terça-feira, 16 de outubro de 2018

O Curador e a Violência Política

Praça da matriz de São Sebastião com a mureta original(anos 60)


O Curador e a Violência Política

José Pedro Araújo
Romancista, historiador, contista e cronista

Desde menino ouço falar que, em época de eleições, os ânimos se acirravam no velho Curador, a ponto de amigos fraternos passarem meses sem se cumprimentar. Pior, período de eleições era época de muito choro e ranger de dentes para algumas famílias ao ver a vida de algum dos seus filhos ceifada precocemente. Por esse tempo, quando ainda trajava calças curtas, comecei a ouvir dizer que o Curador já havia passado por um confronto sangrento entre duas das famílias de maior destaque na região. E que do embate,  a vida de alguns dos seus membros fora subtraída. Tudo pelo poder de mando de uma comunidade perdida nos sertões mais profundos do Maranhão. Ouvi, por exemplo, que homens armados e violentos se apossavam da cidade e transformavam a sua calma sertaneja em um campo elétrico, onde o menor contato entre as partes poderia se transformar em um mar de fogo. Fiquei assustado quando minha mãe me falou que, certo dia, houve um tiroteio tão intenso na Rua Grande, que as pessoas, mesmo abrigadas em suas casas, tiveram que se projetar no chão e buscar a proteção dos pés das paredes. Apavoradas com pipocar das armas de fogo, procuravam escapar das balas perdidas que voejavam à procura de uma vítima.

Em um desses dias em que o cheiro de pólvora se espalhava pelo ar, no que pode ser descrito como o maior dos confrontos entre os dois grupos familiares já citados no parágrafo anterior, um primo desse escriba, jovem, ainda imberbe, foi atingido por um balaço que lhe abreviou a vida ainda em flor. Havia o irrequieto rapaz tomado partido por um dos lados em disputa.

Nesse tempo, a grita por segurança bateu às portas do Palácio dos Leões na distante capital, São Luís, e o assunto tomou conta das páginas dos jornais por muitos e muitos dias. A cidade ganhou fama de violenta e sanguinária, e para os Ludovicenses, passamos a ser um povo que cultivava a violência. A má fama nos persegue até os tempos que correm. Por muitas e variadas razões, não podemos nos furtar disso. 

Como ninguém mais aguentava tal situação, o interventor de plantão abriu mão do posto a fim de que o governador do estado pudesse nomear outro mandatário com poderes para pacificar os ânimos durante o pleito eleitoral que se avizinhava. O escolhido foi um Tenente-coronel, ocupante de relevante cargo no âmbito do poder estatal. Este, contudo, mal terminou o período concernente às eleições, retornou para a capital e deixou o velho Curador imerso em suas ensandecidas disputas costumeiras.

No inicio dos anos 60 se instalou na cidade o batalhão de Engenharia e Construção do 2º BEC. Tinha por objetivo a conclusão da BR 226 até chegar ao rio Tocantins. Mas os militares fez muito mais que isto. Debelaram a violência na cidade durante os anos em que ficaram instalados na Praça Biné Soares, em local pertencente à família do senhor Celso Sereno. Patrulhas armadas saíam todas as noites pela cidade com o propósito de proteger a cidade e permitir que os presidutrenses pudessem dormir em paz e segurança. Por esse tempo os políticos também se comportaram e respeitaram as mais básicas regras democráticas.

E foi sempre assim a história política do velho Curador até alguns anos atrás. Como no processo político cabe a apenas um grupo o poder de mando, sempre havia um terrível entrechoque entre aqueles que queriam para si essa primazia. Em épocas nem tão distantes assim, a violência tirou a vida de alguns representantes da mais alta estirpe política local, criando um clima de insegurança que muitos pensavam haver ficado soterrado no passado. Foi, talvez, o período mais doloroso e sangrento desde a época em que o município recebeu a sua emancipação.

Ultimamente as coisas se mostram diferentes. Muito bate-boca toma conta da cidade, que já não é tão pequena assim. E as desavenças, no máximo, chegam aos desforços pessoais, e são resolvidas com alguns murros e bofetões. Mas isso acontece em todo o país. No Brasil, a força da palavra não é o bastante para dissipar as nossas diferenças e/ou desavenças.

No pleito que aconteceu domingo passado, o município elegeu um represente para a Assembleia Legislativa estadual depois de muito tempo. Até onde sei, tudo transcorreu na mais perfeita ordem, na mais absoluta paz. Abandonamos a velha prática curadoense e chegamos, por fim, aos tempos presidutrenses. Que seja assim por séculos e séculos sem fim. Amém!    

Fonte: Blog Folhas Avulsas

domingo, 14 de outubro de 2018

Seleta Piauiense - William Melo Soares

Fonte: Google


Alto Longá

William Melo Soares (1953)

         Em memória do meu pai

eterna em mim
a lembrança dos teus olhos
vagueando
pela imensa brancura
do pendão dos canaviais
de Alto Longá

eternas em mim
as águas do riacho Gameleira
deslizando em paz
com o povo da cidade
navegando no silêncio
de um lugar   

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A SAGA DE UM ESTRATEGISTA POLÍTICO

Fonte: Google


A SAGA DE UM ESTRATEGISTA POLÍTICO

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

              A saga do homem começou, ou melhor, recomeçou, quando ele decidiu, mais uma vez, que iria ser governador. Na composição da chapa, com a qual disputaria a próxima eleição, o problema inicial era seu vice: muitos queriam essa posição.

            O sujeito, muito sagaz e esperto, foi deixando o tempo correr: é que o mais interessado, um deputado, não queria dar o braço a torcer.

           A vice-governadora do mandato que ainda transcorria, contava com a preferência de assim continuar, talvez, da maioria. A questão parecia, de fato, confusa: tanta gente para uma função só, que o governador-candidato precisou, antes que fosse tarde, desatar o nó.

           Sacou do bolso uma proposta inusitada: nem a atual vice nem o pretendente: na chapa seria vice uma amiga senadora que, antes, fora sua suplente. Houve um certo chororô, uma espécie de velado desagrado com a decisão: por que mudar, de repente, o que já parecia ser a solução?

Então, se não mais vice-governador, para onde iria o deputado? Senador, nem pensar, o estrategista já tinha algo arquitetado: o ex vice-governador, que nem chegara a ser confirmado, continuaria disputando vaga para o legislativo do estado. Para o lugar da senadora, agora sua vice, o governador julgou ideal convidar um nome forte e de muitos votos: um deputado federal.

Resumo parcial da história, do imbróglio, da arrumação: Ah! A atual vice-governadora, como não poderia ficar na mão, disputaria uma vaga na câmara federal, sem risco de perder a eleição. O ex futuro vice-governador, como paga por tanta resignação, indicaria um filho, também para concorrer como deputado federal, apoiado pelo, então, ora candidato ao senado; palavra dada e ponto final.

Lembrando que, para senador, havia um forte concorrente na oposição, e somente duas vagas estavam em jogo na próxima eleição. O governador-candidato, com a indicação ao senado do deputado federal, pensava em fazer dele, colega de um outro que já estava na casa senatorial; apoiado, a propósito, também por ele, gestor, na disputa por reeleição; bastava, para que tudo desse certo, derrotar o maior nome da oposição.

Arrumada a chapa governamental, com os novos parlamentares que apoiaria, era esperar pela voz das urnas, para ver o que aconteceria. Pairava certa dúvida ao deputado que buscava cadeira no senado, se teria, de fato, chance de derrotar o forte candidato do outro lado. Será que a atual vice-governadora e o filho do quase ex vice futuro, seriam eleitos para a câmara federal, ou teria o governador atirado no escuro?

Chega o dia da eleição geral, votos nas urnas, contagem concluída e o que mais? O governo elege seus dois senadores e dois novos deputados federais. O forte candidato ao senado, pela oposição, foi derrotado, novamente, perdeu; já a bancada da situação no congresso nacional, com as novas caras eleitas, só cresceu.

Não bastasse essa vitória, com gol de letra, de bicicleta, trivela e de calcanhar, na assembleia legislativa, o governo contará com mais deputados do que precisará. Talvez nem seja exagero dizer, pois foi o quadro que restou, findo o pleito eleitoral: quase acabou a oposição ao governo, no estado, na câmara e no senado federal.

Por fim, e respondendo ao que ninguém perguntou: apesar das falcatruas em que, dizem, nelas o estrategista se enredou, o povo, em sua maioria, viu na figura algo que o deixou encantado, e, nas urnas, em sete de outubro de dois mil e dezoito, o atual sagrou-se futuro governador do estado.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DEPOIMENTO SOBRE ALBERTO SILVA


Fonte: Blog do Pessoa. Em 1973, desembarque do Governador Alberto Silva no aeroporto de Parnaíba, vendo-se, da esquerda para a direita: Vicente Correia, Erick de Carvalho (prsidente da Varig), ministro João Paulo dos Reis Velloso, governador Alberto Silva e a primeira dama Florisa Silva.

DEPOIMENTO SOBRE ALBERTO SILVA

Alcenor Candeira Filho
    
     Embora por circunstâncias partidárias nunca tenha votado em Alberto Tavares Silva, não posso deixar de prestar-lhe justa e merecida homenagem no centenário de seu  nascimento.

     Nasci e cresci em casa onde a política esteve sempre muito presente. As mais remotas lembranças são de 1950, quando com três anos de idade vi bem de perto o então candidato a presidente da república Getúlio Vargas, que se hospedou na residência  do dr. João Orlando de Moraes Correia, que disputava a prefeitura pelo mesmo partido. Tive acesso à casa em que estava hospedado o grande líder trabalhista por ser amigo e vizinho de João Orlando.

     Em 1950 Alberto Silva estava concluindo o mandato de prefeito, iniciado em 1948, e apoiou no pleito municipal o candidato de seu partido Acrísio de  Paiva Furtado (UDN), que foi derrotado  por João Orlando.

     Foi a partir dessa época que comecei a ouvir falar de Alberto Silva e de seu irmão João Silva Filho, também grande líder político na cidade, que administrou por duas vezes com muita competência.

     Há poucos meses, três filhas do dr. João Orlando (Fátima, Francisca e Joana Rita) postaram  nas redes sociais, com ampla repercussão ,  fotografias tiradas durante a histórica visita de Getúlio a Parnaíba, em agosto de 1950. Essas fotos revelam que quatro eminentes brasileiros que viriam a presidir o país estavam presentes no banquete oferecido por João Orlando: Getúlio Vargas (1951-1954), Café  Filho (1954), João Goulart (1961-1964) e Castelo Branco (1964-1967).

        Como prefeito municipal Alberto Silva esteve presente nesse almoço e aparece em vários retratos.

       Recordo-me também  da campanha eleitoral de 1954 em que Alberto Silva, sempre pela UDN, foi eleito novamente prefeito municipal, derrotando o petebista José Alexandre Caldas Rodrigues. Nessa eleição meu pai Alcenor Rodrigues Candeira foi eleito vereador pelo PTB, exercendo o mandato no período da segunda administração  de Alberto Silva (1955-1958).

     Nos anos 50 minha família costumava passar as férias do mês de julho na praia da Pedra do Sal, então um pequeno povoado de pescadores, muita frequentada pela família Silva.  Foi nessa bela praia que passei a conhecer melhor o dr. Alberto.

     A partir de 1959, com o trágico falecimento de meu pai, a política deixou de ser assunto interessante para mim e para minha família.

     Mesmo temporariamente desiludido ,  nunca deixei de acompanhar a vida política da cidade e aplaudir as grandes ideias e obras.

     Em fins de 1965, concluindo o curso científico e com mala arrumada para ir estudar direito no Rio de Janeiro, assisti no auditório do SESC em Parnaíba a um importante debate entre dois grandes engenheiros que viriam a governar seus Estados: César Cals (CE) e Alberto Silva (PI). O cearense achava que o problema da energia elétrica  na cidade seria resolvido com a conclusão das obras da barragem de Boa Esperança, enquanto Alberto Silva entendia que a solução imediata, embora provisória, seria trazer desde logo a energia elétrica de Paulo Afonso, que poderia noutra etapa, como de fato ocorreu, ser substituída pela da Boa Esperança. Com a posição assumida e que acabou prevalecendo, Alberto Silva antecipou em alguns anos a solução do problema.

     De 1966 a 1971 passei a morar no Rio de Janeiro, deixando de acompanhar a vida política de Parnaíba.

     Quando  regressei à terra natal, em 1972, Alberto Silva exercia o primeiro mandato de  governador do Piauí, quando construiu muitas obras em todo o  estado: estradas, escolas, hospitais, instalação do Polo Petroquímico em Teresina,  ampliação do sistema elétrico e da rede de abastecimento de água, Estádio Albertão, Zoobotânico de Teresina, ponte Simplício Dias da Silva em Parnaíba e muitas outras.

     No plano cultural o governo Alberto Silva foi também rico de realizações: instituição do Plano Editorial do Estado, início da reforma e ampliação do Teatro 4 de Setembro, construção do Monumento aos Mortos do Jenipapo e o Museu do Jenipapo, criação da secretaria estadual de cultura.
     
No livro “100 Fatos do Piauí no Século 20”, diz o jornalista e escritor Zózimo Tavares:

                   Com criatividade e arrojo, Alberto Silva realizou
                   um governo desenvolvimentista, aliado a um ambicioso
                   plano de “marketing”. Trabalhou a auto-estima dos
                   piauienses. Tirou o Piauí do anedotário nacional. Ficou
                   conhecido como um tocador de obras e tornou-se um mito
                   político. O Piauí experimentou no seu governo um surto de
                   progresso, embalado pelo chamado “milagre brasileiro”.
                   (...) Seu governo contou com o irrestrito apoio do piauiense
                   Reis Velloso, o então todo-poderoso ministro do
                   planejamento.  
                                               
     Alberto Silva é o político parnaibano recordista no exercício de cargos eletivos, com cerca de 38 anos de mandato:

- prefeito de Parnaíba: 1948-1950 e 1955-1958
- deputado estadual: 1950 (renunciou)
- governador do Piauí: 1971-1975 e 1987-1991
- senador: 1979-1986 e 1999-2006
- deputado federal: 1994-1997 e 2007-2009.

     Se acrescentarmos nessa conta os vários e relevantes cargos públicos não eletivos que desempenhou ( CENORTE, POLONORDESTE, EBTU), concluiremos que Alberto Silva (1918-2009) dedicou-se à vida pública durante quase setenta anos.

     Alberto Silva era casado com dona Florisa com quem teve vários filhos.

     Todas as pessoas, inclusive as que se destacaram em sua época, estão predestinadas ao esquecimento, cabendo ao escritor  ou historiador proclamar e  difundir seus feitos  aos mais jovens, aos que ainda têm o ideal de um destino a ser cumprido.

     Eis, portanto, a razão pela qual presto este depoimento sobre Alberto Silva no centenário de seu nascimento.     

terça-feira, 9 de outubro de 2018

A história do sapo Zé




A história do sapo Zé

Elmar Carvalho


Dias atrás veio fazer um trabalho em nossa casa o mestre Ivo Gomes, radicado em Teresina, porém natural de Miguel Alves – PI. Quando, no final do serviço, minha mulher e eu o elogiamos, reconhecendo que ele montara o painel de mosaico com perfeição, ele revelou que passara a noite anterior sem dormir direito, porque a Fátima achara que ele havia errado na ordem de colocação de algumas das peças. Isso demonstra que ele é um operário perfeccionista, meticuloso, o que se percebe ainda no cuidado como ele fez as necessárias emendas, nos locais em que não cabia uma unidade completa.

No decorrer da execução do serviço, ele tomou conhecimento de que eu escrevera alguns livros, que lhes foram mostrados, creio. Ivo, então, nos contou que o seu filho, ainda um menino, era também um escritor. Como lhe indagássemos sobre isso, ele nos contou que o garoto gostava de ler e sempre participava do Salão do Livro do Piauí – SALIPI, tendo publicado um livro infantil por ocasião de uma de suas “versões” anuais.

Falou que o garoto, além do amor aos livros, gostava de desenhar, escrever e era componente de uma banda musical. Acrescentou que o seu filho escrevia desde que tinha cinco anos de idade, sem que ninguém a esse mister o induzisse. Ele próprio fazia as ilustrações das histórias que escrevia.

Perguntei qual a sua idade atual, tendo o mestre me respondido que tinha somente 12 anos de existência. Prometi que, quando ele terminasse o serviço, mandaria uns livros de minha lavra a seu filho, tendo ele me dito que me traria, no dia seguinte, um livro da autoria do garoto. De fato, me trouxe um exemplar, ainda lacrado por invólucro plástico, e, portanto, sem autógrafo, o que parece indicar que o jovem não foi inoculado pelo veneno da vaidade de eventual mosca azul.

O pequeno volume tem o título de “O sapo Zé”, e é todo colorido, da capa à contracapa, o que é conveniente a um livro destinado a público infantil. Li-o com agrado, me recordando dos tempos de minha meninice, em que li com sofreguidão esse tipo de literatura, inclusive vários da autoria do grande Monteiro Lobato, da Condessa de Ségur, de Viriato Correia e vários outros autores, além de inúmeros gibis da marca Walt Disney.

A obra contém belas ilustrações em policromia, que bem retratam o que é narrado, elaboradas por Ângela Rêgo, exímia artista plástica e ilustradora, que já agregou valores a vários livros publicados. Ela é também uma talentosa capista.

Na capa se encontra estampado o nome completo do autor: Railson Cauã Gomes. A pequena nota biográfica informa ainda que ele tem oito anos e que aos cinco decidiu escrever histórias, bem como é estudante de escola pública. Portanto, a história objeto do livro foi escrita, suponho, quando ele tinha apenas essa idade, contudo o livro foi publicado em 2016, conforme folha de rosto. Foi publicado pela Nova Aliança Editora, cujo proprietário é o livreiro Leonardo Dias, coordenador editorial, que relevantes e bons serviços vem prestando à literatura piauiense.

Na pequena nota, a que me referi, é noticiado que o autor “tem o sonho de ser um grande escritor lido no mundo inteiro e por isso continua escrevendo e ilustrando histórias para as crianças se divertirem”. O estilo é claro, direto, objetivo, sem nenhum tipo de rebuscamento, e bem compatível com a idade de Railson Cauã. A história é simples, porém criativa, e apropriada ao público a que é destinada. Por conseguinte, bem diferente de certas histórias infantis, que são, na verdade, uma espécie de contos de terror.

Transcrevo o seguinte trecho, que é revelador de sua inventividade: “O sapo Zé pulava no jardim e a sapa pulava no seu Joaquim.” Nota-se, nesta pequena transcrição, o espírito lúdico e brincalhão do jovem escritor. Por ela se percebe que, se Cauã tiver perseverança e não mudar de planos, continuando firme em sua vocação, em seus estudos e amor à leitura, realizará, decerto, o seu “sonho de ser um grande escritor”.

Afinal, como já dizia Charles Chaplin, “a persistência é o caminho do êxito".    

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

ENTREVISTA NA TV ASSEMBLEIA - CANAL 16

Fonte: Conexão 86/Google


Meus irmãos e amigos,
Cometi um ato falho na comunicação abaixo, vez que o programa não é ao vivo; hoje foi apenas a gravação da entrevista, que somente será exibida na próxima segunda-feira ou na seguinte.
De modo que só me resta lhes pedir desculpas por eventual transtorno.
Abraço,

Elmar

Comunico a meus amigos e leitores que nesta segunda-feira, dia 8, a partir das 15 horas, serei entrevistado na TV Assembleia, canal 16, no programa “Justiça às suas ordens”.  As perguntas serão direcionadas a temas ambientais (ecológicos) e literários. Os apresentadores/entrevistadores serão os desembargadores Edvaldo Moura e Valério Chaves. Desde já agradeço aos diletos amigos pelo prestígio luxuoso de sua sintonia.   

domingo, 7 de outubro de 2018

Seleta Piauiense - Paulo Véras



Espera

Paulo Véras (1953 – 1983)

Esta boca enlanguescente
que a tarde produziu cheia de memórias e desejos
fabrica o mel em concha de ouro
enquanto os olhos passeiam de colmeia em colmeia
e se espalham exaustos em langores

É tão minha esta calma doce
que o vento faz questão
de bordar nas entranhas
e derramar pelo corpo

É tão teu este recorte de luz e sombra
que o abajur tece no canto do quarto
e marca com um halo tua presença

É tão nosso este abraço ausente
que se firma na copa da noite
e decepa com lâmina de foice
a inútil esperança.

Fonte: A Poesia Parnaibana, 2001   

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Lobisomem

Fonte: Google

Lobisomem

*Por Pedro Holandês

Depois de muitos dias de fome e caçadas mal sucedidas, um jovem lobisomem saiu pela praia procurando por carcaças de peixes ou ossos gordurosos de baleia que pudesse mastigar e repor suas energias. Viu ao longe outro lobisomem, um irmão de sina, ao lado de uma carcaça de golfinho e decidiu se aproximar para cumprimentá-lo parando para prosear um pouco.
Era noite de lua cheia e uma brisa que vinha do mar soprava levemente.
- Boa noite companheiro, disse o lobisomem mais jovem. Que sorte sua ter encontrado uns bons ossos gordurosos nesta carcaça!
E o outro replicou:
- Eu na realidade não pretendo mastigar esta carcaça. Só como carne fresca. Pode ficar para si, pois o que comi hoje me satisfará por muitos dias.
- E qual é sua especialidade, irmão de sina?
Disse isso se aproximando rapidamente da carcaça.
- Sou especialista em comer caçadores experientes, irmão de sina. Caçadores gordurosos e com costelas suculentas.
Disse isso mostrado um pedaço da costela que trazia consigo, ainda com pedaços de carne fresca.
- Este caçador aqui, por exemplo, passaram-se quase trinta anos. Percorri muitas cidades até que dei cabo dele.
- Mas eles não são perigosos? Dizem que eles só andam armados de espingardas!
- É verdade, irmão de sina. Mas o que eles não sabem é que suas espingardas não fazem nenhum efeito contra nosso couro à prova de bala. E a grande maioria deles tem medo de alma. Ou quando nos veem em estado metamórfico.
Disse isso em virtude de alguns lobisomens poderem se transformar no animal que quiserem.
- Além disso, são poucos os que ao verem um de nós, esboçam alguma reação. A não ser por se cagarem de medo!
- Vejo que o nobre colega não tem muita experiência.  Quanto tempo faz que carrega esta sina meu caro jovem?
- Faz cinco anos, respondeu o mais jovem.
- E você irmão de sina?
- Bem, eu não sei precisar ao certo quantos anos. Por outro lado, fazem muitas luas cheias que deixei de comer carcaças, merda de galinha, filhote de cachorro e etc.
- Tudo isso é coisa de quem não tem experiência no assunto. Um dia quando você crescer e adquirir mais experiência, você vai entender que carne humana é a mais saborosa de todas! Além do mais eu prefiro caçar aqueles que caçam.
Disse isso colocando a mão no ombro do lobisomem mais novo e o fitando no fundo de seus olhos.
- E quantos homens, digo caçadores, você já devorou?
- Ah, irmão de sina, eu já comi vários e de todas as classes...

*Pedro da Costa Silva, ou Pedro Holandês, como é reconhecido e conhecido, nasceu em Parnaíba. Pesquisador independente, guia turístico e poliglota autodidata.
Seus estudos estão voltados para a história natural, ecologia e o regime alimentar de serpentes da espécie cobra veadeira  (Corallus hostullanus) no delta do rio Parnaíba. Grande parte de seus artigos estão hoje publicados em revistas internacionais dos Estados Unidos e da Europa.
Aprendeu vários idiomas em contato com turistas holandeses, ingleses e americanos, como guia turístico no Delta do Parnaíba. Este título, Lobisomem, é a introdução de um livro que está escrevendo.   

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

LABIRINTO TINTO DE SANGUE


Fonte: Google

LABIRINTO TINTO DE SANGUE 

Elmar Carvalho

Faço um poema
com o sangue ardente
das nascentes de meus dedos:
vertentes de medos e degredos.
Os versos são fios de esperança
que saem de palpos de estranhas aranhas
construindo labirintos em arabescos
tintos de sangue nos afrescos.
Ariadne recolhe o fio
e Teseu surge intacto
com a espada embebida
do sangue do Minotauro que traz
no peito a rosa sangrenta da ferida.
Com esse fio
Penélope tece e destece
um longo manto ensopado
de pranto e quebranto
e se amortalha das dores
de amor de que padece
– amor que lhe pasta e apetece.
O que conclui desfaz peça por peça
e interminavelmente recomeça.   

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O ESPERTALHÃO NÃO PASSA DE UM TOLEIRÃO

Fonte: Medium/Google


O ESPERTALHÃO NÃO PASSA DE UM TOLEIRÃO

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                Será que, de fato, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teria razão quando, certa feita, disse, ou deixou que pensassem que o dissera, que deve ser muito bom ser presidente da República – que, com sua (dele) permissão, estendo para as demais funções/cargos governamentais e parlamentares -, já que tantos querem sê-lo? E mais um acréscimo nosso: mesmo aqueles que, sabidamente, jamais o conseguirão, porque lhes faltaria empatia, carisma, capacidade técnica, intelectual, operacional e, principalmente, votos suficientes para obter o cargo nas urnas?

                Talvez FHC haja levado em consideração – não duvido que, ironicamente - que somente boa vontade demais, desprendimento, altruísmo, humildade, respeito, submissão, modéstia, consideração, apreço, dedicação, abnegação, disposição para servir, trabalhar, acolher, compreender e aceitar; urgente necessidade de prestar serviços, justificariam motivação capaz de levar cidadãos que apanham tanto, são tão humilhados, incompreendidos, atacados, agredidos por aqueles que não os reconhecem, desconhecem ou, a priori, se negam a ver neles as qualidades que pregam ou o que seriam capazes de realizar, uma vez lhes fosse dado oportunidade de chegarem aos palácios governamentais e parlamentares, a lançarem seus nomes – não raro, apostando e colocando em risco a própria honra, quando ainda a têm em bom estado de conservação - enfim, a, gratuita e, voluntariamente, se oferecerem para nos representar no governo e parlamento.

                Após intensas lucubrações cerebrinas concluo que, jamais me disporia ou me colocaria na posição de esses abnegados: prontos para levarem pancadas, admoestações, acusações, agressões na maior parte do tempo, estejam cumprindo ou não a obrigação de servir – se não cumprem, talvez lhes caiba menos culpa do que àqueles que os teriam colocado lá, por não lhes fazerem as devidas cobranças nem requisitarem deles a exata e necessária prestação de contas –   proposta ao se colocarem, efetiva e, midiaticamente, à disposição de todos, geralmente, na fase de convencimento eleitoral.

                Saindo da letargia mental a que me havia submetido, caí na realidade, já discordando do ex-presidente:  essa turma, caro senhor – nem todos fazem isso, bom que se diga -, na verdade, admite e aceita ser espicaçada, espoliada, vilipendiada, açulada, instigada, atacada, espinafrada, desmoralizada, ridicularizada, simplesmente, porque sabe que tudo de que lhe acusam, os (e seus) eleitores, tem vida curta, nenhuma seriedade, não passa de palavras ao vento; eles têm certeza de que essa corriola, que, antes de votar neles, cobre-lhes de cobras e lagartos, é a mesma, ou quase o é, que, não apenas não lhes cobrou, efetivamente, os serviços que deveria prestar durante o mandato anterior, como a que estará à sua disposição nos próximos pleitos, pronta para, novamente, dar-lhes seu voto de confiança, levá-los aonde quiserem.

                Não há mágica, prestidigitação, ilusão, hipnose de que lancem mão esses franciscanos e iluminados seres, para se fazerem confundíveis com alguém sempre tão humilde, disponível e solícito, notadamente, antes dos pleitos eleitorais. O que há, infelizmente, é descaso, dissimulação, hipocrisia e desrespeito de ambos os lados: dos eleitos ao, quase sempre, não darem crédito nem atenção àqueles que os elegeram; dos eleitores, ao não acompanharem, não fiscalizarem nem exigirem o cumprimento do que ficou acordado entre eles.

                Talvez por isso haja dito outro experiente sujeito da espécie dos demagogos, que não fazem nenhum esforço para não parecerem hipócritas, cabotinos ou antiéticos, a respeito de eleição para o senado brasileiro: chegar lá é bem melhor do que no céu, porque, neste, é o que alguns dizem, só se chega morto; naquela casa, não, quanto mais vivo, mais fácil. E na câmara federal, nos palácios governamentais, será que conseguem adentrar figuras não espertíssimas? Claro que não!

                Não há vítima nem algoz nessa história de eleição: o eleitor, querendo bancar o espertalhão, faz o que o legítimo espertalhão quer: dá-lhe, reiteradamente, vez, voz, autoridade e poder; o eleito, por sua vez, faz o que eleitor espera dele: toma-o por toleirão. E o que mais lhe oferece são chutes no traseiro. No final de tudo, todos ficam satisfeitos. E vida que segue.   

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A arte fotográfica de Valdeci Ribeiro




A arte fotográfica de Valdeci Ribeiro

Elmar Carvalho

Tomei conhecimento pela TV de que Valdeci Ribeiro de Carvalho, conterrâneo e irmão maçônico, havia publicado o livro Piauí – sertão rio mar, referto de belas fotografias de paisagens de diferentes rincões piauienses, do sul ao norte. Foram exibidos alguns slides de suas páginas. Logo percebi a alta qualidade de sua programação visual, a sua bela diagramação, a rigorosa escolha das fotografias, bem como a perfeita nitidez da impressão, mercê de um excelente projeto gráfico, com a utilização, sem dúvida, de equipamentos de última geração.

Sexta-feira adquiri um exemplar, numa das livrarias de Teresina. Ante sua beleza e qualidade de seu acabamento gráfico e impressão, tomei o desiderato de emitir breves considerações sobre esse livro/álbum. Embora não seja versado em fotografia, tenho lido, ao longo dos anos, alguma coisa a respeito dessa manifestação artística.

Na parte formal e material, posso dizer que a obra apresenta capa dura e formato grande (aprox. 30cm x 30cm), e certas fotografias ocupam duas páginas, mas sem prejuízo de sua perfeita apreensão visual. O papel é de altíssima qualidade e de espessura adequada ao formato gráfico (couchê furioso 150 g/m²). Todas as fotografias são em policromia. Foi impresso em maio deste ano, em São Paulo, pela Gráfica e Editora Ipsis. Não percebi nenhuma imperfeição no serviço de impressão e diagramação. Todas as páginas se apresentam nítidas e sem manchas ou falhas. Até o processo de colagem de páginas na lombada é o que de melhor e mais consistente existe.

Em suas páginas preambulares a obra apresenta comentários de Renata Junqueira de Azevedo (Os bons ares do Piauí) e de João Cláudio Moreno (Valdeci Ribeiro e a visão concentrada do Piauí), bem como do próprio autor, em que ele consigna o seu fascínio pela beleza da paisagem piauiense, desde tenra idade:

“Nasci piauiense, numa vila chamada Passagem do Meio, interior de Campo Maior. Da casa grande do meu avô, numa pequena colina, pode-se contemplar quase toda a vila: as demais casas, a capela, o cemitério, os currais, animais pastando e todo um vale, onde passa um riacho escondido por oiticicas centenárias. Mais ao longe, a serra e o rio circundam-na como se quisessem esconder e preservar a magia daquele lugar.

Vivi naquela vila até os quatro anos de idade. Depois fui morar em Campo Maior, cidade cuja natureza é composta por campinas, extensos carnaubais, a Serra de Santo Antônio e por rios da Bacia do Longá.

O íntimo contato com a natureza, durante minha infância e adolescência, ocorreu nestes dois lugares, marcando indelevelmente minha memória afetiva e minha ligação com a mesma.”

Do seu depoimento acima, podemos depreender que essa paisagem parece ter ficado impregnada em sua alma e em sua retentiva de forma inapagável, como gravada a fogo através de pirogravura policromática. E tudo isso, mais tarde, sobretudo em sua maturidade, seria expresso em sua pintura fotográfica. Disse pintura fotográfica porque as fotografias de Valdeci Ribeiro para mim têm status de verdadeiras pinturas, conforme adiante demonstrarei.

Julgo oportuno transcrever as seguintes palavras de João Cláudio, extraídas do texto a que me referi acima:

“Mas voltemos ao exótico detalhe do médico fotógrafo que não é radiologista, mas gastroenterologista. Valdeci foi um desbravador no âmbito de sua especialidade dentro do Piauí. Talvez tenha sido um dos primeiros, se não o primeiro, a investir em alta tecnologia nos exames endogástricos. Inventou pioneiramente na sua terra a endoscopia digestiva. (...) Ele vai para as entranhas. (...) Todas as imagens remetem ao estômago: cavernas inimagináveis, surpreendentes; enormes extensões dentro de pedras; o cânion do Rio Poti com milhares, talvez milhões, de informações; o imperceptível camuflado no intestino do delta, só possível e passível de ser visto se na interioridade da complicada e labiríntica reentrância de seus igarapés; flora e fauna exuberantes no sagrado santuário escondido.”



O fotógrafo foi gestado ainda nos seus primeiros anos, ao contemplar as esplêndidas paisagens de Campo Maior, paisagens que ele, depois, exaltaria através de sua arte, e que eu também louvei em meus versos. As imagens dos exames endogástricos, que ele produzia, na condição de gastroenterologista, como insinua João Cláudio, podem ter contribuído para ele se tornar o grande fotógrafo da natureza, que ele veio a se tornar, propiciando-lhe a acuidade visual, o cuidado com os detalhes, a atenção meticulosa para com as singularidades, que fazem toda a diferença entre um Mestre e um mero mela-tintas ou um tosco borra-botas.

Sempre admirei (apesar de lhes ter certa repulsa) a paciência de um caçador, que “cochila” na mira, para a precisão do disparo; que espera toda uma noite, para conseguir o seu objetivo. Valdeci parece ter essa mesma paciência, parece possuir igual persistência. Ainda bem que a sua “arma” é apenas uma boa e inofensiva câmera fotográfica, e não uma espingarda bate-bucha ou sofisticado rifle. Aliás, diante das atuais leis ecológicas e de uma mais apurada sensibilidade ambientalista, as armas de fogo para caçadas estão sendo aposentadas ou trocadas por máquinas de “caçar” imagens da fauna e da flora. Com relação a animais silvestres, conquanto não seja a sua especialidade, creio, conseguiu um surpreendente flagrante de variadas espécies de aves a esvoaçarem, dos mais variados tamanhos e coloração. Em outro feliz momento, logrou fotografar um coreográfico voo de rubros guarás sobre um exuberante manguezal.

Valdeci se esmera em aguardar o momento mais adequado de luminosidade, em procurar o melhor ângulo, para conseguir o resultado que deseja. Em busca da angulação desejada, vira a câmera um pouco mais para a direita ou um pouco menos para esquerda; inclina-a um tanto para cima ou um pouco menos para baixo, quando não opta por um tiro certeiro frontal e “mortal”. Nesse mister, adota, sem dúvida, as mais incômodas e cansativas posições, conforme o lugar em que se encontra e a angulação desejada. Como disse, são esses pormenores, essas graduações de “tempero” que distinguem um verdadeiro artista de um simples e bisonho diletante.



Acentuo que ele, além de ser exímio fotógrafo de abertos e dilatados panoramas de serras, campinas e florestas, também se esmera nas fotografias de detalhes, seja de uma gruta, de um cânion, ou de um paredão rochoso. Nisso aguarda a iluminação adequada e procura a coloração, a distância, a angulação e textura que lhe convém. Com isso, com esses cuidados e arranjos metódicos conseguiu produzir fotografias, que na verdade podem ser consideradas verdadeiras pinturas abstratas e geométricas, ou mesmo uma mistura de ambas.

Pelo modo como captou as figuras rupestres, as imagens ganham foro de uma (quase) pintura primitivista, tal o contorno, textura e volume obtidos. Uma de suas fotos, por efeito do ângulo utilizado, me fez lembrar uma gárgula ou mesmo uma carranca de barco fenício. Outras, parecem retratar lindas e criativas esculturas modernas e até mesmo figurativas. Em escassas palavras, posso dizer que ele teve olhos que souberam enxergar o que muitos olhares desatentos nunca viram.

Para fazer todas as suas imagens, o autor gastou vários anos e empreendeu várias expedições fotográficas aos locais escolhidos, alguns inóspitos e de dificílimo ou penoso acesso. Assim, percorreu o Piauí do extremo sul ao Delta do Parnaíba, na extremidade norte. Foram cenário para suas lentes as fascinantes paisagens do Parque Nacional de Serra da Capivara, Serra Vermelha, Cânion do Rio Poti, Delta do Rio Parnaíba, Parque Nacional de Serra das Confusões e Parque Nacional de Sete Cidades. Podemos, dessa forma dizer, devassou e desvendou boqueirões, trilhas, socavões, cânion e grutas; destrinçou o rendilhado das ilhas e igarapés do Delta do Parnaíba, elucidou as confusões da serra de igual nome e desencantou a misteriosa Sete Cidades, “para novos e mais / deslumbrantes encantos”, como disse num de meus poemas.

Foi graças a todas essas peripécias e “arte-manhas” manhosas que ele conseguiu dar um quê de diferente a algumas paisagens, que se tornaram uma espécie de “clichê” ou “lugar-comum” dos cartões postais e cartazes. Como exemplo, refiro uma fotografia que ele tirou da famosa “Pedra Furada” (Serra da Capivara), que ficou bastante “revitalizada” com um céu nublado, revolto, tempo (como falamos) bonito para chover, em que as nuvens parecem estar preparando em seu laboratório as “chuvas amorosas”, como no dizer de H. Dobal. O furo da pedra parece o visor de uma caldeira em ebulição.

Pelo que pude observar o autor não interfere em suas fotos com efeitos ou lentes especiais. Seus “efeitos” são naturais, na forma como descrevi. A não ser em duas ou três delas, utilizou recursos artificiais, apenas para lhes retirar um excesso de luminosidade, ou para lhes dar um pequeno acréscimo de brilho. Numa delas utilizou uma lanterna, por tê-la produzido à noite; o jato de luz foca apenas uma cachoeira, mas deixa ao fundo a beleza noturna de um céu resplandecente de estrelas. Em síntese, cada fotografia é uma tela, digna de ser ostentada em excelente moldura. Nesse sentido, poderia afirmar que essa obra é uma legítima pinacoteca encadernada.

Recomendo esse fotolivro, um dos melhores no gênero, pela beleza de suas imagens e por sua qualidade gráfica. Talvez algum leitor venha a achar que me excedi no uso de adjetivos. Respondo que não; apenas os usei na medida exata do que entendi caber a seu mérito. Folheá-lo lentamente correspondeu a uma verdadeira expedição turística, que fiz, sem sair de minha casa. Ademais, não é só um livro de arte fotográfica, mas é, em si mesmo, uma obra de arte, que poderá ornar a sala de uma casa ou o hall de uma clínica, de um hotel ou de qualquer comércio ou repartição pública.

No meu caso, ocupará o pódio de minha biblioteca, ao lado de outros livros de arte.   

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Bois de mangas



Bois de mangas

Pádua Marques
Jornalista e escritor

No meu tempo de menino, quando havia meninos livres do computador, dos jogos eletrônicos e do celular, a gente brincava com o que tinha por perto. Tanto fazia serem meninos que moravam no interior, na dita roça, ou meninos que moravam em casas onde havia quintais. E tendo quintais, tinham mangueiras. E tendo as mangueiras, davam mangas. E eram mangas boas e que maduras, a gente comendo se lambuzava todo. Coisa de limpar as mãos nas pernas dos calções encardidos.

Mas tinham também as mangas que não vingavam e acabavam caindo por causa do vento ou alguma outra coisa que derrubava. Essas, agora no chão, iriam servir pra comida de algum animal pequeno, roídas por besouros ou viravam brinquedo na imaginação dos meninos. Era correr em redor atrás de gravetos ou ir lá dentro de casa e pegar uns palitos de fósforos queimados, jogados perto do fogão, e com eles colocar pernas nas manguinhas. Estava criado o boi de manga.

E a gente, os meninos do meu tempo, ficava horas e mais horas brincando com aquelas coisinhas, falando sozinhos, inventando conversas com pessoas, se dizendo donos de fazendas e tudo o mais. Se vendia e se comprava. Se colocava no curral e se dava de comer e beber. E depois se levava pro pasto. E a imaginação voando pra cima da cabeça dos meninos de meu tempo era coisa de milhões de minutos.

E se eram outros e mais meninos havia a disputa de quem mais tinha essa fortuna, as corridas, as vaquejadas, os pequenos currais de gravetos, a venda e a troca de bezerros e garrotes. Os meninos de meu tempo exercitavam de forma mais natural isso que os estudiosos hoje chamam de liderança. E os bois de manga iam com o passar das horas e dos dias sendo esquecidos no fundo do quintal e agora murchos acabavam sem importância.

Assim são os políticos de nosso tempo. Juntam as pequenas mangas caídas entre o povo ignorante. Aquelas bem verdinhas e que não vingaram e muito menos chegaram a ficar de vez. Os meninos de meu tempo, que são os homens e os líderes políticos de hoje, aprenderam de forma muito simples, natural a comandar e ter sob sua influência os menos instruídos. Os bois de manga são o povo que se deixa manejar sem reação e sem grito.

Sabem estes líderes que sem educação, sem estímulo ao trabalho e influenciados pela imprensa irresponsável, principalmente a televisão e as hoje redes sociais, essa massa é facilmente manobrada pra dentro de currais de graveto.  Estamos vivendo neste momento uma transição entre os meninos e os homens. Entre as brincadeiras e a realidade. E quando este momento mágico dos meninos, de conversar com manguinhas verdes passar, a crueldade dos dias volta a fazer parte da vida de todos.