quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO

Canindé, Elmar e Jonas, na área da "Diretoria" da Maison Fonteneles, vendo-se ao fundo o "salgado"



5 de janeiro

EM BARRA GRANDE, NA “MAISON FONTENELES”

Elmar Carvalho

Combinamos, eu e o Canindé Correia, visitar o Jonas Filho Fontenele de Carvalho, que se encontra de férias em sua casa, em Barra Grande. Logo cedo, encontramos o Vicente de Paula (Potência), irmão da Dulce, mulher do nosso anfitrião, que se encontrava a conversar com o seu irmão Jorge. Convidamos o Vicente a ir conosco, mas ele disse que iria em outro carro, com a sua mulher, sua filha, seu genro e o neto. Após um caldo reforçado, resolvemos seguir pela estrada que passa pelo povoado Camurupim, onde fizemos uma rápida parada logística.

Observamos que havia um circo no povoado. Não era pobre, pois a lona e a empanada estavam em bom estado, assim como tinham bom aspecto as cadeiras e as arquibancadas, além de que havia veículos de propriedade dos circenses. Comentei que antigamente apenas os pequenos circos, chamados mambembes, de lona toda remendada, esburacada ou até mesmo sem lona, com somente uma orla de pano circular, se apresentavam em pequenas cidades e povoados. Alguns deles não tinham nem mesmo assento, tendo cada espectador de levar a sua cadeira ou tamborete.

As cidades grandes, cheias de atrações mundanas e de divertimentos, talvez já não ofereçam público para a arte dos picadeiros, com seus palhaços, equilibristas, malabaristas, trapezistas e mágicos. Muitas vezes não têm sequer espaço destinado aos circos, senão, talvez, na parte mais periférica da zona urbana, exceto para os circos poderosos e afamados, que podem alugar espaço privado e promover propaganda na televisão. Ao que parece os circos pequenos e de médio porte foram escorraçados das cidades maiores, que já não lhes oferecem nem lugar nem público, e agora buscam as pequenas urbes e povoados, como Camurupim. Canindé, que é economista, concordou com a minha “tese” econômica e sociológica, ou pelo menos não teve elementos para discordar frontalmente.

Sem muita pressa, deixamos a estrada principal, que segue para o Ceará, e percorremos a que vai para Barra Grande. Cerca de vinte quilômetros adiante, entramos no povoado, que já toma ares de cidade, com algumas ruas calçadas, e mesmo algumas que já tomam forma de pequenas avenidas. Após um pequeno equívoco do Canindé, que recebera o endereço do Vicente de Paula, localizamos a casa do amigo Jonas Fontenele de Carvalho, filho. Na placa de madeira do portão principal, estava escrito “Maison Fonteneles”, que já revela o espírito brincalhão e bem-humorado do seu proprietário.

Fomos recebido por João, o caseiro, que embora tenha dito que o Jonas não estava, nos convidou a entrar. A seguir veio a Dulce, que nos noticiou que o marido fora assistir a uma regata, mas que logo voltaria. Ficamos na palhoça, destinada à Diretoria, conforme assinalavam as placas ao redor dela. Por sinal, irei pleitear um cargo nela, nem que seja de bedel ou de aspone, ou mesmo de suplente do conselho consultivo. Não demorou muito, chegou o Jonas, que manifestou sua alegria em nos receber.

Estavam com ele o seu cunhado Crisóstomo e o seu sobrinho Arílton, de modo que a festa ficou completa, um pouco depois, com a chegada do De Paula e seus acompanhantes, já referidos. Estávamos presentes, portanto, quatro colaboradores (Canindé, Vicente de Paula, Jonas e eu) do jornal Inovação, sobre o qual, ao longo de mais de 20 anos, já me reportei em vários textos, avulsos, e aqui mesmo, neste diário, quase todos publicados na internet. O abrigo fica no quintal, de fofa, alva e macia areia, onde se vislumbram uns coqueiros e alguns pés de murici, além da paisagem plana e desértica do “salgado”, que somente a cada quinze dias recebe as águas da maré grande.

Expliquei que conheci Barra Grande mais de três décadas atrás, quando lá estivera em companhia do próprio Jonas e do Reginaldo Costa. Nessa época o povoado ainda era bem pequeno, mais se assemelhando a uma colônia de pescadores. O areal, que se estendia por todas as ruas, ainda não bem delineadas, davam-lhe um aspecto ainda mais bucólico. Nesse tempo, em qualquer boteco aonde fôssemos, a única música que se ouvia era a da “americana”.

O cantor (não sei se o Alípio Martins ou outro) repetia, quase à exaustão, que amava uma americana; que estava gamado nela e ia se casar com ela; que ela era linda para chuchu, e ainda lhe dava “tutu”. Em face dessa riqueza e da ênfase dada ao adjetivo pátrio, supus tratar-se de uma louríssima norte-americana, mas, para minha surpresa, não digo decepção, a musa do compositor era da América do Sul, não esclarecendo ele se se tratava de uma patrícia, aqui mesmo do Brasil.

Quando falei na música da americana, o João, que não bebe, mas não é bobo, ficou entusiasmado e foi buscar um violão, para tocá-la. Deu conta do recado, de modo que o acompanhamos a cantar, embora em coro desafinado e com frases às vezes truncadas. Fiquei sabendo que João é um “faz-tudo”; que é, literalmente, um homem de sete instrumentos, pois, além de fazer pequenos consertos hidráulicos, elétricos e de pedreiro, ainda é um violonista de talento. Ou, pelo menos, quebra o galho, e não o instrumento. Restou-me a dúvida, que não quis dirimir, se ele não seria um boêmio desviado ou em recesso.

No decorrer da conversa, em que o Jonas nos brindou com várias anedotas picantes da impagável e desbocada dona Tita, fiquei sabendo que ele está praticando kitesurf, canoagem, tênis e outras acrobacias e exercícios, o que me fez lembrar as peripécias e fanfarronices colloridas. Contou-me ele que, certo dia, ao levar seu equipamento de kitesurf para a praia, foi abordado por um garoto que, após chamá-lo de “tio”, de forma irreverente, indagou-lhe se estava indo alugar a tralha. Apesar de ser ele já um cinquentão ou pelo menos um cinquentinha, não gostou muito do questionamento do jovem, e deu-lhe uma resposta meio grunhida e não muito simpática, dizendo-se kitesurfista.

Mas, o que mais me causou admiração, foi quando ele nos revelou que já está pilotando avião, e que em breves dias estará pousando um teco-teco quase no quintal de sua residência em Barra Grande. Ao fundo da casa, existe um grande terreno, sem construções e sem árvores, que os nativos chamam de salgado. Esse deserto salitroso, apenas a cada quinze dias, na maré grande, por influência da gravidade lunar, quando o satélite atinge seu ponto de maior aproximação do oceano, torna-se inundado pelas águas marinhas. É nesse tabuleiro que ele pretende pousar o seu pavão misterioso. Quando o Jonas me exibiu uma gravação de celular, mostrando sua performance de aeronauta, ao lado do seu primo Paulo, piloto de alto curso e longo percurso, só em me imaginar ao seu lado, no avião, fiz o sinal da cruz, e murmurei para mim mesmo:
- Vade retro... retrocesso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


SACRIFÍCIO

Elmar Carvalho

Abrir meu ventre
como uma rosa de carne
e de suas vísceras multicores
pétalas dispostas em arabesco
projetar uma poesia
feita de flores e de fezes.
Cortar meu corpo
e retalhar minha alma
e fazer uma poesia
de matéria e de espírito
e morrer na última palavra
do último verso por nascer.
Drenar
minhas veias e
com seu sangue
regar um poema canibal
que não fale de morte.
E escrever a obra-prima
com o sangue da alma.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Missão de Aroazes


CARLOS BRANDÃO (*)


Vida corrida. Pode acreditar! Desde que me dei por gente, não lembro de me entregar a sossegos. Mundo afora, revirando os tempos e lavrando sem descanso, chego aos estágios de maturidade ainda com fôlego para levantar as vistas ao longe de minha idade e me perceber com nitidez em tantos caminhos percorridos ou adjudicados, em paisagens mais diversas.
Andei, revirei, venci léguas de tempo na aventura do viver, sem ao menos me conceder o átimo de fazer contas e cálculos dos riscos de despencar. Por espontaneidade, minha caminhada foi sendo desenhada em encostas de serras com pincéis próprios da imaginação e do sentir e assuntar, por ironia do vencer. Por isso, talvez os meus obséquios, data venia, de hoje com as regras, porque me parecem facilitar o conviver e o bom sonhar. Salvo melhor juízo, bom que se diga, porque esgrimir só com a retórica, cidadão, pode ser menos arriscado que reluzir as outras armas e manhas do sertão. Assim me conta a experiência.
Povoam minha memória as lembranças de Aroazes dos tempos de menino. Rescendem no átrio de minha identidade as recordações de uma infância que não se vai e permanece bem juntinho de mim, colorindo os caprichos do agora. Essas imagens me chegam e se formam em fantasias, o que me permite pensar e sondar a alternativa do mudar, e assim melhor aforar novos espaços que estavam, até então, além de minhas vistas e posses. Mirando sempre lá do cimo, sobre os ombros de mim mesmo, sempre tomei de certo que a realidade se nos aparece por graça de um imaginário instituinte. É luta!
Meu Pai, Álvaro Brandão Filho, era Juiz de Menores em Teresina. Com dez filhos e outros tantos aderentes, investia descansos de finais de semana no interior, distante da Capital e dos protocolos forenses, talvez colhendo reminiscências de uma tradição que se esvaía no violento processo de urbanização encetado a partir da década de 30 no Brasil. Para ele -nascido em 1924- que deixara aos nove anos de idade a infância e o convívio dafamília na Fazenda Concórdia, para se amoldar na marra a sistemas educativos de internato em Teresina, a concessão de final de semana pelo interior, livre de campainhas, relógios ou sinos, representava na maturidade um resgate de interrogações para sondar o fio da meada emaranhado nos pregões da modernização periférica.
Para nós, filhos, já adaptados a disciplinas de escola de cidade, os finais de semana significavam janelas de oportunidades e aventuras, por onde saltávamos os olhos da alma ou, às vezes, pernas e braços do corpo, em busca de outros mundos, adiante das cortinas. Encerrado o expediente da sexta, esquecíamos os compromissos de livros e deveres de casa e ganhávamos quase sempre o rumo de Aroazes, montado em bagagens de artes de se aventurar em bandeiras do descobrir e ocupar.
Até chegarmos à Fazenda São Luiz, nós ajuntávamos pela estrada afora uma coleção de acontecimentos, que distinguiam cada viagem. Sempre lapidávamos uma novidade, apurando o agradável da ocasião, a fim de distribuirmos mais tarde as graças com as conversas da boca da noite, depois de acomodar os trens e os aperreios de viagem.
Posso até dizer que a viagem da Capital ao interior constituía uma espécie de ritual de passagem, pelo qual deixávamos o mundo concreto da vida urbana e nos aventurávamos em confabulações próprias do sertão, esse espaço largo da imaginação e da arte do jogar os trunfos de Cronos. Logo no início da viagem, tínhamos de negociar intransigências e o pequeno espaço do carro, que de algum modo expressava uma estética de poder. Para isso, valiam as repreensões do Juiz, os cuidados de minha mãe, Simplícia Coelho Pires. No balanço da estrada, disputas e refregas por posições no carro ganhavam uma auto-regulação, cedendo a esboços de planos, quase sempre avolumados. As soluções dos conflitos entre os meninos seguiam a lógica do Trasímaco da República platônica e - não fosse a intervenção dos pais - quase sempre atendiam às conveniências dos mais fortes.
Mal chegávamos a Morrinhos e estávamos todos acomodados, com regimentos efetivos de rodízio nos bancos dianteiros e nas janelas, e assim podíamos nos ocupar de curtir a viagem e confabular também traquinagens a serem dosadas e ministradas sobre eventuais convivas de estrada. Mais um pouco, passada a bacia do Rio Berlengas, descíamos a ladeira do Marreiro, de onde avistávamos o longe das serras azuis do inconsciente. A partir daí, contagem regressiva para a entrada da Tabuleta, onde deixávamos a BR 316 por uma estradinha carroçável, de péssima conservação.
Devo repetir que cada viagem tinha sua graça, seu contentamento. A depender das condições climáticas, a programação poderia mudar grave e bruscamente. Quando, por exemplo, tomávamos a estrada de terra pelos tempos das águas, às vezes encontrávamos o riacho Várzea do Mel pelas alturas, à beira do qual ficávamos horas espreitando conveniências de passá-lo. Meu Deus, não sei como minha mãe dava conta de nos manter os filhos em lotes e de ninguém se perder nessas esperas, pois fazíamos todo tipo de provas e danações, quase todas escondidas dos olhos superiores. Emoção maior era quando o carro, com seus cavalos, partia para cima do riacho, sobre águas regidas por Poseidon, filho de Cronos. O coração saltava pela garganta, batendo à porta da razão, que se dobrava em orações e preces, prometendo sacrifícios aos deuses.
Eita, diacho! Entrou água no distribuidor. Problema grave. Motor estancou, dê na chave! Observava? Não. Para ser exato, eu perscrutava cada detalhe das faces de meu pai, investigando certeza de que sairíamos com vida do riacho. Por essa época, cuidei de aprender que as coisas da natureza guardam algum sentido em si e que há um certo mistério no desvelamento e na aparição desses sentidos. Não é bom confiar demasiado nos controles, a natureza surpreende. Preste atenção, menino!
Nessas esperas, encontrávamos de quando em vez os filhos do Doutor Jeremias Pereira da Silva com destino à Fazenda Lagoa do Saco. Os mais novos. Na época, menino só tinha o direito de conversar com alguém de seu igual, e seus filhos nos eram próximos em idade. Quando nos ajuntávamos, a confiança reforçava nas aventuras, e quase sempre caíamos na correnteza do riacho para medir sua pressa. Se as água estavam fortes, com promessa de tempo em demora, saíamos a caçar nas imediações, com baladeiras ou espingardas de ar-comprimido. Mamãe, vamos bem ali. Ali aonde, meu filho? Aqui, pertinho. Cuidado! Ganhávamos o mundo, cada um mais corajoso que o outro, disputando vez por outra até parelhas. Com gaitadas e muita prosa.
Quando hoje acompanho a feliz iniciativa do Instituto Vale do Sambito, organizando o Encontro dos Vaqueiros, sob a regência de Emília Pereira da Silva e inspiração da Nossa Senhora dos Vaqueiros, posso perfeitamente entender o porquê da devoção e do amor de sua família à querida terra de Aroazes. Emília percorrera semelhantes caminhos,experienciando viagens que se encontram veladas no sacrário das boas lembranças.
Fico impressionado, por exemplo, quando indago a meus alunos da Universidade Federal do Piauí se conhecem Aroazes, e eles, perplexos, questionam-me de onde eu teria sacado a razão de tal pergunta. Pronto. Isso é motivo para eu, suspendendo os assuntos dogmáticos, anunciar os encantos dessa terra. Começo lembrando das Missões de Aroazes, do aldeamento jesuítico do início do século XVIII. Exploro a fartura das terras, o gado empolado de gordo no inverno, as caças, os nomes das árvores. A beleza do comprido das várzeas da Fazenda Lindóia, a assentada espaçosa da Fazenda Piripiri do Doutor Ursulino Martins, a Serra de São Benedito fumando. Pergunto-lhes pelo Padre Gabriel Malagrida, Missionário da Companhia de Jesus, responsável por erigir a antiga Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Aroazes, no que me confessam total desconhecimento. Daí, reinicio nova preleção, falando-lhes da relação entre o iluminismo de Pombal e a elevação da capitania de São Jose do Piauhy, a expulsão dos jesuítas de Aroazes, presos e enviados a Corte lusitana. Recordo do terremoto de Lisboa, do atentado ao Rei Dom José, a culpa de autoria lançada sobre o missionário Gabriel Malagrida, o ignominioso processo dos Távora. Aqui me demoro, desfio e fantasio acerca de Malagrida. Falo de sua inimizade com o Primeiro Ministro do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, das acusações levantadas de heresia e blasfêmia contra o Missionário pelo establishment português, da condenação final do Padre, último mártir da Inquisição, garrotado e queimado na Praça do Rossio em Lisboa, em setembro de 1761, há 250 anos. Esse santo homem que se demorando por Aroazes iniciou a fundação da Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Aroazes. Percorrendo de pés descalços ao longo de 30 anos outras terras do norte e nordeste brasileiro, semeou a palavra do Senhor, conventos e seminários pelo Brasil colonial. Hoje, esquecido das elites políticas, reaparece no Brasil consagrado em terreiros de umbanda, como caboclo das sete encruzilhadas, para quem não há caminhos fechados. É o que dizem.
A Missão de Aroazes guarda muitas lendas e histórias. Os alunos, a cada capítulo com que esquadrinho minha exposição, quedam absortos em tantas notícias de um Brasil escondido dele mesmo, a merecer revelações e apreços. Uma ponta de orgulho refulge. Se me resta tempo, o relato se estende a outros interessantes e destacados personagens da historiografia brasileira que viveram em Aroazes. Apresento-lhes Luís Carlos Pereira de Abreu Bacellar, dono da Serra Negra e de inúmeras outras fazendas. Por aqui as emoções ganham ainda mais intensidades e cores, com as diatribes do Coronel de Milícias, Cavaleiro da Ordem de Cristo, responsável pelo ingresso de Manoel de Souza Martins, futuro visconde da Parnaíba, como soldado raso da 5ª Companhia do Regimento de Cavalaria de Milícias de Oeiras. Digo-lhes das façanhas do Coronel, de sua prisão em São Luiz do Maranhão, do casamento por procuração com Luzia Perpétua Carneiro Souto Maior, celebrado pelo Governador do Bispado do Maranhão em 1802. Do descontentamento posterior da refinada esposa Luzia, com a rudeza do marido Luís. Discurso sobre a fuga da esposa, a simulação de doenças para furtar-se das desconfianças do Coronel Luís Carlos e escapar para São Luiz do Maranhão. Tempero com o namoro de Luzia - esposa fugitiva do Coronel Luís Carlos -, já em São Luiz, com o então Governador e Capitão Geral do Maranhão, José Thomaz de Menezes. Segredo-lhes sobre especulações de assassínio do Luís Carlos na mesma época da proclamação da autonomia administrativa do Piauhy em face do Maranhão, por Carta Régia de outubro de 1811. O Coronel que se empenhara tanto nesse tento, movido menos por ciúme ou mágoa da esposa, que lhe apresentara divórcio eclesiástico em 1810, talvez já enamorada do então Governador do Maranhão, com quem depois, já viúva de Luís Carlos, convolou núpcias, gerando filhos, entre os quais D. Rodrigo José de Menezes de Eça, 3º Conde de Cavaleiros, que fora governador civil de Braga e, depois, de Lisboa.
Todos ficam admirados das ricas histórias e fantasias, confiantes em um Piauhy por se revelar. De imediato, o desejo de conhecer Aroazes, sondar esses enigmáticos tesouros da epopéia humana, guardados no processo de colonização do Piauhy.
Cultivar essa tradição guerreira, iconizada no heroísmo do Vaqueiro, constitui um ofício exemplar de manifestação cívica e republicana. A iniciativa da Família Pereira da Silva e das demais ilustres famílias da região de Aroazes - ricas ou pobres de terras - em manter à lume esses encantos exige de nossa parte e dos demais brasileiros não somente a adesão espiritual à glória de nossos antepassados, mas, sobretudo, o compromisso patriótico de também acender juntos luzes que espantem as sombras ideologizadas pelo mandonismo político, pois só assim guardaremos reluzente a chama que clareou de esperanças e de sonhos a paisagem livre do Sertão, a despeito de todas as violências simbólicas inerentes ao processo histórico de formação de nossa brasilidade.

(*) Carlos Augusto Pires Brandão
Juiz Federal e Professor da Univesidade Federal do Piauí
Mestre em Filosofia e Teoria do Direito pela UFPE
Doutorando em Sociologia Jurídica e Instituições Políticas pela Universidad de Zaragoza (Espanha)

FLAGRANTES & INSIGHTS


O JUMENTO E A CARROÇA

Elmar Carvalho

Na paisagem esturricada, o pequenino e raquítico jegue parecia pastar a própria terra, a recolher o quase invisível e renitente capim, combustível para o fardo penoso de sua perpétua escravidão, sem direito à alforria. À sombra de frondoso cajueiro, a carroça lhe aguardava em pleno florescer do século XXI.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Flagrante chargístico do Gervásio Castro

Gervásio Castro, além da charge acima, disse:

Não sei se alguém já mediu, mas aposto que o Netto tem um QI altíssimo.
É designer gráfico, chargista, caricaturista, blogueiro e... vascaíno!?!?
Ninguém é perfeito.

O mestre Netto, rebatendo a charge do Gervásio e um texto meu, ambos de exaltação ao Flamengo (publicados neste blog), evidenciando sua “fraqueza”, falou:

Já vi muita coisa na vida
mas nunca vi nada igual,
bode da minha terra querida
remoendo meu bacalhau...

Não tive como deixar de contra-atacar:

Mestre Netto,
Pelo visto esse bode deu bode, com cheiro rançoso de bacalhau vascaíno.
No Rio de Janeiro você navega nas costas do Bacalhau dos patrícios e eu voo no dorso do Urubu rubro-negro.De qualquer modo, quem não gosta de uma boa bacalhoada, principalmente na semana-santa?
Ainda bem que nos carnaubais bitorocarenses dos campos maiores nós dois convergimos para o leão alvi-rubro, sanguíneo, sanguinário e sanguinolento, mais conhecido como Caiçara.Quááááá! 

domingo, 1 de janeiro de 2012

EVOCAÇÃO DA CIDADE AMADA


Flagrante de reunião na APL, vendo-se, no sentido horário: Francisco Miguel de Moura, Teresinha Queiroz, Assis Brasil, Hardi Filho, Reginaldo Miranda, des. Paulo Freitas, des. Manfredi Mendes Cerqueira, Elmar Carvalho e Celso Barros Coelho

ENÉAS ATHANÁZIO

Tenho admiração pelas pessoas que amam sua cidade e a ela se apegam cada vez mais. Na minha índole andarilha, de nômade contido pelas circunstâncias, nunca me apeguei a qualquer das cidades onde residi e várias delas não passaram de acampamentos à beira do caminho. Daí talvez a minha intensa admiração pelo livro “As Ideias no Tempo”, de Cunha e Silva Filho (Edição da Academia Piauiense de Letras – Teresina – 2010), que me foi oferecido pelo próprio autor. Embora o livro seja muito mais amplo, foi a primeira parte, evocando a cidade amada da infância, que mais me tocou. É todo um capítulo do melhor memorialismo, repleto de sentimento e de saudade. Teresina, a capital piauiense, é a grande personagem.

Depois de longa ausência, o escritor retorna à cidade e se põe a palmilhar suas praças e ruas, como quem busca o tempo perdido. E nisso me faz lembrar Hemingway e o receio que tinha de voltar aos lugares míticos da infância e constatar que só existiam no sonho e haviam desaparecido no passar do tempo. Procura, então, fixar em palavras as suas impressões e, como é natural, mergulha no passado distante revolvendo as lembranças retidas nos escaninhos da memória. Evoca os lugares que lhe eram caros, os amigos anônimos da infância, as manhãs e as noites de Natal, a visita aos presépios armados nas casas vizinhas, os uniformes escolares que tanto significavam, a ausência dolorosa do pai e do irmão. E nessas andanças, às vezes reais e outras tantas imaginárias, vai pensando sobre a cidade amada e os efeitos inexoráveis do tempo. “Tudo mudou, como mudou a minha fisionomia – escreve ele. – O tempo ali passado só a mim pertence. Só a memória persiste no mais íntimo de meu ser. A cidade, no geral, tenta escapar dos meus dedos. Fiquei estranho no meu próprio ninho” (p. 52). E mais adiante, frente ao irremediável, conclui: “Cada geração tem a sua Teresina. Eu tive a minha e ela está profundamente guardada, como um tesouro encantado, na minha memória de adulto” (idem). Vencido pelo cansaço, o caminhante fica parado e se põe a observar. “”Ninguém lhe presta atenção. Todos os homens presentes lhe passam indiferentes. Como, então, recuperar o tempo, as pessoas, as coisas, os sons, o cheiro, o perfume, enfim, aquilo que somente existe no espólio da memória?” (p. 54). Diferente, modernizada, crescida, no entanto, a cidade amada lá continua. E a ela o autor dedica todo um capítulo que constitui verdadeiro poema em sua homenagem.

Mas o livro não se esgota aí. É obra de cultura, erudição, pensamento. Contém ensaios, resenhas, artigos e crônicas sobre os mais variados temas. Entre os ensaios, três em especial merecem destaque, o primeiro sobre Graça Aranha, autor que anda esquecido, e outro sobre a poética de Clóvis Moura, em geral abordado como antropólogo, esquecendo-se sua poesia, e o último sobre Drummond. Análises críticas abordam outros autores, como Assis Brasil, O. G. Rego de Carvalho, A. Tito Filho, Francisco Miguel de Moura, João Pinheiro, Carlos Alberto Gramoza, M. Paulo Nunes, Elmar Carvalho, José Ribamar Garcia e o próprio pai, Cunha e Silva. A figura paterna é evocada com ternura em várias crônicas pungentes, comentando inclusive seus escritos de jornalista com longa militância. Considerações sobre teoria literária, autores, livros, periódicos culturais e mil outros assuntos recheiam a última parte a que denominou miscelânea.

Trata-se, enfim, de um livro que discute, ensina e faz pensar. Sua leitura alarga nossos horizontes sobre a vida literária no país e, em especial, sobre os que escrevem no Piauí.

sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO, DE NOVO?


JOÃO PINTO

Cada virada de ano que a gente passa é como a travessia para uma rua nova, que tem as suas diferenças. E, o comum, na espécie homo, é se fazer a travessia por meio de festa. Reunião de família ou de amigos, ou em grandes concentrações. Vale um pernil ou aves abatidas, que viveram no cativeiro para esse fim. E o cativeiro desses animais os tornam infelizes. Mas, na nossa colonização, segundo alguns relatos, houve algum europeu que os patrícios índios também os deixaram numa mesma pocilga para terem um prato diferente para comemorar algum natal deles. Como a gente faz.

Pois bem, a travessia de uma rua para a outra é o que fazemos todo ano. Há o pernil, o vinho e as aves, inclusive os abraços e os foguetes no céu. Você bebe fora da conta e se emporcalha com tanta comida. Esse gesto de comer o pernil ou ave é a conduta do homem hipotálamo, a pessoa ideal da sociedade de consumo. Que o comerciante capitalista coloca uma corrente no teu pé. Isso representa o lado material da gente e que apenas satisfaz o teu ego biológico. Você só planeja a tua vida para esse fim. Nascer, trabalhar, comer, dormir e depois morrer. Que tristeza de vida! Você atravessou todas as rua da tua vida assim. Apenas com essa bagem, sem nenhuma cultura no lado interno da tua alma.

E o que é bom da vida que não sejam o comer e o vestir? Você tem que criar alguma coisa para não viver somente no tédio de existir. Crie no quintal da sua casa uma horta, que um amigo ou alguém da família possa dizer, Se não fosse ele a gente não teria esse sabor na comida; ou, então, regue todo dia o seu pé de jasmim que, ao soltar a flor, um vizinho só passa por aquela rua por causa daquele perfume que o deixe feliz ao ir para o trabalho. E, se você é um professor, de vez em quando diga a seus alunos, Hoje a minha aula é sobre esse romance. Quando você passa abordar a história linda desse livro, observe que o fulgor dos olhos desses alunos são diferentes. Porque essas coisas é que deixam a gente feliz, tocam a alma nossa. E é o grande legado das pessoas. Feliz ano diferente!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ô, Ô, Ô! Que saco, Papai Noel!


JOSÉ MARIA VASCONCELOS
josemaria001@hotmail.com

Sou do tempo em que Papai Noel não passava de uma miragem infantil, como nos contos de fadas. Figurão de barbas e plumas brancas, touca e vestido vermelhos, saco nas costas e cajado nas mãos, não se exibia fartamente nas prateleiras, balcões, calçadas e praças. As crianças quase não tomavam conhecimento do bom velhinho "em tempo real".
Nossos pais nos obrigavam a dormir cedo, "senão Papai Noel não vinha deixar o presente de Natal". Papai forrava-me bem o pintinho, para não mijar no brinquedo. Aguardávamos a noite mais deliciosa do ano! Presente, coisa rara e pouco sofisticada. Quisesse um brinquedo, tinha de construir de madeira ou buriti. Hoje, presenteia-se por nonada e dezenas de motivos, variedades e sofisticação que, logo mais, se desfazem no lixo.
Na modesta Teresina dos anos 50, pouco mais de cem mil habitantes, ouvia-se, de qualquer canto da cidade, às nove da noite, o ronco surdo e bucólico da usina elétrica, hoje Cepisa. Ou o bimbalhar dos sinos da igreja de São Benedito para a missa das cinco. Carrilhões das velhas igrejas emudeceram com o barulho da metrópole. E desapareceram dos templos da modernidade. Só Papai Noel insiste em tocar sininhos que não convencem mais.
De manhãzinha, acordava-se, deparava-se com um carrinho, boneca ou fuzil de plástico, debaixo da rede, no chão. (Hoje, arma de fogo é que virou brinquedo de matar.) Uma festa entre os irmãos: cada qual e seu brinquedo. Todos tinham a mesma semelhança, "para não ter briga." Corríamos aos colegas vizinhos para exibir nosso raro troféu. Nossos pais, então, enchiam-nos a imaginação, do bom velhinho que entrara de madrugada pelo telhado ou chaminé. Doce ilusão que se completava com a missa de Natal. Menino Jesus ainda encantava as cabecinhas, porque nossos pais cuidavam de nos ensinar, sobretudo, sentimentos cristãos do que quintessências comerciais.
As crianças não dormem mais cedo, aguardando Papai Noel. Nem ouvem lições sobre Menino Jesus, episódios que antecederam o seu nascimento.
Um dia, já adulto, vesti-me de Papai Noel, no fundo quintal, começo da noite, sem que meus quatro filhos soubessem. Rita os entretinha, vendo televisão, casa fechada. Bati na janela, ensaiei um ô, ô, ô grotesco e uma voz embargada, convidando cada um, pelo nome, para receber o presente. Minha filha, Marta, abriu a janela, assustada, logo percebeu que os braços cabeludos só podiam ser meus. "É o papai!" A farsa caiu em risos e gargalhadas. Nunca mais me arrisquei a mentir o verdadeiro sentido da festa cristã. Natal não se veste de empulhação.
Papai Noel ainda seduz a criançada, mas, muito mais, o cartão de crédito dos adultos. Eu nem quero ver aquele saco repleto de ilusões e quinquilharias. Porque estou, mesmo, é de saco cheio. Talvez, porque se foi meu tempo encantado de criança.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


29 de dezembro

DOIS SONHOS

Elmar Carvalho

Tempos atrás comecei a escrever um livro sobre meus sonhos. Abandonei essa ideia, porque os sonhos de que me recordava ou não eram tão frequentes ou eram banais, sem maior serventia para as letras. Estas sempre buscam a criatividade, a originalidade, o ineditismo, o inaudito e até mesmo o exotismo. Na esteira do surrealismo, muitos buscaram a escrita automática, o que vinha da mente, sem nenhuma censura do consciente, da razão, da lógica, ou demandavam o que fosse oriundo de sonhos, daí a vertente onírica, as paisagens de sonhos, irreais. Em alguns textos, em verso ou em prosa, persegui esse objetivo, sem necessidade de sonho, mas de forma deliberada, exercitando apenas a faculdade da criação, através do esforço mental consciente, ao menos em parte.

Um dos motivos que também me levou a desistir do registro de meus sonhos, é que terminamos por esquecê-los. De muitos sequer lembramos, exceto quando acordamos durante os curtos minutos em que os engendramos a dormir. Algumas pessoas acreditam que durante o ato de sonhar, o nosso espírito vaga nos lugares relacionados ao sonho, muitos vezes em paragens misteriosas, longínquas, por vezes fora de nosso planeta. Hoje, essa atividade cerebral é estudada com o auxílio de aparelhos, mas o fato é que a mente humana ainda é cheia de surpresas e mistérios, que talvez nunca sejam completamente desvendados.

Muitas vezes me pergunto: será se o espírito humano, neste estágio terreno, fica aprisionado no cérebro e no corpo, que seriam apenas instrumentos que lhe possibilitariam ação, expressão e comunicação, embora de forma limitada? E, após a morte, a consciência do próprio ser continuaria a existir, liberta dos grilhões da carne? Como tenho dito em alguns de meus poemas e em palestras, o homem tem ânsia de infinito. Por isso, criou equipamentos, alavancas, próteses, que lhe aumentam a força, a velocidade, a capacidade de comunicação, a possibilidade de voar e de mergulhar. Assim, foram criados os tratores, os carros, o telefone, o rádio, a TV, os aviões, os submarinos, etc, que potencializam a capacidade humana. Pelo desejo e pelo pensamento, o ser humano não precisaria dessa parafernália toda, mas, encerrado na masmorra de seu próprio corpo, precisa desses equipamentos, que chamo próteses, para transcender os limites, que a matéria lhe impõe.

No sonho, não temos limite. O limite é a capacidade de nossa imaginação, de nossas fantasias, de nossos desejos. Podemos ser anjos, e voar. Podemos ser Poseidon, e perscrutar as profundezas abissais dos oceanos. Podemos criar apenas com a energia mental, sem necessidade de matéria e de instrumentos. Mas os meus dois sonhos foram bem simples. Num deles, revi, em José de Freitas, a casa onde morei nos idos de 1969/1970, quando tinha de 13 a 14 anos de idade. A casa estava em ruínas. Eu estranhava muito aqueles escombros, porque eram de uma casa de taipa, e na verdade eu morara numa casa de tijolos, apesar de simples, com uma mureta na frente.

Depois, quando eu entrava nas ruínas, descobria vestígios de uma estrutura de alvenaria, sobressaindo da taipa. Agora, acordado, sem nenhuma fantasia mirabolante, dou a esse sonho a seguinte interpretação, que poderá comportar outras e outras: morei em muitas casas, em diferentes cidades; como todas as pessoas, passei por diferentes circunstâncias, experiências, situações e aprendizagens; com o rolar do tempo, essas lembranças foram se diluindo, se transformando em ruínas, de algumas restando apenas tênues resíduos, ou nem isso, como que se perdendo completamente.

Todavia, parafraseando Carlos Drummond de Andrade, de tudo resta um pouco. Portanto, as nossas ruínas memoriais emergem, trazendo restos de taipa e de tijolos, restos de palha e de concreto, como a simbolizar as nossas fraquezas e virtudes, a nossa concretude material e a nossa diafaneidade espiritual. Em suma: esse meu sonho parece representar as várias casas em que morei, as várias etapas de minha vida, as diversas experiências que tenho tido ao longo do percurso que me coube percorrer, e que me conduziram ao que hoje sou.

Quanto ao outro sonho, não lhe dou nenhuma explicação interpretativa. Estava eu numa localidade rural, quando, sem que eu saiba como, me aparece o grande artista plástico João de Deus Netto. Nesse momento observamos um pequeno bode, perto de um grupo de pessoas, a caminhar apenas com as patas traseiras, como se fosse bípede. Apesar de pequeno – mais parecia um cabrito do que um “pai de chiqueiro” – o caprino ostentava uma volumosa e crescida barba. O inusitado da coisa ou a fantasia onírica da situação é que a barba era frisada, com ondas paralelas, e pintadas, alternadamente, de vermelho e negro.

Parecia a barba de um rei antigo, talvez Sargão, o Grande, exceto pela cor. Às vezes meus sonhos são quase premonitórios, e se assemelham a coisas que irão acontecer. Talvez nisso resida a explicação desse sonho, que não pretendia formular; hoje, recebi uma charge do flamenguista Gervásio Castro, na qual, posando de D. Pedro I, estava o Ronaldinho Gaúcho, imperial craque do glorioso Flamengo. De qualquer sorte, talvez o Netto de Deus resolva fazer uma charge desse bode flamenguista e onírico, que ele admirou em meu sonho.

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro

Ronaldinho na charge de Gervásio Castro
Como é para o bem de todos os flamenguistas e felicidade geral da Nação Rubro-Negra, estou pronto. Diga ao povo do Flamengo que FICO.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


OUTONAL

Clóvis Moura

Depois da primavera o caos no mundo
e uma nuvem deitada nos meus braços,
criança abandonada que regressa
até o tempo de voltar criança.
Depois da primavera um lance apenas
de resto para viver um pouco tarde:
as tardes que perdemos são memória
e as mãos acordam para um abraço calmo.
Depois da primavera uma esperança
de tudo ser tranquilo e repousante,
ser como aquilo que sonhei um instante.
E depois deste outono a vaga espera,
um sabor de passado sem memória
ou só memória, após a primavera.


Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


27 de dezembro

MULHERES DROGADAS

Elmar Carvalho

Ao caminhar com um amigo, no calçadão da avenida Raul Lopes, contou-me ele que uma enfermeira, casada com um conhecido seu, começou a se queixar de fortes dores de cabeça ao marido. Com esse pretexto ia ao banheiro, onde ficava por vários minutos. Essas desculpas se tornaram frequentes, e cada vez ela se ausentava mais do leito conjugal, às vezes por quase duas horas, no período noturno. Certa noite o marido flagrou a mulher a injetar-se droga, que naturalmente ela conseguia no hospital ou clínica onde trabalhava. Tornara-se ela viciada, ou dependente química, como se diz hoje, de forma eufemística.

Esse caso me fez lembrar um outro, um verdadeiro dramalhão, quase uma tragédia grega, que li nas páginas 112/114 do Diário Secreto, de Humberto de Campos, reeditado pelo Instituto Geia, em 2010, cuja primeira e única publicação data de 1954, também em dois volumes, pelas Edições O Cruzeiro. A anotação diarística é de 4 de janeiro de 1928. Referia-se ao caso de uma filha de um médico, mulher muito formosa. Casara-se ela com um esculápio, que fora, parece, aluno de seu pai. Como um dia sentisse fortes dores, provocadas por uma colite, o seu marido aplicou-lhe uma dose de morfina.

Poucos dias depois a mulher alegou sentir novas dores, que foram se tornando cada vez mais amiudadas, com as consequentes aplicações da droga. Não tardou muito, o marido constatou que ela se tornara uma morfinômana. Entregou-a aos cuidados de um colega, que era tido como especialista em cura de viciados em morfina. Semanas depois, posta sob confissão, a mulher terminou revelando ao marido que o tal especialista era viciado na droga, e que passara a tomar o entorpecente em sua companhia. Veio o desquite, como corolário dessa tragédia familiar.

Com a separação e com o vício do tóxico, a bela mulher descambou para a prostituição, seja para sustentá-lo, seja porque o uso da droga lhe fizera romper os freios inibitórios morais, donde lhe teria advindo o exacerbamento da sexualidade. Os amantes se sucediam em profusão, um após outro, ou mesmo de forma concomitante. O marido não suportando a saudade e a ausência da mulher, terminou por lhe pedir para ser também seu amante, e passou a frequentar sua alcova duas ou três vezes por mês, sob a alegativa de que nunca encontrara uma mulher que se lhe comparasse em desempenho sexual.

Um dia, acidentalmente, a mulher, ao injetar-se a morfina, cuja quantidade de doses aumentara assombrosamente, já chegando a 24 ampolas por dia, aplicou a substância diretamente na veia, o que lhe causou um mal-estar insuportável, com dores e alucinações violentas. Na crise, tentou estrangular um dos filhos. Precisou ser contida por várias pessoas, que lhe amarraram à cama. O marido passou a se dedicar devotamente ao tratamento da mulher, aplicando-lhe os sedativos e medicamentos da época.

Quando Humberto de Campos viu essa bela mulher a desfilar sua beleza em rua do Rio de Janeiro, fazia apenas três dias que ela melhorara da crise a que me referi. Não posso, por isso mesmo, dizer se a mulher do médico, com a ajuda deste, conseguiu vencer o vício. Ante a tragédia que relatou com muitos detalhes, Humberto de Campos finalizou a sua anotação com esta pergunta: “Não estará aqui o arcabouço do meu primeiro romance?”

De meu conhecimento, essa obra (quase) anunciada nunca foi escrita. Acaso tivesse sido, não sei se o grande escritor iria lhe dar um final feliz. Quanto à senhora referida no início deste registro, o meu amigo disse que foi embora com o marido para outra cidade, onde conseguira superar a sua dependência ao uso de tóxico. Portanto, fica aqui o arremate feliz da enfermeira que “conseguiu ficar limpa”, libertando-se do vício que lhe prejudicava o bom convívio conjugal.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

ALMANAQUE BIOGRÁFICO O. G. RÊGO DE CARVALHO


Elmar Carvalho

Das mãos do historiador Reginaldo Miranda, presidente da Academia Piauiense de Letras, recebi um exemplar do "Almanaque Biográfico O. G. Rêgo de Carvalho – O poeta-músico, na personificação de Oeiras". A publicação, como o nome indica, é em homenagem ao grande romancista oeirense, um dos maiores do Piauí, célebre pelo seu perfeccionismo estilístico, de linguagem clássica e escorreita. Traz vários textos sobre o festejado escritor, tanto em prosa como em versos, sobretudo da lavra de alunos do Instituto Barros de Ensino – IBENS, mas também de alguns professores do educandário.

Estampa alguns textos faquissimilados do jornal O Cometa, fundado pelo também romancista José Expedito Rêgo, que circulou na primeira metade da década de 1970. O almanaque contém fotografias, críticas, dados biográficos e uma cronologia do escritor, na qual estão consignadas as datas de publicação e reedições de seus livros, além de efemérides importantes da vida pessoal do romancista, como seu casamento com a professora e escritora Divaneide Maria Oliveira Batista e o nascimento do filho do casal, Orlando Victor de Oliveira Carvalho. A publicação foi organizada pela professora Maria do Socorro Barbosa Barros. O primeiro número do Almanaque foi em homenagem ao historiador e ensaísta oeirense Dagoberto Carvalho Jr., por ocasião do lançamento da 6ª edição de seu livro Passeio a Oeiras, que tive a honra de prefaciar.

UMA CRÔNICA DE NATAL

´
Charge: Gervásio Castro


Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Natal é somente um dia por ano. É festa de presentes. Acontece que, neste tempo de consumismo brabo, não há somente um dia, mas um mês de Natal, para que o comércio venda mais, o governo arrecade o que não conseguiu durante todo o ano e as administradoras de cartão de crédito aumentem o assédio aos pobres e endividados. Deveria ser o dia de Confraternização Universal, do humanismo. Como no Brasil e, de resto, no mundo, o dia da Confraternização Universal é o 1º de Janeiro. Por causa das mudanças do calendário, que pouca gente sabe explicar, é que o ano cristão começa em 25 de dezembro e não no 1º de janeiro, em consonância com o ano civil. Restou conservá-lo no dia considerado do nascimento de Jesus de Nazaré. Em homenagem à família de José, Maria e Jesus, o Natal é o Dia da Família.  Consta que Jesus nasceu numa manjedoura e vieram algumas pessoas visitá-lo, entre as quais os três Reis Magos, mas a tradição não diz de que países eles eram reis. José estava indo, com a família, para o recenseamento obrigatório que o governo realizava em Belém. Era um carpinteiro pobre, não tinha como descansar numa pousada. Chegando a hora de Maria dar a luz, foi parar numa estrebaria onde havia burros, jumentos, ovelhas, aves, pássaros e plantações. Só isto já é suficiente para uma confraternização com a natureza. E que fazemos nós, hoje, por nossa casa? É tempo de pensar na conservação do planeta. Também, a não ser um reduzido número de católicos, ninguém lembra de Jesus nem visita as igrejas ou as “lapinhas” que outrora se faziam, onde as pastorinhas cantavam, alegres, pelo nascimento de Deus Menino.  Quem reinventa um presépio? Quem se lembra dos animais? Quem olha o céu, a estrela, as estrelas? Poucos vão à missa, muitos vão aos shopping-centers para comprar bugigangas para os filhos, e também para os parentes e aderentes, por ocasião da Ceia de Natal. Produtos importados do oriente, da China, principalmente os mais baratos – o que significa que o falso sistema socialista, instalado lá, age como capitalista mesmo, pagando mal aos empregados para exportar mais barato, fazendo concorrência ao verdadeiro capitalismo – o de cá, do ocidente, onde o Papai Noel reina soberano - ele, o símbolo perfeito do capitalismo consumista.
Natal é tudo de mentirinha.
Entrei numa dessas superlojas onde se vendem presentes para crianças e fiquei estupefacto. Como escritor e poeta, sensibilidade aguda, senti-me nervoso e doente vendo todo aquele amontoado de bonecas barby e personagens de toda natureza, inclusive os simbólicos como o homem aranha, a boneca  emília, o visconde de sabugosa, o saci, o lobisomem, dinossauros, astronautas  e não sei mais o quê, tudo empilhado, uns sufocando os outros, ou jogados nas prateleiras, aos montes, caídos estatelados e emborcados. O negócio é dar presentes materiais de pouca valia, e recebê-los. É de praxe, hoje, o “amigo oculto”, brincadeira de antes da ceia de Natal. Faz-se um sorteio de nomes do grupo para ver quem dá presente a quem. E os nomes ficam em segredo para que quem vai receber não saiba de quem receberá, mas quem vai oferecer saiba a quem vai oferecer. Todos oferecem e todos recebem um presente, e as despesas com o item natalino diminuem sensivelmente. Nada muito alegre. Diante da tevê ouvem-se músicas atuais e a conversa continua em tom alto, de maneira que ninguém entenda ninguém, bastando que fiquem com a impressão de que foram ouvidos. Alguns folheiam velhos álbuns de fotografias ou abrem um vídeo no computador para lembranças melancólicas do passado ou para mangar dos feios e das fotos mal feitas - enquanto comem e bebem.  
Todos os começos são flores”, como dizia minha mãe.
          O dia seguinte é só pra curtir os excessos e a solidão. De tudo sobram algumas fotos de registro, cartões com dizeres sempre iguais recebidos e, no outro dia, jogados na cesta, ou o remoer pedaços de frases ditas por alguém, do que não gostou. Em família há diferenças que nem sempre são caladas, passados os primeiros momentos da chegada à festa.
          No começo, a casa estava cheia. Agora está vazia e, muitas vezes, os próprios corações. Festa de alegria? Nem sempre. Brigas, desgostos, notícias dolorosas de doença ou morte, tudo pode vir à flor da conversa.  Os egoístas não se incomodam com isto. Os poetas é que não se conformam e ficam a escrever o que sonharam – natais tão diferentes, com emoção, lirismo e memória. E chegam a inventar símbolos como o do peru, que, para não ficar triste, morre de véspera.

domingo, 25 de dezembro de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS

Carlos Said na charge de Gervásio Castro

CAMISA 10 OU 1?

Elmar Carvalho

Esta manhã, ao visitá-lo em sua casa, encontrei o Carlos Said envergando uma camisa futebolística de nº 10. Observei-lhe que, embora ele fosse nota 10, deveria estar vestindo uma de nº 1, por dois motivos:
Primeiro, por ser sempre o primeiro.
Segundo, por ter sido um grande goleiro.

sábado, 24 de dezembro de 2011

SONHOS DO NATAL E ANO NOVO

Aproveito o cartão de Natal acima, da autoria de Fernando  di Castro, para ilustrar o poema e para estender os seus votos aos leitores do blog

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Não se pense o Natal maior do que é:
Um dia, uma noite, uma festa ou a recordação.
Jesus chegou dois mil anos antes
Mas veio o Papai Noel atrapalhar.
Tudo é dinheiro,
Até o tempo que sofremos,
O dia branco e a noite só,
O minuto que amamos,
A eternidade que choramos
E a morte que nos leva.

Todo dia é um dia novo,
Não depende do Natal, nem da Missa do Galo,
Não depende da mudança do calendário.
Quando nele se pensa, já mudou,
Quando se vai ao banheiro, já mudou...

O tempo nos governa em altos juros
De suor, sangue e salário.

Natal, Ano Novo passaram e ninguém não viu...
Tudo é tão veloz!
- Antes de chegar, quem sabe o que novo?

Todos os sonhos morrem no seco,
Sem chegada, sem saída, sem beco.

Teresina, 23/12/2011.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

P E R F I S A C A D Ê M I C O S - LUIZ MENDES RIBEIRO GONÇALVES

Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e Alice

REGINALDO MIRANDA

Na edição de hoje desejamos destacar a personalidade do acadêmico Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, um benemérito da Academia. Natural da cidade de Amarante, veio ao mundo em 7 de fevereiro de 1895, filho de Elesbão Ribeiro Gonçalves e de Amália Mendes Carvalho Ribeiro Gonçalves, ambos oriundos de tradicionais famílias piauienses. Foi casado com Alice Ribeiro Gonçalves, de cujo consórcio não houve filhos.
Engenheiro civil, jornalista, político e escritor, iniciou as primeiras letras em sua terra natal, mudando-se depois para a Bahia, onde formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica, no ano de 1916.
De regresso ao Piauí depois, exerceu os mais importantes cargos públicos, entre os quais diretor da Secretaria de Agricultura, Terras, Viação e Obras Publicas(1916-1930). No exercício desse cargo revelou grande talento profissional ao projetar e dirigir obras importantes para do desenvolvimento do Estado, a saber: construção dos prédios do Liceu Piauiense e da Escola Normal Oficial do Estado, hoje Palácio da Cidade; construção de pontes, rodovias, planos de abastecimento d’água, luz elétrica, programas de colonização, plantas de cidades e de mapas do Piauí. Em face desse trabalho denodado, projetou seu nome profissional no cenário nacional, sendo convidado para exercer outros cargos de destaque. Nessa conjuntura, ainda ocupou os cargos de diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) no período de 1953/54, membro vitalício do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, secretário-geral do Departamento Nacional dos Correios e Telégrafos e membro do Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura. Com prestígio internacional, foi homenageado em Paris com o título de sócio da Societè des Engeniers de France. Fora do campo profissional, exerceu o cargo de secretário de Estado da Fazenda no Governo de João Luiz Ferreira(1920 – 1924).
Também brilhou no magistério como professor de Matemática e Física no Liceu Piauiense e na Escola Normal Oficial do Estado.
Jornalista brilhante teve destacada atuação na imprensa piauiense, colaborando nos jornais A Imprensa, O Lírio, Estado do Piauí, Correio de Teresina, Correio do Piauí, Diário oficial e O Momento.
Escritor de raro talento escreveu importantes obras sobre os mais variados assuntos, a saber: Problemas Municipais;Fossas Biológicas; Tipo de Colônia Agrícola para o Nordeste; Mapa do Piauí; Magistratura e Justiça; Aspectos do Problema Econômico do Piauí; A Servidão da Inteligência no Economismo Contemporâneo ; Educação e Democracia; Construções Escolares no Piauí; A Escravidão e o Movimento Abolicionista; O Babaçu na Economia Nacional; Fretes Marítimos Internacionais; Viagem de Inspeção ao Nordeste; Santos Dumont - Glória e amargura; Joaquim Ribeiro Gonçalves - poeta, político e parlamentar; Paulo de Frontin; Mauricio Joppert - engenheiro e professor; Le Mauricio Corbusier- Luz Imperecível; A Formação do Engenheiro e sua função social; Brasão do Piauí; por fim, Impressões e Perspectivas, trabalho organizado pelo professor A. Tito Filho. Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves pertenceu desde a mocidade à Academia Piauiense de Letras e ao Instituto Histórico e geográfico Piauiense, tendo doado à primeira um imóvel na região central de Teresina, hoje alugado.
Seguindo a tradição familiar, ingressou na política elegendo-se por via indireta Senador da República, em julho 1935. Esse mandato encerrou-se com o Golpe de Dez de Novembro de 1937, que instituiu o Estado Novo. Todavia, retorna ao Senado com a redemocratização do País, sendo eleito pela legenda da União Democrática Nacional(UDN) no pleito travado em 17.01.1947, para o mandato de 1947 a 1951. Candidato à reeleição em 1950, não conseguiu eleger-se.
Faleceu no Rio de Janeiro em 1984, sempre gozando da estima e consideração de todos.