domingo, 21 de dezembro de 2014
Feliz Natal e Próspero Ano Novo
Com este cartão natalino de Fernando di Castro o blog deseja um Feliz Natal e Próspero Ano Novo aos seus leitores.
Seleta Piauiense - Durvalino Couto Filho
NÃO SEREI
CLEMENTE
Durvalino Couto
Filho (1953)
Não existe
literatura
no Piauí
em Sampa
ou Singapura
quando
apenas
retoco
minha obra
única
com um toco
de pena,,,,,,,,
,,,,,,,,,,,,,,,,,,
como quem bota
florzinhas
no próprio
túmulo
sábado, 20 de dezembro de 2014
Neste NATAL
Neste NATAL
Pedro Ernesto Filho (*)
Vou, primeiro, pedir graça divina
pra fazer um poema de saudade,
definir o que é simplicidade
imprimindo o saber que Deus ensina;
conquistar a pureza campesina
preservando o verdor do vegetal,
ter acesso à Mansão Celestial
ensejando harmonia entre os cristãos,
quando tudo estiver em minhas mãos
dar-lhe-ei de presente no NATAL.
Que se façam presentes no seu lar
a justiça, a poesia e o amor,
a poesia o tornando um trovador
e o amor ensinando a perdoar,
a Justiça disposta pra lhe dar
do DIREITO a virtude e a essência
que os três lhe concedam a anuência
pra dispor do sabor da liberdade,
inibir o terror da vaidade
e combater o dragão da violência.
Que seu lar se transforme em um pomar
onde os solos mais férteis, mais humosos,
gerem frutos sadios, saborosos,
sem a água da chuva lhe faltar,
você próprio se empenhe em cultivar
sem fazer concorrência com ninguém,
dando às plantas o zelo que convém
pra que possa colher milhões de quilos,
no final da colheita dividi-los
com os pobres famintos que não têm.
(*) Advogado efetivo do Banco do Nordeste do Brasil em Juazeiro do
Norte-CE.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Insanidade
Insanidade
Neide Moscoso
um lugar junto à janela
nesta tarde de outono
entre cortina de renda
branca
penteio os cabelos com
recato na penumbra
dos romances antigos e
paixões impossíveis e
me desconheço grafando
nomes nos vidros
da janela
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
CONFISSÕES DE UM JUIZ E OUTRAS (IN)CONFIDÊNCIAS
![]() |
| Contracapa do livro Confissões de um juiz |
18 de dezembro Diário Incontínuo
CONFISSÕES DE UM JUIZ E
OUTRAS (IN)CONFIDÊNCIAS
Elmar Carvalho
Recebi o seguinte
e-mail, enviado pelo professor José Maria Vasconcelos, professor de português e
de literatura, crítico literário e cronista de ótima cepa: “Nobre Elmar, uma
voltinha pela gráfica do Diário do Povo, deparo-me com o funcionário
empacotando seu novo livro, Confissões de um Juiz. Comecei a ler as primeiras
páginas, enquanto aguardava o Kenard Kruel, que me acompanhava a negócio. Pois
não é que, em poucos minutos, devorei mais de 20 páginas? Comoveu-me sua luta
contra o CA. Sua obra vai bombar, por emanar muita espiritualidade e generosidade,
acima do que se pensa tratar só da atividade jurídica. Bravo, nobre escriba.”
Não preciso dizer o
quanto fiquei honrado com o teor dessa mensagem internética, mormente por saber
que seu autor é um crítico literário isento, arguto e de longa experiência, e
ainda por dominar a teoria literária e ser um leitor percuciente e voraz. Qualquer
literato ficaria desvanecido em receber essas palavras de estímulo, sobretudo
porque José Maria Vasconcelos não é dado a fazer elogios gratuitos, dotado que
é de proverbial franqueza.
Em resposta,
encaminhei-lhe pelos mares internéticos este curto “bilhete”: “Fiquei contente
e comovido com suas palavras de incentivo. O livro está previsto para ser
lançado no final de fevereiro. O nobre mestre já está convidado. De qualquer
modo, após o lançamento, faço questão de lhe entregar um volume. Usarei o seu
e-mail como mote de uma crônica que escreverei hoje. Obrigado por suas boas
palavras.” A crônica é este registro diarístico, que ora escrevo.
Após ler o e-mail do
mestre José Maria, fui fazer minha caminhada na Raul Lopes, depois de uma
ausência de mais de uma semana, em virtude de doença e viagem a Parnaíba. Ao
retornar, recebi da Fátima uma agradável notícia, que me pareceu um coroamento
da mensagem virtual acima transcrita. Tratava-se de um telefonema de dona
Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira.
É ela filha de Oeiras,
cidade a que sou ligado, como todos sabem, por laços poéticos, afetivos e
sentimentais. Neta do coronel Orlando Barbosa de Carvalho, um dos mais operosos
prefeitos da velhacap. Viúva do político e deputado federal Themístocles de
Sampaio Pereira. Mãe de Themístocles Filho, presidente da Assembleia Legislativa,
e de Marllos Sampaio, deputado federal.
Havia sido apresentado
a ela na quinta-feira passada, por ocasião do lançamento do livro Enlaces de
Família – uma genealogia em construção, da autoria de Valdemir Miranda de Castro.
Foram meus “apresentadores” o irmão maçônico Bernardo de Sampaio Pereira e Teresinha
Queiroz. O primeiro exagerou minhas eventuais qualidades, e a segunda teceu
considerações sobre o meu livro Noturno de Oeiras e outras evocações, e
principalmente sobre o poema que lhe forneceu a primeira parte do título.
Como dona Anatália tivesse
demonstrado interesse em conhecer o livro e o poema Noturno de Oeiras, prometi
que em breves dias lhe deixaria um exemplar no cartório do qual ela é titular.
Terminei entregando-o logo no dia seguinte. Na terça-feira ela ligou para
agradecer, e aproveitou para fazer acentuados elogios a essa modesta obra
literária, sobre os quais não pretendo entrar em minudências.
Disse ter se emocionado
com sua leitura, e que se sentiu transportada a sua velha Oeiras, terra cheia
de encantos, tradição e cultura. Falou que eu deveria gostar muito de sua
cidade, para ter escrito o que escrevi, tendo minha mulher confirmado essa
assertiva. Aduziu que releu vários textos. Esta última afirmativa, numa época
de poucos e apressadíssimos leitores, corresponde ao maior elogio que um
literato poderia receber nos eletrônicos e cibernéticos dias de hoje.
Ao ser informada pela
Fátima de que eu já editara uma nova obra – Confissões de um juiz – manifestou
interesse em ir ao seu lançamento. Portanto, já tenho duas pessoas interessadas
em adquirir meu livro: dona Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira e o professor
José Maria Vasconcelos. E isso não é pouco, se considerarmos que Machado de
Assis, que era Machado de Assis, dizia ter talvez cinco leitores, quanto muito.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
O Papa tem razão
O Papa tem razão
Cunha e
Silva Filho
Não quero
estar na pele do Papa Francisco. Ele já deu
provas mais do que evidentes e insofismáveis de que as alternativas são escassas tanto no que
concerne à ausência de solidariedade no mundo quanto no se que se refere à fome, às guerras e, por último,
à falta d’água para consumo humano, a chamada água
potável provinda dos rios.
Suas advertências são
firmes e suas palavras têm o peso da
sabedoria tanto no sentido
de observar os erros
materiais quanto no de
perscrutar os complexos problemas
que podem levar os habitantes do planeta Terra a um beco sem saída.
O Papa Francisco tem os olhos para Deus como ainda os tem para os males da vida
leiga, para o lado prático desta,
para uma espécie de conhecimento,
digamos, fora do epicentro
teológico. Sua visão se me mostra aberta, acessível, sem
esoterismos nem excessos teóricos. Seus pronunciamentos não me
parecem dirigidos apenas aos iniciados,
aos eruditos católicos do clero regular
e dos pensadores laicos mais afeitos
às abstrações filosóficas ou
teológicas.
Sua
evangelização, suas prédicas se dirigem ao homem da rua, aos humildes, aos famintos, aos ainda milhões que não têm o que comer enquanto
outros se refestelam no puro
consumismo das sociedades hedonísticas,
principalmente de natureza
capitalista do Ocidente tanto quanto em parte do Oriente. Ora, tal
exacerbado modo de vida
epicurista, sibarita, perdulária, indiferente à sorte dos despossuídos tem suas
raízes na exploração dos mais fracos, na acumulação
da riqueza às custas de
meios ilícitos, corruptos,
frutos de falcatruas, de conchavos
feitos entre governantes e empreiteiras com a intermediação de
políticos que venderam alma e a
dignidade à diferentes máfias
das sociedades, cujo alvo são o lucro fácil e a ganância
pantagruélica geradores do individualismo com
ausência de parâmetros de vida
ética e de moralidade nas
ações do homem contemporâneo.
Quanto às
guerras que despontam aqui e ali no mundo,
não antevejo para elas melhoras
em direção à paz duradoura. Os organismos internacionais de paz fazem sua parte,
contudo as soluções concretas,
os conflitos não dão sinal de
chegarem a compromissos de
pacificação dos espíritos. Os
exemplos estão aí, na
Ucrânia, na Síria, no Afeganistão, na Coreia do Norte, em Israel e na Palestina só para mencionar uns poucos
exemplos de regiões conflagradas.
O pior de
tudo é que jovens
ingleses, americanos, franceses
ou de outras nacionalidades, se
bandeiam para o fanatismo de terroristas muçulmanos, dos jihardistas, do
denominado Estado Islâmico, com
pretensões expansionistas de
natureza geopolítico-religiosa. Sem disporem de amadurecimento ideal a uma compreensão equilibrada
dos problemas do mundo, esses mesmos
novos ocidentais, escolados
pelos terroristas e fanáticos,
se transformam em verdugos e
degoladores encapuzados com
sotaque britânico em cenas humilhantes
e horripilantes vistas pelas tevês
mundiais, com aquelas figuras mascaradas e vestes pretas,
prontas a se tornarem executores
das ações covardes contra jovens
ocidentais, alguns dos quais
jornalistas.
Os pais dos que se convertem
ao islamismo deformado pelo fanatismo, são deixados
para trás em desconsolo pela
opção religiosa (?) dos filhos;
ficam sem saber o que fazer e
procuram os motivos que
levaram seus filhos a
conversões religiosas e ideológicas. Os
terroristas que determinam as ações de bárbaros contra o ser humano põem a
culpa nos Estados Unidos, que, segundo eles, andam
bombardeando regiões onde
se homiziam grupos terroristas. Homens que se
tornam terroristas escudados
por supostos princípios
religiosos na realidade não
são verdadeiros praticantes do islamismo São
contrafações religiosas. O mundo fica,
assim, de ponta cabeça.
O terceiro
problema, lembrado pelo
Santo Papa, que assombra
o mundo, é a água. Esse líquido precioso,
condição essencial da vida,
já está dando sinais de escassez, e, aqui no Brasil,
tem assustado a população, sobretudo a de São Paulo. Todos nos lembramos do
chamado polígono das secas, flagelo
do Nordeste brasileiro e ao
mesmo tempo regalo de
políticos que se
aproveitaram do que se chamou “indústria
da seca.” Quem já imaginou
o grande estado de São Paulo, a
sua capital e o seu interior às voltas com a gravidade
da falta d’água. Para muitos
politiqueiros de má índole, a seca do Nordeste era um
prato cheio para manter
permanentemente sob sua dependência e cabresto
político-eleitoreiro, os flagelados dessa desgraça que tanto
assola aquela região. Foi a falta
d’água, de chuva, com a sua
consequência, a seca, que, no
Nordeste, inspirou o clássico romance
Vidas secas, de Graciliano Ramos.
A saga de
Fabiano é a do retirante acossado pela
fome, pela seca e pelo descaso
governamental. No Oriente,
regiões antes desérticas, se
transformaram em solos férteis. No
Brasil, ao contrário, a falta
d’água, agora se transfere para a
“locomotiva do país.”
Os governos de
São Paulo foram imprevidentes
e incompetentes, botando toda a
culpa na falta de chuva, na estiagem,
quando se sabe que as razões são mais profundas e estão, pois, ligadas
à falta de cuidados com os rios que abastecem São Paulo, na capital e no interior.
Uma outra
causa de desídia
governamental é a completa
ausência de planejamentos para
salvar as fontes hídricas do
Tietê que, no coração paulistano,
se transformaram em vergonha nacional, com o rio poluído, lugar de
despejo de sujeira industrial, de
lixo urbano, decorrente da ignorância de seus habitantes, ou seja, de falta de educação e carinho
para com o Tietê.
Como contrasta
tudo isso com os rios europeus e norte-americanos e de outros países!. O
Tâmisa, o Sena, o Danúbio,
o Mississipi, o Nilo, o Tejo, por exemplo, são, à vista dos nossos, modelos de
preservação de suas
nascentes, são parte viva
de seus povos que
os tratam de forma humana, i.e.,
como dádivas da natureza em benefício de povos
civilizados.
O mesmo poder-se-ia afirmar do rio São Francisco, do outrora famoso Velho
Chico, o "rio da integridade nacional.” O governo Lula, com
o populismo de sempre,
resolveu desviar o curso
desse rio, não atendendo aos
apelos de um defensor, se não
me engano, um
padre, da integridade física e
navegável do grande rio,
fazendo até greve de fome.
O
objetivo do governo era
levar água para áreas do
Nordeste secularmente
assoladas pela seca. Até
agora, a obra não foi
concluída e o que se fez
resultou num gravíssimo crime,
o de que a nascente principal do
São Francisco já secou ou está secando.
São Paulo, na capital e no interior,
hoje está fortemente dependente das bênçãos divinas, da
permissão de São Pedro para que
faça chover em São Paulo a fim de
auxiliar o que pouco se tem de
reservas d’água pressionada por uma
capital altamente demográfica
e sem planejamento urbano
adequado.
Do Norte já
sinalizam problemas da bacia Amazônica. O maior rio do mundo em volume d’água já se ressente com
a criminosa depredação do homem
brasileiro, através das queimadas,
do desmatamento. O “pulmão do mundo” é uma riqueza
inestimável e responsável pelo
equilíbrio do meio ambiente em
nível planetário.
Durante a
recente campanha presidencial
nenhuma dessas questões que afligem
a saúde de nossas reservas
hidrográficas se discutiu, o que
é muito grave. As vozes politiqueiras se calam
diante dos magnos problemas nacionais, pois estão mais pensando em macroeconomia, superávit primário, divisão
orçamentária, aumento de salários
de deputados e de benefícios para
eles como o auxílio moradia e quejandos.
Como aumentar
salários desses políticos que, mesmo
sem aumento, já desfrutam de uma vida de nababos? É por isso que, nas redes sociais, cresce assustadoramente o número de
cidadãos brasileiros
indignados contra os nossos
políticos e os nossos governantes, contra igualmente novas
mordomias para juízes federais
que estão pleiteando
auxílio-moradia, eles próprios que já
percebem altos salários
diametralmente injustos se comparados aos salários dos barnabés, dos aposentados pela Previdência Social
e de outros salários de órgãos
vitais ao progresso da nação, com militares das Forças Armadas, Polícia Federal,
professores do ensino fundamental
e médio federal, médicos federais e outros profissionais do
setor federal. Esses cidadãos, através
de coletas de assinaturas virtuais,
estarão encaminhando, por via
judicial, aos governantes e
políticos que suspendam suas pretensões descabidas de
fortalecerem seus privilégios
em detrimento do bem-estar do
povo brasileiro.
Vejam outra
gritante injustiça que se comete
neste país: um funcionário de uma
estatal como a Petrobrás, e não estou
falando de executivos do alto
escalão, recebe sessenta mil
reais mensais, como é exemplo um
deles implicado nos escândalos
da Petrobrás. Imagine-se o que
não recebem os altos funcionários daquela estatal que, não satisfeitos com os
seus salários de marajás, ainda
por cima se envolvem em
falcatruas com empreiteiras
e políticos inescrupulosos. A ganância deles não tem
tamanho e o seu limite são os milhões
ou bilhões desviados para
bancos estrangeiros e a
ostentação desavergonhada de uma
vida-paraíso aqui na
Terra.
Para eles, só uma
solução: que mofem em masmorras sem direito a progressão da sentença. Desta forma, ajudarão a
minimizar a impunidade brasileira.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
ASSOMBRAÇÃO DE PLACENTA
ASSOMBRAÇÃO DE PLACENTA
Jacob Fortes
Sétimo e Oitavo eram irmãos. As suas infâncias, no regaço
libertário do sertão, escoaram-se remansosamente sob as notas da passarada em
festa, porém pontuadas por momentos que marcam qualquer quadra infantojuvenil:
contendas, vivacidades, ledices, daninhezas.
Enquanto Sétimo revelava, desde cedo, gosto pelos estudos,
traço da mãe, puxadora de novenas, Oitavo, forjando-se nas coordenadas do pai,
consagrava-se à vida campestre e seus instantâneos.
A separação dos irmãos tornou-se inevitável. Sétimo, em busca
de seu destino, desatou-se cedo, ao primeiro buço, pelo mundo, meio que
assustado com a própria coragem, em busca de estudos eminentes, deixando Oitavo
nos quefazeres da vida campesina. Isso foi nos tempos em que a vida agreste era
marcada pela fé, pela religiosidade, pelas histórias de assombração e pelo
Lunário Perpétuo: um almanaque popular, bíblia dos camponeses, ilustrado com
xilogravuras e difundido, mais das vezes, por meio de oitivas durante os serões
familiares sertanejos. (o Lunário foi inventado em Valência m 1594 e expurgado
pela inquisição em 1632).
Enquanto Sétimo, ao cabo de anos, prosperava no magistério
superior na capital, Oitavo, — cujo vezo irresistível consistia em realizar
caçadas para posteriormente, assentado nos calcanhares, recontá-las com pitadas
de achegas fantasiosas — crescia na fama de contador de histórias; mentiroso
ante as bocas delatoras. Do glossário de histórias desse façanhudo contador,
desarquivei ASSOMBRAÇAO DE PLACENTA para difundi-la entre os que ainda rendem
homenagem ao fabulário brasileiro. Ei-la.
A caçada, infrutífera, chegara ao termo. Oitavo, fatigado,
exortou os cachorros, esfalfados, a pegarem o caminho de casa; estes à frente,
Oitavo atrás. O clarinar altissonante do
carijó “lasca-peito”, saudando a alvorada, reafirmava a Oitavo a proximidade de
sua casa. Repentinamente, na pretidão da noite, um vulto, indistinto, mas que
remetia a uma noiva de véu, pôs-se no meio do caminho, suspenso do chão feito
um pêndulo retesado. Conflagrado de arrepios Oitavo, num misto de reprimenda e
obsequiosidade, vozeou: — por favor, retire-se do meu caminho! A figura branca, verticalizada e dormindo na
mudez, permaneceu estática; envolta no que parecia ser um jaleco alvacento.
Oitavo repetiu o aviso agora de forma exasperada, mas debalde. Quedo estava e
quedo permaneceu o espectro. Baldadas todas as advertências e evitando
fraquejar no medo, avultado, que lhe fizera decair a coragem, Oitavo bradou: —
se deseja algo de mim diga logo, mas retire-se do meu caminho. Se não sair por gosto seu sairá pelo gosto da
minha faca e sob ela cairá. Mais uma vez a aparição manteve-se inerte, fato que
excitou Oitavo ao combate; movido, evidentemente, por um medo maior que a
coragem. Sem nenhum tipo de reação do fantasma, Oitavo, de faca à mão, instintivamente
arremessou, com ímpeto, uma pedra, circunstância que fez o vulto, incontinente,
desabar como se tivesse dependurado nas alturas; desapareceu por completo.
Pasmado, Oitavo escutou, na sequencia, o relincho da Medalha, sua égua de
estimação, da cor do azeviche, que, sofrendo na dor de demorado partejo,
assustara-se com a pedra que lhe caíra à anca e, arrojando-se à frente, num
impulso, conseguira, enfim, expulsar o potrinho de modo cabal. A consequente
ruptura do envoltório placentário, cândido, fez desaparecer, por completo, a
assombração de placenta.
“Nem tudo que parece é, porém tudo é se assim lhe parece”.
domingo, 14 de dezembro de 2014
VIDA IN VITRO
VIDA IN VITRO
Elmar Carvalho
andavas pelas ruas de outrora
à procura de ti mesmo
que se encontrava aos pedaços
bêbedo nos bares
aos trancos e barrancos
se arrastando pelos lupanares
tortuosamente andando
pelas ruas tortas.
eras infante e juntavas varapaus
no sonho maluco de tocares
a lua cheia que depressa minguava.
levantaste a túnica da freira
não por sacrilégio ou impudência
mas apenas para constatares se
ela possuía duas pernas e dois
seios como todas as mulheres.
eras infante e quebraste
o joão teimoso, não por maldade,
mas para descobrir o misterioso
mecanismo de sua teimosia.
não, não eras doido, não eras lúcido,
eras apenas um translúcido menino.
escondias tuas vergonhas, tuas frustrações
e teus medos, como todos nós, como se esconde
lixo debaixo dos tapetes de luxo.
recordas a menina que te golpeou
com um não, apenas por capricho e maldade.
recordas a garota que te amava
e que desdenhavas talvez por capricho ou vingança.
eras poeta e criaste uma quimérica
amada imortal e imaginária, inatingível
em sua torre de marfim.
ela talvez também te quisesse,
mas a fizeste intocável.
enternecido, lembras-te da empregadinha
que bolinaste, e que por bondade, amor
ou desejo não te denunciou, com alaridos
e gritos histéricos, estridentes.
eras jovem e te julgavas alexandre
e bonaparte, senão mesmo um deus,
e já seguravas a coroa de ouro e o cetro
e já acariciava tua fronte o louro triunfal.
tudo eram conquistas e tudo conquistavas.
eras jovem e eras frágil
e te sentias impotente quando
contornavas as calçadas de ouro dos hotéis de luxo
ou quando avistavas a menina rica e bela,
com as suas jóias e as suas roupas elegantes e caras.
não sabias de seus desejos, de suas ânsias
e doenças e de seus nojos de si mesma.
talvez ela te amasse, mas o teu orgulho
fê-la afastar-se de ti.
ainda procuras o trolley que desviaste
com teus amigos, para uma aventura sem fim
até que os trilhos paralelos
se tocassem no infinito.
ainda assistes a filmes de bang-bang
só para sentires a emoção do tempo
em que teu pai te levava para o reino
encantado e mágico do velho cine nazaré
que em tua memória ainda remanesce.
sentes ainda o cheiro dolorido e pisado dos alecrins
da paixão do senhor morto, do horto das agonias,
das chagas vermelhas, maceradas, da túnica
roxa, brilhante, da coroa de espinhos, dos cravos,
não os de cheiro, mas os de ferro, que ferem...
eras infante, então, e como sofreste
e como fizeste sofrer tua mãe, madona,
mater dolorosa e pietá sofrida e consoladora
de teus sofrimentos de então e de sempre.
buscas os cheiros embriagantes dos
brancos lírios de são josé e das rosas vermelhas
do velho caramanchão de antigamente.
os lírios se transformaram em cálices
de amargura e nas rosas depositas
o orvalho de tuas lágrimas pelo mundo
perdido num canto escuro do passado
e que não restauras, nem mesmo no
terceiro ou no sétimo dia de tua agonia.
a magia da música e dos álbuns de
família
te trazem alegres e pungentes recordações
e te fazem viajar no tempo e no espaço
do turbilhão das mesmas emoções.
solitário, no silêncio da noite
pensas nos segredos, vícios
e incestos existentes na cidade,
nas feridas abertas pelos mais acerbos sarcasmos
e nos espasmos de brutais e homéricos orgasmos.
passeias pelos becos e logradouros do passado
e eles te conduzem ao tempo
que buscas em desespero.
perdido e cego caminhaste pelos labirintos,
teseu e minotauro de teu próprio destino,
nos confrontos que travaste com teu ego.
esfinge e édipo, não decifraste
teu enigma, e em vão buscaste
as pitonisas de outrora e de agora,
e inutilmente foste teu próprio ilusionista.
mas eras sábio e em algum momento
te reencontraste, ao te tornares
mais simples e mais puro,
malgrado as pedras, os lodos e as quedas.
em vão tapaste os ouvidos
para as palavras que te feriram
e inutilmente selaste a boca
para as palavras ferinas que proferiste.
não, não eras anjo nem demônio,
eras apenas um deus de barro
e teu sonho secreto e sagrado
foi sempre a transcendência
mas decepado de uma das asas
foste sempre um anjo torto coxo
capenga no a esmo vôo sem pontaria.
procuras ainda a pedra azul
de tua serra encardida.
esperas ainda no pátio da igreja
o ônibus que sempre vinha
demasiado cedo ou demasiado tarde.
lamentas a namoradinha jovem e esbelta
que envelheceu e engordou.
debalde procuras a sua cintura
para ternamente lhe pousares as mãos.
antes não mais a tivesses revisto.
ainda buscas a namoradinha
de uma noite de verão – ou inverno,
não importa, nada mais importa agora.
caim arrependido, pedes perdão:
já não suportas o onisciente olho do senhor.
sofres pesadelo pela matemática
que te torturava, e acordas suado, ansioso.
procuras o batente da calçada de outrora
onde te cevaste nos lábios e nos seios da amada.
reencontraste a mulher que te amou
sem esperança, em face de tua indiferença,
e chafurdaste em sua carnívora rosa de carne,
talvez para feri-la novamente,
agora com a fúria e com o tédio.
devias estar feliz. realizaste teus sonhos
de consumo. tens uma boa mulher.
teus filhos são maravilhosos. tens
um bom emprego. no entanto ainda
não estás saciado. esperas um milagre
mas não sabes se os milagres ainda existem.
estás perdido: tens inveja de deus
e não sabes se é virtude ou pecado.
equilibrista, caminhas com teus malabares
e alforjes por uma corda-bamba estendida
de menos infinito a mais infinito.
caminhas para a morte.
muitos dos teus amigos já são mortos
e te procuram com insistência.
infante, desejavas crescer
para realizares os teus sonhos de conquista.
adulto, queres retornar ao país de tua infância.
não sabes o que queres.
queres apenas morrer, esquecer.
queres viver eternamente num mundo
que não é o teu. contudo, tens esperança
e agora teces um poema sem fim
com o novelo infinito de tua vida
que se desdobra do nada ao tudo...
sábado, 13 de dezembro de 2014
Isótopo Césio-137 ou Jesus Cristo?
Isótopo Césio-137 ou Jesus Cristo?
José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com
Dezembro de
confraternizações e euforia comercial. Espírito natalino de festejar Jesus se
concentra, paradoxalmente, no figurino lojista de papai noel. A indústria do
visual e dos belos presentes encanta, mas confunde e entorpece o exercício do
transcendental e invisível. O espírito natalino transforma-se pó descartável e
venenoso. Então me vem à lembrança o isótopo Césio-137, que vitimou centenas de
incautos e desinformados.
13 de
setembro de 1987, Goiânia, Goiás. Dois caçadores de lixo vasculhavam as antigas
instalações do Instituto Goiano de Radioterapia (também chamado de Santa Casa
de Misericórdia), no centro de Goiânia. Os caçadores se depararam com um velho
aparelho de radioterapia abandonado. Levaram o equipamento em um carrinho de
mão. Desmontaram o aparelho e venderam as peças em oficinas de ferros velhos da
cidade. Não tinham a mínima ideia do perigo a que se expunham.
Nem tudo
que resplandece e parece sobrenatural é divino, mas maligno e mortal. Devair
Alves Ferreira comprou o resto da máquina, desmontou-a. Encantou-se com pequena
porção de um produto que, no escuro, brilhava, irradiando coloração azul.
Devair não sabia o perigo a que estava se expondo, manipulando apenas 20 gramas
de isótopo de cloreto de césio-137, um pó branco parecido com sal de cozinha.
Resolveu exibir o achado aos familiares e vizinhos. Todos acreditavam tratar-se
de algo sobrenatural. Passavam o produto nos braços. O pó que resplandecia e
parecia sobrenatural espalhou-se em grande área da população. Os dois caçadores
também foram expostos ao césio-137 e contaminaram dezenas de pessoas.
Encantamento geral.
Em uma
semana, apareceram as primeiras vítimas da contaminação, com vômitos, náuseas,
diarreias, tonturas. Médicos descobriram que se tratava de Síndrome Aguda de
Radiação. Só no dia 29 de outubro de 1987, a esposa de Devair levou o
equipamento à sede da Vigilância Sanitária, que constatou a existência de
material radioativo. Físicos nucleares compareceram à cidade. Colheram roupas
das vítimas, terra e objetos do local, tudo que manifestava efeitos da radiação
atômica. Já era tarde. Mortes ocorriam. Devair, a filha e sua esposa
faleceram. Dezenas de mortes. Outras
vítimas adquiriam câncer. Montou-se um lixão de material atômico de 6 mil
toneladas de roupas, utensílios, materiais de construção e ferramentas em 2.900
tambores e contêineres revestidos de concreto, que durarão 180 anos de
descontaminação. O césio-137 causou um dos maiores desastres radioativos do
planeta. E, olhe, com apenas 20 gramas de césio-137.
A todo
instante, em todo mundo, cristãos repetem a ceia de Jesus Cristo: Isto é o meu corpo
... meu sangue ... comei, bebei. Fazei isto em memória de mim ... estarei
convosco... Uma pequena porção de pão e vinho, milagrosa presença de Cristo. Difícil entender ou
aceitar tamanha irradiação divina. No entanto, contam-se histórias fantásticas
de quem tocou, comeu e bebeu a pequena porção milagrosa, que já curou muita
gente de males, especialmente do espírito.
Coisas tão
fugazes e transitórias, como presente de um celular ou vidro de perfume, nos
fascinam tanto quanto a translucidez de um césio-137. Nem sabemos distinguir o
que acumulamos, se nos seduz para a verdadeira felicidade. Desculpe a analogia,
o espírito natalino exige escolha mais significativa, talvez em forma de
pequena porção que não seja cloreto de césio-137, mas partícula de pão e
gotículas de vinho sagrados. O espírito natalino precisa se encantar com Jesus
Cristo e descartar papai noel, reluzente, mas falso.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
O último varão do clã dos Pacheco de Campo Maior
O último varão do clã dos Pacheco de Campo Maior
Eng. Heitor Castelo Branco
Da academia Piauiense de Letras
Morreu em Fortaleza, onde exercia medicina psiquiátrica o
médico campomaiorense, Francisco das Chagas Pacheco.
Filho primogênito de Yvon Pacheco e Dagmar de Miranda
Pacheco, era pessoa da mais alta simpatia, amigo de todos os seus amigos que
muito o estimavam, mercê de sua alegria pessoal e fidalguia no trato com as
pessoas.
Meu cunhado e meu amigo, em cuja companhia e do seu pai,
caçamos e pescamos por inúmeras paragens deste lindo Brasil: Piauí, Maranhão,
Pará, Mato Grosso do Sul, Ilha do Bananal e Pantanal de Mato Grosso.
Cursou medicina no Rio, onde morou e clinicou por muitos
anos. Depois, veio para Teresina, radicando-se e exercitando sua especialidade
de Médico Psiquiátrico, tendo sido Diretor da Colônia Psiquiátrica de Teresina.
Posteriormente, transferiu-se para Fortaleza estabelecendo Clínica com grande
número de clientes particulares,
contribuindo ainda para a formação de inúmeros profissionais que passaram pela
sua monitoria.
Profissional de muita bagagem, era mui estimado pelos colegas
de profissão, inclusive pelo grande vulto da psiquiatria piauiense, o
inolvidável Clidenor de Freitas Santos, o criador do Hospital Meduna em
Teresina.
Francisco foi casado em primeiras núpcias com a pernambucana
Maria do Rosário Pereira. Tiveram os seguintes filhos: Yvon Neto, Adriana e
Francisco Antônio, este falecido ainda na primeira infância.
Casou-se novamente com a paulista Maria Helena Rosseti Pacheco, Psicóloga, que conheceu em curso de psiquiatria em
Londres. Deste último enlace, tiveram os filhos, Emilio; médico, que concluiu
Doutoramento na Alemanha; Marcela,
Psicóloga e tradutora, casada e residindo em Barcelona, na Espanha.
Irmão de José Paulino Pacheco, de saudosa memória. Eram suas
irmãs, minha esposa Angélica; Yolanda; viúva de José Parentes Sampaio; e Yêda, casada com o Eng. Carlos Pires
Ferreira, estes residentes em Fortaleza.
Francisco, todos os meses vinha para Campo Maior, no Piauí,
onde se realizava na sua paixão pela Fazenda Furnas, herdada de seu genitor
Yvon.
Erudito, com vasta leitura dos clássicos da Literatura
brasileira e mundial, Francisco era detentor de inumeráveis cursos da ciência
de Sigmund Freud.
Sua presença em eventos sociais e em reuniões ocasionais
mantinha em volta de si inúmeros amigos e admiradores, em virtude de sua
conversação alegre e amorável.
Que suas boas ações neste planeta iluminem seu caminho
ascensional para chegar ao Criador.
Teresina, Piauí , 10 de dezembro de 2014.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
S O L I D Ã O
S O L I D Ã
O
Alcenor
Candeira Filho
solitude em
pequeno quarto quase vazio
com cama
ar-condicionado estante banheiro
desolada
solidão entre quatro paredes
silenciosamente
caladas o tempo inteiro
solidão com
Jesus Cristo em moldura dourada
com mãos e
com pés cravados em pesada cruz
a
olhar, para quem O olha, co' olhar de piedade...
solidão de
quem só escuta no abrigo santo
voz de vento
lá fora e voz de livro em estante
como numa
prece: Ave, Maria, gratia plena,
Dominus
tecum benedicta tu in mulieribus...
quarto pleno
de tudo no vazio do nada
- cômodo que
mais parece aposento de monge
mas
verdadeiramente cômodo de poeta.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
UM OLHAR SOBRE ESPERANTINA
10 de dezembro Diário Incontínuo
UM OLHAR SOBRE
ESPERANTINA
Elmar Carvalho
No sábado passado, dia
6, recebi das mãos de seu autor, o professor, pesquisador e escritor Assis
Fortes, o livro Um olhar sobre Esperantina, sua terra natal. A capa ostenta uma
bela fotografia panorâmica da urbe, feita por Isael Lustosa de Castro, através
da qual se denota o seu progresso. Vê-se, ao longe, uma nesga do rio Longá,
aparentemente com suas matas ciliares ainda preservadas, ao menos na região
retratada.
O livro traz
depoimentos e comentários de vários intelectuais, todos reconhecendo os méritos
de Assis Fortes, como historiador e preservador mor da memória histórica e
arquitetônica da cidade. A orelha, de denso conteúdo, foi escrita pelo
jornalista e agitador cultural Elias Júnior, filho de Elias Medeiros, que me
revelou, tempos atrás, haver conhecido meu pai, quando ambos ainda eram jovens.
Pinço-lhe este trecho: “Assis Fortes nos faz sentir saudade do que a gente não
viveu. E nos apresenta uma cidade perdida na lembrança, desenhada em cada
relato com peculiaridades, desde o toque do sino da matriz até as raspas de
cera de carnaúba a encerar o assoalho do Cassino...”
Algumas vezes estive em
Esperantina, tanto em viagem a serviço, na época da extinta Sunab, como em
atividade cultural. Mais de trinta anos atrás, no apogeu de minha juventude,
saí de Parnaíba numa motocicleta, com o Reginaldo Costa, para fazermos uma
entrevista com o padre Ladislau João da Silva, que havia sofrido uma agressão
física, por causa de suas pregações e atividades libertárias e de
conscientização social. A entrevista foi publicada no jornal Inovação, em cujo
número foi publicado um poema de minha autoria, dedicado a esse sacerdote.
Há oito anos, quando
completei meio século de vida, lancei o meu livro Lira dos Cinqüentanos nessa
simpática cidade. Hospedei-me na casa dos pais da professora e historiadora
Teresinha Queiroz, que lhe fez a apresentação, em solenidade memorável, ocorrida
no auditório do fórum da Justiça Estadual.
Entre várias outras
pessoas, estavam presentes advogados, o magistrado Almir Dib Tajra, parentes e
irmãs da Teresinha Queiroz, o procurador de Justiça Alípio Santana, o escritor
A. Sampaio, creio que o historiador e genealogista Valdemir Miranda, o médico
esperantinense Almir Alves Rebelo e sua esposa, a professora da UFPI Emília
Gonçalves Rebelo, e o professor, compositor e instrumentista campomaiorense
José Francisco Marques.
A pretexto de contar
peripécias e proezas de Francisco Fortes, seu pai, o autor discorre também
sobre fatos da história de Esperantina, alguns mais antigos e outros bem mais
recentes, mas que interessam aos pesquisadores, porquanto revelam episódios da
história imediata, um pouco da história do cotidiano, em que certos costumes e
peculiaridades são mostrados. Embora Assis Fortes seja um entusiasta de sua
terra, não é um cego ufanista, e mostra também as suas mazelas, evidentemente
apontando sugestões e soluções aos problemas que denuncia.
Conta homericamente as
façanhas de Francisco Fortes, quase todas jocosas, muitas das quais ficaram
imortalizadas no anedotário oral da cidade. Além de esse personagem ser um tipo
brincalhão, dado a fazer “pegadinhas” com os seus amigos, tinha uma força
descomunal. Numa dessas proezas, em que utilizou seu vigor físico, segurou uma
pesada estaca, que se inclinara perigosamente, para que os fogos de artifícios,
nela dependurados, não atingissem as pessoas, que se encontravam no logradouro,
onde o evento festivo ocorria. Francisco Fortes era, literalmente, um forte.
Em outro episódio,
depois de haver tentado por várias vezes conter um bêbado, que incomodava os
clientes do comércio em que trabalhava, retirou do recinto o gordo batoré,
suspendendo-o, com um só braço, pelos cabelos. Era, não resta dúvida, uma
espécie de Maciste da velha Retiro da Boa Esperança, digno de uma destacada
participação nesses velhos épicos da cinematografia italiana. Era, com efeito,
um legítimo Hércules de uma nova e verídica mitologia.
Parte do livro é
composta de um misto de artigos/crônicas, geralmente concisos e de pequeno
tamanho, sobre variados assuntos, mas todos referentes a Esperantina, e quase todos
de caráter memorialístico, em que fatos históricos e costumes são abordados,
ainda que com leveza e sem minudências bibliográficas.
Chamou-me especialmente
a atenção a entrevista com o ectoplasma do “capitão” cigano Benjamim Medrado,
no ensejo da memoração do centenário da tragédia cigana, ocorrida no velho povoado
de Retiro da Boa Esperança, de que se originou a cidade de Esperantina. Essa
tristemente célebre chacina, praticada em 1913 por militares da Polícia
piauiense, é revista e, de certa forma, passada a limpo nesse texto.
Fiquei desconfiado
sobre a veracidade da ocorrência dessa conversa de Assis Fortes com o suposto
espírito do capitão Medrado, pois sei que o nosso autor é católico praticante e
fervoroso. Também estranhei porque tanto as perguntas do autor como as
respostas do ectoplasma eram repletas de dados históricos, presumivelmente
precisos, inclusive com citação de fonte e data, como se houvera sido feita
previamente uma pesquisa.
Preferi ignorar esses
detalhes e procurei lê-la como se fosse realmente uma conversa com alguém que
já fora “para o outro lado do mistério”. Contudo, as aspas e a nota de rodapé
vistas na página 96 me levaram à conclusão de que a materialização do capitão
cigano Benjamim Medrado era mesmo um recurso fictício do autor para atrair mais
ainda a atenção do leitor.
Caso a aparição do
fantasma do cigano Medrado tivesse sido real, gostaria que Assis Fortes lhe
tivesse perguntado alguma coisa sobre como é a existência além desta vida
terrena. Brás Cubas, que, pela arte e feitiço do Bruxo do Cosme Velho, escreveu
as suas memórias póstumas, nada esclareceu sobre a vida no além-túmulo,
preferindo falar de sua vida neste velho mundo terráqueo, fazendo mesmo questão
de consignar: “... evito contar o processo extraordinário que empreguei na
composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas
nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra.”
O certo é que ficamos
sem saber como Brás Cubas teria escrito e publicado sua obra póstuma, fato que
não aconteceu com o texto de nosso bravo Assis Fortes, que teria se comportado
como um legítimo médium vidente. Contudo, como no final esclarece o autor da
entrevista fictícia, trata-se de um texto repleto de informações verídicas,
baseado em boas fontes históricas e em depoimentos orais de pessoas sérias e testemunhas
presenciais do trágico fato histórico.
Um olhar sobre
Esperantina é um olhar instigante de filho e de amante, que zela, mas desvela e
revela, que aprecia e admira os encantos desse torrão, mas desnuda as suas
mazelas e defeitos, em busca das correções e do aperfeiçoamento; que lhe exalta
as louçanias e belezas, mas também investiga o que precisa ser investigado e
trazido à luz da publicidade.
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