sexta-feira, 15 de março de 2013

Reflexões sobre o livro em papel




Nazareno César Moreira Reis

Agradeço a presença de todos. Estou muito feliz por estarmos aqui, neste espaço inspirador, celebrando o lançamento de livros, todos de autoria de piauienses, versando sobre diferentes esferas de ocupação intelectual, todos sob os auspícios da Fundação Carnaúba, cujo benemérito é o Dr. Silva Meneses, aqui presente.
O Dr. Silva Meneses, como todos sabem, é homem de muito brilho, e isso descobri há bastante tempo. Há uns 16 anos, ou pouco mais, tive o privilégio de ter os primeiros contatos com o Dr. Silva Meneses, então um jovem juiz trabalhista. Eu era estudante de direito. Minha irmã Isânia tornou-se assessora do Dr. Silva Meneses na Junta de Conciliação e Julgamento da Justiça do Trabalho, em Araripina/PE, em meados dos anos 1990. Nos finais de semana, quando ela vinha a Teresina, adquirimos, eu e ela, por inspiração direta do Dr. Silva Meneses, o hábito de comprar livros a mancheias (não necessariamente ler, mas comprar). E comprávamos mesmo aos borbotões, compulsivamente — digo, ela comprava, porque eu era um simples estudante, empossado tão-só no meu próprio corpo —; e esses livros, posto alguns não fossem integralmente lidos, só pela sua presença em casa, eram fonte permanente de inspiração (e uso a palavra aqui também num sentido sensorial, porque como é bom sentir o cheiro do livro novo, inspirando-o!).
Olhar para os livros, tocá-los, folheá-los, apreciar a sua aparência prometedora de erudição, ocupar-me em verificar a sua composição — tudo isso me parecia tão importante como entender a mensagem que o autor queria passar. E assim compreendi e vivenciei uma ideia que depois vi verbalizada com inteira perfeição por Paul Valéry, quando ele disse que:
Um livro é materialmente perfeito quando é agradável de se ler, delicioso de se mirar”


Estar em presença de tantos amigos, e do Dr. Silva Meneses, todos apreciadores da boa leitura, anos depois desses primeiros flertes com os livros, para lançar o meu livro em papel, é realmente um prazer inexprimível. Faz-me recordar coisas boas, faz-me reencontrar com os albores da minha existência intelectual.
É também um momento que me leva inevitavelmente a refletir sobre o futuro do livro, pois me sinto como no convés de um navio, içando a âncora. Em breve, já não seremos mais nesta terra.
Todos aqui temos o privilégio de viver tempos que provavelmente serão lembrados, no futuro, como fundantes de novas tradições e culturas. O livro em papel está, a pouco e pouco, cedendo espaço para o e-book. E não é exagero dizer que hoje já lemos e escrevemos muito mais em meio eletrônico do que em papel.
Não sei se o livro em papel desaparecerá, nem em quanto tempo; não creio que alguém tenha elementos seguros para responder a essas dúvidas. Sei que, se isso vier a ocorrer, deixará, pelo menos em mim, muitas saudades.
O livro em papel tem vida, pois o material genético das árvores está nele. Tem arte também, para amalgamar tinta, papel e cola de um jeito prático e garboso. O livro em papel tem uma memória, pois tem as marcas de quem o manuseou (às vezes, uma gota de café derramada, um risco incompreensível, um número de telefone anotado, uma assinatura, uma frase de efeito na folha de rosto, observações soltas nas margens, um papel esquecido entre as suas páginas, etc.). O livro em papel tem personalidade e beleza próprias (fontes, cores, desenho, espaçamento, etc.). Em suma, o livro em papel tem singularidade. Ele não apenas traz informações; ele é um bem tangível, fisicamente enclausurado, que muita vez evoca uma memória sinestésica, para muito além do entend ime nto. Ele é um companheiro nosso, e, às vezes, passa a ser parte de nós, contando-nos, anos, décadas depois, um pouco de nossa própria história.
O livro códex, como ficou conhecido este tipo de objeto que ainda hoje manuseamos, foi provavelmente a invenção de maiores consequências para a Humanidade nos últimos dois milênios. Uma tecnologia que permitiu que a informação circulasse de forma rápida, precisa e relativamente barata. Muito antes da internet, o livro, especialmente depois da imprensa, globalizou o mundo e transformou o homo sapiens no homo lectoris. O homem leu e escreveu como nunca, nos últimos séculos. E agora, curiosamente, a leitura está assumindo contornos paroxísticos.
É verdade — não devemos ler demais. A internet está nos levando a ler demais, e isso pode ser prejudicial ao espírito, à capacidade de aprender e até à saúde. Schopenhauer diz que “Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pelo peso contínuo de um corpo estranho, o mesmo acontece com o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios. E assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por excesso de alimentação do espírito, abarrotá-lo e sufocá-lo”. Vivemos uma espécie de “obesidade informacional”. Lemos muitas coisas, retemos muitas delas, que só nos servem como peso morto, cansando-nos, sem nenhuma utilidade real.
Se, no passado, escolhia-se o que ler, numa grande biblioteca ou livraria. Hoje, deve-se ter o maior cuidado em escolher o que não ler. Não ler muitas coisas que nos são impingidas pelo telefone, peloe-mail, pelas redes sociais, pelos jornais, pelas revistas, etc. Esse absenteísmo saudável pode nos poupar muito o cérebro, para coisas realmente interessantes. Estamos ficando quase como o Funes, o memorioso, aquele personagem do Borges que não conseguia aprender nada, apesar e justamente porque não esquecia nenhum detalhe do que via, ouvia ou lia.
Como tudo ao nosso redor está se transformando em dados e convergindo para a internet, desde o peso de uma nuvem que passa lá em cima, ou a velocidade do vento, às 20h do dia 20 de dezembro de 2012 nas imediações do aeroporto de Teresina, até o volume de água que o Mar Morto está perdendo por hora — então isso leva à leitura, e logo à “hiperleitura”. Assim como Funes, precisamos esquecer mais, se quisermos aprender. Ler menos e melhor, se quisermos apreciar o real valor da leitura.
 Procurei me inspirar nessas ideias, para escrever este pequeno manual para redação da sentença cível na prova de concurso para juiz. Concentrei-me notadamente na sede de concisão, em respeito ao leitor.
É claro que o tema da obra, por si mesmo prosaico e pragmático, já não permite alumbramentos. O livro, assim, saiu naturalmente seco, pois se destina, afinal, a ensinar o leitor a conseguir um emprego como juiz — não a ser um juiz. Tendo sido produzido aos poucos, sem sistema, e até sem intenção, o livro saiu-me de parto natural, após dez anos de gestação descontinuada. Não se pode dizer, pelo menos, que se trata de um trabalho aligeirado. A edição bem cuidada da Edipro acresceu muito ao trabalho e por isso sou grato ao Sr. Jair Lot.
Praticamente, o trabalho interessa a poucos, apenas talvez aos que estão na terceira fase do concurso de juiz. Esse público, seleto e crítico, é temível. Mas procurei ser honesto desde o prefácio. Não lhe prometi grandes soluções, apenas lhe declarei um testemunho de um candidato mais velho, já aprovado em alguns testes e que já trabalhou na preparação de outros mais jovens.
A sensação do autor, ao ler aquilo que escreveu impresso numa edição bem feita, é algo difícil de descrever. Mais uma vez foi Paul Valéry quem melhor expressou esse sentimento. Ele disse que: “Se o papel e a tinta se adequarem mutuamente, se a letra possuir um belo olho, se a composição for cuidada, a justificação, deliciosamente proporcionada, a folha, bem impressa, o autor experimenta de um modo novo sua linguagem e seu estilo. Encontra em si mesmo acanhamento e orgulho. Vê a si mesmo revestido de honrarias que talvez não lhe pertençam. Julga ouvir uma voz muito mais nítida e firme que a sua, uma voz implacavelmente pura, articulando suas palavras, destacando perigosamente todas os vocábulos. Tudo o que ele escreveu de fraco, mole, arbitrário, deselegante, agor a fala claro e alto demais. É um julgamento muito preciso e temível, esse de ser magnificamente impresso.” (As duas virtudes de um livro, Suplemento Literário de Minas Gerais, número 88, outubro de 2002).
Muito obrigado!”

Teresina-PI, Oficina da Palavra, 20 de dezembro de 2012.

(Discurso proferido pelo Dr. Nazareno César Moreira Reis, Juiz Federal,  por ocasião do lançamento do livro “Sentença Cível Para Concursos da Magistratura”, Edipro, 2012, de sua autoria.)

quinta-feira, 14 de março de 2013

PERDIDOS & ACHADOS – TEMPOS RECIFENSES I



14 de março   Diário Incontínuo

PERDIDOS & ACHADOS – TEMPOS RECIFENSES I

Elmar Carvalho

No começo deste ano, minha irmã Joserita, que foi morar no Estado do Rio de Janeiro faz mais de sete anos, veio finalmente visitar seus pais e seus irmãos. Veio em companhia de duas das três filhas: Clara, uma das gêmeas, e Joélia, a caçula. Ficaram no Rio seu marido Antônio Carlos e Carla, a outra gêmea. Aproveitou para passear em Teresina, Pedro II, em viagem narrada neste Diário Incontínuo, e Parnaíba, onde morou por muitos anos. Em plagas parnaibanas casara e tivera as filhas.

Fora outros afazeres, remexeu em velhos guardados de meus pais, folheou antigos álbuns de fotografias, e descobriu alguns objetos afetivos, que dávamos por perdidos há muitos anos. Entre essas velhas coisas, de grande valor sentimental, encontrou dois retratos de meus pais, do tempo em que minha mãe devia ter em torno de trinta anos de idade, e meu pai, menos de quarenta. Eles eram nessa época um belo casal, e as fotografias expressam a felicidade e o amor que lhes ia na alma. Eram protegidas por belas molduras, um tanto ovais como as telas; tinham um vidro convexo, que lhes realçava a originalidade e lhes dava certo ar de relíquia e de redoma. Foram postas em novas molduras, e um paspatur lhes acentua o formato ovalado.

Foram tiradas por um retratista, que parecia ter alma de pintor, e que usara a melhor técnica, equipamentos e materiais da época. Os retratos pareciam pintura, e tinham, suponho, retoques de artesanais pinceladas, que lhes emprestavam certo colorido, num tempo em que não se falava em fotografia em cores, embora o velho Cine Nazareth já exibisse faroestes e outros gêneros cinematográficos em tecnicolor, como o senhor Zacarias Lins, proprietário da casa de exibição, enfatizava, quando ele próprio, em sua Rural Willys caiçarina (vermelha e branca), saía pelas ruas de Campo Maior a anunciar as películas.

Na sua saudável mexericagem, a Joserita ainda encontrou cinco velhos cartões postais e um poema manuscrito, de minha autoria, datado de 22 de abril de 1975, quando eu mal completara 19 anos de vida. Com relação ao poema, titulado Recife, eu já o dava por irremediavelmente perdido, e dele recordava apenas cinco versos, que publiquei no livro Rosa dos Ventos Gerais. Nesse livro, na mesma página, coloquei uma versão ampliada e com leves modificações, e uma outra, de cinco versos, que a minha memória registrara fielmente, como agora constatei. Quanto aos cartões, deles já praticamente não me lembrava.

Num dos cartões postais, datado de 31/05/1975, eu comunicava que tudo estava certo comigo, e que, na 1ª etapa do curso de Monitor Postal, feito no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, em Recife, no Bairro Bonji, minha média geral fora 9. Anunciava meu retorno para o dia 8 de junho, com o curso já encerrado. Acrescentava que “hoje fui eleito, no auditório, como o orador da Turma”.

Em outro postal, retratando a Avenida Guararapes e a Ponte Duarte Coelho, em que se viam propagandas em neon, no alto dos prédios, e as luzes se refletindo nas águas do Capibaribe, com data de 15/05/75, dirigido a minha mãe, eu dizia que fora a visão noturna do Recife que me inspirara o poema que lhe leva o nome. No manuscrito, no verso do cartão, eu confidenciava que “quando eu disse que ia postar um cartão postal (...), uma moça, que não conheço, disse para eu dar” lembranças a minha mãe.

No final, eu pedia que mamãe recebesse as lembranças da desconhecida e as minhas. Fico, agora, tentando imaginar como seria essa jovem, e o que lhe passou pela cabeça e pelo coração, ao ver um garoto, bisonho e interiorano, quase perdido na cidade grande, a postar, com tanto empenho e emoção, um modesto cartão para sua mãe, no guichê de uma grande agência postal e telegráfica. Sem dúvida, devia ser uma moça sensível e boa, para se preocupar com um mister tão singelo e tão sentimental. Devo tê-la visto somente de relance, e apenas por um átimo de segundo. Imagino e desejo fosse também bonita. Contudo, disso jamais terei certeza. 


As duas versões do poema RECIFE, conforme publicadas no livro Rosa dos Ventos Gerais


(Fragmento de um poema perdido,
escrito no Recife, início de 1975.)

teus lampadários
multicores
ilusórios e utópicos
como os primeiros amores
cheios de mágoas
parecem peixes fosfóreos
em tuas águas:
caleidoscópicos
aquários.

(versão modificada)


tuas luzes multicores
ilusórias como os primeiros amores
cheios de mágoas
parecem peixes fosfóreos
em tuas águas.

(versão original)

quarta-feira, 13 de março de 2013

Aniversário de mamãe



Cunha e Silva Filho

Num pedacinho de papel de carta que me ficou nos guardados do tempo sobraram algumas palavras finais de um fecho de carta de mamãe. O trecho manuscrito diz: [...] “Francisco ainda se lembra do dia 1º de Março? Dia do meu aniversário. Lembranças de todos. Abraços de sua mãe que muito lhe quer. Ivone Silva.” No verso do pedacinho da carta, mamãe faz um comentário sobre a filha de uma das minhas irmãs e diz que era uma “linda garota cada vez mais linda e sabida. Vire.”


Não sei por que da carta inteira só me ficou aquele pedacinho de papel.Talvez, numa mudança, e eu fiz muitas, a carta inteira se tenha rasgado em pedaços, só me restando o que agora relato. O curioso é que eu descobri o pedacinho da carta quando, abrindo um livro meu,The teacher at home – Conversação inglesa (Porto: Editorial Domingos Barreira, 606 p.),   presente de um estimado  ex-aluno  chamado Barroso, jovem  português a quem lecionei  a disciplina língua inglesa no início dos anos setenta do século passado. Ele  comprou o exemplar  numa viagem de férias  à cidade do Porto. O autor desse grandioso  livro é o  padre português, Júlio Albino Ferreira, famoso professor de inglês  em Portugal até os anos trinta do século passado, autor de numerosos livros sobre a língua inglesa, bem como de dicionários de inglês-português elogiados por ilustres professores americanos e ingleses da época. Padre Júlio Albino morou vários anos na Inglaterra aperfeiçoando-se no idioma de Shakespeare.Vim a conhecer esse autor porque meu pai tinha na biblioteca de casa um dos livros didáticos do eminente professor português. Eu mesmo li os mais importantes livros do padre Júlio Albino.

O nome completo de minha mãe é Ivone Setubal e Silva. Não sei também a razão pela qual assinara,  na cartinha,  só “Ivone Silva.” Na mocidade   foi  uma bela mulher, conforme me mostra um retrato que dela vi na casa de um tio meu já falecido. Possivelmente naquele retrato estava na casa dos vinte a trinta anos. Com aquele sinalzinho num dos lados do lábio superior, sua fisionomia ficava mais atraente. Tinha cabelos escuros levemente ondulados.Era morena clara como se dizia no Piauí. Sua estatura era pequena. Os olhos, negros, eram belos e penetrantes; o rosto era mais para fino, não era redondo como em geral são as mulheres  nordestinas.
No dia primeiro de março completou noventa e um anos de nascimento. Faleceu nos anos noventa do século passado, ainda setentona. Numa crônica, “Os desenhos de mamãe,” publicada noDiário do Povo, de Teresina, Piauí, e, posteriormente em blogs, falei sobre a vocação de mamãe para o desenho e para os bordados. Era esse o seu lado artístico.

Seu pai, Avelino Alves Setubal, foi militar do Exército. Fora primeiro sargento e chegara a tenente. Morreu ainda muito jovem, na casa dos trinta. Na sua vida de militar houve um retrocesso que resultou na perda de galões de tenente, fazendo-o retornar à condição de primeiro sargento. Fora injustiçado. O fato, me parece, se deve à sua participação na Revolução de 1924, em São, Paulo. Faltam-me dados para esclarecimentos desse incidente que deve ter-lhe magoado muito.

Mãe Ivone era uma pessoa meio austera, fechada e não se desabafava muito. Na minha infância as melhores lembranças que tenho dela eram os carneirinhos que me desenhava, lindos desenhos que me deliciavam a imaginação e com eles me transportava para lugares inimagináveis, tal era o poder de magia dos carneirinhos. Só ela, com as suas mãos de fada sabia traçar as linhas que formavam aqueles desenhos que ficaram gravados na minha memória e fantasia infantil. Sobre esses carneirinhos já falei na citada crônica.

Outra grande lembrança que tenho dela eram nossas idas ao Mercado Velho de Teresina debaixo do calorão da capital piauiense. “Oi, caior  danado”, dizia eu bem pequenino de mãos dadas com mamãe. Uma outra vez, foi aquele momento constrangedor para um padre conhecido de mamãe, que me perguntara se queria ser padre .Respondi-lhe rispidamente: “- Não!” – Por quê?, insistira o sacerdote. - Padre usa vestido de mulher, retruquei-lhe ainda com firmeza. O religioso, então, desconversou sem graça e se despediu de nós.

Outro momento de grande emoção e tristeza para mim foi aquele dia em que, muitos anos depois, recebi um cartinha dela pedindo-me que não deixasse de rever meu pai, pois, segundo, ela os médicos lhe disseram que a vida dele estava por um fio. Atendi prontamente ao seu pedido e fui com um dos meus filhos visitá-lo em Teresina.

Finalmente, uma coisa associada à figura de  minha mãe da qual nunca esqueci. Era o preparo da galinha assada na noite de Natal. Não havia alguém que preparasse aquela ceia como mamãe. Era algo de outro mundo. O sabor do tempero, dos ingredientes da terra piauiense, o ponto certo de assar, a dosagem certa do sal, a farofa, o arroz. Aquele sabor de comida gostosa ainda consigo sentir lá no íntimo da minha memória.

É claro que se forçasse mais a memória iria contar-lhe, leitor,  mais algumas passagens agradáveis ou não do meu convívio com minha mãe. Uma coisa, contudo, nunca poderei deixar de fazer: lembrar aquela data querida e guardada para sempre, o dia 1º de março.

terça-feira, 12 de março de 2013

Cardeais não estenderam a mão ao Papa



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Berlim, 2011. Imagens nítidas de uma cena, se não constrangedora, todavia questionável: Papa Bento 16 retira-se do Palácio do Governo, aplaudido pela multidão, para cumprimentos de selecionado grupo de autoridades postas em círculo, de pé. O pontífice dirige-se a cada chefe, total 15, estende-lhes a mão. Em resposta, recebe carinhoso e demorado aperto e sorriso. Em seguida, vai ao encontro de 19 cardeais, também em círculo. O Papa repete o mesmo gesto: estira-lhes a mão. Curiosamente, só 6 cardeais devolvem-lhe a cordialidade. 11 derretem-se de gentilezas para com as demais autoridades, menos para o chefe da Igreja, de mão estendida, cujo troco a frieza. Só agora, tsunami balançando a arca de Pedro, mas não à deriva, pipocam interpretações diversas sobre a cena de Berlim envolvendo o famoso conterrâneo. 

Fábio Simões confessou com surpresa: "Ficou bem esquisito! Uns poucos o cumprimentam e a maioria não! É protesto? É não aceitação? É quebra de protocolo da boa educação? O que ficou "no ar" foi o Papa de mão estendida "no vácuo"! Esquisito mesmo!" Luís Roberto Turatti acrescentou: "Católico que é católico respeita e admira o Papa. Quem achar que ele está errado, ou cometeu isso ou aquilo e está descontente, é simples: MUDE DE RELIGIÃO! Criticar por criticar não soma nada, absolutamente, aliás, só se perde tempo. Nós, católicos praticantes e atuantes, queremos qualidade e não quantidade, assim nos ensinou muito acertadamente Bento XVI. Concordo com a postagem." Pedro Araújo também viu a cena e emendou: "Tem gente que mesmo vendo, não acredita. Quem quer que seja a autoridade máxima da Igreja, não cumprimentá-la, por motivo de uma formalidade , é inconcebível... Ele estava de mão estendida! Até por uma questão de respeito ou Amor cristão! Imagine: AMAI OS VOSSOS INIMIGOS! FAZEI O BEM AOS QUE VOS ODEIAM." 

A atitude de o Papa estender a mão, quebrando o protocolo, induz uma regra de urbanidade e fraternidade devolver-lhe a mesma cordialidade. Ora, protocolo à parte, o que vale é a reciprocidade. O que não houve de 11 cardeais. 

A falta de cordialidade, até para com adversários, é pecado mortal, fere o mais sagrado princípio cristão, a caridade. Comete-se, especialmente, onde fervilham interesses e disputas de poder: congressos, câmaras, paróquias, e, por que não, na Cúria romana. Não é fácil repetir o primeiro mandamento da cena do Lava-Pés do Mestre. Imagine um modesto aperto de mão, arrogantemente rejeitado ao maior representante da Igreja. Deus está vendo o que se passa nessas cabeças coroadas, por trás da fumaça branca ou preta emergindo da sala do Conclave, todos em círculo como na cena de Berlim.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO EM AMARANTE-PI



Marcelino Leal Barroso de Carvalho

A Igreja Católica celebra o Dia de Pentecostes no 50º dia depois da Páscoa, uma das mais importantes festas móveis do calendário litúrgico, também chamada Festa do Divino. Em várias partes do mundo, as comemorações são feitas com grande pompa e manifestações populares, antecedidas de peregrinações ou peditórios destinados a arrecadar recursos para o grande dia.
A Festa do Divino tem sua origem atribuída a uma promessa feita, ainda no Século XIV, pela rainha D. Isabel, de Aragão, casada com o rei D. Dinis, de Portugal, ao invocar o Espírito Santo em favor da pacificação dos conflitos familiares que punham em risco a própria unidade do reino. Com o tempo, espalhou-se pelas colônias portuguesas e pelo mundo ibérico, e, atualmente, pode considerar-se como uma festa universal das mais ricas em simbologia. Até mesmo os países da América do Norte incorporaram essa secular tradição, realizando cortejos e solenidades com extraordinária afluência popular.
Em todo o Brasil, variadas são as manifestações religiosas alusivas ao Dia de Pentecostes, especialmente nos Estados do Maranhão, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Goiás/Tocantins, Minas Gerais e Mato Grosso/Mato Grosso do Sul. Em vários Estados, autoridades e outras personalidades costumam prestigiar a Festa do Divino, inclusive participando do Cortejo Imperial.
Comenta-se que, em Santa Catarina e no Maranhão, o esplendor da Festa do Divino deve-se à força que lhe emprestavam os colonos açorianos, reproduzindo os elementos e personagens da cerimônia com que, sob influência da Rainha Santa, os membros da realeza (imperador, imperatriz, alferes, capitães, damas e pajens) passaram, anualmente, a entregar suas insígnias numa igreja, em penhor de agradecimento pelas graças alcançadas. Acredita-se que o título de Imperador, atribuído por José Bonifácio de Andrada aos monarcas do Brasil, decorra da força simbólica alcançada pelos personagens da Festa do Divino.[1]
No Piauí, sabe-se que algumas cidades, como Valença, Simplício Mendes e Amarante, mantiveram, por longos anos, a tradição de verdadeiras “desobrigas” masculinas à cata de esmolas. Um grupo de homens percorria os povoados, carregando os símbolos do Divino (pomba e bandeira), em peditórios com cantoria de caixa e rabeca. Em Oeiras (antiga Capital), destaca-se o envolvimento de pessoas abastadas, que distribuem grandes quantidades de carne para os pobres.
Noé Mendes de Oliveira designa esses cortejos como “Bandeiras do Divino”[2], enquanto que, pelo Brasil afora, são chamados “Divindade” (v.g., Maranhão) ou “Folia do Divino” (v.g., Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Folia do Divino, segundo Edison Carneiro[3], “era o bando precatório que, em contínuas andanças, durante muitos dias, pela freguesia, angariava as espórtulas dos fiéis para a festa de largo”.
No Hino de Amarante (letra de Mons. Isaac José Vilarinho e música do maestro Luís Santos), cunha-se a denominação “Tambor do Divino”. A população amarantina, entretanto, chamava a esses grupos simplesmente “Divino”, ou “Divino de Seu Manoel Paulo”, como ainda hoje se diz, com os remanescentes: “Divino de Seu Odilon” (povoado Conceição), “Divino de Seu Airton” (povoado Periperi), “Divino de Dona Maria Peruca” (bairro Escalvado), “Divino de Seu Eduardo” (povoado Sussuapara, em São Francisco do Maranhão), dentre outros.
Os “Divinos” mais lembrados de Amarante são o de Seu Manoel Paulo e o de Seu Agostinho Felipe[4], chefes de gerações de “divineiros”, como Benedito França (também “tocador” e filho de Agostinho Felipe), Do Carmo (cantador), Gonçalo Basílio e seu filho Júlio Basílio (rabequeiros).
Nos bairros e povoados de Amarante e São Francisco do Maranhão, outras linhagens de devotos podem ser lembradas nas pessoas dos cantadores e caixeiros Zeca Tatuzinho e Manoel do Basílio, do artesão e rabequeiro Manoel do Barcelos, ou dos violeiros Seu Domingos e Eliseu, este último filho de Seu Eduardo.
Algumas mulheres, por vezes, também integram as cantorias. As mais conhecidas, atualmente, são Dona Maria e Dona Da Guia, muito requisitadas para acompanhar diversos cantadores, geralmente como “segundeiras” (segunda voz).
Em Amarante, a Festa se caracterizou também, desde o início do Século XX (há registros de 1907)[5], como encargo de famílias de operários. A descendência de uma dessas famílias tem garantido a continuidade da “promessa”, mas, nos últimos anos, a Festa ganhou expressão e vem atraindo pessoas de várias localidades, especialmente pela beleza plástica da Procissão das Insígnias (Cortejo Imperial), antes da Missa Solene, com acompanhamento de Banda e de representações das diversas associações e movimentos religiosos da Paróquia.
O Tríduo do Divino, que era realizado em ambiente doméstico e em círculo restrito às pessoas mais próximas, passou a desenvolver-se com uma procissão luminosa, em cujo trajeto é recitada a Coroa do Divino (devoção originária de uma exortação do Papa Leão XIII), com paradas estratégicas em algumas residências, até se completarem os Sete Mistérios. Escolhem-se três responsáveis, em cujas residências se dá o pernoite da Pomba e da Bandeira, cada uma ficando responsável pelo cortejo do dia seguinte. A partir de 2011, o Pe. Tertuliano Alves mandou incluir na programação a Missa da Vigília de Pentecostes, encerrando a terceira noite do Tríduo, no Beco de D. Dedé. No quarto e último dia, o Terço de Encerramento da Festa reúne muitas famílias da Vila Nova e de outros bairros da cidade, após o que, ao estilo dos “bodos” açorianos, distribuem-se bolo, café e chocolate quente.
Desde o início dos anos 1940 até sua morte, em 1984, Josefa Pereira de Araújo (D. Dedé), desdobrou-se para dar continuidade à Festa do Divino e emprestar-lhe feição de festa para os pobres. Pouco antes de falecer, pediu aos atuais festeiros que não deixassem o povo da Vila Nova esquecer essa devoção, que atesta a importância da preservação das tradições da cidade e da valorização das manifestações religiosas de seu povo.
A Festa do Divino de Amarante, diferentemente das de Oeiras ou Valença, tem permanecido com a mesma família, mas outras pessoas e até grupos da comunidade passaram a colaborar com maior interesse da organização, nos últimos anos. Assim, entre esses voluntários, crianças, jovens e adultos passaram a postular maior participação como figurantes, nos cortejos e solenidades, além de assumirem outros encargos artísticos ou operacionais. São exemplos desse importante apoio: rabequeiros, percussionistas (caixeiros), cantadores (repentistas), tecladistas, decoradoras, cozinheiras, técnicos de som, operários de diversas áreas e a Equipe de Liturgia, além do Coro da Matriz de São Gonçalo e das Bandas de Música SALCRI e Nova Euterpe, grupos regidos pelo maestro Wilson Ferreira Lima.
Há vários anos, o tenor Aislan Leal tem participado da Missa Solene de Pentecostes, entoando a Sequência. Em 2011, esse momento foi abrilhantado, também, pelo Grupo Kimika in Trio, de Teresina. Na mesma ocasião, foi lançado o Hino do Divino de Amarante (letra de Ana Cândida Nunes Carvalho e música de Aurélio Melo), executado pelo Coral Laetitia et Spes, do Instituto Camillo Filho, e por um Quarteto de Cordas da Orquestra Sinfônica de Teresina. Vários concertos têm sido incluídos na programação, nos últimos anos, destacando-se os da Orquestra Sinfônica de Teresina (2010) e do Coral Laetitia et Spes (2011).
Outros artistas têm tido, também, participação esporádica (como Vagner Ribeiro, Mestre Pedro da Rabeca, Luciano Klaus e James Brito), tanto nos atos litúrgicos quanto na tradicional Serenata do Prof. Melquíades Barroso, que se desenvolve na noite da sexta-feira (segundo dia do Tríduo). Em 2012, na Missa Solene, a Festa terá a participação especial do tenor Aislan Leal e do Madrigal Vox Populi, de Teresina, sob regência do maestro Luciano Klaus.


[1] CASCUDO, Câmara apud LIMA, Carlos de; LIMA, Zelinda de. O Divino Espírito Santo. Portal do Divino, Rio de Janeiro, 16 abr. 2008. Disponível em: portal do divino. Acesso em: 16 abr. 2008.
[2] OLIVEIRA, Noé Mendes. Folclore brasileiro: Piauí. 3. ed. Teresina: Fundação Cultural Mons. Chaves, 1999. p. 67.
[3] CARNEIRO, Edison. Desfiles e cortejos populares. Brasil Açucareiro,  Rio de Janeiro, n. 2, a. 40, v.70., ago. 1969. Disponível em: revista jangada brasil. Acesso em: 2 abr. 2012.
[4] OLIVEIRA, Manoel Messias de Sousa. Comentário. In DUARTE, Denison. Amarante [blog do Portal Meio Norte]. Disponível em: portal meio norte. Acesso em: 28 maio 2009.
[5] CASTRO, Nasi. Amarante: folclore e memórias. [Teresina]: [s.n.], [1993?]. [Projeto Petrônio Portella]. p. 109.

Fonte: blog Beco da Bolinagem

domingo, 10 de março de 2013

Seleta Piauiense - Everaldo Moreira Veras



Possessão

Everaldo Moreira Veras (1937 - 2011)



Me lembro quando tua mão pousou sobre minha mão.
O quarto, no escuro, tinha sido a cela escolhida.
A madrugada branca nos disse
que nunca mais o dia raiava.
Aí,
te apertei contra mim,
o lençol quente nos uniu.
Na rua, a luz do poste marcava, no chão,
a hora estranha de esquecer a fuga.
Baixinho murmurei o teu segredo
e a voz era doce mentira de amor.
Então,
entrei no teu corpo virgem
a tua alma me possui depois,
quase chuvamente mulher.

sábado, 9 de março de 2013

Acadêmico Júlio Romão morre aos 95 anos em Teresina



O escritor, jornalista, etnólogo e teatrólogo Júlio Romão da Silva, faleceu na manhã deste sábado (9) aos 95 anos. Ele trabalhou na imprensa do Rio de Janeiro, ao lado de nomes como Graciliano Ramos, e ocupava a cadeira número 31 da Academia Piauiense de Letras.
Em dezembro, a Academia Piauiense de Letras e a Universidade Federal do Piauí (UFPI) lançaram "Júlio Romão da Silva: entre o formão, a pena e a flecha", publicação que reúne livros e artigos do escritor, organizada pelo professor Élio Ferreira e o teatrólogo Ací Campelo.
A notícia foi confirmada por Ací Campelo. Ele revelou que estava produzindo um documentário, ainda em fase de edição, e chegou a realizar mais de seis horas de entrevista com Romão.
Élio Ferreira acrescentou ao Cidadeverde.com que Júlio Romão já estava com a saúde debilitada. O escritor se preparava para procurar um médico quando faleceu em sua casa, na zona Sudeste. O velório acontecerá na Pax União, avenida Miguel Rosa - Centro/Sul -, e deve começar até o final da manhã.
Júlio Romão nasceu em 22 de maio de 1917. Superou a vida pobre e saiu de Teresina para São Luís (MA) e depois o Rio de Janeiro, onde chegou a mendigar, mas conseguiu se sobressair. O jornalista é nome de rua na cidade do Rio de Janeiro e também cidadão carioca. Um dos pioneiros nos movimentos pela luta da igualdade racial no Brasil, em 2010, Júlio Romão recebeu da Universidade Federal do Piauí o título de Doutor Honoris Causa.
Sua bibliografia reúne obras como: Os Escravos, 1947; O Monólogo dos Gestos, 1968; José, o Vidente, 1974 (teatro); Luís Gama e Suas Poesias Satíricas, 1954; Geoonomásticos Cariocas de Procedência Indígena, 1962; Evolução do Estudo das Línguas Indígenas do Brasil, 1965; A Mensagem do Salmos; Denominações Indígenas Indígenas na Toponímia Carioca, 1966, Cultura Humanística em Portugal e Arte de Biografar, 1974; Louvado Seja Castro Alves, 1975; Geolingüística de Fronteira e os Anjos Caídos.

Fonte: Portal da APL

sexta-feira, 8 de março de 2013

ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS – 95 ANOS




Reginaldo Miranda
Presidente da Academia Piauiense de Letras


No último dia 16 de fevereiro a Academia Piauiense de Letras abriu o Ano Acadêmico e comemorou o 95º Aniversário de sua fundação. Na oportunidade, foi comemorado o centenário de nascimento do saudoso acadêmico Clidenor Freitas Santos, com discursos de Celso Barros Coelho, Humberto Soares Guimarães e Heitor Castelo Branco Filho.
Cumpre ressaltar a Pré-Programação do Centenário do sodalício por nós apresentada juntamente com o lançamento oficial da Coleção Centenário, com o objetivo de (re)editar as principais obras e autores da literatura e historiografia piauiense. É nosso objetivo (re)editar dez obras anualmente, totalizando ao menos cinquenta na época do centenário. Para isso devemos contar com o apoio do setor público e da iniciativa privada, os quais estamos conclamando. Cumprida essa meta o Piauí terá a maior coleção histórico-literária de sua história. Será um prêmio à intelectualidade do Estado e uma jóia para os colecionadores. Já pensou quem tiver a coleção completa?
Pois bem, lançamos os dois primeiros volumes, que se encontram à venda na sede da APL. Trata-se de Memórias e Em roda dos fatos, respectivamente, de Higino Cunha e Clodoaldo Freitas, os dois principais fundadores da Casa. São duas obras atualíssimas. Na primeira, Higino Cunha faz um inventário de sua formação e vida literária, passando a limpo a sua época; a segunda é a reunião de crônicas de Clodoaldo Freitas, escritas entre os anos de 1902 e 1906, sendo originariamente publicadas na imprensa de Teresina, São Luís e Belém, por onde andou o autor nesse período. Abordam interessantes temas, ainda hoje atualíssimos.
A coleção prosseguirá, aguardando-se para os próximos meses, livros de nossa autoria e de Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, ainda Clodoaldo Freitas, Odilon Nunes, Cláudio Melo, Celso Pinheiro e tantos outros.
A par dessas publicações, a Academia segue com sua programação, promovendo encontros e ciclos de palestras e debates. É uma instituição consolidada no Estado. É uma das mais antigas instituições do Piauí. É a mais antiga instituição cultural piauiense em atividade. E edita uma revista que já vai com 68 edições, um exemplo de vitalidade, a mais longeva publicação do Estado.
Nesse momento festivo, conclamamos toda a sociedade piauiense para apoiar esse projeto literário. A Academia é uma instituição aberta, que recebe bem aqueles que a procuram. Nasceu sob a inspiração de um grupo de jovens com menos de 40 anos, sob a liderança dos dois amadurecidos acadêmicos, cujos livros foram lançados. Portanto, aproximem-se da Academia, apóiem nossos projetos, façam sugestões, vamos juntos promover o desenvolvimento cultural do Estado do Piauí. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

INICIAÇÃO MAÇÔNICA EM REGENERAÇÃO




7 de março   Diário Incontínuo

INICIAÇÃO MAÇÔNICA EM REGENERAÇÃO

Elmar Carvalho

No sábado passado, veio de Teresina, numa van fretada pelo Grande Oriente do Brasil – Piauí, a esta cidade de Regeneração uma boa turma de maçons, sob o comando do eminente Grão-Mestre Francisco José Sousa. Entre outros irmãos, faziam parte da “trupe” o irmão emérito Cícero Veloso, Haroldo, o Hermógenes e o magistrado Dioclécio Sousa. Saímos às 14 horas, pois às 17 teriam início os trabalhos de iniciação dos candidatos Abelardo Pio Vilanova, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, do qual foi presidente, e Genivaldo Pio Mendes Vieira, empresário.

Nem a viagem de vinda nem a de volta nos cansou, e ambas nos pareceram rápidas, pois o mestre Hermógenes, dedicado auditor fiscal do Estado, que conheço há alguns anos, estava imbatível na arte de contar anedotas e piadas, com o seu vasto e basto bigode, que me faz lembrar o cantor Bienvenido Granda, cognominado o Bigode que Canta, enquanto o bom Hermógenes bem poderia ser chamado de “bigode que conta”. É certo que, em alguns momentos, foi coadjuvado pelo GM Francisco José, pelos irmãos Dioclécio e Haroldo, sendo certo que este escriba também deu a sua contribuição, de sorte que o anedotário foi farto, bom e variado.

O Grão-Mestre e o Venerável da Loja Maçônica Tabelião Manoel Isaac Teixeira conduziram os trabalhos iniciáticos com admirável perfeição. Tudo transcorreu da forma como manda o manual. Os neófitos foram saudados pelo orador da loja, Dr. Alfredo Nunes, que lhes fez o justo e merecido elogio, e lhes traçou breve perfil biográfico e familiar. Vários irmãos fizeram uso da palavra, de forma sintética e apropriada. Como se fosse para coroar a sessão, a energia elétrica, precária como sempre, achou de faltar, fazendo com que a solenidade fosse encerrada à luz de velas, como nos velhos tempos dos augustos mistérios. Ao menos na comemoração festiva, no lado de fora do templo, pudemos contemplar as estrelas, que pareciam brilhar com mais intensidade no céu regenerense.

Em minha breve saudação aos dois novos obreiros, fiz uma rápida retrospectiva histórica da maçonaria no Piauí, para que eles melhor entendessem o clima espiritual que deve permear a sublime ordem. Disse-lhes que, na primeira metade do século passado, alguns maçons, grandes intelectuais, trocaram algumas verrinas e catilinárias com determinados sacerdotes da Igreja Católica, e por isso foram considerados anticlericalistas. E de fato eles o eram, no sentido de que se insurgiam contra certo farisaísmo e hipocrisia de alguns poucos membros do clero.

Sabe-se que alguns se diziam agnósticos ou mesmo ateus. Isso é fato, e foi contado em alguns livros de história de nosso estado. Essa pose de agnóstico parecia ser um vezo da época, uma certa postura de alguns intelectuais do período, assimilada talvez de corifeus nacionais e internacionais, ao que parece. É claro que eram pessoas sérias e sinceras, mas que mesmo assim não ficaram imunes às influências da cultura de então. Mesmo porque a Maçonaria porfia em somente admitir pessoas do bem, de bom caráter, de boa formação moral, não significando isso dizer que não possam existir uma ou outra exceção.

Todavia, fiz questão de enfatizar, nos dias atuais a Ordem só admite em seu seio pessoas que acreditem em um ser supremo, ou seja, Deus, que designamos como Grande Arquiteto do Universo. Se o profano se declarar ateu, jamais ingressará na instituição. Espera-se que uma pessoa que creia em Deus seja uma pessoa melhor, por motivos que não irei discutir neste momento. De qualquer modo, sei que alguns homens valorosos, de bom coração e cumpridores do dever foram ateus ou agnósticos, entre os quais cito Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, para ficar apenas na seara literária.

Falei, ainda, o que tenho pregado em minhas conversas e em eventuais palestras ou escritos; falei que, no meu entendimento, Deus não quis fazer o homem como uma obra perfeita, pronta e acabada. Parece ter criado uma obra em aberto, feita para crescer e se desenvolver, espiritual e intelectualmente, em busca da perfeição, que será talvez para sempre um ideal inalcançável. O homem, obra do incriado Criador, é uma obra que também se constrói a si mesma, quando progride, quando procura tornar-se melhor.

Portanto, o ser humano deve estar sempre envidando esforços para livrar-se de suas fraquezas e imperfeições; deve buscar sempre estar melhor hoje do que ontem, e melhor amanhã do que agora. Aliás, Cristo nos advertiu para sermos perfeitos, como Deus o era. Disso podemos extrair que o nosso ideal é impossível de ser alcançado. Contudo, devemos nos esforçar para dele nos aproximarmos, por mais longe que fiquemos, por mais difícil que seja o nosso esforço. Disse, ainda, fulcrado nas lições maçônicas, que somos uma espécie de pedra bruta, que nós próprios devemos desbastar e lapidar, escoimando-a das impurezas e imperfeições, por mais árdua e difícil seja essa missão.

Por último, disse que a oficina regenerense tinha adquirido dois obreiros que certamente iriam engrandecê-la e dignificá-la. Quis enaltecer o regenerense Abelardo Vilanova ao proclamar que ele era um paradigma para todo servidor público, um exemplo a ser imitado, porquanto fizera suas conquistas por esforço e mérito próprio, sem necessidade de “pistolões”. Sem ser filho de potentados ou de encastelados próceres da política piauiense, ascendera a conselheiro do TCE, e fora seu presidente, com probidade e competência. 

terça-feira, 5 de março de 2013

ALGUNS HAICAIS



ALGUNS HAICAIS

Elmar Carvalho

SIMBIOSE AMOROSA

Eu te amo
para que me ames
e eu te ame.

ASCENÇÃO

A chuva caía
e em cada pingo dizia:
Saiba cair.

TROVÃO

Nuvens novas
brincando de soltar
tiros de foguete e rojão.

AMOR

Arte de possuir
na mesma medida
em que se é possuído.

CHUVA

Bênção dos céus
debulhada em bagos
d' água.

RELÂMPAGO

Nuvens novas
a brincar com
fogos de artifício.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Limites do Piauí: logro secular



Fonseca Neto

É a pura verdade: o Piauí nunca levou a sério a questão dos limites de seu território com os vizinhos. E assim, cada um deles foi tirando um pedaço, ou “lasca”, como popularmente se diz. 
Primeiro o Ceará, que esbulhou a zona continental litorânea (“Amarração”) enquanto o Piauí cochilava no coração dos sertões, em Oeiras. Depois, o Maranhão, levou a maior parte das terras e águas do arquipélago do Delta. Agora, o Tocantins, novinho e já traquina, arranca o seu pedaço. E para devolver o litoral, o Ceará exigiu do Piauí, de presente, uma parte excelente de seu incontestável território, “ubérrima” região serrana das nascentes do rio Poti, muito próspera comarca piauiense, municípios de “Príncipe Imperial” (hoje Crateús) e Independência (antiga “Pelo Sinal”). E por que o Piauí não ganhou nenhuma? 
Vem de muito antes na história desta parte do mundo o costume que se fez lei entre os povos de tomar-se o caminho das águas e o espinhaço das serras como marcas limitantes entre tribos, províncias, nações e estados. No litoral, as ilhas, istmos, cabos, barras e baías. E foi justamente essa a doutrina que orientou juridicamente a constituição da Administração portuguesa deste lado do Atlântico, a partir do ano de 1500. 
O primeiro marco de criação jurídica do futuro Piauí foi constituído – antes de existir a donataria que depois se chamaria de Ceará, de Antonio Cardoso de Barros – ainda no ano de 1535, em 18 de junho, quando o rei João III doou a seu amigo de infância, e Tesoureiro-mor do reino, Fernão Álvares de Andrade, um trecho de “minha costa e terras [de] trinta e cinco legoas que comessão do cabo de Todollos Santos athe o Rio que esta junto com o rio da Cruz...”. Que rio é esse? O “da Cruz” é um dos rios litorâneos que emboca no mar na Barra Grande. E o que lhe está “junto”, para todos os estudiosos, é o rio Timonha (na zona de Camocim) “que nasce na tromba da Serra [Grande ou Ibiapaba] e, serpenteando para N.O., vai desaguar no oceano...”. É nesse lugar de embocadura que está o limite historicamente dado. Confirma-o, a carta de doação de Cardoso de Barros, de novembro de 1535, e foral de 1536. 
Alguns alegam que não existia, então, nada que se chamasse de Piauí  (também nesse sentido, não havia nem Maranhão, nem Ceará). Ora, o limite de que se fala é o das capitanias de Andrade e de Cardoso (este, aliás, espécie de auxiliar daquele, no reino). Quando é criada a capitania real do Piauí, em 1718, instalada e cartografada em 1759/1760, essa barra é o limite litorâneo observado, e quanto ao mais, tem sua territorialidade definida enquanto bacia oriental do Parnaíba: toda e qualquer água que corra para este rio tem a terra banhada na jurisdição do Piauí. Bastaria demarcar (Cícero, “agrum certis terminus circunscribere” / “Agrorum terminos conflituere”). 
A esperteza dos vizinhos tem uma relação direta com o descaso dos piauienses. O Ceará esbulhou o litoral do Piauí com presença humana e “civilizatória”, idêntica estratégia com a qual agora abocanhou o que faltava levar: as chamadas “áreas de litígio” que a CF/88 determinou fossem demarcadas até 1993: mais que depressa, o Ceará providenciou a criação de vários municípios pegando terras da área e, na prática, dando-lhes estatuto e serviços públicos. O que o Piauí obrou nessa intencionalidade? Nada (ou quase). E tudo indica que o Tocantins levará tudo o que quiser. O Maranhão levou o Delta com a tese de que um canal do rio Parnaíba (da “Barra das Canárias”) era o próprio rio. E teve ganhos também na região das nascentes. 
Faça-se justiça lembrando que reclamaram os direitos piauienses o barão, depois visconde da Parnaíba, e mais um e outros governantes. Questões jurídicas sempre dependentes de arbitragens de Lisboa, São Luís, Rio de Janeiro e Brasília, o Piauí dançou em todas. E a mais ruinosa delas, a “troca” da Amarração pelo Alto Poti, teve o apoio do mais destacado e poderoso (nas esferas altas) chefe político que o Piauí teve em sua história política, o Marquês de Paranaguá, então o senador dos piauienses na corte do Rio de Janeiro. É assim.

domingo, 3 de março de 2013

Seleta Piauiense - Hardi Filho



Artista

Hardi Filho (1934)



No atelier da vida, solitário,
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.


Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.


Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.


De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!

sexta-feira, 1 de março de 2013

CIRCO DE SOLEIL E OS CIRCOS ENCANTADOS DE MINHA INFÂNCIA





1º de março

CIRCO DE SOLEIL E OS CIRCOS ENCANTADOS DE MINHA INFÂNCIA

Elmar Carvalho

Neste domingo, à tarde, no programa televisivo da Regina Cazé, o Djavan, um tipo mulato, um dos maiores artistas da música popular brasileira, disse ser filho de uma lavadeira e de um representante comercial holandês, louro dos olhos azuis. Falou que no seu registro de nascimento não consta o nome de seu pai. No programa, houve depoimento de várias outras pessoas, filhas de pais ignorados. Algumas disseram que conseguiram descobrir quem era seu pai, e que conseguiram localizar seu paradeiro. Entretanto, outras não tiveram êxito nessa busca, ou, pelo menos, não tiveram um final feliz, pela não aceitação ou má-vontade do pai ou suposto pai.

Embora não estivesse melancólico nem entediado, resolvi assistir a um filme no Teresina Shopping. Não pude consultar no site apropriado que filme gostaria de ver, em virtude de que a provedora da internet estava sem funcionar, desde o dia anterior, o que é um abuso contra o quase indefeso consumidor. Na fila para compra do bilhete, decidi, em razão do horário e das opções, assistir à película João e Maria: Caçadores de Bruxa. No guichê, declinei o nome do filme, paguei e recebi um bilhete, que não conferi.

O porteiro indicou-me o número da sala. Apesar de estar um pouco antes do horário do início, verifiquei que já estava havendo exibição, com as luzes devidamente apagadas. Pensei que meu relógio poderia estar atrasado, ou que se tratasse de um trailer. Logo constatei que a moça me dera um bilhete para o filme Cirque du Soleil – outros mundos. Procurei aceitar o equívoco “numa boa”, sem queixas e sem resmungos. Talvez eu não tivesse falado suficientemente alto, ou a vendedora tivesse alguma deficiência auditiva.

Terminei gostando do espetáculo, exibido na telona, em 3 dimensões. De fato é um grande circo, e faz jus à fama que conquistou. Seu plantel de grandes artistas é fabuloso. É claro que eu conhecia quase todos os números. Porém, todos tinham alguma novidade, seja no equipamento, na encenação, no vestuário, no cenário, ou nos efeitos especiais, que davam um toque de magia, como se fosse um filme de um outro filme ou o sonho de um outro sonho.

Uma singela história romântica permeava a fita, como se alinhavasse os diferentes quadros, na qual uma moça procurava, com um cartaz, um acrobata, que encerrou o filme com ela, numa performance coreográfica, ambos dependurados numa tira de pano, a oscilar de um lado para outro, quase como se tivessem asas. Na saída, ouvi uma jovem comentar para a amiga que esperara mais do enredo, como se não tivesse atentado para o fato de que o importante fora a exibição de números circenses, realmente de alta qualidade.

Alguns trapézios eram muito grandes, tinham movimento próprio, mecânico, aparência inusitada, e comportavam vários artistas, que executavam verdadeiras coreografias aéreas. O jogo de luz transformou uma banheira semi-esférica, vertiginosamente alta, numa lua. Uma linda moça executou caprichosos e ousados movimentos dentro e fora da água, equilibrando-se perigosamente na borda da banheira, sem medo da queda no abismo. Quando a jovem mergulhou na espumante água, como se fosse um golfinho, ou melhor, uma sereia, um jogo de luz, quase como se fora um feitiço, fez o cenário tomar o aspecto de transparente fundo de mar.

Logo vários acrobatas, dependurados em fios, vestindo roupas que simulavam animais marinhos, como águas-vivas, medusas, polvos, camarões ou similares, passaram a se movimentar nesse cenário encantador e encantado. Em outro momento, foram apresentadas belas acrobacias e coreografias, com os artistas se movimentando, para um lado e para outro ou para cima e para baixo, dependurados em tiras de tecido, em notável bailado aéreo, em que interagiam entre si.

Seria uma tarefa quase impossível e inglória tentar descrever todos os números do Cirque du Soleil. Só fiz as referências acima, para que o leitor tenha uma pequena ideia do espetáculo. É importante dizer que a companhia tem engenhosas engenhocas, como o velho velocípede, que se movia sozinho; picadeiros altíssimos, que se assemelhavam a despenhadeiros; plataformas para trapezistas e acrobatas, que simulavam montanhas e abismos. A rede de proteção era uma enorme piscina, para a qual os artistas pulavam, muitas vezes fazendo pulutricas. Os cenários e as luzes executavam efeitos especiais, em que o cenário parecia obra de um poderoso feiticeiro.

Ao ver os prodigiosos números do Cirque du Soleil, recordei os pequeninos circos encantados de minha infância, que aportavam na pequenina Campo Maior dos anos 60. Lembrei-me dos palhaços, dos trapezistas, dos malabaristas, dos contorcionistas, dos acrobatas, dos mágicos, que povoaram a minha meninice de magia e encantos. Lembrei-me dos palhaços, encarapitados em magras e altíssimas pernas de pau, a puxar um magote de moleques, que lhes respondiam a cantilena, como se fora um responso algo sacrílego, por vezes fescenino. Alguns desses circos mambembes tinham a lona cheia de buracos e remendos, e outros sequer tinham cobertura, de tão pobres que eram. Mas todos tinham o sortilégio e a riqueza de uma arte soberba, que magnetizava adultos e crianças.

Já adulto, ao levar meus filhos a um espetáculo circense, chorei de emoção e saudade. Emocionava-me ver os artistas, na quase exaustão de sua força, focados, se esmerarem em suas apresentações, tão belas e tão efêmeras. Emoção porque no passado eu tinha meus pais para cuidarem de mim, e agora era eu que cuidava de meus filhos. A saudade, como disse o poeta, jorrou-me em ondas... A saudade do tempo em que meu pai me levava para o circo e para o estádio, para o ludismo do trapézio e dos malabares e do encanto do futebol. Devo confessar que chorei. Minha mulher notou, e comentou esse fato. Tomado ainda de viva emoção, escrevi o poema Emoção no Circo.

Ao assistir ao filme do solar Circo de Soleil, tive rápido momento de nostalgia pela minha infância irremediavelmente perdida. Mas me alegrei, logo em seguida, porque tive pais bons e presentes, que me deram pão e circo, advertências e conselhos, liberdade e limites. E me disciplinaram com amor e com afeto. Lembrei-me do programa da Regina Cazé, e senti tristeza por aqueles que nunca conheceram a figura de um pai, de um pai realmente pai.

Não pude deixar de me lembrar do seguinte texto memorialístico do velho bardo Manuel Bandeira: “Quando meu pai era vivo, a morte ou o que quer que me pudesse acontecer não me preocupava, porque sabia que pondo minha mão na sua, nada haveria que eu não tivesse coragem de enfrentar”. É assim que eu me sentia, quando meus pais me levavam aos circos encantados de minha infância. Eu me sentia alegre, confiante, seguro e nada me parecia faltar. Agradeço a Deus por ainda tê-los vivos e lúcidos, ao alcance de meu querer e bem-querer.