quinta-feira, 29 de setembro de 2022
quarta-feira, 28 de setembro de 2022
NEORREGIONALISMO LITERÁRIO NA OBRA TOMBADOR DE FONTES IBIAPINA (1)
NEORREGIONALISMO LITERÁRIO NA
OBRA TOMBADOR DE FONTES IBIAPINA (1)
Carlos Evandro M. Eulálio*
Resumo
Este
ensaio pretende demonstrar como o Neorregionalismo literário comparece na obra
Tombador, dentro dos parâmetros que norteiam a estrutura do romance de 1930.
Para tanto, inicialmente, faremos uma abordagem acerca das duas correntes que
ainda hoje orientam a produção literária do gênero romance, do romantismo aos
nossos dias e, em seguida, analisaremos a obra em referência, destacando seu
autor Fontes Ibiapina como um dos herdeiros mais expressivos da prosa de 1930
em nosso meio.
Palavras-chave: Moderna ficção,
Fontes Ibiapina, Neorregionalismo, Tombador.
Introdução
Na moderna ficção brasileira, em
meio à revolução formal, introduzida no código linguístico literário por
Guimarães Rosa, e de sua consequente evolução até os nossos dias, ainda
constatamos a existência de duas correntes que tipificam o modelo de produção
do romance brasileiro: a corrente introspectiva ou de sondagem moral e
psicológica, que dinamiza a herança do Realismo-Naturalismo científico do
século XIX, tendo Machado de Assis e Aluísio de Azevedo como seus expoentes, e
a corrente social-regionalista. Esta, identificada em dois momentos de nossa
historiografia literária: o primeiro momento, no Romantismo, nas obras de
Alencar, Bernardo Guimarães, Taunay e Franklin Távora, que mostram o pitoresco
de nossa paisagem sertaneja e os costumes da sociedade rural do século XIX; o
segundo momento, no Neorregionalismo de 1930 que, numa linguagem simples e
típica de cada região, realiza a crítica sociopolítica, com a preocupação em
denunciar as desigualdades e injustiças sociais, sobretudo no Nordeste
brasileiro. Destacam-se José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, Raquel de
Queirós, Jorge Amado, José Lins do Rego e outros, como principais
representantes do romance de 1930, tida como a etapa áurea de nossa prosa de
ficção.
Cabe mencionar que, essas
correntes (introspectiva e social-regionalista) não se isolam, pois há autores,
como Graciliano Ramos, que em seu romance São Bernardo, de uma forma híbrida,
alia peculiaridades dessas duas modalidades de romance.
Neorregionalismo no Piauí
Na literatura piauiense, embora
alguns atribuam o papel de precursor do Neorregionalismo a Renato Castelo
Branco, que em 1948 publicou Teodoro Bicanca, só a partir da década de 1950,
esse gênero definitivamente ganha no Piauí espaço e maior visibilidade com as
produções literárias de Fontes Ibiapina. Lembra Elson de Assis Rabelo, (2) que
Fontes Ibiapina surge nos meios literários piauienses no intervalo de tempo
entre a dissolução do Meridiano e o início do Movimento de Renovação Cultural,
liderado em Teresina pelo prof. Raimundo Nonato de Santana.(3) Assim, podemos
destacar Fontes Ibiapina como consolidador e autêntico herdeiro do
Neorregionalismo de 1930 na literatura de expressão piauiense. Nos romances e
contos que escreveu, de ambientação piauiense, o homem do meio rural predomina
com seus problemas existenciais e sociais. Nos contos e principalmente nos
romances Sambaíba, Vida Gemida em Sambambaia e Tombador, em que Fontes Ibiapina
adota a técnica realista-documental, temos um narrador memorialista,
identificado com a região onde viveu na infância e na adolescência, fato que se
confirma na descrição da fazenda Tombador:
“A caatinga parecia mais um
jardim, de tão bonita de verde. Tombador era assim como se um céu de rosas. Um
verdurão de mata que, de tão grande, se via o começo, mas não se via o fim. O
baixão velho perdia as cerimônias e se destabocava. Desbancava-se com tudo, lá
das bandas do Morro das Araras. Chega gemia de tão cheio! E o verdurão bonito
se perdendo mundo afora. À noite, um relâmpago maduro riscava o papa-fogo dum
punho a outro da rede da nascente. E um trovão redondo e cheio estremecendo que
mais parecia dentro do coração da gente.
[...] Antes do meado de fevereiro,
os currais já batendo chifres de vacas paridas. Leite, coalhada, requeijão...de
sobra para gatos e cachorros. Até para negros cativos. A negrada toda de bucho
tinindo de cheio, trabalhando nas roças, na maior satisfação da vida. Um lastro
de legume que fazia gosto. Mas legume de o cabra passar os olhos e ficar de
água na boca!” (IBIAPINA, 1971, p. 11-12).
No
trecho acima, descritivo-narrativo, técnica de construção textual muito usada
por Fontes Ibiapina, também recorrente em Clarice Lispector, verifica-se que
nas passagens estritamente narrativas quase todos os verbos estão no imperfeito
do indicativo. Isso confirma que a memória literária é acionada por esse tempo
verbal que contextualiza no romance as reminiscências do narrador, através de
expressões em frases que denotam experiências vividas: “E um trovão redondo e
cheio estremecendo que mais parecia dentro do coração da gente”. “Um lastro de
legume que fazia gosto. Mas legume de o cabra passar os olhos e ficar de água
na boca”. Por esse mecanismo, o autor presentifica no texto suas impressões
pessoais diante do cenário descrito.
Enredo do romance Tombador
O livro Tombador, publicado em
1971, constitui, conforme seu autor, um dos romances da Tetralogia do Couro.(3)
Narrado na 3ª pessoa, em 39 capítulos, ambientado no século 19, sua história se
passa na região centro-sul do Estado, após a seca de 1845, nos arredores do
povoado Jenipapo e das fazendas Riachinho, Tamboril e Boa Vista. Por essa
época, ali chegou Bernardino de Góis, na condição de posseiro, em companhia da
mulher Justina, com quem se casara recentemente, a fim de fundar naquelas
terras devolutas a fazenda Tombador, onde desenvolveria a atividade
agropecuária. Eis como o narrador descreve a região:
“Quando ali chegaram, não havia
vivalmas para remédio por aquelas bibocas. Foi no quinto ou sexto (ou coisa
beirando por aí assim) ano depois da seca de 1845. Naqueles tempos aquelas
paragens não tinham para bem dizer donos [...] o primeiro que chegasse podia se
apossar da maneira que bem entendesse. E foi justamente o que Bernardino de
Góis fizera. (IBIAPINA, 1971, p. 9)
O fazendeiro Bernardino ou Dino,
como é chamado na intimidade, com o auxílio do pai Agostinho de Góis, que lhe
fornece a mão de obra escrava, constrói um grande açude na fazenda, garantindo
o abastecimento de água durante o ano todo para seus moradores, para o sustento
do gado e para o cultivo da lavoura. Em flashback, o narrador recupera fatos
passados da vida de Bernardino. Ele se casara com Justina, por imposição e
capricho do pai Agostinho. No entanto, gostava de Emília, com quem alimentava
ainda a esperança de tê-la como sua mulher. Valendo-se da condição de senhor da
fazenda, seduz a escrava Julinha e a engravida. Tomada de furor e de ciúme,
Justina ordena que seu escravo Romão Pindoba castigue Julinha. Maltratada
física e psicologicamente, a escrava perde a criança. Dino separa-se da esposa
Justina, e passa a viver com Emília. Inicia-se a guerra do Paraguai. Os homens
das fazendas se escondem nas matas e chapadas, para não serem recrutados pelo
Exército. Rompe-se o açude de Tombador, durante um inverno rigoroso. A partir
daí, verifica-se também o início da decadência moral, econômica e financeira de
Bernardino. Dino é pressionado pelo cunhado Marcelo a ceder para Justina grande
parte dos bens que possui, como forma de reparar os danos morais e materiais
causados à irmã. Justina seduz o escravo Romão Pindoba de quem engravida.
Pindoba é assassinado pelo irmão de Justina. Esta perde o filho, fruto do
relacionamento com o escravo. No final da narrativa, Bernardino e Justina se
reconciliam, quando ambos são acometidos de extrema loucura. O romance é
cíclico, vai da fundação até a quase ou completa estagnação da fazenda
Tombador, e tem desfecho com a decadência moral, material e psicológica do seu
proprietário.
Quanto ao enredo da obra
Tombador, Eneas Barros comenta:
Tombador é um romance de muito
sofrimento. As danosas relações entre os senhores de terra e as mucamas
escravas, com a cruel interferência das patroas, poupava os homens e destruía
as mulheres. A surra de couro que Justina mandou Pindoba dar em Julinha não
teve argumento que impedisse. Iaiá! O que é que Ioiô quer fazer com a gente que
não faz? Não tinha jeito. A negra apanhou tanto que quase morreu. E ainda teve
as costas feridas cobertas de sal, misturado com xerém, onde os pintos fizeram
a festa. Essas eram passagens que machucavam o coração de Nonon. Ao
escrevê-las, trazia para o caderno uma tentativa de denunciar a opressão vivida
pelos escravos no século XIX. Tombador realça paixões proibidas que se
concretizam através da loucura. É um romance em que há não um triângulo
amoroso, como é muito comum na maioria dos romances, contos, peças teatrais e
poemas, mas um quarteto amoroso protagonizado por Bernardino, Justina, Romão
Pindoba e Julinha (BARROS, 2012, p. 178).
Considerações gerais sobre o
romance Tombador
Desse extraordinário romance,
extraímos informações sobre episódios da realidade sociocultural e histórica do
Piauí, que aconteceram na segunda metade do século 19. Cronologicamente o
romance é situado após a seca de 1845, estendendo-se até, durante e depois da
guerra do Paraguai (1864-1870), maior conflito armado da América do Sul, em que
o Brasil teve participação ativa. O romance Tombador aborda várias questões
acerca desse conflito, entre elas o recrutamento de fazendeiros, vaqueiros e
escravos em terras piauienses para, por imposição da corte, alistarem-se
obrigatoriamente no Exército Brasileiro.
No trecho a seguir, o narrador,
pela voz do fazendeiro Dino, reflete acerca dos danos e das más consequências
da Guerra do Paraguai em território piauiense. Para tanto, apropria-se do
monólogo interior, técnica bastante usada por Dostoiévski em seus romances. O
monólogo interior acontece quando a personagem conversa consigo mesmo,
permitindo ao leitor conhecer suas ideias e concepções mais íntimas, sobre determinada
situação. Essa técnica narrativa é largamente empregada por Fontes Ibiapina em
seus contos e romances, como atesta esta passagem:
“Diabo! Seria possível que aquela
guerra infeliz não tivesse fim nunca? Seria mesmo necessário passarem o resto
da vida na chapada? Até quando durariam aquelas privações? Aqueles sofrimentos?
E o mais duro de tudo era que a fazenda andava no maior dos abandonos. Legumes
morrendo à falta de limpa. Os bezerros das vacas que ainda não haviam sido
pegadas se acabando no mato. E eles, os homens, escondidos. Escondidos como se
criminosos. Que diacho queria o Rei botando o povo do País pra brigar com o tal
Paraguai? No final das contas, no fritar dos ovos, bem poucos homens batendo as
pestanas para contarem a história. Quantas e quantas fazendas já caminhando
para o pó? Quantos e mais quantos meninos pobres sem pai? Quantas e mais quantas mulheres pobres sem
marido? Quantos cristãos sofrendo e mais sofrendo no mato como eles? E tudo por
causa da maldita guerra.” (IBIAPINA, 1971, p. 40). Nesse trecho, fica patente a
luta numa guerra cuja causa muitos brasileiros desconheciam.
Mais adiante, retomando a
narração em terceira pessoa, o romance mostra a situação dos sobreviventes da
guerra, ao retornarem para casa, quando retornavam, em precário estado de saúde
e em condições subumanas, como neste relato:
“Era Domingos Catingueira, um
homem que voltava da morte. O homem que, graças a Deus, voltava da maldita
Guerra do Paraguai. Também, só vendo. Voltava acabado. Magro, amarelo de tão
pálido. Cabelos grandes. Sujo e vestido em puros quilangos. Um cristão morto em
pé. Um cadáver ambulante”. (IBIAPINA, 1971, p.101).
Na
literatura brasileira, o romance Tombador constitui uma das fontes de
informação e pesquisa sobre a história e os efeitos da Guerra do Paraguai em
terras piauienses. Aqui abrimos um parêntese para destacar que a obra
Contribuição do Piauí na Guerra do Paraguai, organizada pelo escritor Felipe
Mendes, publicada recentemente pela Academia Piauiense de Letras, é de grande
relevância para a pesquisa sobre essa guerra. A leitura dessa obra seria uma
forma de o leitor aprofundar conhecimentos sobre a participação de piauienses
nessa guerra, trazida à baila na ficção de Fontes Ibiapina.
Acompanhar a saga da personagem
Bernardino de Góis, na obra Tombador é também conhecer a história de nosso
antepassado escravista, sob a dominação do patriarcalismo, como eixo
fundamental das relações familiares da época. Em Tombador, essa relação de
dominação se reflete desde a obediência da mulher à procriação até a
sexualização do corpo negro, exaltando-se sua objetificação, e deixando de lado
outros valores da essência humana, como o afeto. Em Tombador, Fontes Ibiapina
denuncia o discurso que aprisiona o negro na visão animalizadora e o destitui
de sua humanidade, como na passagem em que Bernardino seduz a escrava Julinha:
“Lá na represa do açude, Julinha
aguava uns canteiros de cebola e coentro. Foi quando seu Dino, passando, não se
conteve sem dar uma lambida de rabo-de-olho para o lado da negra. Daquele
jeito...sem as roupas de baixo... Ó mundo de tentação escancarada! [...]
Naquele momento, de roupas molhadas e coladas ao corpo, Julinha não era apenas
uma negra feita para o trabalho. Não senhor, uma mulher bonita, novinha em
folha, feita para o amor e nada mais.” (IBIAPINA, 1971, p. 53)
E no trecho em que Justina seduz
o escravo Romão Pindoba, persistindo a mesma relação de dominação, agora focada
no corpo negro masculino:
“A primeira vez foi ali mesmo
dentro de casa. O negro velho dormindo na varanda, como cativo, bem
despreocupado dos prazeres da vida. [...] Naquela noite, em plena escuridão,
uma felicidade caminhava, nas pontas dos pés, dentro dum casarão de fazenda,
rumo aos punhos da tipoia dum negro cativo de nascença. Veio vindo, babatando
pelas paredes, até que chegou. [...] Quando olhava para o seu corpo (preto, bem
preto) e para o de Iaiá (branco, bem branco), ô satisfação chameguenta, por
parte do Sujo. Coisa quase sem explicação. [...] O negro velho ficava assim,
assim... um tanto ou quanto para desconfiado. Mas logo criava alma nova. Logo
ela Iaiá [lhe dizia]: Não tivesse ele a menor contrariedade por aquela
diferença de cor entre eles, que aquilo era só por fora.” (IBIAPINA, 1971, p.
124).
O professor Gregory Balthazar, do
Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIT, assinala: “a objetificação do
corpo negro remete à um legado histórico da escravidão no país. Quando o corpo
negro chega ao Brasil ele é trazido como um objeto, a ser coisa de alguém. É
desumanizado. As mulheres negras, para além do trabalho escravizado, tinham
outra questão que era a violência sexual, como aponta as autoras Lélia Gonzalez
e Ângela Davis: Quando a gente fala da objetificação, a gente fala da
animalização do corpo negro. [...] ela está muito atrelada com a questão da
animalidade ainda”, destaca o professor Gregory Balthazar. (2) Essa visão do
negro desumanizado pode ser também constatada na seguinte passagem da obra
Tombador, em que o narrador, referindo-se à personagem Bernardino, afirma:
Vinha casadinho de fresco. Com um
pé-de-meia bem servido: uma boa ponta-de-recurso que o velho lhe dera de
mão-beijada. Pra dizer, com até mais ou menos obra de para mais de meia dúzia
de negros cativos, inclusive negras parideiras. (IBIAPINA, 1971, p. 9).
A imagem da mulher como um ser frágil, incapaz
e de natureza inferior à do homem é mais um elemento dessa visão
patriarcalista, como nesta passagem em que o narrador dá também destaque à
discriminação social da mulher:
“Bernardino vivia em tempo de
perder a bola de tanto pensar. E se impressionava:
- E as mulheres, Pindoba? Que
diacho está fazendo aquele lote de negras?
- Quase nada, seu Dino. Pra bem
dizer, nada mesmo. buzungando. Mas é que
rabo-de-saia não bota serviço de roça pra frente. Eu só queria que o senhor
visse, pra melhor acreditar. Agora foi que limparam um tampozinho de terra no
partido de milho. Até parece mais um espojeiro de jumento. De tão pequeno, dá
pra se cobrir com um lençol. Rabo-de-Saia não bota serviço de roça pra frente.”
(IBIAPINA, p. 41).
Conclusão
Memória,
história e oralidade ocupam lugar de destaque na obra Tombador de Fontes
Ibiapina. Nesse sentido, cabe citar Massaud Moisés, ao afirmar que
A arte literária [...] não se
reduz apenas a uma forma banal de entretenimento. Quando é entretenimento, é-o
duma forma superior, visto que o jogo e a arte jamais se separam. Entretanto,
mais do que forma elevada de recreação, a Literatura constitui uma forma de
conhecer o mundo e os homens: dotada duma séria “missão”, ela colabora para o
desvendamento daquilo que o homem, conscientemente ou não, persegue durante
toda a existência. (MOISÉS, 1970, p.
28).
Ambientado no Piauí no século 19,
a obra Tombador não se limita apenas à narração de uma história, com começo,
meio e fim, mas à construção de uma literatura como fonte de conhecimento para
a compreensão de nosso passado e das transformações socioculturais do nosso
meio. Sua expressão literária, sem convencionalismos, resulta do contato direto
com o homem rude, da vivência com o meio provinciano e de uma extraordinária
experiência de vida.
Concluo este ensaio, com as
palavras do prof. Elson de Assis Rabelo, para quem “Fontes Ibiapina era ouvinte
da fala do povo – [ciente de que] os cometas se chamavam Estrelas-de-rabo - e
que sua erupção no céu em momentos inapropriados, fora das horas das
ave-marias, era o anúncio dos piores contratempos. [...] Que maus agouros o
escritor esperava prever?:
Numa noite de abril de 1986, o
cometa Halley cruzava o céu do hemisfério sul, podendo ser visto a olho nu por
qualquer observador. Naquela noite, junto a uma lagoa, distante das luzes
urbanas, um juiz esperava vigilante pela passagem do astro luminoso. Poucas
horas depois, o mesmo juiz morreria, vítima de enfarto.” (4)
*Carlos Evandro Martins Eulálio é
professor de Latim, Literatura, Língua Portuguesa e membro da Academia
Piauiense de Letras. Este ensaio
constitui o roteiro das palestras proferidas no Salão do Livro de Valença –
2022 (SALIVA), no dia 15/9/22 e no Salão do Livro de Parnaíba (SALIPA) no dia
24/9/22.
NOTAS
(1) João Nonon de Moura Fontes
Ibiapina, nasceu no dia 14 de junho de 1921, na fazenda Lagoa Grande, a 12 km
de Picos. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do
Piauí (turma de 1954). Além de
jornalista e escritor, seguiu a magistratura. Foi Juiz de Direito em várias
comarcas do Piauí, a última em Parnaíba, onde publicava semanalmente artigos de
crítica nos jornais, exercia o magistério, participava de toda a vida
intelectual da cidade e, como tal, ajudou a fundar a Academia Parnaibana de
Letras, sendo um dos seus presidentes. Pertenceu à cadeira nº 9 da Academia
Piauiense de Letras, cujo patrono é o médico e poeta Alcides Freitas. Faleceu
em Parnaíba, no dia 10 de abril de 1986.
(2) Esse movimento aconteceu no
início da década de 1960, e tinha por objetivo viabilizar a publicação de obras
históricas e literárias. Contava com a participação dos intelectuais Odilon
Nunes (1899-1989), Monsenhor Joaquim Chaves (1913-2007), José Camillo da
Silveira Filho (1927-2004), Raimundo José dos Reis, José Ribeiro e Silva, Maria
Nerina Castello Branco e outros (1934). (FARIAS, 2014, p. 118/119).
(3) Em entrevista ao acadêmico
Alcenor Candeira Filho, Fontes Ibiapina, referindo-se ao Ciclo do Couro, nele
incluía os romances Sambaíba, Tombador, Nas Terras do Arabutã e Vida Gemida em
Sambambaia, obras que constituem a “Tetralogia do Couro” (REBELO, 2008, p. 72).
(4) RABELO, Elson de Assis. 2008,
p. 130.
REFERÊNCIAS
BARROS, Eneas do Rêgo. Nonon: o
menino da Lagoa Grande. Teresina, 2012.
BORGES, João Carlos de Freitas.
Renato Castello Branco e a busca de uma essência da civilização piauiense:
História, Identidade e Literatura. Anais do III Seminário Internacional
História e Historiografia. X Seminário de Pesquisa do Departamento de História –
UFC - Fortaleza, 01 a 03 de outubro de 2012.
FARIAS, Vanessa Soares Negreiros.
A trajetória de um homem-cultura, in Conversa com M. Paulo Nunes, org.
Terezinha Queirós. Teresina, EDUFPI, 2014.
MENDES, Felipe (org.)
Contribuição do Piauí na Guerra do Paraguai. Teresina: Academia Piauiense de
Letras, 2022. Coleção Bicentenário da Independência.
MOISÉS, Massaud. A criação
literária. 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1970,
RABELO, Elson de Assis. A
História entre Tempos e Contratempos: Fontes Ibiapina e a obscura invenção do
Piauí. (Tese de mestrado) Universidade Federal do Rio Grande do Norte – RN,
Natal, 2008.
RODRIGUES, Walter Hugo de Souza.
Desmitificando a sensualidade naturalizada do ébano: Um estudo acerca da
objetificação do corpo do homem negro. Cadernos de Gênero e Tecnologia.
https://periodicos.utfpr.edu.br/cgt, acessado em 14.9.2022
SANTOS, Jady Rosa dos. O nosso
corpo é o tempo todo objetificado. https://portal.unit.br. Acessado em 13/9/2022.
SOUZA, Warley. Romance regionalista; Brasil Escola. Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/literatura/romance-regionalilsta.htm. Acesso em 6/9/2022.
segunda-feira, 26 de setembro de 2022
3 SONETOS DE ROGÉRIO FREITAS
domingo, 25 de setembro de 2022
Seleta Piauiense - Torquato Neto
| Fonte: Google |
Agora não se fala mais (*)
Torquato Neto (1944 – 1972)
Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;
Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada
forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios:
Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:
só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;
não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros
tempos.
está vetado qualquer movimento
(*) Na internet vi este poema publicado com o título de Literato cantabile. Entretanto, no livro Torquatália {do lado de dentro}, ele foi publicado sem título (v. página 168); neste mesmo livro, na página seguinte aparece o poema Literato cantabile, mas com outro conteúdo. Por essas razões, usei o primeiro verso para o nomear e identificar.
sexta-feira, 23 de setembro de 2022
Belinha
| Belinha |
BELINHA
Elmar Carvalho
Pedi que a Elmara Cristina, que é a primeira dona da
prima-dona Anita, me mandasse, por e-mail, fotos da Belinha e da Anita, nossas
duas mimosas cadelinhas, mas quem terminou por enviá-las foi o João Miguel.
Isto porque decidi, hoje, escrever sobre Belinha, coisa que já venho adiando há
algum tempo, por razões diversas. Essa cachorrinha chegou a nossa casa faz
alguns anos. Não podia ouvir fala masculina que ficava nervosa, se agachando,
se escondendo debaixo dos móveis. Dizíamos que era traumatizada. Depois,
soubemos que um homem, que fora seu dono, a maltratava.
Foi, em seguida, para uma outra casa, onde não era muito bem
cuidada, embora não sofresse
maus-tratos, até que nos foi dada. No início, a Anita, que veio morar
conosco desde recém nascida, e que desde então foi sempre bem-amada, travou uma
verdadeira “guerra” contra a Belinha, apesar de que esta, conquanto também
pequena, fosse bem maior que ela; suponho que por ciúme da sua família humana e
porque achasse que a intrusa invadira seu território.
Mas Belinha, com humildade e paciência, evitava confrontos, e
se afastava de perto da mandona e madona Anita. Parecia provida de uma
verdadeira inteligência emocional, que lhe impulsionava para a diplomacia e
para a resistência pacífica, talvez temerosa de novo abandono ou rejeição.
Sendo a Anita menor, mais graciosa e a “dona do pedaço”, já que era a pioneira,
Belinha passou a nos cativar e a nos atrair a atenção caminhando e dançando
sobre as duas patinhas traseiras.
Com efeito, terminou por conquistar todos da casa. Mas, um
tanto tímida e esquiva, muitas vezes procurava os lugares esconsos, e se retraía ante a Anita, que sempre foi
mais ousada e voluntariosa, já que sempre foi o mimo da casa, talvez por ser a
“primogênita” e por causa de sua graciosidade miúda. Não resta dúvida, Anita
sempre foi a prima-dona, sempre foi a predileta. Mas Belinha foi galgando
posições, angariando simpatias, e ao que tudo indica foi se libertando de seus
traumas, embora se mantendo humilde e cordata com a outra cadela.
A Pantica (Francisca Maria) passou a ser a sua “madrinha”,
cuidando dela com desvelo e carinho, mas também a repreendendo, em certos
momentos, como se estivesse lidando com um ser humano, coisa que a cachorrinha
quase o é, mas sem os defeitos dos humanos. Houve correspondência nesse apego e
afetividade. Contudo, tinha seu brio e seu amor-próprio, e, certa vez em que a
Anita foi muito abusada, reagiu, como para mostrar que sabia se defender e
defender os seus direitos, apesar de não gostar de briga, futrica e intriga.
Com o passar do tempo, Anita, conquanto não morresse de amor
por ela, foi deixando de implicar; passou a tolerá-la, e ambas passaram a ter
uma coexistência pacífica. Recentemente, Anita, que tinha uma hérnia há algum
tempo, passou a ter o seu problema agravado, e um dia sentiu fortes dores, pois
gania/gritava de dor. Belinha, bela e boa cadelinha, foi solidária, e correu
desesperada, subindo os degraus em desabalada carreira, para latir à porta do
quarto onde estava minha mulher; latiu fortemente, até a Fátima abrir a porta.
Em seguida, desceu as escadas, como chamando minha mulher
para socorrer a Anita. Somente sossegou quando a Fátima foi olhar o que estava
ocorrendo. Felizmente, a cachorrinha foi operada pela médica Tita, e hoje está
recuperada. Essas duas cachorrinhas, fofas e graciosas, de biografias e
temperamentos tão díspares, como que se complementam e completam a plenitude de
nossa família, pois nos amam e por nós são amadas.
14 de abril de 2010
quarta-feira, 21 de setembro de 2022
TRAGICOMÉDIA
Elmar Carvalho
Preso no
ventre estreito
do Universo,
tenho um acesso
de claustrofobia.
Fruto mau
de árvores boas,
sou estéril
(para não ter maus frutos).
Nasci prematuramente
e morrerei depois
da hora.
(Sou teimoso como
um joão-teimoso.)
Guiado por cego
e conversando com
surdo-mudo,
fui tachado de
débil mental.
Mas isto é um
eufemismo:
eu sou mesmo é
um doido varrido,
por força da necessidade.
Sou triste.
Mas eu vejo a tristeza
como lágrimas
nos olhos do diabo.
Pba.
09.77
domingo, 18 de setembro de 2022
Seleta Piauiense - Cid Teixeira de Abreu
ELIZABETH
Cid Teixeira de Abreu (1937 –
2004)
A mulher outra
aconteceu em mim
como um destino
sendeira que era
deu-me uma estrela
para povoar minha insônia
(do acalanto
se fez o pranto)
e no amanhecer
pelo alarido dos pardais
as flores se multiplicaram
apascentando borboletas gratuitas
sábado, 17 de setembro de 2022
quinta-feira, 15 de setembro de 2022
O PIAUÍ E A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL
![]() |
C O N V I T E
A Academia Piauiense de Letras tem o
prazer de convidar V. Sia. e família para o Ciclo de Conferências do Bicentenário, sob a coordenação do
Acadêmico Elmar Carvalho, a ser
realizado conforme o seguinte programa:
O PIAUÍ E A INDEPENDÊNCIA
DO BRASIL
Conferências do
Bicentenário
Dia
16 de setembro de 2022 – sexta-feira
10 horas
Conferência: A Guerra da
Independência e a Unidade Nacional.
Conferencista: Reginaldo Miranda
11 horas
Conferência: 24 de janeiro de 1823:
nomes, eventos e significados na História da Independência do Brasil.
Conferencista: Teresinha de Jesus
Mesquita Queiroz
Dia
17 de setembro de 2022 – sábado
10 horas
Conferência: “Morra, é corcunda!”:
a onda de saques em Campo Maior na Independência do Piauí.
Conferencista: João Paulo Peixoto
Costa
11 horas
Conferência: 19 de Outubro –
Projetos de Independência.
Conferencista: Antônio Fonseca Neto
Zózimo
Tavares Mendes
Presidente
da Academia Piauiense de Letras
Data: 16 e 17 de setembro
de 2022 (Sexta-feira e
Sábado)
Horário: 10h
Local: Auditório Herbert
Parentes Fortes – (Sede da Academia
de Ciências do Piauí)
Av. Miguel Rosa, 3.072 – Centro/Sul
– CEP 64.018-560 – Teresina-PI
Fone: (86) 3221 1566
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
terça-feira, 13 de setembro de 2022
Fragmentos da Memória e outros vídeos
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
domingo, 11 de setembro de 2022
Seleta Piauiense - Everaldo Moreira Veras
| Fonte: Google |
Estranhas Formas
Everaldo Moreira Veras (1937 –
2011)
O zumbido me atormenta
já cresceu tanto que me
engravidou.
De onde vem?
Por que me persegue?
Sei que não sei
mas sei
que é regular
singular
como a máquina fabricando o
demônio de três pernas.
Esta ressonância equilibrada
me confunde:
a espada de fogo me aponta
direções opostas e complicadas.
Se corro — a repetição me busca.
Se paro — a desigualdade me
ofusca.
Tenho dois ouvidos incompletos.
Por um entra a disciplina
da razão calma e delicada.
Por outro o desconexo, triste
grito,
em ritmo de
eu-tu-ele-nós-vós-eles.
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
A História da Faculdade de Administração - lançamento
No dia 12 próximo, segunda-feira, às 18:30 horas, haverá a
abertura da Semana do Administrador, no auditório da Universidade Federal do
Delta do Parnaíba.
Na oportunidade, será homenageado o professor Adílson Farias,
funcionário aposentado do Banco do Brasil, e que fez parte da primeira turma da
antiga Faculdade de Administração. Adílson passou a ser professor do curso de
Administração de Empresas da Universidade Federal do Piauí – Campus Ministro
Reis Velloso, em Parnaíba.
Nessa solenidade também será lançado o livro A História da
Faculdade de Administração em Parnaíba, escrito por Elmar Carvalho, Francisco Pereira da
Silva Filho e Dilma Ponte de Brito, todos ex-alunos do curso de Administração
de Empresas e membros da Academia Parnaibana de Letras - APAL.
O livro foi publicado pelo SESC-PI e é prefaciado pelo Dr.
Valdeci Cavalcante, presidente do sistema FECOMERCIO/Piauí, que lhe fez o
prefácio.
Conta a história do ensino superior em Parnaíba, pois relata que em Parnaíba já funcionaram os cursos de Teologia e Filosofia; narra a criação da Faculdade de Administração (cuja entidade mantenedora era a Fundação Educacional de Parnaíba), que se tornou um dos pilares da fundação da Universidade Federal do Piauí; a criação do Campus Ministro Reis Velloso – CMRV, que foi se expandindo fisicamente e com a integração de novos cursos, até possibilitar a criação da UFDPar, que incorporou todos os cursos do CMRV.
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
FRAGMENTOS DA MEMÓRIA E OUTROS AUDIOVISUAIS
terça-feira, 6 de setembro de 2022
domingo, 4 de setembro de 2022
Seleta Piauiense - Hardi Filho
| Fonte: Google |
Os (A)normais (*)
Hardi Filho (1934 - 2015)
Os poetas têm
a cara suja de sonho,
um ar absorto
e olhar de quem ama.
Os poetas têm
uma aparência imbecil
que incomoda os normais
do tempo e da moda.
Os poetas incomodam
os normais
que fazem as guerras
fria e quente;
os normais
que explodem o povo
descaradamente;
os normais
que sugam e massacram
as massas torpemente;
os normais
que usurpam o poder,
torturam e matam
corpo e mente.
Por tudo isso os (a)normais
do tempo e da moda
abominam
e temem os poetas:
essa constante ameaça de amor.
Brasil – 1979
Fonte: Teoria do Simples –
Projeto Petrônio Portella - 1986
(*) Em minha crônica memorislística Tempos Republicanos, conto o seguinte sobre esse belo poema de meu saudoso amigo Francisco Hardi Filho:
Era um casarão antigo, meio fantasmagórico, onde antigo
morador, um engenheiro, havia suicidado. Numa das portas, fora escrito um belo,
porém elegíaco, melancólico poema da autoria de meu amigo Hardi Filho, em que a
tinta parecia escorrer, como gotas de sangue. Nesse vetusto solar, de história
trágica, escrevi o meu poema A Casa no Tempo, infestada de esgarçantes
rasga-mortalhas, de esvoaçantes e lúgubres morcegos, de almas penadas, de
correntes arrastadas, de gemidos e ruídos misteriosos.
Nessa casa, hoje demolida, a república foi extinta, em virtude de casórios e do retorno do Nadal ao Paraná, sua terra natal. Mas, em minha saudade, a casa com a república, como digo no meu poema, “... sempre persistirá / nas músicas passionais de algum boteco / criando ressonâncias que repercutem / insistentemente como eco”.
sábado, 3 de setembro de 2022
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
NO REINO DO SOBRENATURAL
| Batista Rios (centro) e família, vendo-se: Eduarda (filha); Vera Lúcia (esposa); Batista Filho e Saulus (filhos), e em primeiro plano (sentado) seu pai, o saudoso vicentino Nestor Rios |
NO REINO DO SOBRENATURAL
Elmar Carvalho
Fui à casa de meu colega e amigo João Batista Rios. Pedi-lhe
que me contasse uma história que ele me havia contado há mais de seis anos,
quando ele era juiz de Bertolínia, e eu,
de Ribeiro Gonçalves. Muitas vezes viajamos, à noite, no mesmo velho e
desconfortável ônibus, para as nossas longínquas Comarcas. De madrugada ele
descia na sua cidade e eu continuava em minha desgastante odisseia madrugada
friorenta adentro.
Repetiu a história da mesma forma como eu a guardara em minha
memória. Certo dia do início da década de 1990, quando ele era servidor federal
da Previdência Social e advogado, por volta de 13:30 horas, estacionou seu
carro na frente do Colégio das Irmãs, onde deixou sua filha, e seguiu a pé em
direção a seu escritório, situado no Palácio do Comércio. Na calçada da antiga
Escola Técnica Federal, na frente da EMBRATEL, avistou o padre Geraldo Vale,
que fora capelão da Polícia Militar do Piauí e fora seu diretor espiritual no
grupo da Renovação Carismática da Escola Dom Barreto.
Quando o padre o avistou, em gesto largo e de muita
expansividade, abriu os braços, como se estivesse se preparando para um grande
abraço, e sorrindo o chamou de “meu advogado Dr. Batista Rios”, como costumava
saudá-lo. Conversaram no máximo dois minutos. Despediram-se e Batista seguiu
para o seu escritório.
Um pouco adiante, voltou-se e viu o padre afastar-se no
ensolarado início de tarde teresinense. O meu colega admirava esse capelão,
pelo que ele tinha de ungido, de santidade, de homem efetivamente de Deus.
Fazia tempos que não o via, mas sempre pensava nele, sempre desejando revê-lo,
uma vez que passara a integrar o grupo da Renovação Carismática do Cristo Rei,
deixando o que era dirigido pelo padre Geraldo.
No caminho, foi pensando em como o achara rejuvenescido,
quase transfigurado em sua expressão de alegria, de paz, de beatitude, com
feição e expressões angelicais. De tarde, ao deixar o seu escritório, foi pegar
uma revista na banca do Solon, na praça Pedro II. Nessa banca, encontrou Célia,
que fora sua colega do antigo INAMPS e do grupo carismático do Dom Barreto.
Com muita alegria a informou de que havia encontrado, antes
das duas horas da tarde, o padre Geraldo. Célia, incrédula e sorrindo,
disse-lhe que ele estava a fazer mais uma de suas brincadeiras, pois tal fato jamais poderia ter acontecido,
posto que o capelão havia falecido há mais de um ano. Batista retrucou-lhe que
ela é quem estava a fazer gracejo, e foi embora.
No dia seguinte, quando o magistrado Batista Rios, como
costumeiramente fazia, foi assistir a uma missa na igreja de São Benedito,
encontrou, logo na entrada do templo, a senhora Ivani, pessoa de muita devoção
e de sua estima. Disse-lhe da alegria de haver encontrado, no dia anterior, o
padre Geraldo Vale.
Dona Ivani, algo perplexa, com as pupilas um tanto dilatadas,
respondeu-lhe:
– Meu filho, padre Geraldo já
faleceu, faz mais de ano...
Batista Rios, católico da mais lídima devoção, homem íntegro,
magistrado honrado, não sabe a explicação definitiva para o fato, mas somente
que ele aconteceu, da maneira que me narrou.
Talvez o seu desejo em rever o sacerdote tenha sido tão
forte, que materializou a imagem dele, que estava incrustada indelevelmente em
sua mente; talvez o padre tenha obtido permissão para lhe aparecer uma última
vez, para que Batista pudesse dar o seu testemunho de que há mais coisas no céu
do que apenas aviões de carreira, como asseverou célebre ironista.
11 de abril de 2010

