terça-feira, 18 de outubro de 2011

Setenta anos

Ferrer Freitas, o mais jovem setentão


Antonio Reinaldo Soares Filho (*)

Todas as cidades têm seus filhos emblemáticos, aqueles que ao se falar do lugar logo é lembrado seu nome. Assim é hoje Oeiras e Ferrer Freitas. Pedro Ferrer Mendes de Freitas completa seus setenta anos, uma dádiva Dele para sua família, amigos e dos que têm o privilégio de conhecê-lo. Atencioso, finamente educado, memória privilegiada, intelectual refinado é uma referência no meio intelectual piauiense. É muito agradável um encontro com o nosso Comendador, compartilhar uma cervejinha no final de semana, quando o tempo perde a razão de ser medido. Somos de gerações diferentes. Sou contemporâneo de seu irmão Benedito, também intelectual, amante das belas letras, cronista e um grande redator. Mas, no passado, compartilhamos das tertúlias do Velho Oeiras Clube e das sessões do Instituto Histórico de Oeiras, comandadas por Possidônio Queirós, Costa Machado e Expedito Rêgo. Hoje, é um dos guardiões de nossa memória, quando procura compartilhar, com as para as novas gerações, os nossos valores, o que somos e o que vivemos.
Ferrer pertence à geração de Luís Ronaldo Sá, Albérico Vieira de Sá, Antônio Amorim Guida, Silizinho, Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, Turene Rêgo, Gerson Campos, Gerardo Queirós... Tempo de anos dourados, de novas batidas do violão de João Gilberto. De romantismo, de quando a cidade adormecia e eles saíam pelas ruas, fazendo paradas nas portas das donzelas em desabrochar, de violão afinado a dedilhar canções inesquecíveis. Isso durante seu tempo de ginasiano. Depois, buscando continuar os estudos, se muda para o Rio de Janeiro, onde se graduou em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como estudante frequentou a Lapa, a Praça Tiradentes, a Estudantina e muita boemia. Mas, com saudade dos seus, a sua terra retorna e faz morada em Teresina, onde constitui família. Por mérito, conquista o cargo de Sub-Secretário de Cultura do Estado do Piauí e, depois, Chefe de gabinete do Secretário de Fazenda do Piauí, Moisés Reis. Torna-se membro do Conselho de Cultura do Piauí, incentivando a divulgação de nossos valores. Assume a presidência do IHO por vários períodos, emprestando seus esforços na busca incessante de posicionar essa entidade com uma referência de credibilidade literária. É um paladino da sua Revista, quer como colaborador quer como seu editor, viabilizando algumas de suas edições.
Na capital, se fez amigo de todos que o procuram. De espírito boêmio, era frequentador do Bar Nós e Elis, de encontros com jornalistas e escritores e nos saraus do Ágora. Foi colaborador do jornal O Cometa e de todos os noticiosos que surgiram em sua terra, mantendo, atualmente, uma coluna no Portal da Fundação Nogueira Tapety. Estreitou laços com intelectuais consagrados, como Celso Barros, Paulo Nunes, Dagoberto Carvalho, João Gonçalves, Elmar Carvalho, Carlos Rubem e tantos outros e, mais recentemente, com Joca Oeiras. É de muitos amigos.
Em Ferrer, as letras fluem e se juntam, formando belas construções de locuções que encantam e cativam, aprisionam o leitor na sua leitura, na ânsia do nunca desejar acabar. Em suas crônicas publicadas na Revista do IHO, nos jornais de Teresina e no seu livro “Solo Distante” ele sempre nos presenteia com suas belas exposições. No seu amor telúrico à velha capital ele vai registrando fatos vividos pelos seus contemporâneos ao tempo que presta homenagens àqueles que fizeram por ser louvados. É a trajetória de um vencedor.
Que Deus lhe conceda muitos anos de vida.

(*) Ex-presidente do Instituto Histórico de Oeiras

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

MÚSICA VIVA




ELMAR CARVALHO

Passarinhos cantando
saltitavam e dançavam
sobre os fios elétricos
– pássaros ou dedos sobre cordas
de violinos, violas ou violões –
eletrocutando corações.
Aladas notas vivas
fazendo acrobacias e coreografias
sobre as paralelas da pauta.
O vento que passava fazia
coro e uma música celeste
se evolava.

domingo, 16 de outubro de 2011

A IMPORTÂNCIA DO 19 DE OUTUBRO DE 1822 – DIA DO PIAUÍ



Vicente de Paula Araújo Silva “Potência”

Recordo-me do ano 1979, quando em Teresina, intelectuais ligados a Academia Piauiense de Letras, promoveram uma campanha de menoscabo a importância do movimento brasílico em Parnaíba, que culminou com a proclamação da Independência do Brasil no Piauí, em 19 de outubro de 1822, data essa instituída em Lei proposta pelo Deputado José Auto de Abreu, como o Dia do Piauí. O objetivo principal daqueles ilustres senhores, foi a tentativa de mudança da data maior do calendário cívico a nível de Estado, para 24 de janeiro de 1823, data da adesão à Independência do Brasil, por brasileiros de Oeiras, a capital da Província.
A reação na Parnaíba, foi imediata e objetiva, através de manifestações vibrantes de vários segmentos da sociedade, onde se destacaram as pessoas de Anchieta Mendes, Lauro Correia, Canindé Correia, Reginaldo Costa, Sólima Genuína, entre outras. Também, participei escrevendo um artigo no Jornal Inovação com o título “A Respeito da Independência no Piauí” , do qual, destaco para conhecimento nos dias atuais, o seguinte trecho da série “ MISSIVOS PARA SIMPLÍCIO DIAS” , uma correspondência imaginária com o defensor maior das causas brasílicas na então província do Piauí :
“ Ora, Fidalgo, essa plêiade de intelectuais que quer apagar o escrito em 19 de outubro de 1822, sabe muito bem, em sã consciência, que aderir não é principiar. E, é exatamente dentro deste contexto, que, está inserido o 24 de janeiro de 1823 – data da adesão – quando o então governo civil da Província do Piauí, já pressionado pela arregimentação de tropas das lideranças parnaibana, cearense e baiana, não resistiu a sublevação de Oeiras, levada a cabo pelo grupo adesista comandado pelo Brigadeiro Manoel de Souza Martins.
É estranho, Coronel Simplício, o porquê deste atentado ao brio e tradição do povo piauiense, quando o próprio grupo contestador é sabedor dos fatos que geraram aqui na Parná, o brado de Independência do Piauí, aceito posteriormente por toda a Província.
Assim sendo, todos sabemos que a promulgação dos decretos nos 124 e 125 da Corte Portuguesa, datados de 29 de setembro de 1821, através dos quais, o Brasil perdia a condição do Reino-Unido, provocaram o elenco de ocorrências que culminaram com os acontecimentos de 7 de setembro de 1822, em São Paulo e 19 de outubro de 1822 em Parnaíba.
Muitas são as razões que me levam a acreditar que por trás dessa intenção dos nossos historiadores em questão, está oculta a grande cartada para provocar a polêmica em torno do assunto, promovendo com isto, o estudo da História do Piauí, até hoje, pouco conhecida pelo seu povo.
Porém, a mais forte de todas, é a seqüência de fatos que se sucederam ao longo do movimento, dentre os quais, para confirmação do 19 de outubro de 1822, como data mágna da Independência do Piauí, destacam-se:
  1. A articulação política na Região Sul, que provocou o Dia do Fico;
2. A incrementação da campanha de emancipação política em nível nacional, que, teve como desfecho o manifesto de D. Pedro, em 1o de agosto de 1822, no qual anunciou que mandara convocar a Assembléia do Brasil-Reino, com o intuito de solidificar a Independência Política da Nação, sem romper os vínculos de fraternidade portuguesa;
3. A chegada do Sargento-Mor João José da Cunha Fidié, a Oeiras, o qual assumiu o Governo das Armas em 9 de setembro de 1822, com a finalidade de implantar a política das Cortes Portuguesas – conseqüência dos decretos nos 124 e 125 - objetivando conservar pelo menos a região norte do Brasil como Colônia, visto que era inevitável a Independência política do país;
  1. A visualização pelos conspiradores parnaibanos dos objetivos de Fidié, com a remessa de armas para Oeiras;
5. O ofício do Dr. João Cândido, de 30 de setembro de 1822, informando à Junta de Governo do Piauí que a Vila de Granja-CE (próxima a Parnaíba), já proclamara D. Pedro “PROTETOR E DEFENSOR DO BRASIL”, e demonstrava sua posição em relação ao movimento separatista, com os dizeres: “A melhor, a maior, a mais rica, a mais populosa parte do Brasil tem-se declarado a favor da causa da Independência; como persuadir-nos que o resto não siga a mesma causa”;
6. A Junta de Governo do Piauí, em 6 de novembro de 1822, toma conhecimento do evento de Parnaíba, e, em 13 do mesmo mês, o Governador das Armas, Fidié, já estava a caminho do foco libertário com a tropa e armas que pode arregimentar;
  1. A chegada do vaso de guerra infanto D. Miguel – enviado pelo Governo do Maranhão – e a marcha de Fidié com destino a Parnaíba, provocaram o deslocamento estratégico dos líderes parnaibanos ao Ceará, com a finalidade de recrutarem combatentes, e, de volta, sitiarem o inimigo na área em que o povo já despertava para a importância do movimento;
  2. O florescimento em Oeiras da idéia de adesão à Independência, inclusive com atos de sabotagem em dezembro de 1822;
  3. A invasão de Piracuruca em 22 de janeiro de 1823, por Leonardo de Carvalho Castello Branco, componente do movimento de Parnaíba , a frente de combatentes recrutados no Ceará;
  4. O conhecimento da Junta do Governo em janeiro de 1823 de que Crateús, pertencente ao Piauí naquela época, já lutava a favor da emancipação;
  5. A tomada do Governo do Piauí, em 24 de janeiro de 1823, por elementos adesistas, os quais, comunicaram as câmaras municipais da província que elas deveriam reconhecer em D. Pedro “O IMPERADOR CONSTITUCIONAL E PERPÉTUO DEFENSOR DO BRASIL”;
  6. A correspondência da Junta Interventora enviada ao Dr. João Cândido,datada de 26 de janeiro de 1823, na qual ele era convidado a deslocar-se para Oeiras a fim de dar orientações no destino político da Província;
  7. A tomada de Piracuruca por Leonardo Castelo Branco em 22 de janeiro de 1823,o combate na Lagoa do Jacaré (Piracuruca) , e a Batalha do Jenipapo em Campo Maior, em 13/03/1823 ;
  8. O enfraquecimento do poder de fogo da tropa de Fidié, com o roubo de provisões e armas efetuados por soldados cearenses durante o combate, o que provocou a fuga de Fidié para o Maranhão, onde, posteriormente, foi derrotado em Caxias;
  9. O retorno de Simplício Dias a Villa da Parnahiba, que a frente da tropa organizada e mantida a suas custas, expulsou da Villa da Carnaubeira os europeus constitucionalistas de Parnahiba, que se haviam refugiado naquela ilha do Maranhão, sob a proteção do aparato militar português de tropa de 1ª Linha, duas sumacas armadas, o brigue de guera Infante D. Miguel e três canhoneiras, consolidando-se então, a Independência Política do Piauí, no âmbito da nação brasileira.

E assim, Simplição, para ratificar o meu ponto de vista e terminar esta missiva, tu deves te lembrar muito bem, que em retribuição ao apoio que deste à causa da Independência do Brasil, D. Pedro de nomeou Presidente da Província, cargo que deixaste de assumir por livre e espontânea vontade.”

Cordialmente,

DEPAULA


Inovação, novembro 1979 – 24ª edição

. Os Europeus Constitucionais desta Vila, com outros de Maranhão se haviam refugiado, e fortificado no lugar Carnaubeira sete léguas de distância à margem do rio, tendo tropa de 1ª linha do Maranhão duas sumacas armadas, o Brigue Infante D. Miguel, e três canhoneiras com as quais devastando o rio, e esta Vila causaram os maiores estragos e pavor aos povos. Esperavam os inimigos tropas de Portugal; era seu plano, e do Governo do Maranhão para tornarem a atacar, e fortificar-se nesta mesma, Vila, a fim de poderem do novo invadir todo o Piauí, entrar no Ceará, e seguirem até Pernambuco. Vi a necessidade de prevenir projeto tão arriscado, antes que se realizasse a vinda dos Batalhões Lusitanos, dispus conseqüentemente as tropas que tinha apesar da falta de pólvora, foi acometida inopinadamente a Carnaubeira, com tal denodo que os inimigos aterrados um só tiro não tiveram valor de disparar, fugiram para o Maranhão nas embarcações, levando todos os seus efeitos, e muitos a (…) como os cofre dos órfãos, e os (…) que para ali haviam conduzido em reféns, no tempo do major Fidié. Não menos eficaz fui para que o grito da Independência, e o Augusto nome de Vossa Majestade Imperial ressoasse em outras Vilas da Província do Maranhão, contribuindo portando fortemente para enfraquecer o partido Constitucional Lusitano, que obstinadamente resistia naquela cidade, e facilitando o triunfo da Independência, quando foi vista a Nau D. Pedro. E ainda assim me dispus a marchar em tropas desta Vila para aquela cidade, unido ao capitão-mor Filgueiras, a destruir as cabalas perigosas que o partido Europeu suscitava, ameaçando uma revolta do que desistimos pela eleição do benemérito Governador de Armas o capitão-mor Rodrigo Luís Salgado de Sá Moscoso, cujo patriotismo e probidade soube por termo às desordens.

sábado, 15 de outubro de 2011

O S F U N D A D O R E S - JOÃO PINHEIRO



REGINALDO MIRANDA

Odontólogo, professor, contista, poeta, romancista, jornalista, João Pinheiro nasceu na cidade de Barras, a 16 de maio de 1877. Foram seus pais o tenente-coronel João José Pinheiro e sua primeira esposa Maria Castelo Branco.
Na cidade natal cursou as primeiras letras, mudando-se depois para a próspera cidade de Parnaíba, a fim de continuar os estudos e trabalhar no comércio. No início da década de 1890, muda-se para Teresina, Capital do Estado, onde cursa os estudos preparatórios. Em 1895, transfere-se para Salvador, na Bahia, matriculando-se na Faculdade de Odontologia e concluindo o curso no final do ano de 1898. Nesse período, além dos estudos técnicos da profissão que abraçara, aprimora seus conhecimentos estudando tudo que havia de mais moderno em romance, conto, poesia e crítica literária. Torna-se um homem culto.
De regresso a Teresina, retoma esses estudos literários, adquirindo novos livros e formando seleta biblioteca de obras literárias. Em 1907, testemunhou o futuro acadêmico Matias Olímpio de Melo, que João Pinheiro possuía a maior biblioteca literária de Teresina, não aparecendo livro novo que ele não desejasse conhecer, que não procurasse ler. Esses livros eram adquiridos com enorme sacrifício, custeados principalmente com sua remuneração de lente de Português no Liceu Piauiense. Todavia, pobre de recursos materiais, ao casar-se teve de desfazer-se de sua estimada biblioteca. Essa informação foi repassada por Higino Cunha, em 1913: “Mas um dia entendeu de constituir, por sua vez, a sua família própria, o seu ninho de amor. E, como quem casa, quer casa, lá se foi a livraria de águas abaixo, ficando somente em seu poder, como relíquias d’antanho, as obras de Eça de Queiroz. É fácil imaginar o dilaceramento daquela alma, despedindo-se dos seus companheiros adorados, adquiridos com longo e ímprobo labor” (Diário do Piauí, 23.05.1913. In: Literatura Piauiense. Maria do Socorro R. Magalhães).
De fato, ao concluir os estudos superiores, João Pinheiro abriu consultório odontológico em Teresina, um dos primeiros da cidade, exercendo a profissão por toda a vida com distinção e competência. Também, abraçou o magistério como professor de Português no Liceu Piauiense e na Escola Normal do Piauí. Segundo relato de familiares, lecionava no turno da manhã e atendia no consultório à tarde, reservando as primeiras horas da noite para leituras e confecção das próteses dentárias que lhe eram encomendadas. Dirigiu o Liceu Piauiense por largos anos e foi diretor da Instrução Pública do Estado do Piauí.
Desde a mocidade dedicou-se ao jornalismo, dirigindo o Almanaque Piauiense(1903 – 1905), e as revistas Litericultura e Alvorada. Foi redator dos jornais A Luz, A Semana, A Pátria, Correio de Teresina, O Reator, A Revista, A Imprensa, assim como das revistas da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e o Almanaque da Parnaíba.
Na literatura, João Pinheiro estreou em 1895, aos 18 anos de idade, ainda estudante preparatoriano, com o lançamento do livro de poemas Falenas e Sílfides, de parceria com o colega José Luís Batista. Mal recebida pela crítica, essa obra foi considerada fraca, sem mérito literário. Porém, teve o seu talento reconhecido em 1906, com a publicação pela Casa Leuzinger, do Rio de Janeiro, do livro Solar dos Sonhos, contendo 25 poemas e sonetos, todos já publicados nos jornais de Teresina. Firma, então, seu nome como poeta. No entanto, o seu grande talento revelar-se-ia na ficção, com a publicação de À Toa... (aspectos piauienses), focalizando os costumes, tradições, enfim, a paisagem física e humana do Piauí. Em seguida, publica Fogo de Palha(1925), outra coletânia de contos de cunho regionalista; Chiquita(s/d), romance de costumes; e Literatura Piauiense – escorço histórico(1937), primeira compilação de autores e crítica literária do Piauí. Essa última obra resgata a memória de muitos intelectuais piauienses então esquecidos, sem a qual hoje talvez não os conhecêssemos. Deixou inéditas Páginas de Antanho e Papa-Fogo.
Em 1917, participou da fundação da Academia Piauiense de Letras, tomando assento na Cadeira n.º 02. Foi eleito Secretário Geral da nova Instituição. Em 1918, ajudou a fundar o Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Foi sócio-correspondente da Academia de Letras do Rio Grande do Norte.
Foi casado com Dona Genoveva Saraiva Ribeiro, de quem houve algumas filhas varoas, entre essas Ari Pinheiro, mãe do poeta Fred Pinheiro. Faleceu repentinamente, em 1946, na cidade do Rio de Janeiro, onde se encontrava em visita a familiares.
Falando sobre a personalidade do tio, depõe o também acadêmico Celso Pinheiro Filho, que João Pinheiro “gostava de andar sempre ‘rigorosamente vestido com terno de casimira inglesa, colarinho duro e colete’. Na hora da refeição vestia palitó, mesmo que estivesse sozinho. Tinha por hobby colecionar selos e desenvolvia preferência pelos estudos históricos, não se aprofundando no gênero por absoluta falta de tempo” (MORAES, Herculano. O Universo Multifacetado de João Pinheiro. In: Academia Piauiense de Letras – Os fundadores, 1997).
Sobre a obra literária, disse Matias Olímpio: “É um escritor regionalista, e este deve ser o seu maior título(...). É, sem dúvida, um exímio contador de sugestivas histórias, conteur, dos melhores que possui o Brasil. O autor, neste livro (À Toa), se revela um exímio prosador. O seu estilo é doce, fácil, tomando tonalidades empolgantes. Há na sua obra muita observação e é, sobretudo, interessante para nós, porque todos os contos são calcados em lendas piauienses que a tradição conserva, ou sobre fatos que efetivamente se deram e dos quais muitos de nós fomos contemporâneos”.
Em suma, João Pinheiro deu uma nova dimensão à história curta, ao conto, resgatando tradições, lendas e costumes, de forma que deixou seu nome indelevelmente gravado na literatura piauiense. Em sua homenagem, a Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Piauí, instituiu, há mais de duas décadas o “Concurso de Contos João Pinheiro”, premiando jovens escritores e reconhecendo o mérito do homenageado, ao qual nos associamos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A LIBERDADE SONHADA


ALCIONE PESSOA LIMA

Por anos tendi a me tornar semelhante aos meus pais.
Mas, de olhos abertos, esforço-me por alcançar a espécie de grandeza da felicidade que me é própria.
Passei a me definir em todo esse emaranhado em que se revela o mundo.
E adentro a portas diferentes...
Há sorrisos e lágrimas, como de um mortal.
Descubro um caminho a cada dia
Cheio de temores e de esperanças.
Uma realidade tão óbvia.
Sinto os perigos que são possíveis conjurar.
Há mãos que me afastam de grandes males e outras que apenas observam o meu caminhar.
Sou fruto de muitos acontecimentos: raça, solo e clima.
Mesmo preso a um ciclo fatal,
Percebo asas querendo sobrevoar os vastos limites.
Há algo de poderoso em mim!
E a servidão que abandono é a ponte para alcançar toda a liberdade que almejo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Fátima, Belinha, Elmar e Anita


Belinha, Elmara, Anita e Elmar

12 de outubro

PASSEIO COM BELINHA E ANITA

Elmar Carvalho

No domingo, eu, Fátima e Elmara pegamos as cadelinhas e saímos a passeio. A Belinha, em seu jeito humilde, é sossegada e silenciosa. A Anita, apesar de seu porte muito pequeno, é brava e mais impulsiva, e muito agitada quando metida num automóvel, creio que por associar esse transporte a tosagem e banho. Diante de seus gritos e alaridos, a outra cadelinha, por instinto e solidariedade, também passou a latir, de modo que tivemos um forte dueto dentro do veículo; verdadeira “música” ao vivo e a bordo.

Passamos pelo centro de artesanato do Poti Velho. Entre outras esculturas, compramos duas corujas em uma forquilha e um sapo esverdeado. Talvez por seus grandes olhos arregalados, a coruja tornou-se símbolo da cultura e da sabedoria, e mascote, creio, do magistério. Em Teresina e acho que em todo o Piauí, a maior coleção de imagens dessa ave pertence à professora Cecília Mendes, que as possui em vários tamanhos, formatos, materiais e estilizações. O sapo, não sei ao certo por que motivo, é associado a trabalhos de macumba. Corre a lenda de que muitos emacumbados possuem um batráquio no ventre, como se estivem grávidos desses anfíbios.

Notei, apesar de não ser um especialista nem conhecedor do assunto, que o artesanato do Poti Velho parece ter ficado mais rico, mais diversificado, tanto pela temática, como pelo tamanho, textura, material utilizado e criatividade. Constatei que os valores agregados ao barro evoluíram, porquanto a maior parte das peças são pintadas, em cores compatíveis com a realidade, e outras passam por um processo transformador que lhes dá um aspecto vítreo, transformando-as quase em louça, pelo brilho e maciez. Alguns trabalhos tendem ao figurativismo, numa abordagem que se aproxima muito da realidade, inclusive com a agregação de acessórios bem reais, posto que em menor dimensão que os de uso prático. Algumas peças poderiam ser utilitárias, se o adquirente não lhes quisesse dar um uso exclusivamente ornamental; outras são esculturas abstratas, algumas talvez conceituais, mais utilizadas em projetos de arquitetura e decoração de maior sofisticação. A maioria das esculturas reproduz animais ou seres humanos, sejam estes santos ou figuras representativas do rurícola nordestino.

Finalizamos o passeio no Encontro dos Rios. Lá, vimos novamente o lendário Cabeça de Cuia e as suas sete Marias, uma das quais iconoclástica e irreverentemente “embuchada”, na grande arte do Nonato Oliveira, um dos maiores pintores e escultores do Piauí, que já enfeitou Teresina com magníficos afrescos, infelizmente nem sempre bem conservados. Vimos os peixes que não nadam; que são nada no formol, já evaporado e insuficiente para a sua perfeita conservação. A Anita e a Belinha percorreram as alamedas, em marcha lenta ou acelerada, conforme o humor que lhes movia as patas. Atraíram a atenção de crianças e adultos, por sua beleza feita de fofura e graça. Depois, tiveram a sua sessão de fotos, que lhes há de eternizar a beleza, quando lançadas aos mares internéticos e informáticos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

FALANDO FRANCAMENTE

Poetas Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura


FRANCISCO MIGUEL DE MOURA*



Numa ocasião como esta, a tentação é falar de si próprio. Mas seria impertinente falar sobre mim, quando minha apresentadora, Profª Teresinha Queiroz, já disse tudo e de forma muito clara e generosa. Resta-me, portanto, agradecer, e falar sobre a criatura – minha obra – e não sobre o criador.  Lembro sempre do que disse Confúcio: – “Não se deve a todo momento ficar falando de si, por dois motivos: é que, se falamos de bem, ninguém vai acreditar, e se falamos de mal, todos acreditarão”.
Entrando no assunto que quero desenvolver, de imediato me vem à lembrança um certo dia dos anos 1980, morando em Salvador, quando entrei numa livraria e comecei a olhar os livros, atividade para mim muito prazerosa, mesmo que nada possa ler além do título, autor e orelhas, e mesmo que nada possa comprar daquela vez. E, por uma simples coincidência, li na lombada de uma pequena brochura, o seguinte título O Menino Perdido, de autor americano, já falecido há muito tempo.  Comprei o compêndio, li todos os contos e gostei, mas, por algum mecanismo obscuro da mente, não guardei nem o livro nem o nome do autor. Foi o meu espanto. Senti-me roubado, pois já me fixara naquele título para escrever algo que fosse memória da minha meninice.
Lembro-me também de outro dia, já no começo dos anos 1990, em Luís Correia, depois de um banho na praia de Amarração. Sentindo já o começo de uma intransigente crise de depressão, comecei a reler pedaços de contos, crônicas, capítulos. Saudade e angústia. Vontade de fazer algo distinto do que já tinha lido sobre a infância. Era isto que sentia. E começava a refazer alguns bosquejos miúdos, num caderninho escolar, e a partir dali ressurgia o nome de O Menino Perdido como título não definitivo.  Começada a escrita, vieram as indecisões. Não encontrara um novo título e isto me contrariava. Era impossível abrigar minha matéria sob esse título e depois publicá-la. Eu já havia escrito uma crônica com o título de Um Menino Perdido, que logo desejaria publicada num livro de crônicas, o que de fato aconteceu em 1996. 
Muitos questionamentos foram feitos mentalmente e permaneceram em ebulição na minha cabeça. Era muita a matéria a escrever, e não queria um livro grande, no fundo eu desejava um grande livro. Também nem pensar em fazer coisa parecida com O. G. Rego de Carvalho, em Ulisses entre o Amor e Morte.  Não tinha como. Eu sou realmente discípulo de O. G. Rego de Carvalho e muito me orgulho disto. Ele é um dos maiores amigos que fiz na minha vida, em Teresina, só não maior do que o Hardi Filho, poeta dos melhores do Piauí, pessoa com quem primeiro me encontrei em Teresina e, juntamente com Herculano Moraes, fundamos o movimento literário O CLIP – Círculo Literário Piauiense. Com O. G. Rego de Carvalho foi diferente: antes de encontrar-me com ele, como colega do Banco do Brasil, já havia lido Ulisses entre o Amor e a Morte. Foi outro espanto na minha vida. Espanto que se repetiu em Somos Todos Inocentes e em Rio Subterrâneo. Que obras incomparáveis!
Mas quantos escritores, que vieram antes dele e de mim, escreveram a infância (ou sobre a infância)?  Lembro-me de alguns: José Lins do Rego, com seu O Menino de Engenho; Graciliano Ramos com o seu livro Infância; Joaquim Nabuco, com o espetacular Minha Formação. Os clássicos russos Dostoiévski e Leon Tolstói fizeram livros sobre sua infância e adolescência, excelentes obras cujos nomes não me vêm à memória. Os clássicos modernos mais à vista seriam O Pequeno Príncipe, de Antoine de Exupéry, e O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon.  A enumeração seria enorme e tomaria muito tempo. Não falemos das historinhas da vida comum e das fábulas antigas renovadas que tanto têm sido escritas e publicadas como meio de ganha-pão de escritores desempregados e de editores sem imaginação senão a do vil metal. Claro que o genial Monteiro Lobato não entraria nessa última classificação, antes merece ser o primeiro da boa lista, com Memórias de Emília e Caçadas de Pedrinho, para referir apenas duas da sua numerosa produção. 
Não, eu jamais escreveria uma história ou um conto com o fim único de ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro é bom, mas vender a consciência é horrível.
Passei mais de 20 anos a elaborar O Menino quase Perdido. Finalmente, sem matar completamente o nome primitivo, encontrara o novo título: com uma palavrinha apenas ganhei originalidade. Daí então passaram a ser pensadas, com mais gosto, as formas de escrever e a escolha do conteúdo de cada uma das suas partes. Ele, O Menino... não é um conto grande, não é somente feito de contos encadeados, não é de crônicas, não é um romance. E é tudo isto. Ou quase tudo. A matéria eu já possuía até demais, não que minha infância tenha sido tão rica, mas foram minha infância, minha família, minha terra, minha vida que me inspiraram para escrever esta obra. Original na forma, dentro do poder de minha inventiva. Escolhendo como escrever e o que escrever. E o que publicar e o que deixar de publicar. Muitas páginas foram rasgadas. O livro é não somente real como pode ser ficção, imaginação de homem adulto sobre o que e como sentia o menino, naquele tempo. Um transporte enorme no tempo, no espaço e nas emoções. Assim se casaram o distanciamento e a intimidade. Quase todos os personagens são parentes: pai, mãe, avós, tios, irmãs, primos, amigos, amigas e namoradas – algumas inventadas. 
Mas é preciso que diga: - este livro é da minha mãe, principalmente. Quem não gosta de mãe certamente não vai gostar dele. Assim como para Saramago a pessoa mais sábia que ele conheceu, quando menino, foi o avô, para mim, foi minha mãe, até os 8 anos. Fui educado para emoções duradouras e positivas. Daí por diante, juntar-se-ia  a influência de meu pai.
Com relação a sua composição, repito: - Foi todo escrito e reescrito muitas vezes. Não digo que esteja perfeito. Não há perfeição, na espécie humana nem sei se em outras. A perfeição é apenas um ideal a perseguir. E é isto que os bons escritores fazem, por si, para si e pela humanidade. 
Creio que estou sendo capaz de dizer pouco sobre a matéria de O Menino quase Perdido, mas o suficiente para saber-se que não se trata de biografia, muito menos de minha biografia. Minha biografia são meus livros, não sou cientista nem personagem da mídia, não sou político para quem tudo o que faz precisa ser dito e mostrado, e mentido e enganado. Sou um homem simples e ao mesmo tempo vaidoso do que faço, do que penso e do que recuso. Se em O Menino quase Perdido isto for achado, então o escritor, o personagem onisciente não pôde ser totalmente isento de imprimir sua marca. Eis minha luta pela originalidade e pela diferença em minha escrita, assim como sou diferente em pessoa, sabendo como o filósofo Schopenhauer, que “o estilo é a fisionomia do espírito” e não da cara. 
Para confirmar minhas palavras, é pertinente que cite, mais uma vez Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), filósofo d “os anos selvagens da filosofia” e autor de “O Mundo como Vontade e Representação”. Escreveu ele: 1º) “Um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor”; 2º) “Para estabelecer uma avaliação provisória sobre o valor da produção intelectual de um escritor não é necessário saber exatamente sobre o que ou o que ele pensou, pois para tanto seria necessária a leitura de todas as suas obras. A princípio basta saber como ele pensou”.
Pensei “O Menino quase Perdido” como uma obra original sobre a infância, no estilo e na construção, quando qualquer menino é rei, ficando distante o autor onisciente, muito distante do que sentia e sente “o menino”, no íntimo - ambos realmente tornados personagens.  
Auguro, pois, que O Menino... seja lido como verdade mista, real e ficcional, coleção de contos, de crônicas, ou mesmo romance, para os leitores mais liberais.  Editorialmente é um memorial, assim ficou classificado e registrado. E que cada leitor encontre seu menino de forma diferente, da forma que o próprio leitor foi em criança. Se assim acontecer estarei pago.
Finalizando, repito com o vulgo que “de bons propósitos, o inferno está cheio”. Sim, porque me traí e traí a todos, dizendo, no início, que não iria falar de mim mesmo, porém da obra. Acontece que a obra é o homem. Eu sou a minha obra, jamais um se desligará do outro. Se isto acontecer, ambos são falsos ou hipócritas e é isto que eu não quis nem quero ser.
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 * Depoimento lido no lançamento de O Menino quase Perdido, na APL, em 17-9-2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


BICO DE BEIJA-FLOR

ELMAR CARVALHO

A cadelinha poodle era um floco de pura fofura. Aliás, este era seu nome. Estava radiante, mimosa como sempre, a andar pela sala, com seus passinhos curtos, saltitantes, coleantes, levitantes. Naquele momento, entrou no recinto um outro animal. Igualmente macio, mas de uma maciez de outra textura. Em lugar de pelos, parecia ter uma espécie de plumagem, porém plumas semelhantes a lã. Ainda era menor que Fofura, que era do tipo zero, o menor de sua raça. Tinha quatro patas, mas seu corpo se assemelhava ao de uma ave, algo semelhante a um marreco. A cabeça era de cão. Todavia, em lugar de boca tinha um bico igual ao de um beija-flor, quase invisível, no meio da plumagem lanosa. Não se lhe via o sexo, embora fosse um macho, ao que tudo indicava.

Marchou ao encontro de Fofura. As cabeças se tocaram e se acarinharam, em carícias suaves, delicadas, como duas nuvens, que ternamente mal se tocassem, a resvalarem no azul infinito. O animal visitante circundava com a sua a cabeça pequena e formosa de Fofura. Depois, roçou a parte anterior da cadelinha, logo abaixo do pescoço. Por infeliz fatalidade ou amoroso descuido, o bico a feriu, embora muito de leve, simples espinho ao sabor da aragem. Um pungir que quase não se percebe; que a bem dizer mal se pressente, como um toque de neve. Logo a cadelinha começou a se sentir vacilante, entontecida. Esboçou um passos trôpegos. E caiu. E morreu. O animal enigmático ficou como louco. Feriu a si mesmo várias vezes, com fúria incontida. O sangue tingiu a sua fofa plumagem. Mas não morreu. Era imune ao seu próprio veneno. E misteriosamente como veio, se foi. Não se saberá jamais para onde.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

BERCHMANS E A GRANDE MÚSICA



FONSECA NETO

Um concerto lítero-musical encheu de grande música a UFPI. Casa cheia para apreciar as escolhas do pesquisador, musicólogo e historiador da música, doutor João Berchmans de Carvalho Sobrinho, professor e coordenador do Nupemus-Núcleo de Pesquisa em Música da Ufpi.
Na parte lítero, o lançamento de dois livros seus: “Músicas e Músicos em São Luís – Subsídios Para a História da Música no Maranhão” e “Texto e Contexto: a Comédia Musical Uma Véspera de Reis”, de Francisco Libânio Colás. Ambos pela Ética Editora.
Na musical, um Sanctus, de missa de Colás, um allegro de Mozart, além da comédia musical “Uma Véspera de Reis”, com a Orquestra de Câmara da Ufpi, coro e solistas do DMA, participação especial do coro Laetitia Spes, do ICF e regência de Cássio Martins.
Quiséramos todo lançamento de livros assim fosse. No caso, não poderia ser diferente: Berchmans é um animal musical por excelência e sua vida parece ritmada pela força lúdica dos tons sincro e sinfonizados, escriturando com as letras do alfabeto e com as claves das aberturas partiturais.
Os livros sobre a música maranhense são disso notáveis exemplos: mergulhou ele nos arquivos do Maranhão e de Portugal e destes saiu compondo um ótimo texto de história no tocante à música e à sociedade ludovicense dos séculos passados. Mais: como nos arquivos de músicos o papel é partitura, e nestas encontrou preciosidades, fê-las ressoar açoitando poeiras de tempo e de silêncio.
Piauiense enraizado nas graças da Conceição das Barras do Marataoã e no antigo São Gonçalo do Amarante, seu interesse pela temática maranhense veio do contato com o manancial de fontes do “Inventário João Mohana”, do APMA, rico repositório de registros do passado da capital da América portuguesa equinocial. Mohana fora um padre-médico que dedicou parte de sua vida a coligir fontes sobre a música no Maranhão e escreveu um livro precioso: “A Grande Música do Maranhão”. Berchmans fez tese doutoral em musicologia tratando desse contexto, na Ufrs, concluída em 2003.
Tese e livro são revisitações às entranhas da São Luís oitocentista, captando os ritmos de sua vida cultural a partir dos ecos ainda timbrando das naves sacras e dos palcos de salões teatrais. Lembra que as linhagens primevas da elaboração musical local vem dos dois séculos anteriores e seu lugar são as igrejas e conventos da velha ilha-capital, sede de bispado desde 1677.
Assim, o século XIX apenas assistirá à constituição de outros palcos para a grande música, assinalando, ali, uma mudança social mais profunda. Do coro da velha Sé da Vitória, em Introitus, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei de vário Te Deum, de capelas brancas e negras, a grande música encherá teatros de concertos operísticos, sinfonias e mais batutais, quiçá, diga-se, profanamente profusas.
Na segunda metade do Oitocentos há uma São Luís ainda compenetrada de europeidade e o campo musical nutre e se nutre de valoroso intercâmbio com Portugal, Itália, França. Se não popular como o tambor e a música sacramental que corre em todos os poros sociais por ação das irmandades católicas e associações afins, o teatro nesse tempo tem sua recepção numa elite que ‘consome’ a matéria musical esteticizada.
Berchmans recorta esta passagem de J. Jansen, indicativa das mudanças que afetavam então as sociabilidades de certa classe social de S. Luís: “Nas grandes noites de espetáculo, não eram mais as cadeirinhas de arruar carregadas por negros possantes, vestidos em cores vivas que traziam os espectadores mais abastados e de onde saltavam as damas com seus veículos custosos; agora, saltavam da landeau, do coupé, ou da vitória, puxados por belos e luzidios cavalos. Já era do passado a luz de velas de espermacete; eram os bicos de gás com camisinhas incandescentes que iluminavam o ambiente”.
Nem à luz de velas de espermacete ou de camisinhas incandescentes; foi à luz elétrica que, ressuscitado desse ambiente por J. Berchamans, vimos executada no palco do novo cine-tetro a grande arte de Colás e sua riqueza partitural aspergida sobre nós. Bravo, dr. Bequimão!

domingo, 9 de outubro de 2011

O ESPÍRITO SANTO


WILTON DE MAGALHÃES PORTO

Como avalanche, do meu âmago, Ele Se levanta,
Rompe as minhas entranhas
E como Fogo que Se derrama em mata seca,
Ele inunda o meu ser.


Não adianta procurar-me, nesses instantes,
Porque, embora eu esteja em mim,
Em mim, eu não estou,
Ele é quem
Ora
Fala
Revela
Louva
Apresenta-SE à Arca Shalom.


Um mundo de alegria me toca.
A paz estremece em minha Essência.
A via torturante do Universo
São multicores flores renascendo no árido campo.
A Terra é Céu.
O Céu é Terra.
O Céu existe
E do meu mais profundo, quando em oração,
Ele diz: “ESTOU AQUI!”

sábado, 8 de outubro de 2011

A ERO MOÇA


ELMAR CARVALHO

A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência...

E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O S F U N D A D O R E S - CELSO PINHEIRO


REGINALDO MIRANDA

Nasceu o primoroso poeta, cronista, conferencista e jornalista Celso Pinheiro na cidade de Barras, no norte do Estado do Piauí, em 24 de novembro de 1887, sendo seus genitores o tenente-coronel João José Pinheiro e Raimunda Lina Pinheiro. Pertence a uma família com enorme contribuição às letras piauienses, pois seu pai foi educador em Barras e dois de seus irmãos e um filho foram notáveis escritores com assento na Academia Piauiense de Letras, respectivamente, João Pinheiro, Breno Pinheiro e Celso Pinheiro Filho.
Iniciou as primeiras letras em sua cidade natal, mudando-se, posteriormente para Teresina, Capital do Estado, a fim de prosseguir nos estudos. Estudou no Liceu Piauiense, mas não chegou a concluir o ginásio. Na mocidade foi dado à boemia, participando de muitas serenatas e recitais com outros poetas de seu tempo. E com a perda precoce dos pais, cedo teve de começar a trabalhar para garantir o sustento. Em 1902, ainda no tempo de estudante, ao lado de Arimatéa Tito, ambos alunos do Liceu Piauiense, já redigia o órgão estudantil A idéia. Em 1903, faz parte da redação de A Esperança, também de caráter estudantil. Sucede sua participação em outras folhas jornalísticas: Andorinha, Arrebol, Mensageiro (1904), O Operário (1906), Alvorada (1909), entre outras. Dada a sua atividade intelectual, desde cedo convive com os mais expressivos nomes das letras piauienses.
Em 1906, aos 19 anos de idade, transfere-se para o Rio de Janeiro, em busca de emprego e glória literária. Todavia, não se adaptando ao meio retornou a Teresina, onde volta a atuar na imprensa, ingressa no magistério e inicia sua carreira de modesto servidor público. Em 1914, convola núpcias com Liduína Mendes Frazão, com quem teve cinco filhos: Celso Filho, Edméa, Maria, Wanda e Diva Pinheiro. Em princípio de 1916, fora nomeado pelo governador Miguel Rosa, para a cadeira recém-criada de Literatura da Escola Normal do Piauí, onde passou a trabalhar. Entretanto, por questões políticas, no ano seguinte foi sumariamente demitido pelo sucessor de Miguel Rosa, governador Eurípedes de Aguiar, passando a nutrir ressentimento pelo mesmo.
Nesse tempo(1917), devido a estresse retira-se em demorada vilegiatura pelo sul do Piauí, se demorando por Gilbués e Santa Filomena. De regresso a Teresina, volta ao trabalho e às rodas literárias, principalmente em torno de Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e Abdias Neves. Desse tempo, lembra Cristino Castelo Branco: “Parece-me que vejo ainda lá a figura alta, magra, nervosa, do poeta Celso Pinheiro” (In: Frases e Notas. Rio: 1957). Em dezembro, aos trinta anos de idade, participa da fundação da Academia Piauiense de Letras, tomando assento na cadeira n.º 10.
Posteriormente, para cumprir com suas obrigações de chefe de família, vai acumulando alguns empregos de pouco rendimento: secretário do Liceu Piauiense, escriturário da Chefatura de Polícia e revisor-chefe do jornal O Piauhy. Era um funcionário dedicado, eficiente, correto em todos os seus atos. Testemunha o escritor Bugyja Brito, que com ele conviveu por muitos anos, que “Celso foi sempre um homem honesto, honrado na sua vida pública” (In: Três artífices do verso. Rio de Janeiro: 1991). No exercício daqueles três cargos o encontrou o referido Bugyja Brito, quando o conheceu em agosto de 1926 e passou a ser seu colega de redação no referido jornal. No último emprego, permaneceu até 1928, afastado pelo governador João de Deus Pires Leal, permanecendo nos demais. Também, foi chefe do Instituto de Criminalística.
Informa Bugyja Brito, que Celso Pinheiro, em 1931 teve idéia de mudar-se para São Luiz do Maranhão, em virtude de insatisfação com o Interventor Landry Sales. Felizmente, desistiu da idéia.
Em 1932, sofreu grande abalo com a perda da esposa, com quem viveu dezoito anos de consórcio. Em 1938, sofreu nova amargura com a prisão de seu único filho varão, Celso Pinheiro Filho, acusado de envolvimento em atividades comunistas pelo Tribunal de Segurança Nacional. Em 1946, esse filho assumira a Prefeitura de Teresina, nomeado pelo Interventor Vitorino Freire, sofrendo severas críticas do ex-governador Eurípedes de Aguiar. Esse fato revoltou o poeta Celso Pinheiro que partiu em defesa do filho, passando a revidar os ataques numa contenda apaixonada que alimentou muitas páginas de jornais e até de livros.
Celso Pinheiro dedicou-se às letras desde a mocidade, consagrando-se como um dos maiores poetas do Brasil. Cronista de fôlego, jornalista brilhante, foi, contudo, na poesia que fez o seu nome. Compunha um soneto com uma facilidade nunca vista. É insuperável nesse aspecto, sendo considerado o maior sonetista do Piauí. É representante das escolas simbolista e parnasiana no Piauí. Para Arimathéa Tito Filho, o traço característico do poeta esteve sempre no desencanto, no desalento, na angústia e no pessimismo. Foi cognominado o Poeta do Sofrimento. Estreou em livro com Almas Irmãs (1907), de parceria com Antonio Chaves e Zito Baptista. Em 1912 publica Flor Incógnita, deixando muitos outros trabalhos inéditos, por ele assim organizados: Prosa, 2 volumes – discursos, conferências, crônicas, cartas, artigos de jornal; e poesias, mais de quatro mil sonetos, poemas de outras formas e sátiras políticas, com as seguintes denominações: Cuore, dedicado aos pais, aos irmãos, aos filhos; Dona Tristeza, a companheira permanente das suas angústias; Sombras, para as moças tuberculosas do tempo em que viveu; Dindinha, a babá da meninice; Tear de Sol, 3 volumes, subtitulado Spleem, versos dos sofrimentos íntimos; Poemas de Maio, plenos de religiosidade; Poentes, a suavidade e a beleza dos crepúsculos; Hino à França; Jardim de Mulheres, 2 volumes, enaltecimento às eternas namoradas do homem; No Jardim de Academus, homenagem aos intelectuais do Piauí; Estepes, de vário assunto; Poemas da Morte, penúltimo livro, para o poeta o próprio canto de cisne; Coroa de Espinho, terminado uma semana antes da morte do poeta. De assunto político deixou para publicação: O Incendiário de Teresina, sobre os incêndios criminosos na capital piauiense, no início da década de 40; Demócrito de Sousa Filho, denunciando o assassinato de jovem estudante num comício do Recife, em 1945; Fernando de Noronha, também denunciando a transformação da ilha em presídio político, onde estivera preso o filho; União Democrática Nacional do Piauí, combatendo essa agremiação partidária, vez que militava no PSD; Da Constituição, comentando a carta piauiense de 1947; e, Euripidinas, com sátiras impiedosas a seu adversário Eurípedes de Aguiar. As primeiras obras e parte da poesia produzida a partir de 1912, foi publicada em 1939, pela Academia Piauiense de Letras, com o título Poesias.
Faleceu Celso Pinheiro na cidade de Teresina, em 29 de junho de 1950, mesma data de morte do também poeta Da Costa e Silva.