AS NORMALISTAS E O MALANDRO
Elmar Carvalho
Do meu posto de observação, eu
via o bando de estudantes passar, não sei se a caminho da escola, ou se desta
retornando, pela indefinição do horário. Mas as moças não estavam vestidas de
azul e branco, como as normalistas da bela música de Benedito Lacerda e David
Nasser, magistralmente imortalizada pelo inesquecível Nelson Gonçalves, com sua
vibrante e melodiosa voz grave, que, saída das cônicas e metálicas bocas das amplificadoras de outrora, encantou
gerações de românticos, seresteiros, saudosistas e outras faunas similares.
Não sei se eram normalistas.
Creio que não. Sei que a farda não era alviceleste, mas branca e verde, talvez
em virtude do modismo ambientalista. Certamente, em decorrência da idade,
carregavam ilusão e esperança, esta simbolizada pela cor do uniforme.
Contudo, me fizeram retornar ao
país de minha adolescência, quando, da esquina em que me postava, eu via as
normalistas passarem, a caminho do Patronato, no qual funcionava a escola, no
alto de suave colina, onde eram realizados festejos e quermesses. A colina já
não existe. Foi sufocada por um monstrengo de tijolo e argamassa.
De algumas admirei a beleza e a
graça de menina e moça, à distância, um tanto recolhido em minha mal
dissimulada timidez. De outras, colhi a graça e a beleza, nos contidos e não
tão contidos namoros de então, quando não existia, no sentido deturpado de hoje,
a palavra fico. Fico era mesmo do verbo ficar, ou, no máximo, o episódio em que
Pedro I se recusou a voltar para Portugal.
Perto de onde eu me encontrava,
notei a presença de um velho fauno boêmio, que arrastava as asas para uma
vendedora ambulante, sentada à sua banca. O seu sotaque, com um chiado
excessivo nos esses, mormente nos plurais, era o de um carioca, pelo menos de
um falsificado carioca “paraguaio”, querendo impressionar a moça, já não tão
moça assim, com a sua gíria, gingado e chilreio.
Escutei quando o velho fauno
disse que trabalhava porque precisava, mas que voltava porque a amava, em
manjado repertório de cantadas, que seriam românticas, acaso não fossem cômicas
pelo desgaste do uso exaustivo, repetitivo. Quando um seu conhecido ia passando,
o quase decrépito boêmio perguntou, carregando no chiado e no carioquês:
–
E aí, elas te deram os corpos?
O outro não perdeu o rebolado e,
igualmente malandro e bem-humorado, retrucou:
–
Não, os corpos eram delas!
E forçou o chiado, arremedando o
(talvez) falso carioca.
Já as estudantes haviam deixado
de passar, carregando com elas o simulacro de um outro tempo, que ainda
remanesce na memória de uns poucos.
4 de maio de 2011


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