segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



FAZENDEIRO DE URUBUS

Elmar Carvalho

Quando o sargento Gregório Silva chegou a sua casa, a mulher foi logo lhe dando a má notícia: o fornecimento de energia elétrica fora cortado. Portanto, ela teria que pedir à vizinha para guardar um resto de carne bovina e mais outras coisas perecíveis. Gregório era o delegado de Polícia de Chapadinha. Ficou possesso, e tratou de saber quem fora o empregado que efetuara o corte de energia. Remexeu em uns papéis, e imediatamente retornou à Delegacia. Mandou que um soldado lhe trouxesse o Zé Alicate, cujo nome verdadeiro era José Rosa Damasceno. O apelido lhe viera de seu execrável ofício de cortar fio de energia elétrica, para interromper o seu fornecimento. Na verdade, era empregado de um pequena empresa, que prestava esse serviço à Companhia de Energia Elétrica. A autoridade policial tinha fama de ter maus bofes e ser atrabiliário, mormente numa cidade como Chapadinha, que não era cabeça de Comarca, e portanto não era sede de juizado de Direito e nem de promotoria de Justiça. Viera transferido de outro município, e se comentava que já cometera alguns abusos de autoridade, por conta própria ou a pedido de outras pretensas autoridades.

Depois de esculhambar o Zé Alicate, perguntou porque ele lhe cortara a energia. O rapaz lhe respondeu que recebera uma lista das casas em que deveria ter sido suspenso o serviço, por falta de pagamento. O sargento Gregório, com voz estentórica, quase apoplético, bradou: “Pois fique sabendo, para tua desgraça, moleque atrevido, que ontem mesmo eu paguei o débito!” O empregado lhe disse que se a mulher do delegado lhe tivesse mostrado a fatura quitada não teria executado o serviço na casa da autoridade. Mas o sargento não aceitou a justificativa, ao lhe perguntar sobre por que motivo não viera primeiro falar com a sua pessoa. Disse que o empregado desejava lhe expor ao ridículo, para mostrar que tinha os “quibes” roxos, quando na verdade era um mequetrefe de merda. Sob escolta policial mandou que ele fosse efetuar a religação, e determinou que os policiais o trouxessem de volta. Assim foi feito. Disse que tinha umas diligências e averiguações a fazer, e mandou que os soldados trancafiassem o moleque atrevido numa das celas, na qual não havia cama nem rede. No dia seguinte, simulou um interrogatório, e por volta de onze horas mandou soltar José Rosa. É claro que o sargento não registrou nenhum procedimento, pois não era tolo para incriminar-se a si mesmo. Caso o episódio chegasse a seus superiores, teria como se defender, pois nada constaria oficialmente; diria que apenas o interrogara informalmente, mas que nada constatara do que lhe informaram anonimamente, ao telefone. Muitos, em Chapadinha, gostaram do abuso cometido pelo delegado, uma vez que achavam que o rapaz merecia uma lição. Zé Alicate era mal visto na cidade, porque parecia ter certa satisfação em cumprir a sua tarefa de cortar os fios das casas com exação extremada, se assim se pode expressar a prontidão com que seu alicate cumpria as ordens de corte que recebia. Nunca procurava saber se a dívida já havia sido paga. João Evilásio, considerado o intelectual da cidade, em sua psicologia de algibeira rasa, dizia que Damasceno era traumatizado por causa de uma grande surra que levou de seu pai, na infância. E contou o caso.

Quando José Rosa Damasceno tinha oito anos de idade era um menino levado. Inticava com os outros garotos. Gostava de brigar e perambular pelas ruas da cidade. Era dado a dizer nomes feios. Já sofrera suspensão na escola, e certa feita fora ameaçado de expulsão. O pai não lhe alisava a pele, e o castigava a valer, com um relho de couro cru ou com uma palmatória de pau rijo. Mas o garoto não se corrigia. Gostava de matar passarinho, com atiradeira, e de pescar. Numa dessas pescarias aprendeu a usar tingui e outras ervas que entorpeciam e matavam peixes. Numa de suas andanças, descobriu uma poça d' água onde os urubus bebiam. Lembrou-se das galinhas e dos capotes de sua mãe, que percorriam o quintal de sua casa. Às vezes, ele jogava milho para esses bichos, e gostava de ver a correria das galinhas e dos capotes em busca de um grão, e das disputas e alaridos que eles faziam. O menino pensou em ter o seu próprio rebanho. Achou que seria elogiado pelos pais. Envenenou o bebedouro na dosagem que julgou apropriada, e ficou numa moita de mufumbo a esperar. Aproveitou para admirar, como costumava fazer, não sem certa ponta de inveja, a revoada circular dos urubus, uma verdadeira e graciosa dança. Gostaria de ter asas, para voar e dançar no céu e nas nuvens. Mas isso era só para os anjos e certas aves, e não para um menino, filho de pais humanos.

Quando os urubus começaram a se desequilibrar, trôpegos, sem conseguirem alçar voo, Zé Rosa, com um rolo de cordão que levara numa bolsa, fez uma espécie de cabresto, e preou exatamente doze urubus. Gostava de ouvir seu pai dizer que tinha uma dúzia disso, uma dúzia daquilo. Achava um bom número, uma boa quantidade, nem muita, nem pouca. Foi pela estradinha, puxando as suas “reses”, de penas negras. Iria ter a sua fazenda de urubus, como os pais tinhas as suas galinhas, os seus capotes. Estava orgulhoso de si mesmo. Seus pais iriam sentir orgulho dele, o único fazendeiro de urubus. Era um bom e grande começo. Empreendeu uma longa e lenta caminhada. Os urubus, que já são gingosos naturalmente, bêbados, trôpegos, pareciam equilibrar-se em invisível corda bamba. Um ou outro caía, de quando em vez. Custava imenso esforço levantar-se. O garoto pensou no Antônio Bêbado, que sempre era visto a cambalear pelas ruas da cidade, ou caído nas sarjetas ou deitado nos bancos da praça. O sol já começava a procurar o seu poleiro, assim como as galinhas e os capotes de sua mãe. O céu já estava ficando vermelho, quando o menino avistou as primeiras casas da cidade.

O pai, furioso, a pedido da mulher, procurava Zé Rosa por todos os pontos de Chapadinha, que ele costumava frequentar, mas não tinha nenhuma informação. Já pensava em desistir, quando um ciclista lhe deu a notícia de que o garoto vinha puxando um rebanho de urubus, na estrada que ia para o Periquito. Manuel Rosa nem sequer agradeceu. Feito louco, montou na bicicleta, pedalou com força, e foi ao encontro do filho. O relho estava devidamente amarrado na garupa da bicicleta. De longe avistou o filho, a puxar o seu rebanho de urubus, as suas reses negras. Encostou a bicicleta numa árvore. O chicote desceu várias vezes sobre o lombo do menino, que estrebuchou e se esgoelou, sem que ninguém o ouvisse. Ninguém viu a surra, mas todos viram o seu corpo lanhado pelas chicotadas, que lhe feriram a alma mais do que o corpo. A mágoa calou fundo na criança. Esperara aplausos e recebera vaias, sonhara com elogios e lhe deram forte reprimenda e duras vergastadas. E o algoz fora o próprio pai. Talvez João Evilásio, poeta mor de Chapadinha, discípulo de Freud e outros que tais, tivesse razão em seu diagnóstico de leigo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

TRÊS POEMAS DE WILTON PORTO


POEMAS DE WILTON PORTO

CUIDE-SE
Para meu filho Hélder Porto

Cuide-se
Antes que alguém lhe cuide.
Quem nos cuida
Nem sempre tem o cuidado de nos cuidar
Sem os cifrões que as levam
À ânsia de tanto acuidade.
Quem cuida é desprendido;
Dedilha o piano nas cordas do coração
E afoga os interesses dos cinco sentidos  
No Fogo do Espírito Santo.
Nosso papel é cuidar de quem nos cuida
Porém o cuidado com quem nos cuida
Não pode ser tão descuidado
Que o cuidador(a) que pensamos que nos cuida
Cuide mais do se cuidar
Que não vale a pena dele(a) cuidarmos.
Quem cuida precisa de ter olhos na fronte
Quem é cuidado, de olhos na nuca.
Assim há um recíproco cuidar-se
E nenhum nadará no mar das desilusões.
Encontrei no par
Que hoje me cuida
Um cuidado de tanto cuidar-me
Que mais do que ser cuidado
Sou desejado, sou mais que amado
É a mulher que por mim amada.

MOIÇOLA
De Wilton Porto p/Eliana Porto (esposa)

Num balde carcomido pelo tempo,
Encostado da casa, num canto,
Joguei os sacrifícios, o pranto,
E o que havia da vida em contratempo.

Enterrado está casório primeiro.
Cupido rodeia, me olha, namora.
A vida que é vida me enlaça agora.
Pressinto a flecha na mão do arqueiro.

Moiçola que olha embebida em desejo,
Arranca-me suspiros de noite e de dia.
Breve – eu sei – o abraço, o beijo,

A voz soando-me tal qual melodia.
Meu coração saltitando, o cônscio ensejo:
De ser o seu fulcro, o seu Sol, sua poesia.

O DESENCARNE DA CACHORRA PRISCILA

Passam os dias
Mas o dia não passa.
No repasse de cada dia
Sente-se que o dia que passou
Por mais que queira passar
A todo instante repassa
E no repassar de cada dia
Faz com que nunca ele passe.

Se o dia em que ela passou
Pudesse ter só passado
Em nós cada passo dado
Não teria essa máxima dor.

No entanto por mais que o tempo passe
Por mais que não queiramos repassar o passado
Mais presente é o passado
Em cada passo que é dado.

Se pudéssemos arrancar
O passado que mais presente
Talvez a dor que latente
Por ela estar ausente
Fosse um descontente contente
Pois dor já ela não sente.

Porém a todo momento
Pela casa ela presente
E por mais que a gente tente
Eliminar o sofrimento
Mais sofrimento se sente
Já que é no ausente
Que ela está presente.

Priscila era cachorra
Mais agia como gente.
Nuca vi entre os viventes
Alguém tão inteligente.
E se falarmos de amor
Aonde quer que a gente vá
Não se encontrará superior.

Por isso já de antemão
Aos críticos desavisados
Antes que usem da mão
Pra arremate zonzeado
Eu digo que os animais
No tocante ao Amor
Eles são insuperáveis.
Sem falar-se de outros valores
Como o da fidelidade.

Assim lágrimas sofrimento
Desmedido sentimento
Por uma simples cachorra.
É normal justificável
Para os que vivem do Amor.
O Sol brilha para todos
Para todos a chuva cai
Se o amor é parcial
Se facilmente se esvai
Acredite não é Amor
É fumaça ao léu
Que só o bobo atrai.

          Priscila desencarnou em 19/06/2010
                          Viveu nove anos.
  

sábado, 11 de dezembro de 2010

ONDE HUMANO - , POETA LUIZ FILHO DE OLIVEIRA

Francisco Miguel de Moura

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA*




Faz algum tempo que o poeta e historiador da literatura do Piauí, Herculano Moraes, criou a necessária Geração do Milênio, para classificar escritores realmente novos do final do século passado e começo deste, não os deixando cair na relação dos que ficaram conhecidos como Geração do Mimeógrafo (ou Marginal). E eu não me advertira ainda de que está havendo certa diferença a mais nos escritores (menos nos prosadores) deste começo século XXI.

Mas agora, lendo a obra de Luiz Filho de Oliveira, especialmente seu segundo livro, “Onde Humano”, gritei para mim mesmo: Eis um poeta diferente, com sumo, com força, com raça, que merece ser distinguido dos de antes pela postura lingüística nova, sem querer imitar gregos nem troianos, clássicos nem modernos, apenas ser ele mesmo, a figura impar do que acontece no mundo, o poeta – em forma de palavra, língua, linguagem, poesia. Num poema de quatro versos, analisemo-lo quando ele faz  
questão de poesia:  (p.15)
deixe completo ou complete 
o verbo é avesso da morte 
e por dentro & fora  
permanece” __________

(Espaço de exercício gramático-poético). 

Noutro poema, este bem maior, assistimos o despacho do “onde humano”, cujo título enorme não faz medo, mas ilumina o achado da poesia-humanidade, sem sumo de humanismo:  
poema armado a sua dessemelhante imagem” (pg.16): 

não lapida a palavra este poeta
mas a lapidar-elas¹ como poema 
físico-estético, sócio-linguístico 
arma /este edifício funcional engenho 
erguido na pedra argila cerâmica 
papiro, pergaminho, papel tela eletrônica 
ao pegar da cunha do estilo do pincel 
à caneta esferográfica ao teclado em pixel² 
e sobe ao subsolo bem rente ao cume e 
desce os degraus rumo ao cimo e 
armado o poema resiste firme 
com o espaço destes elementos e 
veste tais paredes (estas linhas) e
arranha o céu dos sentidos 
o enésimo sétimo talvez sim 
pela engenharia do pedreiro 
pela forma livre do que 
em vida edifica texto: 
música ou poema 
sentido.... espaço humano construindo”  

(Das preciosas pedras, em Pedro II, à do sal, em Parnaíba). 

Quero saber se o leitor, principalmente o comum, o mais sensível, compreendeu o desejo do poeta de arrancar do espaço e do tempo o impossível, o interdito, “a dor da força desaproveitada” que tão bem lembrou Augusto dos Anjos. Não falo dos poetas, eles entendem o que o leitor comum outrora chamava de loucura do poeta. Hoje, todos que consomem versos e poemas sabem muito bem.

Luiz Filho de Oliveira não precisa de prefácio, apresentação ou crítica. É um poeta pronto para saltos maiores: os de ter seus poemas publicados em editoras e vendidos em livrarias, assim como seu nome divulgado em antologias e dicionários, pois é o que merece.  Ele é um verdadeiro poeta Milenista, ou seja, deste século e do futuro, digo sem medo. Ele não vai desaparecer na multidão de poetas comuns, porque sabe o que quer, o que faz e aonde quer chegar. É muito bom quando a gente tem poetas assim, individuais, pessoais, inimitáveis, como são as criaturas do nosso mundo onde o indivíduo, a criatura é também o criador de si e do mundo em redor de si. Para o bem e a felicidade da arte. Porque a arte é isto aí: palavras, sons, silêncios, símbolos, imagens que transmitem o até então intransmissível: a poesia. E o poeta é um arauto do futuro, além de ser o intérprete do presente. Poetas e profetas – as raízes são as mesmas. Por isto é que são radicais. O estilo de Luiz Filho é radical e ao mesmo tempo racional. As explicações que ele dá às expressões assinaladas com (¹) e (²), nos versos acima, são de quem conhece gramática, linguística e línguas. Cai, assim, no número geral assinalado por Mário de Andrade: “só os poetas que sabem podem errar” – se alguém, por preconceito, achar que o poeta Luiz Filho erra nisto ou naquilo. Ele não erra, ao invés renova. E todos os poetas são renovadores, criadores. Benvido, poeta! Entre, a porta está aberta para a literatura, aqui e alhures.
                                              ____________________________
Notas numeradas:
 1. Lapidar-elas (p.16) - Falsa forma de brasileirismo, segundo Rui Barbosa. Na  verdade, trata-se de um lusitanismo conservado no falar do brasileiro,  em que se usa o pronome pessoal ele (e suas variações), como objeto do verbo, conforme cita Ismael Lima Coutinho em sua Gramática Histórica (Ao Livro Técnico, 1796). O próprio Rui Barbosa registra alguns exemplos, como o de Fernão Lopes: El-rei mandou-o logo prender,  e levaram ele e Mateus Fernandes a Sevilha. Além de citar esse exemplo, Coutinho acrescenta outros, dos quais Desque vi ela é o mais antigo, do Cancioneiro da Vaticana. Neste livro, o autor usou o hífen para destacar a relação verbo-objeto.
2. Pixel (pg.16) - Termo inglês, usado em informática para designar a menor unidade de formatação da imagem (fotos, desenhos, vídeos, etc.) em certos equipamentos eletrônicos.
________________
 *Luiz Filho de Oliveira, piauiense, nascido em 1968, em Campo Maior, já publicou dois livros: "BardoAmar", estreia em 2003; e "Onde Humano", 2009. Mora em Teresina, Piauí.
**Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, da UBE-SP e da IWA - International Writers and Artists Association, Estados Unidos da América.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

PARA QUE OUVIDOS?

Charge: Gervásio Castro

ALCIONE PESSOA LIMA

Desde quando aprendi a falar que exercito mais a oratória. Meus ouvidos não foram educados a escutar. E sempre faço cursos para melhorar a minha condição de orador. E a vaidade busca intensamente trilhar pelos caminhos da fala.
O ego resmunga: ouvir para que? Desconhece a sutileza da audição.  O mundo somente quer aprender a falar. Daí, diz Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.
Sinto, assim, uma dificuldade tremenda em ouvir, pois prefiro trilhar na tagarelice e se não prevalecerem os meus argumentos, que a minha falação preencha o vazio da dos outros. Um discurso pronto ou por acabar, desde que sob o comando do meu ponto de vista.
Muitas vezes em reuniões com amigos ou familiares, ou mesmo colegas de trabalho, percebo todo o burburinho, onde todos falam de uma vez só, chegando alguns aos gritos, para expressarem os seus pontos de vistas. Não seria melhor ouvir o outro e depois expor nossas argumentações? Bem, seria, mas se todos soubessem ouvir também. Até por que tudo é questão de educação mesmo.
O problema, com certeza, de agirmos assim, é um puro reflexo de nosso egoísmo/egocentrismo, pois sempre achamos que a nossa opinião ou experiência é  melhor que a do outro e não aceitamos nem ouvi-la.
E tudo vai se tornando em um comportamento generalizado. Uma babel sem tamanho em que as pessoas já não se entendem mais.  Reflexos dessas atitudes são ostensivos no trânsito, em locais onde as pessoas abrem os sons de seus carros e disputam o prêmio imaginário de quem provoca maior poluição sonora...
Parece incrível, mas fico feliz quando tenho problema de garganta e, sob recomendação médica, tenho que baixar o tom da voz ou mesmo calar. Ainda bem que, segundo a última consulta à fonoaudióloga, não tenho qualquer problema de audição. Então, um ótimo motivo para aceitar aquela máxima popular: boca calada não entra mosca!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XI

Dalí da tela se enxerga
a pintar o auto-retrato
que pensativo lhe espia.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


Moisés Reis apresenta o livro

Elmar Carvalho agradece o apoio do IBENS e a acolhida dos oeirenses

O senhor Geraldo Barros e Elmar Carvalho

Flagrante da parte musical

Ceiça Campos e Fátima Carvalho

Elmar autografa livro para o poeta Gutenberg Rocha

A dança da garota Juliana Barros

Professora Magda Barros

TODAS AS FOTOGRAFIAS FORAM "COLHIDAS" NO SITE MURAL DA VILA E ATRAVÉS DAS LENTES DO DR. CARLOS RUBEM


8 de dezembro

NOTURNO LANÇADO NA NOITE OEIRENSE

Elmar Carvalho

O livro Noturno de Oeiras e outras evocações já estava editado fazia alguns meses. Por motivos que não quero declinar, alheios à minha vontade, ainda não fora lançado. Mas tudo tem seu tempo, como diz a Bíblia. Certo dia de sábado, uma comitiva do Instituto Barros de Ensino – IBENS, procedente da velha capital, veio visitar a Academia Piauiense de Letras. Tive a oportunidade de contar para as diretoras do educandário essa situação. Elas me disseram, sem que eu nada pedisse, que fariam o lançamento da obra; que oportunamente me comunicariam a data.

Em poucos dias, para minha grata surpresa, a direção do IBENS me contactou e disse que o evento poderia ser feito no dia 3 de dezembro. Combinamos que o apresentador seria o autor do prefácio, o escritor e advogado Moisés Reis, que aceitou a incumbência. No dia marcado, cheguei a Oeiras, na companhia de meu pai e do Zé Francisco Marques. Fomos hóspedes do empresário Miguel Machado, campomaiorense, mas radicado na velhacap, e de sua mulher Dalva, oeirense. O evento foi incluído dentro do Projeto “De Poeta, de Músico e de Louco em Oeiras todos têm um pouco”, que este ano homenageou o médico e escritor Dagoberto Carvalho Jr., um dos mais proeminentes ecianos, sobre o qual já escrevi mais de um texto e de quem tive a honra de prefaciar a mais recente edição da obra prima Passeio a Oeiras. A solenidade aconteceu na Praça da Inocência, na frente do IBENS, à boca da noite, como se dizia outrora. Compareceu um público expressivo e seleto. Quando cheguei, Moisés Reis foi logo me dizendo estar satisfeito com a quantidade de pessoas e com o fato de que havia muitos jovens na plateia.

Fui recebido pelos dirigentes do Instituto Barros de Ensino, entre os quais se encontrava o patriarca Geraldo Barros, genitor dessa bela estirpe de educadores, entusiastas da causa da cultura e da educação em sentido integral, e não apenas meros repassadores de conteúdo. A diretora Magda Barros fez a apresentação, seguindo um belo e elucidativo script, com roteiro pertinente e bem planejado. Um grupo de alunos do IBENS recitou poemas e fez uma excelente performance do poema Noturno do Cemitério Velho de Oeiras, com todos os intérpretes trajando vestes negras. Francisco Barroso o musicou, e de forma tão feliz que o público acompanhou a música com palmas vibrantes e sincronizadas. A simpática e amável garota Juliana Barros nos encantou com a virtuosidade de sua dança, quase levitação artística. Moisés Reis estava “impossível”, inspirado como sempre, e excedendo-se a si mesmo fez um notável improviso, em que analisou, com argutos olhos de Argos, os textos e teceu comentários percucientes sobre o autor. Apenas cometeu o compreensível pecado de enaltecer meu livro além do que ele merecia, por força de sua lhaneza e generosidade. Quando fui chamado ao palco monumental, disse que pouco tinha a dizer, após o que Moisés falara; que o que deveria falar estava consignado no meu livro; que apenas tinha muito a agradecer. E agradeci ao IBENS pela promoção da festa literária, à comitiva que viera de Regeneração, composta por Alfredo Nunes, Tiago Junqueira e Nileide Soares, e à comitiva campomaiorense, integrada por meu pai, por Zé Francisco Marques e pelo empresário Miguel Machado, pela consideração da presença. A sessão de autógrafo foi deveras concorrida, mas minha caneta não regateou tinta. O promotor de Justiça Carlos Rubem, sempre prestativo e dinâmico, sobretudo no que se refere à arte e à cultura, fez uma verdadeira reportagem fotográfica; por isso mesmo, no autógrafo, o rotulei de promotor de Justiça e de Cultura. Em suma, foi uma magnífica noite de arte, música e literatura.

Não pude deixar de comemorá-la, degustando uma cerveja, no emblemático e simpático Café Oeiras; estavam presentes Miguel Machado, sua esposa Lindalva Elisa, Zé Francisco e meu pai. Eis que de repente, fui abordado por Zé Carlos, que sem pruridos de falsa modéstia disse ser o maior goleiro de Oeiras, e ter barrado os maiores goleadores do futebol nacional, inclusive o nosso Simão Teles Bacelar, o legendário Sima, o maior artilheiro do Piauí. Por isso, pediu-me para lhe escrever a biografia. Disse-lhe ser um colega menor, conquanto nunca tenha engolido “frangos” escandalosos. Tive o cuidado de perguntar ao Carlos Rubem se Zé Carlos, realmente, fora o maior golquíper da velhacap. Reservo-me, todavia, o direito de não revelar o teor da resposta. Autografei-lhe um exemplar. E dei por encerrada na madrugada oeirense – em que a brisa me afagava a pele, muito macia e muito levemente, como carícia de pávido fantasma de mulher – o meu périplo e peripécia cultural no encantado sertão dos confins do Mocha.


Equipe do IBENS com o patriarca Geraldo Barros


Alunos do IBENS interpretam poema de Elmar Carvalho

Elmar, Miguel Carvalho, Zé Francisco, Miguel Machado e o juiz Sebastião Firmino


José Francisco Marques disse...








Mestre Elmar,
Quero deixar consignado o imenso prazer em ter participado de sua comitiva rumo a velha Oeiras.
Foi uma viagem inesquecível.Pude constatar in loco o grande prestígio que você desfruta junto à elite cultural daquela maravilhosa cidade.
Oeiras deu um "banho de civilidade cultural" em todos os momentos que envolveram a solenidade de lançamento de NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES.
Senti-me como se estivesse no meu próprio rincão. A hospitalidade oferecida pelo amigo/irmão Miguel Machado e sua esposa Dalvinha, foi um capítulo à parte.Que alvissareiro saber que existem pessoas tão compromissadas com valores tão preciosos e infelizmente tão escassos nos nossos dias.
Bendita sejas Oeiras!!!!! ...e longa vida a todos os que habitam tão abençoado lugar.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

EGOCENTRISMO

ELMAR CARVALHO


     espirrei
na réstia de luz
da janela do meu quarto
e fiz surgir um
               arco-íris
               arco-do-triunfo
sob o qual
napoleonicamente passei
sobre o qual caminhei
em busca do
        velocino de ouro
coroado com o
                       l’ouro
de minha própria
     alquimia

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O MÉDICO E O SANTO

Elmar Carvalho

Depois de formado em medicina e farmácia, Atualpa Mendonça retornou a sua pequenina Várzea Alegre. Montou a farmácia, o ambulatório e o consultório numa das casas de seu pai, o coronel Augusto Mendonça, de vastas barbas e denso bigode. Era ele o manda-chuva da cidade. Fora prefeito várias vezes. Já velho, passou a indicar seus sucessores, quase sempre parentes ou aderentes. Com a mulher, dona Felícia, tivera três filhas e dois filhos. Mas a menina de seus olhos era o filho caçula, que fora estudar na cidade grande, e agora voltava, doutor em farmácia e medicina. O coronel não regateou moedas, e montou uma farmácia sortida e um bonito consultório. Contratou firma da capital, para adaptar a casa aos misteres de Atualpa. Pretendia encaminhá-lo à política, primeiro como prefeito e depois como deputado estadual ou mesmo federal. Tinha moedas e influência política para tanto. Contudo, logo notou que o filho parecia dedicar-se de corpo e alma à sua ciência de esculápio. Não tinha hora certa para aliviar as dores de seu semelhante. Para salvar uma parturiente em dificuldade, ele percorria longas léguas de jeep nas estradas carroçáveis ou no lombo de cavalo, nas veredas mais ermas e mais distantes. As feições do filho eram quase sempre circunspectas, de quase ou nenhum sorriso, como se as dores todas do mundo tivessem desabado sobre ele.

Um dia em que Atualpa estava com a noiva, que viera da capital para conhecer sua família, os futuros cunhados e sogros, foi abordado, ao entardecer, por um matuto angustiado, cuja mulher sofria um longo e doloroso trabalho de parto, na zona rural de Várzea Alegre. A velha parteira não conseguira fazer a criança ser dada à luz. Atualpa, incontinenti, foi buscar sua valise médica e mandou selar o cavalo. A noiva, em suas roupas finas, o repreendeu severamente, e lhe perguntou como ele poderia deixá-la para ir atender o chamado de um caboclo, que lhe vinha incomodar, já a noite quase caindo. O médico respondeu que era seu dever, que apenas cumpria o juramento de Hipócrates, que espontaneamente fizera. A mulher, com ar de profundo aborrecimento, retrucou que ele escolhesse entre ela ou o parto da mulher do rurícola. Atualpa não teve dúvida; disse que a escolha já fora feita, e que a partir daquele momento o noivado estava desfeito. Montou no cavalo, e foi embora sem olhar para trás. Quando retornou, não mais encontrou sua bela e loura noiva, de feições tão delicada e de alma tão dura. Achou melhor assim. Não gostava de dramas e nem de caprichosos chiliques de mulher mimada. Nunca comentou o caso e nunca ninguém lhe puxou esse assunto, nem mesmo o seu velho pai, que, de resto, já perdera a esperança de torná-lo um político. Apenas, vez ou outra, Atualpa comentava que mulher não nascera para morrer de parto; que parto significava vida, e não morte.

Os anos se passaram. O coronel e a mulher morreram. Atualpa envelheceu, sem nunca se casar. Os raros sorrisos se extinguiram. Mas nunca se extinguiu a sua dedicação à medicina. Embora insulado nesse verdadeiro sertão dos confins, mantinha-se atualizado, através dos livros que ia buscar fora, nos grandes centros, ou dos que pedia através do reembolso postal. Malgrado não haver em Várzea Bela laboratório, seus diagnósticos eram sempre certeiros. Pessoas vinham de outros estados para consultá-lo, quando os exames e os médicos desses lugares mais desenvolvidos falhavam. Sua fama cada dia aumentava, e já muitos o consideravam um demiurgo ou um feiticeiro travestido de esculápio da caatinga; outros lhe atribuíam dons mediúnicos, tal o grau de acerto de seus diagnósticos e receitas. Contudo, a cada dia se tornava mais pobre. Apesar do preço irrisório das consultas, poucos lhe pagavam em moeda, mas apenas com agradecimentos e rezas. Um ou outro caboclo lhe trazia em pagamento um capão cevado ou um bacorinho de carne tenra e saborosa. Essa iguarias já não lhe serviam, porquanto se tornara vegetariano. O estoque de sua farmácia foi minguando, minguando, até se tornar irrisório, pois vendia fiado ou mesmo entregava gratuitamente o medicamento àqueles que diziam não ter dinheiro. Dos que compravam a crédito, poucos vinham pagar a dívida. Não sei se era lenda, mas as pessoas gostavam de comentar que ele já chegara a deixar a própria camisa para cobrir um recém-nascido. Se isso aconteceu alguma vez, nunca foi revelado pela boca de Atualpa. Alguns diziam ter visto passarinhos pousados nos seus ombros, quando ele se sentava à sombra da mangueira do quintal de sua casa. Houve mesmo quem dissesse que aves comiam as sementes diretamente de suas mãos. Era certo, no entanto, que ele alimentava aves em seu quintal, e que elas esvoaçam no interior de sua casa.

De tudo isso, pouco se sabe ao certo. Certo mesmo foi a sua morte, placidamente, rodeado dos passarinhos que alimentara, de manhã cedo, à sombra da mangueira, em sua cadeira preguiçosa. Como estivesse demorando muito, a velha empregada foi até onde ele estava; o encontrou de olhos fechados, como se dormisse. Chamou-o várias vezes, sem ter resposta. Resolveu tocá-lo, sem que houvesse a menor reação. Sacudiu-o com certa energia, mas a inércia do médico continuou. Por fim, teve certeza que sua alma bondosa abandonara o corpo inerte. Comunicou o fato aos seus parentes, que adotaram as providências para o sepultamento. Atendendo a suas recomendações, o caixão era simples, sem luxo e sem enfeites. Todavia, a população da pequena cidade, consternada, acorreu ao velório e ao sepultamento, ocorrido no final da tarde. Muitos homens e mulheres choraram; uns silenciosamente, outros em altos soluços, de estremecer o corpo. Na lenta caminhada em direção ao cemitério, observou-se que um bando de aves acompanhava o cortejo fúnebre. Quando chegaram à cova, todos observaram que os pássaros pairaram sobre o local do sepultamento, em lenta revoada, até que a última pá de terra foi atirada sobre o corpo que pertencera a um santo; a um santo que sequer sabia rezar, mas cuja vida fora uma constante oração.

domingo, 5 de dezembro de 2010

FOLHEANDO UM JORNAL DO DIA


CUNHA E SILVA FILHO

Pego um exemplar de hoje, dia 27 de novembro, de O Globo e começo a folhear-lhe todas as seções, como de costume. Procuro primeiro o caderno de literatura, o Prosa e& Verso que passei a ler cm mais assiduidade. Antes, fazia mais com o caderno Ideias de sábado, do JB, que não existe mais impresso. Grande perda para os leitores que, como eu, o acompanhava há tantos anos nas suas varias modificações de formato e de corpo editorial. No domingo, leio o antigo Mais da Folha de São Paulo. Gostava mais do antigo formato e da matéria e alguns colunistas cativos. A gente vai se acostumando com algumas colunas e tem a tendência de não querer delas separar-se. No Ilustríssima, substituto do Mais, há coisas de que gosto, como a oportunidade diversificada que se dá aos colaboradores, mas sinto que há um espaço de preferência do responsável pelo caderno cultural – os artistas das áreas de designers, cartunistas, e assemelhados. Poderia haver mais resenhas de literatura, teatro, cinema, por exemplo.
Depois dessa digressão, tenho uma sensação de que as horas passam mais rápido atualmente em consonância com a pressa dos tempos de agora, quando tudo parece que deve ser resolvido para ontem. O sentido do presente é o do instantâneo. Para onde toda essa pressa quer se dirigir, como se não bastassem os males inerentes aos tempos que correm, dilacerando os convívios e os diálogos vivos entre as pessoas e substituindo-os pelos insípidos contatos virtuais?
Vejo, agora, a manchete, em primeira página, de O Globo aludindo aos tanques e blindados vindos em socorro do Rio de Janeiro aflito. Não era sem tempo essa presença das forças armadas entre nós para assegurarem uma trégua de paz. Oxalá consigam sem muito derramamento de sangue, de parte a parte, e sobretudo de uma parte, a mais sofrida, que é a das camadas humildes dos morros cariocas, mais sujeitas a balas perdidas e a fatalidades.
Fotos de soldados em trajes de guerra contra bandidos da mesma nacionalidade. É trágico, mas é real o momento presente no Rio. Estamos, sim, numa guerra entre filhos da mesma terra, da mesma língua. Aquela cena de marginais em fuga, correndo em disparada, sem norte, quase em fila indiana, pelas ampla e bela vegetação no alto do morro do Cruzeiro, na Penha, bairro da antiga Leopoldina, na tela da TV me lembravam as figuras - às avessas -, molambentas de Antônio Conselheiro.. Aqueles jovens facínoras, vestindo apenas bermudas e sandálias sujas, com os peitos nus e os corpos geralmente esguios, cabeças quase raspadas segundo a moda atual entre os que não podem etnicamente exibir cabelos lisos e longos, formavam um quadro tétrico e patético de seres desarvorados, cujo denomina dor comum é o exemplo sintomático da alienação social. Nas suas cabeças só uma idéia fervilhava: a da fuga desvairada tendo como companheiro um fuzil e comparsas do mesmo destino sem volta e sem esperança.
Lá embaixo, as forças legalistas que tardaram a chegar num país de decisões quase sempre tímidas e adiadas. Governos e governos por aqui passaram. Todavia, as sementes da marginalidade que se estavam plantando insidiosamente em todas as direções do espaço urbano carioca, deram seus frutos que não foram extirpados em tempo certo. Acumularam-se por falta de vontade política. Permitiram-se as construções indiscriminadas nos morros e até na horizontalidade espacial rarefeita dos asfaltos. As sementes tomaram proporções gigantescas com o aumento desordenado de contingentes em série de migrantes, principalmente do Nordeste diante do silêncio e complacência ambígua dos órgãos públicos responsáveis pela política habitacional de planejamento da cidade do Rio de Janeiro.
Perdeu-e, portanto, o controle da ocupação do solo urbano que se estendia, ao arrepio das leis, pelos morros e nos rincões suburbanos e periféricos. Nada quase se fez pra conter as ondas humanas migratórias que, além disso, em obediência natural, posto inconsciente e irresponsável, do “crescei e multiplicai” tomado literalmente do conselho bíblico, inflaram espantosamente a demografia urbana da acidade. As comunidades carentes, construídas, muitas vezes, em espaços promíscuos, separados por vielas e passagens estreitas e perigosas – locus ideal para ali se homiziarem criminosos, foram, desta forma, se avolumando com demandas cada vez maiores de mínima infraestrutura em todos os aspectos. O resultado: a escalada da alta criminalidade do narcotráfico, solta e ubíqua, pipocando sem dó nem piedade de vítimas inocentes no asfalto e nos próprios morros e outros espaços urbanos periféricos. Um parêntese: fica pairando no ar um questionamento sobre as reais origens dos grandes responsáveis por esses molambentos marginais que atuam no mercado ilegal das drogas e dos assaltos. Pergunte-se à população responsável e trabalhadora e ela certamente dirá quem são os chefões e chefetes dessas organizações criminosas. Enquanto o país não debelar essas fontes do alto crime tudo o mais não passará de exibição e paliativo.

A ausência do poder constituído fez tradicionalmente vista grossa a toda essas situação de indigência da lei mesmo diante do caos urbano há tempos instalado na vida carioca. Daí os morros, principalmente, encherem-se de marginais com vontades própria e prepotência. Tomaram ares de superioridade em relação à estrutura da máquina de repressão do Estado brasileiro e mesmo, nos últimos anos, desafiando debochadamente os órgãos de segurança representados pelas polícias militar e civil e até pelas Forças Armadas.
O fato é que a cidade partiu-se em duas, só pra lembrar o título de uma obra de Zuenir Ventura. Os monstros do crime e do narcotráfico não são criações espontâneas. São manifestações da degenerescência do tecido social diante, segundo já referi, das grandes falhas e omissões do poder público que não é o caso aqui de aprofundar, porém muito conectadas à vida dos brasileiros ainda em estado de extrema carência de recursos, de bem-estar social, de desintegração familiar, de educação ainda deficiente, de falta de moradia minimamente humana, e de perspectivas de uma vida decente.
Só quando a situação chegou a níveis do que se poderia chamar terrorismo urbano, como a que está vivendo a cidade do Rio de Janeiro agora, com repercussão ampla e desabonadora no exterior e sinalizando para as consequências do papel da cidade do Rio de Janeiro como local escolhido para sediar a próxima Copa Mundial e as Olimpíadas, é que o governo brasileiro se lembrou de que algo mas sério se devia fazer para evitar desastres maiores e irremediáveis.
Por tudo isso, torço para que desta vez os governos federal, estadual e municipal consigam finalmente exercer suas prerrogativas devolvendo ao sofrido povo carioca a antiga tranquilidade em seu cotidiano e, assim, minimizando consideravelmente umas das mais deletérias chagas sociais contemporâneas, não só no país mas em vários lugares do mundo, que têm atormentado a paz e a alegria da Cidade Maravilhosa: o narcotráfico e suas derivações tão de nós conhecidos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


X

O retrato circunspecto
escuta os acordes do violoncelo
de um outro quadro em que
o artista toca para uma
janela vazia.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

NOTÍCIA CULTURAL


LANÇAMENTO DE NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES

Será lançado em Oeiras, no dia 3 de dezembro, às 19 horas, na Praça da Inocência, o livro Noturno de Oeiras e Outras Evocações, da autoria de Elmar Carvalho. A apresentação será feita pelo advogado e escritor Moisés Reis, que também assina o prefácio da obra. O livro traz poemas, crônicas, críticas literárias e outros textos, todos referentes a coisas e pessoas de Oeiras, além de várias ilustrações e fotografias. No anexo, foram recolhidos vários textos de escritores oeirenses sobre a literatura do autor. O evento é uma promoção do Instituto Barros de Ensino – IBENS, dentro do projeto do educandário denominado “De poeta, de músico e de louco em Oeiras todos têm um pouco”. Tem também o apoio da Fundação Nogueira Tapety. Na oportunidade, será exibido o clipe do poema Noturno de Oeiras, produzido pelo cinegrafista e publicitário Amorim, e será apresentada uma performance de poema de Elmar Carvalho por alunos do IBENS. Ilustres poetas, escritores e intelectuais da velhacap são evidenciados no livro.



Elmar Carvalho:

Muito sucesso no seu lançamento de Noturnos de Oeiras, cujo fulcro, me parece, reside no seu conhecido poema sobre a cidade de Oeiras, ex-capital do Piauí. Já o chamei, de resto, de "poeta geográfico, ou mais plenamente, "voz poética, hstórica e geográfica do Piauí, dado que, na sua poesia, há farto material imagístico-paisagístico, no qual a poesia e a música dão as mãos à História piauiense, resultando num recorte geral da paisagem física, humana e social do seu estro. Agora mesmo, reli o poema.
As assombrações da velha cidade ali estão a atestar o camainho do homem e sua história, do homem e sua dor. Os recurso sonoros (onamtopaicos) e plástico nos ajudam a visualizar o poema em todas as suas angulações. É um belo poema na verdade.
Um forte abraço do

Cunha e Silva Filho