| Acadêmicos Oton, Elmar, Cecília e Felipe, no auditório do Liceu Piauiense |
Sobre livros, poemas e leituras
Elmar Carvalho
Dias atrás, estive no velho Liceu Piauiense (CETI Zacarias de Góis) para participar
de um evento promovido pela Secretaria Estadual de Educação e pela Academia
Piauiense de Letras. Como representantes da APL, participamos eu e os
acadêmicos Felipe Mendes, Oton Lustosa e Cecília Mendes. Cada um, a seu modo,
falou sobre livros, experiências com a literatura e a importância dos Clubes de
Leitura, mormente para a difusão da literatura piauiense. Os alunos recitaram
poemas e apresentaram performances.
Em minha conversa, disse que meu interesse pela literatura
nasceu quando eu tinha dez anos, na época em que, por um curto período, fomos
morar na zona rural de Campo Maior. À falta de outras diversões, a leitura se
tornou o meu entretenimento predileto, que mantenho até hoje. Acrescentei que,
a partir dos meus 16 anos, comecei a publicar contos e crônicas no jornal A
Luta, de Campo Maior.
Revelei que, no primeiro semestre de 1973, aos 17 anos,
quando fui aluno do Liceu, o seu auditório, onde estávamos, me encantava, e eu
o achava grande, deslumbrante, quase mesmo suntuoso (*).
Olhando as suas cadeiras, o seu palco, as suas ornamentações
e balaústres, sobretudo as suas cariátides, que pareciam sustentar o teto,
interiorano, jovem e algo bisonho, um tanto cabeludo e esbelto, eu me julgava o
próprio Antônio Frederico de Castro Alves e sonhava recitar um de meus poemas
para um grande público de alunos e professores.
De certa forma, realizei esse sonho dois anos depois, no
Recife, quando a diretora do Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro me
convidou para recitar um poema de minha autoria sobre a linda Veneza
Brasileira. O poema se perdeu nos desvãos e esconderijos de esconsa gaveta.
Dele, guardei apenas estes versos:
tuas luzes multicores
ilusórias como os primeiros amores
cheios de mágoas
parecem peixes fosfóreos
em tuas águas.
Aproveitei o momento para realizar o sonho do bisonho garoto
que eu fui e, do alto do palco do belo auditório do Liceu Piauiense, aos 70
anos, recitei um poema de minha lavra para o auditório lotado de atentos alunos
e professores.
Parafraseando o poeta Luís Guimarães Júnior, diria que a
emoção “jorrou-me em ondas”, e quase não pude resistir às lágrimas que queriam
marejar meus olhos e minhas retinas já fatigadas.
---
Na terça-feira da semana passada (22/09/2026), cumprindo
outro evento da parceria entre a SEDUC e a APL, os confrades Fonseca Neto,
Cecília Mendes, Marcelino Leal Barroso de Carvalho e eu estivemos no CETI João
Henrique de Almeida Sousa. Fomos recebidos pela diretora Lívia Simão, pelo
professor de Literatura Gilson e por outros mestres e funcionários. Todos
falamos sobre literatura, livros e a importância dos Clubes de Leitura.
Funcionou como apresentadora, ou mestra de cerimônia, a jovem
aluna Bianca Soares, que teve muita desenvoltura, criatividade e capacidade de
improviso. Alguns alunos fizeram performances e recitaram poemas de sua
autoria. Foi recitado um poema do estudante Heitor, rapaz um tanto tímido, cujo
nome — e o fato de ser poeta — me fez lembrar Troia e Homero, que celebrou em
seus versos o herói lendário.
Desta feita, optei por falar sobre a gênese de meu poema “Rio
Infinito”, elaborado recentemente, e fazer a minha interpretação de autor.
Contudo, deixei claro que ele poderia ter outras interpretações diferentes da
minha.
Foi projetada uma imagem que pedira a uma IA que elaborasse,
seguindo minhas instruções, na qual aparecia um rio que formava o símbolo do
infinito e do qual surgia a “escada” retorcida de um DNA humano.
Expliquei que, ao ler um livro de poesias, o poema, como um “insight”,
ficara gravado em meu cérebro, já pronto e acabado. Eis o poema, que também foi
projetado pelo datashow:
Sou
um rio infinito,
um rio
sem começo nem fim.
Um rio que deságua
em si ou em mim.
Um rio eternamente a fluir
no espaço e no tempo,
sem início e sem fim...
Dei algumas explicações sobre a imagem e seu significado, mas
principalmente tentei interpretar o meu poema. Assim, lhes disse que o rio
infinito de meu poema não poderia ser nunca um rio literal, um rio de verdade,
uma vez que um rio natural não pode desaguar em si mesmo, já que sempre segue a
declividade por onde corre.
Um rio de verdade pode se transformar num rio seco, num rio
de pedras ou num rio de areia, quando é temporário. É o rio de Heráclito de
Éfeso, que não pode ser atravessado duas vezes, já que as águas serão outras. É
o rio de um filme a que assisti recentemente, em que um personagem, ao
contemplá-lo e se lembrar do passado, exclamou, talvez apenas para si mesmo:
“As águas passam, o rio fica; que nem nós”. Era um filme baseado no magnífico
conto de Aníbal Machado, “Viagem aos seios de Duília”, cujo título vale por um
excelente poema lírico.
Esclareci que o meu rio formava uma espécie de Ouroboros, a
serpente ou dragão que morde a própria cauda, como símbolo da eternidade — do
nascimento, morte e ressurreição para a eternidade. É um rio sobrenatural
porque deságua em si mesmo, como a significar a retroalimentação e a
perenidade.
Para não me alongar, diria que o meu rio representa a vida
eterna, de que nos falou Jesus, e que ele está nos seguintes trechos do Novo
Testamento, para os quais remeto o leitor: João 4:14, João 15:5 e Apocalipse
22:1.
Portanto, o rio de meu poema é o mesmo que está no Novo
Testamento, o rio metafórico de que nos falaram Jesus e João. Um rio de águas
límpidas, puras, cristalinas. Quem dele beber não voltará a ter sede. Quem dele
beber não morrerá, a não ser para a vida eterna.
Nasce no trono de Deus e a ele infinitamente retornará, pelos
séculos dos séculos, “ad infinitum”.
(*) Esse relato se encontra no documentário “Teresina – Tempo e Memória”, que se encontra disponível no YouTube.

👏👏👏👏👏
ResponderExcluir