segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O DESTINO DE UM LIVRO

Capa da autoria de Gervásio Castro

 

O DESTINO DE UM LIVRO

 

Elmar Carvalho

 

Na sexta-feira passada, dia 11/09/2026, recebi, por WhatsApp, um vídeo do meu amigo Reginaldo Soares, no qual dizia haver “salvo” da reciclagem dois livros de minha autoria, ambos de poemas: Rosa dos Ventos Gerais (1ª edição, 1995) e PoeMitos da Parnaíba.

 

Eles estavam no meio de um enorme volume de material impresso, cuja quase totalidade seria picotada e transformada em matéria-prima para a fabricação de papel.

 

Seria uma destinação menos ruim do que pura e simplesmente serem queimados ou jogados em um monturo ou lixão. Lembro que, durante a Santa Inquisição, muitos livros foram queimados em praça pública, quando não os seus próprios autores. Não nos esqueçamos de que, não faz muito tempo, ainda havia censura no Brasil.

 

Com o avanço tecnológico, temos uma imensa proliferação de livros e autores, de forma que a literatura, que já teve certo prestígio e charme, vem perdendo o glamour, uma vez que hoje — quase diria — temos mais escritores que leitores.

 

Conhecido escritor, acho que Eduardo Galeano, disse, muitos anos atrás, que a possibilidade de um livro alcançar determinado leitor seria a mesma que a de uma garrafa lançada ao mar, com uma mensagem, chegar ao seu destinatário. Nesse particular, tive algumas poucas, porém agradáveis, surpresas, quando alguns de meus livros alcançaram as mãos de improváveis leitores.

 

Reginaldo Soares, no caso narrado acima, foi um deles. Apesar de deficiente visual em grau elevado, é leitor voraz. Foi professor e presta serviço voluntário, em São Miguel do Tapuio, a uma associação para deficientes visuais, da qual foi um dos fundadores e é um dos líderes mais destacados. Meus livros não poderiam ter alcançado melhor leitor e destinatário, ainda mais porque ele é compositor e radialista, e bem pode divulgar o conteúdo deles.

 

Esse episódio me fez lembrar um caso relatado pelo meu amigo e confrade Homero Castelo Branco, acontecido há várias décadas.

 

O meu homérico amigo foi a um sebo que havia na Avenida Antonino Freire, a menor avenida do mundo, perto do prédio dos Correios e Telégrafos. Lá, para sua perplexidade e tristeza, encontrou alguns volumes que ele havia autografado, em amável dedicatória, a pessoas de sua amizade. Como eu soltasse vibrante gargalhada, o bom Homero sorriu e disse:

 

— Não ria, não. Lá também havia obras suas...

 

Ri mais ainda. Com o desprestígio da literatura, com os apartamentos cada vez menores, além das traças e dos cupins, os viúvos e herdeiros se tornaram os maiores inimigos de bibliotecas, que se tornaram um verdadeiro estorvo para essas pessoas, que logo tentam vender esses volumes para algum sebo ou bibliófilo, ou os doam para alguma associação, que promove a referida reciclagem.

 

As bibliotecas públicas, sob a alegativa de falta de espaço e de que esses livros já estão desatualizados ou não têm valor artístico ou literário, não os recebem.

 

Assim, ao contrário de um navio, esses livros jamais encontrarão um bom porto, um porto seguro como destino, e serão queimados ou destruídos em reciclagem. Dessa forma, pelo menos em parte, estes versos de Castro Alves talvez já tenham perdido a validade:

 

“Oh! Bendito o que semeia

Livros... livros à mão cheia...

E manda o povo pensar!” 

4 comentários:

  1. Grande Poeta, que destino triste. Livros mereciam um tratamento menos dolorido. Os seus, por exemplo, com seus amáveis autógrafos, estão, por enquanto, em lugar seguro e sempre a mão. A frase foi ótima e define bem o destino dos nossos companheiros das horas de descanso: cupins, viúvos e herdeiros são os principais inimigos das bibliotecas.

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  2. Você, prezado amigo, me deu algum alento.

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  3. Poeta Elmar, tenho compartilhado com você esses sentimentos em torno do destino dos velhos acervos de livros, em cenários que têm como principais protagonistas "cupins, viúvos e herdeiros". Felizmente, uma categoria não esmorece nem desaparece: a dos os ratos de livraria ou de biblioteca. Enquanto esses "roedores" existirem, o livro não morrerá! Por mim, o biblicídio, o bibliotequicídio e a bibliofobia hereditária já deveriam estar tipificados no Código Penal da Cultura do distante país chamado Memória. Marcelino Barroso, seu admirador e amigo.

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  4. Caro amigo e mestre Marcelino, ainda bem que você nos acenou com uma centelha de esperança. Obrigado.

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