terça-feira, 13 de outubro de 2020

LAMBUZOU-SE NA LAMA PARA NÃO SER PRESO

 

Dourado e Augusto, em charge de Gervásio Castro

LAMBUZOU-SE NA LAMA PARA NÃO SER PRESO


Antonio Gallas

Contista e cronista

  

Quando alguém recebe uma ordem de prisão, quer seja por mandado ou em flagrante, procura sempre dar um jeito de escapar das garras da patrulha. É o famoso jeitinho brasileiro. Na verdade, ninguém quer ser preso, ninguém quer ficar atrás das grades para ver o sol nascer quadrado.

 Nos noticiários da televisão, temos acompanhado as artimanhas criadas por políticos, empresários, médicos, "laranjas", religiosos, traficantes e outros que para não serem levados ao xilindró inventam de tudo.

Alguns apresentam atestados médicos dizendo serem portadores de doenças crônicas, ou fogem para outros países, e em muitos casos até se fingem de mortos como foi o daquele prefeito de uma cidade no Peru, que se fingiu de morto para evitar ser preso após sair para beber em meio à pandemia, fato narrado em episódio já publicado neste blog.

 A história que vou contar aconteceu aqui mesmo na querida Parnaibinha de Nossa Senhora da Graça e teve como cenário o "cheira mijo" -  Bairro São José.

O personagem principal foi o nosso amigo boêmio, carnavalesco e humorista José Dourado Filho, Zé Dourado, ou simplesmente Douradim, como o chamávamos na intimidade.                                                                                                                                                                                                                                         

 Frequentador assíduo do Bar do Augusto (in memoriam) ou “ Bar Recanto da Saudade” e de outros pontos da boêmia parnaibana, foi o próprio Douradim (in memoriam)  quem narrou o fato para o escritor José Luiz de Carvalho numa das costumeiras reuniões da Forja no bairro São José bem aos fundos da Fundição Perseverança, uma das pioneiras metalúrgicas do Estado do Piauí .

 O Bar Recanto da Saudade ou Bar do Augusto ficava no Bairro São José na região conhecida por Munguba, outrora frequentada por embarcadiços ou porcos d’água por se tratar de uma Zona de Baixo Meretrício próxima ao cais onde atracavam as embarcações vindas do Porto de Tutóia e de outras reo Piauí.

 O nome  Forja dado a esses encontros, faz alusão ao conjunto de equipamentos utilizados pelos ferreiros na fundição de metais. Na Forja reuniam-se intelectuais, boêmios, empresários, aposentados e outros contadores de histórias... E dentre eles estava o nosso Douradim a contar suas bravatas.

Num desses encontros, sempre realizados no final das tardes e regados a churrasco, cerveja gelada compradas no Bar do Augusto, o Douradim contou ao escritor José Luiz de Carvalho que certa vez,  após tomar umas  e outras, excedeu-se  e começou a  abusar no bar onde estava inclusive provocando outros fregueses que só  não o bateram em consideração à dono do estabelecimento.

Segundo ele mesmo contou, abusou tanto, que a dona do bar não teve outra alternativa a não ser chamar a polícia.

 Era início da década de 1970, inverno vigoroso e como sempre àquela época o bairro São José sofria com alagamentos. Em frente ao bar onde estava havia criado uma lagoa cheia de lamas. Mais lamas do que água. Local predileto para os porcos se refrescarem do calor ao meio dia.

 O governador do estado, o parnaibano Alberto Silva havia destinado duas viaturas de Rádio Patrulha para sua cidade natal. Dois fusquinhas zerinho da silva e como se diz popularmente, ainda  cheirando a leite para o serviço da segurança em Parnaíba.

 Ao ouvir o barulho da sirene dos carros, Douradim pensou... pensou...

 E foi então que teve a brilhante ideia:  Entrou na lama e começou a rolar pelo chão, lambuzando-se todo.

 Quando a viatura chegou e os policiais desceram para efetuar a prisão perguntaram: ­"cadê o meliante"? Dona Graça responde: tá aí  se lambuzando com os porcos.

 Cabo Élcio então olhou, sorriu e ordenou:   vambora negrada. Deixa esse porco aí. Ele vai é sujar  completamente os bancos da viatura.                   

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Livro "O Piauí no Século XX" - 5ª edição


 

SAL SOL SOLIDÃO

 

Fonte: Google

SAL SOL SOLIDÃO


Elmar Carvalho 


está tão frio

e eu estou tão triste

um homem segue

pela rua gelada

e a sua alma está

mais gelada engelhada

que a rua deserta

as sombras tristes

espiam frias pelas

frestas das venezianas

nesgas de luz geladas

conspiram das caladas

dos calabouços

o homem triste

acende um cigarro

que não fuma

e segue só

e o homem

triste sou eu

e o homem

triste sofre

o sol e

o sal

de suas

dez desgraças

é triste como

o canto/pranto

do galo gago gogo

alçado dos alçapões

pelas madrugadas geladas

cheias de neves e geadas

é triste como

o ladrar de

um cão cãozinho de

um cão sozinho

nas noites negras

nas noites nada

e a neve cai

e a neve caia

os túmulos e os ciprestes

e a neve é nave

por onde trafega

a res/ins/piração

do homem só

do homem pó

mas a neve

não é nada

o que é tudo

é a tristeza

que perscruta

dos esgotos

que espia

dos desgostos

(a solidão é uma aranha

tecendo teias de saudade

onde ela própria se enleia)

e o homem

triste sou eu

e o homem

triste acende um cigarro

que sequer fuma

e segue em sua

grande solidão

de gênio e de cabotino

e de louco três vezes tresloucado

e nada não

e nada não denuncia

ou anuncia sua presença

apenas ele

contempla a solidão

do nada absoluto

do nada só luto

do nada soluço

e segue só

sobre as cinzas

do nada e do não

do apocalipse

do após calipso

e este homem

é um deus

que se construiu e se destruiu

à sua imagem e (des)semelhança

e o seu grande ne’gado

e o seu grande le’gado

será a certeza de sua morte

e este homem sou eu: poeta/profeta

e jeremias chorão

e hão de chorar

sobre o meu choro/coro

e hão de cantar

sobre o meu canto/pranto

mas apenas eu estarei

de pé sobre as cinzas

do caos/cão e do nada

e seguirei sempre só

sobre e sob o signo da solidão

que será o meu sinal

e eu serei

o suor e

o sal e

o sol de

minha própria

girasolidão  

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Tributos à Cidade Natal

 


Veja o link do site onde se encontram esses vídeos: https://www.youtube.com/channel/UChVPY4I9bHHAsIDjcNw-0AA

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

VÁ TENTAR ENTENDER OS MEANDROS DA POLÍTICA ELEITORAL

 

Fonte: Google/Blog Rabiscos do Antenor


VÁ TENTAR ENTENDER OS MEANDROS DA POLÍTICA ELEITORAL

Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                 

          Começarei citando frase, filosoficamente feliz, que estampou primeira folha de um matutino local, dia desses: “o maior castigo para quem deixa de votar não está na lei”. Fato é que, infelizmente, muitas vezes, entre o que a filosofia afirma e o que a realidade confirma, há considerável distância. Ousaria asseverar que, não raro, um dos grandes castigos para quem vota reside ou está no próprio voto dado.

                Quem nunca, pensando que estivesse certo e convicto de tomar a providência ideal, depois de votar segundo sua consciência, pesarosamente ou não, constataria haver votado na pessoa errada? Aquele que prometia a solução para o que você tanto buscava e queria, acabaria ampliando a lista de problemas, criando alguns para situações resolvidas.

                Somos corresponsáveis pelas consequências resultantes dos atos exercidos por aqueles que ajudamos a colocar nos palácios governamentais e parlamentares, se, sabidamente, a partir de sua história, dos princípios defendidos, pública ou, reservadamente, não deixavam margem de que viriam a ser incompatíveis com os cargos pleiteados. Por outro lado, se as ações tomadas pelos cidadãos que elegemos não são compatíveis com o que deles esperávamos, tomando, também por base, sua vida pregressa, suas atitudes cotidianas, enfim, sua história de vida, isso exime de nós alguma culpa; afinal, teriam sido eles que mudaram seu modo de ser e de agir, coisa que, ao longo do tempo de conhecimento ou convívio, não nos haviam dado qualquer indicação ou pista de que poderia acontecer; todavia, infelizmente, isso não nos livra nem isenta de haver, sim, cometido um involuntário erro político, por cujas consequências seríamos, de algum modo, responsáveis.

                Agora, o arrazoado com o qual pretendo encerrar esta fase da arenga: se há que se falar em castigo para o eleitor, ideal que não o apenemos por fatos cujas consequências legais extrapolem o alcance do ato de votar ou não; tampouco, tal castigo pode redundar em descabidas insinuações morais. Votar não é fácil, pois, ao mesmo tempo, significa exercer um direito e cumprir um dever, coercitiva e compulsoriamente exigido por lei; o acerto ou erro cometido no exercício de esse direito-dever é plenamente escusável, porque praticado por seres humanos. Ou seja, tanto erramos de boa-fé, em confiança, quando damos nossos votos a quem nos parece o melhor para cuidar do governo e do parlamento; quanto de má-fé, corrompidos, iludidos ou enganados, ao alçarmos bandidos ou criminosos à condição de governante ou parlamentar. Enfim, diante de realidade política que mais nos aflige do que tranquiliza, como a que vivenciamos, não me parece digressão afirmar que, eleitoralmente, tanto erra quem desobedece a lei e não vota, quanto acerta o que a obedece e vota. Benefícios e malefícios político-eleitorais há, nos dois casos.

                Ainda sobre eleição, processo eleitoral e quizumbas semelhantes. Alguém que nunca teria sido obstado de participar das eleições que quis, mesmo jamais fazendo campanha eleitoral proativa, pois sempre aproveitou o pouco tempo que lhe foi reservado na mídia para espezinhar parlamentar, governante ou candidato tal ou qual; atacar as instituições e as normas eleitorais de tolherem direitos, cortarem oportunidades, dificultarem a disputa, soa, demagogicamente, falacioso. Por que insistir, então, teimosamente, em uma quimera, uma utopia irrealizável? Ora, porque as normas eleitorais permitem-no.

                Fui, até onde julguei conveniente e não localizei, nas normas eleitorais e partidárias visitadas, nenhum óbice legal à mulher, de qualquer cor, credo ou condição financeira, de se filiar a um partido político, disputar as convenções para escolha dos candidatos da legenda e, uma vez selecionada, partir para a batalha de conquista dos votos que a levariam às casas governamentais ou parlamentares. Assim, ainda que se tratando de anteprojeto de lei, parece, mais que demagógico e hipócrita, descabido, um que pleiteia reserva de cinquenta por cento nas cadeiras nos parlamentos às mulheres – e, já segregativamente, separa metade desse percentual para as de cor negra –, além de destinar-lhes o dobro dos recursos financeiros eleitorais atribuídos aos homens. Também não vi, li nem tomei conhecimento de que algo as impedisse de, no caso de serem, legitimamente eleitas, ocuparem todas as vagas disponibilizadas por seus partidos.

                Por fim, quem o tribunal regional eleitoral espera que vá votar nas próximas eleições municipais se, a fim de garantir a lisura do pleito e a segurança total nos locais de votação, convoca representações do exército, polícia federal, rodoviária federal, militar e civil estaduais, guardas municipais e corpo de bombeiro? Eleitores cidadãos ou uma reca de bandidos e arruaceiros? Vá tentar entender os meandros da política eleitoral, e boa sorte.   

A Bala e mitra

 



A Bala e mitra


Carlos Rubem

Articulista e cronista

  

A trágica morte de Dom Expedito Lopes, Bispo de Garanhuns-Pe, perpetrada pelo seu subordinado hierárquico, Padre Hosana de Siqueira e Silva, Vigário de Quipapá, causou repercussão internacional. Em Oeiras, a fatídica notícia envolvendo o primeiro Prelado de sua Diocese motivou estupefação, claro! Caracterizada como martírio. Imitou o Divino Mestre. Pediu perdão para o seu algoz.

 

Daí muitos rebentos receberam o seu nome. O então povoado Cabeço, ao ser elevado à condição de cidade, foi batizado com o seu nome em homenagem ao desditoso Príncipe da Igreja. O mano João Henrique foi instado a celebrar a sua primeira comunhão na catedral onde se encontra sepultado os restos mortais do venerando Antístite, naquela serrana urbe. Pagamento de promessa para a satisfação da tia Mirista & Cia, por graça alcançada. Morri de inveja porque não fui a este passeio, num caminhão da ANDA.

 

O Padre Hosana era resoluto, egolatrista. Psicopata de personalidade fanática e litigante, segundo laudo médico-legal. Embora admoestado por Dom Expedito, não se rendia às prescrições canônicas. Como natural, decretou-se-lhe a sua suspensão “a divinis”.

 

O móvel do crime, em síntese, reportava-se “as malévolas e graves suspeitas que pairavam sobre a conduta moral da mulher, de nome Quitéria, que o homicida conserva em sua companhia há dois anos”. Em verdade, provas concretas inexistiam.

 

Sacerdote disciplinado, Dom Expedito asseverava: “Eu cumpro ou faço cumprir a lei. Não posso transigir na observação de minhas atribuições. Executo aquilo a que me autoriza a igreja”. A sua sorte estava lançada. Homem simples, afável, criativo.

 

Naquele dia aziago, o Padre Hosana dirigiu-se ao Paço Episcopal. Acionou a campainha. O Senhor Bispo veio abrir a porta. Surpreendido – e não à traição como indica o libelo acusatório, no nosso franco entender – foi alvejado com três disparos de revólver, certeiros. Faleceu horas depois em decorrência dos ferimentos recebidos.

 

A pesquisadora pernambucana Ana Maria César lançou o livro A Bala e a Mitra, ensaio acerca do crime em apreço. Obra que suscita curiosidade insopitável. Trabalho exaustivo, elaborado por profissional que bem sabe garimpar informações. Em nota introdutória, a autora questiona: “E ainda hoje se pergunta o que teria levado um sacerdote a infringir um dos mais graves mandamentos da lei de Deus. Quem era o padre Hosana? E Dom Expedito? Que fizera para impulsionar o seu pároco a imolá-lo?” Para logo apresenta profundadas e incontestes explicações sobre o badalado delito. O leitor sente-se gratificado. Vale a pena embrenhar-se nessa leitura instigante, objetiva, veraz.

 

Sobre a obra, o jornalista Waldemar Lopes assim expressou-se: “é um bom de modelo de como se fazer História. Com o gosto obstinado da pesquisa, empenho sem cansaço na busca da verdade, a total isenção em face a realidade dos fatos, o senso crítico sempre acima da deturpação das paixões”.

 

A Bala e a Mitra o tenho por empréstimo. Não pretendo devolvê-lo ao seu legítimo dono. Agregou-se à minha pobre biblioteca. Assiste razão ao Marquês de Maricá: “Livro emprestado no Brasil é filho pródigo que não volta jamais à casa paterna”.

 

O processo criminal, corretamente, foi desaforado de Garanhuns para o Recife. Padre Hosana submeteu-se por três vezes a julgamento perante o Tribunal do Júri Condenado, foi-lhe aplicado a pena de 19 anos de reclusão. Em 1968, concedeu-se-lhe livramento condicional. Os dois anteriores julgamentos foram anulados.

Após o primeiro veredicto, sob o argumento da legítima defesa do honra, o Padre Hosana “lembrou cavilosamente, que o Papa Pio XII, quando Núncio Apostólico em Munique, manteve a seu lado durante 19 anos, a irmã Pasqualine, que tinha inclusive acesso aos seus aposentos. Assumindo a Santa Sé, a irmã Pasqualine continuou a viver com o Papa, sem que este fosse acusado de manter concubinato com a freira”.

 

Dias imediatos ao assassínio de Dom Expedito, o Desembargador Pedro Sá, aposentado, encontrou-se por acaso com o Prof. Possidônio Queiroz em frente à Igreja de N. S. da Vitória, em Oeiras. Dito magistrado, formado pela Faculdade de Direito do Recife, em 1913, era agnóstico, sarcástico, referiu-se a um outro fato histórico que assemelhava com o crime em tela. Disse que no final do Século XIX, o abade de Galeoti Cotelha, utilizando-se de um revólver, ceifou a vida do bispo de Madri, Dom Isquierdo.

 

E acrescentou: – Pois é, seu Possidônio, padre só mata bispo com três tiros: é pai, é filho, é espírito santo!   

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

ARCA DE NOÉ IV

 

ARCA DE NOÉ IV

  

Vitor de Athayde Couto

Professor, cronista e ensaísta

 

Passados 40 dias, os bichos aguardam dezembro. O incêndio será debelado pela chuva, sobre cinzas – onde jaz o bioma extinto. As antigas riquezas soberanas do Brasil foram totalmente cremadas. Algumas formigas e cupins, animais resistentes e adaptados a todo tipo de monocultura, desastres e crimes ambientais, ainda resistem no sub-solo. Mas o seu esforço já parece ser inútil, para tristeza do tamanduá-bandeira.

  

Em todo entardecer, o papagaio-verdadeiro repete, até o recolhimento de Tupã ao seu leito, para todos ouvirem: acabaram com a saúva, com a saúde, e com o Brasil!

  

Apesar do estresse do confinamento sobre as águas, a disciplina dos bichos embarcados é impressionante, salvo algumas escaramuças envolvendo veganos, outrora predadores, e, agora, recém-convertidos. Tudo é novidade no novo tempo pós-anormal. Ninguém nunca tinha visto onça pintada vegana, almoçando chibé com pimenta na cuia de meia cujuba. Nem tamanduá sugando farelos de rapadura, sonhando com formigas.

  

Mesmo ao largo, ainda se pode vislumbrar o último reduto de oficiais da Marinha. Maltrapilhos e sujos, eles fogem dos porões do Arsenal. Ali, durante décadas, estiveram prisioneiros, acorrentados. Na caserna, eles só viam sombras projetadas nas paredes. Do lado de fora, a luz dos incêndios cega os seus olhos. Tentam voltar, mas, no interior da caserna, o calor é infernal. As correntes queimam e ferem a sua pele, nos pulsos e tornozelos. Não resistindo à luz (o conhecimento), todos começam a morrer lentamente. Essa tragédia nacional, conhecida como “o mito da caserna”, será muito debatida no futuro, em lives de filósofos brasileiros pós-anormais. Mas, segundo Mãe Divina, não haverá solução para a sociedade, se depender das atuais gerações. Não resta dúvida, é mesmo briga de santo. E briga de santo tem resultados sempre imprevisíveis.

  

Perto do fogo que destrói a mata ciliar, a água do rio ferve. Glória a Manitu, os peixes são inteligentes. Eles buscam água fresca longe das margens, e se afastam do óleo que suja as praias. Assim, nunca falta comida para os bichos confinados, munidos de redes e anzóis, conforme Ching havia recomendado durante a armação da expedição “Anime”. Só não tem arroz, nem feijão, nem milho… É que o governo mandou fechar a divisão de subsistência e desativou os estoques reguladores do hospício usado como arsenal. Em vez de grãos, o governo estocou arminhas e glifosato. Infelizmente, isso não alimenta ninguém, nem apaga incêndios nos biomas ameaçados de extinção.

  

Na cabine de comando do rebocador, Ching mira o envelope que ainda permanece lacrado sobre o moquém, desde que o mico-leão voltou para a Bahia. Ele não faz ideia do seu conteúdo. Sabe apenas que é endereçado “aos bichos”. No lugar do remetente lê-se “Mãe Divina”. O mico-leão recomendou a sua leitura somente após 40 dias mais 40, quando as florestas estiverem totalmente cremadas e só restarem cinzas.

  

Foi numa quarta-feira de dezembro, mais precisamente no dia 4, que os bichos, reunidos em assembleia, assistiram à abertura do envelope enviado por Mãe Divina.

  

Na estação das chuvas, todos sentem frio. Não há mais solo, só chão sem vida, parece tabatinga, mas é só uma lama de cinzas. Na falta de lenha para aquecer o ambiente, os bichos agora dormem em grupos, bem juntinhos. Na terra não há mais predadores nem predados, para o agrado de Tupã. Todos se alimentam de peixes.

  

O envelope contém um papel escrito com pouquíssimas palavras. Edwiges, único bicho alfabetizado em inglês, por ter freqüentado a escola de uma ONG ambientalista, lê a carta globalista de mãe Divina, e traduz para a assembleia silente.

  

(Continua)   

Escurinho, o craque sem chuteiras


Caiçara Esporte Clube - Vice-Campeão Piauiense de 1963    Fonte: Portal Líder



Escurinho, o craque sem chuteiras


José Ataide Tôrres Costa Filho

Memorialista e cronista

 

Ainda criança, morando em Campo Maior, conheci Francisco das Chagas Santos Pereira, nascido em 20.10.1941, na cidade de Buriti – MA, antiga Buriti de Inácia Vaz, tendo se imortalizado pelo belo e ágil futebol que jogava, com o apelido de Escurinho.

Escurinho chega a Campo Maior no início dos anos sessenta, levado pelo Sr. Francisco Barros (Chico Barros), campomaiorense, membro da diretoria do Caiçara.

O Sr. Chico Barros trabalhava com caminhão, fazendo transporte de cargas e em uma de suas viagens para o Maranhão parou para descansar na cidade de Buriti de Inácia Vaz, onde estava ocorrendo uma “pelada” no final da tarde, e observou um determinado jogador, um jovem garoto de pele escura (daí o apelido Escurinho), jogando com uma habilidade inacreditável para alguém daquela isolada localidade.

Após o final da “pelada”, Chico Barros, fazendo as vezes de olheiro, procura o jovem craque e o convence a ser levado para jogar em Campo Maior, no Caiçara Esporte Clube, time da primeira divisão do Campeonato Piauiense.

A chegada de Escurinho, ainda um jovem de 18 anos, em Campo Maior foi envolta de muita euforia por parte da torcida caiçarina, todos empolgados com o jovem craque e com a esperança de bons frutos para o “Leão da Terra dos Carnaubais”.

Marcado o primeiro treino, o estádio foi lotado pelos curiosos torcedores, todos ávidos para ver as jogadas do novel craque. Começa o treino e já se passam 30 minutos, público decepcionado, querendo ensaiar uma vaia, pois Escurinho não havia jogado nada, a ponto de nem suar a camisa, frustrando a expectativa de todos. Terminada a primeira parte do treino, o Técnico e o Sr. Chico Barros chamam Escurinho para conversar e indagam o que estava acontecendo; procuraram por aquelas jogadas que fazia em terras maranhense. Escurinho informa que nunca havia jogado com chuteiras e que não tinha o hábito de jogar com aqueles coisas nos pés; então pede para tirar as chuteiras, e jogar sem elas. O Técnico permite que jogue sem chuteira na segunda metade do treino e foi um show de bola, chegando inclusive a marcar dois gols.

A contratação foi aprovada, mas a comissão técnica perdeu uns sessenta dias para poder utilizá-lo na equipe principal, até que Escurinho se adaptasse ao uso de chuteiras.

Escurinho ficou também conhecido em Campo Maior como “O menino do Senhor Zacarias”. Naquela época a maioria dos jogadores eram patrocinados por alguns empresários torcedores do Caiçara, e o empresário Zacarias Gondim, proprietário do Cine Nazaré, se propõe a patrocinar o jovem craque, além de lhe servir em sua residência alimentação diária, pagava-lhe um bom salário.

Assume a ponta esquerda do Caiçara, no qual jogou até 1965, e ajudou a equipe em memoráveis campanhas, inclusive no vice-campeonato estadual em 1963.

Em 1966 foi transferido para o River Atlético Clube, em Teresina, a quem igualmente ajudou com seu belo futebol a obter várias conquistas. Retorna ao Caiçara em 1970, e termina seus dias como jogador de futebol no Auto Esporte Clube, jogando no período de 1971 a 1973. Logo depois que deixou de jogar futebol, conseguiu ser enquadrado no quadro de servidor da Secretaria de Educação do Estado do Piauí.

Como falei anteriormente, minha amizade com o Escurinho remonta ao início da década de sessenta, quando ele chegou a Campo Maior. Naquela época a sede do Caiçara (uma casa que servia de alojamento para os jogadores, visto que uma boa parte do jogadores eram oriundos de outras cidades ou estados) ficava bem próximo à minha casa, mais ou menos duas quadras, e toda tarde, quando os jogadores voltavam do treino, paravam na minha casa para beber um boa água gelada.

Foi aí que eu, ainda uma criança, fiz amizade com o Escurinho. Os anos passaram, Escurinho veio para Teresina, eu fui para Fortaleza, e de volta ao Piauí, morando em Teresina no bairro Primavera, no final dos anos oitenta, encontro o Escurinho, depois de umas duas décadas, de modo que pude continuar privando de sua amizade, como vizinho até os dias atuais.

Como jogador, além de ágil e habilidoso, sempre foi um atleta honrado, de atitudes corretas e jogadas leais; como homem simples, que sempre foi, fazia as coisas conforme suas possibilidades e, segundo depoimento de seus filhos, foi um bom pai.

Hoje fui surpreendido com a notícia de que meu amigo de longas datas deu o chute final na longa e brilhante “partida” de sua vida terrena. Com certeza agora Escurinho faz belos gols na grande arena celeste.    

terça-feira, 6 de outubro de 2020

ARCA DE NOÉ III

Fonte: Portal Costa Norte


ARCA DE NOÉ III

 

Vitor de Athayde Couto

Professor, cronista e ensaísta

 

– Viu? É o globalismo! – disse Edwiges, a coruja branca.

  

– Chhh! – fez a plateia. Ching retomou a sua fala, com serenidade:

  

– …meus ancestrais foram vendidos para um circo de Manaus. Toda a família é circense. Nasci no circo, entre palhaços. Quando proibiram espetáculos com animais silvestres, uma ONG ambientalista me adaptou para viver na floresta. Confiem em mim. De palhaços eu entendo. No circo conheci até aqueles sem graça, que disparam fake news e falam três vezes antes de pensar. Mas, vamos lá! Os castores cortam, e os rinocerontes arrastam os troncos até o rio. Na água, as lontras formarão grandes balsas…

  

– Ei, péra! – interrompeu Cam, um velho camelo, ator da SSBT. – Vocês sabem, eu fui protagonista, tanto do Velho quanto do Novo Testamento. No Natal, transportei até reis.

  

– Grande coisa. Eu transportei o Menino Jesus, pá! E até Nossa Senhora!

  

– Tudo bem, seu jumento! – resmungou Cam, e continuou – Ante o dilúvio, Noé adotou outra estratégia: construir a sua arca em terra. Quando as águas subiram, fizeram a arca flutuar. Mas aqui é o contrário. Será um “dilúvio” de fogo. A água é que vai nos salvar. Precisamos fugir da terra, antes que as queimadas atinjam nosso território. Precisamos de um grande estaleiro dotado de trilhos para que a arca, já pronta, deslize até o rio.

  

Ching pensou… mas, sem ter uma resposta pronta, devolveu a dúvida para a assembleia. Foi aí que Cascudão, um jacaré-açu, pediu a palavra. Calmamente, fez-se ouvir:

  

– Vejam, eu não tenho nada com isso. Posso me virar sozinho na água. Meu problema eram só as piranhas, mas eu fiz um curso numa ONG ambientalista estrangeira. Eles me ensinaram a nadar de costas. Não preciso de arca. Mas… peraí! Em vez de arca, por que não fazemos um comboio de ajoujos? É só amarrar várias igarités, do tamanho que os elefantes possam transportar até o rio. Uma igarité de cada vez. Eu, Ana Conda, Tucuxi e o Poraquê rebocaremos o comboio. Ana jurou que não vai comer a gente (risos).

  

Aprovado e feito. Em sete dias, o formidável comboio de igarités estava concluído, abastecido e atrelado ao rebocador “Anime”, que dá nome à expedição de salvamento. No fim do comboio, os “cunágua” guardam a mandioca seca e outros mantimentos numa enorme balsa de buritis, protegida pelas três armas: as onças-pintadas, os jacarés e as harpias. Assim, a defesa é garantida por terra, água e ar. O plano de navegação também foi definido. Nadando no escuro da noite, à frente do rebocador, o Poraquê mostra ao piloto as correntezas mais profundas do rio, com o brilho de suas descargas elétricas de até 1.600 volts. Na cabine de comando, aves de rapina, com excelente visão noturna, revezam-se com um casal de coelhos-do-mato, que têm boa visão diurna.

  

Começa o embarque. Só entra um casal de cada espécie animal. No fim da fila, dois barés, infiltrados, aproximam-se da rampa de acesso, Ching, que fazia a triagem, gritou:

  

– Ei! Vocês, não!

  

– Por quê? – perguntou o baré macho, sem poder controlar o nervosismo diante do líder.

  

– Porque vocês são humanos. Os humanos são os responsáveis pela destruição do bioma amazônico. Agronegócio, garimpos, madeireiras, comunidades, até aldeias inteiras, tudo será cremado no grande incêndio de outubro. Os criacionistas farão na Terra um estágio para resistir ao fogo eterno, sem direito à morte. Quanto aos evolucionistas, terão que esperar milhões de anos para dominar o planeta outra vez. Mas, não se preocupem. Eu tou com a macaca. Esta é Ling, minha fêmea. Eu e ela faremos tudo de novo. Faremos muitos macaquinhos ChingLings. Até a chegada do primeiro Australopiteco, que será o messias da nova temporada da SSBT, o mundo será dominado pelos bichos. E por todo esse tempo não haverá mais incêndios criminosos. Nem omissões.

  

(Continua)    

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Conversa virtual sobre literatura e teologia



DIÁRIO

[Conversa virtual sobre literatura e teologia]

Elmar Carvalho

05/10/2020 

Por estar um pouco indisposto, ou seja, com um pouco de preguiça para escrever, vou aproveitar para o registro diarístico de hoje o que conversei por WhatsApp com o poeta e juiz Weliton Carvalho, maranhense de Santa Inês/Bacabal, mas radicado em Timon, em cuja Comarca trabalha, e em Teresina, onde mora e leciona (UFPI). Farei apenas pequena revisão ortográfica e gramatical, bem como corrigirei, se for o caso, eventuais e evidentes erros materiais. Também farei pequenas intervenções, para que as falas fiquem alinhavadas, e não soltas, e, se houver necessidade, adicionarei algum esclarecimento. Deixemos de delongas, e passemos à conversa, ocorrida no dia 4, domingo:

Weliton Carvalho: “Elmar, uma coisa que gosto na sua poesia são as imagens inesperadas....aqui o vídeo como quer ler o poema. Muito legal. Meu irmão, a gente que vem do interior carrega a poesia nas coisas mais simples e verdadeiras. Coisas que só se encontram na província...” Ele comentava o vídeo Barras das Sete Barras, editado pelo poeta Claucio Ciarlini, com imagens colhidas na web, e que se encontra disponível no You Tube. No videoclipe eu leio o poema de igual título.

Por áudio, que não irei transcrever, elogiei uma leitura que ele fez de seu poema Chico (que se encontra postado no site https://www.welitoncarvalho.com.br), em homenagem a São Francisco, ao papa Francisco e a todos os Chicos, tendo ele me respondido o seguinte:

“Obrigado. Não costumo ler ou declamar meus poemas. Mas abri uma exceção ao Chico. Sou devoto do Santo e de sua linhagem...Padre Pio, Dom Helder....É um poema verdadeiro...a verdade é  aquilo que elegemos como matriz de vida. A verdade é sempre uma convenção. A única verdade possível é Cristo...então a verdade só habita na teologia. Paz e Bem.”

Weliton não disse, mas digo eu: há Chicos e Chicos; há Chicos que pela vaidade, ostentação e empáfia não têm nada de Chico. São na verdade anti-Chicos. No máximo se prestam a um bom fu-xico, já que existem Chicos que preferem grafar o apelido com X, não sei se em busca de originalidade ou de economia.

Ainda me referindo ao vídeo, esclareci: “Acho que o meu depoimento lírico-afetivo sobre Barras, que já lhe mandei, explica um pouco o poema. Você é um bom observador. Poderia escrever, se o desejasse, bons textos de crítica literária. Bom domingo.” Por oportuno, informo que esse depoimento pode ser encontrado no You Tube, fazendo parte da série Tributo à cidade natal, organizada pelo poeta e professor Dílson Lages Monteiro.

Weliton Carvalho: “Amigo Elmar, não digo isso a todo mundo... mas confesso que os escritores de ficção e, sobretudo, os poetas, mesmo quando ateus ou agnósticos, estão sempre a serviço de Deus, exatamente por espalharem beleza pelo mundo. Ninguém chega a Deus sem sensibilidade. A arte, sobretudo a arquitetura e a pintura foram as maiores aliadas do cristianismo. Penso portanto: o poeta é o mais profundo testemunho de Deus, ainda quando o tente negar.”

Em outra postagem, Weliton Carvalho acrescentou: “Vou lhe dar um exemplo: Drummond era agnóstico. Escreve o poema Consolo na praia. Um alemão decidido a se suicidar lê o poema e desiste. Escreve a Drummond narrando o fato. Veja a força da poesia. A poesia não tem uma finalidade prática imediata a não ser a de comover. E, às vezes, comover é tudo do que se precisa.”

Na minha resposta em áudio, eu disse que às vezes eu leio um pouco de teologia, em busca de Deus ou de tentar me aproximar mais Dele. Falei também que em meus momentos de dificuldades, gosto de fazer leituras edificantes, para o meu fortalecimento espiritual. Acrescentei que com esse mesmo objetivo, faço uso dos livros bíblicos Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Sabedoria e Jó. Aduzi que em busca de tentar melhor conhecer o Supremo Criador, li a obra Quem é Deus – elementos de teologia filosófica, de Battista Mondin, que pretendo reler, tendo ele me dito “vou adquirir a obra indicada”.

Complementei o que havia dito a seu respeito: “É um livro muito interessante e profundo, mas sem ser sibilino ou hermético. Felizmente para mim, tenho o consolo da Fé, e dentro do possível e sem fanatismo tento me ligar em Deus, tento sentir a sua inefável presença, e, às vezes, a sinto através de um sutil toque de brisa ou de um harmonioso voo de pássaro. Em meus momentos difíceis, orei e sempre tive resposta e a resolução do problema que me afligia, muitas vezes da maneira mais simples e inesperada, mas sempre eficaz.”

Posteriormente, comentei o que ele falara sobre Drummond: Acrescento, com relação ao que você disse, que Drummond foi um homem ético e correto, como ser humano e como funcionário público. Machado de Assis também era agnóstico, mas a Bíblia era sua leitura constante. E também foi um homem bom.

O caro amigo e poeta Weliton Carvalho concordou comigo: “Caro amigo, o fanatismo religioso é, em essência, a negação de Deus, exatamente por se estribar na intolerância. Pois é... e tanto Drummond quanto Machado, sem esta intenção, apontaram os nossos erros... os erros dos cristãos em contradição com Cristo. A literatura tem também este papel de apontar contradições... Saudades suas, porque o seu papo seduz tanto quanto os Cânticos.... kkk. Ótimo domingo.”

Honrado com as suas palavras, mas também por ser de justiça, dei a seguinte resposta, com a qual encerro esta crônica feita a duas ou quatro mãos, conforme o leitor entenda que para escrever utilizemos apenas uma ou duas mãos: “Vou incluí-lo em minha Seleta Piauiense, espécie de antologia virtual que venho construindo em nosso blog há alguns anos. Para isso, peço que me mande seu ano de nascimento. A seleta segue a ordem cronológica de nascimento dos antologiados. E vai fazendo o rodízio nas publicações subsequentes.”

O poeta e magistrado me mandou a data de seu nascimento, e eu lhe informei que a Seleta Piauiense é publicada aos domingos, com uma ou outra eventual falha, que ninguém é de ferro, notadamente nestes tempos de pandemia.  

sábado, 3 de outubro de 2020

Barras das Sete Barras

 


ARCA DE NOÉ II

 

Fonte: Portal Costa Norte

ARCA DE NOÉ II

 

Vitor de Athayde Couto

Cronista e ensaísta

 

Percebendo que não tinha mais o que fazer ali, o mico depositou um envelope lacrado nas mãos de Ching e se despediu dos bichos, com estas palavras:

  

– Dimêrma, só me resta desejar muito axé. Como a inspiração já transpira em mim, preciso voltar. Millôr Fernandes já dizia: baiano é quem nasce na Bahia, vai embora, e depois fica dizendo que está com saudade, querendo voltar. E é o que vou fazer agora. Fui, bandamel. Avisalá!

  

E assim, o mico-leão abriu suas asas de anjo e deixou a Amazônia. Sabendo que todos os biomas brasileiros estão ameaçados de extinção, pediu proteção a Ya-cy e seguiu sua missão: ajudar os bichos da Mata Atlântica, dos Cerrados, do Pantanal, dos Tabuleiros, das Restingas, das Matas de Cocais… Na Caatinga já não há mais o que queimar, mas o seu instinto primitivamente animal insiste em repetir: “faz a tua parte e confia”.

  

Com sete dias, um gavião-pinhém trouxe da Bahia um livro e notícias de Mãe Divina. Noticiou que o mico chegou bem, com saúde, sob a proteção de Ya-cy. Naquele mesmo dia, Ching leu “A revolução dos bichos”. Logo em seguida assumiu assumir o comando, dando início à sua missão, pois os “raios de abril” não avisam quando chegam. Ao perceber que muitos bichos tinham acreditado na fake baré e fugiram, determinou que apenas um casal de cada espécie ali presente se inscrevesse e participasse da construção da arca, com direito a embarcar. Naquele momento, viu-se um raio muito brilhante em pleno meio-dia. Seguiu-se um estrondo. Todos correram; uns, para a esquerda, outros, para a direita da trilha, cada um conforme a sua ideologia. Assim ficou provado que no incêndio da floresta todos os bichos se unem… menos no Brasil.

  

Acalmados os ânimos, Ching conseguiu estabelecer uma divisão animal dos trabalhos, separando sub-grupos por espécie, aptidão e força física.

  

Do alto do telhado do hospício, ops, do Arsenal da Marinha, agora transformado em oficina, Ching dava as ordens:

  

– Atenção, pica-paus-anões! Marquem as madeiras adequadas para a construção naval, entendido? Procurem as Copaíbas. Elas são oleosas e resistentes, inclusive ao bicho turu, o terrível cupim-do-mar. Bacuri também é boa madeira. Suas tábuas curvam-se ao fogo. Vi muitas dessas árvores perto dos rios Acará e Caraparu, o que já facilita o transporte dos troncos até aqui. Os castores cortarão…

  

– Olha! – disse a coruja Edwiges.

  

– O quê? – perguntaram todos.

  

– Um gnomio! – a assembleia riu litros.

  

– Como eu estava dizendo, os castores…

  

– Castores? Já não bastava mico-leão, chimpanzé e ratão do banhado? – interveio uma araracanga, indignada com a invasão de tantos estrangeiros na Amazônia. E tem mais: o que essa coruja australiana tá fazendo aqui? E o gnomio? Fazem parte dessa invasão de ONG nórdicas, com seus serezinhos metidos a protetores da floresta? Olha! Olha lá! Acabou de passar um leprenchau correndo atrás de um lutin. Não duvido se aparecer um duende falando espanhol, querendo mandar em todo mundo. E sempre zangado!

  

Enquanto a araracanga estava uma arara, Ching, sem perder a calma, retomou a palavra:

  

– Sim, são todos bem-vindos. Por que não os castores? – e prosseguiu, sem hesitação, com voz muito firme – Eu sou manauara, com muito orgulho! Pertenço à quarta geração de um casal de chimpanzés que embarcaram na Guiné-Bissau. Meus ancestrais foram vendidos para um circo…

  

(Continua) 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O Piauí no STF

Antônio de Souza Mendes


Antônio de Sousa Martins

Firmino Paz


Evandro Lins e Silva

Aldir Passarinho

Kássio Nunes Marques


O Piauí no STF


Carlos Rubem Campos Reis

Promotor de Justiça e escritor


O primeiro piauiense que tomou assento no Supremo Tribunal Federal foi Antônio de Sousa Mendes (1823 - 1905). Esteve à frente do STF por curto período, ou seja, de 28.02.1891 a 06.05.1892.


Antônio de Souza Martins (1829 - 1896) foi  o  segundo piauense, nascido em Oeiras, como aquele, de quem era primo, que integrou aludido colegiado. Ambos formados em Direito pela Faculdade de Olinda, em 1848 e 1853, respectivamente. Filho bastardo de Manoel de Sousa Martins (1767 - 1856), o Visconde da Parnaíba, que governou o Piauí por quase 20 anos.


Depois deste dois acima referidos, quem também exerceu este mister foram Evandro Lins e Silva (1912 - 2002), parnaibano; Firmino Ferreira Paz (1912 - 1991), teresinense e Aldir Passarinho (1921 - 2014), florianense. Este último tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, em 1997, ao ensejo do centenário de emancipação política de sua terra natal. Batemos longo papo no Hotel Rio Parnaíba onde estávamos hospedados. Homem simples, conversador fluente.


Hoje (02.10.2020), o presidente Bolsonaro indicou o Desembargador Federal Kássio Nunes Marques, teresinense, como substituto do Ministro Celso de Melo junto à suprema corte.


Notícia alvissareira que enche de orgulho a todos os nativos desta “terra querida, filha do sol do equador”!  

O meu coração ficou preso no campo

José Francisco Marques

Compositor, instrumentista e cronista


Três rumos

 


Três rumos


Pádua Marques

Romancista, cronista e contista

 

Tião Saracura, Ribinha e Beija Flor estavam ali de cócoras naquela manhã de janeiro em cima dos alicerces de uma construção e olhando pra o escritório da Booth Line na rua Grande, sem ter ninguém que pudesse dizer o que havia ocorrido pra empresa estar fechada a uma hora daquelas. Mas veio de lá da esquina e dos lados da Casa Inglesa um sujeito com cara de trabalhar ali perto dizendo que a empresa havia fechado suas portas em Parnaíba e era coisa definitiva.

Não era o tipo de notícia que os três estivadores queriam ouvir naquele janeiro de 1947. Como é que podia, uma empresa que estava na Parnaíba há mais de trinta anos, assim do dia pra noite fechar as portas e deixar os trabalhadores no olho da rua, sem nada, com as mãos abanando? Mas havia um motivo e que não era de agora, pelo que se ouvia falar pela boca dos entendidos. A dificuldade de navegação nos canais do rio Parnaíba obstruídos e o porto de Amarração sendo utilizado só quatro meses no início de cada ano.

Tião Saracura, nem negro e nem branco, estivador e pai de seis filhos, sendo que três mortos ainda anjinhos, morava numa casinha de barro na Coroa e trabalhava como estivador há pelo menos uns dez anos pra Booth Line na rua Grande. Agora sem serviço e batendo cabeça pra arranjar alguma coisa pra fazer, com o risco da mulher estar prenhe de novo, ia ter que correr pra o lactário de seu Roland Jacob, na rua do Riachuelo, todo dia buscar leite pra os filhos.

Ribinha era outro estivador que estava na mesma situação. Rapaz mais novo, vindo de Camocim no Ceará, casado de pouco, meio escuro, barba por fazer, de boa altura, a mulher estava prenhe de quatro meses e a mãe dela no fundo de uma rede, caduca, andando e comendo pela mão dos outros.  Um dia a sogra acordou no meio da noite com falta de ar e desde aquele dia nunca mais se levantou. Nem na Santa Casa haviam dado jeito.

Beija Flor, o terceiro estivador a ficar ali de cócoras e em cima dos alicerces da construção do prédio da Associação Comercial, coisa de seu Zé Mendonça, de frente pra Booth Line, até que pouco levava a sério aquela preocupação toda. Vindo rapazinho de João Peres no Maranhão pra trabalhar no porto Salgado, ainda era solteiro. Veio corrido depois de bulir com uma moça e de ser ameaçado de morte pelo pai e os irmãos dela. Tinha agora idade de pouco mais de trinta anos, almoçava nos botequins do Mercado Central e o pouco ganho era gasto com jogos de dama e de baralho. Dormia na casa de um conhecido nos Tucuns.

Tião Saracura, que tinha um sestro de chupar os dentes, coçava a cabeça e esfregava os olhos como se quisesse tirar dos cabelos uma resposta. Como podia uma coisa daquelas? Lembrava e contava a história dele e dos filhos que haviam morrido ainda anjinhos, sem batismo. E ele vivia só de casa pra frente da Booth Line, carregando e descarregando mercadorias. Nem uma roupa tinha que prestasse! A mulher, coitada, coberta de necessidades arrastando aqueles meninos o dia inteiro. E agora mais aquela, a firma inglesa, pelo que se falava, foi embora por causa da guerra.

 

Passa no rumo do porto Salgado um rapazinho bem parecido, vestido como sendo do Exército e com uma bolsa de escola debaixo do braço. Era um estudante do Instituto São Luiz Gonzaga, de seu Ozias Correia. Por certo filho de gente rica. Ia ganhando o rumo da Coroa acertar conta nalgum cabaré. E os três estivadores ficaram olhando e conversando. Que futuro podia ter agora a Parnaíba com a Booth Line fechando as portas? A estrada de ferro continuava seguindo pra dentro, no rumo de Piracuruca, muita gente enriquecendo, outros quebrando e depois jogando a culpa na guerra. Se a Booth acabou, as outras também iam acabar.

Um a um os agora desempregados estivadores foram saindo, batendo a poeira no fundo da calça e tomando rumo ignorado. Aquilo era vida? Mas quem sabe amanhã, de repente vinha outra empresa e retomava tudo, vendia as máquinas, pagava os estivadores, o pessoal do escritório e aí a coisa voltava pra os eixos. Parnaíba precisava de alguma coisa grande e pelo que parecia agora essa coisa estava ainda longe. Dentro de pouco a rua Grande foi ficando silenciosa no rumo do porto na hora do almoço.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Maldição





Maldição

Carlos Rubem

Não sei precisar a data, mas acredito que tenha ocorrido em janeiro de 1974. Naquela manhã, Oeiras despertou perplexa ante a aziaga notícia de um roubo na Igreja de N. Sra. da Vitória. Dentre outros objetos de valor imponderável, afanaram o resplendor de da imagem de Bom Jesus dos Passos e candelabro fixado na Capela do Santíssimo Sacramento. Ambas peças de prata de fina concepção.

Encerrada a missa das seis horas, todo mundo veio comprovar o verdadeiro crime cultural. Indignados, olhavam os locais onde deveriam estar os dois seculares bens. Um sacrilégio, diziam. Lamentações eram ouvidas!

Quem os teriam surrupiado?...

A versão acorde apontava para três visitantes que aqui chegaram no dia anterior, à tardinha. Hospedaram-se no Hotel de Cabeceira, localizado poucos metros do venerando templo. 

Certamente um dos larápios se escondera no interior da velha matriz após a missa noturna. Lá pelas tantas, um automóvel foi visto estacionado ao lado da amada catedral. 

O terceiro ficou dando apoio logístico aos demais em volta da rancharia. Se fosse mais vivaz, o guarda municipal Sebastião Brinquedo teria desconfiado de alguma coisa. Conversou amenidades, comprou cigarro para um deles, na Bomba. Santa ingenuidade!

Em nenhuma parte da cidade os três profanos foram vistos após o crime. Nem se despediram do Primão, Assis, filho do dono da hospedaria. Lá, aplicaram outro golpe.

Na convidativa sombra do Palácio Episcopal (Museu de Arte Sacra, hoje), as pessoas discutiam a respeito deste atentado religioso. Esperanças de reaver tais peças quase não existiam. A polícia, invariavelmente, desaparelhada. Estava tudo perdido! Percebia-se que até a paisagem física indicava desalento. Contínuos dias de revolta. Escândalo... Ora, a lembrança daquele dia é para todos nefanda.

Testemunhei a reação popular. Na minha adolescência foi um fato que muito me impressionou.

Por onde passava, o provecto Sr. José Martins de Sá, ou apenas Zé Sá, um tanto irônico, bradava: – Agora é que vocês estão sabendo que a Igreja está sendo roubada?

Eu não sabia. Exceto o roubo da custódia, em 1809. Recuperada. Só então tomei ciência de outras ocorrências delitivas do gênero. Mas isto é outra história!

Uns dez meses depois deste episódio, li na Veja que um sujeito, fulano de tal Coutinho, baiano, havia sido preso por comandar uma quadrilha que saqueava objetos sacros.

Foi então que me lembrei que no ano anterior (1973), aludida pessoa, cuja fotografia foi estampada naquela revista, esteve em Oeiras. Ciceroneei-o na cidade.

Estava jogando bola num campo de várzea perto da casa do tio Alberto Reis, quando uma Veraneio estacionou. De dentro do carro, um cidadão forte, usando chapéu, me chamou querendo saber onde se localizava a casa de Dona Elisa Nunes. Passei-lhe as coordenadas. Não satisfeito, me convenceu a levá-lo no endereço desejado. Assim o fiz. No trajeto, mediante indagação minha, disse-me que era antiquário e que tomara conhecimento de que referida madame possuía um cofre antigo, coisa que nem sabia.

Dona Elisa, de idade avançada, nos recebeu muito bem. Mostrou a relíquia que possuía. Foi-lhe oferecida vultosa quantia. Na hora em que estava sendo servido café aos visitantes, quis beber um copo d’água. A solteirona se levantou para me servi. Acompanhei-a. Neste momento, disse-lhe que não fechasse negócio sem a concordância de seus familiares.

Dia desses estive na referida vivenda. O seu atual proprietário, Sr. Nunes, me franqueou rever o citado cofre fabricado no Porto, Portugal, em 1583.

Ainda hoje, algo me diz que tenha sido o Sr. Coutinho o autor intelectual do roubo em comento.