sexta-feira, 16 de outubro de 2026

CONFESSO QUE LI

Dulce e Jonas, em sua casa em BG

Membros do Jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos, vendo-se, da esquerda para a direita, no 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Danilo Melo, Francisco (Neco) Carvalho, Diderot Mavignier, Franzé Ribeiro, Sólima Genuína, Bernardo Silva, Reginaldo Costa e Paulo Martins; 3º plano: Jonas Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho e Flamarion Mesquita. Percebe-se, nesta fotografia, a felicidade dos retratados com esse reencontro, posto que vários moravam em outros estados e municípios. Hoje, a maioria já não reside em Parnaíba

 

CONFESSO QUE LI


Jonas Fontenele


Recebi via postal o livro Confissões de um Juiz, do meu amigo Elmar Carvalho. Apesar de termos o mesmo sobrenome, não me consta que sejamos parentes, nem mesmo distantes. Parentes não, mas somos amigos há várias décadas. Fui apresentado a ele pelo amigo comum Reginaldo Costa, quando eu, afoitamente, participava do movimento INOVAÇÃO, seja apoiando, seja escrevendo mal traçadas linhas.

Nesse turbilhão de ideias, foi que conheci Elmar Carvalho. Ele já era um poeta feito, já tinha publicações, mas sempre demonstrou muita humildade e muito afeto com todos. Era poeta e boêmio — caminho pelo qual eu também seguia, indo com ele e Reginaldo Costa ao bar do nosso amigo Augusto para ouvir músicas apaixonadas e tomar nossos porres.

O tempo passou, o Elmar casou e, algum tempo depois, conseguiu, por meio de um concurso concorridíssimo, tomar posse como juiz. Pronto, tínhamos entre nós uma autoridade. Eu já advogava há algum tempo e tinha certos receios com pessoas que exerciam a magistratura, vez que conheci vários juízes — inclusive alguns ex-alunos — que, após tomarem posse, se tornaram verdadeiros “deuses” e deixaram até de receber advogados no pleno exercício de suas funções.

Lembro que uma vez, defendendo um cliente que havia sido preso em Brasília por ordem de um juiz da cidade de Macapá, tive que me deslocar até aquele município. Lá, procurei despachar com o magistrado, e a secretária dele me disse de pronto: “Vou logo lhe avisando que o juiz não gosta de falar com advogados”. Ao que eu repliquei: “Pois empatou, porque eu também não gosto de falar com juiz, mas a lei me impõe esse sacrifício”.

Por isso, aquela notícia da posse do meu amigo me deixava alegre pela aprovação, mas triste ao mesmo tempo, pois sentia que ali poderia perder o companheiro de tantas conversas e trocas de experiências. Ledo engano. Nunca, em tempo algum — e eu sou testemunha disso —, o Elmar mudou um milímetro sequer. Continuou sendo o mesmo de sempre, e quem não sabia da sua profissão chegava a duvidar de que ele era juiz, tamanha a sua simplicidade. Eu posso afirmar, do alto dos meus 67 anos, que nunca vi o Elmar ao menos dizer que era juiz, quanto mais usar o cargo como argumento de autoridade para qualquer assunto.

Nosso amigo era juiz, mas continuava poeta como sempre fora. Tive muita vontade de vê-lo no seu mister de julgar, pois conhecia e conheço o seu caráter. Sei o quanto deve ter sido difícil aplicar o direito e dar razão a uma parte em detrimento da outra. Agora, lendo o livro Confissões de um Juiz, vi que estava com razão. Ele mesmo declara não ter sido fácil, mas, às vezes com bom humor e muita picardia, resolveu casos no mínimo engraçados.

Elmar Carvalho em nada mudou. Aposentou-se quando entendeu que já havia contribuído o bastante para o Poder Judiciário, mas não abandonou a poesia em momento algum, vez que ela é a essência da sua própria alma. Como seu amigo de sempre, nada me surpreende quando ele afirma que passou pela magistratura sem sofrer uma única advertência. O contrário, sim, seria surpreendente, pois esse ser humano lindo — de quem nem a doença tirou a coerência — não poderia sofrer qualquer mácula no desenvolver de sua missão.

Ainda não me aposentei e, assim como meu amigo, não sofri nenhuma punição nesses 39 anos de advocacia. Por isso, sinto-me no mesmo patamar. Não acho — e penso que o Elmar também não — que isso seja uma virtude extraordinária; penso que é uma obrigação viver dentro das regras e saber até onde vai o direito do outro.

Fiquei muito feliz com o recebimento do livro, que degustei aos poucos, e mais feliz ainda em saber que tenho amigos do quilate de Elmar Carvalho.

O livro é um desfilar de momentos de sua vida, nos quais ele mesmo se retrata como sempre foi: um grande poeta, analista da vida e, no fundo, um grande gozador. Mostra o seu lado mais que sensível quando dedica capítulos às suas cadelas Belinha e Anita, dando a elas uma verdadeira essência humanizada. Ele relembra momentos felizes em que conviveu com elas até o final da existência delas, inclusive dando-lhes um enterro digno.

Relata, para os que não conviveram diretamente com ele, como foram seus pais, sua família, seus amigos e todos que tiveram a felicidade de participar de sua vida. O livro é como se fosse o filme da sua vida. Até eu, de forma direta ou indireta, participei, estando presente na foto icônica sob o cajueiro de Humberto de Campos.

Confissões de um Juiz é, sem dúvida alguma, as confissões de um ser humano lindo que soube destilar amor e simpatia por onde passou e passa ainda hoje, com sua espada afiada de poesia e muito humor.

"Já não tenho epitáfios
Para tantas lápides
Em meu peito.

       Elmar Carvalho"

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