sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

A saudade e a morte de Ribamar


Ribamar e sua filha Samantha, na Argentina

A saudade e a morte de Ribamar

 

Elmar Carvalho

 

Fui ao cemitério Recanto da Saudade, para participar da cerimônia de sepultamento do juiz de Direito José Ribamar Oliveira Silva (19/03/1961 – 15/12/2022).

Sem desejar fazer trocadilho com o nome do campo santo, mas Ribamar deixou saudade. Senti isso na tristeza e mesmo no choro de vários de seus amigos e familiares, que lá se encontravam e participaram da cerimônia religiosa e do sepultamento propriamente dito.

Antes da chegada do cortejo, conversei com o amigo Raimundo Nonato de Carvalho Teixeira, servidor aposentado da Caixa Econômica Federal e professor de Química, no ensino médio. Nonato é amigo de infância do Ribamar; revelou-me que ambos eram “irmãos de leite”, pois um tomou do leite vertido pela mãe do outro, reciprocamente. Esse leite materno parece ter reforçado e consolidado a amizade, porquanto se mantiveram amigos durante todos esses longos anos.

Disse-me o Nonato que o Ribamar tinha uma inteligência prodigiosa, uma vez que aprendia com extrema facilidade, sem necessidade de longas e exaustivas horas de estudo. Passou em importantes concursos. Aprendeu inglês como autodidata, ou por conta própria, sem auxílio de professor.

Ao assumir seu cargo de juiz, permaneceu do jeito que sempre fora, sempre humilde e sem empáfia. Seu comportamento e atitudes perante seus velhos amigos permaneceu inalterável, sem nenhum tipo de presunção.

Conheci Ribamar quando assumi a Comarca de Ribeiro Gonçalves, como seu titular, no ano 2000. Nessa época o ônibus da empresa Princesa do Sul tinha sua agência defronte ao Fórum de Uruçuí, cujo juiz era o José Ribamar Oliveira Silva.

No retorno a Teresina, vindo de Ribeiro Gonçalves, demorava cerca de duas horas nessa agência, para prosseguir na viagem. Então, algumas vezes, fui ao fórum onde sempre recebi uma afetiva acolhida do Ribamar, sempre bem-humorado e risonho. Aliás, o seu filho Rodrigo, conversando com um amigo, perto de onde eu me encontrava, ressaltou essa sua característica.

A Samantha, filha do Ribamar, pranteou muito a sua morte, tendo chegado a sofrer um desmaio perto da cova, mas felizmente foi bem amparada e reconfortada por suas parentas e amigas.

No final, quando me dirigia a meu carro, encontrei na alameda, sob a sombra densa de uma copada mangueira, o advogado Antonio Liborio Sancho Martins, que dirigia palavras de conforto e resignação à Samantha. Parei perto, pois pretendia entregar um livro de minha autoria ao velho amigo Liborio, que estava sem chapéu, não sei por que mistério, mas talvez em respeito à solenidade da morte e a esse tipo de cerimônia.

Quando o nobre causídico encerrou suas palavras, eu disse à filha do Ribamar: “Seu pai já está, neste momento, num lugar muito melhor do que este nosso”. E creio mesmo isso seja verdade, porque acredito nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando ele disse, de forma peremptória, que na casa de seu pai havia muitas moradas.

No caminho até meu carro, o Dr. Liborio me contou que o Ribamar dizia não temer a morte. Creio que ele teve uma morte rápida, sem muito ou nenhum sofrimento, e sem temor. E isso é uma grande graça, que poucos alcançam.    

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

TERESINA – 170 ANOS


 

TERESINA – 170 ANOS

 

Enéas Athanázio

 

A Capital piauiense completou 170 anos. É ainda uma cidade jovem, comparando-se com a maioria das demais. Considerada a Cidade Verde, está situada à margem direita do Rio Parnaíba que divide o Piauí do Maranhão. Situa-se no sertão nordestino, lembrando que sertão, aqui para nós, é a floresta, o mato inceiro, enquanto por lá é a caatinga, o semi-árido. Por tudo isso, é uma cidade de clima quente e seu calor é a forma calorosa com que recebe os visitantes, com perdão da redundância. É a única capital nordestina distante do litoral, foi pré-planejada e sucedeu a Oeiras, no sul do Estado, a primeira capital. Tenho o prazer e a honra de portar a Comenda Conselheiro Saraiva, o fundador da cidade, e o título de Cidadão Honorário do Piauí. Estive lá muitas vezes e conquistei inúmeros amigos.

 

Organizado pelo escritor e fotógrafo Inácio Marinheiro, com a colaboração dos também fotógrafos Juscelino Reis e Terceiro Matos, foi lançado o belíssimo livro-álbum “ Teresina – 170 Anos”, contendo belas imagens da cidade colhidas pelas lentes do trio. Foram fixados os mais expressivos logradouros e os mais belos panoramas que enchem os olhos do leitor. É admirável verificar como a cidade cresceu em todos os sentidos e se desenvolveu com elegância à margem do caudaloso curso d’água que a banha. Teresina está muito longe daquela que visitei pela primeira vez em 1970 e se apresenta moderna e movimentada. Como dizem os organizadores, a publicação contém “verdadeiros cantos de louvor e exaltação à bela e acolhedora Cidade Verde” nos poemas de autoria de inúmeros poetas piauienses de ontem e de hoje que ilustram as imagens com seus inspirados versos. É, na verdade, uma antologia ilustrada.

 

O prefácio é de autoria de Adrião Neto, um dos mais profícuos homens de letras daquele Estado e que considero o arauto do Piauí, tal o seu empenho na divulgação do Piauí e sua Capital. Ele revela nesse breve texto o imenso serviço prestado por Inácio Marinheiro à sua terra de adoção. Plínio da Silva Lopes, em pequeno ensaio, recorda o nascimento de Teresina na confluência dos rios Parnaíba e Poty, cujas águas resistem e tardam a se juntar. Era a Vila do Poty, na Chapada do Corisco. Lucia Ana de Melo Silva contribui com uma crônica memorialista descortinando a Teresina de outrora, nos idos de 1974. Outra crônica registra os efeitos da pandemia sobre a cidade e seu povo, observando com olhar agudo as transformações impostas pela doença. E, em seguida, tem início o deslumbrante desfile de todos ilustradas por poemas das mais variadas correntes e estilos.

 

Entre os poetas publicados estão Adrião Neto, Altevir Alencar. Barros Pinho, Cineas Santos, Domício Proença Filho, Elmar Carvalho, Francisco Miguel de Moura, H. Dobal, Hardi Filho, Francisca Lopes, Lisete Napoleão, Lucídio Freitaas, Nara Santos, Oliveira Neto, Paulo José Cunha, Raisa de Caldas Castelo Branco, Rubervan Du Naascimento, Torquato Neto, Zózimo Tavares. Homens, mulheres, jovens, maduros. Todos entoando louvores à sua cidade. Muitos deles meus conhecidos. Seguem-se notas biográficas dos participantes.

Todas as fotos são de alto nível artístico. Algumas sobrelevam pelo local e pelo ângulo retratados. Assim acontece com a visão de Teresina e suas três pontes, o Palácio de Karnak, sede do governo, a Praça da Bandeira e suas cores, os tarrafeiros do Parnaíba, a visão da Catedral Metropolitana, o bosque e o Cabeça-de. Cuia, a noite na Metrópole, o restaurante flutuante, a Ponte João Luís Ferreira (governador que foi colega de Lima Barreto na Politécnica do Rio de Janeiro), a vista panorâmica, a gare ferroviária, o encontro das águas, o Teatro, o casario antigo. Depois desta lista, retornei ao livro-álbum e fiquei em dúvida sobre minha escolha. Terei feito justiça? Confesso que não sei.

Concluindo, felicito aos que idealizaram e realizaram esta magnífica homenagem à Cidade Verde. Ficará como um marco.   

domingo, 11 de dezembro de 2022

Seleta Piauiense - Durvalino Couto Filho

 

Fonte: Google

TRESIDELA 2

 

Durvalino Couto (1953)

         a Edmar Oliveira

 

A vida não é como o vento

A vida não é como a chuva

A vida é um relâmpago

Um trovão

 

Mas não passa pro Maranhão


Fonte: Blog Piauinauta

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Medalha do Mérito Conselheiro Saraiva

Prefeito Dr. Pessoa e Elmar Carvalho
Elmara Cristina e Elmar Carvalho

Medalha do Mérito Conselheiro Saraiva


Recebi ontem, à noite, a Medalha do Mérito Conselheiro Saraiva, juntamente com várias outras pessoas, de diferente áreas de atividade, entre as quais o odontólogo, professor da UFPI e acadêmico (APL) Plínio Macedo. A honraria foi entregue pelo prefeito Dr. Pessoa. Estavam presentes os agraciados e vários de seus familiares, bem como vários gestores da prefeitura de Teresina e alguns dos membros do Conselho para concessão da Medalha, dentre os quais Reginaldo Miranda e Fonseca Neto, ambos meus confrades na Academia Piauiense de Letras. Falou em nome de todos os homenageados o médico Carlos Iglesias, com muita eloquência e pertinência, enaltecendo o sentimento de gratidão de todos nós.

Sou radicado em Teresina desde agosto de 1982, mas nesta cidade estive em vezes anteriores, desde a minha meninice. 

Julgo oportuno transcrever abaixo minha crônica "As fontes luminosas da Frei Serafim", como uma forma de homenagem a esta amada, bela e mesopotâmica cidade:


As fontes luminosas da Frei Serafim


Elmar Carvalho


No começo de 1975 fiz curso de três meses no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, no Recife, para posterior ingresso no quadro de servidores da ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Na Mauriceia ou Veneza Brasileira, fiz poema em que exaltei a sua beleza; recitei-o em auditório, fui o orador de minha turma, e, jovem, entusiasmado, com a poesia a borbulhar em meu cérebro, quase me sentia o próprio Castro Alves, quando passava pelas velhas pontes e me deslumbrava com o Teatro Santa Isabel e os velhos sobrados.

Mas logo retornei a Campo Maior e nunca mais revi o Recife, a não ser nos versos de Manuel Bandeira. Em junho desse ano fomos morar em Parnaíba, que me encantava com as suas belas praças da Graça e de Santo Antônio, com seus belos e suntuosos solares, e sobretudo com a sua rica e linda paisagem natural. Contudo, já em 15 de setembro de 1975, assumi o meu cargo de monitor postal em Teresina, onde passei a residir até o início de 1977, quando fui cursar Administração de Empresas (UFPI) em Parnaíba.

Meu pai pediu a uma prima dele que me hospedasse por um ou dois meses, até eu receber meus primeiros salários e pudesse pagar uma pensão. Assim foi feito. Essa família que me acolheu morava na Avenida Frei Serafim, quase defronte ao cruzeiro, perto do antigo seminário, quando o logradouro começava a descer uma ladeira, levemente curva, em direção à ponte sobre o Poti, que então era uma só. Após esses dois meses, me mudei para a pensão de dona Teresinha Cardoso, localizada na “baixa da égua”, perto da Casa Saló, da Praça do Liceu e da sede do Sambão, onde conheci figuras interessantes; mas aí já seriam outras histórias ou outros quinhentos. Voltemos, pois, à bitola delineada pelo título.

O primeiro governo de Alberto Silva já melhorara bastante a urbanização de Teresina, com a construção de grandes edificações e obras estruturantes, inclusive abrindo novas e arrojadas avenidas. Melhorou a iluminação de antigas praças e ruas. Construiu o estádio Albertão, chamado pela crônica esportiva de o “Colosso da Redenção”, em referência ao bairro onde foi edificado.

A Frei Serafim foi uma das avenidas que passou por um verdadeiro processo de embelezamento. E todo dia, durante esses dois meses, mais ou menos, eu a percorria a pé, em quase toda a sua extensão, do cruzeiro até um pouco depois da imponente igreja de São Benedito, quando ia para os Correios, ou quando dessa empresa federal voltava para a casa de meus parentes.

Na casa de meus anfitriões, aos dezenove anos, tive um bom e grande contato com a literatura e a história piauienses. Eles tinham dois livros do Herculano Moraes – Visão Histórica da Literatura Piauiense e Nova Literatura Piauiense (1975), ambos editados pela editora Artenova (salvo engano), do poeta piauiense Álvaro Pacheco – e Trechos do Meu Caminho, obra memorialística do barrense Leônidas de Castro Melo, editada pela COMEPI. Depois consegui um exemplar deste último, que considero um dos melhores livros de memórias, que vim a ler e reler com muito gosto, e sobre o qual escrevi uma crônica, publicada na internet.

Os livros do Herculano, apesar de eventuais senões, que se lhe queiram apontar, me proporcionaram o meu mais abrangente contato inicial com a literatura do Piauí. Passei a conhecer a biografia de seus principais escritores e poetas, e li antológicos textos de nossos mais festejados literatos. Assim, posso dizer que o Herculano Moraes, que só vim a conhecer pessoalmente nos anos oitenta, me prestou um grande serviço no final de minha adolescência.  

Retomando minha temática principal, repito que percorria a Frei Serafim quatro vezes ao dia nos dois turnos de meu trabalho, contando a ida e a volta. Um dos turnos terminava às dez da noite. Numa das vezes em que eu retornava, por volta das 22 horas, quando já estava no quarteirão anterior à residência, me deparei com um linda, esbelta e alta mulata, que me olhou com certa intensidade e insistência.

Vencendo a minha timidez, quando nos contatos iniciais, a abordei. Não querendo desta feita entrar em detalhes, direi apenas que descemos, os dois já aconchegados, a ladeira que ia em direção ao rio Poti. E em terreno baldio que ficava, creio, entre o estacionamento da Unimed e os edifícios em homenagem aos poetas Torquato Neto e Mário Faustino, pude desnudar aquele monumento em forma de mulher. Ninguém, nada, nenhum bandido ou inseto nos incomodou.

Ante suas caprichosas curvas e volutas voluptuosas, esmeradas, senti um alumbramento, o mesmo que deve ter sentido o poeta Manuel Bandeira, quando viu uma mulher nuinha em flor pela vez primeira. Ainda a tive em meus braços mais uma ou duas vezes. Numa dessas ocasiões, sem que eu nada lhe perguntasse, ela me confessou que saía para esses encontros não era em troca de nada, mas apenas por prazer e por amor. Não mais a revi. Mas dela me ficou a lembrança de um amor lírico, livre, sem conforto e sem colchão, sem cetim e sem espuma. Feito na terra desnuda, sob a luz das estrelas, dos vaga-lumes e entre matagais.

Como dito, todo dia eu caminhava com meus passos jovens, apressados e vigorosos na avenida, então revitalizada e ornamentada, com pedras portuguesas, elegante sistema de luminárias, com canteiros e fontes luminosas, um verdadeiro bulevar. Eu preferia seguir pelo passeio central, para mais forte sentir o frescor verdoengo das sombras das árvores e os respingos refrescantes das fontes luminosas, que então jorravam com muita força e beleza.

E jovem, emotivo e sentimental, cheio de esperança e de poesia, ao passar pelas fontes e ao vislumbrar as copas das árvores, que formavam uma exuberante alameda, eu julgava atravessar um espécie de arco triunfal do simples e puro existir, com amor e alegria, sem ambição por cargos e nem ganância por metais, porém com a mente referta de sonhos e quimeras.   

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

DA MINHA LENTE

Fonte: Google


DA MINHA LENTE


Alcione Pessoa Lima


Para escrever nunca sei qual o tema. Começo com uma palavra.  Daí, formo a primeira frase. Descubro um assunto; então, a cachola abre as portas, embora a memória deixe fugir, pela janela, lindas passagens. Desarrumo as prateleiras, converso com o tempo, vasculho o lixo das gavetas, e, sem que me dê conta, começa a viagem. Às vezes, arrasta-se por trilhos danificados, mas segue, com suas cautelas, a linha da vida, reconhecendo lugares e olhares. Por outras, segue caminhos estreitos, vielas perdidas, que findam em abismos; ou, trafego em campos e prados onde tanta abundância de excelsos valores me inibem a fala e me causam espantos, em ali ter chegado. 

Confesso que, me sentindo apenas um ponto nesse imenso universo de seres, às vezes, me faço perceber, mesmo feito vagalume, cuja luz persiste em tempo mínimo, necessário ao desfrute, embora marcante no tempo vivido.

Há borboletas sobrevoando pedras; e peçonhentos entre flores, no subterfúgio dos sonhos ou na concretude dos gestos. Algo sedimentado, imposto ou colhido, revela-se, desde o meu caminhar; ou no meu olhar, que se define como porta voz do tempo.

No espaço em que vivo, respiro. Daí, junto-me aos demais viventes, e seguimos juntos: eles me seguem e me oferecem seus cantos; eu, os delicio, mormente, enquanto subo a ladeira, em zigue-zague; de baixo, o grande obstáculo, que o supero, em gesto agradecido ao atingir o topo e aprecio a paisagem do alto; por vezes, límpida; por outras, cinzenta, encobrindo as minhas pegadas.

Citando Thich Nhat Hanh: “Quando ando atentamente sinto de maneira intensa minha ligação profunda com a terra e minha responsabilidade por ela.” Daí, não há como não lamentar a minha destruição, posto que faço parte de um lugar único, que, simplesmente, sob a vontade do homem, está sendo modificado e alterado todo o seu habitat por onde voam meus sonhos e medito sobre as turbulências do mundo. 

As diferenças nos desejos, as atitudes ostensivas, as demonstrações, senão de poder, com certeza das vaidades, não medem esforços para se sobreporem, desde que seus desideratos sejam atingidos. 

Polemiza-se o “O”, na sua forma circular, o quadrado, por que não é redondo. A razão de cada um, não se discute, embora, a lógica, por outro lado, quase sempre se faça ausente diante da conclusão que se chega: o descontrole humano! É voraz, insano, aniquilador, a ceifar liberdades, escolhas, e a sobrepor privilégios. A natureza é complexa, mas reveladora, incontestável, da existência de um Criador, e responde, embora sofra: o clima é a prova!

Há um silêncio! Ouço, apenas, rangidos de moto serras, betoneiras e a queda de árvores, muitos berçários de pássaros incautos, que reclamam, mas têm somente como defesa, a fuga eterna, até findarem, pois não haverá mais como se procriarem. 

São fatos, que não podem ficar somente no meu lamento. Diria, assim, expus a minha indignação!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

REVELAÇÕES DA ANTIGA FAZENDA DE ESCRAVOS, OS ECOS DA ESCRAVIDÃO E O ALTIVO DESCENDENTE DOS EX-CATIVOS

 

Foto meramente ilustrativa. Fonte: Google


REVELAÇÕES DA ANTIGA FAZENDA DE ESCRAVOS, OS ECOS DA ESCRAVIDÃO E O ALTIVO DESCENDENTE DOS EX-CATIVOS


Fabrício Carvalho Amorim Leite (*)

 

Esta pequena jornada começou, quando descobri, por curiosidade e através de laudo genealógico, mas sem a pretensão de busca por nobreza sanguínea de linhagem, antigos ramos de ascendência familiar.

Um dos quais, levaram-me às velhas fazendas coloniais, outrora escravistas dos estados do Piauí e Minas Gerais, sobretudo, - como muitas outras famílias com ascendência portuguesa-.

Assim, era uma ensolarada manhã de sábado, eu, meu filho e alguns familiares fomos de carro a uma destas fazendas muito antigas, numa excursão histórica e familiar.

Percorremos cerca de 16 km de Esperantina (PI), na estrada que leva a São João do Arraial (PI) em busca da Fazenda Olho d` Água dos Negros.

O suspense, para os desbravadores de final de semana aumentou, porque, na ocasião, não havia placa indicativa para nos guiar à antiga entrada da fazenda, que é hoje chamada Fazenda Olho d` Água dos Negros, encravada numa comunidade quilombola com o mesmo nome.

Em seguida, apesar desta excitação inicial e, depois do pequeno percurso entre a estrada bruta ou “de chão batido” e o asfalto, chegamos a uma velha entrada em ruínas, com o que aparentava um velho portão carcomido.

 E, logo após, havia uma descida um tanto íngreme, com grandes pedras soltas, o que nos leva a ver, no fim da ladeira, a copa de um grande mangal centenário, buritis, velhas oliveiras e um telhado de um casarão baixo e grande.

Depois de passarmos pelas ruínas deste velho pórtico, lá no final da ladeira, como estivesse incrustada em um vão ou vale perdido, escondido por um morro e entre às frondosas e belas árvores em torno, como mangueiras, buritis, oliveiras e outras, chega-se à casa sede da antiga fazenda.

E, brindando-nos, ainda, escutamos os pássaros - como sabiás, corrupiões, pipiras, curicas - em regozijo frenético devido às azeitonas maduras e os frutos dos muitos buritis da região.

De logo, senti uma sensação estranha de que o local era familiar, sem jamais ter ido antes. Apesar disso, segui em frente com os companheiros, na aventura exploratória.

Ao chegarmos em frente à construção, ficamos um tanto como fossemos os primeiros desbravadores do local, já que, na ocasião, não havia um guia e às portas da velha fazenda estavam fechadas, por medida de segurança. O que aumentou mais ainda a curiosidade por novas descobertas. Enfim, livres para imaginar.

Observamos que na parte frontal da velha sede havia um extenso muro feito por pedras brutas cheias de um lodo verdoso, sem uniformidade, daqueles parecidos com às formações dos castelos medievais, com cerca de três ou quatro palmos de largura com um metro e pouco de altura. Pedras estas com cerca de quatro ou mais quilos de peso. Brutas mesmo. In natura.

Ao tocar o velho muro de pedras, tive um arrepio daqueles que iam até a espinha. E a sensação intrigante de que já estive ali ressurgiu.

O incrível é que, na verdade, não toquei somente em pedras, mas no passado latente e vivo, inda mais quando a mente dá asas à imaginação. E, com isso, idealizei o suor, sangue e dor dos cativos depositários das marcas indeléveis no muro de pedra.

Outra sensação estranha ocasionada por este estado mental é um certo remorso por não ter podido fazer nada a respeito, mas um pouco exagerada, admito.

Por sorte, ao escrever sobre o local, tento resgatar o nosso passado ainda recente que ecoa no presente e futuro, para que o trauma deixado não se repita.

Assim, depois de horas perambulando ao redor do local, avistamos, de longe, saindo de uma vereda da densa mata ao redor da casa, aquele senhor baixo e franzino, aparentando idade avançada, trajando roupas muito simples e de pele sofrida pelo causticante sol do Piauí, com uma cabaça e enxada no ombro, mas com os seus passos firmes e ritmados. Um típico sertanejo nordestino.

Pedimos informações. E, ele, sem titubear, disse sim. Com isso, o pequeno grupo de exploradores arregimentou um guia informal. O que gostamos.

Conversa vai, conversa vem, fomos papeando:

- O senhor mora na região? O que pode contar a respeito da Fazenda? E os escravos?

Aí, este, acendeu um velho cachimbo que estava no bolso e, como se um baú muito antigo de preciosos tesouros e informações se abrisse, deu início a conversa:

- Sou um bisneto dos antigos escravos desta que era uma grande fazenda, meu falecido pai, escutou de seus antepassados muitas histórias. Disse o senhor, em nítido tom de satisfação.

-O muro de pedra e a estrutura ao redor era maior e foi construído manualmente por meus antepassados.  Ao que dizem, de grandes pedras vindas destes morros próximos e defronte aí da casa, como vocês estão vendo. Continuou.

-E foram transportadas através de rústicas esteiras feitas de palha e madeira, a duros sacrifícios. Mas, não em lombo de animais, como imaginam, e, sim, nos braços dos escravos. Finalizou.

Depois disto, passou a descrever vários detalhes e lendas da casa grande da fazenda, como um suposto e antigo porão com armas, botica de ouro enterrada, o real tamanho original da grande propriedade (enorme), um poço mágico no quintal, dentre outras coisas incríveis que mereciam muitas e muitas entrevistas.

No entanto, à medida que falava, se aprofundava em questões mais antigas e densas do local.

Em seguida, espontaneamente, falou:

-  Mas, sinhô, o fato que tenho de dizer é que, uma vez, tive discussão com uma pessoa. Disse o velho descendente dos antigos escravos.

- Esta falava com certa rispidez em relação aos negros e escravos, o que me incomodava. E, já tinha uma certa fama a respeito destas opiniões. Disse o senhorzinho.

- No entanto, certo dia, numa conversa franca, disse-lhe uma coisa que estava há muito presa no coração e na memória...

- E o que foi? Dessa vez, perguntei.

- Certa vez, de tanto escutar tais absurdos, calmamente, disse-lhe que não podia falar mal dos escravos, pois um antigo dono de escravos engravidou escrava negra cativa da senzala que, por vez, teve uma criança pertencente e acolhida pela família dos amos. Ponderou o altivo descendente de escravos.

Para espanto de todos os pesquisadores amadores presentes, o senhorzinho revelou um episódio, até então, enterrado na história: - Ou seja, a despeito da escravidão, como sistema cruel e sectário, pelo nascimento de uma criança em comum, houve o entrançamento e união da linhagem de antigos donos da fazenda e uma escrava negra.

Por isso, a seu modo, encarou com altivez os ecos da escravidão, quem sabe, no seu processo particular de cura.

Despediu-se, com muita educação, e disse que estaria à disposição para outras perguntas, seguindo, apesar do peso da idade, de fronte erguida e passos firmes, ladeira acima...

 

(*) Advogado e escritor.   

domingo, 4 de dezembro de 2022

Seleta Piauiense - William Melo Soares

Fonte: Garça

 

ESTADO DE GARÇA

 

William Melo Soares (1953)

 

de algum lugar distante

até onde a vista alcança

margem do rio ou vazante

me deslumbro apreciando

a linha do voo brancura:

a garça rumo ao ninhal.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Um certo Gerson Gomes Pereira




Um certo Gerson Gomes Pereira

 

Elmar Carvalho

 

1º Ato

 

O amigo e magistrado Édison Rogério Leitão Rodrigues, algum tempo atrás, me convidou para integrar o grupo de WhatsApp denominado Amigos da Sabedoria, composto por ele e pelos Promotores de Justiça Flávio Teixeira de Abreu Júnior e Gerson Gomes Pereira. Este último não era meu conhecido. A denominação do grupo é modesta e apropriada, pois indica que seus integrantes não se arvoram de ser sábios, mas tão-somente amigos da sabedoria, o que já é muita coisa, sobretudo nesta época em que tolos se metem a opinar sobre todo e qualquer assunto, muitas vezes de forma estapafúrdia, irracional e rasa.

O Edison Rogério é amante dos livros, mormente de literatura, com destaque para os de poesia e romances. É certo que o Flávio é uma pessoa antenada e interessada em arte e cultura. Sobrinho do saudoso amigo e notável poeta Cid Teixeira de Abreu. Logo no início de minha admissão ao grupo, percebi que as postagens giravam mais em torno de assuntos filosóficos e teológicos, e eram, em sua maioria, da lavra do Gerson Gomes Pereira, que iluminava certos aspectos abordados e esclarecia as dúvidas e questionamentos, que lhe eram trazidos.

Cedo percebi que Gerson não era um mero diletante, um simples leitor de almanaques e orelhas de livro. Suas postagens, embora concisas, não eram superficiais. Ao contrário, analisavam em profundida as questões que eram submetidas ao seu crivo. Suas respostas faziam remissão aos textos dos grandes filósofos e teólogos, e muitas vezes eram ilustradas através de citações literais.

Contudo, eu notava que a sua erudição e explanações não eram calcadas na vaidade e nem no prazer vazio de “vencer” um debate, uma discussão, mas em esclarecer, em transmitir conhecimentos sem jactância e sem ostentação, com didatismo, clareza e simplicidade. Para mim, as suas preleções seriam semelhantes às de um professor que desejasse fazer com que o aluno o superasse em conhecimento, e por isso mesmo se esmerasse em lhes injetar a aprendizagem da forma mais eficaz possível.

Buscou ler os escolásticos, os pais da Igreja, sobretudo Agostinho, e os grandes filósofos, de maneira especial os da antiguidade, mormente a trindade Sócrates, Platão e Aristóteles, mas colocando este num podium mais elevado. Em sua ótica, Aristóteles, considerado uma máquina de pensar, teria analisado as questões mais importantes da filosofia em todas as épocas.

Instigado pelo colega Flávio Teixeira, enfrentou assunto intrincado, labiríntico e lodoso, afeto talvez mais à aceitação pela Fé, in casu, a Graça, discorrendo em profundidade sobre esse melindroso e especulativo tema, tão abstrato e intangível quanto o tempo, do qual temos uma ideia, mas que se torna inefável, quando tentamos conceituá-lo ou discorrer sobre a sua natureza. Em suas explicações, citou os grandes teólogos, a Bíblia, mas, claro, fez uso também de suas próprias palavras, de sua inteligência, intuição e discernimento. Diria que fez tudo para convencer o Flávio, não pela satisfação de convencer alguém, mas quase como se estivesse lutando pela salvação de uma alma ou, ao menos, pela sua iluminação.

 

2º Ato

 

Gerson Gomes Pereira nasceu em 28 de fevereiro de 1976, filho de Cícero Gomes Pereira e Benedita Maria de Jesus Pereira. Pertence à estirpe Gomes (de Sobral), a que pertence uma de suas grandes admirações musicais, Belchior. Disse-me ele, em tom confessional: “Eu sou negro. Meu pai é negro. Minha bisavó era negra e escrava”.

O local da casinha de taipa de seus pais ficava a cerca de oitocentos metros atrás de onde hoje se ergue o imponente prédio do Tribunal de Justiça do Piauí, localizado na Avenida Padre Humberto Pietrogrande, 3509. Podia ser considerado uma zona rural, pois ficava dentro de uma verdadeira floresta. Ainda hoje, no entorno, pode ser visto resquício dessa mata. O proprietário do imóvel onde ficava a residência pertencia a uma ilustre família teresinense.

A mãe de Gerson vivia da agricultura e seu pai de pesca, exercida no rio Poti, que passava a um quilômetro desse local. Além de Gerson, o casal teve mais nove filhos, um dos quais sofria de doença mental grave. Não bastasse essa situação de extrema penúria, a fatalidade entregou aos cuidados de seus pais mais quatro garotos, sobrinhos do casal, em virtude da morte prematura de seus pais. Segundo a expressão do próprio Gerson, a família trabalhava para comer e comia para trabalhar. Em sua descrição, a “casa era um grande vão com uma travessa à espera de mais uma rede”.

Aos dez anos de idade, a água que ele bebia era tirada de uma cacimba e esfriada em um pote, de onde era retirada com o coco (uma espécie de caneca de alumínio com uma alça do mesmo material). Só recebia informações por um rádio de pilha, quando havia pilhas com carga. A partir dos seus seis meses de vida (e até os quatro anos), tinha de ser levado para a Casa Mater, porquanto fora vítima de severas queimaduras, cujas cicatrizes ainda hoje podem ser vistas. Com esse incêndio da casa, que o vitimou em tenra idade, as poucas coisas que a família tinha minguaram mais ainda. Aos seis anos, tinha de enfrentar seis quilômetros (ou 12, considerando a volta) para chegar ao colégio mais próximo, localizado na Avenida Higino Cunha. Parte desse percurso ele o fazia por cima da estrada de ferro. Passava sobre a estreita ponte, que fica paralela à ponte Wall Ferraz, sempre atento ao ruído da locomotiva, cujo encontro lhe poderia ser fatal. Caso avistasse o trem ou lhe ouvisse o barulho, teria que correr para o salva-vidas mais próximo, sob pena de morrer.

Neste ponto, desejo transcrever o que ele próprio me revelou através de WhatsApp: “Em minha casa fazíamos o revezamento de farda escolar e de conga (tênis). Eu, mais novo, tinha de completar o pé na conga com papel. Para minha mãe, era dureza arrumar dinheiro para comprar o bolso com o brasão do Estado, condição para entrar no colégio. // Certa vez, depois de meses aguardando um passeio, aos 7 anos, fui barrado na entrada do ônibus para a fábrica da Coca-Cola, porque minha camisa não tinha o brasão”. Esse relato é pungente, nos causa comoção, e relutei sobre se devia transcrevê-lo nesta crônica, mas entendi que era necessário para mostrar o caráter do Gerson, que é um perfeito contraste com o de muitos representantes das chamadas “geração Nutella” e “geração Tik Tok”. Gostava de ler, mas só podia fazê-lo quando encontrava revista no lixo dos apartamentos, que ficavam na proximidade de sua escola.

Em sua adolescência seus pais foram expulsos do local onde moravam, o que trouxe ainda maiores dificuldades à família, que vivia de roça e pesca.  Passo-lhe a palavra: “Passamos muitas necessidades. Meu pai teve que tentar a vida fora, na construção civil. Os irmãos mais velhos também correram o mundo. As irmãs adotivas tiveram que buscar casas de família para morar e trabalhar”. Gerson continuou trabalhando na referida loja de material de construção. Precoce e inteligente, por essa época chegou a lecionar para jovens que buscavam se preparar para concurso de sargento ou de cadete das Forças Armadas, numa sala de aula improvisada. Esse mister magisterial durou dos 13 aos 18 anos.

Aos 11 anos, começou a trabalhar numa loja de material de construção, de nome Start, localizada na Avenida Nossa Senhora de Fátima, perto do balão da Universidade Federal do Piauí, onde hoje funciona a Drogasil, o que é uma distância muito grande para ser percorrida por um menino, em sua bicicleta. No final do expediente tinha de retornar imediatamente, porquanto, nessa época, estudava na escola da Fundação Bradesco, que não admitia atraso. Sequer tinha tempo para tomar banho. Cursava Administração de Empresas, ensino técnico de nível médio. Esse curso lhe possibilitou ingressar como estagiário no Banco do Nordeste do Brasil, que, segundo ele  próprio, lhe foi um divisor de água, uma vez que passou a conhecer outros ambientes, outras pessoas e a ter outras perspectivas de vida. Não lhe sendo o dinheiro do estágio suficiente para pagar um cursinho de pré-vestibular, usou a sua remuneração para comprar livros, que lhe possibilitaram passar no vestibular para Direito, quando sua vida começou a mudar para melhor.

Todas essas dificuldades e percalços, que ele teve de enfrentar e vencer, certamente contribuíram para lhe moldar a personalidade. Sem dúvida poderia ter se tornado uma pessoa revoltada, amarga, cheia de recalques e traumas, a queixar-se da vida e de suas circunstâncias, porém isso não aconteceu. Ao contrário, é um cidadão amável, cordato, amante do bem, do bom e do belo, além das artes e da cultura, sobretudo literatura e música, ele próprio sendo violonista e poeta.

Em resumo, é um perfeito exemplo de superação, para usarmos um chavão da moda.

 

3º Ato

 

Em sua gradativa ascensão, sem firulas e sem guinadas súbitas e vertiginosas, ocupou os cargos de empregado de loja de material de construção (aos 11 anos), estagiário do BnB, policial civil, consultor jurídico de gabinete de desembargador (cargo em comissão), Procurador Federal e Promotor de Justiça.

Dos 13 aos 18 anos, em sala de aula improvisada, ministrou aulas preparatórias para concurso de admissão a cursos de sargento das Forças Armadas. Depois, foi professor de matemática financeira no           SENAC, bem como exerceu o magistério na Universidade Estadual do Piauí e em cursos preparatórios do CEV para concursos da magistratura, do ministério público e de procuradorias.

Como consultor jurídico, serviu no gabinete do Des. Nildomar da Silveira Soares, onde colheu importantes experiências jurídicas e de vida, vindo a se tornar um grande amigo do desembargador. Com o seu jeito afável e acolhedor, sempre lhano e simpático, despojado que o era de empáfia, Nildomar tinha uma postura (quase) paternal para com os seus subordinados. Mesmo após deixar o seu cargo, continuava se comunicando com o ex-chefe, principalmente por WhatsApp. Teve o ensejo de lhe enviar a seguinte mensagem de estímulo e conforto: “Não tenho dúvida de que o amigo e mestre chegou ao topo. Vê as coisas do alto. (...) Agora, certamente, tem meu amigo mais a ensinar do que antes. Já não tem tempo a perder”. Fui colega do Des. Nildomar na Academia Piauiense de Letras por vários anos, e sempre lhe admirei o trato cordial, que nos últimos anos mais parecia se aprimorar, como se ele estivesse em busca da santidade, talvez pressentindo que o termo de seus dias já se avizinhasse.

Do Des. Nildomar recebeu alguns livros de sua estima, quando ele se aposentou. Viu em sua estante a coleção monumental de 14 volumes do Tratado das Constituições Brasileiras, da lavra do jurista, poeta, historiador e romancista Cláudio Pacheco, natural de Campo Maior e membro da APL. Sendo Cláudio meu conterrâneo, fiquei orgulhoso quando o jurista Gerson Gomes Pereira me disse considerar essa obra do mesmo nível da do consagrado constitucionalista Pontes de Miranda.

No exercício de seu cargo de Procurador Federal em Brasília, graças a seu zelo profissional e preparo jurídico, Gerson foi convidado por um ministro do Supremo Tribunal Federal a integrar sua assessoria jurídica. Todavia declinou desse envaidecedor convite. Sua meta era retornar ao Piauí, para melhor prestar assistência a seus velhos pais. Para esse desiderato, fez concurso para ingressar no Ministério Público Estadual.

Seguindo as pegadas de seu passado e de seu destino, comprou um imóvel de seis hectares, no mesmo local onde se erguera outrora a casinha de seus pais, em que ainda remanescia fortes vestígios da floresta que ali vicejara. Construiu uma bela e grande casa, com espaços esportivos, inclusive um campo de futebol. Nesse imóvel plantou frondosas árvores frutíferas, um verdadeiro pomar, e conserva parte da floresta nativa. Casou e tem uma filha. Portanto, seguiu a boa recomendação do adágio: plantou árvores, tem descendência e escreveu um livro, titulado Curso de Formação para Procuradores Federais (Brasília, 2005).    

 

Epílogo

 

Por mensagem whatsappiana o magistrado Édison Rogério me convidou a participar de um jantar na casa do nosso bravo Gerson, com a presença apenas de membros do grupo Amigos da Sabedoria e familiares. Na sexta-feira passada, por volta das 19:30 horas, chegamos à residência do anfitrião, que já estava à nossa espera. Logo vi que ele era um tipo acolhedor e cordial, e constatei que sua voz era mansa e macia, sem nenhuma aspereza, como a denotar paciência e tranquilidade, circunstância que confirmou o que eu havia percebido através de seus poucos áudios postados no grupo. Na grande sala havia um violão e uma bateria, que pareciam indicar que ele não só era um amigo da sabedoria, mas também um devoto da musa Euterpe.

Ao entrar, vi uns aparelhos de ginástica, e como havia visto o bem-cuidado campo de futebol, não me contive e perguntei se o Gerson fazia jus ao nome que tinha; ou seja, se ele tinha as mesmas características pebolísticas do grande Gerson da Seleção Brasileira de 1970. O colega Édison foi logo se apressando em responder que sim; que o nosso anfitrião tinha as mesmas habilidades técnicas do seu xará. Não posso dizer que acreditei in totum, mas me esforcei para lhe dar algum crédito. Depois, fiquei sabendo que ele tem mesmo habilidade com a pelota. Melhor assim. In dubio, pro amigo.

Além das iguarias oferecidas pelos donos da casa, o Édison fez questão de levar um queijo da Canastra, oriundo das alterosas, que a princípio me pareceu duro como uma tábua. Contudo, depois de devidamente partido em pequenos pedaços, já não tinha essa dureza aparente. O certo é que degustamos um bom vinho e tivemos um “repertório” de iguarias, farto e variado.

Por um grande esforço pessoal, através de demoradas e profundas leituras, Gerson adquiriu um vasto conhecimento dos principais filósofos, sobretudo dos três grandes mestres da antiguidade clássica – Sócrates, Platão e Aristóteles – em cujo pedestal mais alto coloca este último. Portanto, posso afirmar que ele adquiriu esse amplo saber filosófico e teológico como autodidata, graças às suas persistentes leituras e inteligência arguta. Nele se conjugaram muito bem o esforço e a inteligência; não um esforço espartano, extenuante, mas prazeroso, agradável.

Fizemos parte dessa festa gastronômica e intelectual Gerson e sua esposa Nilcimaria, maranhense, natural de Fortaleza dos Nogueira, onde soube existirem belas e aprazíveis cachoeiras; o Juiz de Direito Édison Rogério e Vanda; o Promotor de Justiça Flávio Teixeira, velho conhecido, e sua consorte Leda, e este escriba, transformado em escrivão do festim.

O Édison, em mensagem recente, comparou esse evento ao que foi relatado no livro O Banquete, de Platão, que teria sido algo semelhante ao que vivenciamos na casa de Gerson.

Conversamos sobre temas diversos, tais como jurídicos, políticos, culturais, literários e artísticos. Em certos instantes a discussão se tornou acirrada, mas sempre de forma amigável. Para que o nosso se tornasse ainda mais semelhante ao banquete de Platão, poemas foram recitados e temas filosóficos debatidos.

Em determinado momento, o mestre Gerson, teólogo e filósofo por conta própria, nos fez ouvir uma música pouco conhecida de Raul Seixas, sobre a qual discorreu com proficiência e de forma elucidativa. Admirador de Belchior desde os 13 anos de idade, nos fez ouvir uma melodia desse notável pintor, cantor e compositor, que na realidade era um erudito e poeta, desde bem moço, quando ainda era aluno de seminário católico. Interpretou ambas as músicas com pertinência, percepção e argúcia, esclarecendo as metáforas e eventuais frases sibilinas, sobretudo no que as letras tinham de filosóficas e existenciais.

Após essa agradável e prazerosa noite, creio poder dizer, sem estar mistificando, que eu também participei de um extemporâneo Banquete de Platão.    

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Denodado idealista



Denodado idealista


Carlos Rubem 


Quando ingressei na Faculdade de Direito do Ceará, em 1978, travei amizade com muita gente. Entre os colegas da turma, pontificava o Francisco Meton Marques de Lima, natural de Coreaú-CE. Filho de pobres agricultores. Fez seus estudos sempre em escolas públicas.


Baixote, franzino, infatigável “causeur”. Debatia assuntos jurídicos com muita proficiência. Espargia conhecimento com segurança argumentativa. Muito humilde, sereno.


Ao concluirmos o curso universitário, em 1981, tomamos diferentes rumos na vida. Assentei banca advocatícia na minha terra, Oeiras. À época, ele já trabalhava no BEC - Banco do Estado do Ceará.


Somente em 1989, reencontrei-o, numa radiosa manhã de domingo, no Parque Zoobotânico de Teresina. Disse-me que se tornara Juiz Titular da 1ª Vara do Trabalho da nossa Capital. Por esta época, eu já havia assumido o meu múnus ministerial.


Tomei conhecimento da sua árdua luta visando a criação do 22° Tribunal Regional do Trabalho do Piauí, o que se efetivou em 1991. Moveu céus e terra para atingir este desiderato. Arrostou muita dificuldade, incompreensão. 


Instalado o Tribunal em apreço, no dia 08.12.1992, sofreu sabotagem, ingratidão de seus pares sobre a direção da Corte. Nota desagradável!


Vida que segue. Ao assumir pela vez primeira a presidência daquele colegiado (1998 - 2000), uma abelhinha veio me dizer que estavam acontecendo discussões objetivando a criação das seguintes Varas do Trabalho: Picos, Floriano, Barras, Piripiri e Corrente.


Não me conformei. Fui parlamentar com o Dr. Meton. Defendi a inclusão de Oeiras naquele rol. Apresentei convivente justificativa. 


Arguto e sincero, asseverou-me que havia sido ultimado o estudo técnico concernente àquela expansão. 


Porém, resoluto, garantiu-me que iria mandar refazer tudo para contemplar o justo pleito por mim articulado em homenagem ao valor intrínseco da Velhacap.


Nesta toada, foi editada a Lei nº 10.770, de 21 de novembro de 2003, que dispõe sobre a criação das aludidas Varas do Trabalho.


Hoje à tarde (29.11.2022), recebi, pelos Correios, um exemplar do livro “40 ANOS DE MAGISTRATURA (1982/2022) - 35 DE MAGUSTÉRIO SUPERIOR (1987/2022), de sua autoria, com amável dedicatória, a saber: “Ao estimado colega de Turma da Casa de Clóvis Bevilácqua, com a minha mais elevada admiração e estima, o Dr. Carlos Rubem Campos Reis. - Teresina, 20 de novembro de 2022 - Meton Marques.


Li esta obra de um só fôlego. Belo, inspirado e inspirador relato. Tudo vazado de forma objetiva, marcado pela simplicidade. Nada de purpurina! Características dos grandes e verdadeiros homens de ação.


Arremata dizendo: “Conquanto pareça debalde o embate, nunca será em vão o combate”.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Em busca do hexa

Fonte: Google

  

Em busca do hexa 


Sousa Filho

 

Em busca do hexa

(Hepa)Tite insiste à toa

Gabriel Jejum entra em campo

Não faz nada, numa boa

Daniel foi a passeio

Time fraco, sim, senhor

Quem é bom, fica no banco

Que turrão, o treinador

Seleção  improvisada

Técnico conservador

Seleção ganha na marra

Coitado do torcedor

Quando chegar nas oitavas

Ai, será  complicado

Uruguai ou Portugal?

O Brasil desfigurado

Enfrentar Gana sem gana?

 

Qual será o resultado?

Vamos em busca do hexa

Põe o Pedro pra jogar

Reforça a seleção

Recupera ai, Neymar

A Suíça já passou

Acalmem os corações

Vamos pro terceiro jogo

Venceremos Camarões.

domingo, 27 de novembro de 2022

Seleta Piauiense - Paulo Véras

Fonte: Google


Aos quase trinta

 

Paulo Véras (1953 – 1983)

 

Aos quase trinta

– Amadurecente

 

Agridoce fruto

Em úmido pomar.

 

Ao meio da teia

Minha vida tateia.

 

Eu queria que a minha morte

Fosse como a de um trapezista

            Que despenca do alto,

Flutua, desafia a gravidade,

Ensaia traços de pássaro

E cai com suavidade.

 

Eu queria que a minha morte

Fosse como a de um mágico

Que transforma a realidade em fantasia.

A fantasia em realidade

E se mata com um tiro,

Um tiro de verdade.

 

Não quero morrer de tarde.

As flores estarão murchas e tépidas...

 

As tardes não foram feitas para se morrer.

 

Morrer de tarde incomoda bastante

Como o tic-tac do relógio, tecendo uma infinita

Cambraia de vento e tempo,

Tempo e vento.      


Fonte: Poemágico - a nova alquimia (1985)

sábado, 26 de novembro de 2022

CIDADE DE LIVROS

 

Sebo do Messias (22/11/22). Foto: Ana Cândida

Marcelino, Ana Cândida e Alberico Rodrigues, escritor e proprietário do Espaço Cultural, que tem o seu nome, na cidade de São Paulo


CIDADE DE LIVROS

 

Marcelino Barroso de Carvalho (*)

 

Você anda numa rua de livros e, no final, dá de cara com outra rua de livros... Eu queria morar numa cidade assim... Problemas respiratórios? Para que são feitos os cachés e os xaropes? Ao passar, lentamente, numa rua de livros, sinto que um deles me olha; outro me chama; e outro se esconde, de magro que é; um outro, ornado de “ouro de Ofir”, esbanja superioridade; o roto, de lombo cinzento, esconde um tesouro, no fundo de suas bolorentas frestas; música, artes, religião, arquitetura, filosofia, física, matemática, um turbilhão de saberes que os herdeiros – insensíveis aos gemidos de seus ancestrais (eruditos?) – entregam, em caixas e caixotes, por (até menos de) 30 dinheiros. Quase chorei quando vi um poeta, sem horizonte, trocar por merreca, em Belo Horizonte, os “restos mortais” de sua (antiga) biblioteca. Senti igual dor, um dia, quando procurei, em São Paulo, o Sebo de Seu Luís, num porão de vários andares, entre a Sé e a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. O português, idoso, gordinho e loquaz, abasteceu de sonho levas e levas de jovens e velhos intelectuais do Brasil. Um porteiro de garagem me desanimou: “Os herdeiros tinham outras ocupações”. Essa história se repete, mas os sebos ressuscitam nossos mortos e os transmudam em anjos benfazejos. Os defuntos nos comunicam, na folha de rosto ou numa sobrecapa, seus nomes (quase sempre ilegíveis), suas origens e até longínquas datas de aquisição das peças. Nos grandes sebos, como o do Messias, em São Paulo, os livreiros constroem verdadeiras “cidades de livros”, com ruas, becos e vielas; pracinhas, sobrados e mezaninos de estantes e armários; balcões ou tabuleiros como os de feira, onde os “alimentos” servidos são CDs, DVDs, VHS, vinis, a preço de banana. Foi aí que, certa vez, encontrei vários CDs da Deutsche Grammophon. Comprei todos, não apenas porque são os “únicos no mundo” cuja capa não quebra com um simples abrir-e-fechar, mas também porque encerram incomum repertório dos grandes clássicos da música universal. É evidente que os sebos não são o lugar preferido dos novos pesquisadores e cientistas, pois a estes se disponibilizam bibliotecas e livrarias especializadas; são, isto sim, lugar de diletantes ou de pechincheiros, cada um com seus propósitos ou com suas necessidades, tendo em comum a certeza de que despenderão pouco dinheiro. Foi nos sebos que adquiri algumas enciclopédias e coleções completas de obras literárias a que não tive acesso em minha juventude pobre. Um dos meus sonhos dos tempos de faculdade era o de possuir os Comentários ao Código Civil Brasileiro e o Repertório Enciclopédico do Direito Brasileiro, de Carvalho Santos, bem como os Comentários ao Código Comercial Brasileiro, de Carvalho de Mendonça. Eu o realizei no Sebo de Seu Luís, que enviou a pequena montanha de livros pelos Correios, para Teresina. Antes, eu já realizara os sonhos de ter as Enciclopédias Delta Larousse, Barsa e Tesouro da Juventude. Talvez por ter sido revisor de jornal ainda na adolescência, sempre tive avidez por dicionários, tanto assim é que adquiri praticamente todos os que encontrei, durante anos, começando, evidentemente, com os principais da antiga FENAME: Português, Latim, Francês e o Das Dificuldades da Língua Portuguesa. Depois, juntaram-se os de outras línguas antigas ou modernas e até de Tupi-Guarani. Reuni outra leva de dicionários especializados, de diversas áreas do saber. Esse hábito me leva sempre a procurar, nas cidades-de-livros, a Rua dos Dicionários, correspondente à Rua das Referências, nas bibliotecas, segundo os sistemas ou classificações decimais (CDD ou CDU). Os sebos não têm essa preocupação com os sistemas de classificação bibliográfica e adotam uma disposição do acervo de certo modo caótica, mas de inteiro domínio dos atendentes. Por isso é que me rendo, de quando em vez, aos “olhares” que certos livros me lançam, com os quais, não raro, atraem minha atenção até a consumação da compra. Nos sótãos ou nos subsolos, é sempre possível encontrar-se algo surpreendente, talvez ali colocado até de modo proposital, para aguçar a curiosidade da gente. No sebo de Seu Luís, descer as escadas de jacarandá, torneadas em estilo manuelino, era motivo de uma satisfação a mais. Num ambiente assim, não posso deixar de lembrar do poeta Jorge da Costa Carvalho, a quem eu chamava rato-de-biblioteca (ou rato-de-livraria) e sobre quem escrevi um crônica, logo após seu inesperado falecimento, em 2021. Não posso deixar de lembrar o Sebo do Brandão, no Recife, talvez a primeira loja do gênero no Brasil, nem a Livro 7, que foi, durante anos, a maior livraria no país. Em todos esses espaços, eu sonhei de olhos bem abertos, mais até que nas fantásticas bibliotecas que frequentei, como a da Faculdade de Direito do Recife, porque, nestas últimas, os livros não me incutem a ideia de pertencimento, embora permitam a livre apropriação das próprias ideias. Quando postei, em rede social, a foto de uma rua na cidade-de-livros do Messias, o filólogo Nílson Ferreira e o poeta Elmar Carvalho me instigaram, nos comentários, a transformar em crônica a despretensiosa descrição da postagem. Desafio aceito, a ambos dedico estas percepções oníricas de uma cidade que somente os sebos de livros nos podem propiciar.

São Paulo(SP), 25/11/2022.

 

(*) Professor aposentado da UFPI. Membro da APLJ, da ALEAMA e da APC.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Aversos versos

Fonte: Google


Aversos versos  


Sousa Filho

 

Teus "garbosos" e aversos versos

Nutrem celeumas sufocantes

Barafundas entre entre amantes

Alaridos tão diversos

Numa balbúrdia cruel

Sobem e descem corredeiras

Arrebentam ribanceiras

Tornam-te o mais puro fel

Companheiro inseparável

Fustigador de procelas

Nunca só um barco a vela

Frente a um mar revoltoso

Terremoto estonteante

Teus versos sempre arrogantes

Causam dor, choro e clamor

Numa ânsia exacerbada

Não contribuem pra nada

Sempre aversos ao amor. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

BERNARDO SILVA, UM MESTRE DA VIDA INTEIRA

Bernardo Silva, ou simplesmente B. Silva


BERNARDO SILVA, UM MESTRE DA VIDA INTEIRA


Kenard Kruel


Eu nasci em São Luís, a 30 de julho de 1959. Meu pai Antônio de Souza Santos ali estava a trabalho, como polícia especial, em missão espinhosa para a época, e ainda para os dias de hoje (um dia eu contarei tim tim por tim esta história...). Obrigado mamãe Maria do Socorro Fagundes dos Santos por ter me tido. Com dois anos de idade, nos mudamos para Parnaíba, onde passei a minha juvenília estudando o primário no Grupo Escolar José Narciso, o ginásio no Clóvis Salgado e o curso técnico em Administração de Empresa no Colégio Estadual Lima Rebelo. 

Entre o brincar, com as cobras e outros bichos que nos rondavam, estava sempre com um livro nas mãos e a ideia fixa de ser escritor na cabeça. Aos 10 anos de idade, fui ao jornal Folha do Litoral, do Batista Leão, pedir uma vaga na redação. Deram, mas para eu limpar os tipos (letra por letra, de A a Z) usados nas páginas do jornal, tendo como meu chefe o Xixiinol (Sic???). De quebra, limpava, também, todo o jornal do jornal. Principalmente os banheiros. Sempre gostei de ser limpeza, DNA da família Fagundes dos Santos. Esperava uma oportunidade para publicar um texto meu. O meu ídolo era o jornalista Bernardo Silva, que agia como se fosse editor chefe e mandava e desmandava no pedaço. 

Nunca deixei faltar o cafezinho quente, com os bolinhos de goma, comprados no Bar Parnaíba, ali pertinho. Também não lhe faltava mimos como os discos do Waldick Soriano, de quem meu pai era fã e super amigo e os ganhava de cortesia. Bernardo Silva, ao final da labuta, descia as ruas da Parnaíba, com um gravadorzão, fita do Waldick Soriano na agulha, e tomando uma branquinha para aliviar a tensão do dia. Era fã do Waldick Soriano, Evaldo Braga, Lupicínio Rodrigues, Nelson Gonçalves, Nelson Ned, Maysa, Clara Nunes, Dalva de Oliveira e outros e outras que pontificavam na ocasião. Fizemos várias serenatas, às tantas namoradas dele, ao som do Roberto Carlos, que era genial e virou apenas um grande nome na MPB, atualmente. Como dói, CDA. De tanto segui-lo e persegui-lo, um dia a recompensa veio. - "Menino, escreva o editorial de amanhã". Imperativamente. 

Escrevi sobre o Apogeu e a Decadência da Parnaíba. Não esperava publicação, porque parnaibano é bicho bairrista. E, se fosse publicado, os exemplares das bancas voltariam e os das assinaturas seriam devolvidos, craniei. Não fui para casa. Fiquei de tocaia. Até que o Xixinol peguei a minha lauda, e fez o sinal positivo. Mesmo assim, não arredei o pé, até vê-lo paginar o texto e iniciar a impressão. Peguei 100 exemplares e levei para a escola. Passei pela casa de uma jovem, para quem eu poetava, e entreguei, a ela, pessoalmente, um jornal. Todo feliz, até cair na real de que editorial não é assinado. De quando em quando, o Bernardo Silva me pedia um editorial, que eu já fazia sem o menor ânimo, porque queria ver era o meu nome estampado, em letras garrafais, no jornal. Até que o dia veio. 

Bernardo Silva pediu para que eu opinasse sobre o romance Tombador, 1971, de Fontes Ibiapina. Ele sabia que eu vivia socado na biblioteca do Fontes Ibiapina e já tinha lido-a toda, bem como os livros que ele já havia publicado: Contos - Chão de Meu Deus, 1958; Brocotós, 1961; Pedra Bruta, 1964; Congresso de Duendes, 1969. Romances - Sambaíba, 1963 e Palha de Arroz, 1968. Fiz um alentado estudo sobre o romance em pauta e analisei toda a produção do Fontes Ibiapina, que me tinha como amigo e uma espécie de secretário particular, pois muitos dos trabalhos dele eu revisei e passei para a máquina de escrever. Fontes Ibiapina previu que eu seria um famoso escritor. No que ele acertou, na profecia. O texto fez sucesso. Fontes Ibiapina enviou correspondência ao jornal, parabenizando a publicação e dando-me "agradecimento fraternal". Pronto. 

Logo me dei ao luxo de ocupar as páginas, também, com poemas que hoje eu não ousaria publicar. Mas, eram destinados à jovem por quem eu poetava. Até que pintou o clima. E fomos felizes por longos curtos meses. Os pais dela se mudaram para outra cidade, a trabalho, despedaçando-me o coração. Como um bom paizão, o Bernardo Silva me curou, levando-me para as madrugadas da Quarenta (onde conheci o Juarez, o Pituca, o Bode Louro - Augusto Portela, o Desidério, o Bernardo Lima, o Espedito, o Seixas, o Nenem - Manoel Silva, o Hélvio Melo Castro, o Hélio Lemos, o Cântídio Lemos, o Francisco Ramalho Pastengão e o Pastenguinha, o Cecil ... que, anos depois, criaram a página Amigos da Arena Quarentão, do qual faço parte, com muito orgulho). 

Eu era um meninote, mas o Bernardo Silva, freguês das antigas, era muito respeitado pelas madames, o que me garantia passe livre nas camas das jovens de vida nada fácil. Logo esqueci a jovem por quem eu tanto poetava. Papai passou a perguntar por que eu estava chegando quase com os cagar dos pintos. -"Fazendo serão". Ele apenas disse: - "Será!!!". Mamãe não dizia nada, pois tinha a prova nas cuecas cheias de batons. E, como mãe é mãe, não me entregava ao relho do meu severo pai. Tempos bons. Tempos felizes. Amar e ser amado, enquanto duravam os cobres. - "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis". Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Typografia. Nacional, 1881.

Fiquei tão bom no ofício, tão genial na profissão, que o Folha do Litoral não me cabia mais. Deixei-o para o meu próprio jornal: Batalha do Estudante, que o Paulo Couto guardou todos os números e, ano passado, generosamente, me passou os exemplares, devidamente guardados em sacos plásticos. Estou negociando a venda para a Biblioteca da Babilônia, entre outros pedidos de aquisição. Sobre o Batalha do Estudante, falarei, mais adiante, com vagar.

Volvamos ao Bernardo Silva. Ele está de aniversário. E, para ele, todo o meu agradecimento por ser este famoso escritor que eu sou hoje. Não seria se não fosse pela generosidade e, principalmente, pela sacada dele, em perceber em mim o grande talento para as letras, dando-me as primeiras oportunidades no jornal Folha do Litoral. O que jamais esquecerei, em vida e além vida.

Meu caro mestre Bernardo Silva, perdulário da bondade. Vida longa, com saúde, paz, fé, esperança e amor.

O meu muito obrigado por tudo.

Não se deixe de mim. Continuo sendo um ilustre, agora, aprendiz seu. Beijos, carinhosamente, do amigo Kenard Kruel.