terça-feira, 6 de outubro de 2026

Padre Deusdedit, um mecenas do futebol

 

Pe. Deusdedit, Elmar e Fátima

Imagem elaborada pela IA GPT


Padre Deusdedit, um mecenas do futebol

 

Elmar Carvalho

 

Quando, recentemente, precisei do meu diploma do curso de Direito, que era guardado numa gaveta, juntamente com o do curso de Administração de Empresas, ambos expedidos pela UFPI, descobri que eles haviam sido extraviados, em circunstâncias que desconheço. Por essa razão, requeri ao setor competente a expedição de segunda via.

 

Numa das vezes em que lá estive, ouvi um velho servidor dizer que tinha vindo requerer sua aposentadoria. No decorrer da conversa, ele disse que era de José de Freitas e que havia sido vereador daquele município. Não pude deixar de me intrometer na conversa. Falei que morei naquela bela e bucólica cidade durante um ano, quando completei 14 anos de idade. Exatamente no ano de 1970, quando a Seleção Brasileira ganhou o tricampeonato mundial de futebol.

 

Perguntei qual era o nome de meu interlocutor, tendo ele me respondido que era José Ribamar Santana. Disse-lhe que morei numa casa caiada, que ficava exatamente no lugar onde terminava a rua que passava pelo teatro, pelo clube social, pela casa do senhor Levi Carvalho e pela lateral da casa dos Santana. Ribamar disse que aquela era a casa de seus pais. Contei-lhe, então, os seguintes episódios.

 

Relatei que jogava bola num campinho arenoso, rodeado de mangueiras, que ficava num terreno em frente à marcenaria de Zezé Barros, então o melhor marceneiro da cidade. Zezé jogava com a gente, a partir das cinco horas da tarde. Entre outros, participavam das “peladas” os garotos Itamar, Louro, Carlos, filho de dona Irá, e Pedro ou João Rocha. Eu atuava como goleiro e gostava de enfeitar minhas defesas com voadas acrobáticas. Acrescentei que, quando os Rocha compraram esse imóvel, proibiram a prática de futebol nesse campo.

 

Por essa razão, certo dia estávamos jogando futebol na rua, na frente da casa dos Santana, quando chegou o padre Deusdedit, dirigindo o seu Fusca. Ele era meu diretor e professor de Português no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, quando eu cursava o segundo ano. Acenou-me para que fosse até onde ele se encontrava. O padre perguntou-me por que estávamos jogando no meio da rua. Narrei-lhe a história acima, não esquecendo de falar sobre o fechamento de nosso campinho.

 

Ele disse que havia um terreno baldio em frente ao cemitério velho, por trás da casa de Levi Carvalho. Prometeu que, se limpássemos esse terreno, ele daria as traves, uma bola de couro, os tornos de marcação e um apito para o árbitro. Liderei os colegas de futebol e limpamos o terreno dos mata-pastos que infestavam o local.

 

O padre imediatamente cumpriu sua promessa. Diante disso, fiz uma carta ao Armazém Paraíba, relatando esses fatos e pedindo um equipamento completo para um time de futebol. Um ou dois meses depois, recebi em minha casa o uniforme do Santos. Assim, posso dizer que, com a ajuda do padre Deusdedit Craveiro de Melo, contribuí para a fundação de um campo de futebol e do Santos de José de Freitas. O padre já havia fundado outro campo de futebol, o Guriatã.

 

Relatei ao Ribamar Santana que certa vez vi o irmão dele, em companhia de outros rapazes, ouvindo músicas da Jovem Guarda numa radiola portátil, na calçada de sua casa. Entre outros cantores, pude ouvir, nessa ocasião, José Roberto e Paulo Sérgio. Contei que, poucos anos depois, soube da morte de seu irmão, afogado nas águas do Parnaíba. Ele confirmou a morte do irmão e acrescentou que esse fato trágico aconteceu no dia da inauguração do Estádio Alberto Silva.

 

Ele, após me dizer que se casara com uma irmã de Pedro e João Rocha, afirmou estar admirado de minha memória e mostrou o braço arrepiado, em sinal da emoção que sentiu com os fatos que narrei.

 

Encerro esta crônica memorialística prestando minha comovida homenagem ao monsenhor Deusdedit Craveiro de Melo, que me casou 15 anos depois, meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, mecenas do futebol freitense.

 

(*) Alguns dos fatos narrados encontram-se no documentário “José de Freitas – a cidade da memória e da saudade”, disponível no YouTube.

 

2 comentários:

  1. Meu caríssimo. Dr. Elmar, bom dia. Está sua “crônica””(?) é-me neófita. De fato, sua memória é inimiga do dr. Alemão. Gloria a Deus!

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  2. Kkkkkkk. Já sei de quem se trata, pelo estilo da pequena missiva.
    Abraço.

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