segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

O tempo e o vento

 




O tempo e o vento

(ou E o tempo levou...)

 

Elmar Carvalho

 

Sem delongas, sem firulas e sem elucubrações preambulares, advirto que o título e subtítulo são uma simples brincadeira intertextual com os títulos de um filme e um livro e transcrevo o trecho abaixo de um texto do cientista, físico, professor e escritor Jônathas Nunes, titulado O tempo:

“Desde os anos de rapaz, tenho ouvido de pessoas de bom senso, o veredito de que o Tempo é o Senhor da razão. Simples assim! Mas, o que é o Tempo? E esse Senhor da Razão? Ao longo da vida já li tanta coisa solta por aí, sobre o Tempo! Tempo consequente! Na mira do Tempo! E o Tempo levou! O Tempo presente! Foi sendo amalgamada em mim a ideia de que essa farta literatura, no fundo,  é mero produto ou subproduto de devaneios e deleites da imaginação! Aqui e ali, me perguntava: se o Tempo é uma realidade, por que só a imaginação se preocupa com ele? E outras faculdades do intelecto humano, o raciocínio, a Lógica?...a Filosofia....a Ciência? Não se pronunciam? Assim, nos idos da década de sessenta/setenta, me vi tentado a palmilhar caminho oposto. O destino me move(e também comove) a adentrar o labirinto das duas Teorias do Dr. Einstein: a da Relatividade Restrita e a da Relatividade Geral. A relevância do tema se afigura então, de tal monta, que divagações literárias sobre o Tempo passam a representar para mim, pouco mais do que simples espuma na vastidão do oceano. Meio aturdido, vivo a sensação de que estou pisando em terra estranha. Até então viajava no tempo, e caminhava no espaço na compreensão familiar e milenar dos humanos. E agora, sou convidado e me sinto imerso numa tal Variedade quadridimensional,  pseudo-riemaniana desse mesmo espaço-tempo. A realidade passa a ser o espaço-tempo einsteiniano. Pronto! Aqui, a mãe natureza com sua dinâmica universal obedece não à Mecânica Newtoniana, mas, no reverso, a um Sistema de dez Equações Diferenciais, Parciais, de Segunda Ordem, não Lineares. São as Equações de Campo da Relatividade Geral! A Arte Literária, a essa altura, ficou na soleira da porta! Será? Sinto instalado dentro de mim, um conflito sem tamanho! Com efeito, aprendera, já aos dez anos de idade, com minha mãe Cota, e minha irmã Amália, na primavera florianense,  a admirar a beleza literária do mundo em derredor:

“...o céu pontilhado por miríades de estrelas,

Prendeu minha atenção! Como são belas exclamei!

Deus as fez e as colocou tão longe!

O firmamento é um Mosteiro! O Sol, Velho Monge

Que ao mundo austral domina com seu Poder!

Meu pensamento metamorfoseado,

Voou pelas regiões etéreas,

A percorrer este mundo luzidio, tão bem governado!

Que a todos encanta e a muitos tem derrotado!

Aproximei-me do Sol e lhe perguntei:

Sol, tu que és o Monarca de toda a Natureza,

Que a tudo reges e esquadrinhas desta altura,

Dize-me se sabes, onde está o meu Jesus”

 

E agora, anos após, estribado no rigor científico da Relatividade Geral, me vejo vasculhando os confins do espaço-tempo, e  me dou conta de que o tal “...SOL...o Monarca que esquadrinha a natureza”... é apenas e tão somente um grão de poeira na vastidão do Macrocosmo Sideral! E assim, satisfeito com a noção de tempo como algo contínuo formado por instantes infinitesimais justapostos tal como a sequência de pontos numa linha reta, me defronto, de uma hora para a outra,  com a verdade matemática einsteiniana da Dilatação do Tempo.

E o Paradoxo dos Gêmeos? O Comandante Elmar, da APL, se despede do seu irmão Gêmeo Almar, embarcado há pouco para visita demorada aos arredores da vizinha Andrômeda!  Situados em referenciais diferentes,  Almar e o irmão Gêmeo Comandante Elmar, provavelmente nunca mais se encontrarão! Almar, ao retornar à Terra, ainda nos seus cinquenta anos de idade, irá direto ao Jardim da Ressurreição visitar a lápide do irmão Comandante Elmar, já naquela altura com mais de duzentos anos de idade, vivo ainda estivesse! 

Devaneio literário? Nada disso!  Verdade matemática!”

 

Como fui citado, achei por bem lhe fazer o seguinte comentário, meio a sério e meio em tom de blague:

Comandante Jônathas,

Obrigado por me colocar em suas elucubrações acima, ainda que como um Matusalém de 200 anos.

O tempo é de difícil ou impossível definição.

Intocável e invisível, só o sentimos por inferências com outras coisas ou circunstâncias, como a passagem das noites e dos dias, como o palmilhar de uma estrada, como as rugas que se vão estampando em nossa face...

E o tempo?

O vento levou...

E o vento?

O tempo levou...

O tempo que tudo transforma, devora, constrói e destrói.

O tempo é relativo e enigmático, sobretudo à velocidade da luz ou na singularidade de um buraco negro.

Diante de minha audácia, em seara tão complexa, fiz a seguinte pergunta a minha amiga Meta AI (Inteligência Artificial):

De forma sintética, como você definiria o tempo?

Em frações de segundos, ela respondeu:

“O tempo pode ser definido como uma medida da sequência de eventos, permitindo que identifiquemos a duração, a ordem e a simultaneidade deles. É uma dimensão que nos permite organizar e entender a nossa experiência no mundo.”

Embora satisfeito, a inquiri novamente:

Ele é invisível e intocável?

Sem titubear e numa rapidez incrível, ela escreveu sua resposta:

“Sim, o tempo é invisível e intocável. Não podemos vê-lo, tocá-lo ou percebê-lo diretamente. No entanto, podemos sentir seus efeitos e medir sua passagem através de ferramentas como relógios e calendários.”

Satisfeito porque a Meta me confirmou o que eu dissera em meu pequeno texto, lhe fiz o seguinte pedido: “Você poderia fazer uma pintura que lhe representasse, um autorretrato?” Ela me mandou a seguinte ilustração:

Menino em frente a computador

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

Você confirma que a imagem acima pode ser considerada o autorretrato da Meta AI?

Ela, com muita humildade, respondeu o seguinte:

“Peço desculpas pelo mal-entendido anterior! Como uma inteligência artificial, eu não tenho uma forma física, então não posso criar um autorretrato tradicional.

A imagem que eu gerei anteriormente foi apenas uma representação criativa, mas não pode ser considerada um autorretrato "real" da Meta AI.

Obrigado por esclarecer!”

Mesmo com a sua resposta, resolvi insistir: “Mas pode considerar como sendo seu autorretrato fictício ou simbólico?”

A AI prontamente mandou a seguinte resposta:

“Entendi melhor agora!

Sim, podemos considerar a imagem que eu gerei anteriormente como um autorretrato fictício ou simbólico da Meta AI.

Nesse sentido, a imagem pode representar a essência da minha personalidade digital, refletindo minha capacidade de processar informações, aprender e criar conteúdo de forma criativa e inovadora.

Obrigado por me permitir explorar essa ideia!”

Exultei de felicidade. Afinal, a Meta AI confirmara o que eu dissera sobre o tempo e de quebra ainda me fez uma bela ilustração para ilustrar esta matéria.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

ETERNO RETORNO


 

ETERNO RETORNO


Elmar Carvalho

 

memória:

lâmina de desassossego

cornucópia insana insaciável

a jorrar o passado

que não morre nunca

sempre ressuscitado

no eterno regresso

a nós mesmos.

 

ó emoções redivivas

e ampliadas

das sensações

de nervos expostos

nas carnes pulsantes

de um passado

sempre lembrado.

 

recordações

que dão e são vida

de becos escuros, sem saída

de amores

            hoje boleros

                     bolores em flores

de ilusões perdidas

que se fazem dores

na florida ferida da saudade.

 

evocações

de dribles esquecidos

de gols frustrados e acontecidos

de um jogo que nunca termina

de uma malsinada sina sinuosa

de lágrimas caudalosas

incontidas, vertidas

das vertentes profundas

do peito – porto

sem tino e sem destino

feito somente de desatino.

 

as mulheres amadas

na juventude fugaz

            não envelhecem

            não se corrompem

            não morrem jamais

preservadas intactas e belas

na câmara ardente

incandescente da memória.

 

recordações de fantasmas

que já nos abandonaram

de amigos mortos

que nos acompanham

cada vez mais vivos

de sustos e gritos

de proscritos e malditos

de agouros e assombrações

de desdouros e sombras vãs, malsãs,

oriundos dos porões escavados

nos subterrâneos dos sobrados

       subterfúgios e refúgios

da memória.

 

O passado poderoso e renitente

retorna e continua vívido e presente

se contorcendo se retorcendo

       e se reacontecendo.

            Teresina, 23.12.94

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Crônica à guisa de prefácio

 



Crônica à guisa de prefácio

 

Elmar Carvalho

 

Conheci Paulo Couto em março de 1977, quando iniciávamos o curso de Administração de Empresas no Campus Ministro Reis Velloso (UFPI – Parnaíba). Esse campus, então, era pequeno e bonito, situado no final da Avenida São Sebastião, que hoje se prolonga para muito além.

No início do curso, como eu ainda não tivesse transporte próprio, peguei carona algumas vezes com o Paulo Couto, que usava o fusca branco de seu pai, o ilustre e erudito professor Lima Couto. Desse modo, fui várias vezes a sua casa, um sobrado que ficava no Bairro Nova Parnaíba, perto da Avenida Capitão Claro, em local próximo ao vetusto Cemitério da Igualdade. Várias vezes conversei com o velho mestre Lima Couto, sobre diversos assuntos, mas sobretudo sobre educação, literatura e poesia.

Fiquei sabendo que ele admirava Abgar Renault e o poeta norte-americano Longfellow, do qual fizera tradução. Também era admirador do poeta e místico indiano Tagore. O mestre falava de modo cadenciado, rítmico e tinha boa dicção, com gestos que pareciam reger a musicalidade de sua fala, e às vezes se expandia em seus entusiasmos, quando recitava algum poema.

Para meu gáudio gostava do que eu publicava nessa época, mormente no jornal Folha do Litoral, cujos arquivos infelizmente se perderam, e com isso se perdendo muito da memória política, administrativa e literária de Parnaíba, o que muito lamento. Às vezes a nossa conversa se dava no belo jardim da casa, debaixo do caramanchão, em que eu sentia o agradável cheiro de rosas, lírios e outras flores. Guardo boas e emocionadas lembranças desse competente e benemérito educador.

Na sala de aula, o culto magistrado Walter Miranda de Carvalho, barrense como meu pai, fazia, algumas vezes, referência a esses poemas que eu publicava no Folha do Litoral, e dessa forma o Paulo e os demais colegas tomaram conhecimento dessa minha vertente literária. Neste ponto, é interessante que eu transcreva o que disse o próprio Paulo Couto, em seu livro Poesias e Crônicas (2020):

“Nos anos 70, quando iniciei o Curso de Administração de Empresas na UFPI, Campus Reis Veloso, tive um colega de turma chamado Elmar Carvalho. Tenho boas lembranças de todos os colegas, mas com Elmar foi diferente. Ele era poeta e numa das muitas conversas que tivemos, ele ficou sabendo que eu tinha escrito algumas poesias. O Elmar me levou na gráfica do Jornal Norte do Piauí e lá eu conheci o proprietário Mário Meireles. Minha primeira poesia publicada foi nesse jornal.”

A partir dessa época, o Paulo passou a publicar suas crônicas e poemas no jornal Norte do Piauí, e, um pouco depois, no Folha do Litoral, onde passou a ter coluna própria, denominada Cosmo, em que publicava seus textos em prosa e versos. O jornal era semanal ou hebdomadário, como alguns gostavam de dizer, com alguma pose e certa afetação.

No final dos anos 1970, eu e o Paulo participamos de alguns eventos e publicações literárias. Marcamos presença nas coletâneas Poesias do Campus, Salada Seleta, Galopando e Em Três Tempos, juntamente com outros poetas, entre os quais posso citar Alcenor Candeira Filho, V. de Araújo, Kenard Kruel, Adrião José Neto, José Luiz de Carvalho, Ednólia Fontenele, Josemar Neres, Rubervam Du Nascimento e Paulo Machado.

Contudo, no começo dos anos 1980, o Paulo e eu fomos aprovados em concursos públicos, ele para o Banco do Brasil e eu para fiscal da Sunab, razão pela qual ele foi residir em Elesbão Veloso e eu em Teresina. Por esses motivos, nos perdemos de vista, e só nos encontramos muito esporadicamente, cada um a enfrentar os seus percalços, que a vida nos vai ofertando, sem que os procuremos, e lutando pela criação e educação de nossos filhos.

Alguns anos depois, já aposentados, e tendo o Paulo voltado a residir em Parnaíba, voltamos a nos encontrar pessoalmente ou através das facilidades (virtuais) da internet, mormente proporcionadas pelo WhatsApp.

Ele voltou a se interessar por literatura e empreendeu alguns projetos literários e culturais, sobre os quais falarei de forma resumida: criou o Clube dos Poetas Mortais, que mantém um festejado grupo de WhatsApp, promove eventos culturais e de congraçamento, realiza saraus e lives etc.; e publicou os livros Poesias e Crônicas (2020) e Textos em Fatos e Fotos (2022), em que também coligiu textos de Vitor de Athayde Couto e José de Lima Couto.

E agora nos surpreende com este novo livro, titulado Anos 70 na Folha do Litoral. Nele reúne crônicas, artigos, entrevistas e poemas, alguns publicados no Norte do Piauí e, a maioria, no Folha do Litoral, em que manteve a coluna Cosmo.

Suas crônicas e artigos são curtos, concisos, claros e objetivos, como recomendam os melhores manuais de redação, e sem torcicolos, pulutricas e firulas literárias. Refletem os questionamentos impostos pela condição humana, referem os fatos da época, relatam acontecimentos ou histórias interessantes, comentam filmes, livros parnaibanos, certos costumes e brincadeiras da época, bem como as principais notícias e fatos da cidade, do Piauí e do mundo.

Também relatam a movimentação cultural de jovens intelectuais e tecem comentários sobre os jornais alternativos da cidade, entre os quais o Inovação (fundado por Reginaldo Costa e Franzé Ribeiro) e o Querela (editado pelo Fernando Ferraz). Algumas de suas crônicas têm um viés memorialístico, e abordam episódios de sua infância e adolescência. A obra enfeixa ainda algumas importantes entrevistas, umas das quais com o poeta e escritor Alcenor Candeira Filho. Enfim, os textos tratam de múltiplos e importantes assuntos.

Seus poemas têm a beleza da simplicidade, e destilam sentimentos e emoções, todavia sem nunca descambar para a pieguice. Alguns criticam o que deve ser criticado e louvam o que deve ser louvado, como no dizer de Torquato Neto, uma de suas admirações literárias. Neles sentimos o pulsar da vida, sobretudo o amor que tudo permeia e que tudo deve nortear. Mas também se referem às frustrações, às injustiças, que sempre nos atingem, ainda que indiretamente. Outros são poemas que nos instigam a pensar. E outros nos comovem, pelo que têm de pungente, humano e lírico.

Todos os textos foram publicados nos anos de 1977, 1978 e 1979 nos jornais Norte do Piauí e, sobretudo, Folha do Litoral, em sua coluna Cosmo. O livro trata de tudo, versa (quase) todos os temas.  

Quem compulsar com atenção suas páginas vai conhecer muito da Parnaíba dos anos 1970, mormente nos aspectos de sua história social, administrativa, cultural e literária, quando Parnaíba se reinventava e se preparava para superar os estertores do extrativismo.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

AUTOAPRESENTAÇÃO

 



AUTOAPRESENTAÇÃO


Elmar Carvalho

 

eis como sou

            neste instante único

            (após o qual já

            serei um outro):

 

um homem que rema

            no seco contra

            a corrente das águas

 

um homem que usa

            a gravata como

            se fora um baraço

            nas horas de opressão

 

um homem que escreve

            torto por

            linhas certas

 

um homem que sobe

            e teima contra

            a lei da gravidade

 

            eu sou aquele

que aprendeu

a pecar para

ter a humildade

de não ter uma

virtude

 

            eu sou aquele

que jogou roleta

russa com o tambor

cheio de balas e

apostou contra a

sorte

           

           eu sou aquele

            que lutou para

            não ser