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| Capa da autoria de Gervásio Castro |
O DESTINO DE UM LIVRO
Elmar Carvalho
Na sexta-feira passada, dia 11/09/2026, recebi, por WhatsApp,
um vídeo do meu amigo Reginaldo Soares, no qual dizia haver “salvo” da
reciclagem dois livros de minha autoria, ambos de poemas: Rosa dos Ventos
Gerais (1ª edição, 1995) e PoeMitos da Parnaíba.
Eles estavam no meio de um enorme volume de material
impresso, cuja quase totalidade seria picotada e transformada em matéria-prima
para a fabricação de papel.
Seria uma destinação menos ruim do que pura e simplesmente
serem queimados ou jogados em um monturo ou lixão. Lembro que, durante a Santa
Inquisição, muitos livros foram queimados em praça pública, quando não os seus
próprios autores. Não nos esqueçamos de que, não faz muito tempo, ainda havia
censura no Brasil.
Com o avanço tecnológico, temos uma imensa proliferação de
livros e autores, de forma que a literatura, que já teve certo prestígio e
charme, vem perdendo o glamour, uma vez que hoje — quase diria — temos mais
escritores que leitores.
Conhecido escritor, acho que Eduardo Galeano, disse, muitos
anos atrás, que a possibilidade de um livro alcançar determinado leitor seria a
mesma que a de uma garrafa lançada ao mar, com uma mensagem, chegar ao seu
destinatário. Nesse particular, tive algumas poucas, porém agradáveis,
surpresas, quando alguns de meus livros alcançaram as mãos de improváveis
leitores.
Reginaldo Soares, no caso narrado acima, foi um deles. Apesar
de deficiente visual em grau elevado, é leitor voraz. Foi professor e presta
serviço voluntário, em São Miguel do Tapuio, a uma associação para deficientes
visuais, da qual foi um dos fundadores e é um dos líderes mais destacados. Meus
livros não poderiam ter alcançado melhor leitor e destinatário, ainda mais
porque ele é compositor e radialista, e bem pode divulgar o conteúdo deles.
Esse episódio me fez lembrar um caso relatado pelo meu amigo
e confrade Homero Castelo Branco, acontecido há várias décadas.
O meu homérico amigo foi a um sebo que havia na Avenida
Antonino Freire, a menor avenida do mundo, perto do prédio dos Correios e
Telégrafos. Lá, para sua perplexidade e tristeza, encontrou alguns volumes que
ele havia autografado, em amável dedicatória, a pessoas de sua amizade. Como eu
soltasse vibrante gargalhada, o bom Homero sorriu e disse:
— Não ria, não. Lá também havia obras suas...
Ri mais ainda. Com o desprestígio da literatura, com os
apartamentos cada vez menores, além das traças e dos cupins, os viúvos e
herdeiros se tornaram os maiores inimigos de bibliotecas, que se tornaram um
verdadeiro estorvo para essas pessoas, que logo tentam vender esses volumes
para algum sebo ou bibliófilo, ou os doam para alguma associação, que promove a
referida reciclagem.
As bibliotecas públicas, sob a alegativa de falta de espaço e
de que esses livros já estão desatualizados ou não têm valor artístico ou
literário, não os recebem.
Assim, ao contrário de um navio, esses livros jamais
encontrarão um bom porto, um porto seguro como destino, e serão queimados ou
destruídos em reciclagem. Dessa forma, pelo menos em parte, estes versos de
Castro Alves talvez já tenham perdido a validade:
“Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!”



Grande Poeta, que destino triste. Livros mereciam um tratamento menos dolorido. Os seus, por exemplo, com seus amáveis autógrafos, estão, por enquanto, em lugar seguro e sempre a mão. A frase foi ótima e define bem o destino dos nossos companheiros das horas de descanso: cupins, viúvos e herdeiros são os principais inimigos das bibliotecas.
ResponderExcluirVocê, prezado amigo, me deu algum alento.
ResponderExcluirPoeta Elmar, tenho compartilhado com você esses sentimentos em torno do destino dos velhos acervos de livros, em cenários que têm como principais protagonistas "cupins, viúvos e herdeiros". Felizmente, uma categoria não esmorece nem desaparece: a dos os ratos de livraria ou de biblioteca. Enquanto esses "roedores" existirem, o livro não morrerá! Por mim, o biblicídio, o bibliotequicídio e a bibliofobia hereditária já deveriam estar tipificados no Código Penal da Cultura do distante país chamado Memória. Marcelino Barroso, seu admirador e amigo.
ResponderExcluirCaro amigo e mestre Marcelino, ainda bem que você nos acenou com uma centelha de esperança. Obrigado.
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