quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CAFÉ LITERÁRIO

Fotos extraídas do facebook de Wellington Soares


13 de novembro  Diário Incontínuo

CAFÉ LITERÁRIO

Elmar Carvalho

Fui convidado pelo professor e escritor Wellington Soares para participar do Café Literário, que seria apresentado na livraria Anchieta, na quarta-feira, dia cinco de novembro, na condição de homenageado, ao lado do grande romancista e memorialista Graciliano Ramos. Não preciso dizer que me senti honrado e lisonjeado com esse convite, que para mim tem muito mais valor que certas medalhas e diplomas.

Pediu-me o organizador do espetáculo artístico que lhe enviasse quinze poemas, o que fiz, mediante e-mail. Esses textos, juntamente com alguns pequenos enxertos de Graciliano Ramos, foram enfeixados em folhetos, que foram cuidadosamente dispostos sobre todas as mesas.

Com persistência invejável, o Wellington Soares vem apresentando esse importante sarau lítero-musical há três anos, mês após mês, o que não é uma tarefa fácil. Esse tipo de evento já existiu em Teresina, sobretudo na primeira metade do século passado, quando as famílias mais proeminentes se reuniam, com os seus convidados e amigos, com o objetivo de declamarem poemas, e executarem e cantarem músicas.

Também, outrora, havia o romântico costume das serenatas, em que rapazes entoavam belas melodias, com letras que eram na verdade bonitos poemas, ao pé da janela da amada, mormente nas noites de plenilúnio. Depois, as serenatas se mecanizaram, com o advento das radiolas portáteis e gravadores, até a sua extinção total, com os tempos apressados e perigosos de hoje, e com o surgimento de certas músicas deploráveis, que jamais poderiam integrar uma seresta. Muitas letras são toscas, com palavras de baixo calão, e frases de duplo sentido (ou mesmo sem sentido), que nos embotam o sentido.

Como sei que o público que comparece a eventos literários é sempre pequeno, e José Saramago reconhece isso em seus registros nos Cadernos de Lanzarote, mesmo na civilizada Europa, anotei a estrofe inicial do poema Recital da Autora, da polonesa Wislawa Szymborska, para quando eu fizesse minha saudação preambular. Os versos da poetisa dizem: “Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir. / Nos recusaste a multidão ululante. / Uma dúzia de pessoas na sala, / já é hora de começar a fala. / Metade veio porque está chovendo. / O resto é parente. Ó Musa.”

Contudo, a estrofe perdeu o seu desiderato de me servir de mote, uma vez que havia no aconchegante espaço destinado ao Café Literário um público quantitativamente razoável e qualitativamente seleto, com pessoas interessadas e atentas. Era, efetivamente, um respeitável público, como dizia o refrão circense de antigamente. O professor Wellington fez as suas considerações iniciais, e me chamou ao microfone. Após minha breve saudação, falei que passaria a “bola” ao ator Bonifácio Lima, para que ele marcasse um golaço.

O Bonifácio entoou, então, o meu Noturno de Oeiras. Com sua voz marcante, de boa dicção, interpretou o poema, com a modulação perfeita da voz, que se harmonizava com os diferentes “climas” sentimentais e psicológicos do texto, sem descurar da caracterização gestual e corporal, com que parecia dar vida aos versos. Além do Noturno, o Bonifácio recitou, com a mesma maestria e magia, outros poemas de minha lavra.

No final do evento, quando voltei a falar, relembrei que quando presidi a União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, consegui, com o apoio de minha Diretoria, inclusive com a utilização de abaixo-assinado, e sobretudo com o inestimável interesse do deputado Humberto Reis da Silveira, relator-geral da Constituição Estadual de 1989, que o estudo de Literatura Piauiense fosse inscrito no artigo 226 de nossa Carta Magna, como disciplina obrigatória.

E protestei contra o fato de que, passados mais de 25 anos, esse dispositivo constitucional ainda não tenha sido executado e cumprido pelo governo estadual, restando como verdadeira letra morta, e prova do descaso que os governantes têm pela arte e pela cultura.

Além de meu pai, de minha mulher, de minha filha e de outros parentes, inclusive meu irmão César Carvalho, compareçam alguns amigos, entre os quais ressalto os juízes aposentados Raimundo Lima e João Batista Rios, e o Valdenor, amante da arte, da música e do esporte.

O poeta João Carvalho Fontes, médico humanitário, que vem se destacando em fustigar, através da ciência, o abominável alemão Alzheimer, também se fez presente e disse um poema de minha autoria, que calou fundo em meu peito. João, com muito esforço e com dinheiro de seu próprio bolso, com uma ou outra eventual ajuda, mantém o sarau bimestral Ágora e o jornal cultural de mesmo nome, os quais divulgam os poetas piauienses e oeirenses, até mesmo os mais jovens.

Outros escritores e poetas divulgaram seus livros e seus textos. Tive a satisfação de ter alguns de meus textos recitados ou entoados por alguns desses artistas. Os textos literários eram intercalados por belíssimas músicas, cujas letras eram notáveis poemas, sob a responsabilidade de Dimas Bezerra e Alfredo Werney. Dimas pertence a uma família de artistas e intelectuais, de longa cabotagem e alta voltagem cultural. Com o seu carisma e simpatia, interagiu com o público, que lhe aplaudiu com muita ênfase e alegria.

Enfim, foi uma agradável noite de arte e sortilégio, a que não faltou sequer uma esplêndida lua cheia – lua de poetas, de loucos e de lobos – que nos iluminou a todos com os seus raios prateados.      

terça-feira, 11 de novembro de 2014

“DUAS METADES IGUAIS”


“DUAS METADES IGUAIS”

Jacob Fortes

Intencionalmente invoquei esse pleonasmo para dar mais robustez ao meu pensamento: “duas metades iguais” só têm a mesma exatidão, a mesma equivalência, perante os rigores incontestáveis da matemática. Salvante isso, “duas metades iguais” podem perfeitamente apresentar desigualdade: no formato, na consistência, no plano tintorial, na palatabilidade, no odor, etc.

No sufrágio de 26 de outubro de 2014 a Presidente Dilma sagrou-se reeleita, 51,59%, enquanto o seu concorrente, Aécio Neves, obteve 48,41% dos votos válidos. Esse escore exprime legitimidade; brilho, não. Obviamente, sob a rigidez da aritmética, esses percentuais não retratam “duas metades iguais”, mas, se tomado por empréstimo a terminologia das pesquisas, “empate técnico”, esse placar abona dizer que o resultado da eleição traduz, sim, “duas metades iguais”. Apenas uma delas discorda quanto ao eleito, mas discordar não quer dizer detratar. Afinal, é no embate, sem esgrima, entre o consenso e o dissenso que se asila a liberdade de regime.

Não faz muito tempo, junho de 2013, sucessivas turbas de brasileiros — poucas em serenidade, muitas sob o furor de ação turbulenta, outras à gandaia, outras ainda sem se dar a conhecer — se aventuraram pelas ruas das metrópoles pleiteando mudanças, melhores serviços públicos e o fim da corrupção.  O pleito requerido em via pública foi ratificado nas urnas, 48,41%, desta feita de modo ordeiro, por um civismo sem-par.

Ainda que impossível obter-se a unanimidade do conjunto das opiniões, pô-las inteiramente em concórdia, de bom alvitre seria que a reeleita, em prol da boa ordem nacional, adotasse medidas que visem amortecer os ânimos, desfazer a dicotomia e, principalmente, atender aos reclamos brasileiros, nomeadamente os que foram realçados de modo sequioso durante as exigências tumultuárias das ruas.

Em vez de contrariar-se com a banda votiva adversa à que ainda se enleva com a vitória, salutar seria que a reeleita pudesse (sofreando as diferenças e em jejum de vaidade) sair de si e, com moderação sacerdotal, aprestar-se ao congraçamento do País, agremiar o todo demográfico. Todavia, não parece crível que tal desiderato possa ser alcançado apenas por meio de homilias, que vão ao vento, acerca de promissões governamentais, mas com ações concretas; pressurosas, de preferência.

Para ver-se auspicioso em seu leme o timoneiro de uma embarcação, ainda mais se titânica for, não olvida o ensinamento histórico de que antes de levantar âncora é preciso aquilatar o nível de harmonia da sua legião de passageiros.

A pátria será tanto mais mal aviada quanto mais atiçadas forem as chamas que tenham por objetivo convulsar a sua gente; contendê-la.       

domingo, 9 de novembro de 2014

Seleta Piauiense - Jorge Carvalho


Janaína

Jorge Carvalho (1951)

Por que quebramar?
Por que poesia?
Preamar fazia
Por que poemar?
Pomar... maresia
Maré... proesia
Proeza é cantar!
O canto, elegia
O ponto, magia
Conceição chamar
Ori(Xá Mar)ia
Yemanjá ouvia
Valete do mar
Valente pedia
Domar hidrovia
Janaínavegar!   

sábado, 8 de novembro de 2014

APL CONVIDA PARA PALESTRA


  
A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar  V. Exa., e distinta família para a palestra: Alguns Aspectos da Poesia em Goiania, a ser proferida pelo poeta Getúlio Targiono Lima, Presidente da Academia Goiana de Letras.

                                                                         

                                                                        

Nelson Nery Costa

Presidente da APL


       Data: 8 de novembro de 2014 (sábado)
Horário: 10hsh 30                                                                                                              
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
      Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86)  3221 1566–   CEP.: 64001-490  –  Teresina-PI  

Redação, 25 escorregadas no ENEM


Redação, 25 escorregadas no ENEM

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Nos últimos dias, atendi a vários convites para ministrar revisão de português e redação à galera do ENEM. Dois verbetes se ouvem em momentos assim de tensão emocional e insegurança: dicas, bizus. Infelizmente, estudantes, em geral, só levam a sério exames classificatórios, inclusive as provas de final de ano letivo, nos últimos dias ou horas que antecedem os testes. Em se tratando da redação, um martírio.

Redação enxuta, rica em conteúdo e gramaticalmente correta exige longo treinamento. Em vésperas de concurso, estudante habituado a leiturinhas de insossas revistas, tipo Capricho e similares, ou a devaneios esportivos, novelas e programas de auditório abastecerão o repertório de conhecimentos. É preciso habituar-se a leituras de consagrados autores, colunistas e formadores de opinião. Estes provocam imitação de estilo e ideias, que enriquecem o repertório vocabular, a construção da frase. Milagre ocorre, quando se imitam redatores de talento.

         Também leva tempo o aprendizado da frase bem construída, obedecendo à sintaxe e normas padronizadas do idioma. Refiro-me a unidades importantes da gramática, a começar pela análise sintática, sem a qual dificilmente se exercita regência verbo-nominal, concordância verbo-nominal ou de tratamento, colocação pronominal (próclise, ênclise, mesóclise), pontuação, uso correto da conjugação verbal, especialmente, dos irregulares. A alma do texto resplandece pela criatividade. Criar não é fazer, mas ser diferente, artístico. Uma frase popular pode carregar dotes artísticos.

         Numa sala de revisão para o ENEM, distribuí cópias de uma redação cobrada em vestibular de São Paulo. Exigia-se que o vestibulando corrigisse o texto de uma carta eivada de erros gramaticais. Ultrapassa 25 escorregadas, em que aparecem palavras até com duas incorreções. O texto incorpora falhas de concordância, acentuação, regência, conjugação verbal, virgulação, ortografia, colocação pronominal, tratamento. Coloco o texto da carta à disposição dos estudantes e interessados num debate sadio:

         “Presado Juca

     Aqui vai um bilhete afim de pô-lo a par dos problemas que me referi em nossa conversa telefônica. De início, quero lembrar-lhe de que assistí todas as discursões e cheguei a seguinte conclusão: por hora é preciso prudência. Mas vê se você dá um jeito de escrever logo, para mim poder dar-lhes uma resposta definitiva. É preferível decidirmos-nos logo do que aguardarmos para outra ocasião. Há um elemento do grupo que simpatizei desde o primeiro momento que lhe vi e parece que nos ajudará. Custo a acreditar que ajam dificuldades. De qualquer modo, observo de que convém considerarmos todas as questões que temos dúvidas antes de chegarmos à uma conclusão final. Pensa bem e não demores em me responder.

       Abraça-o o amigo que muito lhe quer,

       Pedro.”     

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A vida literária no Brasil atual: o papel da crítica


A vida literária no Brasil atual: o papel da crítica

Cunha e Silva Filho

           Não julgue precipitadamente, amável leitor,  que  eu  tenha a pretensão de radiografar  o  “vasto mundo” do que   se produz hodiernamente no país. O esforço é sobejamente  impossível e o  trabalho  nessa direção, se  realizado  individualmente,  tende  ao insucesso. A paisagem nacional  literária,  segundo  acentuei,  é muito ampla, muito  tortuosa e, se tentasse  mapear  autores e obras editados  na contemporaneidade,   já poderia antecipar  que  o papel da crítica literária   se defrontaria  com um monumental  embaraço.  Mesmo se  quiséssemos   inventariar, diga-se – uma “síntese” – estaríamos  fadados  a um  estrondoso  insucesso, sendo o pior deles  a injustiça  que cometeríamos   não  incluindo  alguns nomes  de qualidade  nos vários gêneros  literários.
       O grande desafio da crítica  é que ela  já perdeu  a dimensão  de poder de militância que  tinha  no século  passado através  dos jornais  que  mantinham  a crítica de rodapé nos áureos tempos de um Agripino  Grieco,  Tristão de Athayde,  Álvaro Lins,  Sérgio  Buarque de Holanda,  Antonio Candido,  Olívio Montenegro, só para  fazer essa breve   citação  nominal  de autores.
       Com o surgimento  incalculável de novos autores de que  tomo  conhecimento  toda vez quase que abro a folha de um  caderno cultural,  me espanta  qualquer  veleidade  de  se falar  em militância  crítica, inclusive  porque  ela  praticamente sumiu  dos jornais, só restando  uns poucos   críticos  que ainda  dispõem de um  cantinho  do jornal  para  discutir  livros  recém-saídos.
Ao falar  com justiça das mazelas e das  imposturas  da vida literária brasileira, sobretudo no grande centro representado  pela vida  literária  carioca,  lembro-me  do historiador e crítico  Afrânio Coutinho (1911-2000), na pequena obra,  No hospital das letras(1963)  que traça, com veia crítica,  numa reunião de artigos antes publicados em jornais  das décadas de 1940 e 1950, a situação  interna, os bastidores,   o compadrio, as “igrejinhas,” o que chamara “a comédia da vida literária,” enfim, as deturpações  que  presenciara no meio  literário   do Rio de Janeiro.
Fico a imaginar  que,   mutadis mutandi,   o universo  em que  transita   o escritor  brasileiro  hoje não é tão  diferente  de antigamente.  As igrejinhas  ainda persistem, os apadrinhados  idem,  as dificuldades  que arrostam os escritores para penetrar  nos meios editoriais, verdadeiro   cipoal  de grupos fechados,  que  deitam normas  de avaliação  para um  escritor, novo ou velho e desconhecido,    adentrar   essa floresta  de desencanto  e  de   insulamento  em que  vive  o autor   nacional, desprestigiado e desiludido da vida literária por se sentirem   injustiçados. Muitos deles desistem por lhes faltarem estímulos.
O escritor  de nosso país é um  isolado, como disse,   alguém ilhado  nos seus próprios   espaços  de  “emparedado,”seja para  poder  lançar   um livro, seja para   ter  um   lugar  em que   possa  demonstrar  sua capacidade  no exercício da palavra escrita. Não  empreendi nenhum  estudo  ou pesquisa  para  ir a fundo nessas questões afetas à vida  editorial  brasileira, contudo  suspeito  que  semelhante  situação  ocorra em outros estados  brasileiros.
Na questão da crítica literária,  tanto   na sua produção quanto  na sua   procura de espaço  disponível  a  algum pretendente, o fato é  que a sua atuação   ficou  mesmo   relegada  aos  limites do que   se costuma chamar  crítica  universitária, exercida, a meu ver,  na sala de aula,  nas revistas  especializadas  das universidades e eventualmente nos livros  editados, sobretudo por algumas universidades.
A multiplicidade de autores que editam  suas obras  não  pode ser  atendida  pelo  trabalho da crítica, mesmo  da crítica universitária, por lhe faltar tempo e  fôlego. Desta forma, cria-se uma outra realidade no  universo da cultura literária, ou seja,  a crítica literária,  não deixando de ser uma atividade   de alta relevância  ao aprimoramento   da  literatura   e dos leitores,  se apequena   pela impossibilidade de  dar conta   da mencionada    multiplicidade  de autores. O papel  do crítico  fica, pois, agora,    numa quase  absoluta  desproporção de  julgar  obras  de novos autores, com a agravante de que  ainda há  a circunstância   de que  o crítico  não poderá  deixar de  estar ao corrente dos autores  estrangeiros,  também  revelando  um  número gigantesco.
O que tenho  observado, no entanto, vale como  uma   saída  à solução  do problema: a busca da especialização,  seja de autores,  seja  de gêneros,  seja  da “periodologia   estética” nos moldes  concebidos   por Afrânio Coutinho. Ora, o abarcar-se de forma  pessoal  um conjunto gigantesco  de  autores que continuam  a surgir no panorama da literatura brasileira   forçou   uma seleção  limitadora do   trabalho   do crítico. O crítico  passou  a estudar,  por exemplo, certos temas, e obras, aprofundando o conhecimento de sua área de atuação.A crítica é uma atividade  com tempo datado para seus cultores justamente  por  exigir muita  leitura,  muita pesquisa,  muito suor e paciência.

Enfim,  queremos  significar  que o  papel  atual do crítico  torna-se cada vez mais  restrito e lacunoso e, de certa forma,  nisso   ele perde  a noção  geral  do conjunto   do sistema literário. Essa é a condição  do ônus que tem  a pagar  a crítica literária   contemporânea. Seu raio de ação  tornou-se, na pós-modernidade, de curto alcance,  fragmentário, espaçado, fortuito. O individualismo  crítico é, agora,  um  dado do passado e a sobrevivência da crítica literária, para não perder  seu  campo  de  ação, deve, como já tem sido  feito,  sempre constituir  um   trabalho coletivo,  de  conjunto, i.e.,  quando  seu  objetivo for  mapear,  historiar, discutir e analisar  as obras literárias de um  povo.  

domingo, 2 de novembro de 2014

O círculo se fecha


O círculo se fecha

Elmar Carvalho

tende ao tudo.
O infinitamente pequeno
tende ao nada.
Estes dois extremos se tocam.
Em Deus.        

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Minha admiração (um depoimento)

Elmar visto por Fernando di Castro


"[...] Aproveito o ensejo para renovar votos de estima e consideração."

       Assim costumamos finalizar o texto dos ofícios. Na maioria das vezes, apenas atendendo a uma formalidade, sem representar, de fato, a verdade. Mas, neste texto, as uso no início, tanto para retratar a expressão da verdade, como para relembrá-lo de que o fim de uma etapa é (re)início de outra.
Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar a seu respeito. Eu era amigo de uma funcionária da Justiça Eleitoral da Comarca de Regeneração, Gilvanete Vieira. Ela comentou que o novo juiz da cidade tinha uma característica diferente de todos os juízes anteriores, este era poeta. Ela me relatou que às vezes os colegas tinham que recorrer ao dicionário para compreender o significado de suas palavras.
Fiquei curioso para conhecê-lo. Entretanto, não criei nenhuma oportunidade para encontrá-lo. A oportunidade surgiu por conta de um casamento para o qual fui convidado. Naquele dia, pelo menos dois casais estavam no cartório, o meu primo com a noiva dele e outro casal. O enlace matrimonial do meu primo seria o segundo daquela manhã, haja vista que Francisco da Cruz e Maria da Cruz seriam os primeiros.
As suas palavras foram pura poesia quando passou a fazer trocadilhos com a "cruz" presente no nome deles. Após o casamento, lhe procurei e externei a minha admiração pela sua eloquência. No ato, fui presenteado com sua obra Rosa dos Ventos Gerais e com uma espécie de cartão de visitas contendo o endereço do seu blog.
Passei a ler e a comentar suas postagens e, aos poucos, passei desenvolver meu gosto pela poesia. Posso lhe dizer sem medo de errar que me tornei uma pessoa melhor depois do meu gosto por poesia.
Sobre a sua atuação como magistrado, não sei falar muito, mas posso atestar com base nos comentários que ouvi na cidade de Regeneração e nas impressões que tive durante as audiências que presenciei que o respeito pelo ser humano e a imparcialidade foram marcas suas. Independente, da gravidade do crime do réu, o seu tom de voz se manteve o mesmo. Isso deixava transparecer que o senhor não os pré-julgava e nem os "condenava".
Quero deixar registrada a enorme admiração que tenho pelo magistrado, poeta, homem, Elmar Carvalho. Faço votos de que não lhe falte forças para enfrentar os desafios que surgirem e usufruir das suas merecidas "férias".

Mui respeitosamente,
Nelson Rios

Seu admirador.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

CAMPO MAIOR E A INDEPENDÊNCIA DO PIAUÍ


CAMPO MAIOR E A INDEPENDÊNCIA DO PIAUÍ

Valério Chaves Pinto
 Desembargador inativo do TJPI              


            Transcorridos mais de 190 anos da Independência do Brasil em 1822, até hoje a data da proclamação no Piauí permanece em processo polêmico, sem se saber verdadeiramente a quem pertence a prioridade desse fato histórico para efeito de se fixar com exatidão a data em que oficialmente deve ser comemorado o Dia do Piauí - 19 de outubro ou 24 de janeiro. Do pouco que se tem notícia, nem sempre se pode afirmar de modo convincente,a que verdade comanda as esparsas e deficientes narrativas e interpretações existentes.
            Pesquisadores, historiadores e tantos nomes ilustres das letras piauiensesdo passado e do presente fiéis aos ensinamentos históricos tais como: Monsenhor Joaquim Ferreira Chaves, Odilon Nunes, Arimathéa Tito Filho, Wilson de Andrade Brandão e Abdias Neves, contribuíram de modo louvável com seus estudos, análises e pesquisas, porém não há até hoje uma interpretação segura capaz de elucidar a verdade.
            A polêmica maior se acende entre Parnaíba, em cuja sede houve uma conspiração em 1821 visando mudar a ordem política da província; e Oeiras então capital (1761),cada qual reivindicando para si a primazia da Independência do Piauí,apresentando como justificativa os acontecimentos revolucionários contra as ordens portuguesas ocorridos em 19 de outubro de 1822 e 24 de janeiro de 1823, respectivamente.
 Nos bastidores dessa polêmica há ainda aqueles que defendem a tese de que a verdadeira independência do Piauí foi proclamada no dia 13 de março de 1823 em Campo Maior, com a sangrenta Batalha do Jenipapo onde brasileiros e portugueses lutaram,em campo aberto, em defesa da causa nacional do Brasil - fato ignorado por muitos brasileiros de outras regiões.
            O professor e pesquisador Arimathéa Tito Filho, dando sua contribuição em homenagem ao debate do tema, afirma com o fulgor de sua inteligência, em entrevista concedida à Rádio Difusora de Teresina em 1979 que, na verdade,“houve duas proclamações da Independência no Piauí. A primeira - diz ele, foi feita no dia 19 de outubro de 1822, em Parnaíba, quando o Major Manuel Clementino de Sousa Martins, liderando um movimento insurgente, rapidamente sufocado, derribou os portugueses liderados pelo Major João José da Cunha Fidié; e a segunda foi feita em Oeiras em 24 de janeiro de 1823 pelo visconde da Parnaíba, que naquele tempo não era Visconde, era apenas o cidadão Manuel Clementino de Sousa Martins”, (sobrinho e genro do Barão da Parnaíba), o qual, à frente de uma conspiração em favor da secessão de D. Pedro I como Imperador do Brasil, proclamou a independência no Piauí.
            Sabe-se que quando Fidié teve notícia de que a Independência tinha sido também proclamada em Oeiras, marchou com sua tropa de Parnaíba no dia 28 de fevereiro para combater os oeirenses, porém encontrou em Campo Maior a resistência de um improvisado exército brasileiro, travando-se ali a já referida Batalha do Jenipapo,seguindo depois para Caxias no Maranhão, donde passou a resistir durante três meses, sendo finalmente vencido e preso, curiosamente, pelas tropas de Manuel de Sousa Martins.
O historiador pernambucano Francisco Augusto Pereira da Costa conta que após o entrevero do Jenipapo, parte da bagagem de guerra de Fidié,constituída de munição, armas, dinheiro e os despojos da vila de São João da Parnaíba, foi furtada pelos soldados das tropas do capitão português Alexandre Pereira Nereu e levada para a cidade de Sobral no Ceará onde foi feita a apreensão e colocada em hasta pública, em maio do mesmo ano. Este fato fez com que Fidié,diante do enfraquecimento de seu arsenal, decidisse ser mais prudente desistir de marchar sobre a cidade de Oeiras. (Cronologia Histórica do Estado do Piauí, vol. II, pág. 307).
            Como se pode ver, o assunto é polêmico, naturalmente gerando nos parnaibanos e nos oeirenses, um certo aborrecimento toda vez que se cogita de revisar a história do Piauí para se acabar com a dúvida ou com a inverdade sobre qual data se deve comemorar o Dia do Piauí – 24 de janeiro, 19 de outubro ou 13 de março.
O que não se pode esconder, contudo, é que os parnaibanos foram heróis, cívicos e imbuídos de grande patriotismo ao combaterem as forças portuguesas através de um movimento liderado pelo juiz de fora João Cândido de Deus e Silva e pelo coronel Simplício de Sousa Dias.
 Os oeirenses também foram heróis e patriotas. Tudo é uma questão de interpretação histórica que cabe aos historiadores proclamar a verdade.
            A propósito dessa discussão, merece destaque uma tese muito interessante defendida pelo historiador piauiense Wilson Brandão, segundo a qual, o nosso primeiro e grande patriota da independência foi Antônio Maria Caú, escrivão da junta de Fazenda da Província. Caú era um desses tipos populares que as vezes pregam ideias e as vezes levam ideias à frente. Foi ele quem chefiou uma trama revolucionária para mudar a ordem política da Província sob o falso pretexto de jurar logo a constituição portuguesa que simulava defender, mas o alvo principal, segundo F.A. Pereira Costa na obra citada, página 253,era depor o governador Elias José Ribeiro de Carvalho e a instalação de uma Junta Provisória, da qual seria presidente o cirurgião Francisco José Furtado”.
            O desembargador Cristino Castelo Branco, uma das maiores mentalidades do Piauí, acha por sua vez, que a verdadeira independência se verificou no dia 13 de março de 1823 com a Batalha do Jenipapo. O mesmo ponto de vista é defendido pelo não menos respeitado historiador piauiense Monsenhor Joaquim Chaves e pelo pesquisador e jornalista Arimathéa Tito Filho. Na opiniãode ambos, já falecidos, uma terra se liberta pelo heroísmo de seu povo. E foi,efetivamente, o heroísmo dos campo-maiorenses que deu a Independência do Piauí e do Brasil.
            Abdias Neves em sua monografia intitulada A Guerra de Fidié, (1907, pág. 6), destaca o seguinte trecho do ofício em que o Dr. João Cândido de Deus e Silva,acusado pelos portugueses de não punir os sediciosos em Parnaíba, enviou ao Presidente da Junta Provisória do Governo em Oeiras, no dia 30 de setembro de 1822:
                “A melhor, a maior, a mais rica, a mais populosa parte do Brasil tem-se declarado a favor da causa da Independência; como persuadir-nos que o resto não siga a mesma causa? Ou quererão os povos olhar de sangue-frio o seu país dividido, seguindo o Sul um sistema e o Norte outro? Não me persuado que tal seja possível”

                Em verdade, há aqueles que criticam o movimento patriótico dos parnaibanos, achando que a ocasião não era propícia para se manifestar contra a ordem vigente. Há ainda os que se insurgiram contra os reveses ocorridos às margens do riacho Jenipapo, em Campo Maior.
            Mas é  o próprio Abdias Neves quem responde tais críticas:
            “...toda reforma, seja social ou religiosa, precisa de mártires e desse batismo de sangue para se impor e criar raízes na alma das multidões”.

            De nossa parte, longe da capacidade de análise e observação histórica que o assunto requer, diríamos que Campo Maior, através da bravura de seu povo, heroicamente demonstrada no episódio do Jenipapo, com certeza, está inserida no contexto desse pensamento.

domingo, 26 de outubro de 2014

Seleta Piauiense - Menezes y Morais


outra canção da lua

Menezes y Morais (1951)

quantas luas
ainda verei?

espero tantas
quantas são
as fases tuas

na plenitude
das luas
que sempre amei

quantas luas
teremos de luz

ainda que os olhos
mergulhem nas trevas

nas terras
em que nunca andei
?      

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Sobre o poeta Elmar Carvalho

Elmar visto por Gervásio Castro

Sobre o poeta Elmar Carvalho

Cunha e Silva Filho

       Caro leitor, saindo da formalidade de alguns artigos, crônicas, traduções ou mesmo ensaios, me veio à mente a oportunidade de tecer alguns comentários sobre o meu amigo, Elmar Carvalho, poeta nascido em Campo Maior, estado do Piauí.  Agora, depois de um longo período de atividades exercidas na vida, se aposenta como juiz de direito, merecendo, pois, seu otium cum dignitatem.


        Acompanhei grande parte de sua produção poética. Resta, aqui, desejar-lhe que, a propósito de um texto que escreveu em seu blog de título “Enfim, a aposentadoria” (Blog do poeta Elmar Carvalho), onde manifesta, no final, o interesse de poder, com o tempo maior que lhe vem, agora, livre dos compromissos e horários da magistratura, dedicar-se à condição de escritor e, quem sabe, retomar o entusiasmo de produzir poesia como nos velhos tempos da juventude e da mocidade.

         Aos 58 anos, podemos dizer, ainda moço, tem muito chão pela frente. Há algum tempo, vem escrevendo uma obra a que deu o título de Diário incontínuo (a citada crônica faz parte dessa obra), no qual vem reunindo um pouco de tudo, do passado e do presente, uma espécie de “baú de tudo,” onde cabem a crônica, a ficção, o memorialismo e sobretudo reflexões sobre    homens,  paisagens, bichos,  a natureza,  as histórias   vividas ou  inventadas na cidade ou  no campo,  narradas com  limpidez  estilística, com um  certo  acento  de sabor  clássico de algumas  expressões  usadas nos seus textos,   com  relatos    de natureza   sobrenatural,   com  relatos  de fundo  onírico.  Todas essa narrativas ou relatos se referem a temática  piauiense, se não incorro em  erro. 

     O melhor disso tudo é que Elmar escreve praticamente tudo que lhe vem das andanças por dever do oficio. E, ao passar-lhe pelos olhos tão diferentes lugares, tantas variedades de costumes interioranos, de seres humanos variados, de situações dramáticas, ou até jocosas, esse material ele o transforma em prosa bem cuidada, com domínio dos seus recursos de forma e linguagem. Não foi sem motivo que, uma vez, denominei seu estro de ‘voz poética, histórica e geográfica do Piauí. ’ (Ver meu texto “Encontro,   poesia  e vida”, apud CARVALHO, Elmar. Rosa dos ventos gerais.  2 ed. Teresina: SEGRAJUS, 2002, p. 17-20),  incluído como uma das introduções desse livro. Para não me alongar, vejamos os comentários, em forma de carta, já anunciados no início deste texto:
    
Estimado amigo Elmar Carvalho:

Ainda me lembro do meu primeiro encontro com V. em Amarante. Era o ano de 1990. Data para mim sempre repassada de alguma tristeza, pois foi naquele ano que para aquela cidade me dirigi com familiares a fim de visitar a sepultura de Cunha e Silva, meu pai. Foi o encontro da crítica com a poesia, encontro, sim, porque, de certa maneira, para mim poesia e crítica se complementam. Foi um encontro feliz regido pelo mero acaso das circunstâncias da vida terrena.

Quando lhe perguntei pelo nome, V. me respondeu: "Elmar Carvalho." Lhe disse na época que tinha nome de poeta, talvez por associar a sílaba "El" à "mar", que, para meus ouvidos, me soam liricamente, ou seja, a natureza simbolizada pelo significante/significado "mar" sempre me recorda o apego de alguns poetas ao mar, às ondas, à força da natureza, bela e por vezes desafiadora. Camões, Fernando Pessoa, Vicente de Carvalho.

O encontro foi duradouro, permanece até hoje, em outra época, a da pressa, das virtuais formas de comunicação. Porém, o verdadeiro encontro foi com a sua poesia, uma vez que é no domínio estético que os espíritos mais se identificam e se entendem, mesmo no silêncio, mesmo na distância. E a poesia sua me disse o que V. talvez não me pudesse dizer no ramerrão da vida apressada e avassaladora de tempos pós-modernos.

Li toda a sua poesia que me chegou às mãos vibrei com alguns poemas seus e, de alguma forma, me tornei seu crítico, ou, pelo menos, quem mais tenha escrito sobre o que produziu.

Reafirmo-lhe que logo senti em V. a força da poesia, tanto na expressividade das metáforas, quanto na originalidade dos ritmos, das aliterações, no jogo complexo da linguagem poética, sempre formulada com o suporte técnico, experimental do fazer poético com a sensibilidade de nos mostrar que se ama a natureza, a geografia poética, os fatos históricos, através da comunicação poética. E, durante os anos de maior fervor de produzir poesia, V. deu muito de si e procurou a companhia das musas por direito do talento e da preparação para esse gênero literário, quiçá o mais importante de todos porquanto é na poesia que se dá o encontro com o visível e o invisível, com a imagem e as virtualidades, com a existência humana e suas contradições e, sobretudo, com o encontro final, em vida, que é um ajuste de contas com o mundo das palavras pelas palavras, pelo que possam dizer ou ocultar, afirmar e negar, e até mesmo exprimir o indizível, o que, no caso, a leva ao hermetismo, ao puramente estético. A leitura poética não é conduzir o leitor a conhecer uma história, a mas a pensar os sentidos das palavras, ou as formas (metafóricas) de tentar entender o mundo, os seres e sobretudo a magia da linguagem e dos sons tão próximos da música.

Fico feliz porque cumpriu, na vida pessoal, as funções que exerceu e o seu texto rememorativo o faz com a elegância e a dignidade de um escritor que sabe respeitar-se e respeitar seus pares.

Um abraço do

Cunha e Silva Filho

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ENFIM, A APOSENTADORIA

Charges da autoria de Gervásio Castro


23 de outubro   Diário Incontínuo 

ENFIM, A APOSENTADORIA

Elmar Carvalho

No dia 10, sexta-feira, após mais de 39 anos de serviço público, aos 58 anos de idade, sem nunca ter sofrido nenhum tipo de punição, nem mesmo advertência ou repreensão, requeri a minha aposentadoria, e imediatamente me afastei de minhas atividades, como determina o CNJ. Silenciosa e anonimamente, bem no final do expediente, sem nada confidenciar a quem quer que fosse, me dirigi ao protocolo.

Eram quase duas horas da tarde, e havia no setor apenas um velho servidor, que me atendeu com presteza, mas sem perguntas e comentários. Apenas apareceu, de passagem, o juiz Antônio Soares, com o seu indefectível chapéu e o não menos habitual bom-humor, que me disse ter lido o meu livro Amar Amarante, que evoca o seu torrão natal, a terra azul do poeta Da Costa e Silva, quase uma ilha, encravada nas confluências dos rios Mulato, Canindé e Parnaíba, e emoldurada por lindas serras.

Cumpri um desiderato que já me impusera alguns meses atrás, sobre o qual não emiti mais nenhum comentário, porquanto desejei sair à francesa, da maneira mais discreta possível. Deus me ajudou para que as circunstâncias conspirassem para isso. Um pouco depois, viajei a Parnaíba, onde passei alguns dias, tanto na velha urbe, como no sítio Filomena, situado na Várzea do Simão, à beira do Velho Monge.

Não recebi nenhum e-mail ou telefonema sobre o meu pedido de aposentadoria, o que prova que o meu desejo de discrição foi alcançado plenamente. Certamente se eu tivesse cometido um crime ou algum fato escandaloso, as notícias na mídia e os telefonemas dos “amigos” não me teriam faltado. Lembrei-me do velho sarcasta Voltaire, que disse com muita verve e ironia: “Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu.”

Ingressei no serviço público em 15 de setembro de 1975, no cargo de monitor postal, na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, após haver sido aprovado em curso de três meses em Recife. Trabalhei nessa empresa federal em Teresina e em Parnaíba, para onde me transferi a fim de fazer o curso de Administração de Empresas na Universidade Federal do Piauí, Campus Ministro Reis Velloso.

Desliguei-me da ECT em 9 de agosto de 1982, após aprovação, em concurso feito pelo DASP, para assumir, no dia seguinte, o cargo de fiscal da extinta SUNAB – Superintendência Nacional do Abastecimento (autarquia federal). Hoje eu seria auditor-fiscal da Receita Federal, já que todos os ex-colegas fiscais, mesmo os aposentados, conseguiram, através de ação judicial, essa transposição funcional.

Pedi exoneração do Ministério da Fazenda, órgão para o qual fui redistribuído, após a extinção da SUNAB, no dia 19 de dezembro de 1997. Neste mesmo dia, no gabinete da presidência do Tribunal de Justiça do Piauí, juntamente com mais oito colegas, tomei posse de meu cargo de juiz, às onze horas. Era presidente da Corte o desembargador José Luís Martins de Carvalho, que me tinha grande consideração, a que sempre procurei corresponder na mesma intensidade. Estavam presentes, além dos colegas e familiares, vários desembargadores e outras pessoas e funcionários.

Nessa manhã inesquecível, fui escolhido pelos colegas para fazer a saudação de praxe. Transponho para este texto o que já registrei alhures: “Quando tomei posse de meu cargo de juiz junto ao Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, em solenidade singela, contudo para mim memorável, disse que uma dúvida me assaltava naquela ocasião: sobre o que seria mais importante, se a justiça, se a bondade. Mas eu próprio resolvi o aparente paradoxo da equação, ao dizer que quem era bom era justo, e quem era justo necessariamente teria que ser bom.”

Acrescentei, entre outras coisas de que já não guardo lembrança, que o juiz deveria esforçar-se para agir sempre com imparcialidade e justiça.  Acima de uma interpretação meramente literal, deveria o magistrado buscar uma interpretação teleológica, que realmente alcançasse o espírito da lei, como, aliás, preconiza o Cristo, consoante o admitem todos os grandes exegetas, sobretudo quando ele fustigava os fariseus e o apego demasiado à lei mosaica. Disse isso para afirmar que o mero zelo formalista não deveria ser importante para o julgador, mas sim o desiderato maior de fazer justiça, de agir com justiça. Aos aspectos extrínsecos, aparentes e formais, quase ritualísticos ou litúrgicos, deveria preponderar a essência, e a essência é o primado da Justiça.

Agora que requeri minha aposentadoria, posso dizer, com toda a sinceridade, mas também com toda a humildade possível, que não tenho remorsos e nem arrependimentos de minhas decisões interlocutórias e sentenças, pois sempre procurei agir com imparcialidade e com vontade de efetivamente fazer Justiça. Dentro das condições disponíveis, sobretudo a ostensiva falta de servidores, procurei agir com a possível celeridade, porquanto sou consciente de que a demora muitas vezes se transforma em clamorosa injustiça.

Posso ter errado, sim, devo ter errado, porque sou humano, porque não tive inteligência suficiente para alcançar certas sutilezas ou nuanças da lide ou porque a parte não conseguiu provar o seu direito, mas jamais, propositadamente, tirei a razão de quem tinha para dar a quem não a tivesse. Sem dúvida, sempre almejei levar em conta a proporcionalidade, a razoabilidade, e nunca esqueci o velho brocardo de Rui Barbosa: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam.”

Em 8 de julho de 2013, quando me encontrava de férias, fui promovido para o Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Oeiras, de entrância final. No dia 6 de agosto tomei posse desse cargo, e logo em seguida recebi a notícia de que fora acometido de um segundo CA. Do primeiro, em Deus, já me considero curado. No dia 20 de setembro do mesmo ano, deixei a amada cidade de Oeiras, que tenho exaltado em verso e prosa, para não mais retornar.

Entrei de licença médica, para tratamento, recuperação e acompanhamento. O procedimento (invasivo) me causou incômodos e efeitos colaterais. Nesse ínterim, tendo idade e tempo de serviço suficiente para me aposentar, resolvi pedir minha remoção, por motivo de minha doença, que por lei é considerada grave, para a Comarca de Teresina. Esse pleito teve apenas um deferimento parcial, com a minha lotação provisória em Teresina.

Quando retornei às minhas atividades, senti que já não tinha o encantamento, o entusiasmo e a motivação, que sempre tive em toda a minha labuta judicante, mesmo quando atuei em longínquas comarcas, como Socorro do Piauí, Curimatá e Ribeiro Gonçalves. Por essas e outras razões, senti que Deus me sinalizava no sentido de desacelerar, de levar uma vida mais light e menos estressante.

Ao pedir a minha aposentadoria, com humildade e discrição, como disse, e consciente de que nada mais fiz do que apenas ter tentado cumprir as minhas obrigações funcionais, não pude deixar de me lembrar dos magistrais versos de Manuel Bandeira: “O major morreu. / Reformado. / Veterano da Guerra do Paraguai./ Herói da ponte do Itororó. / Não quis honras militares. / Não quis discursos. // Apenas / À hora do enterro / O corneteiro de um batalhão de linha / Deu à boca do túmulo / O toque de silêncio.”


Apenas assinalo, entre outras, as seguintes diferenças: não morri, como é óbvio; não sou herói, nem sequer de mim mesmo, e não desejo o toque de silêncio, porquanto pretendo permanecer ativo em outras atividades, sobretudo em minhas lides literárias, como escrevinhador e mormente como leitor, uma vez que tenho mais a aprender do que a dizer.    

terça-feira, 21 de outubro de 2014

SOLENIDADE DA ACADEMIA DE LETRAS DO VALE DO LONGÁ: POSSE E HOMENAGENS


No dia 23 de outubro próximo, quinta-feira, no auditório da OAB-PI, às 19:30 horas, a Academia de Letras do Vale do Longá - ALVAL, presidida pelo médico José Itamar Abreu Costa, irá comemorar os seus 36 anos de fundação, cujo fato ocorreu no dia 23 de setembro de 1978, tendo sido seu primeiro presidente o magistrado Geraldo Majella de Carvalho.

A programação consta da seguinte pauta:

1 - Mensagem do Presidente.
- Posse do Dr. Viriato Campelo, que ocupará a cadeira 02, que foi ocupada pelo seu pai, o desembargador Tomaz Gomes Campelo.
3 - Homenagem aos acadêmicos aniversariantes do segundo semestre de 2014.
4 - Entrega do Diploma do Mérito Cultural A. Tito Filho.
5 - Coquetel.

Serão homenageados com o Diploma Mérito Cultural A. Tito Filho as seguintes personalidades:

1- O.G Rego de Carvalho (in memoriam)
2- William Palha Dias (in memoriam)
3-Júlio Romão (In memoriam)
4-Prof. Dr. E. J. Zerbini (in memoriam)
5-Dr Antonio Benicio (In memoriam)

MEMBROS DA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS – APL:

6-Antonio Fonseca Neto.
7-Hardi Filho
8-Humberto Guimarães
9-Nelson Nery Costa,
10-Hugo Napoleão,
11-Othon Lustosa,
12-Dra Fides Angélica Omatti
13-Terezinha Queirós,
14-Celso Barros,
15-Heitor Castelo Branco,
16-Jônathas Barros Nunes,
17-Jesualdo Cavalcanti
18-Paulo de Tarso Mello e Freitas
19-Assis Brasil
20-R.N.Monteiro de Santana
21-Socorro Rios Magalhães
22- Nildomar da Silveira Soares
23-Zózimo Tavares 

PROFESSOR:

José de Arimatéia Dantas(Reitor da UFPI)

JURISTAS:

William Guimarães
Desembargador Raimundo Eufrásio


Os homenageados serão saudados por Elmar Carvalho, membro da APL e da ALVAL. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Milagre do gotejamento no calorão


Milagre do gotejamento no calorão

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Não estou nem aí para incômodo calorão da minha terra. O que me angustia, mesmo, a inatividade e falta de criatividade de nossa gente, especialmente dos gestores, que ainda não se libertaram da cantilena fúnebre, cuia na mão estendida para verbas e engabelação. Por simples feijão, quiabo e maxixe, o piauiense recorre ao empreendedorismo de outros estados. No meu quintal, porém, a cantilena é de louvor ao Criador.

Em pleno verão tórrido, sorrio, contemplando o plantio de feijão, maxixe, quiabo e outras delícias no sítio. Atividade prazerosa e saudável, especialmente desenvolvida sem interesses comerciais, mas para consumo da família.

A fita para irrigação por gotejamento faz milagres, economiza água e energia. Trata-se de um tecido maleável, resistente, com minúsculos furos a cada 20 centímetros, encontrada nas lojas agrícolas, a custos convidativos: 40 centavos o metro.

Iniciei o projeto com 50 metros, apenas: estiquei cada 10 metros de fita, ligando-a aos bicos do cano central. O sistema exige água limpa, sem granitos, para fluir pelos poros da fiação. Em cada pontinho irrigado, perfura-se o solo, enfiam-se sementes. Meia hora de gotejamento ao dia. Após duas semanas, já se contempla o milagre sob a canícula, calor de rachar, e um chapéu mexicano para sombrear o corpo. Tamanha alegria que me estimulou a comprar mais 50 metros da fita milagrosa. Lembrando que a minha experiência foi testada em solo hostil e pedregoso. As fruteiras exigem mais tempo de irrigação. O calorão espanta as pragas.

A irrigação por gotejamento deve-se a tecnologia israelense, atualmente utilizada até em desertos africanos. O Nordeste brasileiro, em geral, ainda não se libertou do miserável primitivismo de Jeca Tatu e das malandragens de gestores públicos. Inventa-se projeto megalomaníaco, como transposição do rio São Francisco, para desvios de verbas federais. Na última seca, o governo prometeu recursos para perfurar mil poços tubulares. Se contá-los, falta de vergonha jorrará copiosamente, ou alguns poços em troca de votos. O resto das verbas o gatuno comeu.

1.400 km de rio Parnaíba, se utilizados para projetos de agricultura irrigada, abasteceria países de alimentos. Petrolina e Juazeiro, às margens do rio São Francisco, evoluíram graças à agricultura irrigada, cuja fruticultura abastece o Nordeste e mercado internacional. Por aqui, barragens construídas com dinheiro público, como a de Piracuruca, servem de deleite a banhistas e posseiros ricos. Frutas e verduras continuam descendo a Serra da Ibiapaba.

Tente contar os órgãos governamentais ligados à agricultura. Pergunta-se: de onde vêm as verduras e frutas?

Enquanto você esmiúça questões e causas discrepantes, contemple a terra, dádiva dos céus, mas servindo de cantilenas fúnebres, choramingando miséria. De quem a culpa? Enquanto rumina uma resposta, vou desfrutar o verde, em pleno estio, por milagroso e barato sistema de gotejamento. Pura água benta.