sexta-feira, 23 de agosto de 2019

E SE?

Fonte: Google


E SE?

Antônio Francisco Sousa 
Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)                

                 E se fossem informações verdadeiras as vazadas pela mídia dando conta de que remunerações de auditores-fiscais da secretaria de fazenda do estado brasileiro que vive numa constante e indigesta disputa para sair da última ou penúltima posição de ente mais pobre da federação, funcionários públicos, aqueles, cujo salário nominal inicial – segundo editais de concurso público para ingresso no cargo, não chega a quinze mil reais -, beiram os sessenta mil reais, possivelmente, dentre as maiores do país, incluídas as da suprema magistratura da nação e de outras carreira de escol?

                E se fossem verdadeiras as informações dando conta de que decreto enviado pelo governo estadual ao parlamento e por aquele sancionado, posteriormente – tudo indica que, na íntegra – anunciava que o bilhão e meio de reais passível de ser contratado na forma de empréstimos – e o foi, devidamente, segundo publicado, e, se soube mais, que poderia ser apenas parte do que o estado gostaria de contrair -, teria como objetivo a quitação de precatórios, dos quais o principal, montando em mais de setecentos milhões de reais, seria direcionado a fazendários do estado do Piauí  - conforme asseverou ex-deputado estadual, que, na ocasião, anunciou que, com a ajuda da população, tentaria, primeiramente, anular a operação financeira já concretizada, em seguida, impedir que outros, com finalidades duvidosas, fossem contratados?

                E se estivesse certo aquele deputado federal, que acha, crê, afirma, assevera, conclui e sentencia que o que fizeram, principalmente, com o ídolo maior de sua legenda partidária, o ex-presidente preso em Curitiba, mormentemente, no que se refere à sua condenação e prisão, foi a mais flagrante e açodada injustiça da Justiça brasileira, será que não estaria  equivocado quando diz – como, publicamente, disse – que as invasões por hackers, de telefones, sites e redes sociais, das quais decorreram vazamentos de conversas  e diálogos, dentre outros, do ex-juiz, hoje ministro da justiça, com companheiros de força-tarefa que cuidavam da Operação Lava Jato, não passaram de balela, criação, ficção, desculpa esfarrapada, justificativa pífia, para tentarem se safar ou escamotear as maracutaias que aprontaram contra o mesmo ex-presidente da república?

                E se não fosse apenas lorota, blefe, conversa fiada, afirmação do mesmo parlamentar federal dando conta de que, nas próximas eleições nacionais para escolha do diretório nacional de seu partido – não a local -, quem dará a palavra final, decidirá, baterá o martelo, só serão os delegados, se dito ex-presidente, aos nomes que já se lançaram na disputa pelo comando, não preferir qualquer outro, ainda que fora de qualquer prévia lista?

                Sendo verdadeira a informação referente ao montante dos vencimentos totais dos auditores-fiscais da fazenda piauiense, partindo do pressuposto de que eles são servidores públicos de um dos estados mais pobres do país, seria, no mínimo, uma incoerência que, mesmo merecendo, percebessem remuneração mensal tão acintosa e surreal.

                Ou não seria, igualmente, um acinte, em sendo correta a informação quanto à justificativa para tomada de empréstimos tão absurdos – situação que poderá piorar, caso àquele valor se some (m) outro (s) parecido (s) –, de que, quase a metade do montante já contraído, se destinaria ao pagamento de precatórios? Que é isso? Colocar nas costas de todos os cidadãos-contribuintes piauienses dívidas monstruosas relativas a reparação de injustiças cometidas contra grupos específicos, nichos particularizados de trabalhadores, parece uma aberração, um desrespeito, talvez, mesmo, um abuso, a despeito do que ousou dizer apadrinhado político do governante de plantão, ao afirmar que o estado tinha mesmo era que contrair tantos empréstimos quanto lhe permitisse sua situação econômico-financeira atual de bom pagador? Ah! É? Ideal e bem mais honesto não seria se o estado somente fizesse dívidas que redundassem em benefícios destinados ao conjunto da população?

                Que dizer quanto aos posicionamentos do deputado federal, quando se refere a gente de sua estima e apreço: de que não passaram de injustiças as condenações e prisões de companheiros e mentores? E que não teria havido crime algum, apenas blefe, desculpa dos bandidos que condenaram o mais inocente, pio, bom e justo dos brasileiros, quando passa a discorrer sobre situações que poderiam, sim, caro parlamentar, incriminar gatunos cibernéticos que expuseram informações particulares de desafetos do cidadão e de seus companheiros, obtidas, até prova em contrário, criminosamente?

                Por que ou para que, então, senhor deputado, expor nomes de filiados ao partido, dispostos a se candidatar ou já pleiteantes ao cargo de comandante do diretório nacional da agremiação, se, independentemente ou, a despeito da vontade da maioria dos votantes e das expectativas dos concorrentes, a palavra final será do eterno chefe-mor da legenda?        

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Ao professor Evandro

Fonte: Google


Ao professor Evandro

Carlos Henriques Araújo (seu irmão)
Poeta e cronista

A vida é o intervalo de tempo entre o nascer e o morrer. O envelhecimento é a conseqüência natural. Todos nós sabemos que passaremos por essa adversidade, mas não nos preparamos para aceitá-la sem um sentimento de tristeza. Envelhecer requer sabedoria para usufruir o tempo que dispomos. É uma questão de escolha. Somos responsáveis pelo nosso envelhecimento.

Existe uma estatística válida para o Brasil e para os países que é pouco divulgada e desconhecida da maioria das pessoas: Somente uma em cada dez pessoas terá morte súbita. As demais (90%) darão trabalho para morrer. Isto é, nove em cada dez pessoas terão morte anunciada. Irão adoecer gravemente e não estarão preparadas para enfrentar a perda de sua autonomia e independência.

A autonomia na velhice é poder dizer eu quero ir ao banheiro, e independência é levantar e ir ao banheiro. Quem não tem autonomia, nem independência vai depender dos outros.  É uma experiência terrível, pois além das “fraldas”, vem a dificuldade de andar, de falar, de enxergar, de ouvir, de comer, de engolir e de beber.

Portanto, antes de chegar nesse estágio, o grande desafio é nos prepararmos para dar menos trabalho para aqueles que iram cuidar de nós (parentes e empregados). Mais ou menos 40% dos brasileiros estão em paz com Deus no seu último dia devida, diz outra pesquisa. Mas será que ao partir dessa para outra, levamos a ciência do sentido da nossa vida? Por que viemos e para onde vamos agora?

As respostas para essas questões encontramos ao nos voltar para nosso interior.  Pode ser que sejamos um ser espiritual e estejamos passando por uma experiência humana aqui na terra. A morte é um dia muito importante na nossa vida. É como nosso nascimento. Quando nascemos somos só inocência. Ao morrer, levamos uma experiência de vida imensa. Adquirimos muitos conhecimentos. Fazemos muitos amigos. Recebemos muitas bênçãos. Estudamos muito e aprendemos muito. Ajudamos aos outros, fazemos ações boas e tivemos muitas atitudes dignas. Enfim, crescemos espiritualmente e cumprimos nossa missão aqui na terra.

O professor Evandro partiu para uma nova vida, muito feliz, com o reconhecimento dos familiares, parentes, amigos e alunos, e com o diploma de aprovado na escola da vida. Ele nos deixará muita saudade pela pessoa que foi como irmão, amigo, professor e incentivador de seus alunos para se realizarem na vida. Uma de suas grandes satisfação era quando via um de seus alunos realizado e com um futuro promissor.

Que o nosso Criador Maior o receba com o carinho que todos nós tínhamos por ele. Obrigado professor Evandro por ter existido em nossa vida, dirão seus alunos e todos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.   

Gullar

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GULLAR

Weliton Carvalho
Juiz de Direito e poeta


É quando a vida se imiscui do humano
que todas as cores cintilam inteira luz

      e se alumiam os porões mais íntimos do existir
      tal fachos de relâmpagos sobre as tempestades

loucas do desejo de sentir o vulcão da beleza
transbordando o puro na impureza do feto

         que traz consigo placenta, soluços e esperança.

Quando não há mais limite entre o horrendo e o belo:
ambos siameses da poesia esmerilada em amarelo-girassol:

     fogo escorrendo em larvas grossas na temperatura exata
     em que os metais se fundem em danação e total doçura.

E o vento é tanto que se abrem portas, baús, memória:
       se arrebentam lençóis e cheiro de alfazema,

na  maresia dentro de uma ilha para além de rios e mares
                  a desembocar no insólito e indizível,

onde mesmo a voracidade da poesia diz tão pouco,
mas só ela pode penetrar com tanta cumplicidade
        e tentar, uma vez mais, iluminar o humano:

          eis o reino a descobrir: tudo é tão novo:

o que se tem é a fala, a prosa, o vulgar, a vida menor a pulsar:
       a matéria-prima com que a poesia há de construir o belo.

Neste lençol encardido, nestes dias de nódoas profundas,
nesta sujeira entranhada, nascerá o sublime, o cristal,

         uma sinfonia límpida soprando alucinada
                        e reinventando o mundo.   

terça-feira, 20 de agosto de 2019

II Corredor Literário lança livros em noite com escritores e leitores na Caixeiral




II Corredor Literário lança livros em noite com escritores e leitores na Caixeiral

Com grande presença de público foi realizado na noite desse sábado no SESC Caixeiral o II Corredor Literário, com venda e exposição de livros, promovido nas parcerias daquela entidade com a Academia Parnaibana de Letras, o Opiagui e escritores independentes. Na ocasião se deram apresentações e performances de teatro e recitação de poesias com Gualberto Júnior e Eduardo Moraes.

Entre os escritores que lançaram e relançaram livros estavam Antonio de Pádua Marques, membro da Academia Parnaibana de Letras, o professor Adilson Castro e Cláucio Ciarlini, editor e criador do OPiagui, a escritora e poetisa Ednólia Fontenele e Jorge Barbosa Filho, escritor carioca radicado em Parnaíba, Marcello Silva, escritor de Chaval e o advogado Dante Ponte de Brito.

Pádua Marques, da Academia Parnaibana de Letras lançou seu romance O Libertador de Cuba, obra prefaciada pelo mestre e doutor em literatura piauiense Daniel C. B. Ciarlini. Na ocasião a academia parnaibana recebeu livros para o acervo de sua biblioteca.  Ao evento compareceu o médico Valdir Aragão, secretário especial do prefeito de Parnaíba, o advogado, escritor e membro da APAL Roberto Cajubá.   

PARABÉNS TERESINA!

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PARABÉNS TERESINA!

Carlos Henriques de Araújo
Membro da UBE-PI, cronista e poeta

Encravada na chapada do corisco, uma referência, não ao capanga de Lampião, mas aos relâmpagos e raios que nas noites de chuva, no final do inverno, riscam os céus com clarões de fogo que derrubam árvores, no seio desse estado querido, surge a mesopotâmia do agreste.

Do sonho de Conselheiro Saraiva, cresceu embalada pelas águas dos rios Poti e Parnaíba, acariciada pelo vento nordeste que depois das dez vem amenizar seu clima quente, consequência do abraço carinhoso do sol do equador.

Teresa Cristina, para os íntimos, Teresina. Seu nome traz a beleza de uma menina que, àquela época, dom Pedro previa um futuro promissor. A menina cresceu e com ela cresceram seus filhos: os teresinenses ilustres.

Ao completar cento e sessenta e sete anos, Teresina, se iguala às grandes capitais do nordeste.  As administrações que se sucederam ao longo da última década a elevou a um dos maiores centro populacional do meio norte, no tocante ao comércio e a prestação de serviços nas áreas da medicina, educação, eventos e divertimentos noturnos.

As lembranças bucólicas e pacíficas da Verdecap de outrora ainda permanecem vivas em todos nós. Que saudade das caminhadas admirando as árvores e os pássaros na Praça da Bandeira; dos passeios de carro pela na Av. Frei Serafim; da feirinha na Praça Saraiva depois da missa aos domingos; da peixada do Pesquerinho sob a luz do luar; do lanche discreto no Minhocão; do churrasco na animada Beira-Rio; das rodadas de cerveja ouvindo forró no bar Maria Fulô; do papo agradável com os amigos no bar Escândalo; da batida gostosa no bar Raízes ao som do melhor do rock e da MPB; das serestas na coroa do rio Poti; das festas juninas no Tabajaras; dos ensaios das escolas de samba Ziriguindum e Squindô; do sorvete gostoso no Elefantinho; do pão de queijo do seu Cornélio; das noitadas no Nós e Elis; dos embalos nas boates La Muralha e Super Star; e para encerrar a noitada com chave de ouro, uma deliciosa mão de vaca no Cassarolinha, acompanhado pelo violão do Silizinho.

Teresina hoje não é lembrada só pelo seu calor, pela a cajuína, pelo  troca-troca ou o cabeça-de-cuia. Ela é cantada em verso por seus poetas e reconhecida no Brasil por ter as melhores escolas do país. A reurbanização da Av. Frei Serafim, a Ponte Estaiada, o sistema de ônibus integrado, vários Shopping Center deu nova vida para cidade. E por não dispor de praia e ter um clima muito quente durante o dia, a noite é a hora mais agradável para o divertimento e lazer, através de uma grande diversidade de bares, restaurantes, clubes, baladas e eventos. E para acolher os turistas e visitantes em busca de tratamento médico, estudo e eventos dispõem de uma rede de hotéis, pousadas, escolas, faculdades, cursinhos e empresas especializadas na prestação de eventos e serviços correlatos.

Parabéns Teresina!

domingo, 18 de agosto de 2019

DESIDERATA (*)

Fonte: Google


DESIDERATA (*)
             (colagens)

Elmar Carvalho

Bebe teu vinho,
come teu pão,
agradece pelos amigos
e apazigua teu coração.
Nada temerás,
pois o Senhor é teu pastor
e nada te faltará.
Nas mãos de Deus deposita
teu coração e descansa.
Sem o sal sutil e sublime do amor
os mais sagrados sentimentos serão
simples sinos de latão.
Muitas pessoas, assim como as estrelas,
precisam apenas ser percebidas.
Dá-lhes um pouco de atenção.
Mesmo as mais longas e heróicas jornadas
começam com o pequenino passo inicial.
Começa, pois, tua missão.
Observa a beleza das coisas e sê belo,
ao menos em espírito ou no desejo de ser.
Distribui prodigamente o teu sorriso
e a tua palavra amiga, que nada te custam,
e no entanto têm valor incalculável.
Vive o tempo presente,
da melhor forma que puderes.
Não te perturbe o passado,
fantasma que não virá, nem o futuro, espectro
das coisas que ainda virão, se é que virão.
Sê bom e caridoso contigo mesmo:
lança o bumerangue da bondade e da caridade,
que te há de retornar maior e melhor.
A ninguém te compares,
para que não fiques vaidoso ou amargurado,
porque hão de existir 
maiores e menores,
melhores e piores do que tu.
Diz a tua verdade e a dos outros escuta:
todos têm a sua verdade, mesmo os tolos e insensatos.
Foge do ruído e da pressa e mergulha na paz do silêncio.
Evita os barulhentos e agressivos,
para o bem de teu espírito.
Sem deixares de ser tu mesmo,
mantém boas relações com todas as pessoas.
Desfruta de teus êxitos e de teus projetos.
Por mais humilde que seja,
mantém o interesse em tua profissão,
pois ela é a tua dádiva e a tua fortuna.
Por causa dos enganos e armadilhas, sê cauto,
mas não  esqueças que a virtude existe e predomina.
Em todo lugar existe bondade e heroísmo.
Não enganes a ti mesmo e não finjas afeto,
mas não sejas cínico no amor.
Malgrado as asperezas e desenganos,
o amor é perene como o próprio tempo
e nenhum dom  é maior do que ele.
Segue o conselho dos anos, e altiva
e docilmente abandona as coisas da juventude.
Aprimora e cultiva a força de espírito,
para não fraquejares na adversidade.
Muitos temores são filhos da fadiga e da solidão.
Sobre uma benéfica disciplina,
sê tolerante contigo mesmo e com os outros.
Assim como as plantas e as estrelas,
és uma criatura do Universo
e mereces estar aqui.
Ainda que te pareça errado,
o Universo se desenvolve como deveria.
Mantém a paz com Deus,
como quer que o concebas.
Não obstante todos os percalços
e acidentes de percurso,
mantém a paz com tua alma.
Apesar das ruínas
e dos sonhos malogrados,
este é um mundo maravilhoso.
Sê prudente e esforça-te
para ser feliz.
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(*) Poema baseado na Bíblia, na Desiderata de Max Ehrmann e em outros textos.   

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

UM PESCADOR E SEUS AMORES

Fonte: Google/Wikipédia



UM PESCADOR E SEUS AMORES

Elmar Carvalho

No sábado passado, tivemos uma bela festa cultural na APL, em comemoração ao Dia das Mulheres. O presidente Reginaldo Miranda passou o comando da solenidade à acadêmica Nerina Castelo Branco, decana da entidade, que proferiu belas e emocionantes palavras em memória de três mulheres, que foram ligadas à cultura, à educação e à Academia.

Foram elas: Lourdinha Brandão, professora, que muito se empenhou na construção do auditório da entidade, na gestão de seu marido, o deputado estadual e professor Wilson Andrade Brandão, cuja família estava representada pelo filho da homenageada, o também deputado Wilson Nunes Brandão; Maria Helena, esposa do acadêmico Jônathas Nunes, cuja beleza espiritual e física, especialmente de seus olhos azuis, foi reconhecida por Nerina; e Magnólia Santana, cuja bondade e espiritualidade foram enaltecidas pela oradora.

Magnólia era casada com o confrade Raimundo Nonato Monteiro de Santana, que, embora seja eminentemente um prosador, leu um belo e comovente soneto, que fez em sua homenagem. Mesmo já idosa, quando vim a conhecê-la, ostentava uma clássica e serena beleza. O poeta Altevir Alencar, célebre declamador de estilo clássico e sóbrio, recitou poemas em homenagens às mulheres.

Como parte integrante da homenagem solene, foi lançado o romance Pedra do Sal – Um Pescador e seus Amores, da autoria da escritora Rita de Cássia Amorim Andrade. Fui por ela escolhido para ser o apresentador. Obviamente, não discorri sobre a narrativa, posto que isso seria semelhante a contar a história de um filme a quem iria assisti-lo. Falei de seu estilo claro, objetivo, escorreito, sem presumidos hermetismos dos que se dizem da vanguarda.

Assinalei os seus diálogos verossímeis, condizentes com a personagem, com a sua cultura e perfil psicológico, mas sem abusos caricaturais de supostos regionalismos e quase dialetos. A narrativa foi quase sempre conduzida em discurso indireto, com o narrador onisciente a perscrutar os pensamentos mais secretos e as intimidades mais recônditas das personagens. Embora a própria autora tenha afirmado que adotou a narrativa linear, observo que ela, em alguns momentos, cometeu o recurso de flashback, quando o  narrador interrompia o momento presente e se voltava para fase do passado da personagem.

O romance é ambientado no litoral piauiense, sobretudo em Pedra do Sal e sua colônia de pescadores, mas com incursões à bela cidade de Parnaíba. Em certas descrições, verdadeiras passagens de prosa poética, a gente fica com a impressão de estar ouvindo o marulho das ondas, de sentir as narinas impregnadas de maresia e como que sentimos o vento a nos acariciar a pele. Seu livro foi como um búzio, que colocássemos no ouvido, para ouvir o simulacro do ruído marítimo. O romance tem como protagonista um pescador de poucas letras, com a sua cultura machista, com as suas contradições e recalques, que se apaixonou, em períodos sucessivos, por duas mulheres elegantes, de nível cultural e social mais elevado, e oriundas de um meio diferente.

Trata desses encontros e desencontros, de paixão e ódio, de amor e desamor. De forma discreta, como é o correto, por ser uma obra de arte, e não um mero panfleto, denuncia as mazelas ambientais. Acolhe as lendas, o lado mítico do lugar, que ainda estão no imaginário das pessoas simples, tanto em relação aos índios Tremembés, que outrora perlongaram o litoral piauiense, como no tocante aos Fenícios, que supostamente teriam estabelecido uma estação portuária em Pedra do Sal, cujos indícios seriam as pedras que dão nome ao lugar.

Até há quem acredite que existiria um túnel a ligar o encantamento de Pedra do Sal ao misticismo de Sete Cidades, que também teriam sido reduto desses célebres navegadores da antiguidade.  Foi uma festa notável, tanto na celebração da mulher piauiense, como por ter sido um grande encontro cultural.  


19 de março de 2010

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A Primeira Vez



A Primeira Vez

José Pedro Araújo
Cronista, contista e romancista

Antes que alguém seja tomado pela curiosidade, gostaria de antecipar que não trataremos aqui daquelas histórias libidinosas em que os indivíduos costumam contar como foi a sua primeira relação sexual, e que atrai tanto a atenção – ou mesmo a curiosidade - das pessoas. Falaremos do primeiro contato com algumas novidades que chamaram a atenção de um menino interiorano e que hoje são tão comuns na vida das pessoas por serem encontradas em todas as esquinas das cidades. Bobagens, na interpretação de algumas pessoas. Lembro, contudo, que sou um sertanejo, nascido na ribeira do Riacho Firmino, lá no meu velho Curador, cidadezinha que era farta somente em falta de tudo. E cujas novidades aqui descritas se transformaram em acontecimentos notáveis, inesquecíveis.

Dito isto vamos ao objetivo do título acima. Toda criança, seja ela da cidade ou mesmo nascida no povoado mais escondido deste imenso Brasil, conhece uma maçã. Não somente conhece, como já comeu uma. Afinal, junto às frutas conhecidas e mais vendidas de qualquer mercadinho, as maçãs estão expostas em primeiro lugar em um tabuleiro ou prateleira. Pois, para mim, foi diferente. Sem nunca ter posto os pés para fora do Curador, certo dia fui alertado pela minha mãe que uma prima legitima sua acabara de retornar à cidade para passar férias. Como já fazia muitos anos que a prima Olga – era esse seu nome - não retorna à cidade, o fato se transformou em um grande acontecimento.

De minha parte, preciso dizer que eu não sabia de quem se tratava, tantos anos já decorriam desde a sua última estadia entre nós. Fomos visitá-la, então. Deparei-me com uma moça loura, olhos azuis como as águas do mar de Arraial do Cabo, que eu também ainda não conhecida, e uma voz agradável e inconfundível. A prima Olga, que morava por essa época no Pará, mais precisamente na cidade de Breves, nos recebeu com grande alegria. E a visita só foi interrompida quando a minha mãe se lembrou que precisava retornar para casa para concluir o nosso almoço. Antes de sairmos, porém, minha mãe foi presenteada com uma bela maçã embrulhada naquele inconfundível papel de seda azul, fruto que eu só conhecia até então através das fotos postadas nas revistas ou mesmo nos livros infantis. Nem é necessário dizer da nossa imensa alegria. Lembro-me ainda do cheiro que aquela preciosidade espalhava no ar. Inconfundível.

Já em casa, minha mãe partiu aquele maravilhoso mimo em vários pedaços afim de que todos pudessem provar da sua delicia. Fiquei mortificado. Não queria que ela “matasse” aquele fruto tão bonito e que, segundo alguns pregadores cristãos, encantou tanto a Eva que ela botou tudo a perder ao oferecer uma delas ao parceiro Adão. Ficou a lembrança, contudo, na minha mente, já um tanto cheia de tantas outras passagens da vida. Hoje, abro a geladeira, e lá está uma delas, até faz parte de um tipo de dieta!

A mesma coisa aconteceu com o chocolate. O Bombom de chocolate, quero dizer. E aconteceu de maneira parecida. Um tio do meu primo Diolindo, que residia em São Paulo, estava de volta à terrinha para passar férias depois de longos anos de ausência. Naquele tempo o trajeto entre as cidades de São Paulo e Presidente Dutra durava uma eternidade, quase uma semana. Daí as pessoas demorarem tanto a voltar. Esclareça-se que, somente com o tempo gasto para ir e voltar, já se consumia quase todo período de férias de quem tentasse. Mas voltemos à nossa história. Pedro Oliveira, o tio a quem me referia, costumava dar um presente a quem o visitava: um belo bombom de chocolate, envolto naquele bonito e característico papel colorido. Necessário se faz afirmar que eu também não conhecia o tio do meu primo. E que somente me dispus a visitá-lo quando fiquei sabendo que ele estava presenteando suas visitas com aquele bonito regalo. Não tive mais dúvidas, fui também.

Pedro Oliveira também era uma pessoa agradabilíssima, rosto redondo e tez amorenada, alegre e brincalhão, de maneira que quase nos esquecemos da verdadeira razão de estarmos ali. Sim, porque, no meu caso, não possuía eu outro interesse que não o de ganhar um bombom de chocolate, algo que eu nunca havia visto antes.

Preciso esclarecer, ainda, que só conhecia aqueles bombons pequeninos, tão comuns e que eram vendidos nas mercearias pobres do meu lugarejo. O chocolate não, afirmava o meu primo, era um negócio grande, saboroso, e ainda vinha envolto em um papel que se devia guardar para sempre, até para ser usado como marcado de páginas de um livro.

Afinal, para encerrar a história, antes de sairmos, coração palpitando no peito, o nosso Pedro Oliveira pediu que esperássemos um pouco, entrou no quarto, e voltou com dois belos chocolates da Garoto: Serenata de Amor, bem me lembro. Fiquei encantado com o presente e não queria abrir o papel do meu. Pedi ao meu primo que desembrulhasse o seu, pois era o segundo que ele ganhava. Mas ele não me deu moleza. E foi assim que eu tive que, com muita pena, retirar o papel do meu delicioso mimo. Comi a guloseima em mordidas sem conta para não acabar logo. Que delícia. E que lembranças doces! Toddynho, nem lembro!

E o que dizer também quando, certo dia, tomei ciência de que estavam instalando, em um salão ao lado da loja do meu pai, uma sorveteria! Sorveteria somente no nome, pois o que eu me lembro mesmo é que só vendiam picolés. Picolé, em uma época em que também não tínhamos energia elétrica, só conhecia de nome. Ou das fotos encontradas em revistas ou livros didáticos. No dia da inauguração, uma festa se instalou na rua, em frente ao comércio. Acionado o motor com o gerador, aquele trambolho enorme, mais de dois metros de comprimento, começou a funcionar ruidosamente, era a fábrica de picolés que emitia o seu barulho.

Contudo, teríamos que esperar um tempo interminável, acho que umas duas horas ou mais, até que o picolé fosse retirado da salmoura, de dentro daquelas formas metálicas. Foi um acontecimento. Foi também o meu primeiro contato com algo realmente congelado. Não poderia imaginar que isso passaria a fazer parte da minha vida ao ponto de não passarmos sem uma geladeira em casa com os seus gelados. Enquanto isso, o senhor Natal Paulo, o dono do estabelecimento, tinha que justificar a demora e controlar o ímpeto da criançada ávida pelas guloseimas: era preciso esperar que os picolés estivessem congelados, no ponto certo, deu uma aula para nós. Foi um maravilhoso acontecimento quando saquei do bolso o meu dinheiro, paguei o preço cobrado, e sai saboreando aquele troço que me queimava a língua, mesmo sem quente, e fazia doer os dentes. Mas, como era delicioso!

Depois teve o algodão doce e a aquela máquina ultramoderna de fazer com que o açúcar se transformasse naqueles fios leves e doces que se desmanchavam na boca ao primeiro contato com a saliva. Inesquecível. Depois dela, como não acreditar que as fantásticas engenhocas utilizadas pelo herói Buck Rogers não fossem verdadeiras.

E a primeira batata frita, salgadinha e embalada em saquinhos de papel – Acho que foi no Circo que eu primeiro contactei com elas. O chiclete Ping Pong, aquele chocolate pobre, o Zorro;  o primeiro gole de Coca-Cola, um acontecimento. A primeira Cola Guaraná Jesus, o primeiro sanduíche, hein! Voltemos ao Guaraná Jesus. Até o nome dele foi uma surpresa. O seu lançamento veio acompanhado de uma promoção que incendiou o mercado de refrigerantes. Trazia nas tampinhas, no seu lado interno, componentes de uma bicicleta: o quadro, os pneus, os pedais, o guidão, o prato pedaleiro e, por fim, o mais raro, a sela. E quem conseguisse montar a bicicleta completa ganharia uma Monark novinha. Somente no Bar do Paulo Falcão, meu primo, se podia comprar o refrigerante cor-de-rosa. Isso no princípio. Tomei uma infinidade de garrafas do refrigerante e não consegui montar a minha bicicleta. Nem dava tempo de o refrigerante gelar direito, já estávamos pedindo que fosse retirado da geladeira à querosene, pois o objetivo era a tampa, não o líquido. Já tinha gente que ficava esperando para beber o refrigerante que os mais abastados abriam e que não conseguia mais tomar.

Ninguém conseguia encontrar a tal sela. Até ouvimos dizer que alguém, um morador no bairro da Mangueira, havia encontrado a difícil peça, e até que a vendia por um preço quase do tamanho daquele que valia uma bicicleta na loja. Tudo mentira. Ou Fake News, como se diz hoje em dia. Ainda tenho dúvidas se a campanha era séria. Ou melhor, até acho que era séria, mas as tampinhas com a sela eram raríssimas, quase inexistiam.

Contado hoje para os meus filhos, que trombam com essas coisas em qualquer supermercado ou mercearia da cidade, vejo que eles ficam com aquela cara de dúvidas, a se perguntarem se o que eu estou falando é mais uma das minhas histórias fantásticas, quase inverossímeis. Não sabem o que era o Brasil – o mundo mesmo - nos anos 60.

Tem outras coisas. Como a primeira vez em que eu vi o mar na minha frente. A propósito disto, um colega meu de ginásio passou por um verdadeiro bullying quando retornou de São Luís. Tivera o desplante de conhecer o mar antes de nós, e foi alvo de terríveis gozações. A maioria delas, torpes frases, como esta: “encher de água esse açude grande foi fácil, o difícil foi salgar tudo!” Só inveja! Mas essas histórias ficam para outra ocasião.     

Fonte: Blog Folhas Avulsas

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

TERESINA, MINHA QUERIDA!

Fonte: Google


TERESINA, MINHA QUERIDA!

Valério Chaves – Des. Inativo do TJPI

No dia 4 de julho de 1994 fui empossado perante o Tribunal de Justiça do Piauí como Juiz titular da 6ª Vara Criminal da comarca de Teresina, em decorrência de minha promoção da comarca de Oeiras (3ª entrância, na época) para a Capital (4ª entrância).


            Naquela oportunidade, senti a sensação de estar me reencontrando com a terra onde a gente nasce, após demorada ausência. Na verdade, a posse naquela ocasião significava, para mim, além da promoção na carreira representava em meu sentimento um aspirado retorno à cidade que devo o supremo galardão de me ter permitido, aqui desembarcar em novembro de 1959, assustado e tímido, procedente de minha terra natal, Guadalupe, para servir o Exército Brasileiro no 25º Batalhão de Caçadores.

            A partir de então, ainda na incipiência de minha adolescência, do descortino das belezas, dos mistérios e da reflexão, passei a aprender amar Teresina, sobretudo porque foi aqui que apendi a assumir responsabilidades, enfrentei dificuldades, constitui família e vi minha perseverança, meu trabalho e meus estudos frutificarem.

            Confesso que aquele ato de minha posse como juiz, e o sentimento, não representaram nenhuma abstração espiritual, mas a certeza de que tudo aquilo que outrora me animava nas distantes comarcas do interior do Piauí,  se mostrava como uma realidade tangível acendendo em mim a chama saudosa do coração – quase a me sentir como  na música cantada pelo saudoso Dominguinho, que diz: “Estou de volta pro meu aconchego/ Trazendo na mala bastante saudade”.

            O reencontro, contudo, não me proporcionou somente a alegria de retornar a Teresina. Com ele, igualmente, a dureza da realidade presente a transformar esta cidade, gradativamente, em ancoradouro de graves problemas sociais resultantes do seu crescimento populacional e de tantas outras mazelas que hoje nos preocupam e assustam.

            Inobstante tais mudanças e defeitos, não devemos perder a confiança nos seus gestores e nas instituições democráticas no sentido da superação dos problemas e preservação da segurança de cada cidadão que aqui reside e trabalha.

No transcurso dos 167 anos de existência de Teresina só nos resta pedir a Deus que ela continue com seu calor agradável, sempre aliada ao avanço da cultura e do progresso material – já agora congestionante e poluidor.

Parabéns Teresina, Minha querida!   

O alemão e as formigas de fogo

Fonte: Google


O alemão e as formigas de fogo

Pádua Marques
Escritor e jornalista

Simplício Dias foi até a mesa e depois de se sentar e pedir que o visitante fizesse o mesmo passou a ler as duas cartas. A primeira, do príncipe dom Pedro, solicitava todo o apoio possível e impossível ao cientista Karl Friederich von Martius, ali à sua frente. A segunda carta, do governador Baltazar de Sousa Botelho de Vasconcelos, endossando o pedido de sua alteza no Rio de Janeiro. Aquela carta real foi motivo de grande contentamento. Em suas mãos uma carta escrita pelo filho de dom João e que seria guardada com todo o cuidado, igual um troféu!

Karl Frederich von Martius era um alemão de pouco mais de vinte e menos de trinta anos, de boa estatura, cabelos castanhos acobreados, de rosto duro e áspero, castigado pelo sol. Veio ao Brasil há um ano na comitiva da princesa Leopoldina e sua intenção era fazer grandes estudos sobre a fauna, flora e a mineralogia da colônia mais próspera de Portugal. Simplício Dias chamou um criado e ordenou que a visita fosse acomodada num dos quartos do térreo da casa da rua Grande, mas antes providenciasse um banho.

Pelo aspecto de von Martius era patente que estivesse há dias ou meses sem se molhar. No almoço farto, coisa rara e reservada às poucas visitas, o cientista adiantou a Simplício e dona Isabel, que ficaria na vila da Parnaíba coisa de uma semana, quando muito. Tempo suficiente pra conhecer a terra, a gente, os animais e as plantas e onde colheria amostras de insetos pra suas pesquisas antes de tomar o rumo de Tutoia do Maranhão e indo até o Pará naquele ano de 1818.

No dia seguinte e na companhia de um negro de seus trinta anos, de nome Belarmino, Karl Frederich von Martius tomou uma canoa pequena e foi ter do outro lado, na Ilha Grande de Santa Isabel. Logo na entrada se encantou com tudo o que viu. A imensa quantidade de carnaubeiras, os pântanos e a mata rala, os passarinhos, os camaleões, calangos e algumas borboletas e catirinas. O negro armado com uma espingarda ia de longe vendo tudo. Vez por outra e só quando perguntado, respondia sobre esse ou aquele animal, planta ou inseto.

Karl Frederich von Martius ia entrando de mata a dentro da Ilha Grande de Santa Isabel e se admirando com o que via e ouvia. Belarmino ficava olhando aquela arrumação e às vezes até queria achar graça, mas nem era besta. Em casa, Simplício Dias ainda estava encasquetado com a carta de dom Pedro. Lia e relia não acreditando que aquela carta era pra ele. Finalmente foi até o cofre e guardou as duas cartas entre outros papeis, moedas e joias da família.

No porto lá embaixo o movimento era o de sempre. Navios e canoas cobertas de palha desembarcando mercadorias vindas do Maranhão pra os armazéns lá em cima na rua Grande e nas próximas. Os negros embarcadiços e escravos pelo efeito do sol quente mais pareciam feitos de louça, tamanho o brilho nos lombros. No final do dia iriam pra suas casas com o pouco ganho ou gastar logo mais nos botequins com aguardente.

No fim do dia o negro Belarmino e Karl von Martius, que Simplício Dias e os de casa passaram a chamar de seu Vomartim, voltaram pra casa. À noite, depois de fechadas as lojas e os armazéns e findo o trabalho no porto lá embaixo, o silêncio tomava de conta daquela região da vila da Parnaíba. Simplício e a mulher dona Isabel convidavam Karl von Martius pra sala de visitas e ali ficavam a conversar sobre o Rio de Janeiro, o príncipe dom Pedro, que muito gostaria de conhecer, a princesa Leopoldina, enfim a realeza tão rica, poderosa e distante.

Simplício convidou o alemão pra que fizesse uma visita à imponente igreja de Nossa Senhora da Graça, construída por seu pai Domingos. Vomartin foi e até que tomou gosto pela construção, as ricas imagens, as colunas, o altar. Mas chamou a atenção pra o pórtico em mármore e tomando a forma de uma abóbada de mesquita muçulmana e a rosácea muito bem feita. Já se passavam cinco dias e as pesquisas continuavam. Agora era a atenção voltada pra os insetos. E inseto era o que não faltava toda noite, além do calor de agosto. Mas Simplício garantiu que dentro de mais umas semanas começariam os ventos de setembro vindos do Testa Branca.

Os dois, Karl e Belarmino, continuavam a seguir todas as manhãs tomando a canoa e desembarcando na Ilha Grande de Santa Isabel. O alemão até que havia criado simpatia pelo diabo do negro. Com ele ia aprendendo muita coisa, nomes de plantas, insetos, bichos pequenos. Mas pouco ensinou ao escravo e protetor. Um dia, foram pra mais dentro da ilha e lá descobriram um formigueiro. Ao fazer umas escavações Karl Frederich von Martius não tomou cuidado e quando se deu conta estava todo coberto por formigas de fogo.  Se vendo de dor e já todo encalombado saiu gritava pedindo socorro.

Belarmino quando viu o alemão naquele estado se pôs a correr. Mas temendo com o que pudesse lhe acontecer acabou voltando e depois de tirar a camisa foi batendo nas costas, nos braços, pernas, cabeça e tudo o mais do cientista. A valência foi que as formigas de fogo não atingiram os olhos. Até que deu vontade de achar graça pelo que estava acontecendo, mas engoliu a gaitada fora de hora. Na volta pra casa e todo já ardendo de febre Karl Frederich von Martius foi direto pra uma tina de água morna e salgada. Foi o bastante pra encerrar as pesquisas na Parnaíba e dentro de mais um dia ir se embora no rumo de Tutoia.     

terça-feira, 13 de agosto de 2019

PARABÉNS PARNAÍBA!


Fotos pescadas no Google Imagens

PARABÉNS PARNAÍBA!

Carlos Henriques de Araújo - Membro da UBE- PI
Cronista, articulista e poeta

O belo é invisível aos olhos dos insatisfeitos; Nada conseguiremos se não colocarmos um pouco de amor naquilo que fizermos; Nossa satisfação é proporcional ao nosso sucesso; O orgulho de um povo é a chama que move sua auto-estima.

Estas quatro assertivas nos remetem a uma reflexão, e aí concluímos: Em se tratando da coisa pública, da política e da democracia, elas não são totalmente verdadeiras, porque têm, em sua essência, os desígnios da individualidade, pois em cada cabeça, uma sentença.

Como parnaibano, mesmo morando distante, sempre acompanhei seus “passos” e “contrapassos” e torci pelo seu sucesso, embora debalde, mas ultimamente, Parnaíba, apesar da crise nacional que o país vem sofrendo há décadas, tem conseguido, nestes últimos anos, um crescimento visível.   

Parafraseando Guimarães Rosa, no seu belo conto “A hora e vez de Augusto Matraga.” Esta é a e a vez da nossa “querida parnaibinha” romper os grilhões do atraso econômico e da submissão administrativa.

Parnaíba está passando por uma metamorfose econômica, social e cultural, conseqüência do ciclo de desenvolvimento econômico privado e práticas administrativas dos últimos governos municipais.

Sempre quando vou a Parnaíba e passo pela Praça da Graça, meu coração bate mais rápido por conta daquele cartão postal, postado em meu peito, que me faz viajar no tempo. Quanta saudade sinto da pérgula da praça, da missa na Matriz, dos filmes no cine Éden, das tertúlias na AABB, do bar Fortaleza e das festas no Cassino 24 de Janeiro.

No Porto Salgado, à beira do rio Igaraçú, entre galpões, quitandas, casebres e cabarés, lavadeiras lavam roupa cantando em coro, enquanto as raparigas com roupa e cara de ontem fumam cigarro de palha.

A economia da época girava em torno das empresas Casa Inglesa, Marc Jacob, Moraes, Celso Nunes, Pedro Machado e outras menores como Casa Cristino, Lojas Rosemary, a Pernambucana, Moraes Sousa, etc.

Meio século depois, Parnaíba é outra cidade. Muita coisa mudou, mas ainda continua abraçada pelo rio que corre para o Cantagalo em busca do mar. Do alto da ponte um visual saudoso a vista desponta: os casarios centenários e os galpões esquecidos junto às chaminés da Rosápolis e das ruínas das Indústrias Moraes.

A Beira Rio é o lugar mais agradável de Parnaíba. A vista é intrigante, o clima é gostoso para rever os amigos, tomar uma gelada e comer um caranguejo. Mas Parnaíba não é só a Beira Rio e o Porto das Barcas, agora tem Shopping, muitos bares e restaurantes nas Av. São Sebastião, Pinheiro Machado e em vários bairros.

E ainda tem as lagoas do Portinho e do Bebedouro, a praia da Pedra do Sal e o Delta. A banca do Louro e o bar do Gago onde aposentados, desocupados, e outros “ados” contam “causos” de figuras homéricas que já partiram.

Na cultura e na educação Parnaíba conta com várias universidades, colégios, cursinhos, centros culturais, cursos de música, exposição de obras de arte, museu, lançamento de livros e apresentações em teatro, com a participação de artistas plásticos, pesquisadores, escritores e músicos, veteranos e novos, locais e de fora.

Ao completar 175 anos, Parnaíba está em festa, com a inauguração do primeiro Colégio Militar. E de várias outras obras de porte, como os prédios do SESC e SENAC, além de loteamentos imobiliários, supermercados, condomínios residenciais e lojas comerciais.

Parabéns Parnaíba, que esses novos tempos possam trazer mais esperança, trabalho e alegria para todos os parnaibanos.