terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sobre livros, poemas e leituras

Acadêmicos Oton, Elmar, Cecília e Felipe, no auditório do Liceu Piauiense

CETI João Henrique de Almeida Sousa


Sobre livros, poemas e leituras

 

Elmar Carvalho

 

Dias atrás, estive no velho Liceu Piauiense (CETI Zacarias de Góis) para participar de um evento promovido pela Secretaria Estadual de Educação e pela Academia Piauiense de Letras. Como representantes da APL, participamos eu e os acadêmicos Felipe Mendes, Oton Lustosa e Cecília Mendes. Cada um, a seu modo, falou sobre livros, experiências com a literatura e a importância dos Clubes de Leitura, mormente para a difusão da literatura piauiense. Os alunos recitaram poemas e apresentaram performances.

 

Em minha conversa, disse que meu interesse pela literatura nasceu quando eu tinha dez anos, na época em que, por um curto período, fomos morar na zona rural de Campo Maior. À falta de outras diversões, a leitura se tornou o meu entretenimento predileto, que mantenho até hoje. Acrescentei que, a partir dos meus 16 anos, comecei a publicar contos e crônicas no jornal A Luta, de Campo Maior.

 

Revelei que, no primeiro semestre de 1973, aos 17 anos, quando fui aluno do Liceu, o seu auditório, onde estávamos, me encantava, e eu o achava grande, deslumbrante, quase mesmo suntuoso (*).

 

Olhando as suas cadeiras, o seu palco, as suas ornamentações e balaústres, sobretudo as suas cariátides, que pareciam sustentar o teto, interiorano, jovem e algo bisonho, um tanto cabeludo e esbelto, eu me julgava o próprio Antônio Frederico de Castro Alves e sonhava recitar um de meus poemas para um grande público de alunos e professores.

 

De certa forma, realizei esse sonho dois anos depois, no Recife, quando a diretora do Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro me convidou para recitar um poema de minha autoria sobre a linda Veneza Brasileira. O poema se perdeu nos desvãos e esconderijos de esconsa gaveta. Dele, guardei apenas estes versos:

 

tuas luzes multicores

ilusórias como os primeiros amores

cheios de mágoas

parecem peixes fosfóreos

em tuas águas.

 

Aproveitei o momento para realizar o sonho do bisonho garoto que eu fui e, do alto do palco do belo auditório do Liceu Piauiense, aos 70 anos, recitei um poema de minha lavra para o auditório lotado de atentos alunos e professores.

 

Parafraseando o poeta Luís Guimarães Júnior, diria que a emoção “jorrou-me em ondas”, e quase não pude resistir às lágrimas que queriam marejar meus olhos e minhas retinas já fatigadas.

 

---

 

Na terça-feira da semana passada (22/09/2026), cumprindo outro evento da parceria entre a SEDUC e a APL, os confrades Fonseca Neto, Cecília Mendes, Marcelino Leal Barroso de Carvalho e eu estivemos no CETI João Henrique de Almeida Sousa. Fomos recebidos pela diretora Lívia Simão, pelo professor de Literatura Gilson e por outros mestres e funcionários. Todos falamos sobre literatura, livros e a importância dos Clubes de Leitura.

 

Funcionou como apresentadora, ou mestra de cerimônia, a jovem aluna Bianca Soares, que teve muita desenvoltura, criatividade e capacidade de improviso. Alguns alunos fizeram performances e recitaram poemas de sua autoria. Foi recitado um poema do estudante Heitor, rapaz um tanto tímido, cujo nome — e o fato de ser poeta — me fez lembrar Troia e Homero, que celebrou em seus versos o herói lendário.

 

Desta feita, optei por falar sobre a gênese de meu poema “Rio Infinito”, elaborado recentemente, e fazer a minha interpretação de autor. Contudo, deixei claro que ele poderia ter outras interpretações diferentes da minha.

 

Foi projetada uma imagem que pedira a uma IA que elaborasse, seguindo minhas instruções, na qual aparecia um rio que formava o símbolo do infinito e do qual surgia a “escada” retorcida de um DNA humano.

 

Expliquei que, ao ler um livro de poesias, o poema, como um “insight”, ficara gravado em meu cérebro, já pronto e acabado. Eis o poema, que também foi projetado pelo datashow:

Sou

um rio infinito,

um rio

sem começo nem fim.

 

Um rio que deságua

em si ou em mim.

 

Um rio eternamente a fluir

no espaço e no tempo,

sem início e sem fim...

Dei algumas explicações sobre a imagem e seu significado, mas principalmente tentei interpretar o meu poema. Assim, lhes disse que o rio infinito de meu poema não poderia ser nunca um rio literal, um rio de verdade, uma vez que um rio natural não pode desaguar em si mesmo, já que sempre segue a declividade por onde corre.

 

Um rio de verdade pode se transformar num rio seco, num rio de pedras ou num rio de areia, quando é temporário. É o rio de Heráclito de Éfeso, que não pode ser atravessado duas vezes, já que as águas serão outras. É o rio de um filme a que assisti recentemente, em que um personagem, ao contemplá-lo e se lembrar do passado, exclamou, talvez apenas para si mesmo: “As águas passam, o rio fica; que nem nós”. Era um filme baseado no magnífico conto de Aníbal Machado, “Viagem aos seios de Duília”, cujo título vale por um excelente poema lírico.

 

Esclareci que o meu rio formava uma espécie de Ouroboros, a serpente ou dragão que morde a própria cauda, como símbolo da eternidade — do nascimento, morte e ressurreição para a eternidade. É um rio sobrenatural porque deságua em si mesmo, como a significar a retroalimentação e a perenidade.

 

Para não me alongar, diria que o meu rio representa a vida eterna, de que nos falou Jesus, e que ele está nos seguintes trechos do Novo Testamento, para os quais remeto o leitor: João 4:14, João 15:5 e Apocalipse 22:1.

 

Portanto, o rio de meu poema é o mesmo que está no Novo Testamento, o rio metafórico de que nos falaram Jesus e João. Um rio de águas límpidas, puras, cristalinas. Quem dele beber não voltará a ter sede. Quem dele beber não morrerá, a não ser para a vida eterna.

 

Nasce no trono de Deus e a ele infinitamente retornará, pelos séculos dos séculos, “ad infinitum”.

 

(*) Esse relato se encontra no documentário “Teresina – Tempo e Memória”, que se encontra disponível no YouTube.  

Um comentário: