| Pe. Deusdedit, Elmar e Fátima |
Padre Deusdedit, um mecenas do futebol
Elmar Carvalho
Quando, recentemente, precisei do meu diploma do curso de
Direito, que era guardado numa gaveta, juntamente com o do curso de
Administração de Empresas, ambos expedidos pela UFPI, descobri que eles haviam
sido extraviados, em circunstâncias que desconheço. Por essa razão, requeri ao
setor competente a expedição de segunda via.
Numa das vezes em que lá estive, ouvi um velho servidor dizer
que tinha vindo requerer sua aposentadoria. No decorrer da conversa, ele disse
que era de José de Freitas e que havia sido vereador daquele município. Não
pude deixar de me intrometer na conversa. Falei que morei naquela bela e
bucólica cidade durante um ano, quando completei 14 anos de idade. Exatamente
no ano de 1970, quando a Seleção Brasileira ganhou o tricampeonato mundial de
futebol.
Perguntei qual era o nome de meu interlocutor, tendo ele me
respondido que era José Ribamar Santana. Disse-lhe que morei numa casa caiada,
que ficava exatamente no lugar onde terminava a rua que passava pelo teatro,
pelo clube social, pela casa do senhor Levi Carvalho e pela lateral da casa dos
Santana. Ribamar disse que aquela era a casa de seus pais. Contei-lhe, então,
os seguintes episódios.
Relatei que jogava bola num campinho arenoso, rodeado de
mangueiras, que ficava num terreno em frente à marcenaria de Zezé Barros, então
o melhor marceneiro da cidade. Zezé jogava com a gente, a partir das cinco
horas da tarde. Entre outros, participavam das “peladas” os garotos Itamar,
Louro, Carlos, filho de dona Irá, e Pedro ou João Rocha. Eu atuava como goleiro
e gostava de enfeitar minhas defesas com voadas acrobáticas. Acrescentei que,
quando os Rocha compraram esse imóvel, proibiram a prática de futebol nesse
campo.
Por essa razão, certo dia estávamos jogando futebol na rua,
na frente da casa dos Santana, quando chegou o padre Deusdedit, dirigindo o seu
Fusca. Ele era meu diretor e professor de Português no Ginásio Moderno Estadual
Antônio Freitas, quando eu cursava o segundo ano. Acenou-me para que fosse até
onde ele se encontrava. O padre perguntou-me por que estávamos jogando no meio
da rua. Narrei-lhe a história acima, não esquecendo de falar sobre o fechamento
de nosso campinho.
Ele disse que havia um terreno baldio em frente ao cemitério
velho, por trás da casa de Levi Carvalho. Prometeu que, se limpássemos esse
terreno, ele daria as traves, uma bola de couro, os tornos de marcação e um
apito para o árbitro. Liderei os colegas de futebol e limpamos o terreno dos
mata-pastos que infestavam o local.
O padre imediatamente cumpriu sua promessa. Diante disso, fiz
uma carta ao Armazém Paraíba, relatando esses fatos e pedindo um equipamento
completo para um time de futebol. Um ou dois meses depois, recebi em minha casa
o uniforme do Santos. Assim, posso dizer que, com a ajuda do padre Deusdedit
Craveiro de Melo, contribuí para a fundação de um campo de futebol e do Santos
de José de Freitas. O padre já havia fundado outro campo de futebol, o Guriatã.
Relatei ao Ribamar Santana que certa vez vi o irmão dele, em
companhia de outros rapazes, ouvindo músicas da Jovem Guarda numa radiola
portátil, na calçada de sua casa. Entre outros cantores, pude ouvir, nessa
ocasião, José Roberto e Paulo Sérgio. Contei que, poucos anos depois, soube da
morte de seu irmão, afogado nas águas do Parnaíba. Ele confirmou a morte do
irmão e acrescentou que esse fato trágico aconteceu no dia da inauguração do
Estádio Alberto Silva.
Ele, após me dizer que se casara com uma irmã de Pedro e João
Rocha, afirmou estar admirado de minha memória e mostrou o braço arrepiado, em
sinal da emoção que sentiu com os fatos que narrei.
Encerro esta crônica memorialística prestando minha comovida
homenagem ao monsenhor Deusdedit Craveiro de Melo, que me casou 15 anos depois,
meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, mecenas do
futebol freitense.
(*) Alguns dos fatos narrados encontram-se no documentário
“José de Freitas – a cidade da memória e da saudade”, disponível no YouTube.

Meu caríssimo. Dr. Elmar, bom dia. Está sua “crônica””(?) é-me neófita. De fato, sua memória é inimiga do dr. Alemão. Gloria a Deus!
ResponderExcluirKkkkkkk. Já sei de quem se trata, pelo estilo da pequena missiva.
ResponderExcluirAbraço.