segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Fonseca Neto, seus vagões e a pátina do tempo

Os livros estão disponíveis nas livrarias acima indicadas


DIÁRIO

[Fonseca Neto, seus vagões e a pátina do tempo]

Elmar Carvalho 

21/12/20

No grupo de WhatsApp de nossa Academia Piauiense de Letras, encontrei a seguinte comunicação do acadêmico Nelson Nery, postada no dia 17, quinta-feira: “Parabéns. Já comprei os 2 e aprovei. Escritor excelente e pessoa humana mais ainda”. NN se referia aos livros A pátina do tempo e História, vagões. Ato contínuo me dirigi à Livraria Entrelivros, onde adquiri os dois livros.

A seguir, postei o seguinte comentário: “Seguindo o exemplo e as pegadas do bravo Nelson Nery, também já adquiri os dois livros do caro confrade e amigo Fonseca, ao tempo em que lhe endosso o breve comentário elogioso. Parabéns, Mestre Fonseca, por mais esta importante empreitada.”

Como já tive oportunidade de dizer, conheço o Fonseca desde o final dos anos 1970, embora, na época, ele morasse em Teresina, e eu em Parnaíba. Foi através de movimentos e política estudantis, que nos conhecemos. Tive a honra de que ele participasse de minha posse como presidente do Diretório Acadêmico “3 de Março”, circunscrito a todo corpo discente do Campus Ministro Reis Velloso da UFPI, que recentemente deu origem à Universidade Federal Delta do Parnaíba. No ano seguinte, salvo engano, ele foi eleito presidente do Diretório Central dos Estudante – UFPI. Tive a oportunidade de lhe dar o meu apoio eleitoral.

Embora esteja adoentado e um tanto indisposto, resolvi escrever um pequeno texto, para divulgar o seu livro A pátina do tempo perante uns poucos amigos maranhenses. Mas, depois, resolvi enviar a minha divulgação para quase todos os meus contatos de WhatsApp. Eis o que escrevi:

“Acabo de adquirir na Livraria Entrelivros a excelente obra ‘A pátina do tempo’ (foto acima), um profundo e elucidativo estudo sobre a cidade e o notável e vetusto patrimônio histórico e arquitetônico de São Luís - MA. O livro é oriundo de sua tese de doutorado, feito na Universidade Federal do Maranhão. Traça um histórico desse patrimônio, bem como analisa o seu valor artístico e o seu estado de conservação. A aludida tese tem o título formal de ‘A pátina do tempo: concepção e prática na política pública do patrimônio histórico em São Luís’.”

Contudo, agora achei por bem dizer algumas palavras sobre o outro livro, igualmente notável, titulado História, vagões. Em páginas preambulares, referindo-se aos textos do livro, Fonseca esclarece: “Compõem eles a página-seção Nos Vagões da História, da Revista Cidade Verde, exitosa iniciativa editorística do grupo empresarial homônimo e que tem forte presença midio-cultural no Piauí, em particular na capital, Teresina, cidade também anunciada na poética de Coelho Neto e Vespasiano Ramos como Cidade Verde.

Como o espaço de jornais e revistas, assim como o de outros periódicos, é sempre restrito, apertado, Fonseca sem dúvida teve de exercitar toda a sua capacidade de síntese ou concisão. Por conseguinte, teve que ser objetivo e direto, sempre ou quase sempre, porque alguma pitada de poesia e torrencialidades às vezes é preciso, e o autor é mestre nesse mister.

Dessa forma, no livro foram coligidos artigos, crônicas e pequenos ensaios, versando diversos assuntos, conforme o autor julgasse oportuno e apropriado, de acordo com o plano que traçou para a série ou coluna. Portanto, alguns dos textos delineiam breves biografias e perfis, se reportam a fatos da história piauiense, a eventos culturais e a acontecimentos recentes importantes ou que tiveram grande repercussão. Comenta livros e solenidades culturais, que lhe despertaram o interesse.

Foram editados com esmero, em bela programação visual e gráfica, a partir da capa, e não podem faltar na estante de bibliófilos e amantes da cultura e da história.    

domingo, 20 de dezembro de 2020

Seleta Piauiense - Ednólia Fontenele

Fonte: Google/TripAdvisor


Desejo

 

Ednólia Fontenele (1960)

 

Sinto meu verso triste

Triste sinto meu verso

Insatisfeita com meu verso

Ando navegando pelo delta do Parnaíba.

Vendo o que nunca puder ver. 


(1988)


Fonte: O Piaguí on line

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Benjamim Santos, o Jardim dos Poetas e O Bembém

 

Fonte: Google/Imirante

Jardim dos Poetas já depredado    Fonte: Google/Parnaíba em Nota
E-book disponível na loja virtual Amazon
Benjamim visto por Gervásio Castro





DIÁRIO

[Benjamim Santos, o Jardim dos Poetas e O Bembém]

Elmar Carvalho

18/12/20

Em mais de uma matéria, já tive oportunidade de tecer considerações elogiosas ao escritor e dramaturgo Benjamim Santos. Falei de sua carreira vitoriosa no Recife e no Rio de Janeiro, de suas glórias e conquistas, e de seu retorno a Parnaíba, sua terra natal, onde exerceu o cargo de secretário de Cultura, na gestão do prefeito Paulo Eudes, em que realizou eventos culturais, instalou o Museu do Trem e construiu o Jardim dos Poetas, no entorno do mercado público central de Parnaíba.

No Jardim havia um monumento, caramanchão, suportes e placas com os poemas, além de outros equipamentos. Os vândalos e o descaso da administração pública deixaram que o logradouro em homenagem aos poetas parnaibanos fosse depredado e ficasse em situação de abandono, sem serventia alguma, ao menos para o fim a que se destinava.

Fui convidado a discursar numa das solenidades de sua inauguração. Aproveitei para lançar o meu opúsculo Aspectos da Literatura Parnaibana, em que se encontrava um pequeno ensaio sobre a literatura de Parnaíba, feito especialmente para a ocasião, no qual louvei essa iniciativa por ele idealizada, e o meu depoimento sobre o jornal Inovação.

Recentemente fui indagado pelos poetas Claucio Ciarlini e Carvalho Filho sobre se pretendia publicar-lhe a segunda edição, tendo eu respondido que não. Depois, pensei melhor, e resolvi promover uma edição virtual, bastante aumentada, cujo e-book se encontra disponível na loja Amazon.

Essa nova edição me ensejou sugerir ao Dr. Valdeci Cavalcante a construção de um novo Jardim dos Poetas, na Praça Mandu Ladino, no entorno do Castelo de Eventos, por ele restaurado, tendo ele, na condição de presidente do sistema Fecomércio/SESC/SENAC, respondido que o construiria. Há poucos dias ele me reafirmou o seu desejo de prestar essa homenagem aos poetas parnaibanos.   

Retomando o fio inicial deste registro, informo que recebi ontem, através dos Correios, uma carta circular de Benjamim Santos, titulada MISSÃO CUMPRIDA – Tarefa Finalizada, na qual ele comunica que se tornou impossível “continuar a edição mensal do jornal O Bembém por motivos que, naturalmente, cada um dos leitores” poderia imaginar, mas com certeza problemas decorrentes da pandemia, que nos aflige a todos. Julgo oportuno transcrever o trecho abaixo:

“Tendo há oito meses toda a equipe de redação e de comercial em completo isolamento, para manter a saúde, tornou-se mais difícil ainda darmos continuidade a uma tarefa tão complexa para uma cidade do porte da nossa. E agradecemos intensamente a todos os assinantes que sempre tanto fizeram para que o jornal se mantivesse vivo e com o mesmo padrão gráfico e de conteúdo com 146 edições ininterruptas.”

O comunicado circular se encontra datado do dia 16 de novembro deste ano, mas só ontem, como disse, o recebi. Acrescenta que “Passados estes tempos de terror, em caso de possível retorno, sua assinatura terá continuidade. // Muito emocionados, todos da equipe, em meu nome, agradecem.”

O jornal cultural O Bembém circulou durante dez anos, e teve 146 números, como visto. Nele foram publicadas importantes matérias, belas entrevistas, poemas, crônicas, pequenos ensaios, perfis biográficos e artigos historiográficos, abordando os mais diferentes assuntos. Está claro que lamento essa interrupção, e espero ele volte a circular. Por isso mesmo, enviei o seguinte e-mail para o seu editor Benjamim Santos, com que encerro esta anotação deste Diário em tempos de pandemia:

“Caro Benjamim,

Recebi hoje sua carta.

Você fez o que devia e podia  diante das circunstâncias adversas, que nos atingem a todos.

Todos fazemos o que é possível, embora miremos às vezes o impossível; cada um de nós temos a nossa ilha da Utopia, que é a nossa meta maior, a nossa Ítaca encantada de Kaváfis. Não importa que não a atinjamos.

O importante é que a busquemos, conquanto jamais venhamos a encontrá-la, perdida em mares brumosos, cheios de perigos, monstros e arrecifes. Essa ilha é o nosso ideal, talvez a razão maior de nossa existência.

Você fez o que lhe foi possível fazer. E nas mesmas condições ninguém o faria melhor.

Tenho Fé e sei que as coisas voltarão à normalidade, ainda que não seja na velocidade que muitos de nós desejamos.

Não cessa a Esperança quando entramos no Inferno, como disse Dante. O Inferno é que é a própria falta de Esperança.

Desculpe-me por estas improvisadas e, talvez, despropositadas linhas.

Paz e bem.

Um forte abraço.”  

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Sumiço de Louro

 


Sumiço de Louro


Pádua Marques

Contista, cronista e romancista

 

Dava pra ver de longe quem estivesse descendo pela rua Coronel Pacífico no rumo dos Tucuns naquela hora da manhã, aquele monte de gente correndo pra cima e pra baixo no sentido da Santa Casa e do porto Salgado. Gente que doía na vista. Uns aqui na esquina em pé de conversa esperando as novidades, outros mais adiante dando palpites, ou mais lá na frente umas mulheres falando em voz baixa, pano de cozinha no ombro, quase tapando a boca com a mão pra não levantar suspeitas de estarem atrás de fuxico.

Mas a coisa era outra. Aquele lado da Parnaíba parou por causa do sumiço de um periquito. Seu Isidoro e dona Júlia vieram trazer água com açúcar e acalmar os filhos da vizinha, dona Ana, que era doente dos nervos, com todo aquele alvoroço nos Tucuns, que até naquela hora do dia e quase em tempo de almoço, ainda não havia mostrado sossego. E onde já se viu tudo aquilo por causa de um maldito periquito? Coisa de quase dar polícia e depoimento de vizinhos na delegacia.

Uns meninos largaram a correr rua acima e rua abaixo, subindo em cercas e invadindo os quintais alheios, pra os lados da casa de doutor Raul Bacellar, atrás do periquito do quitandeiro Domingos e de sua mulher dona Luzia. Ele era aleijado de uma perna e se utilizava de uma muleta. Mas passava o dia inteiro atrás do balcão vendendo vez por outra uma farinha branca, um mercado de querosene, açúcar, goma, café, azeite de coco, sabão, naquele pedaço úmido da Parnaíba.

Criavam nos fundos da casa uns três periquitos, presentes de um compadre antigo vindo da Barra do Longá, passando por Buriti dos Lopes e que sempre se hospedava naquela casa, repartida com dois filhos, o Jonas e o Pedro, rapazinhos de pouco mais de quinze anos. Estes dois, vendo aquela confusão criada dentro de casa, em vez de ajudarem, acharam foi de ficar com outros da mesma igualha na esquina contando piadas indecentes associando ao periquito sumido. De vez em quando largavam a dar gargalhadas.

Com o periquito Louro tomado sumiço naquele dia, Tucuns virou praça de guerra com gente procurando de luz acesa. A notícia já chegava ao Mercado Central e tomava a praça da Graça, a rua Grande e a firma dos Moraes lá na Coroa. De início todos queriam saber quem era esse louro que havia sumido assim do dia pra noite sem deixar pistas. Quem era? Onde morava? Quem era sua família? Se não era de Parnaíba, de onde vinha? Todo mundo naquele dia na Parnaíba queria saber uma resposta.

Até o meio do dia era uma pergunta que se fazia pra todo lado. Desde a ponta da esquina do Cine Éden até a Mercearia do seu Bembém. Dona Maria José, mulher do açougueiro Damião e a filha Vicentina, saindo de menina pra moça, vieram quando a coisa já estava mais calma dizer que Louro havia sido encontrado em sua casa, não muito distante. Achado entre os quadros e imagens de santos do seu quarto. Foi achado pela filha. Nem ofereceu resistência, o bichinho. Foi coisa de ir até a cozinha e pegar um pano de prato, jogar em cima e segurar com força pelas asas e a cabeça pra não levar bicada.

Enquanto a notícia do achado ainda era coisa de conhecimento de poucos, apenas em casa do quitandeiro, a Parnaíba continuava de cabeça pra baixo e a conversa se encompridando e ganhando vulto. Foi a tal ponto de seu Demétrio correr até a Rádio Educadora dar alarme pra Fonseca Mendes de que um homem louro havia desaparecido nos Tucuns pela madrugada, mas não se tinha conhecimento quem eram seus parentes e nem de onde veio. Havia sumido. O povo estava atrás.

Tinha gente e não era pouca de olho no rio Igaraçu porque a qualquer momento o corpo, se o homem tinha se afogado e enganchado nalgum tronco de carnaúba, poderia boiar. Veio notícia de que até a Capitania dos Portos estava de prontidão. Uns cinco canoeiros e vareiros de barcas que faziam travessia pra Ilha Grande de Santa Isabel estavam trabalhando sem descanso. Tinha notícia chegando dos Morros da Mariana e dos Tatus dando conta de que esse louro poderia ter sido visto por aquelas bandas nalguma pescaria. Era muita conversa!

Quando Louro foi achado e a conversa correu mundo, já quase naquele fim de tarde e de que se tratava de um periquito vindo anos atrás da Barra do Longá pra casa do quitandeiro Damião, muita gente largou de mão o que estava fazendo pra chegar à porta da rua e passar a xingar o aleijado de tudo quanto era nome feio. Filho dessa e filho daquela! Ladrão foi o nome de menos! Até a pureza de Vicentina entrou na conversa. Que era sonsa e fingida! Muita gente deixou de comprar suas necessidades na quitanda por uns dias. Teve gente na Parnaíba que chegou a jurar que, tendo um jeito, iria matar o diabo do periquito.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

É o amor!...




É o amor!...


Carlos Rubem 


Numa noite de janeiro de 1981, estava sentado nas calçadas da minha casa, quando vi, ao longe, a prima Cinthya Campos, ultrapassando a Baixa do Cururu. Outra moçoila estava ao seu lado a caminhar. À medida em que dupla se aproximava, fui dominado por uma força sentimental, atrativa, pela desconhecida. Dirigiam-se à pracinha como se chamava o complexo urbano do Café Oeiras. Ambas contavam 15 aninhos.


Por esta época estava enrabichado por uma garota de tradicional família, que se insurgia contra o nosso “affaire”. A gente namorava escondido, inclusive numa fazenda dos seus avós situada nos arrabaldes da cidade. Preconceitos medonhos nos separava.


Lá pelas 22h fui à casa do vovô Joel onde estavam hospedadas as duas aludidas adolescentes. Entrei num quarto. Conversavam deitadas em suas redes. Preparavam-se para dormir. Embora tenha sido expulso dali pela Mãe Ó, minha tia, severa solteirona, ainda houve tempo para segredar à visitante que havia dela me afeiçoado, pelo que ficou assustada a princípio.


No dia seguinte houve um festa de arromba no BNB Club oportunidade em que a tirei para bailar. Muito nos divertimos.


Ela usava uma calça pantacourt verde oliva e uma brilhosa blusa tomara-que-caia. Fiquei arrebatado por aquela graciosa pequena. Foi a maior dificuldade para lhe roubar o primeiro beijo. Tive que usar diversas técnicas que “audiovisual nenhum ensina”.


Vida que passa... O certo é que no dia 14.12.1985, houve um grande acontecimento na minha vida. Casei-me com a Dirce Silva Lopes Reis. E o chato é que não estou arrependido! 


Interessante: não muito raro sou indagado quantas vezes já me divorciei. Parece que não mais se acredita na longevidade da união conjugal. Esclareço que se a minha mulher me abandonar, sem nenhum pejo, irei atrás dela. Escandalosamente, não largo a minha consorte.


O nosso matrimônio ocorreu na Igreja de N. Sra. de Fátima, em Teresina, entre amigos e parentes. O Padre Tony Batista foi o celebrante. Na hora em que noiva adentrou a nave daquele templo, acompanhada do seu pai, fiquei deveras emocionado. Estava mais linda do que em sonhos! Com a voz embargada, nem sei mesmo se fiz o juramento direito.


Há 35 anos mantemos a nossa convivência conjugal marcada por muita renúncia, dissensões e aconchegos. A nossa família é formada por três filhos (Laís, Gérson e Letícia) e três netos (as gêmeas Helena e Olívia e Joaquim Miguel) que muito os estimamos. Verdadeiros presentes de Deus!


Sou feliz! Começaria tudo outra vez...

sábado, 12 de dezembro de 2020

POEMAS ENTRE GERAÇÕES: o encontro, os versos e o tempo


 

POEMAS ENTRE GERAÇÕES:

o encontro, os versos e o tempo

  

          Diego Mendes Sousa*

 

“Poemas entre Gerações” (Sieart, 2020) é uma coletânea composta por sessenta poetas de diversos matizes, de todas as idades, nascidos ou não no Estado do Piauí, mas que possuem a cidade litorânea da Parnaíba, berço do Delta do Rio Parnaíba, como eixo de produção cultural.  

O livro foi idealizado por Claucio Ciarlini e a organização ficou a cargo dele e de José Luiz de Carvalho, ambos escritores piauienses e membros da Academia Parnaibana de Letras (APAL), sendo essa Casa de intelectuais uma instituição literária que já abrigou nomes nacionais e de peso histórico como, Fontes Ibiapina (1921-1986), Renato Castelo Branco (1914-1995) e João Paulo dos Reis Velloso (1931-2019), bem como ainda preserva as inteligências de Assis Brasil (1932-) e de Alcenor Candeira Filho (1947-).

Os organizadores manifestaram à guisa de prefácio: “(...) no que se revelou mais uma vez a rica diversidade de escolhas e estilos, desde o soneto rigorosamente metrificado ao poema livre (...)”.

Dentre os escritores presentes na obra, destaco a decana Maria Christina de Moraes Souza Oliveira (1935-), educadora de proa, a quem faço reverência pela representatividade de mestra de muitos parnaibanos.

“Poemas entre Gerações” ganha relevo com as dicções poéticas consagradas de Ednólia Fontenele, Elmar Carvalho e Kenard Kruel.

Ressalto que a maioria dos autores é de poetas de primeira sede em formação estética, à procura de uma voz própria, descobrindo caminhos e sem livros individuais publicados.

Da leitura atenta do opus, suscitaram a minha sensibilidade, sete poetas: Aírton Porto, Carlos Pontes, Carvalho Filho, Daltro Paiva, Daniel Glaydson Ribeiro, Jailson Santos Sousa Júnior e Rosal Benvindo.

Aírton Porto é filho da Parnaíba. Sua poesia é metafísica, com meandros filosóficos, comunicante, com iluminações líricas sofisticadas.

Carlos Pontes é cearense do Cariri. Experiente, sintético e renovador. Seus versos são espirituosos e plásticos.

Carvalho Filho é parnaibano e herdeiro dos clássicos de língua portuguesa. Sabe investir nas imagens e nas metáforas. Há em seus poemas símbolos e releituras alegóricas.

Daltro Paiva é detentor de uma leveza verbal admirável. Sua poesia é música. Solista real, geográfico, temporal e tocante.

Daniel Glaydson Ribeiro é um poeta cintilante. Possui vocação extraordinária. Seus poemas são maduros e cristalinos.

Jailson Santos Sousa Júnior tem fertilidade anímica. Sua peça “O último verso” é de uma beleza rilkeana, comovente. É auspicioso e talentoso.

Rosal Benvindo é teresinense, da gleba natal do genial Mário Faustino (1930-1962). Exímio sonetista, artista exemplar e completo. Tem o sublime dom da magia das palavras.

O título “Poemas entre Gerações” é composto ainda por Alberto S. Furtado, Alcenor Candeira Filho, Alexandre César, Altevir Esteves, Amparo Carvalho, Ana Flávia Valois, Anailton Fontenele, Antônio Gallas, Antônio José S. Sales, Artur de Paiva, Benedito Lima, Claucio Ciarlini, Dante Ponte de Brito, Diego Mendes Sousa, Edna Santos, Eduardo de Moraes, F Gerson Meneses, Fernando Ferraz, George da Silva, Israel Machado, Jaque Bezerra, Jefferson Portugal, João Paulo Santos, José Luiz de Carvalho, Jota Cunha, Josiel Barros, Karoline de Carvalho, Leonardo Silva, Lívia Marceli, Luana Silva, Marcello Silva, Marciano Gualberto, Maria Dilma Ponte de Brito, Maria do Rosário Pessoa Nascimento, Morgana Sales, Narcisa Alfonso, Paulo Costa, Paulo Couto, Renato Lopes, Renato Bacellar, Rodrigo Ciarlini, Socorro Brasiliense, Sousa Filho, Thaís Fontenele, Tiago Fontenele, Wallisson Sudaro, Wilton Porto, Yeda de M. S. Machado e Zilmar Junior.

Na abertura de “Poemas entre Gerações” diz o jurista Roberto Cajubá: “Uma simbiose cultural entre gerações, com a ousadia dos jovens, a experiência dos mais velhos e a maturidade de todos que buscam aprender com as qualidades de cada um.”.

A importância de “Poemas entre Gerações” está exatamente no encontro de poetas vivos e atuantes, com os seus versos registrados para o além tempo, a mapear um memorial de vozes e de linguagens, que são testemunhos do presente e do futuro lírico da encantadora Parnaíba, cenário do romance “Beira Rio Beira Vida” (1965), belo título lírico escrito pelo notável parnaibano Assis Brasil.


*Diego Mendes Sousa é poeta parnaibano. Advogado e Jornalista.

 

SETE POETAS ESCOLHIDOS


POR DIEGO MENDES SOUSA  

 

AÍRTON PORTO:

 

O VELHO MONGE E EU

 

Enquanto singra o barco

sobre o velho monge

rasgando-lhe a pele em sulcos profundos,

meus pensamentos

vagam para o outro lado

do mundo, como o rio corre para o mar.

 

Enquanto murmura o rio sofrido pelo duro golpe,

meus pensamentos flutuam

remoendo a minha sorte.

 

O rio agoniza indo para o mar;

me desespero indo para a morte.

 

No mar, torna-se o rio um oceano;

com a morte, me tornarei saudades.

  

==

 

CARLOS PONTES:

 

OSSOS

 

Dos que não têm poesia

na carne e na alma,

sobram ossos.

 

 ==

CARVALHO FILHO:

 

UM POEMÁTICO EM CRISE

 

Silente

    e ardente.

A poesia

    é sintoma,

hematoma

    de um sol

desmembrado.

     As vestes em fogo.

O riso é faca,

     meus sonhos,

pesos.

     Animosidade,

um suspiro.

     Ponteiros convictos,

murmurantes.

 ==

 

DALTRO PAIVA:

 

BIOGRAFIA

 

  sou atlântico

mata e oceano

 

sou do juremal

      das dunas

   das falésias

das areias e do sal

 

sou dos cajueiros

      potiguar

      piauiense

 

sou das pedras

  praia do meio

   pedra do sal

 

  sou do verde

azul e branco

  das estrelas

do astral

 

sou dos mares

   das marés

manguezal

 

  sou dos rios

dos igarapés

   potengi

   igaraçu

 

  sou da mata branca

da caatinga litorânea

da mata de transição

   da mata dos cocais

 

               eu sou

               eu sou

                        eu sou

  

sou um filho de meu pai

  

==

  

DANIEL GLAYDSON RIBEIRO:

 

 CONTINUAÇÃO

 

                           A Gonçalves Dias e Oswald

  

Era uma vez minha terra

tinha palmeira e palmares

hoje tudo queima

e a Flor-

esta

cinza pelos ares:

 

cinza que cobre estrelas

fumaça enforca dores

ouro-lama afoga gente

num rio tóxico

Rio Doce

 

os quilombos e as aldeias

que diziam ‘demarcadas’

são o intermitente cenário

de guerra das bandeiradas

 

minha terra, mina

nem sei mais se é terra ou veneno

e tudo continua sendo

para o progresso

de São Paulo.

 

==

   

JAILSON SANTOS SOUSA JÚNIOR:

  

O ÚLTIMO VERSO

 

Meu verso é uma asa de anjo

que corta vidas, mares, céus

e que busca um repouso de tudo.

 

Meu verso é uma garça triste

que enfeita as veredas

com seu voo branco e belo.

 

Encerra-se nele a minha dor

que nos dias continua.

 

As colinas se aproximam.

Aponto meu verso para cima.

 

Toco as cordas do céu.

  

==

  

ROSAL BENVINDO:

 

 

SAL.

 

(Parte do poema Crônica da Rua Monsenhor Lezama)

 

 

nome de rua não havia mais

nem chassis numerações pintores nem

o mar caído aquém de vista nem

propósito alheio vadio a passar

 

não havia bruma de incenso

sorvendo os móveis do quarto

a caber o mistério do quarto

com um vagaroso Ouroboros serpente

 

nem nada que ali de fato

houvesse havia ante a ausência

erguida em tudo além do ato

 

havia tuas pernas a inundar

a trêmula carne intensa

dos meus lábios salgados

‘Alicerce’ oeirense dos Ferraz

Fonte: Google


‘Alicerce’ oeirense dos Ferraz


Dagoberto Carvalho Jr.

Da Academia Piauiense de Letras


Recobro da longa e pouco justificável ou, inexplicável, mesmo época em que havia ‘sestas’, o tempo consequente, da memória, para resenha (será que, ainda, há tempo), do notável Alicerce, livro memorialístico do conterrâneo, oeirense (pelo histórico e telúrico sobrenome) e familiarmente, parente, Fernando Basto Ferraz.

Nascido e criado, dizia-se naquele meu tempo de muito menino e, depois, adolescente, na velha-cap piauiense, divididas a primeira e segunda infância com a cidade vizinha de Simplício Mendes – de onde meu pai foi Juiz de Direito –, e a primeira fase do curso médio no ‘Ginásio Municipal Oeirense’; já não acompanhei meu querido velho quando este foi promovido para a Comarca de Parnaíba, onde, à época terá vivido o então jovem, muito jovem autor do livro de genealogia e de lembranças que – desculpando-me – tento resenhar. Se contemporâneos, talvez nos tivéssemos conhecido ali. Depois, coisas da vida sem tempo de médico e de escritor, teluricamente preso às origens de sua terra e de sua gente, levaram-me poucas vezes a sua Parnaíba.

Não é por outra razão que pego o trem da estória ou, da história, mesmo, para alcançar o dinâmico presidente do Instituto Histórico de Oeiras, historiador de muitos méritos Júnior Vianna. E, com ele resgatar o bom livro de Fernando Ferraz que simplificando os esquemas da genealogia a que se propõe, não foge da memória fotográfica que bem documenta. E, como o autor é pródigo no resgate desses retratos que lhe enriquecem o volume de lembranças e de saudade! Memória pura e boa, como se ‘Memória’ não lhe fosse, também, o sobrenome e o motivo de acurada pesquisa genealógica complementar.

O livro aqui resenhado com atraso, mas com todo interesse familiar e telúrico é, também, rico álbum de família, pelas inúmeras fotografias que o enriquecem e suas legendas ‘cheirando’ saudade. Rica bibliografia onde apareço na boa companhia de Possidônio Queiroz, Antonio Soares Filho e Wilson Gonçalves de Carvalho, entre outros cuja companhia literária só nos pode envaidecer.

Recife, 17 de dezembro de 2020

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O ABANDONO DO JERICO SARNENTO

As duas fotos (2010), tiradas por mim mesmo, retratam o jumento referido no texto.


O ABANDONO DO JERICO SARNENTO

 Elmar Carvalho

Quando saía, à tarde, para minha caminhada, deparei-me com um jumento à porta de minha casa. Parecia cansado, com aspecto doentio, como se estivesse à morte; deu-me a impressão de haver sido covardemente abandonado pelo dono, para morrer em local distante, e não lhe dar o trabalho de se desfazer do cadáver. Apresentava feridas no corpo.

Seu pelo era falhado, amarfanhado, sem brilho, como se tivesse sarna ou outra doença semelhante. Era magro, como se passasse fome, e tinha as patas tortas, em virtude, talvez, de já haver sofrido algum acidente, provavelmente de trânsito. Roçava o pelo no poste, certamente na intenção de mitigar as coceiras da pele sarnenta. Quando me aproximei, para fotografá-lo, me olhou, com resignação, mas sem medo.

Talvez esperasse alguma bordoada, recordando-se de algum fato passado. Outrora, os jumentos eram queridos e respeitados. Eram úteis, seja para o transporte de carga seja para o de pessoa. Tem muita força; desproporcional para o seu porte. Por isso, eu os comparo a um pequeno trator, com tração nas quatro patas. Hoje, numa época em que quase toda família possui um carro ou uma motocicleta, seja de primeira ou de quinta mão, os jericos foram “encostados”, mesmo na mais remota zona rural.

Os carroceiros preferem um burro, que é maior,  tem mais força e é mais veloz. Muitos vivem abandonados, à margem das estradas, correndo risco de vida e pondo em risco a vida dos motoristas e motoqueiros. A respeito do jumento, já escrevi uma crônica, da qual extraio o seguinte:

“É um animal dócil e paciente. Segundo a tradição, foi o escolhido para conduzir a Virgem Maria e o Menino Jesus, na fuga para o Egito, evidentemente com a presença de São José, na constituição emblemática da Sagrada Família. Provavelmente tenha sido a sua proverbial docilidade, mansidão e humildade a razão dessa escolha e honraria.

Como a maioria desses animais ostenta uma mancha sobre as pás dianteiras, considera o povo simples, na voz da lenda, que essa marca é o sinal milagroso e honorífico do xixi com que lhe ungiu o Salvador, como uma forma de homenagem e gratidão pelo serviço prestado. Depois, encerrando apoteoticamente sua participação na Bíblia, foi o escolhido por Cristo para conduzi-lo em sua entrada triunfal em Jerusalém”.

Quando retornei da caminhada, vi o jerico mais animado, a provar que a vida é forte, surpreendente e dinâmica, a pastar o renitente e insolente capim de burro, que nascera, quase por milagre, por entre as pedras do calçamento. Depois, não mais o vi. Não sei que rumo terá tomado. E jamais saberei que destino a vida ainda lhe reserva, além da ingratidão daqueles a quem serviu.

19 de junho de 2010        

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

DESCULPEM, MAS SE MORRE

 

Fonte: Portal Costa Norte



DESCULPEM, MAS SE MORRE


Vitor de Athayde Couto


Sabe, esses motoristas de aplicativo que ficam puxando conversa? Com raras exceções, são tão uberchatos que o próprio aplicativo disponibiliza escolhas e avaliações. Entre os itens avaliados tem um que se refere justamente à conversa do motorista, se é agradável ou não. Cheguei a rir quando descobri no aplicativo que o passageiro pode escolher um motorista que permanece calado enquanto dirige.

O motorista queria me convencer a ler um livro. Trata-se da alegoria de um pastor protestante, só porque era “o livro mais vendido no mundo depois da bíblia”. Existem muitos livros “mais vendidos depois da bíblia”. Mas, peraí… que bíblia? São tantas… Para minha surpresa, descobri que esses rankings de livros mais vendidos depois da bíblia desconhecem a existência de chineses, indianos, paquistaneses… que se contam na base do bilhão. E compram e leem livros. E assistem a muitos filmes. A bilheteria da indústria cinematográfica americana, com todos os seus lixos, não supera Boliúde.

 Agora, pense no Brasil e responda: qual é o autor brasileiro mais traduzido?

Alguns diriam Machado de Assis. Outros, Jorge Amado. Os mais atualizados e ligados à mídia não hesitariam: é Paulo Coelho, claro.

Erramos, todos. Ninguém quer mais saber se ela traiu ou não traiu, seja um ou dois maridos. Hoje,em vez de Alquimia, o mundo pede vacinas.

Caso a página que eu li na internet não seja podre, quem mais teve traduções foi ninguém menos do que Clarice, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector.

A força de Clarice Lispector está no gênero crônicas. Burocratas literários metidos a críticos e outros líterochatos logo sentenciam: “crônica é um gênero literário menor”. E devem continuar alternando no pódio os Machados, Amados e Coelhos.

Eu, não. Independentemente da qualidade dos rankings e da podreira das páginas da internet, presto aqui minha homenagem a Clarice. Hoje, 10 de dezembro, ela completaria 100 anos de nascida. O Brasil, invisível para muitos brasileiros, está de parabéns. Lá fora, o Brasil ainda é visível e lembrado. Clarice também. Merece destaque a criação da biblioteca sonora da Universidade de Princeton (EUA): “Clarice 100 Ears”. One hundred ears, haha. Confesso que há muito tempo não via um trocadilho tão porreta.

A anti Clarice é só verborreia. Em geral, são textos longos, escritos em uma espécie de juridiquês barroco, que lembram petições de cartórios. Senão, são fac símiles extraídos de supostos “registros históricos”, arquivados em livros enormes, com cheiro de naftalina. Línguas mortas encaixotadas em arquivos igualmente mortos.

Cada frase cartorial, que nunca tem menos de dez linhas contínuas, é recheado com um ror de apostos e mesóclises à “la” Michel Temer. E vírgulas. Muitas vírgulas. Esses autodeclarados escritores não são capazes de compreender Clarice. Na “Insônia infeliz e feliz”, ela chega a escrever várias frases de uma palavra só. Como o genial João Gilberto, ela alterna palavras e pontos. Por exemplo: “…solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais.” E pensar que ela já escrevia assim em meados do século passado, completamente livre do estilo cartorial.

Linda mãe dedicada aos filhos de nomes simples: Pedro e Paulo. Depois deles, pela ordem, a humanidade inteira. Na crônica “Do modo como não se quer bondade” deixa um recado aos pretensos imortais: “Desculpem, mas se morre”.  

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Apenas, Fernando Holanda

Fernando Holanda


Apenas, Fernando Holanda


Paulo Couto

Poeta e cronista 


Devo confessar, sem problema algum, que várias vezes chorei a morte do meu amigo e ídolo Fernando Holanda. Vi Fernando Holanda tocando com sua Banda Os Apaches na cidade praiana de Luiz Correia. Tempos depois vi Fernando Holanda tocando com Samboemios. Mas não consigo esquecer um dia que cheguei no Ponto de Encontro, que já não existe mais, bem aqui, pertinho de minha casa, no Ideal Center, o Fernando tocando e cantando com seu violão as músicas da MPB. Tinha uma turma e a música, contagiando a todos, fez com que fizéssemos uma “vaquinha" a fim de que o Cantor, com seu violão, ficasse mais um tempo, tocando as músicas de seu repertório. Posso dizer que acompanhei o Fernando nos últimos momentos de sua vida. Ele, já bastante debilitado, por causa de sua doença, continuava sendo aquele Cara que sempre imaginou um Brasil melhor. Considero, por isso mesmo, um companheiro de lutas. Finalmente, quero deixar o meu abraço de amigo a todos os seus familiares. Viva Fernando, para sempre!