domingo, 9 de março de 2025

EGOCENTRISMO

Fonte: Google
 

EGOCENTRISMO


Elmar Carvalho

 

     espirrei

na réstia de luz

da janela do meu quarto

e fiz surgir um

                  arco-íris

                  arco-do-triunfo

sob o qual

napoleonicamente passei

sobre o qual caminhei

em busca do

                        velocino de ouro

coroado com o l’ouro

de minha própria

      alquimia

sábado, 8 de março de 2025

Duas experiências com a Meta AI

Ilustração enviada pela Meta AI, a meu pedido
AI vista por Gervásio Castro

 

Fonte: Google




Duas experiências com a Meta AI

 

Elmar Carvalho

 

A Meta AI também <<escorrega na maionese".

Perguntei-lhe, ontem (07/03/2025): "Houve reviravolta no caso da morte de Gene Hackman"?

Ela respondeu: "Desculpe, mas não consegui encontrar informações sobre uma reviravolta no caso da morte de Gene Hackman. Até onde sei, Gene Hackman está vivo e com 93 anos. Se você está procurando informações sobre um caso específico, talvez possa encontrar mais detalhes em um mecanismo de busca na internet."

Retruquei lhe: "Você está enganada. Ele morreu, assim como a sua mulher."

Vejam a resposta da AI:

"Peço desculpas pelo erro! Eu não tinha informações atualizadas sobre o status de Gene Hackman. Muito obrigado por me informar que ele faleceu, assim como sua esposa. Vou me certificar de atualizar minhas informações para evitar erros semelhantes no futuro."

Não insisti. Deixo que cada chegue à sua própria conclusão.

Contudo, hoje gostei de sua atuação. Perguntei-lhe: Que interpretação os estudiosos têm dado para a passagem do Evangelho de João, que diz: "Chegou a hora de julgar o mundo; agora, o governante deste mundo será expulso"?

Ela respondeu:

"A passagem do Evangelho de João (João 12:31) é frequentemente interpretada pelos estudiosos como uma referência à vitória de Jesus Cristo sobre Satanás e às consequências dessa vitória.

 

Nesse contexto, "o governante deste mundo" se refere a Satanás, que é considerado o príncipe deste mundo (João 14:30; 16:11). A expulsão desse governante indica que Jesus está prestes a derrotar o poder das trevas e do pecado.

 

A expressão "chegou a hora de julgar o mundo" não se refere a um julgamento destrutivo, mas sim a um julgamento que separa a luz das trevas, o bem do mal. Jesus é a luz do mundo (João 8:12; 9:5), e sua presença julga o mundo, revelando a verdadeira natureza das pessoas e de suas ações.

 

Essa passagem é frequentemente vista como uma declaração da vitória de Jesus sobre o pecado e a morte, e como um anúncio da salvação que ele traz para a humanidade."

Desta feita, fiquei satisfeito com a sua resposta e inteligência. Na primeira resposta, a Meta AI pisou na bola, mas na segunda, foi bola cheia e fez um gol de placa.     

sexta-feira, 7 de março de 2025

A TOGA E A BOLA

 

Elmar Carvalho fotografado por Elmara Cristina

Autor: Amaral. Acervo de Cineas Santos


A TOGA E A BOLA


Elmar Carvalho

 

No sábado, à tarde, estive na churrascaria que leva o nome do falecido Chico Nunes, que tive a oportunidade de conhecer muitos anos atrás. Trata-se de uma das primeiras a comercializar capote na região de Campo Maior, e é a mais famosa nessa especialidade gastronômica. Fica em aprazível localidade, perto do povoado Alto do Meio, às margens da rodovia que vai para Castelo.

 

Com o falecimento do Chico, sua mulher e filhos continuaram a tocar o negócio. Como as cozinheiras são as mesmas, a qualidade permanece inalterável. Quando o filho do Chico, de nome Valdemar, que havia sido aluno do Zé Francisco Marques, veio conversar conosco, começamos a falar sobre futebol, mormente sobre os velhos atletas campomaiorenses, em virtude de que o Zé Francisco havia dito que o rapaz fora um grande jogador, tanto em quadra como no futebol convencional.

 

Lembramos, entre outros, os nomes de Escurinho, Cabo Dulce, Vicentinho, Chico Galo, Chico Catita, Deca, Zé Duarte, Geraldinho, Mormaço, Cabo Valter, João de Deus, Zé Moura, Edmar Pinto e Augusto César. Falamos sobre os goleiros Coló, Beroso, Icade e José Olímpio Filho, este um dos melhores em futebol de salão.

 

Nesse ponto, o Zé Francisco fez questão de dizer que eu havia sido um bom goleiro, e que o Bartolomeu, seu primo, só iniciava os jogos de que seu time participava quando eu chegava para defender sua meta. Como eu perguntasse se ele não estava exagerando, passou-me um pito, e pediu-me que não mais duvidasse de sua palavra, pois não tinha necessidade de me incensar.

 

O Valdemar Nunes, depois de saber que eu era juiz de Direito, espontaneamente, talvez por associação de ideias, deu o seguinte depoimento sobre o desembargador Alencar: quando ele era o titular da Comarca de Campo Maior, foi participar de um jogo no Alto do Meio. Contou-nos que lhe fizeram um lançamento. Ele dominou a pelota no peito; habilmente, deu um “banho de cuia” no adversário, para em seguida dominar a bola  novamente e tocá-la para o seu companheiro de equipe.

 

O Valdemar, então um menino, achou tão bela a jogada, que nunca a esqueceu, mesmo depois de ter atuado no futebol profissional do estado e no time de futebol de salão do Armazém Paraíba. O desembargador ainda hoje atua no time da AMAPI, que recentemente, na categoria máster, foi campeão em torneio nacional da magistratura. Foi ele o capitão da equipe, enquanto o meu amigo e colega Rodrigo Alaggio foi considerado o melhor jogador do campeonato na categoria. Devo dizer, sem puxa-saquismo, que o jogador Alencar tem um estilo elegante, avesso que é às rifas dos chutões.

 

Tem bom domínio de bola e sabe distribuir os passes com categoria, sem colocar em dificuldade o companheiro. É lutador e aguerrido, com preparo físico invejável para a sua idade, que não irei declinar.

 

Agora, por favor, não me perguntem se algum dia ele já fez algum gol contra. De qualquer sorte, isso faz parte dos azares e vicissitudes pebolísticas, e quem nunca cometeu uma jogada infeliz que lhe atire a primeira pedra. 

26 de outubro de 2010

quinta-feira, 6 de março de 2025

O Último Contador-de-Urubus

Fonte: Google


O Último Contador-de-Urubus

Fabrício Carvalho Amorim Leite*


O macaco-guariba voltou a zombar das visagens bem aqui perto de casa. De um jeito ou de outro, sô, o mundo anda esquisito.

— Vê aquele babaçu grande? — pigarreou o Contador-de-urubus, fincando o cajado ensebado com cera de carnaúba no chão torrado.

— As guaribas, agora, têm um certo, sô. Quando nos veem, botam duas palhas da palmeira na frente do corpo, como se tivessem vergonha.

Vi ali uma espécie em extinção. E não era o macaco-guariba, que já é, por si, uma memória vagante de um tempo que se foi. Falo daquele homem.

Colonizou essas bandas antes mesmo de existir, quando ainda nem no ovário da mãe estava, mas já carregava o destino traçado.

O avô J. Amorim, sim, foi quem desbravou essas terras, recebendo do governo o prêmio de coragem e astúcia. Conquista a perder de vista — ou melhor, até onde a vista topasse com outro colono. O resto era dele, e de mais ninguém.

Conversamos diante dos grandes carnaubais. Ao fundo, a mata grande — ou o que restava dela — se espalhava numa mistura de sertão, babaçuais e ipês-amarelos floridos.

O cinza. O amarelo dos ipês. O verde escorrendo sobre o vermelho do sol poente.

— Hoje em dia, num se acha mais vaqueiro que preste, sô… — praguejou o velho, ajeitando o chapéu puído na cabeça.

Os marruás se foram.

Cavalos catingueiros? Só prestam para a exposição dos ricos e para desfile no dia do vaqueiro, pra tirar foto com prefeito.

Mascou algo na boca que parecia fumo e cuspiu adiante.

Ao longe, um carro de som passou devagar na estrada, com o alto-falante anunciando novidades do supermercado da cidade:

— "Promoção de carne argentina e calabresa!"

O velho suspirou.

— Agora é tudo isso aí. Antes, era carne de boi agreste, farinha amarela, cachaça boa. Hoje, é comida de plástico, cerveja aguada e gado do Goiás — para ele, todo gado vinha de lá.

Fez um gesto decidido, como quem tentasse abraçar o mundo, e bufou:

— E tem mais, viu? Num encontro um cristão que preste pra me ajudar na lida da roça. Tudo largado!

Pausa. O silêncio só era cortado pelos berros dos macacos-guaribas lá na frente.

Ele olhou para mim e cuspiu de lado, ajeitando a perna ruim.

— Ah… se eu num tivesse com meus noventa e dois anos, um oio cego de um coice de burro e essa perna mole desde que caí de moto faz seis meses…

O céu fechou cedo. Trovões estouravam nas bandas da mata das guaribas. No Nordeste, escuro de chuva é esperança. Ainda bem.

O Contador-de-urubus ergueu os olhos para uma árvore, a uns cem metros da varanda, e disse:

— Tá vendo aquele urubu? Urubu sozinho… é sinal dos tempos. Só vive em bando…

Fez o sinal da cruz e virou-se para a estrada poeirenta. Mas, dessa vez, não cuspiu perto dos pés.

Parou de repente e apontou com o queixo:

— Olha lá aquele monte de pedras na boca da encruzilhada… Vão fazer um tar de calçamento.

O guverno quer avançar nas quintas do vô…

Silêncio. Olhamos juntos o amontoado de pedras. O progresso chegando.

Eu esperava um palavrão. Um resmungo raivoso. Mas, em vez disso, vi uma faísca no olhar do velho.

Ele coçou a aba do chapéu, pensativo.

— Talvez num seja tão ruim assim… — murmurou, quase para si mesmo.

A frase se perdeu no vento. Ele franziu a testa, como se estranhasse as próprias palavras.

Cuspiu de lado, reequilibrando-se na bengala, e depois resmungou leve:

— Mas praga de urubu magro num derruba cavalo gordo, né? Quem tem, tem. Quem num tem, que se vire.

Suspirou fundo, tanto que as costelas se espicharam. Olhar de quem já viu muito.

E ficou assim, por um instante, quieto, como se ouvisse vozes ancestrais que só ele entendia.

Então, sem pressa, caminhou devagar até o oratório da velha casa. Ficamos ali, em silêncio, entre o cheiro de vela e madeira antiga.

A noite desabou sem correria, trazendo um vento frio que fazia as sombras sacudirem no piso.

O urubu, antes imóvel na árvore morta, ergueu voo e virou breu, sem deixar rastro.

Ou… como ele pressagiou… “augurando outra casa. ”

E foi a única vez que o Contador-de-urubus não ficou naquela sagrada hora, no alpendre, contando com os olhos os urubus se aninharem no velho ipê – já branco de tanto tempo e de tantos senhores.

Apenas repetiu, baixo, como quem fala com a chuva:

— Sinal dos tempos, sô… sinal dos tempos.

Foi então que compreendi.

Aquele era o último de sua espécie.

Março, 2025.

*Cronista e contista.

terça-feira, 4 de março de 2025

O açude e o mar de El mar

Em 1994, ao tomar posse na Academia Parnaibana



O açude e o mar de El mar


Elmar Carvalho


O caro Acoram me mandou o seguinte haicai, por WhatsApp:


Respondi-lhe imediatamente, por áudio, elogiando-lhe o texto, mas ele disse que o poema não era de sua autoria. Vi, então, que abaixo da postagem constava o nome de nosso amigo comum, o poeta Dílson Lages.

Em outro áudio, disse que o elogio valia para o Dílson, uma vez que eu não elogiara propriamente o autor, porém, os versos. Acrescentei que o poeta fora criativo com o uso da vírgula, que dera ao poema um duplo sentido, com a alusão implícita a Campo Maior, onde fica o Açude Grande nele referido.

Em seguida, praticamente de improviso, lhe enviei o poema abaixo, uma espécie de paráfrase ou paródia ao célebre poema de Drummond e sua pedra no meio do caminho:

        No meio do caminho 
        Tinha uma vírgula 
        Tinha uma vírgula 
        No meio do caminho 
        Que modificou
        Todo o sentido 
        E me deixou 
        Sem sentido.

Acoram me retrucou com o poema abaixo, em que brinca com o meu nome:



Sobre a minha paráfrase drummondiana, ele disse:

        Uma poesia de repente 
        De poeta competente!

Diante do seu poema, que evoca o pequenino Açude Grande de Campo Maior, eu lhe disse que numa entrevista, que ainda não foi ao ar, o amigo e apresentador Octavio César, em sua abertura, falou que quando vai ao litoral, ao passar pelo paredão desse açude, o considera como sendo o mar de El mar. 

Vendo o que esses bons amigos disseram, recordo que no meu discurso de posse na Academia Parnaibana de Letras, ainda em plena juventude, ou, pelo menos, me sentindo jovem, tive a ousadia de proclamar que, com o nome que tinha - Elmar - eu não apenas amava o mar, mas era-o, era o próprio mar.

Agora, coroado de algas e de mágoas, me sinto apenas um Netuno decadente, despojado de seu tridente.

segunda-feira, 3 de março de 2025

A freguesia do Mocha

Fotografia antiga da parte interna da igreja de N. S. da Vitória

Fotos tiradas por Elmar Carvalho, com exceção da primeira


 

A freguesia do Mocha


Júnior Vianna 

Historiador e membro do Instituto Histórico de Oeiras


Após dezoito dias da reunião na Fazenda Tranqueira, onde se reuniram os ditos "homens bons", cumpria-se no brejo do Mocha, com toda a solenidade possível, a inauguração da igrejinha dedicada a Nossa Senhora da Vitória.  


O rito litúrgico foi celebrado pelo padre visitador Miguel de Carvalho, acompanhado pelo padre Tomé de Carvalho, que, a partir dali, assumiria o cargo de cura da primaz freguesia do Piauí. A solenidade, ainda que simples, foi assistida com devoção pelo povo da região, que via nascer, em pleno sertão, um paroquiato distante e isolado. A nova igreja estaria subordinada ao bispado de Pernambuco, sob os auspícios de Dom Frei Francisco de Lima.  


Tudo muito humilde, sertanejo, brejeiro. A capela primitiva media pouco mais de 24 passos de comprimento por 12 de largura, seguindo o estilo das construções de taipa tão comuns na região. Apesar de modesta, a edificação da freguesia trazia grandes avanços: garantia o acesso ao batismo, ao casamento, aos sacramentos, ao amparo dos enfermos e aos registros de nascimento, matrimônio e óbito — registros que, além do valor espiritual, possuíam importantes implicações jurídicas e sociais.  


A criação da freguesia do Mocha representava, sem dúvida, o núcleo embrionário da sociedade piauiense, sustentada pela criação extensiva de gado. Com esse ato, abriam-se as portas para novas vivências, etapas sociais e avanços políticos e religiosos. Não demorou para que a região recebesse a auspiciosa visita do bispo, mas isso, como dizem, já é outra história.  


Através da Igreja e de suas instâncias de base, ligadas de forma quase umbilical ao próprio Estado, a institucionalização de povoados dispersos era conduzida inicialmente pela oficialização de suas ermidas. Assim, no dia 2 de março de 1697, essa realidade se fez presente nos sertões de dentro, sob as bênçãos de Deus Pai e a devoção mariana.  Oeiras segue ainda religiosa!     

domingo, 2 de março de 2025

ENIGMA

 

Fonte: Google

ENIGMA


Elmar Carvalho

 

entre o som

          o sono

          o sonho

          a sombra e a sobra

eu me decomponho

     em escombros

em farpas e agulhas

       escarpas e fagulhas

                                          desfeito enfim

                                          em fogos de artifício

                                          feito estrelas de mim

esfinge autoantropofágica que

não se decifrou e que a si

mesma se devorou

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

POSSE ACADÊMICA NA ACALPI

Elmar Carvalho e a juíza e acadêmica Regina Coeli Freitas

 

POSSE ACADÊMICA NA ACALPI


Elmar Carvalho

 

Neste domingo, tomei posse da cadeira nº 39 da Academia de Ciências, Artes e Letras de Piripiri – ACALPI. A solenidade aconteceu no prédio da Câmara Municipal. O auditório estava lotado. Foi uma bela festa literária, a que não faltaram, sequer, música e farto coquetel. Vários acadêmicos estavam presentes, alguns vindos de Teresina, como foi o caso do maestro e professor Vagner Ribeiro, e de outras cidades.

 

Vários descendentes e parentes do padre Freitas, de Baurélio Mangabeira, de Osíris Neves de Melo e de Raimundo de Freitas e Silva marcaram presença, assim como outras pessoas interessadas em cultura e literatura, entre as quais Brito Júnior, chefe do Poder Legislativo local. De Campo Maior veio uma comitiva, representando meus conterrâneos, composta por João Alves Filho, presidente da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, pelos acadêmicos Cardosinho e Corinto Filho, e pelo professor e músico José Francisco Marques.

 

A solenidade foi presidida pelo jornalista, poeta e escritor Willekens Van Dorth; o cerimonial esteve sob o comando do acadêmico e juiz de Direito João Bandeira do Monte Filho, que foi o responsável pelo discurso de recepção ao artista plástico Luís de Assis Silva, que tomava posse da cadeira nº 22, patroneada por Tomás de Sousa Menezes. Na oportunidade, foi homenageada a banda Os Dragões, de bela e longa trajetória musical, com a Comenda do Mérito Data Botica, pelos relevantes serviços prestados às artes e cultura.

 

A minha cadeira tem como patrono o poeta Raimundo de Freitas, sobre o qual discorri em meu discurso. Era ele casado com Francisca Melo Freitas, irmã de meu avô materno. Falei, brevemente, sobre alguns de meus parentes e ancestrais, uma vez que só pude ser candidato porque minha avó paterna nascera em Piripiri. Falei dos pontos aprazíveis e pitorescos da cidade, bem como de muitos de seus poetas, escritores, artistas e magistrados.

 

Meu pai, que morou por pouco tempo na cidade, quando trabalhou numa filial da então poderosa Casa Inglesa, em sua juventude, estava presente e se emocionou a valer. Explanei que estive em Piripiri em várias oportunidades, inclusive na minha meninice, quando cheguei a bordo de um trem, puxado por uma locomotiva a diesel, e na minha adolescência, quando disputei uma partida de futebol, atuando como goleiro, cujo resultado já não recordo; mas também participei de muitos eventos literários, em minha maturidade, várias vezes a convite da professora e escritora Clea Rezende Neves de Melo, que abrilhantou a solenidade com a sua presença.

 

Quando falei do célebre padre Domingos de  Freitas e Silva, expliquei que o enaltecimento de um homem, através de suas palavras, pode ser um ludíbrio, em que a estátua pode ficar bem maior que o modelo, mas que os seus atos e ações mostram a verdadeira essência de seu caráter, e citei quatro episódios e atitudes pelos quais esse sacerdote pode e deve ser considerado o pró-homem por excelência de Piripiri.

 

Eleito por unanimidade, agradeci os confrades por tão belo e nobre gesto de compreensão e apreço. Fui recebido pela juíza de Direito e acadêmica Regina Coeli Freitas, que proferiu um excelente e emocionante discurso, entremeado de versos de minha autoria, que me comoveu e me afagou a alma. 

19 de outubro de 2010

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Sermão das Cornudagens

Fonte: Google


Sermão das Cornudagens


Fabrício Carvalho Amorim Leite

Cronista e contista


Agora, cobiçar, meu Deus, a mulher do próximo não deveria ser pecado. Na maioria das vezes, é mais castigo e aflição. Mas avançar? Ah, isso já é outra história.

Ele era operário de dia, pastor à noite. Em casa, um culto aconchegado. Na mente, a exegese perfeita — e um desprezo mal fingido pelos doutorezinhos da teologia. Trazia uma ideia fixa, e isso para não usar a palavra pior.

— Que é esquisito, é — resmungou a vizinha, lançando um olhar enojado ao templo, como quem mira o ponto certo para atirar uma tocha. — Isso não está na Bíblia, juro de pés juntos — disse, enquanto remexia o terço e traçava sinais da cruz com dedos.

Uma puritana da igreja tentou dialogar com o Ministro, mas, diante de seus argumentos insistentes e gestos nada ortodoxos, desistiu.

Como um Bom Pastor, doutrinava, com a convicção dos mais ungidos:

— Nós, os justos, como dizem as Escrituras, devemos permitir que eu os adultere com suas mulheres. E eles, em êxtase, louvaram mil vezes, entre vivas e gestos inomináveis.

— Imaculada, amor, você foi a escolhida do dia — disse Plácido — hoje é o momento de cuidar das necessidades espirituais. Banhe-se, perfume-se, louve a Jesus e deixe o Pastor concluir o milagre. O lençol está cheiroso — fiz um sacrifício para comprar — e, para não ser indiscreto, sairei para o mercado.

E, assim, Plácido, fiel de brandura exemplar, cumpridor da Palavra, saiu com uma alegre paz de Cristo.

Não se pode negar: o Ministro cuida do seu rebanho. É doce, de fala mansa, apaziguava qualquer desarmonia matrimonial, sempre anunciando:

Cuidado com os lobos em pele de cordeiro!

E, das cadeiras de plástico, em êxtase, todos respondiam:

Aleluia! Aleluia!

Até que, um dia, veio a intimação... Denúncia: crimes contra a dignidade sexual.

Depoimentos colhidos. Uma fiel jurava ter recebido uma revelação divina — daria filhos ao Pastor. Outra, de fé inabalável, com o marido, olhos ao céu, em louvor. Um a um, seguiram-se os testemunhos de pura fé cristã.

Por fim, o acusado começou: fala aveludada, terno de bacana, colarinho engomado, perfume francês — um sultão da periferia. Iniciou sua defesa — ou melhor, sua pregação.

— Irmãos, oremos, pedimos indulgência, nos entregamos em piedade. E o Senhor nos deu claramente a direção, em Oséias 3: E o Senhor me disse: Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo, e adultera.

O Delegado ajeitou os óculos, folheou as anotações e encarou o Pastor.

— Então, quer dizer que o senhor baseia sua defesa na Bíblia? Pois bem, vejamos... — Pigarreou, tomou o relatório e leu em voz alta:

"Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo, e adúltera..."

Pausou, semicerrou os olhos.

— Pastor, o senhor sabe a diferença entre "adúltera" e "adulterar”? Porque uma coisa é amar uma mulher infiel, como diz o versículo. Outra, bem diversa, é adulterar mulheres de seus amigos.

O Pastor ajustou a gola, engoliu em seco e murmurou:

— Ah, tá... já sabia que reduziriam tudo à maledicência da cornudagem e um simples erro de grafia — disse, dando de ombros.

                                                                                                                             Fevereiro,2025.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

NA NOITE

Fonte: Google

 

NA NOITE


Elmar Carvalho

 

Na noite

um sapo coaxa.

Uma puta triste

acha graça. Acha graça.

Um galo

às desoras desfere um canto

fora de hora. E chora.

Um cão ladra por nada:

nenhuma cadela no cio.

O silêncio

grita como louco

na concha acústica

dos labirintos dos ouvidos moucos

por onde um Teseu lasso caminha

em busca do Minotauro – perdido

sem o fio de Ariadne –

conduzido por outro fio

que parte / se parte e

se reparte entre o ser

e o não ser.

E os gritos de Teseu

arrancam ecos

que já ecos de si mesmos

se repetem se repetem

até a mais completa

absoluta exaustão.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

DISCURSO DE RECEPÇÃO A 5 NOVOS ACADÊMICOS DA APC (*)

Elmar Carvalho pronuncia seu discurso de recepção aos novos acadêmicos

Diva Figueiredo e Aurélio Melo, novos acadêmicos
Manuel Domingos Neto, presidente da APC
Fides Angélica, Felipe Mendes e Manuel Domingos Neto
Severo Eulálio, Paulo Gutemberg e Manuel Domingos Neto
Felipe Mendes, Messias Júnior e Diva Figueiredo




DISCURSO DE RECEPÇÃO A 5 NOVOS ACADÊMICOS DA APC (*)
 

Elmar Carvalho

 

Nesta noite festiva e cultural, a Academia Piauiense de Cultura se regozija em receber cinco novos acadêmicos, figuras emblemáticas e proeminentes nas searas da cultura, da intelectualidade e das artes, a primeira solenidade de posse após a sua instalação efetiva, na memorável noite do dia 23/07/2022, acontecida no Porto das Barcas, em que tomaram posse seus 40 membros fundadores.

Não posso deixar de referir que nesta oportunidade também será lançado o número inaugural da revista Peleja (ano 0, nº 1, fevereiro de 2025), que será o órgão de divulgação de nosso sodalício. Não posso usar outra expressão, a não ser proclamar que esse número está magnífico, pela qualidade do papel couchê em que foi impressa, pela sua excelente diagramação e, sobretudo, pelas matérias nela coligidas e pela beleza de suas ilustrações e fotografias. E os novos acadêmicos contribuíram para a sua excelência, através de textos, formatação e programação visual. 

Fui designado, em reunião dirigida pelo nosso presidente Manuel Domingos Neto, para fazer o discurso de recepção aos cinco novos confrades. Missão muito honrosa, no entanto, muito difícil, porquanto em tempo exíguo terei que saudar e louvar pessoas tão valorosas, detentoras de muitos títulos e conquistas e de extensos e ricos currículos. Mais difícil ainda porque devo dedicar aproximadamente o mesmo tempo e atenção a cada um, de modo que os louvores e encômios sejam de idêntica lapidação e quilate. Seguirei a ordem do número das cadeiras que ocuparão.

Felipe Mendes de Oliveira será o primeiro ocupante da cadeira nº 41, cujo patrono, por ele escolhido, é o professor Manoel Paulo Nunes. Nasceu em Simplício Mendes, em 19 de abril de 1949. Formou-se em Economia. Especialista em Consultoria Industrial e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Nosso confrade exerceu os mais importantes cargos públicos, entre os quais citarei os seguintes: secretário da Fazenda e do Planejamento do Estado do Piauí; secretário do Planejamento e de Finanças da Prefeitura de Teresina; presidente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba – CODEVASF; Deputado Federal em três mandatos, tendo participado da elaboração da Constituição Federal de 1988. Congressista dos mais atuantes, conseguiu verba para importantes obras no Piauí, entre as quais várias barragens, Hospital Universitário (UFPI) e Tabuleiros Litorâneos. Professor aposentado de Economia (UFPI). Meu confrade na Academia Piauiense de Letras.

Autor, entre outros, do livro Economia e Desenvolvimento do Piauí, que se tornou um clássico. Enciclopédico, no dizer de Teresinha Queiroz. Sobre essa obra canônica tive a oportunidade de dizer: “Sem dúvida o magistério superior de economia, as longas e profundas leituras e a experiência e conhecimento adquiridos nos importantes cargos públicos que exerceu lhe possibilitaram escrever essa importante obra, pioneira do ponto de vista do enfoque e abordagem e da formatação do conteúdo”.

Exerceu seus cargos públicos com competência, probidade e dedicação, como um verdadeiro servidor público e estadista, com o olhar voltado para o interesse social e com espírito público. Talvez por isso, o governador Lucídio Portella, operoso e austero em sua gestão, ao olhar o simples e sóbrio relógio, que nosso confrade usava, retirou do pulso o seu próprio relógio e o entregou ao nosso confrade. Creio que com esse gesto, talvez algo impulsivo, Lucídio quisesse atestar ou certificar, de forma simbólica, a eficiência e a probidade de nosso caro Felipe Mendes.

O patrono de sua cadeira é o professor Paulo Nunes, figura emblemática da Academia Piauiense de Letras, figura exponencial de escritor, intelectual e crítico literário, por quem eu tinha amizade e admiração, um dos que muito contribuíram para a criação da Universidade Federal do Piauí. Sobre ele já tive o ensejo de dizer: “M. Paulo Nunes é um exemplo de estilista, de frases bem construídas, elegantes, rítmicas, cadenciadas em suas pausas, e de denso conteúdo, graças ao seu poder de síntese e percuciência, e sobretudo erudição, em virtude de ser leitor constante, voraz e compulsivo. Diria que o seu estilo, como um poderoso ímã, atrai o leitor para os seus textos escorreitos e de plástica fluidez.”

Na cadeira nº 42 tomará assento a Dra. Diva Maria Freire Figueiredo, nascida em Boa Esperança (MG). Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG. Fez mestrado na UFPE e doutorado na UFMG. Exerceu suas atividades profissionais sobretudo no Piauí, em que se destacou na preservação de seu patrimônio cultural através de gestão, ensino e pesquisa. Superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Piauí, foi uma dos principais responsáveis pela proteção de diversos bens, mormente os situados nas cidades históricas de Parnaíba, Oeiras e Piracuruca e em Serra da Capivara. O nosso Estado lhe fez justiça ao lhe conceder o título de Cidadania Piauiense.

Na segunda metade da década de 1980, quando vários prosadores e poetas reativamos e demos existência fática e legal à União Brasileira de Escritores do Piauí (UBE-PI), sua sede, onde fazíamos reunião semanal, ficava na Secretaria de Cultura, em cujo prédio vi algumas vezes nossa confreira a desempenhar suas funções, com competência, zelo e assiduidade. Mais tarde, por ter morado em Parnaíba durante vários anos, pude acompanhar o seu enorme e inestimável trabalho para promover o tombamento do centro histórico dessa cidade, que é como se fosse um imenso livro de pedras, tijolos, telhas e argamassa, constituído por vetustos sobrados, por deslumbrantes palacetes, elegantes chalés e antigos casarões solarengos, impregnados de histórias e fantasmas, além de imponentes e suntuosos edifícios, que abrigaram escolas, comércios, indústrias, bancos e outros empreendimentos, vestígios do fastígio empresarial parnaibano, da opulência do extrativismo, em que o Porto Salgado (ou Porto das Barcas) era muito movimentado, cheio de embarcações, tripulantes, estivadores, vareiros e porcos d’água. A solidez dessas edificações é apenas aparente; elas facilmente se dissolvem no ar, pela incúria, pelo abandono e pela ganância das demolições propositais. Era um tempo em que os hidroaviões da Condor enfeitavam o céu de Parnaíba.

O patrono de sua cadeira, por ela escolhido, é o arquiteto e urbanista Olavo Pereira da Silva Filho (1947-2023), que restaurou importantes monumentos históricos e arquitetônicos em Minas Gerais, Maranhão e Piauí. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Exímio em sua profissão, contribuiu para preservar obras notáveis da arquitetura nacional. Recebeu importantes premiações, notadamente o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade (2008) pelo seu livro Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy. Tendo restaurado importantes monumentos históricos e arquitetônicos, feitos de pedra, barro, tijolos e telhas, escreveu essa monumental obra, que tem como suporte a fragilidade do papel, mas que restaura, conserva e resgata a história, a memória e a imagem dos antigos sobrados e solares e as rústicas casas-grandes de nossas velhas fazendas. Somente um Hércules dos doze trabalhos ou um lunático e idealista Quixote poderia construir um livro tão laborioso, mas de tamanha grandeza, qualidade e magnitude. E literalmente monumental, digno dos maiores louvores e encômios.          

Raimundo Aurélio Melo passa a ser o primeiro ocupante da cadeira 43 de nossa agremiação literária. Nasceu em Oeiras, mas muito novo, juntamente com a sua família, se mudou para Teresina. Um dos maiores nomes da música piauiense, para a qual tem contribuído em atividades de regência, ensino e composição. Segundo a lenda ou a tradição, se diz que, em sua cidade natal, quando uma criança nasce, a mãe joga o barro na parede para saber se o filho será músico ou doido. Em entrevista para a revista Peleja, mestre Aurélio Melo disse que, se sua mãe fez isso, parte do barro colou e parte caiu.

Ainda menino teve contato com a música através do programa “Banda nas Escolas”, criado por Wall Ferraz, quando secretário da Educação, no governo Alberto Silva. Começou na percussão, passou a tocar bombardino e, depois, trombone, em que “se encontrou”, conforme disse na referida entrevista. Seu primeiro emprego foi na Banda de Música XVI de Agosto, da Prefeitura de Teresina. Ao receber o primeiro salário, comprou um violão. Nos anos 1970, criou o grupo Candeia, quando passou a compor. Mais ou menos por essa época compôs a música Teresina, que se tornou uma espécie de hino não oficial ou popular de nossa capital, que me deixava tonto zonzo de encantamento.

Aprendeu muito dos fundamentos de teoria musical, arranjos e regência com grandes maestros, entre os quais Reginaldo Carvalho e Emmanuel Coêlho Maciel. Reginaldo Villar de Carvalho (1932-2013) é o seu patrono em nossa Academia; nasceu em Guarabira (PB). Foi um dos pioneiros em música eletroacústica brasileira, nos anos 1960. Exerceu as atividades de professor, regente e compositor. Tem uma vasta obra dedicada à música coral. Foi um dos fundadores do curso de Música da UFPI e da Escola de Música de Teresina. Emmanuel Coêlho Maciel foi o primeiro regente da Orquestra Sinfônica de Teresina. Foi sucedido pelo maestro Aurélio Melo, hoje presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, que a expandiu e consolidou.      

Paulo Gutemberg de Carvalho Souza, nascido em Oeiras, em 1964, tomará assento na cadeira 44, patroneada pelo célebre fotógrafo José Araújo de Medeiros. Graduado em Direito e História, pela UFPI. Especialista em Comunicação e mestre em História do Brasil. Foi historiador-pesquisador do Núcleo de História Oral da Fundação CEPRO, de 1987 a 1994. Repórter fotográfico. Foi editor de fotografia do Jornal da Manhã, revista Cadernos de Teresina, jornal Meio Norte e revista Pulsar. Assessor de comunicação social do TRE-PI, Procuradoria da República e Justiça Federal.

Publicou críticas e ensaios fotográficos em jornais e revistas culturais. Participou de exposições fotográficas em Teresina, Brasília e Fortaleza. Publicou os seguintes livros: Teresina (2004), História e Identidade: as narrativas da piauiensidade (2010), Docas do Mucuripe (2010) e Guilherme Müller e a invenção visual de Teresina (2017). Professor de história na UFPI e de fotojornalismo na FSA. Fez curso de Cinema e de Cinematografia Digital. Diretor de fotografia do curta Entrelinhas. Idealizador e fotógrafo do Projeto Caminho das Abelhas. Recebeu importantes prêmios na área de fotografia e a Comenda do Mérito Renascença.

É presidente da Fundação Fotógrafo José Medeiros. Este notável fotógrafo, nascido em Teresina, em 1921, foi por ele escolhido para ser o patrono de sua cadeira. Medeiros teve importante atuação no fotojornalismo brasileiro, mormente por suas reportagens fotográficas na revista O Cruzeiro. Diretor de fotografia de filmes clássicos, como Xica da Silva, Memórias do Cárcere, Jubiabá e Morte e Vida Severina.   

Paulo Gutemberg, para a realização de um trabalho fotográfico criativo e experimental, inventou, certa feita, uma engenhosa engenhoca, uma verdadeira máquina do tempo, que simulava antigas fotografias, com a qual produziu verdadeiras pinturas fotográficas. Assim, posso dizer que na arte fotográfica ele pinta, borda, transborda e fotografa.       

Será o ocupante da cadeira 46 o ativista e cientista social José Messias Andrade Júnior, que tem se dedicado à preservação e fortalecimento da cultura popular, especialmente do carnaval de Teresina. Em 1994 fundou o Bloco do Paçoca. É o coordenador do Movimento de Salvaguarda do Carnaval de Teresina. Presidiu a Escola de Samba Brasa Samba. Escritor e compositor. Em parceria com Osnir Veríssimo e Machado Júnior, compôs marchinhas e outras músicas carnavalescas para o Bloco do Paçoca. Uma dessas composições recebeu o 2º lugar num festival de marchinhas. Em 2015 escreveu a Revista Paçoca, que relatou a trajetória de seu bloco e a memória do Boteco do Dedim, em homenagem a seu pai, um dos incentivadores dessa agremiação carnavalesca. Nascido em Campo Maior, no dia 7 de setembro de 1969, no mesmo dia em que nasceu o grande prefeito Raimundinho Andrade, em 1922, recebeu, com justiça, o título de Cidadão Teresinense.

Em sua colaboração para o número inaugural da revista Peleja, aborda os problemas e mazelas enfrentados pelo centro comercial e histórico de Teresina, que é do conhecimento de todos nós, para os quais ele sugere as seguintes providências: “A revitalização do Centro de Teresina passa pelo seu repovoamento. É preciso tornar o Centro habitável. A oferta de condições dignas de moradia, circulação segura, lazer e fácil acesso aos mais diversos serviços públicos é fundamental. // Um plano de revitalização do Centro deve ter em conta a capacidade de atração turística, que fortalece o comércio local, gera empregos e impulsiona a economia.”

Messias Júnior escolheu para patrono de sua cadeira outro Messias, o sambista e carnavalesco Manoel Messias do Espírito Santo (1948-2023), um dos fundadores da Escola de Samba Sambão, que mereceu a honrosa alcunha de Jamelão do Piauí. Mal saído da adolescência, morando perto da Casa Saló, eu ouvia os tambores e atabaques dessa escola ressoando e atroando na Baixa da Égua, noite adentro, madrugada afora.  

Todos os novéis acadêmicos são pessoas de alto mérito em suas atividades profissionais, artísticas e culturais, e certamente abrilhantarão a nossa Academia com o fulgor de seu talento, inteligência, engenho e arte.

 (*) Discurso proferido na Sessão Solene da Academia Piauiense de Cultura, realizada para a posse de novos membros e para o lançamento da Revista PELEJA, no Theatro 4 de Setembro, em Teresina, no dia 20/02/2025.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Uma Confissão Inconfessável

Fonte: Google


Uma Confissão Inconfessável


Fabrício Carvalho Amorim Leite


Uma mezzo-soprano destacou-se entre as velhas vozes fanhosas do coral. Hei de chamá-la Tâmara. Poderia ser Adelaide, Elena… Mas insisti comigo mesmo: Tâmara.

Das últimas fileiras da igreja, pouco importava se ela não passava de um vulto. Afinal, os olhos cansados dos quarenta haviam chegado. Imaginei-a e ri — como os que erguem o rosto a Cristo em fervor, mas, por dentro, abraçam a sólida indiferença moral. Coisas da falsa fé.

E então, senti um sutil incômodo — algo cutucando o juízo, um pensamento errante que escapou sem que eu percebesse. Primeiro, a silhueta, imóvel, intocada pela multidão. Depois, quando dei por mim, ela já era tamareira: macia, fecunda, lasciva, abrindo-se em cachos e alma. Suas folhas, afiadas como espinhos, curvavam-se sobre mim. E nos abraçamos com aleluias.

Eu lhe traria o adubo — aquele que faz os brotos mudarem de cor. Outro formigamento — um leve sacrilégio ao invocar a árvore sagrada.

Foi então que pedi a Deus mil clemências. Os joelhos dobrados em suplício — a alma, curvada, afligindo minha artrose. Ainda assim, persisti. Insisti nos atos penitenciais, um após o outro.

E, direi mais baixinho — envergonhado, mas pretensioso — e ainda assim confessarei: aproveitando-me da ausência do padre no seu caminho, ousei também lançar-lhe meu olhar pagão.

Ela, de relance, sorriu — com piedade deste homem casado, cuja esposa, ao lado, já erguia o salto fino e alto, diante do Altíssimo, pronta para infligir-me a derradeira dor.  

                                                                                                                             Fevereiro, 2025.