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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA *


A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA *

Não há meio de convencer a um homem que não quer ser convencido.

Joaquim Manuel de Macedo

Elmar Carvalho

Todos os maiores historiadores do Piauí afirmam haver existido a fazenda Bitorocara e o seu fundador, Bernardo de Carvalho e Aguiar, a começar pelo mais antigo, o padre Miguel de Carvalho, em sua Descrição do Sertão do Piauí, datada de 2 de março de 1697. O padre Cláudio Melo considera esse documento como um dos mais importantes para os estudiosos de História do Piauí, e que deveria ser de manuseio constante. Quase todos admitem que essa propriedade ficava situada em Campo Maior. Como exceção ou voz discordante, um ou outro admite haver dúvida a esse respeito.

O próprio Pe. Cláudio Melo, no prefácio ao livro Descrição do Sertão do Piauí (Comentários e notas do Pe. Cláudio Melo), após advertir que o relatório do Pe. Miguel de Carvalho exigia acurada leitura, com “reflexão e análise prudente e comparada”, em sua proverbial franqueza e honestidade intelectual, aconselhou:
                                                                                                   
“Não se arrisquem a conclusões precipitadas. Historiador de alta respeitabilidade, como Odilon Nunes, concluiu que Bitorocara era Piracuruca, quando na verdade é Campo Maior [grifo meu]. Eu mesmo há dois ou três anos escrevi um artigo para ‘Cadernos de Teresina’ que, por sorte, não foi publicado (chegou com atraso). Hoje eu não subscreveria tudo que ali afirmei.”

Todavia, o próprio Odilon Nunes, segundo afirma João Gabriel Baptista em seu livro Mapa Geohistóricos, pág. 41, teria sido pessoalmente convencido por Cláudio Melo de que efetivamente o rio Piracuruca não era o Bitorocara. E ele João Gabriel confessa também ter se convencido de que a razão estava com Melo.

Espancando qualquer dúvida que possa existir sobre a localização de Bitorocara, no livro acima citado, o padre Cláudio, um dos maiores historiadores de nosso estado, afirma, a meu ver de forma categórica e peremptória:

“De início, eu supunha que o riacho Bitorocara era o Surubim, em razão de a Fazenda Bitorocara ser a atual cidade de Campo Maior. A descoberta em Portugal da sesmaria de Dâmaso Pinheiro de Carvalho, nas cabeceiras do riacho Cobras, me fez ver que Cobras é o Surubim. Bitorocara, portanto, ou seria o Longá ou o Jenipapo. Surgiu para mim um impasse: a fazenda Serra fica no Longá e o Jatobá no Jenipapo. Como os limites da fazenda Serra não atingiam o Jenipapo, mas os limites da fazenda Jatobá podiam chegar até o Longá, concluí, por fim, que Bitorocara seria o Longá. A fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles.”

Para chegar a essa conclusão, pelo que se depreende de seu conselho (ou advertência), acima transcrito, o notável historiador piauiense leu e releu várias vezes e em profundidade o relatório da lavra de Pe. Miguel, com certeza cotejando-o com os vários documentos que consultou em Portugal e no Piauí, muitos deles transcritos no livro Bernardo de Carvalho, de sua autoria.

O padre Miguel, em seu relatório, indicava os rios em que as fazendas por ele referidas se situavam, preservando dessa forma a sua localização. As fazendas, na época, eram muito extensas. Ele situava três no riacho Bitorocara (Longá): a primeira, de nome Serra, ficava nas cabeceiras; a segunda, Bitorocara, se lhe seguia, e “a terceira e última deste riacho se chama o Jatobá”. Evidentemente a fazenda Jatobá ficava na margem direita do Jenipapo, que desemboca no Longá, podendo ter prosseguimento pela margem direita deste rio, uma vez que, na expressão de padre Cláudio, “a fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles”. A linha de raciocínio do historiador obedece à lógica, e não a uma simples ilação tirada do nada, e, portanto, não merece reparo.

Como é sabido por todos, a antiga igreja de Santo Antônio do Surubim foi construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar a pedido de seu sobrinho, o Pe. Tomé de Carvalho. Quase sempre (e não conheço exceção) as igrejas eram erigidas pelos fazendeiros nas proximidades da casa-grande ou residência, sempre que possível sobre uma colina ou outeiro, em terras de sua propriedade ou posse. Essa era a praxe na história do Piauí, ainda hoje observada. Quem iria construir uma ermida ou igreja distante de sua casa e fora de sua propriedade? Considerando-se que a fazenda Bitorocara (antigo nome do rio Longá) ficava na margem desse rio é lógico concluir-se que ela ficava nas proximidades da igreja construída por seu proprietário nas imediações do rio Cobras, hoje Surubim.

Sobre isso vejamos o que diz o historiador e genealogista Valdemir de Castro Miranda, em seu trabalho intitulado “Sobre as origens de Campo Maior”, publicado no blog poetaelmar.blogspot.com.br, em 04.09.2015:

Campo Maior tem sua origem ligada à figura do mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da Fazenda Bitorocara no ano de 1695, na confluência dos rios Longá com o Surubim. Por volta de 1706, o Pe. Thomé de Carvalho e Silva fez desobriga na região, fundando ali um curato. Mais tarde, com a ajuda de Bernardo de Carvalho e Aguiar, construiu a Igreja de Santo Antônio, batizada a 12.11.1712, com a instalação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim ou Longá, a segunda do Piauí e ainda ligada ao Bispado de Pernambuco. O procedimento para a instalação da nova Freguesia, foi o mesmo adotado pelo Pe. Miguel de Carvalho quando da instalação da Freguesia da Mocha, reuniu os moradores da região para definir o local da edificação do templo. Não contando com a ajuda dos arrendatários das fazendas da região, mas com o cel. Bernardo de Carvalho e Aguiar que construiu a capela a suas custas, conforme consta em carta do Pe. Thomé de Carvalho e Silva, Vigário confirmado na Matriz de Nossa Senhora da Vitória do Piauí de Cima em toda ela Vigário da Vara, pelo ilustríssimo Sr. Dom Manuel Álvares da Costa, Bispo de Pernambuco e do Conselho de Sua



Majestade, que Deus guarde:

“Certifico que sendo esta minha Freguesia muito dilatada pelas grandes distâncias, principalmente a ribeira dos Longases, aonde não podia desobrigar a tempo de acudir com os Sacramentos nas necessidades dos meus fregueses residentes nela, pelos muitos rios que tem em meio para esta minha igreja, requeri ao Sr. Bispo de Pernambuco, mandasse fazer Igreja curada na dita ribeira dos Longases, por assim convir ao serviço de Deus, Nosso Senhor, ao que deu logo cumprimento. O dito Sr. Bispo mandou-me ordem para a poder fazer e, indo a esta parte, convoquei os principais moradores e, tomando-lhes os seus votos na parte que havia de erigir a nova Capela, que por invocação tem o nome do Glorioso Santo Antônio, lhe não achei possibilidade para fazerem, dando várias desculpas pelos poucos escravos que tinham, e estando ocupados em fazendas que tinham os seus donos na Bahia as não podiam desamparar. Nestes termos, me vali do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa, tanto de escravos como gastos, farinha e dinheiro. E o acho com ânimo de gastar nela cabedal. Outrossim se me ofereceu com o gado que necessitasse para a nova ereção desta Matriz de Nossa Senhora da Vitória, e me prometeu 200$000 (duzentos mil reis) para uma Custódia para a dita Matriz e que se custasse mais o daria”.
(MELO, Pe. Cláudio. Fé e Civilização, 1991, p. 47-8).

Recentemente uma voz discordante afirma que a Fazenda Bitorocara ficava, aproximadamente, onde hoje estão situados os municípios de São Bernardo – MA, Luzilândia e Campo Largo, os dois últimos no Piauí. O imóvel ficava em ambos os lados do rio Parnaíba. O defensor dessa hipótese parte do pressuposto de que o Arraial Velho e Bitorocara seriam termos sinônimos, e se fundamenta no fato de que Miguel de Carvalho e Aguiar, filho do Senhor de Bitorocara, teria herdado a sesmaria de Arraial Velho de seu pai, conforme documento existente em Belém do Pará, cuja propriedade em favor de Miguel foi confirmada em 1739. Essa informação é verídica e está devidamente documentada. Só um louco ou mistificador a negaria. Aliás, essa notícia é antiga, e já está inserida no livro Cronologia Histórica do Estado do Piauí, da autoria de F. A. Pereira da Costa, cuja primeira edição data de 1909.

Contudo a hipótese de que Bitorocara ficava no rio Parnaíba, na altura de São Bernardo, Campo Largo e Luzilândia, não pode prosperar, e muito menos se estabelecer como verdade, pelos motivos que passarei a expor de forma sintética.

Primeiro, Arraial (velho ou não) nunca foi e não é sinônimo de Bitorocara. É apenas um topônimo genérico, e que designa vários locais do Brasil, e mesmo do Piauí. Assim, no nosso estado existiram vários arraiais, entre os quais cito o que deu origem a Jerumenha, o dos aroases, o dos paulistas, o de Nossa Senhora da Conceição, o dos Ávilas, o que originou a atual cidade e município de Arraial e, evidentemente, o arraial que se formou no entorno da Fazenda Bitorocara e da igreja de Santo Antônio do Surubim, nela situada, etc.

O certo é que o Arraial Velho que deu origem à cidade de São Bernardo (MA) não é e nem poderia ser o arraial velho que formou a cidade de Campo Maior.

Por outro lado, em termos cronológico e documental, Bitorocara jamais poderia se referir ao Arraial Velho do rio Parnaíba, uma vez que o documento a este referente data de 1739, enquanto a referência à fazenda Bitorocara, feita pelo padre Miguel de Carvalho é datada de 1697, conforme seu relatório, publicado sob o título de Descrição do Sertão do Piauí.

Ademais, o seu autor, Miguel de Carvalho, em sua desobriga, que relatou nesse documento, percorreu apenas as terras que ele entendia como pertencentes à freguesia de Nossa Senhora da Vitória, conforme explicitou o padre Cláudio Melo em seus comentários (v. bibliografia): “Outras porções do território piauiense também eram habitadas, mas ficaram excluídas desta Descrição; é o caso dos sertões do Parnaguá (que ficariam na jurisdição de outra freguesia a ser instalada) é o caso do baixo Longá, Piracuruca e litoral que já estavam assistidos pelos Filhos de Santo Inácio, na Ibiapaba.”

Ora, se o padre Miguel de Carvalho sequer percorreu todo o território do atual estado do Piauí, com muito mais razão não poderia ter ido até os atuais municípios de Brejo e de São Bernardo, no Maranhão (em cuja região veio a ser situado o Arraial Velho), que pertenciam a outra jurisdição eclesiástica. Consequentemente, a fazenda Bitorocara a que ele se referiu em seu relatório ficava mesmo no rio Longá, perto de onde fica a atual cidade de Campo Maior.

Em consequência o arraial militar, ou arraial ou ainda arraial velho referente a Campo Maior, que se formou no entorno ou perto da Igreja de Santo Antônio do Surubim, não pode, em hipótese nenhuma, ser confundido com o Arraial Velho maranhense, localizado perto do Parnaíba. Mesmo porque Bernardo de Carvalho e Aguiar, último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão, só se mudou para a atual cidade de São Bernardo, da qual é considerado fundador, em 1721, quando deixou o seu cargo.

A fazenda Bitorocara, portanto, ante tudo o que expusemos, ficava na confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo, o que, admitamos, era estratégico, uma vez que haveria suprimento de água para consumo humano e do gado, e para a formação de pastagem, além de que seriam evitados problemas com eventuais confrontantes, porquanto os limites ficariam bem estabelecidos por esses cursos d’ água.

Tudo o que até aqui foi dito faz parte do terceiro capítulo da 2ª edição da versão impressa do livro Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara, de nossa autoria (EDUFPI/ACALE, 2016).

Contudo, após essa publicação, o escritor e historiador Reginaldo Miranda, membro da Academia Piauiense de Letras, que se tornou um verdadeiro detetive internético da História e, simultaneamente, um exímio paleógrafo, a decifrar intrincados, carcomidos e quase ininteligíveis e desbotados documentos antigos, às vezes verdadeiras criptografias para muitos historiadores e curiosos, descobriu, em determinado site, um documento que comprova, de forma absoluta e insofismável, que Bitorocara, uma das fazendas de Bernardo de Carvalho, ficava mesmo em Campo Maior. Em matéria postada em meu blog (http://poetaelmar.blogspot.com.br), no dia 23/09/2017), sob o título de A Fundação de Campo Maior, ele transcreve parte desse documento que comprova a sua localização. Vejamos trecho do que ele afirma, com a respectiva transcrição:

“Foi no governo de Christóvão da Costa Freire, governador e capitão general do Estado do Maranhão(1707 – 1718), que lhe foi dada a sesmaria “no sertão dos Alongazes por evocação de Santo Antônio, em um riacho cujas vertentes desaguavam no rio Jenipapo, em o qual tinha todas as fábricas de criados, escravos, cavalos e o mais necessário, e nele necessitava de três léguas de terra de comprido com uma de largo em todo o comprimento, para criação dos ditos gados e suas multiplicações, começando o dito comprimento da casa para Leste duas léguas e da mesma casa para Oeste uma légua, fazendo a largura de Norte a Sul ficando o dito riacho em meio da largura, reservando ele as voltas e pontas e da terra toda a inútil de criar gados, pelo haver povoado estando deserta” (PT/TT/RGM/C/0008. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, fl. 509v).

Então, seria impossível uma localização mais precisa, ficando a mesma no sertão do Longá, em um riacho que entra no Jenipapo (o mesmo da Batalha da Independência). E fora erguida sob a invocação de Santo Antônio, em cuja sede foi pelo proprietário iniciada a construção da capela, à sua custa, em 1711, para servir de matriz à freguesia de Santo Antônio dos Alongazes ou Santo Antônio do Surubim, a segunda mais antiga do Piauí, que fora criada naquele ano, pelo padre Tomé de Carvalho e Silva, sob ordens do Bispado de Pernambuco.”

Por via de consequência, se antes eu tinha a convicção de que Bitorocara ficava em Campo Maior, na confluência dos rios Surubim, Longá e Jenipapo, seguindo as pegadas e lições do Pe. Cláudio Melo, agora, com fundamento no documento “decifrado” e analisado por Reginaldo Miranda, tenho a certeza absoluta quanto a esse fato histórico, que não mais pode ser questionado ou contraditado.


* Matéria republicada com acréscimo e transcrição de trecho de novo documento, que comprova de forma definitiva que Bitorocara ficava mesmo em Campo Maior.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA

Antiga igreja de Santo Antônio
Igreja do Rosário

18 de novembro   Diário Incontínuo

A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA

Elmar Carvalho

Recentemente a Diocese de Campo Maior comemorou os 300 anos da Paróquia de Santo Antônio do Surubim. Houve missa concelebrada, com a presença de vários bispos e apresentação da Orquestra Sinfônica de Teresina, sob a regência do maestro Aurélio Melo. No ensejo da efeméride foi lançado o livro “Da matriz vejo a cidade”, da autoria de Natália Oliveira e Alcília Afonso, que ainda não me foi possível adquirir.  

A primeira igreja de Santo Antônio foi construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar a pedido do padre Tomé de Carvalho, seu sobrinho, que foi o primeiro vigário da Mocha (Oeiras) por várias décadas, tendo construído a vetusta igreja de Nossa Senhora da Vitória, hoje catedral, que se encontra bem conservada e mantendo quase toda sua arquitetura original. Bernardo também contribuiu para a construção deste templo, inclusive lhe tendo doado uma rica e bela custódia, em ouro maciço e cravejada de pedras preciosas, que ainda hoje faz parte do patrimônio da Diocese oeirense.

Lamentavelmente a velha igreja de Santo Antônio do Surubim, em estilo colonial, batizada em 12.11.1712, foi demolida em 1944, conforme consta no livro Enlaces de família, do historiador e genealogista Valdemir Miranda de Castro.

Em virtude das festas comemorativas dos três séculos da Paróquia e de haver sido requentada a discussão sobre onde ficava a Fazenda Bitorocara, que a meu haver já estava definitivamente superada, com as pesquisas do padre Cláudio Melo, tanto em Belém do Pará como em Portugal, julgo oportuno transcrever nesta crônica diarística o terceiro capítulo de meu livro “Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara”, 2ª edição digital (revista, melhorada e ampliada, em virtude de novos livros e documentos a que tive acesso, após sua primeira e única edição impressa), disponível no site amazon.com.br:

Todos os maiores historiadores do Piauí afirmam haver existido a fazenda Bitorocara e o seu fundador, Bernardo de Carvalho e Aguiar, a começar pelo mais antigo, o padre Miguel de Carvalho, em sua Descrição do Sertão do Piauí, datada de 2 de março de 1697. O padre Cláudio Melo considera esse documento como um dos mais importantes para os estudiosos de História do Piauí, e que deveria ser de manuseio constante. Quase todos admitem que essa propriedade ficava situada em Campo Maior. Como exceção ou voz discordante, um ou outro admite haver dúvida a esse respeito.

O próprio Pe. Cláudio Melo, no prefácio ao livro Descrição do Sertão do Piauí (Comentários e notas do Pe. Cláudio Melo), após advertir que o relatório do Pe. Miguel de Carvalho exigia acurada leitura, com “reflexão e análise prudente e comparada”, em sua proverbial franqueza e honestidade intelectual, aconselhou:

“Não se arrisquem a conclusões precipitadas. Historiador de alta respeitabilidade, como Odilon Nunes, concluiu que Bitorocara era Piracuruca, quando na verdade é Campo Maior [grifo meu]. Eu mesmo há dois ou três anos escrevi um artigo para ‘Cadernos de Teresina’ que, por sorte, não foi publicado (chegou com atraso). Hoje eu não subscreveria tudo que ali afirmei.”

Todavia, o próprio Odilon Nunes, segundo afirma João Gabriel Baptista em seu livro Mapa Geohistóricos, pág. 41, teria sido pessoalmente convencido por Cláudio Melo de que efetivamente o rio Piracuruca não era o Bitorocara. E ele João Gabriel confessa também ter se convencido de que a razão estava com Melo.

Espancando qualquer dúvida que possa existir sobre a localização de Bitorocara, no livro acima citado, o padre Cláudio, um dos maiores historiadores de nosso estado, afirma, a meu ver de forma categórica e peremptória:

“De início, eu supunha que o riacho Bitorocara era o Surubim, em razão de a Fazenda Bitorocara ser a atual cidade de Campo Maior. A descoberta em Portugal da sesmaria de Dâmaso Pinheiro de Carvalho, nas cabeceiras do riacho Cobras, me fez ver que Cobras é o Surubim. Bitorocara, portanto, ou seria o Longá ou o Jenipapo. Surgiu para mim um impasse: a fazenda Serra fica no Longá e o Jatobá no Jenipapo. Como os limites da fazenda Serra não atingiam o Jenipapo, mas os limites da fazenda Jatobá podiam chegar até o Longá, concluí, por fim, que Bitorocara seria o Longá. A fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles.”

Para chegar a essa conclusão, pelo que se depreende de seu conselho (ou advertência), acima transcrito, o notável historiador piauiense leu e releu várias vezes e em profundidade o relatório da lavra de Pe. Miguel, com certeza cotejando-o com os vários documentos que consultou em Portugal e no Piauí, muitos deles transcritos no livro Bernardo de Carvalho, de sua autoria.

O padre Miguel, em seu relatório, indicava os rios em que as fazendas por ele referidas se situavam, preservando dessa forma a sua localização. As fazendas, na época, eram muito extensas. Ele situava três no riacho Bitorocara (Longá): a primeira, de nome Serra, ficava nas cabeceiras; a segunda, Bitorocara, se lhe seguia, e “a terceira e última deste riacho se chama o Jatobá”. Evidentemente a fazenda Jatobá ficava na margem direita do Jenipapo, que desemboca no Longá, podendo ter prosseguimento pela margem direita deste rio, uma vez que, na expressão de padre Cláudio, “a fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles”. A linha de raciocínio do historiador obedece à lógica, e não a uma simples ilação tirada do nada, e, portanto, não merece reparo.

Como é sabido por todos, a antiga igreja de Santo Antônio do Surubim foi construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar a pedido de seu sobrinho, o Pe. Tomé de Carvalho. Quase sempre (e não conheço exceção) as igrejas eram erigidas pelos fazendeiros nas proximidades da casa-grande ou residência, sempre que possível sobre uma colina ou outeiro, em terras de sua propriedade ou posse. Essa era a praxe na história do Piauí, ainda hoje observada. Quem iria construir uma ermida ou igreja distante de sua casa e fora de sua propriedade? Considerando-se que a fazenda Bitorocara (antigo nome do rio Longá) ficava na margem desse rio é lógico concluir-se que ela ficava nas proximidades da igreja construída por seu proprietário nas imediações do rio Cobras, hoje Surubim.

Sobre isso vejamos o que diz o historiador e genealogista Valdemir de Castro Miranda, em seu trabalho intitulado “Sobre as origens de Campo Maior”, publicado no blog poetaelmar.blogspot.com.br, em 04.09.2015:

Campo Maior tem sua origem ligada à figura do mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da Fazenda Bitorocara no ano de 1695, na confluência dos rios Longá com o Surubim. Por volta de 1706, o Pe. Thomé de Carvalho e Silva fez desobriga na região, fundando ali um curato. Mais tarde, com a ajuda de Bernardo de Carvalho e Aguiar, construiu a Igreja de Santo Antonio, batizada a 12.11.1712, com a instalação da Freguesia de Santo Antonio do Surubim ou Longá, a segunda do Piauí e ainda ligada ao Bispado de Pernambuco. O procedimento para a instalação da nova Freguesia, foi o mesmo adotado pelo Pe. Miguel de Carvalho quando da instalação da Freguesia da Mocha, reuniu os moradores da região para definir o local da edificação do templo. Não contando com a ajuda dos arrendatários das fazendas da região, mas com o cel. Bernardo de Carvalho e Aguiar que construiu a capela a suas custas, conforme consta em carta do Pe. Thomé de Carvalho e Silva, Vigário confirmado na Matriz de Nossa Senhora da Vitória do Piauí de Cima em toda ela Vigário da Vara, pelo ilustríssimo Sr. Dom Manuel Álvares da Costa, Bispo de Pernambuco e do Conselho de Sua Majestade, que Deus guarde:

“Certifico que sendo esta minha Freguesia muito dilatada pelas grandes distâncias, principalmente a ribeira dos Longases, aonde não podia desobrigar a tempo de acudir com os Sacramentos nas necessidades dos meus fregueses residentes nela, pelos muitos rios que tem em meio para esta minha igreja, requeri ao Sr. Bispo de Pernambuco, mandasse fazer Igreja curada na dita ribeira dos Longases, por assim convir ao serviço de Deus, Nosso Senhor, ao que deu logo cumprimento. O dito Sr. Bispo mandou-me ordem para a poder fazer e, indo a esta parte, convoquei os principais moradores e, tomando-lhes os seus votos na parte que havia de erigir a nova Capela, que por invocação tem o nome do Glorioso Santo Antônio, lhe não achei possibilidade pra fazerem, dando várias desculpas pelos poucos escravos que tinham, e estando ocupados em fazendas que tinham os seus donos na Bahia as não podiam desamparar. Nestes termos, me vali do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa, tanto de escravos como gastos, farinha e dinheiro. E o acho com ânimo de gastar nela cabedal. Outrossim se me ofereceu com o gado que necessitasse para a nova ereção desta Matriz de Nossa Senhora da Vitória, e me prometeu 200$000 (duzentos mil reis) para uma Custódia para a dita Matriz e que se custasse mais o daria”.
(MELO, Pe. Cláudio. Fé e Civilização, 1991, p. 47-8).


[Não obstante sua meridional clareza, acho importante frisar: no documento acima transcrito o padre Tomé de Carvalho declara que para a construção da igreja sob a invocação do Glorioso Santo Antônio fez reunião com os principais moradores do lugar, mas que nenhum quis ou pôde ajudá-lo; que nestes termos se valeu “do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa”. Essa afirmativa, por si só, demonstra que o templo ficava perto da sede da fazenda ou da residência de Bernardo.]

    Recentemente uma voz discordante afirma que a Fazenda Bitorocara ficava, aproximadamente, onde hoje estão situados os municípios de São Bernardo – MA, Luzilândia e Campo Largo, os dois últimos no Piauí. O imóvel ficava em ambos os lados do rio Parnaíba. O defensor dessa hipótese parte do pressuposto de que o Arraial Velho e Bitorocara seriam termos sinônimos, e se fundamenta no fato de que Miguel de Carvalho e Aguiar, filho do Senhor de Bitorocara, teria herdado a sesmaria de Arraial Velho de seu pai, conforme documento existente em Belém do Pará, cuja propriedade em favor de Miguel foi confirmada em 1739. Essa informação é verídica e está devidamente documentada. Só um louco ou mistificador a negaria. Aliás, essa notícia é antiga, e já está inserida no livro Cronologia Histórica do Estado do Piauí, da autoria de F. A. Pereira da Costa, cuja primeira edição data de 1909.

Contudo a hipótese de que Bitorocara ficava no rio Parnaíba, na altura de São Bernardo, Campo Largo e Luzilândia, não pode prosperar, e muito menos se estabelecer como verdade, pelos motivos que passarei a expor de forma sintética.

Primeiro, Arraial (velho ou não) nunca foi e não é sinônimo de Bitorocara. É apenas um topônimo genérico, e que designa vários locais do Brasil, e mesmo do Piauí. Assim, no nosso estado existiram vários arraiais, entre os quais cito o que deu origem a Jerumenha, o dos aroases, o dos paulistas, o de Nossa Senhora da Conceição, o dos Ávilas, o que originou a atual cidade e município de Arraial e, evidentemente, o arraial que se formou no entorno da Fazenda Bitorocara e da igreja de Santo Antônio do Surubim, nela situada, etc.

O certo é que o Arraial Velho que deu origem à cidade de São Bernardo (MA) não é e nem poderia ser o arraial velho que formou a cidade de Campo Maior.

Por outro lado, em termos cronológico e documental, Bitorocara jamais poderia se referir ao Arraial Velho do rio Parnaíba, uma vez que o documento a este referente data de 1739, enquanto a referência à fazenda Bitorocara, feita pelo padre Miguel de Carvalho é datada de 1697, conforme seu relatório, publicado sob o título de Descrição do Sertão do Piauí.

Ademais, o seu autor, Miguel de Carvalho, em sua desobriga, que relatou nesse documento, percorreu apenas as terras que ele entendia como pertencentes à freguesia de Nossa Senhora da Vitória, conforme explicitou o padre Cláudio Melo em seus comentários (v. bibliografia): “Outras porções do território piauiense também eram habitadas, mas ficaram excluídas desta Descrição; é o caso dos sertões do Parnaguá (que ficariam na jurisdição de outra freguesia a ser instalada) é o caso do baixo Longá, Piracuruca e litoral que já estavam assistidos pelos Filhos de Santo Inácio, na Ibiapaba.”

Ora, se o padre Miguel de Carvalho sequer percorreu todo o território do atual estado do Piauí, com muito mais razão não poderia ter ido até os atuais municípios de Brejo e de São Bernardo, no Maranhão (em cuja região veio a ser situado o Arraial Velho), que pertenciam a outra jurisdição eclesiástica. Consequentemente, a fazenda Bitorocara a que ele se referiu em seu relatório ficava mesmo no rio Longá, perto de onde fica a atual cidade de Campo Maior.

Em consequência o arraial militar, ou arraial ou ainda arraial velho referente a Campo Maior, que se formou no entorno ou perto da Igreja de Santo Antônio do Surubim, não pode, em hipótese nenhuma, ser confundido com o Arraial Velho maranhense, localizado perto do Parnaíba. Mesmo porque Bernardo de Carvalho e Aguiar, último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão só se mudou para a atual cidade de São Bernardo, da qual é considerado fundador, em 1721, quando deixou o seu cargo.

A fazenda Bitorocara, portanto, ante tudo o que expusemos, ficava na confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo, o que, admitamos, era estratégico, uma vez que haveria suprimento de água para consumo humano e do gado, e para a formação de pastagem, além de que seriam evitados problemas com eventuais confrontantes, porquanto os limites ficariam bem estabelecidos por esses cursos d’ água.           

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

BREVES ANOTAÇÕES SOBRE BITOROCARA


BREVES ANOTAÇÕES SOBRE BITOROCARA

Chico Acoram Araújo
Historiador e cronista

            O ilustre poeta e escritor Elmar Carvalho em seu livro “Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara”, capítulo III (A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA), sustenta que, - assim como todos os maiores historiadores do Piauí, - a fazenda Bitorocara localizava-se realmente nas imediações dos rios Longá e Surubim. Assim, pode se aferir que a origem do nome da fazenda de Bernardo de Carvalho decorreu do fato de que esta propriedade estava localizada próximo ao rio Bitorocara, hoje Longá. Para provar a existência dessa propriedade, Elmar Carvalho recorre várias vezes ao padre Cláudio Melo, considerado um dos maiores historiadores do Piauí. No mencionado capítulo III do seu livro, o escritor destaca alguns comentários de Cláudio Melo, como o que a seguir transcrevo:

 “Todos os maiores historiadores do Piauí afirmam haver existido a fazenda Bitorocara e seu fundador Bernardo de Carvalho Aguiar, a começar pelo mais antigo, o padre Miguel de Carvalho, em sua descrição do Sertão do Piauí, datada de 2 de março de 1697. Quase todos admitem que essa propriedade ficava situada em Campo Maior. E como exceção ou voz discordante, um ou outro admite haver dúvida a esse respeito. (...)”.
“De início, eu supunha que o riacho Bitorocara era o Surubim, em razão de a Fazenda Bitorocara ser a atual cidade de Campo Maior. A descoberta da sesmaria de Dâmaso Pinheiro de Carvalho, nas cabeceiras do riacho Cobras, me fez ver que Cobras é o Surubim, Bitorocara, portanto, ou seria o Longá ou o Jenipapo. Surgiu em mim um impasse: a fazenda Serra fica no Longá e o Jatobá no Jenipapo. Como os limites da fazenda Serra não atingem o Jenipapo, mas os limites da fazenda Jatobá podiam chegar até o Longá, concluí, por fim, que Bitorocara seria o Longá. A fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles. ”

Assim, pelos comentários e explicações de Pe. Cláudio Melo, indubitavelmente, não há dúvidas quanto à existência do rio Bitorocara e a fazenda de mesmo nome, encravada em suas imediações, em cujo entorno se formou um arraial (inicialmente militar) onde foi construída a igreja de Santo Antônio do Surubim, hoje a atual cidade de Campo Maior.

 Por sua vez, falando sobre a existência de Bitorocara, o prestigiado escritor João Alves Filho, Presidente da Academia Campo-maiorense de Artes e Letras – ACALE, em palestra proferida sobre os 300 anos da igreja de Santo Antônio, disse que “o português Bernardo de Carvalho e Aguiar, quando aqui chegou, no ano de 1692, encantou-se com os recursos naturais e com a beleza do lugar. Inicialmente, fundou seu primeiro curral em local que deu o nome de “Cabeça do Tapuio”, hoje município de São Miguel do Tapuio. Em seguida, com o propósito de conquistar novas terras, no ano de 1695, instala uma nova fazenda na confluência dos rios Longá e Surubim, dando o nome de Bitorocara em homenagem a uma cidade de Portugal. Disse ainda que Bernardo de Carvalho e Aguiar, depois de um ano residindo nesse lugar, recebeu a visita do Padre Miguel de Carvalho, que instalara a Freguesia da Mocha, hoje, a cidade de Oeiras, com o objetivo de ampliar suas atividades religiosas na região.

João Alves relata também que em 1710, Bernardo de Carvalho e Aguiar recebe a visita do Padre Tomé de Carvalho, e toma a decisão “de dividir seu rebanho, construindo em Bitorocara uma igreja, por se encontrar a região, a 600 quilômetros da Vila Mocha”. Bernardo de Carvalho e Aguiar como bom religioso deu ao Pe. Tomé todo o apoio material e humano para a construção da primeira igreja às margens do Longá e do Surubim, e a deu por invocação ao Glorioso Santo Antônio de Pádua. A solenidade de inauguração da igreja, celebração da primeira missa e instalação da imagem de Santo Antônio, aconteceu no dia 12 de novembro do ano de 1712.

No livro Bernardo de Carvalho O Fundador de Bitorocara, Elmar Carvalho lembra que o romancista e historiador Afonso Ligório Pires de Carvalho destacou que o padre Cláudio Melo adquiriu a certeza de que Campo Maior teve a sua origem a partir da fazenda Bitorocara ao ler o testamento de Miguel de Carvalho e Aguiar, filho de Bernardo de Carvalho.

Por outro lado, o ilustre escritor e poeta anexa como prova de que Bitorocara é a atual cidade de Campo Maior, o fato de a antiga igreja de Santo Antônio do Surubim ter sido construída por Bernardo de Carvalho Aguiar e batizada em 12.11.1712, a pedido de seu sobrinho, o Pe. Tomé de Carvalho, argumentando ainda que as igrejas de antigamente sempre eram construídas pelos fazendeiros nas proximidades da casa-grande ou residência, em terras de sua propriedade ou posse. E a igreja de Santo Antônio do Surubim não poderia ser diferente, daí a convicção de que esta foi construída em suas terras, próximas aos rios Longá e Surubim.

Há, no entanto, quem pense diferente. Em recente trabalho publicado por um autor campo-maiorense ele afirma que a Fazenda Bitorocara não estava localizada em Campo Maior, mas nas proximidades onde estão situados os municípios de São Bernardo, Maranhão, e Luzilândia e Campo Largo, do lado do Piauí. Ou seja, a referida fazenda estava encravada em ambas as margens do rio Parnaíba, afirmando ainda que o “Arraial Velho e a Bitorocara são termos sinônimos da mesma fazenda”. Baseou-se o novo trabalho no pressuposto de que a Data Arrayal, de propriedade de Miguel de Carvalho Aguiar, filho do Mestre de Campo Bernardo de Carvalho, seria a mesma fazenda Bitorocara, cuja denominação passou a ser mencionada como Arraial Velho.

Por considerar uma tese simplista, o eminente escritor e poeta campo-maiorense Elmar Carvalho discorda frontalmente dela e alerta que “Arraial (velho ou não) é um topônimo genérico, e que designa vários locais do Brasil, e também do Piauí”. No caso do Piauí, o escritor cita, por exemplo, o que deu origem ao município de Jerumenha, o dos Aroases, o dos Paulistas, o de Nossa Senhora da Conceição, o dos Ávilas, e o que originou a atual cidade e município de Arraial. Afirma ainda que na fazenda Bitorocara, entorno da igreja de Santo Antônio do Surubim, formou-se também um arraial.

Incansável na sua luta para provar que a velha fazenda de Bernardo de Carvalho e Aguiar ficava mesmo próximo ao rio Bitorocara, que seria o mesmo Longá. Elmar Carvalho justifica ainda que, em termos cronológico e documental, Bitorocara jamais poderia se referir ao Arraial Velho do rio Parnaíba, uma vez que o documento a este correspondente é datado de 1739, enquanto a referência à fazenda Bitorocara, apontada pelo Pe. Miguel de Carvalho é de 1697, conforme explicita em relato publicado sob o título de Descrição do Sertão do Piauí.

Acobertado pelas provas documentais existentes, o ilustre escritor e poeta afirma sem rodeios que:

“O certo é que o Arraial Velho que deu origem à cidade de São Bernardo (MA) não é e nem poderia ser o Arraial Velho que formou a cidade de Campo Maior. ”

E vai mais além, ao afirmar que o Pe. Miguel de Carvalho, autor do mencionado relatório, em sua desobriga, “percorreu apenas as terras que ele entendia como pertencentes à freguesia de Nossa Senhora da Vitória, conforme explicitou o padre Cláudio Melo em seus comentários (v. bibliografia) ”.

“Ora, se o padre Miguel de Carvalho sequer percorreu todo o território do atual estado do Piauí, com muito mais razão não poderia ter ido até os atuais municípios de Brejo e de São Bernardo, no Maranhão (em cuja região veio a ser situado o Arraial Velho), que pertenciam a outra jurisdição eclesiástica. Consequentemente, a fazenda Bitorocara a que ele se referiu em seu relatório ficava mesmo no rio Longá, perto de onde fica a atual cidade de Campo Maior. ”

Ao final do capítulo III do seu livro “Bernardo de Carvalho, O Fundador de Bitorocara (2ª edição virtual), o ilustre escritor, de forma peremptória, conclui:

“Em consequência o arraial militar, ou arraial, ou ainda arraial velho referente a Campo Maior, que se formou no entorno ou perto da igreja de Santo Antônio do Surubim, não pode, em hipótese nenhuma, ser confundido com o Arraial Velho maranhense, localizado perto do Parnaíba. Mesmo porque Bernardo de Carvalho e Aguiar, último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão só se mudou para atual cidade de São Bernardo, da qual é considerado fundador, em 1721, quando deixou o cargo.
A fazenda Bitorocara, portanto, ante tudo o que expusemos, ficava na confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo, o que, admitamos, era estratégico, uma vez que haveria suprimento de água para consumo humano e do gado, e para a formação de pastagem, além de que seriam evitados problemas com eventuais confrontantes, porquanto os limites ficariam bem estabelecidos por esses cursos d’água”.


Diante dessas breves anotações não há como duvidar da existência da fazenda Bitorocara, que se transformou em Arraial Velho, local onde foi construído um templo dedicado a Santo Antônio. Sua localização na confluência dos rios Longa (Bitorocara) e Surubim é incontestável, tomando-se por base as tratativas do insigne poeta e escritor campo-maiorense Elmar Carvalho, baseadas em pesquisas realizadas em registros históricos da lavra de respeitáveis historiadores piauienses como os Pe. Miguel Carvalho e Cláudio Melo. Ademais, o ilustre escritor João Alves Filho, o historiador Gilberto de Abreu Sodré Carvalho e o cronista Antônio Francisco de Sousa defendem e comungam da argumentação defendida por Elmar Carvalho. E, por tudo que li até agora sobre o assunto, acredito piamente que a fazenda Bitorocara realmente existiu nas confluências dos rios Longá e Surubim. “SITUAR BITOROCARA É FÁCIL, ESTÁ NA CARA”, como diria meu amigo Francisco Almeida, grande cordelista e Advogado da União, em sua mais recente obra publicada no Blog do Elmar Carvalho. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Sobre “Bernardo de Carvalho – o fundador de Bitorocara”, por Elmar Carvalho



Sobre “Bernardo de Carvalho – o fundador de Bitorocara”, por Elmar Carvalho
  
Gilberto de Abreu Sodré Carvalho
Romancista, historiador e genealogista

Foi publicada a segunda edição, revista e ampliada, de “Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara”, neste ano de 2015, como livro eletrônico pela AMAZON. A qualidade historiográfica da obra me enseja, irresistivelmente, a falar sobre ela.
A segunda edição é tão rica em novidades e na criação de contextos históricos importantes, que poderia ter um novo título. Acresce que o “volume” digital contém anexos muito úteis de matéria relacionada com o corpo do texto.
Outro ponto, que me encanta, é que o festejado poeta e ensaísta Elmar Carvalho, meu primo remoto, com quem compartilho o mesmo sobrenome Carvalho, nos remete, aos dois juntos, o escritor e eu, o seu leitor, aos nossos velhos antepassados Carvalho de Almeida do Piauí. Nada mais prazeroso, para ele, eu imagino, como seria para mim (que tiro proveito fazendo esta resenha), que escrever sobre Bernardo de Carvalho e Aguiar. Esse herói foi tio dos nossos ancestrais, em comum, Manuel e Antônio Carvalho de Almeida, e dos seus irmãos párocos: Miguel de Carvalho, Tomé de Carvalho e Silva, e Inocêncio de Carvalho, esse último ativo no sul.
O livro é um ensaio histórico, com sustentação bibliográfica pertinente, sobre Bernardo de Carvalho, senhor da fazenda Bitorocara, da qual se originaram Campo Maior e outras cidades. Foi ainda o realizador da conquista portuguesa das terras nortenhas do Piauí.   
A questão da localização geográfica da antiga fazenda Bitorocara, que pertenceu ao grande Bernardo, sugere algumas palavras minhas sobre o assunto, em linha com o que é trazido de informação pelo autor. O assunto é bem coberto por Elmar Carvalho, no bojo da sua ágil e agradável narrativa sobre a vida notável de Bernardo de Carvalho, mestre de campo e cavaleiro da Ordem de Cristo.
A velha vila de Campo Maior, no Piauí, teve uma extensão original vasta, na medida em que correspondeu a boa parte da área que esteve sob o domínio de Bernardo, no final do século 17 e início do 18. Com o tempo, desde o ano de 1762, data da criação da vila, o seu território foi sendo reduzido, com a formação de entidades políticas novas, ou seja, vilas e municípios, mediante desmembramentos. Tais novos municípios surgiram a partir do desenvolvimento de antigas ou de novas circunscrições proprietárias, a dizer, fazendas com seus currais, em combinação com freguesias, no sentido de paróquias católicas ao mesmo tempo que unidades políticas seminais.
Na fase histórica anterior à organização político-administrativa do Brasil, os rios foram importantes. Eles serviam tanto para dar acesso a novas áreas para a conquista e ocupação da América Portuguesa, como para nomearem-se as regiões e os sítios, na falta de outras alternativas mais pertinentes. São assim comuns em todo o Brasil, e no Piauí, topônimos que remetem a um rio, quase sempre antecedido por um nome de santa ou de santo. Os rios garantiam aos conquistadores o comércio, o transporte de gente comum e de guerra, a nutrição direta mediante os peixes e os demais, as melhores pastagens as suas beiras, a água para a irrigação da lavoura e a energia para os moinhos.
Elmar Carvalho, em seu ensaio histórico, registra, com desenvoltura e ótima síntese, a argumentação do saudoso padre Cláudio Melo sobre a localização da fazenda Bitorocara, do final do século 17. Tal fazenda foi a origem, por via do povoado do Arraial Velho, nela situado, da freguesia, da vila e da posterior cidade de Campo Maior.
O fato, comprovado pelo Padre Melo, com o imediato acatamento de Odilon Nunes (que antes pensava o rio Bitorocara ser o rio Piracuruca), é de que a fazenda Bitorocara tinha, por território nuclear, a região da confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo. Se o rio Bitorocara fosse o rio Piracuruca, a fazenda Bitorocara não poderia geograficamente corresponder a Campo Maior. São justamente os elementos de convicção, de natureza geográfica, que levam a entender-se que o rio Bitorocara é o mesmo que foi, em seguida, chamado de rio Longá. Disso, dessa conclusão, percebe-se a antiga fazenda Bitorocara no seu verdadeiro lugar. 
Ocorre que, de antes, no tempo de Bernardo e por conta de ele o ter chamado desse modo, o rio Longá era conhecido como rio Bitorocara, e o rio Surubim era chamado de rio Cobras. O nome Bitorocara só consta da “Descrição do sertão do Piauí”, escrita, em 1697, pelo padre Miguel de Carvalho, sobrinho do grande Bernardo.
A argumentação de Elmar Carvalho, sobre a origem do atual município de Campo Maior na fazenda Bitorocara, é a apresentada originalmente, com bastante documentação, pelo Padre Cláudio Melo no seu “Os primórdios de nossa história”, de 1983, páginas 167 a 176, reafirmada por Afonso Ligório Pires de Carvalho, em “Terra do gado – a conquista do Piauí na pata do boi”, Brasília: Thesaurus, 2007, e, mais recentemente, por Valdemir Miranda de Castro, em “Enlaces de famílias”, 2014.
Existem, em Elmar Carvalho, mais argumentos em favor de o berço de Campo Maior ser a fazenda Bitorocara, com sua sede na confluência do rio Longá, antigo Bitorocara, com o rio Surubim e o rio Jenipapo. Mais exatamente, na junção do Longá com o Surubim. Ocorreu de a fazenda Bitorocara ter abrigado um arraial militar, chamado, após os anos, de Arraial Velho. É, com esse nome, que consta do testamento de Miguel de Carvalho e Aguiar, filho de Bernardo, que o passa à sua neta. Tal sítio - de encontro de homens de guerra lusos, mestiços e indígenas - foi estratégico na conquista do norte do Piauí aos índios. Do Arraial Velho, ou seja, da povoação permanente que lá se instalou, surgiu uma freguesia, sendo o primeiro pároco o padre Tomé de Carvalho e Silva, sobrinho de Bernardo e irmão inteiro do padre Miguel de Carvalho. Dela, da freguesia, em seguida, se teve a vila e, por fim, o município de Campo Maior.
Bitorocara, na confluência dos três rios, dava meios para deslocamentos variados de forças armadas de portugueses e índios aliados. Neste cenário físico, o mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, cavaleiro da Ordem de Cristo, era o chefe militar, sendo seu lugar-tenente Manuel Carvalho de Almeida, seu sobrinho e irmão inteiro do padre Miguel de Carvalho.

Em suma, a obra de Elmar Carvalho é uma leitura importante para os campomaiorenses, para os estudiosos da formação histórica do Piauí e do Brasil e para os piauienses e brasileiros em geral. A leitura da biografia desse grande homem é muito relevante em um tempo de penúria cívica.      

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

CAMPO MAIOR – TEMPO E SAUDADE

Charge da autoria de Gervásio Castro, que se tornou a capa da 2ª edição de meu livro Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara



 

CAMPO MAIOR – TEMPO E SAUDADE

 

Elmar Carvalho

 

Quando literalmente tombaram

a Fazenda Tombador,

nenhuma voz se levantou,

nem mesmo a voz de alguém,

que clamasse no deserto, clamou.

E a Fazenda Tombador

literalmente tombou.

EC

 

Por esses dias estive lendo Tempo e Saudade – nos caminhos da cidade, do professor, advogado e escritor Francisco de Assis de Lima. Segundo consta na orelha ele foi liderança estudantil, tendo idealizado e realizado, durante 14 anos, a Festa Coração de Estudante, tendo sido também presidente da AUCAM. Foi presidente do SINTE – Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Piauí – Regional de Campo Maior. Fundou a Academia de Letras do Território dos Carnaubais. É o idealizador do Museu Popular. Exerceu vários cargos, entre públicos e privados. É servidor público estadual e municipal.

O seu livro trata de importantes assuntos da história de Campo Maior, entre os quais a fazenda Bitorocara, a primeira igreja de Santo Antônio, a criação da Vila de Campo Maior, o pelourinho, a criação de gado bovino, as lutas pela Independência do Brasil em terras piauienses, com ênfase para a Batalha do Jenipapo e as campanhas pelo reconhecimento de sua importância, cronologia dos fatos notáveis da localidade.

Aborda ainda a Intendência e a Câmara Municipal, citando vários de seus presidentes. Apresenta a síntese biográfica de vários campomaiorenses ilustres. Relata aspectos importantes do futebol e da cultura do município. Disserta sobre a saga do jornal A Luta, do qual eu e meu pai fomos colaboradores, nos idos de 1970. Como não poderia deixar de ser, sendo ele professor, discorre sobre a Educação do município, seus professores mais notáveis e seus principais educandários. Em suma, é um belo livro, pelo conteúdo, pela boa impressão, em papel de boa qualidade e com muitas fotografias de alta resolução, que merece estar na biblioteca de qualquer campomaiorense, amante da história de seu torrão.

O livro foi prefaciado pelo médico e escritor José Itamar Abreu Costa, e apresentado pela historiadora Pauliana Maria de Jesus, de cuja apresentação recolho o seguinte: “Adotando uma escrita simples e conservadora o autor narra a história de Campo Maior, desde a sua origem até os tempos atuais. Traz uma variedade de fontes como: imagens, leis e textos do jornal A Luta, enfatizando a importância desse periódico que funcionou como um veículo de notícias e informações sobre a cidade, um espaço de denúncias e críticas a determinadas ações do poder público ou cobranças por melhorias no município. O periódico A Luta foi criado em 1967 e funcionou até o final da década de 1970. Desse modo, o autor expõe diferentes textos do periódico A Luta deixando que o documento ‘fale por si só’ até mesmo como uma forma de não tirar o mérito daqueles que escreveram muitos desses textos.”

Como disse, meu pai e eu fomos colabores desse jornal. Minha primeira colaboração data de 1972, quando eu tinha 16 anos de idade. Nele publiquei contos e crônicas. Uma dessas crônicas discorre sobre a vez em que encontrei, no velho cemitério da Irmandade de Santo Antônio, o túmulo do poeta Moisés Eulálio. O jornal, portanto, além de noticioso e opinativo, e de fazer denúncias e críticas, também possuía um viés literário. Tinha ainda uma coluna social. Eu gostava de ler as matérias escritas pelo Irmão Turuka e pelo Dr. José Francisco Bona. Creio que as matérias escritas por eles dariam um belo livro.

Em sua parte final, a obra apresenta textos e/ou a síntese biográfica de autores campomaiorenses, entre os quais cito: José Miranda Filho, Ernani Napoleão Lima, José Elmar de Mélo Carvalho, José Omar Araújo Brasil, José Wagner Brazil Araújo, José Ataide Tôrres Costa Filho e um poema de cordel em homenagem a João Alves, da autoria de Antônia Pessoa. Eu tive a honra (e, por isso, sou grato ao Assis Lima), de ter o meu “épico moderno” A Zona Planetária transcrito na íntegra. Esse poema foi inspirado nessa zona meretrícia, que ostentava na parede da frente de cada um dos cabarés o nome e a imagem do respectivo planeta, que por sua vez tinha o nome de deuses greco-romanos. Assim, mesclei em meus versos a sociologia dos lupanares, a astronomia do sistema solar e a mitologia grega e latina.

Em sua apresentação, a historiadora Pauliana Maria de Jesus observa que o autor, “apesar de concordar e reafirmar sobre a teoria de Cláudio Melo, que defendeu o papel do Mestre-de-Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar como precursor no desbravamento da região dos carnaubais, sendo responsável pelo povoamento de Campo Maior; tendo contribuído com a instalação da fazenda Bitorocara e construção da Igreja de Santo Antônio, célula de nascimento da cidade, Francisco de Assis problematiza sobre a ausência de vestígios que comprovem a localização da referida fazenda Bitorocara, haja vista que existem fazendas mais antigas que, apesar do tempo, ainda permanecem vestígios e até mesmo a estrutura bem conservada, como exemplo, da fazenda Abelheiras que é do mesmo período, assim, o autor abre espaço e diálogo para novas pesquisas acerca desse tema”.

É exatamente sobre esse questionamento ou problematização, que desejo tratar a partir deste ponto. Não falarei sobre a localização de Bitorocara, porque já o fiz através de meu artigo A localização da fazenda Bitorocara, que se encontra disponível na internet, no seguinte endereço: https://poetaelmar.blogspot.com/search?q=A+localiza%C3%A7%C3%A3o+de+bitorocara 

O historiador Reginaldo Miranda, membro da Academia Piauiense de Letras, também já elucidou esse assunto, com texto publicado na internet.

Antes, porém, de enfrentar a problematização acima exposta, quero abordar e elucidar um outro questionamento que me diz respeito, diretamente.

Na página 21 do livro em comento, o autor afirma que não sou parente de Bernardo de Carvalho, e se o fosse, seria distante. Sinto-me compelido a esclarecer esse ponto. Nunca disse ser ou não ser parente dessa ilustre figura histórica. Por parte de meu pai, pertenço à família Carvalho de Almeida, de Barras. Sou descendente direto de Antônio Carvalho de Almeida (o 1º deste nome), sobrinho do padre Tomé de Carvalho. Foi este sacerdote que pediu a seu parente Bernardo de Carvalho, que construísse a primeira igreja de Santo Antônio do Surubim, tendo sido prontamente atendido, conforme está amplamente comprovado, através de certidão do ilustre vigário, que também foi o responsável pela construção da vetusta igreja de Nossa Senhora da Vitória, em Oeiras, que hoje é catedral. Nada mais desejo acrescentar sobre este assunto; e só fiz este breve comentário para esclarecer a dúvida exposta no livro.

Com todo o respeito ao historiador Francisco de Assis de Lima, penso que a comparação da fazenda Bitorocara de Bernardo de Carvalho com a fazenda Abelheiras não foi pertinente, no modo como foi feita, pelos motivos que direi. Vejamos o que diz o seu proprietário, o médico e escritor Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, em seu livro Abelheiras (p. 73/74): “Em 1839 Jacob [de Almendra] foi à Bahia, a cavalo, distante mais de duzentas léguas do seu local de moradia e ali entabulou negócio com o visconde de Pirajá [Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque], de quem adquiriu, por dois contos de réis, as fazendas Abelheiras e Foge-Homem, no Piauí. A escritura pública foi lavrada em cartório, na cidade de Salvador, em 08 de agosto de 1839. Em Abelheiras tem-se como certo que o novo proprietário construiu o casarão de alvenaria, sede da fazenda, porque na escritura de transferência constam apenas casas de taipa, e porque na década de 1950, ao se fazer uma reforma, encontrou-se uma telha onde estava gravado, à mão, a data de 1842 – três anos após a compra. É muito provável que seja este o ano da construção da casa de Abelheiras, que ainda hoje encontra-se de pé. Quanto aos paredões de pedra dos currais de gado, tudo leva a crer que são mais antigos, da época da Casa da Torre.”

Portanto, dessa forma, Jacob de Almendra fez uma nova casa, de alvenaria, já que a antiga era de taipa, como consta no traslado de escritura (p. 63/66): “(...) Abelheiras e Foge Homem sitas na Vila do Campo Maior da Cidade de Oeiras Província do Piauhy e constam de terras casas de taipa currais e utencis”. Ou seja, as edificações eram de taipa, e não de alvenaria. Portanto, a atual sede de Abelheiras, que é de alvenaria, não poderia nunca ser as referidas no documento acima citado. Por via de consequência, embora a fazenda seja da mesma época da de Bernardo de Carvalho, a atual sede de Abelheiras é mais de 140 anos mais nova que a sede da fazenda Bitorocara.

Ora, se as sedes dessas duas fazendas acima referidas, pertencentes à poderosa Casa da Torre dos Garcia d’ Ávila, eram de taipa, tenho a convicção de que a sede da de Bernardo de Carvalho também o era. Não havia nenhum motivo para não o ser, ainda mais porque se destinava a ser sede de fazenda para criação de gado bovino. Assim, deveria ser uma construção rústica, de barro, palha e carnaúba, o que já acarretava a sua fragilidade, mormente quando não mais usada pelo proprietário. A incidência de temporais, intempéries e goteiras vai dissolvendo o barro da taipa, mormente nas invernadas rigorosas.

Bernardo de Carvalho deixou o Piauí em 1721, quando foi morar em sua fazenda São Bernardo, no Maranhão, onde construiu uma igreja sob a invocação desse santo. Por isso, é considerado o fundador dessa cidade. O escritor Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, membro da Academia Piauiense de Letras, em seu festejado romance Mandu Ladino, considera que a sede da fazenda Bitorocara ficaria a seis quilômetros do local onde Bernardo construiu a igreja de Santo Antônio do Surubim, na confluência dos rios Surubim e Longá, em local talvez alagadiço, na época das grandes chuvas. Se isso for verdade (e não apenas ficção), com o afastamento de Bernardo e o consequente abandono da casa, certamente em pouco tempo essa frágil construção se tornou ruína; e já mais de 3 séculos se passaram.

Contudo, se ela ficava perto da igreja, como também é possível, foi sendo incorporada à pequena urbe que se foi formando, em torno dela e da igreja, de modo que é possível que tenha sido demolida, para a construção de outra, em alvenaria, e em formato arquitetônico mais apropriado para o uso urbano, e não mais, claro, como sede de fazenda. Portanto, pode simplesmente, pelo abandono, ter-se tornado ruína, ou ter sido demolida, para dar lugar a uma nova construção ou mesmo a uma reforma que a tenha descaracterizado. Em trezentos anos, muitas coisas podem acontecer.

Em sua monumental e primorosa obra Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy, em elegante prosa, quase diria poética, Olavo Pereira da Silva f., nos fala de quão frágeis são as construções feitas com esses materiais: “Carnaúba, pedra, barro, casas de boiadeiros, currais e cercas de pedra seca cravados no pasto orvalhado de Campo Maior (...) nos invernos de águas mansas, de várzeas recobertas de salsa roxa, em dias ventosos de batizados, quando o pau-d’arco e o flamboiã floravam labaredas (...) Miragens dos currais decadentes, o pequeno sítio se desfez e por falta de uso a casa desvaneceu.”

Não me causa nenhuma espécie ou estranheza a casa-grande de Bernardo de Carvalho haver desaparecido sem deixar vestígio. Em Teresina e em outras cidades grandes várias casas sólidas, de alvenaria, se “desvaneceram”, sem deixar o menor indício de sua existência, para simplesmente o imóvel ser transformado em estacionamento ou altos edifícios residenciais ou comerciais.

Em Campo Maior mesmo, nas últimas oito décadas, várias e importantes e históricas edificações desapareceram sem deixar o menor rastro, entre as quais cito as seguintes: a própria igreja colonial, cuja origem remontava a Bernardo de Carvalho, a casa da Fazenda Tombador, que já existia no tempo da Batalha do Jenipapo, alguns casarões da Praça Bona Primo, um dos quais fora sede da prefeitura, e um solar imponente, que ficava na frente dos Correios, e que desapareceu, para ser construída a sede de um supermercado. Devo dizer que, em minha meninice e adolescência, conheci muitas dessas edificações, inclusive a velha Fazenda Tombador, cuja demolição lamentei num de meus poemas. Dessa forma, posso dizer que, mesmo em nossa cidade e em tempos mais recentes, são inúmeras as casas que desaparecem sem deixar vestígio.

Quando tomei posse de minha cadeira na Academia de Letras do Vale do Longá, no ano de 1997, asseverei em meu discurso que se providências não fossem tomadas as velhas casas, que formavam o conjunto de cabarés da velha Zona Planetária, iriam se transformar em escombros. Infelizmente, para minha consternação, fui um bom profeta. No rigoroso “inverno” de 2006 ou 2007, creio, tombou o quarteirão em que ficavam os velhos lupanares. Parecia haver sido arrasado pelas bombas ou mísseis de uma guerra.

Isso me faz recordar a beleza dos títulos dos livros “A insustentável leveza do ser” e “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Tudo é frágil, tudo passa. Como são efêmeras a adolescência e a juventude. O mundo é composto de mudança, já nos dizia Camões. Só Deus é eterno, e pura e permanente a sua existência. A casa avoenga do poeta Manuel Bandeira, que lhe parecia tão sólida, não o era, como ele próprio disse, em seu poema Evocação do Recife:

A casa de meu avô…

Nunca pensei que ela acabasse!

Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Mas o mesmo vate, em outro poema, nos falou da importância da memória, ante a fragilidade das coisas, mesmo a das que nos parecem “impregnadas de eternidade”:

Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar,

Não como forma imperfeita

Neste mundo de aparências:

Vai ficar na eternidade,

Com seus livros, com seus quadros,

Intacto, suspenso no ar!

Assim, repito, não me causa a menor estranheza, que a sede da fazenda de Bernardo de Carvalho, que teria mais de 3 séculos, tenha desaparecido sem deixar vestígio, como desapareceram vários solares e mesmo uma igreja, sem que deles nada mais reste, sequer o menor rastro. E de vários desses desaparecimentos muitos campomaiorenses, maiores de 50 anos, são testemunhas oculares.