terça-feira, 17 de julho de 2012

Sobre intelectuais, quem são, por que são?



Cunha e Silva Filho

Tema por demais controverso, o conceito de intelectual  formado por leitores, acadêmicos pertencentes às academias de letras, de ciências, ou as duas juntas, e ainda a grande parcela oriunda do meio universitário e dos grandes centros de estudos avançados nas sociedades de elevada complexidade intelectual, bem como pela mídia, por grupos culturais diversos, pela sua própria natureza , pelos seus inúmeros e intrincados componentes implicados na escala de conhecimentos, de erudição, de experiência, de produção científica ou artística, torna-se uma questão difícil de resolver-se no simples espaço de um artigo.

O que pretendo discutir sobre o tema diz respeito a duas situações reais que dividem opiniões diferentes e sobretudo polêmicas:

1) Em que nível de conhecimento se pode considerar alguém, novo ou velho, um intelectual?;
2) Pode-se definir um jovem como sendo um intelectual? A estas duas indagações, tentarei responder nas linhas seguintes.

A questão de classificar o indivíduo como intelectual não depende, a meu ver, da faixa etária, pois esta não é a medida ideal pela qual se há de avaliar o nível intelectual de uma pessoa.. O que pesa na definição é o amadurecimento, a capacidade de reflexão crítica, a operosidade e o nível de conhecimento revelado por ela. E isso vale tanto para o jovem quanto para o mais velho. A prática tem provado que , no exemplo da vida cultural brasileira, grande parte de jovens intelectuais iniciaram suas vida escrevendo obras que de imediato se fizeram respeitadas no cenário da intelectualidade do país. Daria alguns exemplos - e estou me limitando apenas ao campo da ensaio, da história, da crítica, da filologia, da Linguística, - Ronald de Carvalho,  Graça Aranha, Alceu Amoroso Lima, Álvaro Lins, Afrânio, Coutinho, Nelson Werneck Sodré ,Augusto Meyer, Antonio Candido, Gilberto Freyre, Eduardo Portella, José Guilherme Merquior, Roberto Schwarz, Sílvio Elia, Serafim da Silva Neto, Mattoso Câmara, Mário Faustino, entre tantos outros. São autores, são intelectuais que, bem cedo, demonstraram a que vieram e todos eles desenvolveram seus estudos posteriores cada vez mais reafirmando maior profundidade e qualidade ao longo dos anos. Ainda que, em alguns caso, tenham sido interrompidos por morte precoce.

A história cultural tem acentuado que a precocidade é um dos sinais mais indicativos do intelectual. Sua pouca idade é compensada pela formação contínua na incorporação e assimilação de conhecimentos e saberes, de realizações que se devem ao talento e a uma disciplina rigorosa no que concerne aos seus estudos, às horas e anos gastos dedicados às investigações e pesquisas . Tudo feito em pouco tempo, porém com produção intensa e extensa em alguns casos. Por outro lado, a condição de ser um jovem intelectual não se limita apenas a contribuições que deram às suas áreas de estudos, mas ao seu poder de influir sobre a vida social de seu país, seja pela irradiação de seu pensamento, seja pelo respeito e consideração que conseguiu de seu pares e de parte considerável da sociedade.

Estou tomando o conceito de intelectual aqui não apenas considerando-o pela faixa etária, mas pelo seu desempenho e importância que foram naturalmente conquistados pelo seu poder de debater, em sua atuação principal, aquilo que é relevante ao desenvolvimento da sociedade. Estou falando da força saudável que provém do papel do intelectual em ser um elemento ativo , dinamizador, catalizador de ideias que se podem transformar em ações concretas não somente no âmbito de suas investigações como também na debate nacional que se dirigem às mais prementes questões de interesse da nação e de sua vida cultural n o sentido mais vasto do termo.

É claro que um jovem intelectual é um ser em processo de formação contínuo, mas isso não o impede de atuar fortemente em defesa de grandes causas, seja no terreno das letras, seja no das ciências, das artes e do pensamento social. Por conseguinte, não me parece correto negar levianamente o conceito de intelectual só pela faixa etária. A formação do conhecimento a que já me referi, é uma ação contínua da inteligência. O mais acertado, na discussão do tema, seria a combinação do novo com o mais antigo, desde que exista a indispensabilidade do talento, da seriedade nos estudos e da capacidade de trabalho , enfim, da produção intelectual. Dissociar os valores novos dos valores mais experientes me parece um erro grave e um lamentável preconceito, tendo em conta que nem sempre o passar do anos é bem aproveitado pelo indivíduo na obrigação que ele tem diante do aperfeiçoamento e de sua continuidade de estudos e pesquisas. Quando o indivíduo lamenta o tempo perdido que, se fosse aproveitado em anos anteriores de sua formação cultural, essa atitude põe por terra a hipótese de que os anos vividos são, por si sós, atestados de desenvolvimento de melhor qualidade de conhecimento. A condição do status de intelectual não será, repito, mensurada pela idade, e sim pela dedicação plena da intensidade e extensão do cultivo do saber e de sua transformação em obras de bom ou excelente nível. Não é uma questão meramente de anos de vida.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O presente do corregedor



Marcos Mairton *

Consta que, em uma pequena comarca do interior do Nordeste brasileiro, o comando do que havia ali de Poder Judiciário estava sob os cuidados do doutor Bernardino. Aos cinquenta e três anos de idade, Bernardino era um dos muitos juízes cujos casamentos foram se desfazendo à medida que a carreira se construía. Mudanças frequentes de uma comarca para outra, dedicação demasiada ao trabalho, estresse, várias foram as causas que fizeram com que houvesse passado por três casamentos, todos encerrados prematuramente, até que desistira da vida conjugal.

Já havia quase cinco anos que vivia sozinho. Sozinho – entenda-se – não que tenha se tornado celibatário. Afinal, embora muitos digam que a magistratura é um sacerdócio, Bernardino era juiz, e não padre. Esquivava-se, portanto, de toda e qualquer possibilidade de relacionamento estável ou compromissos de exclusividade, mas não abria mão de suas experiências com mulheres dos mais variados perfis. O que ele não queria mesmo era casar de novo. Assim, tratava de encerrar qualquer namoro que durasse mais de dois meses ou quatro encontros, o que ocorresse primeiro.

Mesmo assim, uma jovem senhora acabou achando um furo nessa defesa. Aos trinta e nove anos, Maria do Carmo, chamada Carminha, viúva, mãe de dois filhos adolescentes, era uma bela mulher, e demonstrava, através de palavras, atos e omissões, que também não tinha interesse em casar novamente. Gostava de estar com Bernardino, de passear com ele, de ir com ele à capital, mas deixava bem claro que homem para dividir o teto com ela, só os dois filhos, e somente enquanto não casassem.

E foi assim, com esse compromisso de não ter compromisso, que o romance entre Bernardino e Carminha se foi prolongando. Já durava mais de seis meses, o que para ele era um recorde, desde a última vez que se separara.

Mas havia outro segredo para esse romance estar se tornando tão duradouro: era o sexo. Talvez fosse mais elegante dizer que o tal segredo estava na alcova, mas isto seria limitar a criatividade de Carminha, que adorava inovações quanto ao lugar onde se entregar aos prazeres carnais. Já haviam frequentado todos os motéis e hotéis da região, além de se aventurarem em lugares ermos, às vezes dentro do carro, às vezes sobre ele. Aliás, bastava que os filhos de Carminha viajassem à casa da avó - que morava na capital - para que a sala, a cozinha e até o jardim de sua casa virassem cenário para seus jogos sensuais.

No começo, Bernardino estranhou um pouco. Preocupava-se que alguém os visse e que isso gerasse algum comentário na cidade. Mas, logo se acostumou com a disposição de Carminha e passou ele mesmo a apreciar a brincadeira de fazer sexo em lugares exóticos. Resistia, porém, à ideia de praticar suas aventuras sexuais em seu gabinete, no fórum, embora Carminha tocasse no assunto com certa frequência.
Não, Carminha. No fórum não. O prédio é muito pequeno, os servidores vão perceber e isso não ficaria bem. Além do mais, você conhece o ditado que diz: "Onde se ganha o pão não se come a carne".
Pode ser depois do expediente, Dino, quando todo mundo sair... Embora que, com todos lá, seria mais emocionante! Você ainda vai ver. Você diz que não quer, mas depois é o mais animado.

E assim o tempo foi passando, até que Bernardino recebeu um comunicado de que haveria correição em sua vara. Juiz experiente e responsável que era, não tinha grandes preocupações em relação aos seus processos, mesmo porque na comarca não havia lá muito movimento, mas cuidou de se preparar para a chegada do corregedor.
Como a estrutura do prédio onde a Justiça estava sediada não era das melhores, a única sala onde o corregedor poderia se instalar com algum conforto era o próprio gabinete do juiz. Pelo menos tinha banheiro e ar-condicionado. Bernardino retirou então todos os seus pertences particulares, mandou fazer uma faxina especial na sala e até trocou o espelho do banheiro, tudo para que o corregedor se sentisse o melhor possível nos dias em que permanecesse ali.

O esforço de Bernardino valeu a pena. O desembargador-corregedor, um juiz de carreira nas proximidades da aposentadoria compulsória, era um homem religioso, adepto da Ordem dos Franciscanos, e preferia os ambientes rústicos ao luxo e à ostentação. Assim, sentiu-se à vontade no lugar que lhe fora reservado.
O tempo passou depressa e logo se chegou ao último dia da correição sem quaisquer intercorrências ou sobressaltos.

Ocorreu que, por esse tempo, Carminha havia feito uma visita à mãe, na capital, demorando-se ali por vários dias e retornando exatamente quando Bernardino estava dedicado a cuidar para que tudo corresse bem nos momentos finais da correição. Depois de quase quinze dias de viagem, ela estava realmente saudosa de seus encontros amorosos com Bernardino. Mal chegou à casa, banhou-se, perfumou-se, arrumou-se toda e telefonou para o namorado, com a intenção de avisar que queria vê-lo.

Mas ninguém atendeu. Tentou mais uma, duas vezes, e nada. Não suportando esperar, desligou o telefone e precipitou-se em direção ao fórum. A distância não era de mais que três quadras. Como todos já a conheciam ali, Carminha foi dando boa tarde e entrando, até chegar ao gabinete do juiz. Deu duas batidas na porta e abriu. Ninguém. Entrou na sala, atravessou-a e alcançou o trinco da porta do banheiro. A porta estava fechada por dentro.

Foi então que Carminha teve a ideia de fazer uma surpresa inesquecível para Bernardino. Trancou a porta da sala por dentro, tirou toda a roupa, deitou-se sobre a mesa do juiz, em decúbito frontal, com as mãos sob a cabeça, e ficou de olhos fechados, esperando ouvir o ruído da porta do banheiro se abrindo.
Não precisou esperar muito. Ao ranger da porta, disse languidamente, sem abrir os olhos:
Amorzinho! Presentinho para você!
Ao ver a mulher deitada ali, nua, o corregedor, que saía do banheiro, quase desmaiou de susto. Ficou mudo por alguns instantes, até recuperar os sentidos e dizer vacilante:
Com… Com licença.
E saiu da sala o mais rápido que pôde, tropeçando nas cadeiras e tirando o lenço do bolso para enxugar o suor.

Na saída, encontrou-se com Bernardino, que vinha apressado, advertido que fora por um servidor, da presença de Carminha em seu gabinete. Antes que Bernardino dissesse alguma coisa, o corregedor falou nervosamente:
Doutor Bernardino, o senhor é um homem muito gentil, mas se era para exagerar no presente, que pelo menos mandasse entregar embrulhado. Boa tarde!
E foi embora para não voltar mais. O fato não foi mencionado no relatório da correição.
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* O autor é escritor, compositor e juiz Federal em Quixadá/CE.

domingo, 15 de julho de 2012

Seleta Piauiense - J. Coriolano





As Aves da Minha Terra

J. Coriolano José Coriolano de Sousa Lima (1829 - 1869)

As aves da minha terra,
Quer no sertão, quer na serra,
Sabem falar!
Esta seu fado carpindo,
Aquela a lira ferindo
No seu trovar!

Outras aos matos ensina
Doces nomes que amofinam
Seus corações;
Esses nomes tão queridos,
Sempre tristes – repetidos
Nas solidões.

Quando vai findando o dia,
E que, escondido, alumia
Ainda o sol,
A pomba no tronco antigo
Carpe saudades do amigo
Ao arrebol!

De outra parte saltitando
De galho em galho cantando
Gentil sofreu,
Toca na lira afinada
Uma canção modulada
Que o amor lhe deu!

E aquela que além se esconde,
Lá chama (ninguém responde)
“Ó Zabelê!”
Tão triste! Lá foi –se embora,
E a amada que tanto chora
Ninguém n’a vê!

E aquela que ali suspira,
Que sofre, que até delira
Num seco pão,
Em tom sentido e penoso
Lá chama o chorado esposo
“João-corta-pão!”

também a rola gemendo
o esposo que viu morrendo
se lastimou!
Seu fim co’o sol comparando
No ocaso, diz suspirando:
“Fogo-apagou!”

Da cegueira que não o deixa
O caboré já se queixa
Cantando ao sol,
Repetindo assim o nome
Da doença que o consome:
“Terçol-terçol!...”

Também da beira do rio
Quando tudo é já sombrio
De um mulungu,
A infeliz, a desgraçada
Chama com voz abafada:
“Jacurutu!”

Mas... que soldado tão belo
Faz com seu peito amarelo
A guarda ali?
É uma ave mui guerreira,
Que, pulando na aroeira
Diz: “Bem-te-vi!”

Também diz um, todo o dia,
Quando o sol põe-se ou radia,
E surge além;
Chamando pela esposinha,
Dia a saudosa avezinha,
“Vem vem!”

Vede lá também aquela,
Chama-se a tal bacharela
Pega ou cancão;
Ela sorri-se, ela fala,
Assobia, canta, estala...
Que compr’ensão!

Eis ali outra – tão bela!
Rompendo, qual sentinela,
O denso véu
Da mudez da noite escura,
Quando, vendo a criatura,
Grita: “tetéu!”

Dai, porém, ao papagaio
Da oratória o louro, daí-o,
Pois nisto estou:
No dizer, no estilo é uma,
É das aves na tribuna
O Mirabeau!

É terra que tem primores
A terra dos meus amores,
Onde nasci!
As aves de lá se falam,
Cantam, suspiros exalam
No Piauí! 

Fonte: Blog Poesias José Coriolano

sábado, 14 de julho de 2012

Na rinha, humanos em vez dos galos




José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Que briga de galos que nada! Agora, é a vez dos machos humanos, troncudos, ensandecidos e sandeus, sob estúpido apetite de sangue.
Ringue virou rinha, à pernadas de galos, cotoveladas, murros implacáveis, fúria, zonzeiras e desmaios. Por dinheiro se morre, se mata, legalmente. Fingem que é puro esporte, manifestado pelos abraços e reverências, sinal da cruz, testemunho evangélico. Revive-se o espetáculo romano-pagão de puro-sangue, no Coliseu, sob adrenalina da plateia alucinada.
Quão paradoxais as leis dos homens! Proíbem-se brigas de galos, farra do boi, abates dolorosos nos matadouros, pune-se torturador de animais. Crianças são educadas a não cantar músicas que tratam de agressão a animais: em vez de "atirei o pau no gatotó", dizer "não atirei o pau no gatotó, porque isso não se faz...o gatinho, nosso amigo..." Cotoveladas e carrinhos no futebol merecem cartão amarelo ou vermelho. Nas lutas marciais do vale tudo, porém, atolam-se chutes e joelhadas no estômago, espinhaço, narinas, mandíbulas e cabeça, até exaurir o adversário, filho de Deus, batizado pelo sangue de Cristo, adepto da dignidade humana, que foi vítima dos instintos selvagens. Emoções tresloucadas arrastam insensatos à indisciplina, sem limites de moral e dignidade.
A exacerbação da liberdade desperta primitivos instintos animalescos. Prevalece o princípio leviano e irracional, hoje na moda, do "que é que tem?" Que é que tem estuprar a garota ingênua? Que é que tem uma noitada com o cônjuge alheio? Que é que tem uma bacanal homossexual entre pessoas importantes da política, assistida e filmada por uma garota de programa? Que é que tem subornar, corromper-se, matar, experimentar talagada de cocaína, bancar cara de pau, quebrar o adversário por esporte? Escrúpulo e bom senso caíram de moda.
A plateia que se comove com gatinho ferido não se apieda do ser humano, abatido e exangue no ringue. Torce pela pancadaria e chute mortal. Em casa, estimula os filhos aos esportes marciais desde cedo. Muito bem, desenvolvem o físico, descarregam energias e estresse acumulados, socializam. Será que não falta algo mais e superior à formação dos filhos, além das atividades estimuladoras da agressividade? Além dos estudos científicos na conquista profissional? Podem me cognominar de espiritualista chato: falta exercício intenso, suado, das energias do espírito. Só culto ao corpo brutaliza o espírito. O tema pouco importa à mídia: não dá lucro nem audiência. A cada minuto, só se estimula violência, crimes, amassos, peitos e bundas. E a galera vai na onda, encanta-se e imita, consome o da hora, sem filtrar o bom do ruim, o racional do " que é que tem?"
A fúria da rinha mostra a cara da sociedade atual, já abusada das condutas equilibradas. Querem mais. Mais porradas. Mais novas emoções, como as que assiste nas vias urbanas, nas escolas e lares.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sessão Nostalgia

Texto e charge: Gervásio Castro


Sidney Poitier interpreta um jovem professor às voltas com alunos indisciplinados no filme  “Ao Mestre, com Carinho”, recheado de  referências claras sobre a questão racial na sociedade britânica.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

CONTRASTES DA VIDA



12 de julho   Diário Incontínuo

CONTRASTES DA VIDA

Elmar Carvalho

Contou-me um amigo que o seu pai gostava de comprar frango assado em determinado comércio de sua cidade. O proprietário, que era ainda bem jovem e entusiasmado com a vida e com as suas promessas e acenos, apreciava essa preferência e distinção. E para agradar o pai de meu amigo, que fora considerado um belo tipo de homem, pelo seu porte altivo, elegante, e pela cor da pele e de seus olhos claros, ressaltava esse fato com muita graça, no chiste alegre, que se transformara em bordão:
– Que homem bonito! Se eu fosse uma mulher, já tinha me perdido com ele...
E sorria de seu próprio gracejo ingênuo, feito apenas na tentativa de agradar.

O velho pai de meu amigo, com certa indulgência, sorria da brincadeira do rapaz, mas murmurava para o filho, dentro do automóvel:
– Para você ver como é a vida. Esse rapaz tão jovem, tão feliz, e eu tão triste, tão amargurado...
Já ele praticamente não movimentava as pernas, ele que outrora fora dinâmico, vigoroso, e que, em sua mocidade, pilotara ariscas motocicletas e cavalgara árdegos e vistosos corcéis.

Por coincidência, neste exato momento, acabo de ler a nota do dia 27 de outubro de 1931 do Diário Secreto de Humberto de Campos, quando este escritor viajava, bastante adoentado, a bordo do Astúrias, famoso navio da época, em viagem cultural a Montevidéu e Buenos Aires, quando já começava a descambar para o termo de seus dias.

O passeio, que em outras circunstâncias poderia ter sido alegre, foi melancólico e sofrido, tendo ele consignado na referida anotação: “Onze horas da noite. Ouço barulho, palmas, alegria, no convés que fica acima do meu. Dança-se, grita-se, aplaude-se. Informam-me que há, a bordo, dança e cinema. Mas eu continuo deitado, lendo, dormindo, ou gemendo, sem indagar se é dia ou se é noite, se o sol brilha lá fora ou se brilha no céu a lua. Não posso dar dois passos sem uma dor dilacerante”. Não prosseguirei com a transcrição dos gemidos do notável cronista.

Em poema evocativo de sua infância, o velho bardo Manuel Bandeira relembra que, em certa noite de São João, quando foi dormir, tudo ainda era festa, alegria, risadas, tiros de foguete, luzes, música e conversas, e quando acordou, alta madrugada, tudo era silêncio e solidão e tristeza. O poeta lembrou-se de outra noite, a noite maior, a noite absoluta da morte. Passados tantos anos daquela noite tão animada de sua infância, o velho menestrel indagou, referindo-se aos que participaram dos folguedos: “Onde estão todos eles? / — Estão todos dormindo / Estão todos deitados / Dormindo /Profundamente”.

Mas o mesmo Manuel Bandeira, em outro poema, nos exorta a aceitarmos as nossas tristezas. Nos aconselha a aceitarmos as nossas melancolias, e até mesmo a aprendermos a amá-las, que um dia a amaríamos. Tenho procurado seguir a recomendação do velho poeta, mas jamais bimbalhando os falsos guizos da alegria, como diz a letra da canção popular. Deixo isso aos palhaços das perdidas ilusões, para continuar com a letra da mesma canção melancólica. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

AS ROSAS DA SAUDADE E DO ABANDONO



11 de julho   Diário Incontínuo

AS ROSAS DA SAUDADE E DO ABANDONO

Elmar Carvalho

Tarde após tarde, a idosa, com muita dificuldade, arrastava a cadeira em que costumava sentar-se à porta do abrigo para idosos. Vendo quanto era penoso o esforço da anciã, um vizinho se dispôs a ajudá-la na condução da cadeira, mas ela recusou o auxílio:
– Não, por favor, não me ajude não. Eu quero que os meus filhos vejam que eu ainda posso puxar a minha cadeira.

A velhinha ali ficava, às vezes com o olhar perdido, mergulhado nas profundas sombras de uma tristeza infinita; às vezes, a perscrutar determinado ponto, de onde supunha surgiriam seus filhos. Ficava nessa ocupação solitária e paciente até o encerramento melancólico do espetáculo do crepúsculo, quando se recolhia a arrastar sofridamente a cadeira. Era sempre assim. E tarde após tarde, crepúsculo após crepúsculo, os filhos nunca apareciam.

Como estivesse há várias semanas sem ver a anciã, o vizinho estranhou essa ausência prolongada, e foi perguntar a um dos moradores da casa o que acontecera. Soube então que a velhinha falecera. Contaram-lhe que ela fora deixada no abrigo por dois filhos, que lhe prometeram vir visitá-la, sempre que possível, mas que nunca cumpriram a promessa. Era por isso que ela, ao entardecer, ansiava pela visita deles, e os esperava em vão, porém sem nunca perder a esperança de reencontrá-los, para lhes abraçar, e matar a saudade que estava lhe matando.

A pessoa que recebeu o visitante, conduziu-o até o quintal, e lhe mostrou uma roseira, em plena floração. As rosas se abriam em todo o seu esplendor, e delas recendia um perfume suave e maravilhoso. O morador do abrigo esclareceu:
– Foi ela quem plantou a roseira, para dar aos filhos uma coroa de rosas, quando eles lhe viessem visitar. Plantou a roseira para que eles sentissem que ela sempre os amara, e jamais os esquecera. Jamais se queixou dos filhos. Nunca disse que eles foram ruins ou ingratos.

Todavia, os filhos nunca vieram, e portanto nunca as flores lhes foram dadas. Aquelas rosas vermelhas pareciam o símbolo vivo e ardente do amor da velha mãe, e ficaram a denunciar a ingratidão filial. Esse caso me foi contado por minha mulher, que o ouviu em uma palestra religiosa. O pregador foi a testemunha que presenciara a dedicação inglória da anciã, na frustada espera dos filhos ingratos, que a internaram e abandonaram naquela casa de caridade, em que estranhos, como bons samaritanos, cuidaram dela.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Seleta Piauiense - Ovídio Saraiva


Soneto XI

Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva (1787 – 1852)

Que horrenda Solidão! os troncos tremem
Ao rábido empurrão de roucos Ventos;
De um lado, e de outro lado a noite atentos,
Sepulcros Mochos nas cavernas gemem.

Ondas ao longe solitárias fremem
Nos cavados rochedos corpulentos;
Tremem os montes aos Trovões violentos;
Uivam os monstros, que atros males temem.

Baços fantasmas pavorosos erram
Por aqui, por ali, na terra triste
Chovem mil Raios de alta mão tremenda.

Medos, que o mundo aterram, não me aterram:
Como já sob a campa Anália existe,
É-me grato o pavor da noite horrenda.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Livro “A face oculta da literatura piauiense” será lançado nas próximas semanas em Parnaíba



            Escrito por Daniel C. B. Ciarlini, o livro A face oculta da literatura piaueinse será lançado nas próximas semanas em Parnaíba. A obra, resultado de um curso de extensão ministrado pelo autor entre os dias 14 de maio e 16 de julho de 2011 na Universidade Estadual do Piauí, já era esperado pelo público acadêmico de Letras do Campus Professor Alexandre Alves de Oliveira e agora estará disponível para toda a comunidade piauiense.
            Segundo o autor, “um dos pontos fortes é a abordagem original de aspectos da literatura piauiense não estudados pela crítica até então, demonstrando, neste primeiro volume, a importância de literatos parnaibanos como Berilo Neves, precursor da moderna ficção científica brasileira, e Jonas da Silva, representante do Simbolismo piauiense nas plagas do Amazonas”, falou.
            O livro, que é o primeiro volume de uma série a ser desenvolvida pelo autor nos próximos anos, foi prefaciado pelo Prof. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Marcílio Machado Pereira. Além de Gilberto de Araújo Vasconcelos, pesquisador da Academia Brasileira de Letras e professor substituto da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que observa em análise a importância da obra nas orelhas do livro; bem como o jornalista Antonio de Pádua Marques Silva.
            “O livro possui seis capítulos, distribuídos em mais de 300 páginas, e conta com índice onomástico, a fim de facilitar a pesquisa posterior dos nomes ali citados”, concluiu o autor.
            No entender de Marcílio Machado Pereira, A face oculta da literatura piauiense “consegue mostrar a existência de duas literaturas no Piauí: a que foi instituída como boa literatura, capaz de arrancar suspiros até mesmo de críticos que nunca as leram e a que nunca foi nem mesmo lida, quanto mais analisada pelos críticos literários”.
            Os interessados na aquisição da obra ou informações a respeito do lançamento poderão recorrer ao e-mail do impresso O Piaguí: opiagui@hotmail.com.

domingo, 8 de julho de 2012

ANTOLOGIA DO NETTO (*)


Texto e charge: João de Deus Netto



ELMAR CARVALHO

José Elmar de Mélo Carvalho nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Poeta, cronista, contista e crítico literário. Juiz de Direito. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Presidiu o Diretório Acadêmico “3 de Março”, a União Brasileira de Escritores do Piauí e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da Universidade Federal do Piauí. Publicou os livros “A rosa dos ventos gerais”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno de Oeiras” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Participou de várias coletâneas e antologias. Citado em diversos livros e dicionários. Colaborador das principais revistas e jornais do Piauí. Membro de diversas entidades literárias e culturais. Detentor de várias honrarias e distinções culturais. Seu livro “A rosa dos ventos gerais” recebeu o Prêmio Ribeiro Couto (obra reunida), conferido pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro.

(*) Com esta postagem, encerro a sequência de biografias e caricaturas feitas pelo Netto, que havia em meu banco de textos.

sábado, 7 de julho de 2012

Salário e custo de vida no Brasil



Cunha e Silva Filho

Me perdoe o leitor o cunho historicista-memorialístico deste artigo. Foi revolvendo velhas cartas de meu pai do tempo de nossa longa e proveitosa correspondência de, pelo menos vinte anos, que me chamou a atenção um assunto que, volta e meia, ele repetia: a carestia, o custo de vida. Estou pensando aqui numa das cartas do tempo do governo Sarney, na qual o jornalista rebelde, em tom de indignação e um tanto de melancolia, se queixava da alta dos preços, o que implicava numa alusão aos baixos salários do brasileiro que não faz parte dos quadros da elite abastada e gastadeira (hoje, diriam “consumista”).

Ora, décadas se passaram desde o final do mandato de Sarney e o tema persiste, renova-se, azucrina a vida dos barnabés (outro termo antigo mas que serve aos propósitos deste artigo). Na carta de meu pai, em tom de ironia, ele faz um comentário, que não vou repetir ipsis literis, mas que dizia mais ou menos isso: “Esse negócio de ter no país um presidente poeta não dá mesmo certo.”

O cronista não tem compromisso com o economês nem tampouco com a estatística, mas com a sua própria e modesta visão da vida e dos homens. Daí que discutir economia, salário e custo de vida  reflete a percepção leiga, porém, realista de quem sofre na pele todas as dores e aflições oriundas do descompasso entre a remuneração e a subida dos preços de itens nas despesas necessários inadiáveis mensais: alimentos, remédios, prestação da casa própria, plano de saúde, aluguel, lazer, entre outros, já que, do contrário, quem não desfruta do básico nesse conjunto de itens não está vivendo decentemente.

É óbvio que estou falando de uma difusa recém-denominada nova classe média.(?), classe que, a bem da verdade, até hoje não sei ao certo o que é ou com que base de cálculo matemático foi assim definida. Será, por exemplo, que um porteiro da Zona Sul ou de outros bairros menos nobres esteja agora, na pirâmide social, nessa nova classe média? Que as condições sociais de uma classe mais baixa melhoraram  nos últimos dez anos é um a fato que até pode ser levado em conta como uma mudança concreta.

Contudo, o governo, sob a orientação petista, está permitindo, ou melhor, através de suas agências dos diversos setores da economia, está autorizando aumentos no custo de vida e o está fazendo às custas do achatamento salarial do funcionalismo público federal e, por tabela, estadual e municipal. Ora, a injustiça nesse descompasso é fácil de ser percebida mesmo para quem não é dado aos números. O maior indicador de como anda o país econômica e financeiramente está nos aumentos dos produtos de consumo de cada cidadão, informações que qualquer dona de casa sabe com respeito a gastos familiares. Se o custo de vida aumenta nos boletos dos itens já assinalados linhas atrás e o contracheque permanece o mesmo, estagnado, é porque está sendo corroído por inflação ao longo do ano. Os aumentos dos produtos tanto dos governos (gás, luz, Correios, transportes. IPTU, IPVA, pedágios etc), quanto de setores privados são todos determinados pelos governos federal, estadual e municipal. Logo, De quem é a culpa? Claro, desses setores públicos. Na iniciativa privada, tanto no comércio, na indústria, no atacado e no varejo, quem paga a conta é o bolso do povo. Não é preciso ir longe.  No caso dos remédios, é absurda a despesa mensal com a qual o brasileiro tem. que arcar, sobretudo se estiver aposentado  e com baixos proventos. Não é gratuita  a circunstância de que  estão  pipocando greves em universidades federais e  em outros  setores  públicos  ou privados.

Um país dividido em classes, que eu classificaria como alta, média e baixa, na qual esta última se mostra difusa no que tange à renda familiar, à medida que ocorrem aumentos de produtos diversos, e sobretudo os de primeira necessidade, quem mais sofre o arrocho salarial são os de renda média e baixa. Quanto aos ricos, isso pouco monta, de vez que para eles sempre têm de sobra  o que possam gastar e consumir faraonicamente.

As classes dominantes estarão sempre na vanguarda dos lucros e dos gastos, dos frutos das regalias sem medida, sem medo nem pudor, na realeza consumista, na conquista das benesses e do poder, seja, o econômico, de grande peso na estrutura do país, seja o político, os  quais, desde “A República Velha”, mandam e desmandam na sociedade brasileira, sociedade na qual o anacrônico útil, contínuo, e o moderno oportunista confluem como traços singulares do país miscigenado, cordial, solidário e paradoxalmente modelo de honestidade bruzundanguense.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

SESSÃO NOSTALGIA


Texto e charge: Gervásio Castro


Em “Por Quem os Sinos Dobram” um  erro de filmagem  pode ser percebido pelos mais atentos. Quando Robert Jordan (Gary Cooper) conversa com oGeneral Golz sua sombra  pode ser vista, projetada na reta, em uma parede no fundo. Mas quando Cooper coloca a mão no queixo ela  se  move  um segundo depois, tornando óbvio que, em  outro  ângulo, uma outra  pessoa foi usada para criar a sombra. Um outro erro, mais difícil de ser percebido, é o fato dos guerrilheiros Pilar  e  Pablo usarem, em  1892, um Krag-Jorgenson. Embora seja possível, é extremamente improvável que tal um rifle, com o  respectivo cartucho de estanho, tenha sido importado na  Espanha  para ser usado na guerra.

Bilhete para Elmar Carvalho (*)

Hermes Vieira
Guaipuan Vieira


Guaipuan Vieira

Ó poeta Elmar Carvalho,
Fico feliz com a lembrança
De meu pai Hermes Vieira,
Que versejou, com pujança,
O Nordeste brasileiro
E toda sua vizinhança.

Hermes nasceu em Valença,
Na fazenda Caiçara,
Em vinte e três de setembro,
Numa tarde muito clara;
Em onze foi esse o ano,
Seu registro nos declara.

Em 17 de julho
Na capital Fortaleza,
Pra ser preciso em 2000
Tivemos triste surpresa:
O mestre da poesia
Partia, deixando tristeza.

Naquelas horas silentes,
Como luto da natura,
Pra mansão celestial,
Foi-se sobre releitura
De seu verso e seu estilo
De métrica com rima pura.

Doze anos estão fazendo,
Que ele mudou de morada,
Mas seus versos são mais lidos,
E pela crítica estudada,
Entre nós está presente
Sempre é página folheada.

Fortaleza (CE), 03 de julho de 2012

(*) Com este poema, o poeta e radialista Guaipuan Vieira me respondeu sobre uma consulta que lhe fiz sobre a data de falecimento do grande poeta Hermes Vieira, seu pai, que tive a honra de conhecer pessoalmente.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Lançamento do livro “Pelos meus caminhos”



A escritora, historiadora e poetisa piripiriense Cléa Rezende lançará seu livro de título “Pelos meus caminhos” na Academia Piauiense de Letras. O evento acontecerá no dia 7 de julho, às 9 horas, na Academia Piauiense de Letras, em Teresina. A escritora é um ícone da cultura piripiriense, muito preocupada com a história e a cultura de sua cidade. Atualmente exerce a função de Vice – Presidente da Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri (ACALPI).

OS NOVOS MATUSALÉNS



5 de julho

OS NOVOS MATUSALÉNS

Elmar Carvalho

Faz poucos dias dias, entretive uma conversa com o professor Felisardo sobre assuntos diversos, mas versando principalmente cultura e ciência. É ele um polivalente, já tendo lecionado quase todas as disciplinas, entre as quais matemática, física, química, história e biologia. De maneira especial, gosta de ler obras literárias e sobre ciência. Além disso, garimpa na internet documentários científicos e as novidades sobre inventos e descobertas científicas.

Na palestra, falamos sobre astrofísica e mecânica quântica. Como não poderia deixar de ser, o sutilíssimo neutrino, que nada pode deter, entrou na conversa, e se foi sutilmente, da mesma forma como viera, ou seja, sem se fazer notar. Tratamos da matéria e da antimatéria, e terminou uma anulando a outra, pelo que passamos a falar nas coisas espirituais e abstratas. O professor estava afiado, e discorreu sobre as mais recentes novidades do mundo científico e eletrônico, sem descurar da medicina.

Tempos atrás, tomei conhecimento de que uma pesquisadora escrevera uma dissertação ou tese de mestrado sobre a longevidade de membros da Academia Piauiense de Letras. Alguns já ultrapassaram os noventa anos de idade, muitos estão na faixa dos oitentanos, e outros já estão no último quartel da sétima década, se não estou enganado com as designações matemáticas e etárias. Em discurso, referindo-me a um dos valorosos confrades, disse que talvez fosse ele o primeiro imortal a ter o seu centenário comemorado em vida. Assim disse, assim espero e assim seja.

A Bíblia fala em alguns personagens que atingiram provectas idades. Sete deles teriam atingido mais de nove séculos, e entre estes o recordista foi Matusalém, que teria morrido aos 969 anos. Especula-se, hoje, que com as descobertas da medicina, da ciência e da farmacologia muitos seres humanos irão além dos 130 anos, com uma boa qualidade de vida. Vale dizer, com lucidez e com razoável agilidade. Muitos acreditam que as próximas gerações poderão ir além de dois séculos de idade. Não sei até onde vai a verdade e onde começa a fantasia. Mas o fato é que a expectativa de vida vem aumentando a olhos vistos. E é vero que a ciência em geral e a Medicina em particular vêm evoluindo de forma assombrosa.


Muitos acreditam que o Éden voltará a existir no planeta Terra. Nesse particular, outros tanto duvidam, uma vez que o homem vem degradando em alta velocidade este habitat, na luta egoística por mais e mais riqueza. Contudo, com o avançar da ciência, acredito que novas invenções, novas tecnologias, novos insumos possam reverter a marcha autodestrutiva do homem. Poderosos medicamentos ajudam a psicologia e a psiquiatria. Ou seja, atuam no espírito ou na mente humana. Alguns deles servem para combater a chamada dependência química.

Os ambientalistas afirmam que o homem está a exaurir o planeta. Apregoam que a fauna e a flora estão degradadas, que muitas espécies estão ameaçadas de extinção, que muitas florestas já foram devastadas de modo talvez irreversível. Grandes glebas de terras foram desertificadas, com a exploração predatória, e não racional e sustentável. Tenho dito que somente Deus pode criar do nada ou de si mesmo. Mas, será se o homem não irá descobrir a tecnologia capaz de reproduzir e multiplicar a matéria já existente, e dessa forma deter o exaurimento dos recursos da terra? As substâncias poderiam sofrer transformações que as tornassem mais úteis, mais eficazes e mais baratas.

Diante desse quadro, em que a ciência e a tecnologia se desenvolvem em progressão geométrica e a evolução espiritual segue a passo de cágado, parece surgir um impasse, com o homem despreparado para receber os avanços científicos e materiais. Mas, quem sabe, novas substâncias medicamentosas não poderiam contribuir para o combate dos desvios comportamentais e das mazelas psíquicas e espirituais dos atribulados dias hodiernos. Creio que, por trás desse avanço célere da ciência, está Deus a liberar esses novos conhecimentos e invenções. Será se a maldade poderia ser eliminada através de algum “medicamento” ou de alguma intervenção cirúrgica no cérebro ou no DNA, no futuro?

Dessa forma, com a ajuda da divina Providência, mas através das descobertas científicas e de avançadas tecnologias, o homem conquistaria a sua própria imortalidade e reconstruiria o Paraíso perdido, aqui mesmo, na terra. Longe de mim querer ser ousado ou herege, mas levanto essa possibilidade porque Deus atua no homem através do próprio homem. Assim, iríamos além, muito além do próprio Matusalém. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A SOMBRINHA DA MULHER DE BRONZE




4 de julho   Diário Incontínuo

A SOMBRINHA DA MULHER DE BRONZE

Elmar Carvalho

No sábado, ao percorrer o acesso do shopping Riverside, no sentindo de quem vai para a Praça de Alimentação, notei que a sombrinha da escultura de uma mulher estava aparentemente com defeito. A cobertura dessa peça oscilava à brisa, ameaçando cair a qualquer momento. Reparei que o cabo do guarda-sol estava quase rompido, perto de sua junção com o pequeno toldo protetor.

Ou, então, a peça fora feita propositadamente para oscilar ao toque do vento, e eu é que, das outras vezes, não atentara para essa circunstância. Ou, talvez, anteriormente não houvesse vento, o que não é incomum em nossa capital, que a pudesse fazer menear. De qualquer sorte, achei ser meu dever comunicar essa ocorrência ao Paulo Nunes Almeida, um dos condôminos do centro comercial, para os devidos fins, como se diz na linguagem dos burocratas.

Na verdade, a escultura faz parte de um conjunto, porquanto ao seu lado fica o seu companheiro, marido ou namorado. Ou “namorido”, como se fala nos dias de hoje. Outrora, namorado era apenas namorado, e amante era outra coisa. É um casal bastante feio, caso as duas estátuas sejam avaliadas pelo padrão apenas figurativo, com as suas cabeças estilizadas (alguns diriam deformadas). Pela paisagem ao redor, sempre imaginei as duas obras como sendo a representação de dois namorados em um bosque, à beira de um lago. O homem parece estar a pescar, com invisível anzol, em concentrado exercício de paciência.

Quando eu vi o toldo da sombrinha, que é a parte mais delicada e bonita da escultura, ameaçando desabar ao sopro manso da viração, não pude deixar de ter um pensamento irônico. As duas obras parecem ser feitas de bronze, por causa da textura e da cor da tinta. Assim, pensei com meus botões: a mulher de bronze, sem a proteção do artefato, ficaria mais bronzeada ainda, com a incidência direta dos raios solares sobre a sua dura e sólida pele.

Lembrei-me de minha juventude, tão dourada quanto bisonha, até certo ponto. Aos dezenove anos, em Parnaíba, gostava de “pegar um bronze” na praia, como se dizia na época, achando que a minha epiderme ficaria mais bonita. E até ficava. Contudo, a insolação incomodava demasiadamente. Além disso, a suposta beleza logo desaparecia, com a pele se descascando, para o surgimento de nova epiderme.

Logo percebi que aquela beleza efêmera não compensava, tanto por causa desses incômodos imediatos, como por causa da possibilidade de prejuízos maiores no futuro. Já então se falava em câncer de pele e em outras mazelas. Hoje todos sabem que a tez envelhece precocemente, quando submetida a excessivos raios solares, sobretudo nos horários mais rigorosos. Ainda mais nos dias de agora, em que dizem que abriram um buraco na camada de ozônio, o que tornou a exposição ao sol mais devastadora.

Ora, raciocinei, minha pele não me fez nenhum mal, por que iria eu castigá-la de forma imprudente e gratuita? A partir dessa época, na praia, tenho preferido ficar à sombra. E na vida, em muitas coisas e circunstâncias, é preferível ficarmos à sombra suave da discrição. Pelo menos, não despertaremos a sanha e a fúria dos invejosos e perversos. Portanto, como a escultura do shopping, cuidemos em ter um bom guarda-sol.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Flagrante cinematográfico do Gervásio Castro

Texto e charge: Gervásio Castro



SESSÃO NOSTALGIA

A história do livro  que deu origem ao filme Um Estranho no Ninho foi escrita por Ken Kesey tendo como base suas próprias experiências quando trabalhou num centro psiquiátrico na Califórnia. O autor, que não gostava de Milos Forman, chegou a declarar que nunca assistiria o filme.
Existem rumores de que Jack Nicholson sumiu dois meses antes do início das filmagens e só foi encontrado quando o elenco chegou ao hospital psiquiátrico onde o filme seria rodado. O ator teria se internado como se fosse um paciente com o intuito de se preparar para o personagem.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Idiossincrasias de um leitor



Cunha e Silva Filho

Uma vez escrevi um artigo no qual falava da maneira como lia um jornal, por onde começava, por onde terminava, o que lia no meio do jornal, essas coisas que ninguém sabe ou pode explicar direito, pois o cronista pode inventar modos de ler ou de escrever ou de até inventar autores e obras assim como dizem que o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) fazia com a sua literatura. No fundo, talvez, tudo não passe de uma questão de gosto, de preferências ainda que muitas vezes anárquicas, volúveis, infiéis, passageiras ou contínuas (por quê não?).

Contudo, aqui não pretendo me limitar ao exemplo do jornal que, aliás, leio mais do que revista. Dizem os grandes escritores que, invariavelmente todas as manhãs, leem os jornais, não um jornal, já que um só não lhes satisfaz a sede das notícias ou das mesmas notícias escritas de forma diferente e com propósitos também diferentes que tanto gosto fazem, sobretudo pelos editoriais, aos analistas do discurso.

Recorramos, agora, a algumas passagens da memória de leituras de jornais, não lhes fazendo a síntese, o que me é quase impossível dados o tempo longo decorrido e os temas variados e por vezes complexos com que os seus autores os abordavam. Forçando a memória, me lembro da Última Hora, que li muito nos anos setenta, aproveitando as viagens de ônibus em direção a uma escola estadual muito distante.

De duas colunas gostava, a de Afrânio Coutinho (1911-2000) que, em geral, falava de literatura, teoria literária, educação e com frequência tinha uma palavra de defesa pela melhoria do ensino no país, por melhores salários do professor em todos os níveis, e a de uma senhora - a Sandra Cavalcanti - que para mim escrevia com muito brilho, não entrando nesse juízo na questão das matérias tratadas nas suas crônicas Muita gente falava mal dela associando-a a um fato ou boato que, por algum tempo, causava mal-estar na política carioca. Afirmavam seus adversários que tinha sido responsável por desaparecimentos de mendigos afogados no rio Guandu no tempo em que era governador da ex-estado da Guanabara, Carlos Lacerda (1914-1977). Nunca acreditei nisso nem acredito agora tampouco. Sandra Cavalcanti era uma exímia jornalista, de estilo claro, impecável, fluente, original e de leitura agradável. Está hoje bem esquecida.

Carlos Heitor Cony era outro colunista de mão cheia, corajoso, principalmente durante o primeiro ano da ditadura militar, cujos artigos saídos, primeiro, no Correio da Manhã, foram, em 1979, reunidos em livros em duas partes, sob o título O ato e o fato, publicados pela Civilização Brasileira. Jornalista com uma capacidade de estilo de um ficcionista de amplos recursos literários. Mas, nele me agradava sobremaneira a coragem de discutir seus temas, sobretudo políticos. Gosto mais dele daquela época do que de hoje na sua mini-coluna na Folha de São Paulo.

Não posso esquecer de, mesmo em memórias desordenadas, das leituras que fiz do colunista Hélio Fernandes, na Tribuna da Imprensa, com seus longos e destemidos artigos atacando as ações dos governos militares. Que fôlego de grande jornalista me revelava ele como alguns outros da época que tanto se arriscaram em defesa da volta do país a um estado democrático. Onde estão agora os continuadores desses intrépidos jornalistas que tanta falta nos fazem, sendo um dos últimos o saudoso Fausto Wolf.(1940-2008)?

Do Jornal do Brasil, dos tempos áureos, me deliciava com os artigos de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde – 1893-1983) tanto os de natureza política quanto de natureza literária. Que maneira singular de escrever! Parecia que, ao lermos um artigo dele, íamos aprendendo a escrever melhor em nosso próprio estilo de escrita.

Outro, era o grande jornalista e também escritor Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000), que me enchia de orgulho pela coragem e desassombro de suas posições, e aqui tão ousadas quanto as do crítico e pensador Tristão de Athayde. Outro mais eram os artigos fascinantes e independentes de Nelson Werneck Sodré, que lia sempre com o maior deleite. Este último, graças a Deus, ainda se encontra vivo. Do Jornal do Brasil, ou como era mais conhecidos pelos aficionados, do JB, acompanhava as crônicas de Carlos Drummond de Andrade, crônicas que me davam a forte impressão de que eram escritas por um escritor e poeta que estava atento a tudo o que interessava ao Brasil.

Ele era atualizadíssimo, tanto no que concerne a novas formas de linguajar, de comportamentos, de modos de vida moderna, por exemplo, dos jovens, quanto pela suas veementes críticas a erros e desacertos governamentais em várias questões que diziam respeito à defesa de nosso direitos de nação e de soberania da vontade popular. Apontava os erros e propunha sugestões de como solucioná-los. Drummond, que agora, completará 112 anos de seu nascimento, será o autor homenageado na décima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Ainda no JB, Caderno Ideias, não esqueço os inúmeros artigos do jovem ensaísta, crítico, historiador e pensador José Guilherme Merquior (1941-1990), um dos mais preparados ensaístas que o país já teve em todos os tempos, com obras que ultrapassaram as fronteiras nacionais, posto que, em seu país, fosse alvo de crítica em virtude de suas posições de liberal social ou por ter seu nome associado à função de assessor de Leitão de Abreu, (1913-1992), que foi ministro da Casa Civil do presidente Médici (1905-1985). Merquior, depois, passou a escrever uma coluna no Globo,chamada, se não me engano, O mundo das ideias, sempre escrita com aquele mesmo vigor, erudição e independência intelectual.

Anos atrás, também era assíduo leitor do Jornal de Letras, dos irmãos Condé. Ia logo para a coluna de Assis Brasil, sobre Literatura brasileira hoje, que li enquanto durou..

Outra época tinha a mania de ler um jornal americano publicado no Rio e talvez em São Paulo, não sei ao certo. Chamava-se Latin American Daily News, onde, numa coluna, escrevia com muita verve um talentoso jornalista americano, Art Buchwald (1925-2007).

Por muitos anos, li também uma revista americana de orientação evangélica, de títuloThe Plain Truth,do editor Pastor Louis Armstrong, há muito falecido, mas confesso que, embora algumas matérias fossem culturais e não rigorosamente religiosas, eu a lia para treinar a minha compreensão escrita em inglês.

No Piauí, durante um largo tempo, li muito o jornal Estado do Piauí (Teresina), de Josípio Lustosa, onde meu pai escreveu por muitos anos com aquela sua pena fluente, límpida, correta e, com o já salientei em vários momentos, com uma independência e uma coragem sem precedentes na historia do jornalismo piauiense. Com ele aprendi muito, principalmente não ser hermético nem escrever com frieza de objetividade. Com ele aprendi também a valorizar mais os estudos históricos, sociológicos, culturais e o amor à democracia, à liberdade de pensamento, o horror às injustiças e o respeito à dignidade humana.

Quanto a leitura de livros, sou daqueles que leio mais de um livro ao mesmo tempo. Ainda que seja uma ou duas páginas, vou lendo, ora um, ora outro. Gosto de combinar a leitura de ficção, com a de ensaio. Às vezes, deixo o que estava lendo pra depois. Pego outro livro, e mais outro, e mais outro. No fim, sinto-me perdido e um pouco amargurado de não poder concluir logo a leitura de todos os que, por grupo, escolhera para leitura. O diabo é que ainda tenho que escrever os meus próprios textos, fazer uma tradução, ler artigos em blogs, comentar, quando possível, um artigo ou uma crônica, ou um ensaio que me chamaram a atenção. Tenho um horário de leituras e estudos a que nem sempre obedeço. Há sempre uma novidade que aparece para atrapalhar minha programação.

A leitura é o maior combustível de quem escreve. É um hábito contínuo, persistente, sem retorno.É um bem à mente e ao corpo. Um forma de dar sentido e direção à brevidade da vida.