALIZADOR: Orlando Soares Ribeiro (Orlando Curtidor), amarantino nato, funcionário público estadual (PI); participou ativamente do futebol de Amarante desde sua infância. Trata-se de um saudosista que buscou com essa idéia reunir amigos atletas contemporâneos.

ORGANIZADORES:
 Antonio Soares Ribeiro, amarantino nato, Major da Aeronáutica, Engenheiro Civil e Engenheiro de Segurança do Trabalho, residente em Brasília (DF), ex – jogador de futebol. Atuou em times e seleção de Amarante.
Luís Alberto dos Santos Soares, popular Bebeto Soares, natural de Amarante, funcionário público municipal (Amarante), ex-repórter de jornal escrito do Piauí e de outros Estados; empresário gerente da extinta Banda OS GENIAIS; autor do livro AMARANTE, PERSONALIDADES E FATOS MARCANTES.

LOCAL: Campo da Associação dos Amigos do Esporte e Lazer – AAMEL. – Bairro Limoeiro, próximo ao Centro da cidade.
DATA: 26 de julho de 2014 (neste sábado).
HORÁRIO: 16h (quatro da tarde)

HOMENAGENS AOS AMARANTINOS NATOS:

1   José Maria da Costa (Papagaio), mais conhecido em nosso meio por Paguila. Atuou por longos anos no Flamengo de Teresina e na Seleção Amarantina.
2   Gonçalo Amarantino da Silva (Pelé Branco), Professor Mestre da Rede Estadual de Ensino do Estado do Maranhão. Iniciou sua brilhante carreira no Bangu Futebol Clube de (Amarante), seguindo sua trajetória no Botafogo Futebol Clube (Amarante), Corissabá (Floriano) e em outros times; e nas seleções de Amarante, Marabá (Pará) e Imperatriz (Maranhão). Foi convidado para jogar no Botafogo do Rio de Janeiro.
3   Moisés Alves de Sousa, amarantino nato, fez história no futebol como goleiro e treinador. Começou sua trajetória futebolística em Amarante. Foi goleiro por um bom tempo do Fluminense de Teresina (extinto); auxiliar técnico do juvenil do Botafogo do Rio de Janeiro; técnico da Seleção de Amarante por duas temporadas e treinou a Seleção de São Francisco do Maranhão. Criou e dirigiu o Botafogo desta cidade (extinto). Sem sombra de dúvida, Moisés deu um impulso no futebol de Amarante e São Francisco do Maranhão. Vale ressaltar que o histórico amarantino é filho do casal João Alves de Sousa (João Amâncio) e Raimunda Maria da Conceição (falecidos).
4   Walker Rodrigues Prado, um dos maiores nomes de Amarante. Filho do conceituado casal Raimundo Prado (falecido) e Alvane Prado. Este amarantino ilustre brilha muito no Piauí com seus relevantes serviços de médico-cirurgião e militar. Coronel da Polícia Militar do Piauí (aposentado). Presta expressivos trabalhos no Hospital da Polícia Militar do Estado. Foi candidato a deputado estadual e federal e a prefeito de Amarante. Dr. Walker como é muito reverenciado, é portador de uma inteligência significativa. Gosta de atender com muito prazer todo povo de Amarante. Cel. Walker é um apaixonado por futebol – jogou muita bola na Seleção de Amarante. Tem um campo particular onde promove jogos com times amadores (Teresina). Casado com Vera Lúcia Gomes Prado, também, muito famosa. Doutora em odontologia, professora da Universidade Federal do Piauí. Pais de três talentosos filhos maiores de idade.
5  O amarantino Ismael de Araújo Costa esbanjou categoria no futebol como zagueiro. Jogou muita bola em times do Piauí e seleção amarantina. Dois anos defendendo o time profissional do Auto Esporte de Teresina (PI). Campeão da Copa Arizona (1978) – Teresina. Que o diga o ex - meio campista amantino Gonçalinho, O Porco, seu velho companheiro no futebol de Amarante, Ismael tinha boa impulsão, habilidade, uma muralha aos adversários. O velho amigo Ismael atualmente exercendo a profissão de armador de construção civil. Casou-se com sua conterrânea Maria de Jesus de Sousa e Silva. Do matrimônio, os filhos, Givanildes, Gilvânia, Girlene, Ismaildo Isaac e Isaias, todos amarantinos.
   
OBS:
O pontapé inicial do jogo dos times acima citados será realizado por: Raimundo Nonato Ferreira, o popular Mestre Mundu, natural de Amarante, residente nesta cidade. Ele foi destaque como goleiro no Amarantino Futebol Clube.

ANIMAÇÃO:
Participação da Banda Nova Euterpe (Amarante)

Texto enviado por Luís Alberto dos Santos Soares, popular Bebeto Soares

DA EXALTAÇÃO À MELANCOLIA


DA EXALTAÇÃO À MELANCOLIA

Jacob Fortes

Ainda ecoa pelo país afora, sobretudo nos meios urbanos, a retumbante derrota da seleção canarinho para os alemães. A derrota — que ocasionou sentimentos de tristeza, indignação e fez prantear a muitos — chegou a ser adjetivada por alguns como assombrosa: colisão entre feitos do passado e o fracasso do presente cuja avaria principal consistiu em murchar não apenas a bola, mas o ufanismo nacional.

Aos que, movidos pela paixão do futebol, prantearam a derrota do seleto time, ressalto que neste Brasil, recheado de brasis, há razões muito maiores para estear, senão o pranto, a indignação profunda. Evidentemente refiro-me à indignação daqueles que não pensam apenas em si, que não pensam apenas neste ou naquele esporte, mas no país como um todo. Essas razões não precisam ser elencadas de modo cabal. Basta olhar o diário da TV: violência urbana demarcada pela pena de morte decretada pelos celerados; a deplorável situação dos hospitais públicos; o transporte, nas grandes metrópoles, onde os trabalhadores são submetidos ao calvário de viajar, por longas horas, em trens e ônibus sucateados, comprimidos aos moldes de vagões boiadeiros.

No “país do futebol”, o orgulho maior de ser brasileiro não está, exatamente, em vencer um campeonato mundial, mas na felicidade geral alicerçada em alto índice de desenvolvimento do país. Somente a educação pode assegurar, de modo peremptório, esse desenvolvimento. A educação sempre vence; o futebol nem sempre. A inclusão social se faz primordialmente por meio da educação, não unicamente por meio da bola: caminho sinuoso e estreito. O tijolo que alicerça a prosperidade de uma grande nação não se chama bola, mas livro. “Um país se faz com homens e livros”. A bola não pode ter primazia sobre os livros. Os livros darão aos brasileiros todas as oportunidades, inclusive de poderem comprar ingressos e não apenas permanecerem do lado de fora dos estádios olhando os turistas estrangeiros adentrarem, frajolas, entoando cantos efusivos, alguns flertando com Vinicius: ”Olha que coisa mais linda mais cheia de graça... que vem e que passa num doce balanço a caminho do mar”.

Agora que o antitérmico germânico fez baixar o estado febril da exaltação futebolística brasileira, deixemos que a atonia da derrota se transforme em assomo de esperança por uma prosperidade nacional demarcada não pela bola, esta pode bambolear, murchar, mas esteada nas colunas inexoráveis da educação. Quanto mais conhecíveis e atraentes forem os caminhos das escolas tanto mais incognoscíveis serão os caminhos dos presídios. Preferível ser derrotado no futebol a ter que ser campeão de violência urbana e de falta de saúde pública para todos. Que as forças do povo se aglutinem não apenas em prol do futebol, mas, principalmente, para que a educação brasileira prospere em messe, se fortaleça cada vez mais. Quando a obrigação com a educação atingir o patamar de devoção em que chegou o futebol, ninguém mais irá maldizer a escuridão. Nessa ocasião até o insigne compositor Waldeck, o “Gordurinha” irá refestelar-se e repetir para os seus colegas lá do assento sobreceleste o que lhe sucedera na terra: “eu perdi a mocidade com os pés sujo de lama, eu fiquei analfabeto, mas meu fio criou fama”.

O excesso de luz que sobeja no futebol, míngua na educação: que redime muito mais e enseja prêmios nobeis. Pena que o país, que se notabilizou pelo futebol e carnaval, ainda não tenha sido laureado com tamanha comenda. O futebol por vezes faz parecer que a bola é a “Estatua da Liberdade” brasileira, mas a verdadeira liberdade, em forma de caneta, somente as escolas podem modelar mediante o uso de matéria prima intangível.


Que os acessos de delírio e sonhos febris que acometem o futebol possam infectar a educação, pois assim a nacionalidade brasileira poderá engalanar-se com a taça de maior distinção honorífica, o NOBEL.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Ver para crer ou crer para ver?


Ver para crer ou crer para ver?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Antes do jogo da seleção brasileira, bela canção de Gilberto Gil eclodia do carro estacionado próximo ao Balão de São Cristóvão. Qualquer brasileiro sabe, de cor, algum verso da encantadora música, bem sertaneja: “Andá com fé eu vou/ Que a fé não costuma faiá/...Que a fé tá na mulher/ A fé tá na cobra coral/ Num pedaço de pão/... Na luz, na escuridão/...Na maré/ Na lâmina de um punhal/...A fé tá também pra morrer/Triste na solidão/...A fé vai onde quer que eu vá/ A pé ou de avião.”

         A eletrizante canção provoca certa reflexão, especialmente quando deparamos circunstâncias adversas, como doença, crise financeira ou amorosa, acidente, preparação para concursos, coisa e tal. No texto, veem-se elementos metafóricos motivadores de apreensões, que exigem exercício da fé: mulher, pão para sobrevivência, cobra, punhal, morte, noite e solidão, viagem aérea.

A fé norteia o sentimento religioso da maioria dos brasileiros que professam algum credo. Palavra tão simples estampada até em camisetas e para-brisas de carros. Todavia poucas pessoas se dão conta do verdadeiro sentido da fé, normalmente associada a surtos piegas e emocionais conduzidos por lideranças religiosas. A cura simples de uma dor de barriga gera arroubos de testemunho milagroso, durante culto.

Para alguns, fé é coisa de ignorante, por não ter acesso a uma educação formal. Pode ser. Por isso, motivo para exacerbação de religiosidade. Por outro lado, entre intelectualizados, há um mito de que fé e ciência não se misturam. Será verdade? A visão ateísta do mundo atual torna impossível que um intelectual exercite fé na divindade. Bobagem. Famosos cientistas, que nos legaram fantásticas descobertas, criam na existência divina: Galileu, Mendel, Nicolau Copérnico, Newton, Eistein, Pascal, Maxwell, tantos outros. O cristianismo fundou as melhores universidades: Bolonha, Sorbonne, Harvard, Cambridge, Salamanca e outras. A fé nunca foi inimiga da ciência, apesar de alguns desacertos com o clero. A Revolução Francesa despertou uma classe de iluministas cientistas, ateus e anticlericais, que, ainda hoje, tentam explicar tudo sem interferência divina ou transcendental, como a negação do criacionismo. Com eles surgiu o princípio científico do ver para crer, sujeitando fenômenos sobrenaturais à lupa do laboratório. A fé de Tomé. Com os recursos da ciência moderna, é possível, porém, separar uma simples, às vezes, infantil, manifestação sobrenatural de uma causa natural.

O princípio da fé não se baseia em ver para crer, mas crer para ver. Não há, na Bíblia, melhor definição de fé do que a encontrada na carta do apóstolo Paulo aos hebreus: “A fé é a esperança na certeza do que não se vê” (11,1). Não é ver para crer, mas crer no que ainda há de se ver. O impossível tornar-se possível. A cura do cego, do paraplégico, do câncer em fase devastadora, da doença incurável, apesar de todos os recursos científicos experimentados.

Será que uma nação com terríveis índices de criminalidade, corrupção, drogas e falta de compromisso dos administradores ainda tem jeito de cura? Tem, sim, pois a fé começa pelos cidadãos. Afinal, disse o Mestre: “O reino dos céus está dentro de vós.” O negócio, então, é arregaçar as mangas. Porque a “fé não costuma faiá”. Pelo menos, é bonita de se ouvir nas avenidas da cidade. 

domingo, 20 de julho de 2014

Seleta Piauiense - Torquato Neto


A rua

Torquato Neto (1944 – 1972)


Toda rua tem seu curso
Tem seu leito de água clara
Por onde passa a memória
Lembrando histórias de um tempo
Que não acaba

De uma rua, de uma rua
Eu lembro agora
Que o tempo, ninguém mais
Ninguém mais canta
Muito embora de cirandas
(Oi, de cirandas)
E de meninos correndo
Atrás de bandas

Atrás de bandas que passavam
Como o rio Parnaíba
O rio manso
Passava no fim da rua
E molhava seus lajedos
Onde a noite refletia
O brilho manso
O tempo claro da lua

Ê, São João, ê, Pacatuba
Ê, rua do Barrocão
Ê, Parnaíba passando
Separando a minha rua
Das outras, do Maranhão

De longe pensando nela
Meu coração de menino
Bate forte como um sino
Que anuncia procissão

Ê, minha rua, meu povo
Ê, gente que mal nasceu
Das Dores, que morreu cedo
Luzia, que se perdeu
Macapreto, Zé Velhinho
Esse menino crescido
Que tem o peito ferido
Anda vivo, não morreu

Ê, Pacatuba
Meu tempo de brincar já foi-se embora
Ê, Parnaíba
Passando pela rua até agora
Agora por aqui estou com vontade
E eu volto pra matar esta saudade

Ê, São João, ê, Pacatuba

Ê, rua do Barrocão       

sábado, 19 de julho de 2014

SERVIÇO PÚBLICO: UMA VIA DE MÃO ÚNICA


SERVIÇO PÚBLICO: UMA VIA DE MÃO ÚNICA

Jacob Fortes


Seria no mínimo desairoso de minha parte, para não falar em agravo, pretender explicar ao nobre leitor, e até mesmos aos brasileiros sem provisão de letras, o significado de mão única. Pois é. O serviço público brasileiro é uma via de sentido único: só vai, não vem. Isso ocorre de modo não manifesto; não há placa indicativa dessa subjacente constatação. Envie correspondência a dez empresas privadas e receberá dez respostas. Envie correspondências a dez entes públicos e, por obra da sorte, que bafeja a poucos, ou amerceamento divino, receberá uma resposta, no máximo duas. Essa apatia é da essência da cultura do serviço público: não vê, e se vê não admite, a importância de respostar às indagações ou pleitos dos contribuintes. Mas os cidadãos brasileiros, entregues à penitência de pagar imposto de alto preço, merecem que as suas correspondências sejam respostadas pelos entes públicos: municipal, estadual e federal, com certa rapidez.  Se para isso há que se ter o amparo da força irrefutável da lei que algum político, que não esteja ocupado em missões corruptivas, apresente esse projeto. Ainda há tempo de pôr fim ao cometimento dessa injustiça, que se caracteriza por manter o isolamento dos cidadãos; sujeitos, aliás, a muitos deveres. É preciso corrigir essa visão estrábica: em vez de manter os cidadãos afastados os entes públicos precisam interagir com eles.  Esses entes devem ser instados, ainda que por imperativo de lei, a por em prática a via de mão dupla. É uma imposição do justo; do conhecimento que se constrói através do diálogo.       

sexta-feira, 18 de julho de 2014

HISTÓRIAS QUE A VIDA CONTA


HISTÓRIAS QUE A VIDA CONTA

Valério Chaves (*)

         Cego Zeferino era um perito improvisador.
         Cegou quando tinha apenas dois anos de idade, mas apesar da deficiência visual era um dos cantadores mais espontâneos dos sertões do Ceará.
Ganhava o sustento cantando versos próprios, geralmente pondo em evidência os dotes pessoais de quem apreciasse sua poesia cabocla tirada do povo, hábitos e costumes da vida sertaneja.
         Certa vez quando cantava poesia na porta de um bar de sua cidade natal (sempre acompanhado da mulher Zefinha), na expectativa de aumentar os “trocados” do dia, resolveu fazer versos exaltando a figura dos fregueses mais ilustres que iam aparecendo no local.
 A certa altura da cantoria, Zefinha, cuja missão era dizer o nome das pessoas que iam chegando, falou ao pé do ouvido do marido avisando que acabava de chegar o Tenente Geronço, delegado de polícia da cidade.
          Geronço, militar por vocação, detestava cantador de viola, e às vezes, do alto de sua ignorância, chegava a ameaçar de prisão quem se atrevesse fazer rimas com seu nome pelo meio.
 Quando avistou o cego sentado, com a viola sobre o peito diante de um tamborete com um prato em cima, olhou de alto a baixo, e avisou: - vou lhe dizer uma coisa, ceguinho. Não faça versos rimando com meu nome pelo meio. É uma ordem.  Entendeu?
         Naquele dia, porém, parece que o tenente não estava mesmo com sorte, porque quando ele entrou no recinto do estabelecimento, o cego já havia começado a rima com o sufixo “ão”.
         E, pra não interromper a toada, diante da reprimenda do militar, e fazendo de conta que não tinha ouvido seus desaforos, continuou o improviso construindo o primeiro verso da sextilha:
- E para o tenente eu dou mais um galão.
- Alto lá, ceguinho – interrompeu o delegado em tom grotesco e rude.
- Não continue fazendo versos com o meu nome, pois do contrário vai se arrepender.
Em seguida, sem dar ouvido ao tenente, e sem fugir do improviso, o cego emendou num só fôlego:

- Mas tenente, que é que eu hei de fazer?
Pois minha intenção não é lhe promover
Pois o galão que eu falo é um galão diferente:
É um pau com duas latas
Uma atrás e outra na frente.

Em seguida, amofinado pelo azar, só restou ao tenente Geronço dar meia volta e sair de fininho, lamentando-se:
- Pra que diabo eu fui me meter com este cego cantador de viola.
- Isto só sendo castigo!

(Extraída da obra inédita – Casos de Justiça e outras histórias)

(*) Valério Chaves é Desembargador Inativo do TJPI, membro da UBE-PI e da Academia de Letras da Magistratura Piauiense.      

quinta-feira, 17 de julho de 2014

OS GANSOS DA VÁRZEA DO SIMÃO




17 de julho   Diário Incontínuo

OS GANSOS DA VÁRZEA SIMÃO

Elmar Carvalho

À tarde, do alpendre de nossa casa da Várzea do Simão, onde degustávamos um churrasco, vimos os gansos chegar, provenientes da casa do Maninho, sobrinho da Fátima e nosso vizinho. Atravessaram a cerca divisória dos imóveis, e entraram em nosso terreno. Eram semelhantes a grandes patos, porém de andar mais elegante e firme. Ostentavam uma espécie de crista vermelho-amarelada sobre a parte posterior do bico, como se fosse uma espécie de elmo, ou mesmo uma coroa estilizada.

Chamei a protuberância de elmo porque tive notícia de que eles são um tanto belicosos, sobretudo quando invadem seu território, no caso, o terreiro do Maninho, dono deles. Encostam-se ao invasor e procuram bicá-lo, evidentemente no intuito de afastá-lo do terreno que consideram de uso exclusivo seu. Também disse que o enfeite parecia uma coroa porque esses bichos têm uma postura nobre, orgulhosa, e um tanto imperial.

Quando caminham alinhados, parecem militares a marchar em fila indiana. Estufam o peito, como grandes e enfatuados pombos, e, às vezes, levantam altivamente a cabeça, como empertigados generais. Suponho que fazem isso para amedrontar eventuais inimigos, simulando um porte mais avantajado, como também para sondar o terreno, o mais longe possível, seja em busca de adversários ou à procura de ervas ou raízes de sua predileção.

Após a chegada dessas belas aves, ligamos a ducha, com que iríamos banhar. Logo notamos o seu interesse, pois elas começaram a se aproximar com certo entusiasmo e alvoroço. Após os sucessivos banhos, colocamos o equipamento perto de um rego, usado para a pequena irrigação das árvores próximas. Imediatamente a água começou a correr, como se fosse um minúsculo regato. Esse fato e o barulho da água atraíram a atenção dos gansos, que vieram para perto da fonte.

Começaram a fuçar no entorno, à procura de raízes de sua estima. A terra, amolecida pela água, facilitava seu meticuloso trabalho de busca. A presença das pessoas não os intimidava nesse mister. Mergulhavam vigorosamente os grandes e poderosos bicos na terra e no líquido, e os revolviam em todos os sentidos: para cima, para baixo, para um lado, e para outro. O forte e longo pescoço, de marcante musculatura, com o arremate do gracioso e frenético bico, dava ao conjunto o aspecto de uma pequena draga viva.

Conta-se que, no quarto século antes de Cristo, os guerreiros de Breno, à noite, de maneira furtiva, tentaram surpreender os defensores da velha Roma, em repouso nas fortificações do Capitólio ou Monte Capitolino. Não conseguiram seu intento porque os gansos consagrados a Juno, com fortes alaridos, como verdadeiras trombetas, acordaram os soldados romanos, os quais puderam rechaçar a invasão dos gauleses. Era do alto do Capitólio, uma das sete colinas de Roma, que os generais triunfantes contemplavam a cidade eterna, pela qual lutavam.


Depois, quando bem quiseram, sem nenhum gesto de agradecimento, subserviência ou medo, os gansos da Várzea se foram, de peito empinado, como galantes príncipes ou generais. Erguiam a cabeça e estufavam o peito, orgulhosos de sua força e beleza, conscientes da nobreza de seu próprio ser. Acaso essa aristocrática altivez remontasse aos seus ancestrais devotados a Júpiter, guardiães do Capitólio da cidade eterna.    

terça-feira, 15 de julho de 2014

NOMES ENGRAÇADOS


NOMES ENGRAÇADOS

Anchieta Mendes


Os amados leitores e leitoras, certamente, conheceram ou conhecem pessoas com nomes engraçados, grotescos ou gaiatos. Isto porque há muita gente doida, gozadora, irreverente ou mal-educada.

Em nossas andanças pelo interior cuidamos de observar fatos interessantes que nos levaram a meditar, quando não a analisá-los sob o ponto de vista legal, cultural ou sociológico.

Assim é que, em Piracuruca, centenária cidade piauiense, deparamo-nos com fatos engraçados e até solertes. Vamos a alguns deles.

Já naquele tempo um cearense tornou-se manchete nacional por ter registrado um filho com o nome de Flávio Cavalcante Rei da Televisão brasileira, fato que mereceu a atenção de autoridades judiciárias que se interessaram para que disparate como esse não saísse dos Cartórios do Registro Público.

José de Arimateia Tito Filho foi um dos mais cultos e ilustres Mestres do Piauí. Exerceu muitos cargos no Ensino teresinense, escreveu grandes livros, foi Presidente da Academia Piauiense de Letras e era um consagrado orador.

Andando em campanha política pelo interior, Arimateia proferiu belíssimo discurso na Praça Irmãos Dantas, em Piracuruca. Dominava as massas, atraia, provocava delírio dos ouvintes. Conseguiu tal admiração naquela cidade que a conhecida Leontina Artista da Bahia  registrou o seu rebento como José de Arimateia Tito Filho, em homenagem ao grande Professor.

O filho de Dona Leontina não seguiu as pegadas do seu homônimo, como Professor, mas enveredou na carreira militar, verificando praça e servindo na Polícia do Piauí, naturalmente muito honrado com a farda e o nome.

Mas, ainda em Piracuruca, de gloriosas tradições, viveu um caboclo que se tornou famoso com o nome que deu aos seus filhos: Vamos ver!

- Wilson Amândio Pereira
- Agostinho Roscalino Inspetor de Fevereiro.
- Josefa Maturi de Pluma.
- João Duques Camarosalmão.
- Maria Inocência Parizada.
- Gastão Garantido.
- Feliciano Verbos,
- Joana Presbítera da Igreja,
- Pedro da Cadeira de Roma.

Além de Leontina Artista da Bahia, constava do rol de ilustres eleitores da Zona Eleitoral o Sr. Petrônio Árbitro da Elegância de Mariana, simpático e diligente cidadão.

Agora é a vez de perguntar-se: O que levou os nossos amigos de Piracuruca a tal empreitada, a tomar tais decisões?  Terá sido por mera gozação, deboche, filosofia de vida, maluquice ou retaliação a alguém?


Não sabemos. Nem é preciso!. Passou para a história! De qualquer forma, mesmo contrariando a lei, que não permite nome esdrúxulo no registro civil de nascimento, os nomes engraçados que têm surgido em todo o Brasil, de tão sugestivos, passaram ao folclore e à psicologia desta gente boa, simples e matreira que é a brasileira.   

domingo, 13 de julho de 2014

A ERO MOÇA

Foto meramente ilustrativa

A  ERO  MOÇA

Elmar Carvalho

A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência ...

E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência.      

sábado, 12 de julho de 2014

Dor, solidão, saudade


José Maria Vasconcelos
cronista, josemaria001@hotmail.com

        Nos últimos dias, Teresina comoveu-se com a tragédia batendo à porta de conhecidas personalidades, cujos filhos, ainda estudantes, saíram a passeio ou diversão e voltaram sem vida. Nessas horas, não há palavras nem orações que confortem. Parece que se vai ao fundo do poço e não se encontra gota d’água de refrigério.

         Seguidas noites de pranto, solidão, saudade. O bem mais precioso da vida rompeu com o mundo da matéria e se foi. Perguntas cruéis no desespero: “Para onde? Que Deus é esse que retira o direito  felicidade, jovens promissores e virtuosos?” Basta ser carne e osso para se aguardar, a qualquer momento, a ruptura com este mundo.

Até o miraculoso e divino Filho de Deus não se livrou da inexorável presença da morte: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice!” Agonizante:

“Pai, por que me abandonaste?!” A morte de entes queridos, uma experiência trucidante que não encontra consolo, só dor, solidão, saudade. Dor, a tonalidade da vida afetiva que se torna hostil e desfavorável a qualquer consolo. Paira apenas a pergunta vazia, existencial e desesperadora: “Por quê?” Nesse momento, vale o exercício do solilóquio, em vez da solidão doentia. O solilóquio espiritual com o Senhor da Vida. O colóquio interior com a essência de Deus, aí, sim, encontra-se o ‘refrigério que borbulha no fundo do poço. Só pessoas exercitadas na espiritualidade entendem e enfrentam vicissitudes. O tempo passa, a saudade fica, o desespero desaparece.

         Muita gente experimentou desertos que a vida impõe, porém aprendeu sábias lições: descoberta de valores mais elevados, a prática da generosidade, o desapego ao exacerbado uso de bens materiais e conquista de poder, que tanto roubavam preciosas horas da família e do convívio com os mais humildes. A dor descobre novos paradigmas iluminados de virtudes e espiritualidade. Ai do ser humano se não sofresse, adoecesse, envelhecesse. Muita gente, antes soberba, nariz empinado, arrotando impropérios contra o divino, hoje, totalmente renovado e espirituoso.

O sábio extrai lições das vicissitudes. Em vez de pedir a Deus que o livre das batalhas, pede-lhe as armas para se defender. Sábio guerreiro, não refém do inimigo. O que torna as pessoas angustiadas é a constante busca, nesta vida, de possibilidades que apenas lhes interessam. Têm de ser do jeito que as tornem felizes, que lhes aumentem o patrimônio, que gozem saúde, que se usufruam, à exaustão, de tudo que é material e poderoso. Essa máxima de vida vale como felicidade, mas lhes faltam valores mais sublimes. Quem já passou por vale de lágrimas, como paralisia e perda de membros, hoje agradece aos céus poder manusear um instrumento eletrônico para locomover-se e trabalhar. Souberam transformar limão em limonada.

Teresina perdeu entes que todos lhes queriam bem. Um poço de refrigério, certamente, já mina com água viva da fé e esperança.        

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A DERROCADA DE NOSSA SELEÇÃO


10 de maio   Diário Incontínuo

A DERROCADA DE NOSSA SELEÇÃO

Elmar Carvalho

Quando o Dr. Alfredo Nunes, que exerceu a presidência da Confederação Brasileira de Futebol, me deu um distintivo da CBF/Seleção Brasileira, alguns anos atrás, disse-me estas palavras, que jamais esquecerei: “Estou lhe dando este escudo porque tenho notícia de que você foi um bom goleiro do futebol amador.” Durante esta Copa do Mundo, passei a usá-lo, com mais frequência, tentando incutir em mim mesmo uma confiança, que na verdade não tinha, em nossa seleção canarinho.

Pela mesma razão, na véspera dos jogos contra as seleções da Colômbia e da Alemanha, fui caminhar na Raul Lopes, envergando a camisa de nosso escrete nacional; na primeira vez usei a amarela, e na segunda, a azul. Em ambas, estavam estampadas as cinco estrelas representativas do pentacampeonato conquistado.

Um conhecido, sorrindo, algo ironicamente, chamou-me de patriota, ao que, de imediato, lhe retruquei: “Estou usando esta camisa hoje, porque não sei se a partir de amanhã ainda poderei vesti-la.” Contei esse episódio anedótico a um outro amigo caminhante, que me garantiu, com muita ênfase, com o polegar para cima, em sinal de positivo: “Vai continuar, sim.” Não sei se realmente ele tinha fé em nosso escrete, ou se apenas simulava.

Dias antes, no auditório da Academia Piauiense de Letras, eu havia conversado com o grande comentarista esportivo Carlos Said, e ele me revelou o seu pessimismo em relação à possibilidade de conquista do hexacampeonato. Declinou os fundamentos de sua descrença, que não irei aqui alinhavar; certamente ele próprio o fará, em sua coluna jornalística. Eu comungava de suas mesmas razões, e lhe disse isso, embora não tenha os conhecimentos do sapientíssimo mestre.

Não irei, neste breve registro, dissertar sobre táticas, técnicas e estratégias futebolísticas, mesmo porque não sou a pessoa mais indicada para esse mister. Apenas direi algumas palavras, ao sabor do improviso e do correr da pena, ou melhor, da digitação e do teclado. Ontem, ao ligar para um amigo, o Natim Freitas, sobrinho de minha mulher, disse-lhe que achava que o Brasil iria vencer a Alemanha pelo placar de 2 a 0 ou 2 a 1. Falei isso sem muita convicção, claro, pois acrescentei que se os germânicos viessem a vencer não seria uma surpresa para mim.

O que me levava a acreditar na possível vitória alemã era o fato de que, em nenhuma partida da copa, o nosso time nacional me passara a convicção de que era uma equipe forte, bem entrosada, segura, confiante. Ao contrário, me parecia insegura, imatura, com jogadores à beira de um ataque de nervos, excessivamente entregues a choros e emoções, e, o que é pior, cuja frágil confiança parecia repousar em um único craque, o Neymar. Louve-se a ética e o respeito dos craques alemães, que foram muito comedidos nas comemorações, e não tripudiaram sobre a nossa acachapante derrocada.

Ora, o futebol é um esporte por excelência associativo, em que todos os onze jogadores devem funcionar a contento. Quando as jogadas coletivas não predominam sobre as individuais toda esperança é frágil ou sem sentido. O certo é que o resultado dos jogos não me agradou, inclusive chegando ao cúmulo de haver uma decisão por pênalti (após uma prorrogação em que o placar continuou sem gol), na qual dois de nossos atletas desperdiçaram as cobranças. Em síntese, mesmo nos pênaltis, os nossos “amarelinhos” amarelaram. Até o nosso gol de honra, contra os sete da goleada alemã, foi envergonhado, e não mereceu sequer a comemoração de seu autor.

Trago ao leitor um pequeno trecho, por sinal muito pertinente, de um abalizado comentário que li no portal da UOL, da autoria de Júlio Gomes: “(...) somos arrogantes no futebol. Mais até do que os americanos são com o basquete. Não aceitamos a superioridade alheia. O Brasil precisa perder por 7 a 1 para que as pessoas se deem conta de que o rival é superior (e ainda tem muita gente usando o argumento do “resultado atípico''). Se perdesse por 2 a 0 ou 3 a 1, teria sido por culpa do Neymar, do juiz, do Zuñiga, do vento, da trave, do sal grosso. Sempre encontra-se uma justificativa para a derrota.”

Esse comentarista acrescentou que um seu amigo lhe dissera que, se o brasileiro para quase tudo tem um complexo de vira-lata, no futebol torna-se arrogante, e passa a ter um complexo de pitbull. Acrescento eu, para não perder o bonde da gozação e da rima: e pitbull energizado por red bull. E para piorar o que já era trágico, o torcedor brasileiro adquiriu um novo “complexo canino”; agora tem pânico de encontrar um pastor alemão.

O goleiro Júlio César, em entrevista à rede Globo, disse que era difícil explicar o inexplicável. Não acho que tenha havido algo de “inexplicável”. Tudo está bem explicado; basta que se confrontem as boas atuações da Seleção Alemã e os insatisfatórios resultados dos jogos da nossa, considerando-se o nível dos escretes contra os quais ela atuou.

Não nos foi bastante a derrota; tínhamos que perder pelo humilhante escore de 7 a 1. Com esse vexatório fiasco, o falastrão Galvão Bueno, que exibia um exacerbado ufanismo, sem base em fatos reais, por iniciativa própria ou por recomendação da rede Globo, passou a reconhecer os erros e o baixo rendimento de nossa seleção em todos os jogos da copa, até com certa ênfase, coisa que jamais fez nas fases anteriores, quando sempre acenava para a conquista do “hexa”, com os seus famigerados sete passos, que sempre se desenharam capengas.

Conta-se o fato, ao que parece um tanto lendário, de que o holandês Adriaen Pater, ao se sentir na iminência de morrer em uma batalha naval, teria exclamado: “O oceano é o único sepulcro digno de um almirante batavo.” Por falar em Holanda, restava-nos torcer pela seleção desse país, mas esta também soçobrou, e contra ela vamos disputar a terceira colocação.


Não temos sequer o melancólico consolo de uma frase de efeito, uma vez que não pode existir nenhuma consolação para nosso humilhante naufrágio, o maior da história de nossa Seleção.     

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Desarmado, pior


José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

      A estupidez assassina, no Brasil, esgota a misericórdia e tolerância cristãs. É preciso reagir, ou multiplicar-se-ão cemitérios. Assaltam-se e matam-se cidadãos todo santo dia. Há algumas décadas, os raros assassinatos perduravam na memória coletiva por anos, como o “crime da doméstica”. Hoje, se esvai rápido.

      Em Teresina, a última vítima, um jovem estudante de engenharia, 21 anos, ficha escolar e disciplinar de causar canonização, vítima de bala perdida. Sem falar nas execuções envolvendo traficantes e viciados em drogas, diariamente. Só no primeiro semestre, mais de 70 assassinados se foram para o andar de cima. No Brasil, assassinatos ultrapassam 50 mil ao ano. Sobrepõem ao Iraque e a qualquer nação em conflito.

       É hora de se repensar se valeu a pena a lei do desarmamento e do confisco de armas, criados no governo petista. Não é preciso dom profético para se previr a conta iminente dessa onda sanguinária.

      A lei do desarmamento e do confisco de armas só beneficiou falanges de bandidos e do crime organizado, hoje incrustrados em todos os poderes da Nação. Eles, com seus tentáculos no Congresso Nacional, criam e aprovam leis estúpidas de proteção a menores, bolsa presídio, privilégios a penados, tempo mínimo de cárcere, limites de arrocho e uso de armas a policiais. Até conseguem incorporar-se às forças policiais.

      A história de desarmamento e confisco de armas não vem de agora: nasceu em regimes nazista, fascista e comunista. Exatamente para domar a sociedade à servidão ao poder. A Alemanha nazista, o Japão feudal, a extinta União Soviética, Cuba, China comunista, Coreia do Norte, todos, em algum momento, fizeram registro e confisco de armas. Em seguida, ocorreram banhos de sangue, exatamente dos que ousaram combater as ideologias ditatoriais.

         Logo após o confisco de armas de cidadãos, na Alemanha nazista, ocorreu a carnificina de judeus. Em novembro de 1938, o The New York Times informava de Berlim: “A infame violência nazista contra cidadãos judeus foi precedida pela confiscação de armas de fogo das vítimas judias. O presidente da polícia de Berlim, conde Wolf Heinrich, anunciou que toda a população judia havia sido desarmada com o confisco de 2.569 armas curtas, 1.702 armas de fogo e 20 mil cartuchos de munição...”

      Governos bem intencionados – se existem – foram vítimas dos tais cadastros nacionais de armas. Tchecoslováquia e Polônia adotaram o cadastro, antes da invasão das tropas germânicas. Alguns oponentes ao regime sumiram no meio da noite.

         O Brasil petista adota o registro e confisco de armas, seguindo as mesmas orientações de regimes autoritários. Aparentemente, bem intencionado, mas, no fundo, desarmando também o país.

         Quem condena a violência, praticando violência, aprova a violência. E quando o cidadão tenta apenas defender sua vida, seu patrimônio, sua família, enfim sua dignidade renega a fé cristã? Perdoe-me, tenho de visitar mais um amigo assassinado. 


terça-feira, 8 de julho de 2014

EDIMÊ, a professora que remanesce

Foto meramente ilustrativa

EDIMÊ, a professora que remanesce

Jacob Fortes

Por vezes nos pegamos perdidos em silêncios indecifráveis, um estado letárgico alheado aos pensamentos racionais. É circunstância comum, acomete a todos os pensantes. Assim me sucedeu, dia desses, na hora da ave-maria, embora houvesse o pressentimento vago de que o torpor do “vinho” iria desvanecer brevemente.   Teclei o “enter” da minha mente uma, duas, três vezes e nada. Por fim, tenuemente surgiram os primeiros feixes de luz. Um filme insinuava-se. A tela, com a lerdeza de uma boiada calaceira que rumina o capim mascado, finalmente despertou. Neste comenos, lá da BR, hora do rush, ouvi a ambulância alardear continuamente a sua sirene em grau tão estridulante que fazia supor urgente missão de salvamento. Isso fez acender de vez todas as luzes do armarinho da minha memória. Um após outro, os pensamentos se ergueram e logo se formou um cortejo processional deles em busca de propósitos.

O primeiro a aluir-se expôs, num escaninho especial do armarinho, a figura da professora Edimê. Mais que professora, orientadora, amiga, e muito mais para quem, ingênuo e ainda poento do sertão, tinha o horizonte do tamanho das pestanas. Não sei do paradeiro da estimada professora, menos ainda as razões que a fizeram transferir-se da metrópole recifense para lecionar naquela cidadezinha. Naquele tempo, quando o diário do século, incrédulo, anotava as façanhas do Sputnik Primeiro, já lhe pesavam aos ombros o triplo dos meus doze. Dedutivamente, há de encontra-se vetusta, em algum lugar que gostaria de saber, ostentando as marcas inconfundíveis da longevidade. Senão, atendendo o chamado incontradito do concurso de remoção, passou a exercer a docência em plagas celestiais. Assim como na terra, lá também todos os ofícios são necessários. Seu relicário instrumento de ensino/aprendizagem, a máquina de datilografia, fora, no dizer do escritor Geraldo Almeida Borges, “Província Submersa”, incorporado, por decreto dos computadores modernos, à carga patrimonial da idade neolítica.

Gostaria que ela soubesse o quanto os seus ensinamentos me foram úteis e que efeito teve em meu coração a sua fidalga generosidade. Ainda que não possa vê-la, ternamente cultivo essa expectativa nutrindo a vontade de “ser novamente um menino”. Onde quer que esteja ofereço-lhe, professora Edimê, com a permissão do Rei, a canção “Lady Laura”, na voz melodiosa do meu silêncio, assistida por uma plateia de duas lágrimas que boiam indecisas: uma para regar a saudade que se tornou minha companheira, a outra para molhar as sementeiras que fazem florescer as edimês que tornam a vida ainda mais doce, a despeito dos seus absurdos.        

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Café Literário


HARDI FILHO, SUA VIDA, NOSSA VIDA E A POESIA

Foto extraída do Portalritíssima, vendo-se: Paulo Nunes, Hardi Filho, Nelson Nery Costa, Francisco Miguel de Moura, senhora Adélia (esposa do homenageado), Osvaldo Lemos, Herculano Moraes e Elmar Carvalho


HARDI FILHO, SUA VIDA, NOSSA VIDA E A POESIA

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Hardi Filho completa amanhã, 5 de julho deste 2014, seus 80 anos de idade e 50 de poesia e literatura. Poeta e cronista, observador arguto, com o toque do jornalismo que praticou. Mas na crônica não deixa de lado o tempero dos sonhos. Além disto faz crítica literária quando a obra e o instante lhes aprazem.  Contamos, sempre com ele, a Academia e a comunidade literária, na organização, ajuda e preparo dos concursos e outros misteres. Tendo em vista o seu valor humano e literário, a Academia Piauiense de Letras, no último sábado, promoveu a comemoração do seu aniversário, fechando solenemente o semestre acadêmico. Um dia festivo marcante. E, nesta crônica que promete ser longa, relembro algumas coisas tiradas do baú da memória e ligadas à nossa vivência de amigos e poetas, que marcam o perfil psicológico e moral do homenageado. Direi, de início, como disse na festa acadêmica comemorativa, que Hardi Filho é um exemplo de probidade, generosidade, homem desprendido das coisas materiais e preso aos amigos. Nestes 50 anos de vida e vivência não tivemos sequer uma só “diferença”, na amizade, na camaradagem e no bem-querer, tudo batizado e carimbado desde o dia 5-7-1964, quando me ofereceu seu livro “Cinzas e Orvalhos”, com autógrafo firme de quem estava em plena forma. Logo que chegara da Bahia, aqui o encontrei e sua poesia adulta, forte, grandiosa, num estilo simbolista, cujas raízes adivinhávamos estar em Augusto dos Anjos e Celso Pinheiro, grandes mestres, o primeiro mais conhecido, o outro menos. Hardi Filho, em seu começo, é um simbolista equiparado ao que houve de melhor na literatura brasileira. A citação dos dois grandes nomes é apenas pra dizer que suas leituras eram das melhores, pois que se começa a conhecer o poeta por seus antecedentes de leitura. Quem lê bem, escreve bem; quem não lê, nunca virá a escrever – eis a minha glosa ao dito popular. Hardi leu bem e estreou impecavelmente com “Cinzas e Orvalhos”, em 1964. Há algum tempo venho tentando convencer a Academia Piauiense de Letras a incluir “Cinzas e Orvalhos” na lista de suas publicações comemorativas do centenário, a ser comemorado em 2017. Primeiramente, porque o livro do Hardi Filho é ótimo, ganhou um concurso da Prefeitura Municipal de Teresina e foi julgado pelos acadêmicos João Nonon Fontes de Moura Ibiapina, Júlio Martins Vieira e Mário José Batista como o primeiro lugar e merecedor do prêmio. Segundo, porque está completando 50 anos de publicada a primeira edição e possivelmente jamais será editado, pelo cálculo que se tem referente a reedições. Terceiro, porque Hardi Filho tem sido generoso na sua vida comum e na literatura; ele atende a todos que o procuram com prazer e bonomia; recebe todos em sua casa, conversa sabiamente sobre o fazer poético e o amor ao belo. Tudo isto, sem deixar de lado o seu propósito: Não procurar ninguém, não pedir a ninguém, quem quiser que o procure. Diante destas razões, meu apelo à APL, se vingar a idéia de publicação de alguns vivos, é editar Hardi Filho.


Antes que me esqueça, reabro o baú da memória e das saudades para acrescentar: Quando morei na Bahia (meus filhos fazendo o curso superior em Salvador e eu a minha pós-graduação em “Crítica de Arte”), meu dilema era não querer hospedar-me em hotel. Teresina, cidade onde fizera tantas amizades, me ia parecer estranha, quando a ela voltasse por férias ou outro motivo. Hardi Filho e dona Adélia ofereceram sua residência, com dormida e alimentação da melhor, não apenas a mim e dona Mécia, mas para qualquer dos meus filhos que aqui viessem. Este é um exemplo vivo, irrefutável. A nossa família, o favor tinha o gosto do provérbio de que “vinhos e amigos, quanto mais velhos melhores”.  Mas sei de tantas outras pessoas por eles recebidas de muito bom grado, mesmo não parentes, não por uns dias ou meses, por muito mais. Não caberia, neste espaço enumera-los e indicá-los pelo nome, se lembrasse. Também sobressaem as viagens domingueiras ao balneário “Roncador”, no Maranhão, onde passávamos o dia com nossos filhos, tomando banho, almoçando, conversando e tirando fotos. A ida de manhã e a volta à tarde era sempre no mesmo transporte: o velho e saudoso jeep do Hardi. Outras tantas vezes ele nos levou ao Parque Nacional das Sete Cidades, visto que Hardi Filho era funcionário do IBDF, por cuja repartição pública federal aposentou-se. Mas a maioria dos nossos encontros ficou por conta dos movimentos literários, primeiramente do CLIP; depois, da UBE. O velho Círculo Literário Piauiense já completa 50 anos hoje. Ele já existia a partir de 1964, quando nós, os “três mosqueteiros”, por coincidência ou não, armamos a amizade e a luta: Hardi, Chico Miguel e Herculano, já poetas de livros publicados ou procurando fazê-lo. Tarciso Prado é culpado de tudo isto: ele me apresentou ao Hardi Filho e ao Herculano Morais. E continuamos na amizade e no gosto literário de diversas facetas, nas conversas sobre a vida, a literatura, as artes e a filosofia, não obstante os percalços do golpe militar de 1964.  Como já foi dito noutras partes, o CLIP não tinha sede e reunia-se inicialmente na casa do Herculano Morais, e muito mais na casa do Hardi Filho e sua esposa, dona Adélia, que patrocinavam a bolacha, o café e o gosto de estarmos em família.  O que há de notar-se é que nunca, nestes anos todos, houve “diferenças” na família - toda amiga - nem desavenças entre nós, embora sejamos bastante diferentes em pessoa e na poesia.  Finalizo, por falta de espaço para dizer tudo, escolhendo uma frase que o próprio Hardi Filho diz em determinadas ocasiões: “Eu não sirvo de exemplo pra ninguém”. Que humildade, amigo! Você é um exemplo de grande poeta, um dos maiores entre o que estão vivos e produzindo, no Piauí. Exemplo de pai, de esposo e de amigo, meu irmão! Gracias!