quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Depoimento sobre Alcenor Candeira Filho


Alcenor na arte de Fernando di Castro


Depoimento sobre Alcenor Candeira Filho

Elmar Carvalho


1

Quando fui deixar vários exemplares da obra Novas Páginas Parnaibanas, enviados pelo seu autor, para serem distribuídos aos acadêmicos e visitantes da Academia Piauiense de Letras, o seu presidente, o jurista e escritor Nelson Nery Costa, consultou-me sobre a conveniência de lançá-los em evento de nosso sodalício, o que teve a minha pronta concordância e aplauso.

Assim, neste sábado, véspera do segundo turno da eleição presidencial, o livro foi lançado em nosso auditório, juntamente com os seguintes: O cantinho do poeta, de Jonas Piauí, por mim apresentado e prefaciado, Ermelinda, de Lili Castelo Branco, que teve a excelente apresentação do seu filho (e sucessor na APL) Heitor Castelo Branco Filho, e Teoria e realidade da desobediência civil, apresentado de forma elucidativa por seu autor, Nelson Nery Costa. Ao apresentar Novas páginas parnaibanas, disse que iria fazer uma espécie de depoimento e crônica memorialística sobre Alcenor Candeira Filho, porquanto nossa amizade perfaz quatro décadas. Tentarei, a seguir, recompor o meu discurso, baseado no roteiro mnemônico, a que me ative.

Tendo meu pai assumido a chefia da Empresa de Correios e Telégrafos em Parnaíba, fomos residir nessa cidade em junho de 1975, quando eu tinha 19 anos de idade. Em setembro desse ano fui morar em Teresina, para ingressar na ECT, mas no começo de 1977 retornei, em virtude de aprovação em vestibular, para fazer Administração de Empresas na Universidade Federal do Piauí, cujo curso era ministrado exclusivamente no Campus Ministro Reis Velloso, em Parnaíba.

Nessa época, quando o poeta Alcenor Candeira Filho foi aos Correios, para postar ou receber correspondência, um carteiro, sabedor de minha condição de literato, me chamou para conhecê-lo. Mas eu, um tanto retraído, algo tímido nos contatos iniciais, preferi vê-lo à distância, sem me dar a conhecer. Muitos anos depois, soube que ele lia os poemas de feição modernista que eu publicava nos jornais Folha do Litoral e Norte do Piauí, e um pouco mais tarde no alternativo Inovação.

O postalista, cujo nome não consigo recordar, disse-me, com postura algo confidencial, como se revelasse um segredo ou mistério, que Alcenor se formara em Direito para tentar reabrir o processo criminal sobre a morte trágica de seu pai, para dessa forma conseguir a condenação dos responsáveis pelo fato delituoso. Contudo, em livro que posteriormente escreveu sobre o assunto, o poeta afirmou jamais ter alimentado esse objetivo.

Ainda cheguei a ver um opúsculo, que alguém dera a meu pai, o qual continha a tese de defesa do brilhante causídico, jurista e escritor Celso Barros Coelho, que apesar disso se tornou amigo do poeta, tendo ambos sido colegas como procuradores federais (lotados no INSS), no magistério superior (UFPI) e como membros da Academia Piauiense de Letras (APL). O pequeno livro, em virtude de mudanças residenciais, terminou sendo extraviado, o que muito lamento, pois hoje poderia ser uma relíquia de minha biblioteca, pela raridade, e por ser um documento referente a um fato rumoroso do Piauí, e que abalou Parnaíba, no último trimestre do ano de 1959.

No começo de 1977 fiz amizade com Paulo de Athayde Couto, meu colega do curso de Administração de Empresas, filho do professor Lima Couto, poeta e erudito, que, para gáudio meu, admirava meus poemas, e com quem conversei tantas vezes, sobre poesia e outros assuntos culturais, debaixo do caramanchão do jardim de seu sobrado. Lima Couto admirava os poetas Abgar Renault, Longfellow e Tagore, dos quais recitava de memória alguns versos.

Paulo Couto, também poeta, começou por essa época a publicar crônicas no jornal Folha do Litoral. Em sua companhia, fui algumas vezes à casa do Alcenor, datando daí a nossa amizade, que se mantém inalterável e sólida, através do respeito e da admiração recíprocos, regada a muita conversa e eventuais goles de cerveja. O Paulo e eu participamos dos seguintes livros: Salada Seleta (prefaciado por Alcenor), Galopando, Em três tempos e Poesia do Campus (editado em minha gestão no Diretório Acadêmico 3 de Março).

2

Nas vezes em que estive na casa de Alcenor, via na parede o retrato em preto e branco de seu pai, cuja essência biográfica e morte trágica já conhecia, mas nunca lhe indaguei a respeito, como se isso fosse um tabu ou assunto interdito, ao menos para mim. Porém, como no poema drummondiano, sabia que não se tratava apenas de uma fotografia na parede, mas de um símbolo do amor e da saudade, que certamente lhe pungiam a alma de poeta e de filho, como bem se pode constatar na leitura do poema elegíaco Passando em revista, cuja estrofe inicial transcrevo:

Passando em revista
o tempo da noite
vejo que meu pai
Alcenor Rodrigues Candeira
(trucidado em 59
pela família Cavalcante)
continua na parede
sem cabelos brancos
como eu não queria.

Tampouco tratei desse assunto com Canindé Correia, meu compadre e amigo há quarenta anos, casado com Tânia, sua irmã caçula, cuja mão o velho Alcenor segurava, na hora fatídica, no momento em que os sinos dobravam, não a finados, mas assinalando o instante final para a saída da procissão de Nossa Senhora das Graças, a padroeira da cidade; dobrava ele, no dia 11 de outubro de 1959, às cinco horas da tarde, a última esquina em direção à catedral e a curva fatal de seu destino. Muitos anos depois, o meu parente Geraldinho (Geraldo Majella Nunes de Carvalho) contou-me que seu pai, o magistrado Geraldo Majella de Carvalho, meu professor no curso de Direito, de forma algo enigmática o levou a ver a lápide do túmulo de Alcenor, em que ele leu o epitáfio: “Exemplo de honestidade, coragem e lealdade. ‘... E porque vivo ninguém o venceria covardemente o mataram.’”

Nunca seu pai lhe explicou a razão dessa visita inesperada e um tanto misteriosa em seu objetivo ao Cemitério da Igualdade. Nesse velho campo santo, no qual talvez tenha se inspirado H. Dobal, para fazer um poema homônimo, integrante de A Serra das Confusões, foi sepultada a minha prima Verônica Melo, falecida no auge de sua beleza e juventude, em virtude de um acidente com um fogareiro a álcool, cujo túmulo descobri por acaso, se é que existe o que chamamos acaso; a poetisa Luíza Amélia de Queiroz, de cujo mausoléu rebentou magnífica e copada gameleira, que partiu e retorceu a lápide, como para lhe atender o pedido expresso em versos, de que desejava repousar à sombra dessa árvore; o professor Amstein, engenheiro suíço, alto, de barba e cabelos ruivos, de muita verve e imaginação, quase um mitômano, que, no dizer de Renato Castelo Branco, era “barulhento, inconsequente e brincalhão”, e que já chegara a Parnaíba “montado em uma meia-verdade”; minha irmã Josélia, morta quando mal completara 15 anos, no apogeu de sua beleza e contagiante simpatia, em cujo jazigo meu pai fez afixar uma placa com os versos imortais de Da Costa e Silva: “Saudade – asa de dor do pensamento!”

Mas a Igualdade do nome é um tanto desmentida porque ao lado de sepulcros singelos estão os suntuosos mausoléus de (outrora) poderosos industriais, políticos e empresários.

3

Transposta a digressão do parágrafo acima, reponho a locomotiva e o leitmotiv desta crônica memorialística e depoimento nos trilhos. Ao longo desses quarenta anos de amizade, eu e o Alcenor Candeira Filho participamos de muitos projetos literários em comum. À guisa de exemplo, sem consulta a livros e documentos, fomos partícipes de várias coletâneas e antologias, entre as quais cito: Poemágico – a nova alquimia, Poemarít(i)mos, A Poesia Piauiense no Século XX (org. Assis Brasil), Baião de Todos (org. Cineas Santos) e Antologia dos Poetas Piauienses (org. Wilson Carvalho Gonçalves). Fomos coautores de A Poesia Parnaibana e Parnárias – poemas sobre Parnaíba, dos quais também foram coautores Adrião José Neto (do primeiro) e Inácio Marinheiro (do segundo). Fomos ambos colaboradores dos jornais alternativos Inovação, Querela e Abertura, que circularam a partir da segunda metade da década de 1970.

Na seara da poesia e da prosa, arrolo os seguintes livros de sua autoria: Sombras entre ruínas, Rosas e pedras, A insônia da cidade, Antologia poética, Teoria do texto e outros poemas, Parnaíba: meu universo, Das formas de influência na criação poética, Aspectos da Literatura Piauiense, Literatura Piauiense no Vestibular, Memorial da cidade amiga e O crime da Praça da Graça. Nestes livros estão estampados belos poemas da literatura piauienses e fulgurantes textos da melhor prosa. Muitos analisam e elucidam aspectos da mais alta relevância de nossa arte literária.

O certo é que, em resumo, sua prosa límpida, objetiva, concisa, de bem delineada temática e redação, foi sempre admirável. E sempre lhe aplaudi os poemas, de diferentes matizes, assuntos e época, seja o mais singelo ou o mais criativo, o mais discursivo ou o de maior plasticidade, seja o repassado de telurismo, a cantar a beleza arquitetônica ou natural de Parnaíba, seja o que retrata figuras populares, dramáticas ou jocosas, ou ainda os que denunciam as mazelas sociais e da política. Para não falar de suas intertextualidades inventivas e de seus instigantes metapoemas.

4

Não tive a honra de ser seu aluno. Contudo, ouvi vários depoimentos sobre sua performance como professor, sobretudo de literatura, no ensino médio. Fátima, minha mulher, foi sua aluna, e sempre teceu entusiasmados elogios às suas aulas, ao modo como ele sabia prender a atenção do discípulo. Sem dúvida pode ele ser considerado um dos melhores mestres dessa disciplina, tanto por ser um cultor das letras, como por ser um leitor voraz de obras literárias e de teoria do texto e da literatura. Posso, assim, afirmar que muitas de suas aulas eram verdadeiras conferências, ele que é um esmerado conferencista e tribuno, tanto pelo conteúdo, quanto pelo timbre, dicção e cadência vocal. Sem medo de errar, posso dizer que ele foi magistral no magistério, que sempre desempenhou com zelo, vocação e entusiasmo.

Já tive ocasião de reconhecer que ele foi pioneiro na imprensa alternativa piauiense, sobretudo na que utilizava o mimeógrafo, na qualidade de colaborador e de um dos idealizadores do jornal O Linguinha, cujo número inaugural foi lançado na noite que marcou a passagem de 1971 para 1972. Também afirmei o seu pioneirismo na publicação de livros mimeografados, no formato “apostila”, ao publicar os livros Sombras entre ruínas (1975) e Rosas e pedras (1976), com belos poemas elegíacos, em que se percebia certo pessimismo e algum timbre ou ressonância do simbolismo, sem embargo de sua modernidade e de denúncias socais e políticas, que atacavam as mazelas de então e de sempre. Publiquei essas afirmativas em sítios internéticos e nunca recebi contestação, razão pela qual as reitero agora.

Por oportuno e para não ficar me repetindo ou chovendo no molhado, acho melhor trazer à colação o que já disse alhures:

Durante quase todo o século XX, até meados da década de 70, a poesia feita no Piauí era um amálgama do simbolismo, do parnasianismo e, principalmente, do romantismo, com a predominância de temáticas elegíacas e, sobretudo, líricas, povoadas de amadas intocáveis, inatingíveis, com os poetas chorando essas paixões interditas. Posso afirmar, sem medo de erro, que o modernismo chegou muito tardiamente ao nosso Estado, mais precisamente na segunda metade da década de setenta (ao menos enquanto sistema literário), com a chamada geração mimeógrafo, geração 70 ou ainda geração pós-69, não importa que nome se lhe queira dar. Chegou para ficar, revisitando todos os ismos e todos os modernismos de 1922 até a contemporaneidade. Tanto isso é verdade, que já tive oportunidade de afirmar no meu opúsculo Aspectos da Literatura Parnaibana:

“É preciso que se diga e agora vou dizer, sem vaidade, mas também sem falsa modéstia: antes de Alcenor Candeira Filho, com seus dois livros (“Sombra entre Ruínas” e “Rosas e Pedras”), impressos em mimeógrafo, pioneiros, inclusive em termos de Piauí, da utilização desse equipamento na confecção de livros, que passou a designar uma geração literária, deste escriba e do poeta V. de Araújo, ambos com poemas publicados, ainda nos idos de 1977/1978, nas páginas de “Folha do Litoral”, o que se via em Parnaíba eram poemas obsoletos e formalmente ultrapassados, sobretudo sonetos de cunho parnasiano, escola já destroçada em 1922, pelo movimento dos modernistas, mas cujos influxos ainda não haviam chegado a Parnaíba, ao menos publicamente, através de livros e jornais.”

5

Na qualidade de homem e de crítico literário sempre procurou ser franco e veraz, e nunca gostou de fazer concessões espúrias e nem elogios imerecidos. Por isso mesmo não faz promessas que não queira ou possa cumprir. Tanto isso é verdade (e conto isso apenas para ilustrar o seu caráter), que o confrade Homero Castelo Branco, com seu jeito bonachão, relata, com muita verve e graça, uma anedota verídica a seu respeito. Numa disputa eleitoral da Academia Piauiense, ele pediu, por telefone, o voto do poeta Alcenor. Este, com bons modos, mas com a sua reconhecida franqueza, respondeu-lhe que já estava comprometido comigo. Homero, de plano, lhe retrucou, com seu notável senso de humor e presença de espírito: “Pois faz muito bem! Se eu também fosse acadêmico, votaria era no Elmar”. Na eleição seguinte, o Alcenor e eu tivemos a satisfação e honra de lhe sufragar o nome vitorioso.

Como servidor público foi exemplar, ao cumprir os seus deveres com competência e responsabilidade, tanto nos cargos efetivos, como nos de confiança. Procurador federal, foi agente do INSS em Parnaíba por vários anos, sem que se ouvisse o menor ruído que pudesse desabonar sua conduta; antes, pelo contrário. Foi secretário da Educação e de Gestão do município de Parnaíba por doze anos, tendo exercido esses dois cargos com probidade e correção administrativa.

Fora da literatura, consolidamos nossa amizade e admiração recíprocas, que já remontam a quatro décadas, através de uma boa conversa e de uns bons goles de cerveja, em saudáveis libações etílicas, como diria o saudoso “confrade” Pereira, ou melhor, o imortal Pacamão, do livro de Assis Brasil e de meus PoeMitos da Parnaíba. E ainda por cima, pertencemos à nação rubro-negra, tendo os amigos Gervásio Castro e Fernando di Castro, irmãos e flamenguistas, nos feito belas charges, em que envergamos a camisa e o glorioso escudo do Flamengo.

Fomos motociclistas por muitos anos, de forma que não posso esquecer os meus verdes anos parnaibanos, em que os meus vastos e bastos cabelos ondulados farfalhavam ao vento, a percorrer em minha moto uivante as ruas noturnas de Parnaíba, como um jovem lobisomem que então eu era. Ó tempos! Ó saudades imortais de um tempo extinto, mas sempre ressuscitado na cornucópia incessante da memória.

Ao fazer esta espécie de crônica memorialística e depoimento sobre Alcenor Candeira Filho, tive o desiderato de prestar uma homenagem e um reconhecimento a um notável intelectual, professor, poeta e escritor que, com honestidade, sem ciúmes e sem inveja, sempre reconheceu, louvou e exaltou os verdadeiros valores da literatura parnaibana e piauiense, tanto na tribuna de uma sala de aula e dos auditórios, como através de seus livros e escritos avulsos, publicados em periódicos e na internet.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A Beleza e seu Labirinto (*)



A Beleza e seu Labirinto (*)

Elmar Carvalho

Não quero mais a alegria postiça
das bonecas de porcelana.
Tampouco me apraz a beleza fugidia
das lourinhas de farmácia.
Fujo agora dos peitos abundantes
redundantes das bombas de silicone.
Não me comove a simpatia
das meninas amestradas.
Tampouco almejo a presença
das damas ou moças de companhia.
Persigo tuas negras pupilas escondidas
detrás de azuladas lentes de contato.
Já não admiro a beleza
morena da cosmética.
Driblo as armadilhas da sedução
programada das moças de programa.
Descreio da perfeição e juventude
fornecidas por bisturis e botox.
Descarto o sexo sem nexo
solitário das bonecas infláveis.
Me acautelo contra as roupas suntuosas
e joias cintilantes das bonequinhas de luxo.
Não me agradam as cicatrizes florais
de exageradas tatuagens panfletárias.

É que me tornei o anjo da destruição
de todas as lojas de horrores.

Mas, contraditório e viniciano, admito:
a beleza é sempre fundamental.
Ainda quando aperfeiçoando
e amplificando a beleza natural.

(*) Poema inédito, que publico agora a pedido do amigo Cunha e Silva Filho. Após vários anos sem produzir nenhum texto poético, elaborei este poema no dia 05/10/2018, no ensejo da entrevista que concederia ao programa “Justiça às suas ordens”, exibido pela TV Assembleia, no dia 16, cujo vídeo pode ser acessado pelo You Tube ou neste blog.   

domingo, 28 de outubro de 2018

Elmar Carvalho fala sobre literatura e ambientalismo


Julguei oportuno transcrever o comentário abaixo sobre o vídeo supra, da lavra do escritor e  professor universitário Cunha e Silva Filho, mestre, doutor e pós-doutor em Literatura Brasileira:

Meu estimado Elmar Carvalho, amigo de longa data, que vem daquele marco inaugural de amizade vivida a partir de 1990, em Amarante, quando o conheci moço na casa dos trinta, muito motivado a percorrer um caminho trilhado de braços dados com a Poesia, tanto a proveniente das leituras inúmeras de autores e obras que tem feito ao longo da vida quanto da que foi escrita pelo seu talento.

Essa entrevista, que ouvi com interesse, confirma a origem de sua formação intelectual, a qual combina o amor aos estudos, notadamente no campo poético, e o seu pertinaz desvelo pela Natureza, o que não é senão o cuidado com que tem sempre demonstrado não somente nos poemas tematizando o meio ambiente do interior, a flora e a fauna, o seu conhecido amor aos animais tanto quanto vemos em outros autores brasileiros que se distinguiram igualmente pelo amor a todos os seres que compõem o que nós podemos chamar de paisagem vegetal e animal(estou pensando, entre outros, no grande ficcionista Guimarães Rosa, tendo à frente aquela estória extremamente humana do "burrinho pedrês"), aí incluindo os homens de boa vontade, a beleza de tudo o que simboliza a Vida.

A entrevista, considerando essas questões, é mais um passo de um escritor que dá testemunho de sua real preocupação com o meio-ambiente tanto o construído pela poesia e ficção quanto o que provém de seu pensamento sobre questões dessa ordem.

Meus parabéns e meu abraço fraternal.

Cunha e Silva Filho    

Seleta Piauiense - Durvalino Couto Filho



O rei estava ensimesmado

Durvalino Couto Filho (1953 - )

O rei estava ensimesmado,
De sua boca nada se ouvia
– nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia se calado
e o país inteiro adormecia.

O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os boias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.

Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia.
Adeus, véus de Alexandria!

Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
“Nada mudou no Brasil.”

Fonte: A poesia Piauiense no Século XX, org. Assis Brasil   

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

FLAGRANTES DE BELÉM


FLAGRANTES DE BELÉM

Elmar Carvalho

              (Reconstituição minimal
               de um poema perdido.)

No lusco-fusco da chuva
intermitente de Belém
um guarda impaciente
envolto na capa e na solidão
aguarda um outro
guarda que não vem
para o ato de rendição.

Um impudente
fauno de pedra de pé mijava.
Uma imprudente
ninfa de cócoras
o cântaro emborcava:
água na água
chuva chovendo no molhado.   

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Cemitério campestre




Cemitério campestre, perto da cidade de Angical do Piauí. Fotos de minha autoria.

Cemitério campestre

Elmar Carvalho

Nesta segunda-feira, de manhã cedo, quando eu vinha de Teresina para Regeneração, resolvi, mais uma vez, dar uma olhada no cemitério campestre, que fica na beira da rodovia, um pouco antes da cidade de Angical. Três ou mais galpões, cobertos de telha, protegem os mortos desse bucólico cemitério.

Dá a impressão de que parentes e amigos, zelosos, cuidadosos, desejavam proteger seus mortos da chuva e do sol. No adro de um desses telheiros, o cruzeiro estendia seus braços bem abertos, como se quisesse abraçá-los. Recordei-me de que, muitos anos atrás, quando eu estava na flor de minha adolescência emotiva e sentimental, fiz esse mesmo percurso, em ônibus da empresa Jurandi, que parava em quase todas as cidades do itinerário, em companhia de meu amigo Otaviano Furtado do Vale, que morara em Regeneração.

Íamos, ali, passar um final de semana.  Fomos antecedidos por uma carta dele, comunicando nossa viagem, e naturalmente solicitando hospedagem aos anfitriões. A missiva tinha uma propaganda enganosa a meu respeito, pois dizia, para a destinatária, filha dos donos da casa, que eu era parecido com famoso galã das telenovelas de então.

De qualquer modo, cumprimos a nossa missão, pois tomamos umas boas talagadas de calibrina, dançamos no clube da cidade, onde hoje está instalada a Câmara Municipal, e terminei conseguindo uma namorada, que a névoa do tempo já esfumaça em minha memória. Nessa viagem, chamou-me a atenção um outro campo santo campesino, com túmulos em ruínas, cruzes decepadas, anjos de asas partidas...

Ao retornar, fiz um poema que falava de um agre e agressivo agreste, de um cemitério abandonado, e da paisagem dos cerrados da Chapada Grande, de beleza ímpar, mas tão diferente dos planos tabuleiros de minha terra natal, respingados de corcovas de cupins e pontilhados de carnaubeiras, sobretudo no inverno, em que a terra se estende como um tapete de gramíneas e babugens.   

23 de fevereiro de 2010   

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

DESVIRTUANDO A DEMOCRÁTICA OBRIGAÇÃO ELEITORAL



DESVIRTUANDO A DEMOCRÁTICA OBRIGAÇÃO ELEITORAL   

Antônio Francisco Sousa -  Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)
 
            Mais recorrentemente, durante o último radical, irascível e violento processo eleitoral, em que, apesar da grande votação conseguida nas urnas, os dois candidatos remanescentes na disputa pela presidência da república também foram os que obtiveram os piores índices de rejeição, pensadores, estudiosos e outros iniciados passaram a emitir opiniões, dar seus pontos de vista a respeito do que consideram ou definem como obrigação eleitoral. Para eles, mais que o dever de nos apresentarmos à Justiça eleitoral nas datas estabelecidas para as eleições, nós que vivemos em um país em que normas legais nos coagem, compulsoriamente, a fazer isso, escolher alguém que se coloca à disposição dos eleitores para representá-los nos governos e parlamentos, por pior que seja a figura ou por pior que ela possa ser, constitui-se no cumprimento final e integral daquela obrigação. Para ditos iluminados, anular o voto ou votar em branco seria crime de lesa-pátria. Ou seja, na visão daquela turma, não serve de justificativa aventar a possibilidade de que os postulantes possam parecer desinteressantes ou indignos de receber nosso voto consciente; se eles estão lá, isso basta: só por esse motivo já merecem recebê-lo.  

            A propósito, duvidaria que muitos dos pleiteantes a uma cadeira no parlamento ou no governo, notadamente, os menos preparados, os mais antipáticos, preguiçosos e incompetentes, antes de decidirem postular um cargo eletivo, hajam feito uma espécie de consulta, ao menos entre amigos e familiares, a fim de saberem se poderiam aventurar-se em uma batalha insana e cruel como é o processo eleitoral. Nem sempre é por ideologia que alguns se lançam, mas por vaidade, pretensão tola e descabida, senão, sub-reptícias e escusas intenções; uma vez que, para não poucos, nem no mais remoto de seus sonhos, esperariam chegar lá pelos próprios meios, ou seja, por conta dos votos obtidos.

            É fato que somente nas democracias votar é um direito; todavia, parece mais exigência ditatorial do que democrática, uma espécie de obrigação eleitoral que, não bastasse ser, compulsoriamente, estabelecida pela constituição e por um conjunto de normas específicas, pretendesse induzir o cidadão a, mais que comparecer às urnas, votar, ainda que contra sua vontade, em pessoas das quais discorde ideológica, moral ou eticamente, apenas porque se lançarem na disputa.

Conceitualmente, entendo que há divergências entre o direito ao voto nas democracias tradicionais e no Brasil. Que direito é esse que não usufruído converte-se em obrigação? Mesmo sendo um dever, como, de fato, o é, seu cumprimento se consuma quando, nas datas próprias, vai-se a um posto ou local de votação e ali age conforme determina sua consciência. Votar em branco ou anular o voto, não seria descumprimento do dever, mas, sim, manifestação do direito de questionar ou de não contribuir com a eleição de quem não tenha condição nem capacidade para representá-lo dignamente.

            Independentemente do que possam pensar iluminados que, entendo, tentam desvirtuar o sentido democrático da obrigação eleitoral, considero cumprida a minha quando, após comparecer aos locais de votação, diante dos nomes disponibilizados como postulantes, em não encontrando nenhum que me interesse, anulo meu voto ou voto em branco.  

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lançamento de livros na APL

Fonte: Google


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para a solenidade de lançamento das obras da Coleção Centenário: Ermelinda,  de Lili Castelo Branco, nº 80;  e Teoria e Realidade da Desobediência Civil, de Nelson Nery Costa, nº 100, bem como Novas Páginas Parnaibanas, de Alcenor Candeira Filho, e, O Cantinho do Poeta, de Jonas Piauí.

                                   
Nelson Nery Costa
Presidente      

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

PARABÉNS PIAUÍ!

Fonte: Google

PARABÉNS PIAUÍ!

Carlos Henriques Araújo
Escritor e poeta

Não somos melhores nem piores do que ninguém. Somos nós, simplesmente, à nossa maneira, com nossas limitações, nossas riquezas, nosso potencial e, principalmente com nossa força de vontade.

Os piauienses resistem a todas as dificuldades que lhes são peculiares, e a outras, que lhes foram impostas no decorrer de várias décadas por razões as mais diversas: históricas, políticas, geográficas, sociais e econômicas.

O Piauí existe sim, apesar da crítica destrutiva, da ignorância de uns e da gozação de outros, com o seu nome e com o seu povo. E resiste a todas as dificuldades que lhes são peculiares, e a outras, que lhes foram impostas no decorrer de várias décadas por políticos inescrupulosos, desonestos e incompetentes.

O Piauí não é mais lembrado como o lugar onde o vento faz a curva ou onde Judas perdeu as botas. O Piauí é um estado rico em potencialidades e em oportunidades.

É o estado que tem a menor faixa litorânea, mas, assim como nos pequenos frascos é que estão os melhores perfumes, no seu litoral estão as praias mais bonitas do Brasil, de águas claras e morna, de areias brancas, sem poluição e recheados de belezas naturais, com ventos adequados para prática de esportes náuticos e geração de energia eólica.

Nele desemboca o rio Parnaíba, o maior delta em mar aberto das Américas e o segundo maior do mundo com 85 ilhas de praias paradisíacas.

No Piauí, o sol do equador brilha mais forte e seu calor proporciona um clima tropical saudável, propenso ao cultivo de frutas tropicais para exportação, e à produção de mel de abelha, com floradas o ano inteiro.

Seu solo é ótimo para o plantio de mamona matéria prima utilizada na produção do biodiesel. Foi o primeiro estado do Brasil a desenvolver esta tecnologia. Seu subsolo foi aquinhoado com os lençóis freático maiores do país, quiçá do mundo.

O Piauí tem o maior rio genuinamente nordestino, inúmeras barragens, lagoas propícias para projetos agrícolas de irrigação, piscicultura, carcinocultura e lazer.

É recordista na produção de grãos e o maior produtor de cera de carnaúba do mundo. É o segundo maior produtor nacional de mel de abelha e tem um dos maiores e melhores rebanhos de caprinos do Brasil.

Na medicina, é uma referência para o Norte e Nordeste. Na cultura, é o berço do homem americano, tem a melhor escola do ensino médio do país e um polo de ensino superior com uma excelente estrutura. Recebe estudantes de todo o Norte e Nordeste que sobressaem nos concursos públicos pelo Brasil afora.

A geografia do estado é privilegiada, tem de tudo: rios, cerrados, agreste, serra, praia, cachoeiras, lagoas mangue, banhado, reservas arqueológicas e formações rochosas.
Na região norte, repousa tranquila e acariciada pelas águas do rio Igaraçú, a cidade de Parnaíba, com um potencial turístico e de geração de energia eólica nos seus 24 km de litoral e principal braço do delta.

A cidade já teve seus tempos áureos, foi a fortaleza da economia piauiense. Hoje, seus monumentos históricos são testemunhos daquela época. Seu conjunto arquitetônico é um espaço cultural de inestimável valor.

Na região do agreste encontramos gente humilde e simples, mas hospitaleira. Na região serrana, o frio acolhedor se mistura com as riquezas das minas de opalas e a habilidade dos artesãos. O Parque Nacional da Sete Cidade é um mergulho no imaginário, com suas formações rochosas de formas espetaculares e inscrições rupestres que nos levam a viajar na história da humanidade.

Na região sul, os aficionados, pesquisadores e paleontólogos poderão se aprofundar nesse mergulho cultural visitando o Museu do Homem Americano, na serra da Capivara, em São Raimundo Nonato.
Na região do Gurguéia, o azul do céu parece tocar o verde das plantações de soja, que enchem os bolsos dos agricultores e fazem a alegria dos trabalhadores com a produção e exportação de grãos e óleo de soja, tornando-se o mais importante polo industrial do estado.

E Teresina, sua capital, é a Mesopotanea do Brasil. Situada entre dois rios: o Parnaíba, que nasce na Serra das Mangabeiras, na fronteira com o Estado de Tocantins, é o segundo maior rio do Nordeste, depois do São Francisco: e o Poti, nascendo na Serra da Joaninha, no Ceará, formado por um pequeno filete d’água que vai tomando corpo, atravessando chapadas e cânions, até se encontrar com o Parnaíba no bairro Poti Velho, no fenomenal Encontro das Águas.

Teresina nasceu urbanisticamente moderna. Foi uma das primeiras cidades do Brasil em que o projeto chegou antes da ocupação do espaço urbano.  A Chapada do Corisco, como ficou conhecida.
Teresina hoje não é lembrada apenas pelo seu calor, mas como um polo turístico de eventos, uma referência em saúde e educação e atende pessoas vindas de cidades dos estados do Tocantins, Pará, Maranhão e Ceará.

O Piauí é uma terra de artistas: músicos, intelectuais, artesãos, humoristas, escritores, poetas, jornalistas e pintores de renome nacional como Carlos Castelo Branco, mestre Dezinho, Evandro de Lins e Silva, Da Costa e Silva, H. Dobal, Mario Faustino, Torquato Neto, João Cláudio Moreno, Clodô, Climério, Luís Paiva, Lina do Carmo e muitos outros.

Por isso é que se diz: “É feliz quem mora aqui”.     

domingo, 21 de outubro de 2018

PAULICEIA

Fonte: Google


PAULICEIA

Elmar Carvalho

Do apartamento
assistia sitiado
a antipanaceia destrambelhada
da Pauliceia Desvairada
escaramuçando e rugindo
lá em cima
                 lá em baixo
para todos os lados,
pela boca fumarenta fedorenta
das chaminés e dos canos de descarga,
pela boca nojenta gosmenta dos esgotos
que escarram e vomitam no Tietê,
pela boca de morte
das sereias angustiadas que gritavam,
pela boca fedida
da namorada que brigava,
pela boca ferida
do namorado que revidava,
pelos braços apressados
que bracejavam elétricos,
pelos passos ansiosos
que esperneavam frenéticos
no dinamismo maluco
da vida fremente premente
que me assustava e angustiava
fechado e fugitivo
no apartormento.    

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Poema em homenagem a Rubervam Du Nascimento (*)

Fonte: Alpharrabio/Google


0709.01

Walter Lima
  
Funcionário público inativo
Protesta no papel escritos
Em linguagem poética

“se sente entende”
Diz seu bordão típico
Abusado do ofício primeiro

Saiu literalmente pela tangente do muro
Pronunciando dia a dia
Antiga herdade das letras
Vindas incrustradas no sangue e suor

Segue seu caminhar
Mesmo que tenha de cavalgar
Cavalos, pular obstáculos do Nada
Compartilhar Peixes com Marco
Para angariar óbolo de Espólio.

W.Lima._
RP, SP, 07.09.2013.  

(*) Rubervam Du Nascimento é auditor fiscal do trabalho inativo e, agora, é poetativo e proativo  em tempo mais que perfeito e integral. Do seu espólio poético fazem parte Espólio; desceu ao reino de Plutão com Marco Lusbel Desce Ao Inferno; poeta amador e profissional de A Profissão Dos Peixes e cavaleiro andante e do Apocalipse em Os Cavalos De Dom Ruffato. (Nota de Elmar Carvalho). 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

DOM CLIDENOR E DOM QUIXOTE DE LA MANCHA

Fonte: Google
Estátua de Dom Quixote, erguida à frente do prédio do antigo sanatório Meduna. Foto tirada por Elmar.


DOM CLIDENOR E DOM QUIXOTE DE LA MANCHA

Elmar Carvalho

            Na reunião da APL, deste sábado, o acadêmico Humberto Guimarães, que é médico psiquiatra, ao usar da palavra, informou que em breves dias o sanatório Meduna será desativado. Lamentou profundamente o fato. A memória de seu criador, o médico e acadêmico, já falecido, Clidenor Freitas Santos, foi festejada vivamente na sessão. Consta que quando ele retornou, formado, a Teresina, libertou os loucos das correntes e de outros tratamentos desumanos. As correntes estariam enferrujando no fundo do Parnaíba.

            O nome Meduna foi dado em homenagem a um grande psiquiatra francês. O sanatório é uma bela construção, com seus pavilhões brancos, seus alpendres, seus corredores. Fica no centro de um aprazível bosque. Até parece uma aldeia, onde ainda alvejam a casa senhoril e a capelinha branca, sobre suave colina, que compõem o aspecto bucólico do conjunto. Foi uma obra audaciosa para a época, e mesmo nos dias de hoje ainda seria.

            Clidenor, quando o conheci, era um velho de boa estatura, ereto, empinado, elegante, inclusive no modo como se vestia. Usava uma velha Mercedes, em perfeito estado, tão elegante quanto ele. Admirava música erudita, sobretudo Mozart, Bach e Beethoven. Fez seus filhos ouvirem esses grandes compositores, para lhes incutir, desde cedo, o gosto por essa divina arte.

            Tornou-se empresário do ramo da agroindústria, especialmente de álcool combustível. Admirador entusiástico de Cervantes, mormente de sua criatura, o fidalgo, cavaleiro e idealista Dom Quixote de la Mancha. Possuía vários exemplares do livro que narrava suas aventuras, e presenteava amigos com exemplares dessa obra por ele considerada genial. Diria que o Dr. Clidenor era também uma espécie de Quixote, tanto na política como nos seus empreendimentos empresariais, pelo seu idealismo e certo romantismo de sua postura.

            Segundo dizem aqueles que a conheceram, a sua biblioteca seria, talvez, a maior biblioteca particular do Piauí, não só em quantidade de livros, mas também pela excelência e raridade de muitas obras. Era uma figura carismática, a pregar o belo e o bem, com entusiasmo e convicção.

            Ele, que foi quixotesco no bom sentido da palavra, ergueu uma belíssima estátua do “cavaleiro da triste figura” nos portais de sua realização máxima, o sanatório Meduna, que, agora, lamentavelmente será desativado. Mas Dom Quixote, a cavalgar o Rocinante, com a sua lança e o seu escudo, talvez consiga defender essa obra meritória, que relevantes serviços prestou ao estado.    


22 de fevereiro de 2010  

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

1610.1

Fonte: Google


1610.1

Walter Lima

Corria o mês de dezembro, dia 1º
Da era mil novecentos 80 e quatro.

D. Antônia Flor, 80
Anos vividos na terra
De – fendida e fedida
De autoritarismo.

Num instante matinal
  Uns homens desalmados
“Paus-mandados”  do Latifundiário
- Na Gameleira devolvem a tiros
A Flor à flor da terra. Des-Ordem!

(ano 2005: 28 famílias assentadas – Acampamento D. Antônia Flor)
Flor!
  
w.lima_.
RPSP, 16.10.2018.   

Cabra-cega

Fonte: site da APAL


Cabra-cega

Pádua Marques
Jornalista e escritor

Tinha uma brincadeira no meu tempo de menino que ainda me lembro como se fosse hoje, a cabra-cega. Nunca esteve tão próxima e servindo de exemplo pra o que está acontecendo na política. Quem está acima dos 60 anos há de se lembrar que naquele tempo não existia televisão na Parnaíba e à noite as crianças ficavam brincando umas com as outras na porta da rua.

Cabra-cega era brincadeira de meninos e meninas. Começava com uns poucos, mas depois ninguém dava conta. Uma das meninas corria lá dentro de casa procurando um pedaço de pano, uma fralda, um pedaço de saia que fosse e na volta era escolhido aquele que daria a saída. O chefe da brincadeira dava umas rodadas pra ele ficar zonzo, tonto de onde estava. Fosse menino ou menina. Não tinha esse negócio não.

Cabra-cega. Não sei até hoje quem inventou, mas era brincadeira boa dos tempos dos meninos e meninas de meu tempo. Quem brincou nunca há de esquecer. E vinham mais depois outros e mais outros meninos das outras ruas. Vinham atraídos pelos gritos e risadas. Vinham suados, de calção e sem camisas, brigões, meninos feios, fogoiós e até os com cara de china. Vinham das redondezas, de outras brincadeiras de cowboys, de manchas, de pegar no rabo da raposa, do jogo de bola de meia.

E a gente ficava até a hora de se recolher pra dentro de casa nessas brincadeiras de pegar e soltar uns aos outros. Não havia saliência. Os meninos e meninas menores sempre eram os mais fáceis de serem capturados. Caiam na vez de sofrerem por um bom tempo até que passavam pra outros. Na escola era a mesma coisa. Brincadeiras de mancha. Esta agora sem os olhos cobertos por um pano. Valia a resistência.

Era brincadeira de astúcia. Consistia em descobrir e pegar o colega escondido.  Sendo apanhado, era a hora de começar tudo, fazer tudo, usar de todas as formas pra sair do castigo. Outras brincadeiras do meu tempo de criança tinham as mesmas ou quase o mesmo jeito. Eram pra fazer a gente se sair, tentar passar essa dificuldade pro outro. Como é na política.

E a gente no final da noite antes de pegar o rumo de casa, havia mostrado o quanto era esperto e rápido em se livrar de armadilhas. Porque todas aquelas brincadeiras, fosse no meio da rua ou na escola à hora do recreio, tinham essa coisa de nos testar. Essa mesma agilidade que deve ser testada agora nessas eleições pra presidente. Estamos no meio de uma grande brincadeira de cabra-cega.

Só que desta vez são dois homens com panos nos olhos tentando nos pegar. Jair Bolsonaro e Fernando Haddad são as duas cabras-cegas.  E os meninos e meninas se pondo a correr e se esconder pelos cantos e em cima dos muros e das cercas, por detrás dos carros estacionados na rua, na casa dos vizinhos e atrás uns dos outros. Ou somos nós as cabras-cegas?