quinta-feira, 11 de março de 2010

SELETA PIAUIENSE


CREPÚSCULO

Celso Pinheiro

Crepúsculo. Dlin, dlon... Sinos gemendo aos dobres
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...


A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...


Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...


Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...


Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...

quarta-feira, 10 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


O PLANO DE DEUS
10 de março

Releio, pela enésima vez, este texto de Epicuro: “Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?” Nunca me inquietei com essas indagações, e sempre tive resposta para elas. Apenas nunca externei o que sempre esteve em minhas convicções e fé. Enfrentarei a problematização da primeira parte da citação e tentarei encontrar uma resposta. Em momento algum Epicuro negou a existência de Deus. Portanto, a admitiu. Aliás, todas as perguntas partem do pressuposto de que Deus existe. Faz tempo venho adiando escrever uma crônica, que forceja em meu cérebro, louca para ser dada à luz da publicidade. Escrevê-la-ei agora, e com ela tentarei responder aos questionamentos epicurianos.

Quando fiz minhas primeiras viagens aéreas, tinha muito medo, e sequer olhava para as belezas que poderia ver da janela, fosse uma bela e verdejante colina ou uma caprichosa enseada marinha, ou fosse o celestial alumbramento das nuvens, nas quais gostaria de deitar e rolar. Entendi que esse medo de nada adiantava, já que eu era forçado a enfrentar a viagem. E se houvesse algum acidente, de nada me valeria essa inquietação. Portanto, era inútil, e apenas me incomodaria durante o voo. Além do mais, considerando que avião é o meio de transporte mais seguro, exceto elevador, eu apenas sofreria por algo que dificilmente iria acontecer. Por outra parte, raciocinei que o avião fora construído por quem sabia o que estava fazendo, por quem tinha conhecimento, ciência, experiência, e a mais avançada tecnologia e os mais adequados e sofisticados materiais. Também pensei com os meus botões: quem o pilotava sabia o que estava fazendo, estudara, tinha um plano de voo e igualmente seria vítima de eventual erro que cometesse, pelo que agiria sempre com responsabilidade e prudência. Assim, decidi confiar, mesmo porque não poderia fazer outra coisa, uma vez que resolvi entrar na aeronave.

Da mesma forma, para responder às indagações do filósofo, direi que Deus, cuja existência ele admite no enunciado de seu silogismo, tinha e tem pleno conhecimento de sua obra e, certamente, tem um plano maravilhoso e perfeito, como só podem ser as obras divinas. O que sucede é que nossa inteligência e nossos conhecimentos são diminutos, para que possamos entender a mente e a inteligência infinita de Deus, como igualmente não conhecemos os pormenores de seu plano. Ora, quanto mais o homem tenta perscrutar os umbrais do infinito, do infinitamente grande, mais novas grandezas ele descobre no espaço sideral. E, quanto mais se volta para o infinitamente pequeno das partículas e da mecânica quântica, mais se surpreende com subpartículas cada vez menores e cada vez mais sutis. Até já disse, num de meus poemas, que atingi o infinito ao ficar infinitamente pequeno. Dessa forma, entendo que não devemos nos preocupar com as indagações do velho Epicuro. Confiemos no criador da aeronave, que é Deus, e confiemos no plano de voo do piloto, que também é Deus. Talvez Ele, que é perfeito, não tenha desejado criar uma obra pronta e acabada, mas uma em construção, em permanente marcha para a perfeição, apesar dos momentâneos e aparentes retrocessos. E, no final dessa odisseia, que é a própria existência, chegaremos ao porto final, sãos e salvos, puros e redimidos, recolhidos ao corpo místico de Deus, como pequeninos agasalhados em colo aconchegante e protetor. Para finalizar, considerando que Epicuro fez várias perguntas, seguindo as pegadas e as lições de Lavoisier, quero fazer apenas uma: será se algo ou alguém que obteve a existência poderia algum dia perdê-la, ou haverá apenas uma transformação existencial, uma nova dimensão do existir, do ser? Sem ansiedades, confiemos e esperemos. Em Deus.

terça-feira, 9 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


9 de março

O grande Machado de Assis disse que teria meia dúzia de leitores. Ora, se Machado que era o Machado dizia isso, que direi eu? Bem, o fato é que um de meus poucos leitores, no caso o professor Nelson Rios, de Regeneração, dizendo que amanhã será o dia do sogro, e que ele gosta muito do seu, o senhor Raimundo Rodrigues Coimbra, pediu-me escrevesse alguma coisa sobre esse parente por afinidade. Inicialmente, devo dizer que nunca fui dado a escrever poemas de circunstância ou a pedido. Nunca tive habilidade para isso, mas desta feita abrirei uma exceção, mesmo porque o texto será em prosa. Por falar em parente por afinidade, se realmente houvesse afinidade, entre genro e sogro, sem dúvida seria uma grande dádiva e bênção. E se houvesse amizade, melhor ainda. O fato é que não escolhemos nossos parentes, simplesmente nascemos em determinada família. Já os amigos, não; nós os escolhemos, pelas afinidades, pelas identidades, simpatia e admiração. Diz-se que os opostos se atraem. Isso pode ser verdade na física, no eletromagnetismo, mas não creio ser na amizade e nem no amor. Por que um homem bom e de bem seria amigo de um bandido, sobretudo perverso? Não creio haver motivo para isso, mesmo porque um homem mau e do mal não é amigo de ninguém, mas apenas cultiva os seus interesses e finge amizade, na defesa de suas conveniências momentâneas. Agora, a mulher ou o marido são escolhidos por nós. Consequentemente, vamos ser genro ou nora de um parente de nosso cônjuge, que ele não escolheu, e que veio de contrapeso com o casamento. A Bíblia diz que, quando uma pessoa casa, deixa o pai e a mãe, para ir ser carne da mesma carne de outra pessoa. Claro, o texto sagrado não está recomendando a ninguém o abandono de seus pais, mas advertindo-o de que a sua preocupação, em primeiro lugar, deve ser com a família que irá constituir, principalmente com a vinda dos filhos. No Brasil, seja por brincadeira ou por preconceito, as sogras são estigmatizadas, e consideradas verdadeiras megeras, vítimas das mais sarcásticas piadas. Em outros países, essas parentas afins são consideradas uma espécie de segunda mãe, e até são chamadas e tratadas como tal. No Brasil, talvez a sogra seja considerada uma espécie de mãe postiça, e muito desse preconceito venha de velhas estórias infantis, em que as madrastas maltratavam os enteados, sendo que uma delas enterrou uma orfãzinha, que, com um fio de voz, sumida e chorosa, vinda das entranhas da terra, pedia ao capineiro de seu pai para não lhe cortar os cabelos, que haviam nascido e crescido do ventre da terra. Esse conto cortava o coração dos lacrimejantes pequenos que o ouviam. Há o ditado popular que diz: “Mateus, primeiro os meus”. Quiçá, em muitas mulheres, haja mesmo uma nítida preferência pelos seus filhos do que pelos enteados, mas isso não pode ser generalizado. Muitas madrastas foram mães extremosas para os enteados, e cuidaram deles com todo o desvelo de uma mãe de verdade. A mesma coisa sucede em relação a sogros e sogras: muitos são verdadeiros pais para seus genros e noras, e lhes dedicam um verdadeiro amor familiar. Estimo que o meu leitor Nelson Rios, professor de matemática, mas versado em Humanidades, nesse aspecto seja um privilegiado, por ter um sogro de sua máxima estima e benquerer.

EMOÇÃO NO CIRCO


Para João Miguel e Elmara Cristina

Pelas mãos tenras
de meus filhos
a magia do circo me chegou.

Atropelado por emoção e saudade
meu coração foi atirado de
lado a lado
pelas piruetas de
capetas e palhaços
infiltrou-se nos malabares
e me trouxe meu pai e o circo
encantado de minha infância.

As lágrimas escorriam
e eram estrelas e vaga-lumes
que pingavam da cartola
ensopada de um mago...

A lembrança de meu pai
assomou da sombra do passado
suavemente sentou-se ao meu lado
tomou-me as mãos
as mãos de uma criança.

segunda-feira, 8 de março de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


A BARCA E OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE

O céu começou a ficar carregado, como se fosse chover. Partículas sólidas e sujas pairavam no ar, prenunciando uma chuva ácida. Bruscamente sobreveio a tempestade. Nuvens giravam no céu em alucinante velocidade, formando um torvo torvelinho. Quando a velocidade giratória das nuvens diminuiu observei que vinha um grande e arcaico barco, com um grande rombo em seu casco remendado, conduzindo os quatro cavaleiros do apocalipse. Achei estranho o fato de que eles vinham naquela velha banheira, e não em seus árdegos e fogosos corcéis, como anunciado na profecia, ou, ao menos, numa lancha movida a jato, ou num caça supersônico, que seria o mais adequado a sua missão de extermínio. Estranhei, mas achei que fosse mesmo coisa do final do mundo ou dos tempos, o que daria no mesmo nonsense. Quando eu dava tudo como consumado, diante daquelas figuras apocalípticas, eis que as nuvens, por onde o barco singrava, voltaram a girar vertiginosamente, numa velocidade cada vez mais alucinante, até que se transformaram num buraco negro e tragaram o barco e seus tripulantes. Mais uma vez o final do mundo não se consumara. Respirei aliviado e segui em frente, quando vi o buraco negro devorar-se a si mesmo, e transformar o céu tempestuoso em ameno e azul céu de brigadeiro.

domingo, 7 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Componentes da mesa de honra: Carlos Alberto (reitor UESPI), Paulo Nunes (pres. Conselho Estadual da Cultura), Nerina Castelo Branco (decana APL), Oton Lustosa (representante TJ-PI), dom Juarez Sousa (bispo de Oeiras), Wilson Martins (vice-governador), Reginaldo Miranda (pres. APL), Temístocles Filho (pres. Assembleia Legislativa), Pe. Vicente (pároco de Passagem Franca), Fonseca Neto (novel acadêmico), Eliana Sampaio (Conselho Estadual da Educação) e Antônio José Medeiros (secretário da Educação).

7 de março

Após sua concorrida festa de posse, encontrei ontem, na APL, o novel acadêmico Fonseca Neto. Perdi o posto de “benjamim” para ele, que fica agora na extremidade dos modernos, enquanto a professora Nerina Castelo Branco continua na extremidade dos mais antigos, ocupando o decanato. Seu longo discurso, foi bastante encurtado pela emoção e beleza do conteúdo, que nos prendeu a atenção e nos arrancou aplausos. Tive a honra e a satisfação, na qualidade de 1º secretário da Academia, de ler o seu termo de posse, e fiz questão de fazê-lo em alto e bom som. Conheço-o faz mais de trinta anos, quando ele esteve na solenidade em que tomei posse do cargo de presidente do Diretório Acadêmico “3 de Março”, em Parnaíba. Depois, o apoiei em sua campanha vitoriosa para o Diretório Central dos Estudantes – DCE-UFPI. Em 1979, encontrei-me com ele na praia de Atalaia, oportunidade em que sorvemos umas cervejas, e entramos em altos “papos”, de conteúdo cultural, político, ideológico, histórico, que a nossa ardente e emotiva juventude impulsionava. Estiveram conosco outras pessoas, que as brumas do tempo já diluiu em nossa memória, mas, eu e ele, achamos que poderiam ser, entre outros, o Reginaldo Costa e o Bernardo Silva, do jornal Inovação, e talvez o poeta Alcenor Candeira Filho. Afinal, assim já se passaram mais de trinta anos. No calor e empolgação da conversa – e por que não confessar? - da libação etílica, perdemos a noção da passagem do tempo, e o fato é que o nosso bravo e novel acadêmico Fonseca Neto perdeu o bonde, mas não perdeu a esperança, como Drummond, em seu poema. Seguiu comigo para Parnaíba, em minha motocicleta CG-125. Mas, para novo infortúnio do Fonseca, quando nos aproximávamos da cidade, minha moto parou de funcionar por falta de gasolina. Para atenuar a minha culpa, pela possível imprevidência, devo esclarecer que esse modelo de veículo não possuía, na época, mostrador de combustível. Quando nos sentíamos desamparados, eis que um automóvel Brasília parou ao nosso lado. Era o deputado Elias Ximenes do Prado, meu conhecido, que nos oferecia carona. Aliás, em muito boa hora, pois o Fonseca conseguiu embarcar em ônibus da extinta empresa Marimbá, cuja agência ficava na avenida Capitão Claro, quase no cruzamento com a Álvaro Mendes. Consta que no outro ônibus, que trouxera o Fonseca, os seus colegas voltaram entristecidos, achando que ele teria se afogado ou teria sido arrebatado por alguma entidade marinha, e ido para as encantadas terras do sem fim. O deputado Elias me levou a um posto de combustível, onde adquiri gasolina, e me conduziu até onde ficara minha motocicleta, que voltou a funcionar a pleno vapor. E voltei a varar o tempo e o vento, parafraseando um poema de Alcenor, dos nossos bons tempos de motoqueiros.

sábado, 6 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


6 de março

Finalmente, entreguei ontem o meu trabalho, para que possa ser avaliado pelo professor Luís Carlos Martins Alves Júnior, que ministrou o curso O Positivismo Jurídico e a Jurisprudência, para qualificação de magistrados do Piauí. O mestre é procurador da Fazenda Nacional, junto ao Supremo Tribunal Federal, é lente de alto gabarito de universidade do Distrito Federal, e é meu conterrâneo de Campo Maior, filho de um amigo meu. Cada juiz deveria ter como base para esse trabalho a sua mais difícil decisão judicial. Entre outras sentenças em causas complexas, escolhi uma em que o impetrante do mandado de segurança fora demitido de seu cargo de motorista oficial do município porque supostamente teria se apropriado indevidamente da importância de dez reais. Segundo ele, na petição inicial, viajou a Teresina, conduzindo a ambulância municipal e quatro pacientes, portando a verba de sessenta reais, fornecida pela Secretaria de Saúde. Logo na consulta do primeiro paciente, gastou cinquenta reais. Diante dessa situação, comprou um cartão telefônico para pedir instrução a seu chefe, sobre o que deveria fazer. À tarde, com fome, gastou a bagatela restante. Alegou que não recebeu diárias e nem suprimento de fundos para pagamentos de pequenas despesas. Em suas informações, o prefeito alegou que ele se apropriara indevidamente dos dez reais, e que por essa razão fora demitido, através de processo administrativo, em que lhe fora dado o direito a ampla defesa, e em que fora observado o princípio do contraditório, mas que ele, embora intimado, se mantivera inerte. Nada disse sobre os fatos alegados pelo impetrante e muito menos os negou. Não juntou o tal processo administrativo. Ora, ao longo de meus mais de doze anos de magistrado já vi grandes ignomínias, e já vi, algumas vezes, o gestor municipal, por questiúnculas pessoais e picuinhas políticas, querer massacrar humilde barnabé municipal, que, não raras vezes, só tem por si a razão e o direito.

Entendi que não cabia na cabeça de ninguém, detentor de um mínimo de raciocínio, que um servidor público, tendo recebido apenas sessenta reais, fosse ter a insanidade de fazer um alcance de dez reais, pois isso daria logo na vista da pessoa a quem prestaria conta, quando retornasse da viagem, pelo imediatismo e visibilidade do fato. Também seria rematada loucura que ele fosse arriscar o seu emprego por causa da ínfima quantia de dez reais. Seria um completo bocó, um consumado beócio. O lógico é que ele pretendia que a administração arcasse com essa despesa, como seria o correto, já que o gasto ocorrera em virtude da viagem, ou pelo menos, na pior hipótese, que esse “astronômico” gasto fosse descontado da diária que o município lhe devia, posto que não lhe pagou diária e nem suprimento de fundos para pequenas despesas. Portanto, tudo bem equacionado e sopesado, o município é que lhe devia, e não ele à unidade administrativa. Afirmei, sem dúvida com certa dose de ironia, que nem o célebre sensor romano Catão estaria à altura da exação administrativa de Cocal de Telha; que nem mesmo o rigorismo do formidável e legendário legislador Dracon equiparar-se-ia ao fundamentalismo, quase diria xiita, da austeridade da referida administração. Terminei por acrescentar que esse rigor atingira o paroxismo, pois superara a famosa Lei de Talião, do vida por vida, dente por dente, olho por olho, uma vez que o emprego, mesmo de um barnabé municipal, excedia incomensuravelmente em importância a bagatela de dez reais. Não houvera a menor proporcionalidade entre a aplicação da pena e a falta cometida, que a meu ver sequer existira, pelas razões que explanei acima.

Considerei que, talvez, a exação do gestor do município de Cocal de Telha só encontrasse paralelo no apego formalista dos fariseus à lei mosaica. Os fariseus se celebrizaram pela ostentação exagerada de suas pretensas virtudes, pois se compraziam na aparência e nas exterioridades, e não na essência espiritual, pelo que mereceram umas boas sovas e vergastadas verbais de Cristo, que deles disse serem semelhantes a sepulcros, caiados por fora, mas podres por dentro. Da mulher de César se disse não bastar ser virtuosa, mas também que deveria aparentar sê-lo. Da administração impetrada, disse esperar, sinceramente, o contrário: esperava que não apenas aparentasse, mas que, de fato, fosse impoluta, como quisera deixar transparecer ao demitir o seu servidor, em conseqüência do suposto desfalque de dez reais. Diante dos mensaleiros, valeriodutos, sanguessugas e outros ralos e buracos negros em que o dinheiro público se esvaía, asseverei que estava certo de que essa demissão por causa do pretenso desvio de dez reais, diante das circunstâncias em que teria ocorrido, não passava de uma descomunal ironia ou de um formidável e desconcertante blefe. Invocando princípios do Direito Penal, aduzi que poderia falar em estado de necessidade, quando o impetrante teve que comprar o cartão para fazer o telefonema, no próprio interesse do serviço público, em decorrência da falta de suprimento para pagamento de pequenas e eventuais despesas, e que poderia falar em estado famélico, quando o impetrante precisou saciar sua fome, já que não lhe foi paga a sua diária, como igualmente poderia invocar o principio da insignificância ou da bagatela, ante a “desmesurada” importância de dez reais. Em suma, além de outros argumentos, fundamentei minha decisão, em seara do Direito Administrativo, com princípios do Direito Penal, e mandei que o humilde servidor fosse reintegrado em seu cargo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

SELETA NACIONAL


SONETO

Carlos Pena Filho

O quanto perco em luz conquisto em sombra.
E é de recusa ao sol que me sustento.
Às estrelas, prefiro o que se esconde
nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.

quinta-feira, 4 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



4 de março

Recebi a visita do professor Alexandre Costa. Fazia meses que não o via. Estava feliz, porque foi eleito delegado de Regeneração em um congresso cultural e porque irá cursar mais uma especialização. Lembrei-lhe que, desde que assumi a Comarca de Regeneração, tanto para pessoas com interesse cultural, como nos eventos culturais de que tenho participado, venho defendendo a ideia de que o município deve restaurar os folguedos das danças e cantigas de São Gonçalo. Tenho dito que, bem ou mal, o folguedo bumba meu boi vem sendo preservado, tanto na capital como em vários municípios do estado. Defendo que em terras gonçalinas, mormente em Regeneração, cuja matriz foi erigida sob a invocação desse santo alegre, violeiro e festeiro, o grande diferencial seria o cultivo das rodas de São Gonçalo, que outrora eram praticadas em vários municípios. Já observei que Amarante, situada a dezoito quilômetros de Regeneração, vem preservando as suas tradições, a sua cultura e os seus folguedos, como a dança do cavalo piancó, as danças portuguesas, o seu patrimônio arquitetônico, que é um dos mais ricos do Piauí, o cultivo do poeta maior Da Costa e Silva e da literatura amarantina. O professor Alexandre revelou-me que, para minha satisfação, a comunidade de Morro Branco vem realizando as rodas de São Gonçalo, e que, de uniforme novo, patrocinado pelo município, fez bela apresentação no dia 2 de dezembro passado. Contou-me que o Ponto de Cultura de Regeneração, dirigido pelas Irmãs Franciscanas, conseguiu aprovar o projeto “Fulô de Piqui”, que contempla, entre outras metas, o apoio e incentivo a esse grupo gonçalino de Morro Branco, para que a dança e as cantigas de São Gonçalo voltem a ter a pujança que já tiverem no passado. E isso fará jus à história da Vila de São Gonçalo da Regeneração, outrora habitada pelos índios gueguês e acoroás, que tanto gostavam de cantar e dançar, como igualmente gostava o padroeiro São Gonçalo, conquanto para finalidades pias.

quarta-feira, 3 de março de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


3 de março

Encontrei há pouco, no restaurante Gula-Gula, em Regeneração, a professora Dolores Maria. Com o seu jeito alegre e expansivo, disse que estava com saudades de mim, mas do poeta, e não do juiz. É que estive de recesso e de férias, e fazia meses que não nos víamos. Tempos atrás, num ato falho, chamei-a de professora Maria da Cruz. Pareceu-me que ela não me ouviu, o que me causou estranheza. Explicou-me haver pensado que eu não estava falando com ela, uma vez que seu nome era outro. Imediatamente, respondi-lhe, em tom de blague, que Cristo morrera na Cruz, mas que certamente sentira muitas “dolores”, e fora por isso que eu a chamara de Maria da Cruz, e não, Dolores. De qualquer modo, a cruz tornou-se o símbolo da Fé em Cristo.

Soube, por uma nota do Simão Pedro, publicada no blog Bitorocara, que faleceu em Campo Maior o decano dos comerciantes. Vendia miudezas, como equipamentos de pesca, tubos de linha, balas, guloseimas etc., no centro comercial da cidade. Morava num pequeno apartamento, no fundo de sua loja. Pelo que interpretei do texto e da conversa que mantive com Simão Pedro, ao telefone, ele era um celibatário, de hábitos um tanto esquisitos. Embora fosse comerciante, e como tal tivesse que manter contatos com seus clientes e fornecedores, levava uma vida reclusa, quase um ermitão, fechado em si mesmo e no seu pequeno aposento. Tempos atrás, saía a noite, para passear em sua Rural, provavelmente no intuito de se desanuviar de suas tristezas e preocupações. Criava, no quintal, mais de duas centenas de gatos, o que, só pela quantidade, já era uma excentricidade. Por que ele criava tantos gatos? Dois ou três não lhe seriam o bastante? Seria uma maneira de driblar e compensar a tristeza e a depressão, se é que as tinha? Gato é um animal que aguça e excita o imaginário popular, inclinado a acreditar em crendices, lendas e superstições. Diz-se que o gato tem sete vidas e que vê e pressente coisas, que ninguém mais percebe. Esse comerciante, de nome Moisés, não recebia visitas, não tinha amizades íntimas. Era recluso, calado, sem expansões emotivas, embora fosse educado e tratasse bem os seus clientes. Sentia-se uma nota de tristeza, escondida em seu olhar. Fico imaginando em que pensaria ele, na solidão de seu quarto, à noite, morando num local que era movimentado durante o dia, mas que, nas madrugadas, transformava-se numa cidade morta, num quase cemitério. Que emoções sentiria ele? Que segredos guardaria ele? Seria infenso às emoções humanas? Seu segredo seria não ter nenhum segredo, e levar a vida comum de um homem simples e bom, mas que optou em viver sozinho? Não sei. Talvez ninguém saiba. E ele, para sempre, levou as respostas consigo. Respostas que – quem sabe? - nem mesmo ele as tivesse, posto que, muitas vezes, o homem é a esfinge de si mesmo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A MALDIÇÃO DO POETA


Elmar Carvalho

Lobo solitário
e maldito das estepes
nas quais nunca estive,
açoitado pelos estiletes do vento e do frio,
uivando para a Lua
que jamais verei porque
para não a ver
meus próprios olhos ceguei.
Cão danado
cão condenado
por si mesmo
a uma eternidade
de trabalho forçado.
Judeu errante
e sem remissão
– por sobre desertos de areia e de gelo –
fugindo sempre
de si mesmo.
Poeta maldito
até a infinita geração.
Cosmopolita proscrito
das fronteiras do
tudo e do nada.
Prometeu acorrentado
dilacerado pelas aves
agourentas e de rapinas
que saíram de seu cérebro
– caldeirão vulcânico
em contínua erupção –
a vomitar monstros e fantasmas
de milhares de membros e cabeças.

DIÁRIO INCONTÍNUO




1º de março

Neste sábado, na Academia, foi-me entregue o opúsculo do “XXVIII Sarau Lítero-Musical Ágora”, evento que vem sendo organizado, mensalmente (última quinta-feira de cada mês), por João Carvalho, há um ano e meio, como a numeração indica. Seu organizador é um médico humanitário, que realiza um trabalho social relevante, voltado especialmente para os portadores do mal de Alzheimer, de cuja Associação Brasileira [de Alzheimer] – Regional do Piauí é ele presidente. Tem promovido constantes palestras sobre essa devastadora doença. Quando fui juiz em Capitão de Campos, já ouvia falar no João Carvalho, que havia sido médico nessa cidade, como um cidadão bem-humorado e cordato. Depois, o conheci pessoalmente e atesto essa opinião. O Sarau Ágora conta com o apoio decisivo dele, que gasta um bom dinheiro em sua realização, embora tenha o apoio de algumas entidades. Ajudam-no a levar adiante essa difícil empreitada os poetas William Melo Soares, velho amigo, desde meus tempos parnaibanos, Kátia Paulo, Graça Vilhena, e mais Ilza Bezerra e Dionísio Neto. No evento são recitados poemas, intercalados por belas apresentações musicais, com músicos e cantores especialmente convidados. Em cada mês é homenageado um poeta diferente. No sarau de dezembro todos esses poetas são homenageados conjuntamente, como apoteose dessa sequência lítero-musical. As pessoas presentes podem recitar poemas de sua autoria ou da lavra de outros poetas. Além de bardo traquejado, de muita sensibilidade e sutileza, João Carvalho também é músico competente, seja manejando um teclado ou empunhando um sonoro pinho. Para gáudio meu, já tive a ventura de ser um dos poetas homenageados, numa das edições do sarau, com direito à publicação de uma bela plaqueta, que coligia uma seleta de meus poemas preferidos. Vida longa ao sarau de nosso bravo e boa-praça João Carvalho!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

PROFESSOR FREITAS E O GIGANTE ADAMASTOR




28 de fevereiro   Diário Incontínuo

PROFESSOR FREITAS E O GIGANTE ADAMASTOR
Elmar Carvalho

Ontem à tarde estive no apartamento do professor José de Ribamar Freitas. Muitas vezes o tenho visitado, seja para conversarmos, seja para receber alguma orientação sua, mormente na área de literatura. Ele é um homem sério, para alguns circunspecto, mas para mim foi sempre uma pessoa de fácil convívio e de bom-humor. Admiro a sua avantajada e bela biblioteca.

Muitos de seus livros são, hoje, obras raras, e muitos já não são reeditados há muitos anos. A maioria é composta de clássicos da literatura universal. Ribamar Freitas é, ele próprio, um clássico, e eu o chamo de o último dos helenos. Tem considerável conhecimento de grego e de latim. Lê, no original, os poetas do classicismo greco-romano. É um erudito e grande orador. Está, no momento, às voltas com um livro de ficção, que está preparando para publicar, já tendo escrito vários de seus contos.

Fui seu aluno de Direito Penal, na Universidade Federal do Piauí, na primeira metade da década de 80. Recordo que no primeiro dia de aula cheguei um pouquinho atrasado. Ele estava dizendo que já ninguém lia os clássicos, que ninguém queria mais saber desses grandes mestres do classicismo. Para provar o que dizia, perguntou se alguém já ouvira falar em Adamastor, exatamente no momento em que eu me sentava numa das cadeiras.

Devo dizer que o silêncio foi sepulcral. Então, levantei o braço, e disse que Adamastor era o gigante de Os Lusíadas, de Camões, que ameaçou de males formidáveis os navegadores portugueses, ao dizer que lançaria maldições de toda sorte, e que o menor mal seria a morte. O mestre ficou perplexo, e levemente contrafeito, porque eu quebrara o mote e o fundamento de sua peroração.

Duas décadas depois, encontrei na apresentação ao livro Reflexões sobre a Vaidade dos Homens e Carta sobre a Fortuna, de Mathias Aires, uma passagem que me fez recordar o episódio, algo anedótico, que contei. Consta que Ariano Suassuna, ao ministrar aula em São Paulo, dissera que as universidades brasileiras ensinam de costas para o país. Para provar o que afirmava perguntou se alguns dos alunos já ouvira falar em Kant. Todos levantaram a mão, afirmativamente.

Em seguida, perguntou se eles já tinham ouvido falar em Mathias Aires. Ninguém levantou a mão, exceto um único aluno. Suassuna perguntou a esse aluno se ele já lera esse clássico de nossa literatura, ao que ele respondeu que não. Disse que só conhecia o nome do grande escritor e pensador porque, por coincidência, morava numa rua que tinha o seu nome.

Contudo, se fosse nos dias de hoje, à pergunta de mestre Ribamar Freitas, todas as mãos levantar-se-iam e todas as vozes responderiam sim, em uníssono. Sucede que hoje é sobejamente conhecido o palhaço televisivo Adamastor Pitaco.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



27 de fevereiro

De manhã fui olhar parte de minha biblioteca, que fica em outra dependência da casa. Logo dei de cara com o livro Sábado Árido, de meu saudoso amigo Jamerson Lemos, poeta visceral, de muita sensibilidade e criatividade. Jamerson era poeta todo dia, o dia todo. O opúsculo já está maltratado pelas intempéries do tempo, e levemente roído nas bordas das páginas pela irreverência e iconoclastia das traças, que não respeitam nem as boas nem as más obras. As traças não se importam com o teor do livro, mas apenas com o sabor do papel. É um pequeno grande livro. Claro, pequeno no tamanho, grande na qualidade literária. O livro foi publicado em 1985. Em dedicatória datada do ano seguinte, o bardo escreveu: “Ao meu irmão Elmar Carvalho o sol do meu dia-a-dia, com o meu abraço”. Entre outras pessoas de sua amizade e admiração, dedicou-o a sua esposa, Maria das Dores, e a seus filhos Jamerson Júnior, hoje médico, e Ceres Josiane, também com curso superior. Transcrevo o que dele disse A. Tito Filho: “Li, com entusiasmo, SÁBADO ÁRIDO, poemas em que Jamerson Lemos procura captar o essencial da vida. Os versos curtos são notavelmente rítmicos. O pensamento é íntimo e nostálgico, ideológico, mas sempre verdadeiro, pleno de angústias vitais”. Nada tenho a acrescentar à consideração crítica do mestre, exceto que concordo com ele em gênero, número e grau, para usar uma expressão surrada e gasta. A maior homenagem que se pode prestar a um poeta é ler ou recitar os seus versos. Jamerson é um poeta para ser lido e recitado, por causa da qualidade do conteúdo e da melodia de seus versos. Segue abaixo um de seus poemas, extraído do referido livro:

ARMADILHA

Jamerson Lemos

a música escorre pela noite
como estreito regato.
Igualmente minha mente
escorre pela noite.

isso ou aquilo, antes, depois,
uma rua tortuosa,
pequena cidade a ferver
distante.

quanto tempo fui tolo?
a música escorre pela noite,
pulsa como um coração.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O VINTE DE AGOSTO - DIA DO MAÇOM


O Vinte de Agosto – Dia do Maçom

Simão Pedro

Ainda é necessário ao mundo o estabelecimento de datas para nos lembrar fatos marcantes que tiveram importância em nossa vida social. Desde a antiguidade, o homem buscou registrar no seu calendário datas festivas para trazer ao presente lembranças relacionadas à sua vida e ao grupo social em que se achava inserido.
Diversas datas de caráter pessoal, cívico e religioso são por nós conhecidas, podemos destacar o dia da Pátria, o dia de São João Batista, nosso padroeiro, o dia do nosso nascimento e morte, o dia do nascimento do Mestre Jesus, o dia do Maçom. Necessitamos ainda destes recursos na atual fase evolutiva que nos encontramos.
O dia do Maçom é comemorado em 20 de agosto, todos os irmãos se confraternizam para lembrar a importância do nosso papel na construção que temos a realizar, dentro de nós e em prol da sociedade. Esta data está relacionada com o dia da Independência do Brasil, segundo Castellani, em “Os Maçons que fizeram a história do Brasil”, “No dia 20 de agosto, durante uma sessão do Grande Oriente presidida por Gonçalves Ledo, Dom Pedro era aclamado Imperador do Brasil, tendo ocorrido, nesta sessão, a verdadeira proclamação da independência feita pela Maçonaria Brasileira, doa a quem doer...” neste ponto, iniciamos uma reflexão acerca desta data. Será o Dia 20 de agosto verdadeiramente o Dia do Maçom? Do ponto de vista pessoal chegamos a conclusão que o dia dos Maçons não pode estar atrelado a uma data em nosso calendário, a um dia de um mês qualquer, o dia do Maçom não é para ser comemorado da forma como se comemoram as datas no mundo profano, é antes de tudo uma oportunidade de reflexão a ser feita durante todos os dias e meses do ano.
Quando fomos convidados a nos libertar das trevas da ignorância do mundo profano, realizamos na câmara escura uma profunda reflexão sobre a nossa morte para este mundo e o nosso renascimento para o mundo das luzes. Feito isto, renascemos e tivemos a oportunidade de conhecer a luz, iniciar nossa caminhada pela escada de Jacó. Mas, como chegar ao objetivo sem o esforço na caminhada? Na busca da verdade o trabalho sempre é o melhor recurso, sem ele não alcançamos a luz; a marcha é a do dia a dia, é a vivência diária, inicia-se ao meio dia, só terminando a meia noite.
Quando o aprendizado é bem compreendido, as virtudes afloram em nossos corações, é chegada a hora de fazer brilhar a nossa luz, espargindo-a no meio social em que vivemos. O nosso exemplo, nossa conduta, nos credencia ao reconhecimento do mundo profano, para o qual somos espelho. Muitos dirão: Este homem é virtuoso! Este homem é um servidor! Outros irão dizer, é um Maçom! Este reconhecimento não deve servir de alimento ao nosso orgulho, deve ser recebido com humildade, não devemos permitir que a vaidade tome conta de nós, a principal virtude de um Maçom é a humildade. Só o estudo e a transformação moral levarão o Maçom a compreender que “Somos filhos da luz!”, Co-participes da grande obra. Atentai bem meus irmãos, grande é a nossa responsabilidade. Continuando fiel ao nosso compromisso teremos ao final da nossa jornada, o acolhimento do Grande Arquiteto, ele nos abrigará entre os justos e lá, do oriente eterno, continuaremos a grande obra, onde mais trabalho nos espera.
Busco nestas reflexões não diminuir a grandeza desta data e a sua importância, longe disso, procuro destacar seu real significado. Ao final das minhas conclusões, dado a grandeza do momento, busco no poeta, o socorro necessário. As palavras me faltam meus Irmãos, a poesia nos eleva aos céus, nos aproxima do Criador e enche de paz nossos corações. Deixo a cargo do Poeta e Irmão Elmar Carvalho a finalização do trabalho, lendo seus versos recheados de sabedoria:

Mística

I

Arrebatado por um carro de fogo
eu próprio em fogo transformado
os céus galguei
as fúrias todas como um louco aplaquei
e a escada cintilante de Jacó
passo a passo subi
Devassei as vísceras mecânicas
da baleia do profeta
e a gênese do primeiro
átomo desvendei.
Penetrei o caos primacial
e o primeiro vagido
da vida escutei.
E Deus estava lá
por trás de tudo:
logo após em regressão
a explosão do átomo primordial

II

Meu anjo da guarda
em sete anjos transmudado
minha guarda de honra revistava
e com sua espada de fogo
ou raio laser
franqueava-me a entrada
da gruta dos leões
enquanto Daniel dormia
à minha sombra

Viva a Maçonaria! Viva a liberdade que temos hoje de buscar a igualdade. Que nossos corações se unam na fraternidade. Salve o Vinte de agosto! Salve os “Heróis da Pátria” Salve os heróis anônimos de hoje; Salve os irmãos da nossa Loja Heróis da Pátria. Que o Grande Arquiteto permita seguirmos juntos nessa escola abençoada rumo a perfeição.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Solenidade de lançamento de livros e revista, vendo-se o prefeito Wall Ferraz, a presidente da FCMC, dona Eugênia Ferraz, Fábio Costa, Elmar Carvalho e o poeta Hardi Filho

Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo, de Teresinha Queiroz
26 de fevereiro

Esta madrugada, sonhei com a minha gestão à frente da presidência do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, quando fui o coordenador de Editoração dessa entidade. Aproveitei para dar uma olhada em algumas das obras de que fui editor. Fui indicado pelo poeta e escritor Francisco Miguel de Moura à dona Eugênia Ferraz, que era a presidente da FCMC, acredito que por causa de minha atuação como presidente da União Brasileira de Escritores do Piau´- UBE-PI. Para escrever esta nota, não fui atrás de datas na Fundação, de modo que não serei preciso quanto a isso. Assumi as funções editoriais no ano de 1994, quando o prefeito era o professor Wall Ferraz, e as deixei no final de 1997, quando tomei posse de minhas funções magistraturais perante o Tribunal de Justiça do Piauí. Com a morte de Wall Ferraz, assumiu o cargo de prefeito Francisco Gerardo, que foi sucedido por Firmino Filho. No primeiro mandato deste, presidiu a FCMC a professora Cecília Mendes, a cuja administração servi durante quase um ano. Tive a sorte de exercer minhas funções durante um período em que a editoração foi prioridade no órgão municipal de cultura. Para administrar com impessoalidade, logo que assumi a presidência do Conselho elaborei os regulamentos de editoração e do Conselho Editorial, que foram aprovados por este e pela presidente da Fundação, que assinou as portarias respectivas, e também passei a fazer a distribuição de obras para análise dos conselheiros através de rodízio, fazendo constar em ata tanto a distribuição como a aprovação ou rejeição. Foi, na época a que me refiro, sem a menor sombra de dúvida, o mais importante e arrojado plano editorial do Estado do Piauí, bastando que se diga que a cada quatro meses, regularmente, eram publicados a revista Cadernos de Teresina e mais quatro a seis livros. Por isso, posso afirmar que durante o meu período foram publicados aproximadamente 60 (sessenta) obras. Foram gestoras da FCMC, como já disse, as senhoras Eugênia Ferraz e Cecília Mendes, das quais tive total apoio, sem nenhuma interferência autoritária no Conselho, uma vez que ambas acatavam as decisões do colegiado. Devo acrescentar que a FCMC tinha uma equipe “enxuta”, mas dedicada, motivada, e que realmente vestia a camisa da cultura. Tive um bom relacionamento com todos, e de todos guardo boas lembranças. Fora as cerca de quinze revistas Cadernos de Teresina, editadas no período a que me refiro, foram publicados, aproximadamente, 45 livros, todos aprovados pelo Conselho, e muitos deles da mais alta significação para a cultura e a literatura do Piauí. De cabeça, sem consulta a anotações ou registros burocráticos, cito alguns, como uma pálida demonstração do que afirmo: Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí, de Cláudio Bastos, Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo, de Teresinha Queiroz, Literatura Piauiense – escorço histórico, de João Pinheiro, com posfácio de atualização de Francisco Miguel de Moura, A Harpa do Caçador, de Teodoro Castelo Branco, Crônicas de Sempre, org. de Adrião Neto, A Poesia Piauiense no Século XX, em parceria com a Imago, org. de Assis Brasil, várias obras de Mons. Chaves, Escravos do Sertão, de Miridan Brito Knox Falci, O Ofício da Palavra, de Elizabeth Oliveira, Mulheres Plurais, de Pedro Vilarinho Castelo Branco, Balaios e Bem-te-vis – a guerrilha sertaneja, de Claudete Maria Miranda Dias, Anos 70: Por que essa Lâmina nas Palavras?, de José Pereira Bezerra etc. Na revista, foram publicadas memoráveis entrevistas, como as em que foram entrevistados Mons. Chaves, Alcenor Candeira Filho, Cineas Santos, Assis Brasil, Celso Barros Coelho, Raimundo Nonato Monteiro de Santana e Pe. Raimundo José Airemoraes, cujos entrevistadores éramos eu e o jornalista Domingos Bezerra Filho, além de textos de contistas, cronistas, poetas e historiadores. Além disso, foram editadas obras vencedoras de concursos literários, inclusive volume de textos de literatura de cordel. Com o impacto da morte de Wall Ferraz, que comoveu a população teresinense, idealizei o livro Wall Ferraz – o homem e o estadista (coletânea de crônicas e artigos), que também foi editado. Após esse infausto acontecimento, o Dicionário Histórico e Geográfico do Piauí, que havia sido acolhido com entusiasmo pelo falecido prefeito, recebeu o Prêmio Clio, concedido pela Academia Paulistana de História, que fui receber na Paulicéia, por designação de dona Eugênia Ferraz. Na minha gestão, foram conselheiros Francisco Hardi Filho, João Bosco da Silva, José Airton Ferreira de Sousa, Marcelino Leal Barroso de Carvalho, Silvana Maria Santana de Oliveira, Rubervam Maciel do Nascimento e Francisco Miguel de Moura. Sugeri muitas capas ao artista plástico Radamés, enquanto outras foram concepções de Áureo Tupinambá Júnior e Gabriel Arcanjo, além de outros artistas. Nas solenidades de lançamento da revista e dos livros, usávamos da palavra o prefeito, um representante dos autores e eu, representando a FCMC, em que comentava e analisava as obras. Aproveitando o apoio da administração superior da FCMC, envidei todos os meus esforços para que o plano editorial fosse bem sucedido, e, sem cabotinismo, devo admitir que assim foi.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O PENICO DE HUMBERTO DE CAMPOS (*)


Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos

GARBOSAMENTE construído em Petrópolis, a setenta quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, o Museu Imperial, popularmente conhecido como “Palácio Imperial” – verdadeiro exemplo de grandeza, por algum tempo residência de verão de D. Pedro II e de D. Teresa Cristina – guarda 250 mil documentos originais e uma biblioteca com 50 mil volumes.
Os visitantes que ali comparecem, e são muitos, de todas as raças e de todos os lugares, pois se trata do museu de maior visitação do Brasil, podem constatar que, apesar da riqueza das peças ali exposta e da suntuosidade da construção no mais perfeito estilo neoclássico, falta, porque sempre faltou, uma dependência por demais útil e importante: um banheiro.
Os que ali existem, destinados a servir aquele império, somente são encontrados em áreas externas, voltados aos visitantes. Na parte interna do palácio impera a inexistência. E isto porque os membros da Família Imperial, como todos sabem e as evidências demonstram, não se utilizavam de tais dependências. Não usavam um vaso sanitário como os que hoje são encontrados em banheiros e lavabos. E se não usavam tais aparelhos de imperiosa necessidade, usavam, forçosamente, o penico.
O famoso penico, também conhecido como urinol, louça, bacio, capitão, cabungo, mijadeiro ou bispote, que tem também um nome estranho que nos é informado pela Wikipédia – o interessante Bourdaloue: “especificamente para o uso das damas, com formato retangular ou oval alongado, às vezes com a parte dianteira alta, possibilitando que a mulher urinasse de pé ou agachada sem grande risco de errar o alvo. O nome bastante esquisito teria vindo do famoso padre francês Louis Bourdaloue (1632-1704), o qual fazia sermões tão longos que as damas da aristocracia que o ouviam colocavam tais vasos discretamente sob suas roupas para que pudessem urinar sem ter que sair do lugar.”
Com relação ao nosso amado memorialista Humberto de Campos, pai do memorável cajueiro do nosso município e também de grande parte da história de Parnaíba, o famoso penico aparece de maneira mais jocosa e, porque não dizer, de forma mais construtiva e exemplificativa.
O encontramos “em “Memórias”, sua principal obra, mais precisamente no capítulo 50, sob o título “Homero e O “Testamento do Macaco””.
Descreve ali o renomado escritor, com a inconfundível força de sua pena, a destinação dos trocados que furtara da gaveta de E. Veras & Filhos, mercearia onde trabalhou, quando menino curioso, na nossa cidade de Parnaíba. Levava o dinheiro para um seu amigo de nome Cazuza Porto e este “recebia a cédula, ou os níqueis, e juntava-os ao maço já recebido, e que ele depositava na prateleira dos artigos de louça, dentro, se bem me lembro, de um urinol grande, branco, e novo.” E conclui o período dizendo: “As minhas economias desonestas possuíam, como se vê, o cofre que mereciam.”
E para que se faça justiça, necessário se faz lembrar o que em Memórias já está dito: que este numerário teve uma parte furtada de dentro do seu cofre singular, o urinol ou penico; E a outra, como já era de se esperar, serviu para que o importante homem de letras comprasse da firma Dourado, Zenóbio & Cia., pequena empresa de importação das livrarias do Rio de Janeiro e de São Luís, então estabelecida em Parnaíba, algumas obras que muito lhe serviram, ajudando-o, sem dúvida, a tornar-se um dos maiores escritores do Brasil, tendo descrito, como nunca outro sequer conseguiu aproximar-se de descrevê-los tão perfeitamente, importantes fatos sobre a saudosa existência de ruas, lugares, costumes e pessoas de nossa amada cidade.
E dizer, por fim, principalmente àqueles que, por este miúdo deslize, pretendem considera-lo portador de um mau caráter, mais duas coisas: A primeira, que não havia, por parte do futuro escritor – menino de gênio inquieto e destinado a crescer no mundo das letras, órfão de pai e filho de mãe pobre e desamparada - outra maneira de adquirir bons livros, objetos raros e caros na época, senão aquele que utilizou para poder assim atender uma imperiosa necessidade de sua personalidade talhada para as alturas; a segunda, já aqui tentando advogar munido de uma procuração outorgada pelo sentimento de profunda admiração, comentar que a conduta pode ter sido ilícita, culpável, porém atípica, pois que amparada pelo princípio da insignificância penal.


*Esta crônica que procura absolver o imortal Humberto de Campos no que diz respeito ao pequeno furto que praticara, quando adolescente, e que espontaneamente confessara, é dedicada ao artista plástico Fernando Antônio Melo de Castro (Charge anexa), pessoa que muito gracejou, quando de nossa viagem ao Rio de Janeiro para aquisição do acervo do escritor, porque acreditava não haver um famoso penico na história do autor das “Memórias” mais famosas do Brasil.
(Pádua Santos)

SELETA PIAUIENSE


NAM SIBYLLAM

Mário Faustino

Lá onde um velho corpo desfraldava
As trêmulas imagens de seus anos;
Onde imaturo corpo condenava
Ao canibal solar seus tenros anos;
Lá onde em cada corpo vi gravadas
Lápides eloqüentes de um passado
Ou de um futuro argüido pelos anos;
Lá cândidos leões alvijubados
Às brisas temporais se espedaçavam
Contra as salsas areias sibilantes;
Lá vi o pó do espaço em enrolando
Em turbilhões de peixes e presságios —
Pois na orla do mundo as delatantes
Sombras marinhas, vagas, me apontavam.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS


UM INCIDENTE QUASE ACIDENTE

Ao chegar ao prédio em construção, logo percebi que o elevador de serviço não tinha proteção no local em que ele parava, no térreo. Seu percurso era pela parte externa da parede, uma vez que após o término da obra seria retirado pela construtora. Notei que a situação era perigosa para todos, e para as crianças em particular. Vi que algumas delas rondavam nas proximidades. Adverti os operários sobre esse perigo. De súbito vi o elevador descendo, e umas crianças no local onde o fundo do equipamento ficaria apoiado. Tive a certeza de elas tinham sido esmagadas, mas não ouvi nenhum grito e nenhum barulho estranho, como de carne e ossos sendo esmagados. Logo ficaram em volta do local várias pessoas e muitos operários. Ao subirem o elevador para averiguação do acidente, percebeu-se que as crianças estavam vivas, dentro de um buraco, uma espécie de alçapão. Vários circunstantes afirmaram terminantemente que no local não havia aquela cavidade, que salvara os meninos. Outros, de forma peremptória, disseram que havia. Eu tenho a convicção de que não havia tal cavidade. Para mim o piso era uniforme, em todo o recinto. Perguntei a um dos meninos sobre o que acontecera. Ele me falou que, repentinamente, um vulto os puxara para o chão. Indaguei a respeito desse vulto, mas o menino ficou constrangido, como se estivesse com medo, e nada mais respondeu. Tentei ver a planta da construção, mas me foi negado o pedido, sob a alegativa de que eu não tinha nada a ver com o caso. Tenho a impressão de que a vida, às vezes, parece um sonho ou um pesadelo. Ou será o sonho e o pesadelo que se confundem com a própria vida real?

DIÁRIO INCONTÍNUO


24 de fevereiro

Esteve no fórum, tratando de assunto processual, o Dr. Alfredo Nunes, ex-prefeito de Regeneração, ex-deputado estadual, em várias legislaturas, e procurador de Justiça em inatividade. É o atual venerável da Loja Maçônica Tabelião Manoel Isaac Teixeira. Seu pai, Gonçalo Nunes, empresário, também foi prefeito e deputado à Assembleia Estadual. É casado com a professora Teresinha Nunes, que foi reitora da Universidade Federal do Piauí, há 57 anos. Segundo me foi revelado, em outra ocasião, recusou-se a ficar recebendo proventos, como parlamentar aposentado, o que é um fato raro em nosso meio. Também ouvi falar que, em sua época, teria sido o único prefeito a receber honraria do Tribunal de Contas do Estado, em virtude de haver tido todas as suas contas aprovadas. Não tive tempo de conferir essas informações. Deixo que o leitor diligente o faça. Foi dirigente esportivo no Piauí durante vários anos. Quando era prefeito de sua terra natal, foi convidado pelo ministro da pasta do Esporte a ir a Brasília, com a finalidade de assumir, interinamente, a presidência da Confederação Brasileira de Futebol, no impedimento do titular, Ricardo Teixeira, que estava de licença médica. Disse não ter interesse, em virtude de seu cargo de chefe do Poder Executivo local. O ministro insistiu, e disse tratar-se de um pedido pessoal do presidente da República, que estava preocupado com a classificação da Seleção Brasileira na etapa eliminatória da Copa do Mundo. Conversou com Fernando Henrique Cardoso e terminou aceitando a missão. Por recomendação pessoal sua ao técnico, um jogador renomado, mas que não estava atuando bem, não foi escalado, e o certo é que em sua gestão o Brasil terminou obtendo a classificação. Quando ele me brindou com um distintivo da CBF, que muitas vezes tenho usado na lapela do terno, disse-me que me ofertava o mimo em virtude de eu haver sido um bom goleiro do futebol amador. Como não sou cabotino, não direi se concordo com o que ele disse. Em 1957/1958, estando residindo no então povoado de Papagaio, hoje Francinópolis, em virtude de nomeação para cargo do antigo Departamento de Correios e Telégrafos, com raríssimo meio de transporte para Teresina na época, meu pai “pegou” uma carona no jeep do Dr. Alfredo, que era deputado estadual, até a localidade Estaca Zero, onde era mais fácil conseguir transporte rodoviário para a capital. Meu pai, que na época era guarda-fio, sozinho, no lombo de um cavalo, percorreu, várias vezes, a solidão formidável da Chapada Grande, de Papagaio ao Alto Sério, já no município de Regeneração, a contemplar os soberbos pequizeiros, vergados de frutos, e as floradas luminosas dos paus-d'arco, a balouçarem à brisa, como lustres dourados de imponentes catedrais.