terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A ontologia poética de J. L. Rocha do Nascimento




A ontologia poética de J. L. Rocha do Nascimento


Elmar Carvalho


No domingo, às 14 horas, ao retornar a minha residência, recebi da portaria do condomínio um exemplar do livro de poemas Ontologia do Ser, devidamente autografado, que seu autor, o ilustre magistrado J. L. Rocha do Nascimento me havia deixado.

O poeta tem se dedicado sobretudo à contística, na qual tem merecido lugar de destaque, com seus contos breves, às vezes brevíssimos, lavrados algumas vezes em legítima prosa poética. J. L. integrou o grupo de contistas denominado Os tarântulas, do qual também faziam parte o José Pereira Bezerra, Airton Sampaio e Leonam (Manoel de Moura Filho).

José Pereira prestou um relevante serviço à Geração 70 ou do Mimeógrafo, ao escrever seu livro Anos 70: Por que Essa Lâmina nas Palavras?, editado em 1993, pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, quando eu era presidente de seu Conselho Editorial. Em sua contracapa tive a oportunidade de dizer:

“É um livro de capital importância para a plenitude do conhecimento da Geração Mimeógrafo, que se firma como uma das mais robustas gerações literárias piauienses, tanto em termos quantitativo, como qualitativo. Indispensável para a perfeita compreensão do fenômeno literário ocorrido nos anos 70, também conhecido como literatura marginal ou alternativa, pela maneira segura e profunda com que aborda o tema. Vertida numa linguagem enxuta e elegante, esta monografia é um balanço geral e detalhado, senão também uma verdadeira radiografia dessa produção cultural.”    

J. L. é um dos mais notáveis membros dessa geração, mormente como contista, mas também como poeta, o que agora se comprova com essa sua obra poética, recentemente publicada. Em rápida leitura, pude vislumbrar em seus poemas um viés existencialista, assim como um timbre de perquirições filosóficas, em linguagem emocionalmente contida e concisa. Em seus versos perpassam breves e sutis intertextualizações, que podem passar despercebidas a um leitor desatento. Portanto, o contista é também um poeta competente e criativo.

Segue a apresentação do livro, feita pelo seu próprio autor:


Apresentação

Em Sobre os sonhos e outros diálogos, livro que reúne uma série de entrevistas concedidas a Osvaldo Ferrari, Jorge Luis Borges diz que não sabe se existe uma diferença essencial entre a poesia e a prosa, exceto, diz ele, pelo que sustentava Stevenson ao afirmar que a prosa seria a forma mais difícil da poesia. Para ele, Borges, não há literatura sem poesia.

Assim como a grande maioria dos escritores, comecei com os poemas. Tempos depois, fui picado pelo aguilhão da narrativa breve, muito provavelmente pelo fato de pertencer a uma geração de escritores forjada a partir dos anos setenta, época em que surgiu no Brasil um “boom” literário cuja maior expressão foi o conto. Essa, pois, a razão pela qual passei a me dedicar mais à prosa, optando pela narrativa breve. Essa opção, contudo, provocou danos colaterais: o encobrimento do poeta que, como saída, encontrou na prosa poética do contista um modo de se revelar, ainda que indiretamente.

Depois de publicar quatro livros de contos, resolvi que já era hora de compartilhar com o público leitor parte dos poemas que escrevi ao longo dos anos. Muitos deles eu mantive guardados apenas para o meu, digamos assim, “consumo” próprio, o que inclui os familiares. Sobre uma porção bem menor, alguns poucos, raros amigos, tiveram acesso.

Nesse tempo todo, apesar de possuir material suficiente para compor pelo menos três livros, publiquei um único poema, o mesmo que republico aqui como elemento pré-textual: Manifesto, cuja publicação original ocorreu na obra intitulada Descartável, uma coletânea de poemas organizada pelo professor, escritor e poeta piauiense Cineas Santos no longínquo ano de 1979.

Tomei a decisão de colocá-lo neste livro em forma de epígrafe, preservando a redação original, por duas razões. Prestar uma homenagem, resgatando-o, essa a primeira delas. Afinal, se este livro, essa a principal leitura que faço, é um estudo poético sobre o ser e o seu sentido, esse mesmo ser meio que já se revela no poema escrito há mais de quarenta anos. A par disso, tem a função de nunca deixar de lembrar. Sendo certo que o poema deve ser lido no presente com os olhos do passado, não devemos esquecer que num passado bem recente, alguns saudosistas tentaram reviver tempos obscuros. Trata-se, portanto, de um alerta: lembrar para não esquecer jamais.

Ontologia do ser é, portanto, passados mais de 40 anos da publicação de Manifesto, o meu primeiro livro de poesia. Ou pelo menos é como eu o estou chamando. Como no livro predomina o discurso direto, é possível que seja recepcionado como poemas em prosa. Quando não, como prosa poética, o que, de resto, já venho fazendo há algum tempo. Um ou outro não importa, mesmo porque, para lembrar Clarice Lispector, essa coisa de gênero também não me pega.

A propósito, outro escritor que também se mostrou indiferente a essa divisão foi Baudelaire, que, sendo desenganadamente poeta, publicou Spleen de Paris, que ele próprio chamou de pequenos poemas em prosa. Contudo, qualquer um que se atreva a lê-lo ainda preso à rígida classificação de gênero, dirá que são rigorosamente textos em prosa.

No mais, se Mário de Andrade disse que conto é tudo aquilo que o autor chama de conto, por que não dizer que poesia é tudo aquilo que o autor chama de poesia? Mesmo porque, como disse Borges, não há literatura sem poesia.

Para além dessas discussões sobre gênero, creio que, em relação à temática, não há dúvida de que existe um fio condutor comum que atravessa todo o livro: o existencial. Daí se dizer que, em síntese, o livro é um estudo poético sobre o ser e o seu sentido.

Fico então na expectativa de que Ontologia do ser seja bem recebido pelo leitor que, sem muito esforço, perceberá que muito do contista poderá ser encontrado no poeta. O raciocínio contrário também é verdadeiro. E se é verdade que todo ser é o ser de um ente que só existe no seu ser, é possível dizer que, no meu caso, a relação entre o poeta e o contista é semelhante à que existe entre o ser e o ente. Cabe ao leitor dizer quem é quem.

O autor.

Teresina, 19 de fevereiro de 2024.

 

Aproveito para também publicar a “orelha” de Ontologia do Ser:

Ontologia do ser é um livro atravessado por um fio condutor temático comum: o existencial. Na sua maioria, os poemas são uma reflexão sobre a vida, o existir e, de resto, sobre o mundo. Diz-se ontologia porque a sua questão primeira é o ser e o questionamento sobre o seu sentido. Trata-se, em síntese, de um estudo poético sobre o ser e o seu sentido, assim como sobre o modo de ser do indivíduo no mundo no qual foi jogado e sua angústia diante da finitude para a qual nem sempre está preparado. Indicativos desses questionamentos (ou dessa presença) se fazem sentir logo na abertura do livro com o poema Eu e os vários de mim, onde a questão central é a (não)descoberta do próprio ser, e se agudiza em Angústia heideggeriana. Nele, o autor, ao trabalhar com as diferentes dimensões do tempo, diz nas entrelinhas que o maior desafio do ser-no-mundo é fazer com que o presente não seja apenas um tempo estéril sem memória e sem projeto. E é aí que reside a sua maior angústia.

domingo, 26 de janeiro de 2025

VIDA IN VITRO


 

VIDA IN VITRO

 

Elmar Carvalho 

                                                     

andavas pelas ruas de outrora

à procura de ti mesmo

que se encontrava aos pedaços

bêbedo nos bares

aos trancos e barrancos

se arrastando pelos lupanares

tortuosamente andando

pelas ruas tortas.

 

eras infante e juntavas varapaus

no sonho maluco de tocares

a lua cheia que depressa minguava.

 

levantaste a túnica da freira

não por sacrilégio ou impudência

mas apenas para constatares se

ela possuía duas pernas e dois

seios como todas as mulheres.

 

eras infante e quebraste

o joão teimoso, não por maldade,

mas para descobrir o misterioso

mecanismo de sua teimosia.

 

não, não eras doido, não eras lúcido,

eras apenas um translúcido menino.

 

escondias tuas vergonhas, tuas frustrações

e teus medos, como todos nós, como se esconde

lixo debaixo dos tapetes de luxo.

 

recordas a menina que te golpeou

com um não, apenas por capricho e maldade.

 

recordas a garota que te amava

e que desdenhavas talvez por capricho ou vingança.

eras poeta e criaste uma quimérica

amada imortal e imaginária, inatingível

em sua torre de marfim.

ela talvez também te quisesse,

mas a fizeste intocável.

 

enternecido, lembras-te da empregadinha

que bolinaste, e que por bondade, amor

ou desejo não te denunciou, com alaridos

e gritos histéricos, estridentes.

 

eras jovem e te julgavas alexandre

e bonaparte, senão mesmo um deus,

e já seguravas a coroa de ouro e o cetro

e já acariciava tua fronte o louro triunfal.

 

tudo eram conquistas e tudo conquistavas.

 

eras jovem e eras frágil

e te sentias impotente quando

contornavas as calçadas de ouro dos hotéis de luxo

ou quando avistavas a menina rica e bela,

com as suas jóias e as suas roupas elegantes e caras.

não sabias de seus desejos, de suas ânsias

e doenças e de seus nojos de si mesma.

talvez ela te amasse, mas o teu orgulho

a fez afastar-se de ti. 

 

ainda procuras o trolley que desviaste

com teus amigos, para uma aventura sem fim

até que os trilhos paralelos

se tocassem no infinito.

 

ainda assistes a filmes de bang-bang

só para sentires a emoção do tempo

em que teu pai te levava para o reino

encantado e mágico do velho cine nazaré

que em tua memória ainda remanesce.

 

sentes ainda o cheiro dolorido e pisado dos alecrins

da paixão do senhor morto, do horto das agonias,

das chagas vermelhas, maceradas, da túnica

roxa, brilhante, da coroa de espinhos, dos cravos,

não os de cheiro, mas os de ferro, que ferem...

eras infante, então, e como sofreste

e como fizeste sofrer tua mãe, madona,

mater dolorosa e pietá sofrida e consoladora

de teus sofrimentos de então e de sempre.

 

buscas os cheiros embriagantes dos

brancos lírios de são josé e das rosas vermelhas

do velho caramanchão de antigamente.

os lírios se transformaram em cálices

de amargura e nas rosas depositas

o orvalho de tuas lágrimas pelo mundo

perdido num canto escuro do passado

e que não restauras, nem mesmo no

terceiro ou no sétimo dia de tua agonia.

 

a magia da música e dos álbuns de família

te trazem alegres e pungentes recordações

e te fazem viajar no tempo e no espaço

do turbilhão das mesmas emoções.

 

solitário, no silêncio da noite

pensas nos segredos, vícios

e incestos existentes na cidade,

nas feridas abertas pelos mais acerbos sarcasmos

e nos espasmos de brutais e homéricos orgasmos.

 

passeias pelos becos e logradouros do passado

e eles te conduzem ao tempo

que buscas em desespero.  

            

perdido e cego caminhaste pelos labirintos,

teseu e minotauro de teu próprio destino,

nos confrontos que travaste com teu ego.

 

esfinge e édipo, não decifraste

teu enigma, e em vão buscaste

as pitonisas de outrora e de agora,

e inutilmente foste teu próprio ilusionista.

mas eras sábio e em algum momento

te reencontraste, ao te tornares

mais simples e mais puro,

malgrado as pedras, os lodos e as quedas.

 

em vão tapaste os ouvidos

para as palavras que te feriram

e inutilmente selaste a boca

para as palavras ferinas que proferiste.

 

não, não eras anjo nem demônio,

eras apenas um deus de barro

e teu sonho secreto e sagrado

foi sempre a transcendência

mas decepado de uma das asas

foste sempre um anjo torto coxo

capenga no a esmo voo sem pontaria.

 

procuras ainda a pedra azul

de tua serra encardida.

 

esperas ainda no pátio da igreja

o ônibus que sempre vinha

demasiado cedo ou demasiado tarde.

 

lamentas a namoradinha jovem e esbelta

que envelheceu e engordou.

debalde procuras a sua cintura

para ternamente lhe pousares as mãos.

antes não mais a tivesses revisto.

 

ainda buscas a namoradinha

de uma noite de verão – ou inverno,

não importa, nada mais importa agora.

 

caim arrependido, pedes perdão:

já não suportas o onisciente olho do senhor.

 

sofres pesadelo pela matemática

que te torturava, e acordas suado, ansioso.

 

procuras o batente da calçada de outrora

onde te cevaste nos lábios e nos seios da amada.

 

reencontraste a mulher que te amou

sem esperança, em face de tua indiferença,

e chafurdaste em sua carnívora rosa de carne,

talvez para feri-la novamente,

agora com a fúria e com o tédio.

 

devias estar feliz. realizaste teus sonhos

de consumo. tens uma boa mulher.

teus filhos são maravilhosos. tens

um bom emprego. no entanto ainda

não estás saciado. esperas um milagre

mas não sabes se os milagres ainda existem.

 

estás perdido: tens inveja de deus

e não sabes se é virtude ou pecado.

 

equilibrista, caminhas com teus malabares

e alforjes por uma corda-bamba estendida

de menos infinito a mais infinito.

 

caminhas para a morte.

muitos dos teus amigos já são mortos

e te procuram com insistência.

 

infante, desejavas crescer

para realizares os teus sonhos de conquista.

adulto, queres retornar ao país de tua infância.

 

não sabes o que queres.

queres apenas morrer, esquecer.

queres viver eternamente num mundo

que não é o teu.

 

contudo, tens esperança

e agora teces um poema sem fim

com o novelo infinito de tua vida

que se desdobra do nada ao tudo...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

A VELHA E A NOVA CASA


               

A VELHA E A NOVA CASA


Elmar Carvalho

 

Após 25 anos morando na mesma casa, com o mesmo número telefônico, que foi apenas acrescido compulsoriamente de um três antecedendo o prefixo original, me mudei para nova casa. Posso dizer que, dentro do que é possível a um ser humano nesta passagem terrena, fui feliz, a meu modo. Meus dois filhos nasceram nesse período, e, portanto, passaram a infância e a juventude nessa casa. Tive bons vizinhos, dos quais tenho boas recordações e nenhuma mágoa. Espero que a recíproca seja verdadeira, e creio que o seja; pelo menos o Batista Vasconcelos me externou a sua saudade antecipada, quando soube que estávamos perto da mudança.

 

Segundo acredito, o ser humano não é uma obra perfeita e acabada, mas em permanente construção. Somos a construção, e somos, em parte, nossos próprios construtores. Disse em parte, porque muitas coisas que nos acontecem e nos influenciam e nos dirigem e movem não dependem de nós. Os arrogantes e os tolos, não aceitam essa hipótese. Eles se “acham”, e acham que estão no controle e no comando de tudo, quando, muitas vezes, um vendaval transforma em pó tudo que eles construíram.

 

Um minúsculo inseto, ou menos ainda, uma simples bactéria pode nos destruir ou nos arruinar a saúde. Já pouco desejo e já não alimento ilusões, a essa altura de minha vida. Quando cheguei a minha nova casa, disse a minha mulher que não mais me mudarei, a não ser para o campo santo.

 

O Didi, um rapaz bom e simples, que nos ajudava na mudança, e que nos prestava serviços e aos nossos vizinhos durante todo esse tempo no conjunto habitacional onde morávamos, ou por brincadeira ou porque a ideia da morte o perturbasse, disse que pensava eu estar me referindo a uma futura chácara no campo.

 

O homem vem para esse mundo e nada traz, como todos sabemos. Deixa esse mundo e nada leva, como também é evidente, tanto que existe um aforismo que diz não ter bolso a mortalha. Por isso, já não desejo fazer esforços em acumular bens e coisas, que nos dão muito trabalho e despesas, na conservação, reforma, revisões e com os locais em que ficarão, sem falar nos tributos, nas taxas, tarifas e na inveja que, às vezes, provocam.

 

De certo modo, tenho inveja do caracol, que é a sua própria casa, que carrega para onde vai. Não é espaçoso e nem perdulário, ocupa apenas o espaço de seu próprio corpo gelatinoso e compacto. Quando morre, seu corpo sem osso, quase etéreo, quase espiritual, parece evolar-se, deixando a concha limpa e vazia, na qual o mar parece marulhar e murmurar cantigas inefáveis.

 

Como disse, me fui construindo na velha casa, tentando desbastar meus defeitos, e a casa também se foi construindo, se adaptando a novas necessidades, através de ampliações e reformas. Nela moraram nossas duas cachorrinhas, que estranharam a mudança. Todavia, já se adaptaram porque o lar das cadelinhas somos nós, que somos a família delas. Elas estando conosco estarão bem, estarão felizes, como estão.

 

Nesses 25 anos fui ampliando minha biblioteca, que ainda quero conservar por algum tempo, até doar os livros para umas duas bibliotecas públicas, em que eles possam servir a um número maior de pessoas. Aos poucos, irei trazê-los para perto de mim novamente, como hoje trarei mais alguns. Trouxe as recordações, trouxe as saudades, mas impossível trazer a concretude das paredes, dos quartos, da sala.

 

Espero que eles sirvam a outras pessoas, como me serviram. Posso dizer que é uma casa abençoada. Afinal, nunca sofreu um único assalto. Peço a Deus que abençoe minha nova casa. E os arcanjos dirão no azul: Amém!

12 de outubro de 2010

Espelho, espelho meu... será que esse ainda sou eu?



Espelho, espelho meu... será que esse ainda sou eu?


Fabrício Carvalho Amorim Leite


Anteontem, a notícia chegou com grande pompa através dos afáveis alto-falantes:

"Realocamos os colaboradores dos provadores de roupas em novos postos estratégicos, garantindo a vocês, queridos clientes, uma experiência mais inclusiva e personalizada. Boas compras!"

Confesso que, à primeira vista, senti um certo alívio. Sempre considerei desconfortável e até intimidadora a presença de alguém à espreita nos provadores, invadindo o pouco de privacidade que ainda nos resta. Afinal, quem nunca teve a sensação de estar sendo vigiado pela “polícia secreta” dos grandes magazines?

Naquele ambiente, cada gesto é observado, cada movimento, seguido com desconfiança. Nos corredores e em todos os cantos, aquela voz parece ganhar pernas e asas, repetindo sem parar: Bem-vindo, boas compras.

Acredito, caro leitor, que posso até entender quem me julga paranoico. Mas garanto: não há canto no shopping onde eu me sinta à vontade. Sou dos tempos das praças, quitandas e bodegas, onde os olhares atentos vinham dos bem-te-vis, dos guriatãs, dos cardeais-do-nordeste e de outros pássaros – sempre vigilantes, temendo as aves de rapina – ou, no máximo, do dono da mercearia. Seu olhar atento e o trato acolhedor faziam com que cada freguês se sentisse em casa.

Ao retornar ao mal (dito) ambiente, reconheço que, sim, havia pequenas alegrias. Como quando Dona Deusa, do caixa do estacionamento, devolvia o troco com um sorriso aberto. Mas onde está ela agora? Descontinuada por uma máquina quadrada, que espirra cupons sem vida. Ainda assim, saudosista como sou, peguei-me dando um bom dia ao vil dispositivo. Nada. Apenas indiferença.

Dia desses, por um triz, estive a ponto de ser atropelado por um desses robôs de limpeza. Lá estava ele, errante pelos corredores do shopping. Indo e vindo, repetitivo e monótono, parecia mais um asno do que um aparelho astuto. Resolvi testar sua "humanidade": joguei um chiclete mastigado em seu caminho. Nenhuma reação. Nem desgosto, nem censura.

Perguntando a um dos raros humanos que ainda trabalham por lá, descobri, por fim, que Dona Deusa, como outros, havia sido relegada ao subsolo – uma realocação, onde dá bom dia às baratas e viventes do lugar, como se fosse uma personagem esquecida dos contos de fadas de Branca de Neve, sem direito a uma reprise na Sessão da Tarde.

Como se tudo isso já não bastasse, chegou a última boa nova: os provadores e até as araras físicas estão com os dias contados. Em seu lugar, painéis interativos vestirão você virtualmente, eliminando a necessidade de tocar em um único fio de roupa. Adeus aos cantinhos discretos, com suas divisórias e espelhos reais.

Araras virtuais, sim, araras virtuais! Telas, apenas telas!

E, diante do espelho virtual da loja, tasquei: “Espelho, espelho meu... será que esse ainda sou eu? ”.

Réplica da tal arara virtual: Ah, ainda é você... ou pelo menos o que restou, projetado por algoritmos para caber perfeitamente nas vitrines digitais. A dúvida é: será que você reconhece quem – ou o que – se tornou?

 (Fabrício Carvalho Amorim Leite é cronista e contista.)

domingo, 19 de janeiro de 2025

GRAN FINALE

 

Arte: Meta AI

GRAN FINALE


Elmar Carvalho

                Fragmentos de uma alma em chamas: "Gran Finale".

                                                                            Meta AI

Desmanchei

com minhas mãos

que os criara

os deuses em que cria.

Desfiz

a imagem que fizera

da mulher amada.

Perdi a fé em tudo

como quem nada perde.

Depois

gritei, berrei,

chorei gargalhando

e resolvi ficar louco.

Depois de doido,

resolvi tentar a sorte

            sal –

                        tan-

                                    do de cabeça

do alto do arranha-céu.   

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

TEMPOS IDOS E VIVIDOS DE DOMINGOS JOSÉ

Francy Monte e Ramon Vieira


 

TEMPOS IDOS E VIVIDOS DE DOMINGOS JOSÉ

 

Elmar Carvalho

 

Ocorreu em Campo Maior, ontem à noite (15/01/2025), o lançamento do livro Tempos Idos e Vividos, da autoria do médico e escritor Domingos José Carvalho.

O autor nasceu em Barras, em 27 de agosto de 1943, mas ainda bem jovem, juntamente com sua família, radicou-se em Campo Maior, onde prosseguiu em seus estudos. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Fez especializações e tem pós-graduação latu-sensu em Medicina do Trabalho. O autor pertence a várias entidades filantrópicas, assistenciais, culturais e literárias. Recebeu inúmeras distinções honoríficas.

A solenidade foi iniciada por uma série de belas músicas, entre as quais o hino do Glorioso Santo Antônio Aparecido ou do Surubim, dobrados e marchas, executadas pela afinada filarmônica do Lar da Juventude, dirigido pelo dinâmico diácono Gean Medeiros. Houve também a participação do coral dessa entidade, que nos brindou com lindas melodias, inclusive uma de caráter erudito.

Na oportunidade os pronunciamentos de Ana Cunha, presidente da Academia Campomaiorense de Ciências, Artes e Letras, Monte Filho, Elmar Carvalho, João Carvalho, Sávio Túlio Andrade, Érico Carvalho, filho de Domingos José, enalteceram as qualidades e as virtudes da obra e do autor, bem como a competência e a dedicação profissional deste.

O livro tem uma excelente programação visual, em papel de alta qualidade (couchê), uma revisão excelente (professor Moisés Andrade e Antonio Soares) e várias fotografias. Foi dividido em quatro partes: Acrósticos, Poemas, Crônicas e Contos e Prefácios, Homenagens e Discursos. Da sequência de acrósticos, em que homenageia filhos, netos, pais, irmãos e esposa, destaco o seguinte:

Jesus – esposa

    Justamente foi você a musa

    Encantadora dos meus sentimentos

    Suave como o voar das brancas garças

    Universo de compreensão, amor e ternura

    Sonho realizado dos meus afetos     

Não preciso dizer que com os versos acima Domingos José fez uma “média” para mais de várias décadas junto a sua musa. Da parte denominada Poemas, de temática diversificada, terei o cabotinismo e a imodéstia de pinçar este, em que fui (in)justamente louvado:

Ao poeta Elmar Carvalho

    Se tantos já fizeram

    Eu também vou sublinhar

    Mesmo sem rimas perfeitas

    Ao poeta vou desejar

    Planuras de vida sem fim

    Aos deuses vou suplicar

    Que conserve cada vez melhor

    A inteligência do grande poeta Elmar

Não mereço, mas, penhorado, agradeço ao autor o poema acima, de desvanecedor conteúdo expresso em ritmo e rima.

Ao longo de suas mais de 200 páginas, permeadas por várias fotografias, são narradas várias peripécias jocosas, relatados vários fatos interessantes, bem como são homenageados personagens ilustres de Campo Maior e do Piauí.

Aproveito para encerrar com a minha pequena apresentação, que se encontra no excelente TEMPOS idos e vividos:

“Desde bem jovem, Domingos José Carvalho, nascido em Barras, veio estudar e morar em Campo Maior, onde se radicou, para se tornar um notável campomaiorense como os que mais o sejam.

Cidadão exemplar, dele nunca se ouviu falar de nenhum ato ou conduta que pudesse desabonar a sua honorabilidade. Os cargos que ocupou foram por ele exercidos com competência, correção e zelo, de modo que nenhum reparo se lhe pode fazer.

Maçom paradigmático, nunca foi perjuro, e, portanto, nunca deslustrou seu avental e nem tampouco maculou as vestes maçônicas que envergou ao longo de várias décadas, como obreiro dinâmico, estudioso e dedicado.

Médico há vários decênios, jamais descumpriu o Juramento de Hipócrates, que um dia pronunciou, ao concluir seu curso, tendo exercido sua profissão de esculápio com invulgar competência e proverbial dedicação, podendo dele ser dito que é humanitário e caridoso, para com todos, sobretudo os mais pobres e necessitados.

Conquanto muito atarefado em sua vida profissional, tem exercido a literatura e a oratória com invulgar talento, posto que suas produções são lavradas em estilo escorreito, fluente, claro, objetivo e conciso, dentro do que recomenda a melhor prática redacional.

Seus trabalhos são frutos de pesquisa, reflexões, senso de observação, em que revela conhecimento, argúcia e perspicácia, ao se aprofundar no assunto ou tema que desenvolve. Assim, é um literato de muito mérito e valor, que merece os nossos efusivos aplausos e admiração.”

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O CÍRCULO SE FECHA E A META AI


 

Hoje cedo, precisamente, às 6 horas e 36 minutos, pedi à inteligência artificial Meta: “Você poderia fazer uma ilustração que pudesse representar o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, algo que lembrasse o cosmo e um átomo?”

Ela, em segundos, elaborou a pintura acima.

Em seguida, eu disse: “A ilustração é para o poema abaixo:”, e lhe enviei o link do meu texto abaixo:


O CÍRCULO SE FECHA

 

Elmar Carvalho

 

O infinitamente grande

tende ao tudo.

O infinitamente pequeno

tende ao nada.

Estes dois extremos se tocam.

Em Deus.

 

Consta que o link não lhe foi enviado. Mesmo assim, a Meta AI fez a seguinte e linda ilustração:


 

domingo, 12 de janeiro de 2025

O CÍRCULO SE FECHA


 

O CÍRCULO SE FECHA


Elmar Carvalho

 

O infinitamente grande

tende ao tudo.

O infinitamente pequeno

tende ao nada.

Estes dois extremos se tocam.

Em Deus.

domingo, 5 de janeiro de 2025

O POETA E O INSETO


 

O POETA E O INSETO


Elmar Carvalho

 

Uma música longínqua

e melancólica cria ressonâncias

na concha acústica de minha alma.

A bebida eu a tomo em longos goles.

Um inseto pousa sobre

a mesa e me faz companhia.

Sorve um trago da porção/poção

(derr)amada. E se embriaga.

A tristeza imensa me deixa cruel:

enxoto o pobre inseto bêbado que

ensaia um atropelado voo. E cai.

A tristeza continua a crescer e a cair

em minha alma como infiltrações de estalactites

em (f)urna mortuária ..........................................

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

O Homem-Estátua




O Homem-Estátua


Fabrício Carvalho Amorim Leite*


Por um tempo, com certo alívio, esqueci sua presença. Mas ele não tardou a emergir novamente. Surgiu diante de mim, firme, imóvel, adverso, como algo que desafiava o relógio e o esquecimento. Tomou forma, materializou-se, e ali estava ele, de novo. O que ainda queria de mim, eu não sabia.


— Pai, ele é um artista? — minha filha perguntou, entregue ao exercício de ser criança.


— Um homem-estátua? — continuou, com a curiosa leveza de quem transforma o mundo em perguntas alquímicas.


As palavras ricochetearam no vidro — diretas. Por autodefesa, aumentei o som do carro. Ainda assim, não encontrei saída.


— Acho que ele... vigia a rua — arrisquei, desconfortável. Ela se calou. Uma trégua.


Ele estava sempre lá, sentado no cruzamento. As pernas finas, dobradas como hastes de caneta, os joelhos apontando para o céu. Entre as mãos envelhecidas, uma vasilha de manteiga vazia, como quem espera, imóvel e alheio, por um gesto que nunca vem ou por olhares apressados, muitas vezes carregados de desprezo. Querendo ou não, ele foi se enraizando ali, imóvel como uma estátua, moldada pela indiferença, na paisagem da minha rotina — afinal, era o caminho mais curto.


Muitas vezes pensei em parar o carro. Perguntar seu nome, oferecer um café, talvez até dar um abraço. Mas o orgulho, ou talvez só a falta de fé nas pessoas, sempre me fez seguir adiante.


No fundo, era ele quem me observava, incrédulo. E eu, ao cruzar a esquina, escondia-me atrás dos vidros escurecidos, devolvendo o olhar, como quem encara um problema que não quer resolver.


Um dia, vi suas costas. A blusa puída de futebol trazia um nome: Jairo. Um vestígio, um rastro. Talvez ele quisesse ser encontrado. Ou seria o nome de outro. Guardei aquilo como um sinal de convite.


No dia seguinte, desci o vidro e ousei: — Bom dia, Sr. Jairo.


Ele não respondeu, mas também não desviou o olhar. Talvez, numa próxima vez, eu tivesse coragem de parar, repetir "Sr.Jairo" e estender a mão. Ou, simplesmente, permanecer quieto, tentando entender algo nele — ou em mim mesmo.


Mas (sempre há um, mas), os dias seguiram, e a notícia chegou. Passei por ela quase sem notar, mesmo sendo um leitor fiel do jornal local. Lá estava, em letras miúdas, num canto quase oculto da página: “Homem de 67 anos encontrado morto na Rua dos Bambus foi sepultado como ignorado”.



Essa palavra me perseguiu. Ignorado. Ignorado por quem? Por nós? Por mim? Foi ela que me obrigou a mudar o trajeto, como se desviar fosse suficiente para enterrá-lo junto com a minha vergonha.


Depois de um tempo, sem conseguir escapar das perguntas da pequena, ela me olhou e, com aquela franqueza preocupante que só as crianças têm, disse:


— Pai, o homem-estátua ainda está aqui. Ele nunca saiu. É o senhor que ainda não está vendo — já sem saber se, naquele momento, o homem-estátua era ele ou eu, paralisado, testemunhando a um mundo apressado demais.

(*) Cronista e contista.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

PANEGÍRICO COM PITADA DE HUMOR


                  

PANEGÍRICO COM PITADA DE HUMOR


Elmar Carvalho

 

O advogado Daniel Gonçalves, que foi meu colega no curso de Direito, na UFPI, recordou alguns dos nossos condiscípulos. Disse que o Terceiro e o Luís Meneses haviam falecido. Eram dos mais velhos da turma, porém bem relacionados. Com referência ao primeiro, eu gostava de dizer que ele podia ser o terceiro até para a sua mãe, mas que para mim era o primeiro. O segundo, foi vice-prefeito de Timon.

 

Meses atrás o vi na Clínica Lucídio Portella, em companhia de familiares. Algo me disse que sua situação parecia ser grave. Agora, soube que morreu. Era filho do senhor Meneses, colega de meu pai nos Correios, em José de Freitas, quando lá moramos, durante um ano e poucos meses. Nesse período, meu pai trouxe para nossa casa um prato de fina iguaria, na hora do almoço, dizendo que se tratava de um pombo. Dividiu com a família. Comi com entusiasmo e sofreguidão. Meu pai me perguntou se eu havia gostado. Respondi que sim. Perguntou que gosto tinha.

 

Disse-lhe que era semelhante ao de uma galinha. Meu pai sorriu, e disse que havíamos comido uma jia, preparada pelo senhor Meneses. Não me dei por achado, e pedi mais. Não havia mais. Ainda hoje sinto o gosto mais que gostoso daquela jia, magia gastronômica preparada pelo Menesão, pai de meu falecido colega de farto bigode a la Sarney.

 

Por causa de minha tirada com o Terceiro, lembrei-me de uma outra, esta relacionada com o professor Cordão, de quem não tive a honra de ser aluno. Ia eu descendo o Alto da Jurubeba, ou seja, a colina da igreja de São Benedito, quando o avistei dentro de seu automóvel. Apesar de conhecê-lo da Academia Piauiense de Letras, inclusive tendo ido a sua posse, que por sinal fora muito concorrida, não tinha intimidade com ele.

 

Mas ao vê-lo, me veio o impulso de fazer uma brincadeira. Nessa época, ainda jovem, eu perderia o amigo, mas não perderia a piada. Abordei-o da seguinte forma: “Professor, o senhor pode ser Cordão para sua mulher, para seus filhos, para seus netos, mas para mim o senhor é um cabo, cabo de aço, e se for cordão, é cordão de ouro!”

 

Hoje, mais amadurecido, ou mais velho, se o leitor preferir, não sei se tiraria essa pândega com alguém mais velho, com quem não tinha maior proximidade. De Cordão, além do magistério e do profissional da saúde, na área da bioquímica, resta a lembrança imperecível de um homem que foi bom, e que prestou inestimáveis serviços no campo da assistência social, como um voluntário que envidou relevantes esforços em prol dos excepcionais, sobretudo por ter liderado a APAE por vários anos.

 

Paraibano, fez por merecer os títulos honoríficos de cidadão teresinense e piauiense. Era formado em Bioquímica e Farmácia. Morre o homem e fica a fama, diz a música da Velha Guarda. E fica o exemplo, acrescento eu.

6 de outubro de 2010